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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

24
Nov15

Também fui vitima do bicho que anda por aí

Carolina

Na noite de domingo para segunda acordei agoniada e verdadeiramente enjoada. Tentei ficar na cama e adormecer, a ver se passava, mas foi em vão: acabei por me levantar e fui vomitar. Não sabia se tinha comido alguma coisa estragada, se me tinha parado a digestão por causa de algum stress que houve durante a tarde ou se estava com uma gastroenterite ou coisa parecida. Acabei por chegar à conclusão que não podia ter sido nada que havia comido porque a verdade é que, nesse dia, só tinha almoçado massa com azeite e, à noite, só comi uma sopa. 

Depois pensei e percebi que o meu sobrinho e a minha irmã me deviam ter passado uma virose que anda para aí - na semana anterior tinham tido exatamente os mesmos sintomas: só vómitos, não aguentavam nada no estômago, mas mais nenhum sintoma para além disso. Também já tinha ouvido dizer que andava uma virose por aí, até no blog da Cocó. Como se já não bastasse, eu tenho um fígado e uma vesícula miseráveis, que me dão problemas ao mínimo deslize, por isso não é de admirar que um vírus destes me deixe de rastos, como deixou. Simplesmente não me conseguia levantar sem ver o mundo dar trinta voltas por segundo e ter a sensação de desmaio. Nas primeiras horas nem sentar me conseguia, por isso ficou fora de questão ir às aulas, conduzir ou sequer andar mais do que o estritamente necessário.

Hoje já acordei com menos sintomas, mas o humor não melhorou. Tinha acordado a meio da noite e decidi ir ao facebook ver as novidades; dei de caras com o post da Sofia Ribeiro, de quem tenho like na página no facebook, a "anunciar" que tinha cancro e fiquei sinceramente agoniada - ainda mais por saber da sua história de vida, já ela muito complicada. A vida é lixada e o bem mais precioso que temos na vida é mesmo a saúde, que tantas vezes temos como garantida.

Enfim, a lição a tirar disto é ter cuidado, ir vigiando e viver a vida o melhor que se poder. Hoje tirei o dia para o mau humor e para a preguiça, mas amanhã não será igual. Farei com que, dentro dos possíveis, seja um bom dia - até porque, em princípio, o bicharoco já não vive dentro do meu corpo e já posso levar uma vida normal, apenas com uma dieta restrita para ver se o meu fígado volta a ter uma saúde normal. Vamos lá!

 

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05
Nov15

Uptades sobre a minha cauda extra*

Carolina

*nome carinhosamente dado pelo meu irmão ao meu quisto


Uma semana e meia depois de dores horríveis, de sofrimento físico e mental… Tenho boas notícias! A infecção está muito controlada, a cicatrização está perto de ser perfeita (alguma coisa tinha de correr bem!) e já não tenho dores nenhumas para além daquelas que já tinha, que no fundo é sempre um desconforto (e medo) constante.

Ontem foi o primeiro dia em que preferi não fazer penso e deixei-me andar normalmente e sinto-me mesmo muito bem; hoje, de visita ao médico para ele ver a cicatrização da coisa, o veredito foi muito positivo - o que me deixou amplamente aliviada. Mais duas semanas e, se quisesse, podia ir à faca - algo que só vai acontecer em Janeiro, depois dos exames, porque o pós-operatório é chato e exige que durante praticamente duas semanas esteja deitada ou em pé, nunca sentada. Como vou ter de levar uma anestesia geral e ficar internada durante um dia, pedi para também me tirarem dois sinais que tenho - um na perna e outro no pé - que sempre me disseram serem muito "feios" e terem todo o potencial para provocar problemas, nomeadamente ao nível do cancro de pele. Assim, mato três coelhos de uma cajadada só - e tudo a dormir!

Mas hoje tive stress em dose dupla: não me chegava ir ao médico por causa do quisto, ainda tive de ir tomar a vacina do tétano (seguida de uma visita da médica de família que, por estar ali ao lado e não me ver há muito tempo, também veio saber de mim) - logo, hoje, conto com dois médicos e uma vacina para o total! E tudo sem choro ou ataques de pânico à mistura - uma vitória total e completa que, por muito infantil que possa parecer, me deixa a rebentar de orgulho.

Quanto ao tétano, só daqui a dez anos é que volto a ter de me preocupar. Ufa!!! Já relativamente à operação... faltam dois meses (que passam sempre a voar). Mas pronto, tendo em conta as últimas duas semanas, dou-me por muito feliz por pensar (a menos que aconteça algo de mau) que não vou ter de ver batas brancas à minha volta durante cerca de 60 dias. Uma autêntica maravilha! Vou concentrar-me em tentar não fazer algo que faço muito - sofrer por antecipação; vou pensar em coisas boas, definir objetivos, preparar um monte de livros deliciosos para devorar enquanto estiver em recuperação e, na altura, logo se verá. Até lá... é respirar este ar livre e limpo de médicos, sentir o Natal e as coisas boas que a vida nos dá todos os dias, por mais pequeninas que sejam. 

Obrigada a todos, mais uma vez, pelas mensagens, pelos comentários, pela preocupação e apoio generalizado - desde falarem diretamente comigo a terem o mínimo pensamento estilo "espero que aquilo corra bem". Acho, sinceramente, que tudo isso interferiu positivamente - pelo menos deu-me força nos momentos em que me apetecia chorar pela 369º vez e não o fiz. Obrigada.

01
Nov15

A minha relação complicada com a comida

Carolina

Eu tenho uma relação complicada com a comida, mas muito balizada pela racionalidade que acho que me caracteriza em quase tudo nesta vida. Nunca fui a miúda magrinha e, pelo contrário, já passei uma fase em que estava bem gordinha - tenho fotos disso que prefiro nem recordar, mas posso garantir-vos que nessa altura me excedi e não eram manias de adolescente ou algo do género. Tudo aconteceu depois disto e eu comia para esquecer, para me recompensar de todo o mal que sentia que me estavam a fazer. Quando tudo passou, sentia-me muito mal com o meu corpo e prometi a mim mesma, mal emagreci dez quilos, não me esquecer dessa sensação para não ter de voltar a ela. Acho que, à custa disso, me tornei um bocadinho obstinada - até hoje. Aliás, tem sido algo que tem "piorado" ao longo do tempo.

Mesmo depois disso, de ter normalizado, sempre continuei a ser (ou sentir-me) a mais gordinha das minhas amigas - aquela que sempre se escondeu mais na praia, a última que os rapazes olhavam. Enfim, essas coisas que existem sempre e que podem até nem corresponder à realidade mas que nos criam sempre complexos, que deixam cicatrizes profundas. Como já disse imensas vezes, há muita coisa que detesto no meu corpo e que, com mudanças graduais, vou tentando mudar para deixar todos esses sentimentos para trás. É por isso que hoje em dia tento ir ao ginásio três vezes por semana, que tento comer fruta e sopa todos os dias, que ando a deixar gradualmente os açúcares e alimentos processados e etc. São trabalhos que demoram anos a construir, hábitos que não se constroem da noite para o dia.

Mas depois, quando algo de mau acontece, parece que deito estes anos todos de aprendizagem a perder. Tenho recaídas e o meu refúgio continua a ser a comida. Nos momentos a seguir aos tratamentos que fiz, pensei: "depois disto mereço um prémio", "depois de tanta dor tenho de ter uma recompensa", "depois de ter ultrapassado o meu medo e de me ter portado tão bem posso fazer as asneiras que quiser". E sabem qual é o "prémio", a "recompensa" envenenada? Comida, da pior que há. Foi mandar vir uma pizza ao jantar (algo que faço uma vez a cada três meses, se tanto), foi comer dois pães com manteiga como ceia, foi jantar um prato cheio de picanha e arroz e não deixar um grão de fora (quando normalmente não como hidratos ao jantar), foi deitar-me no sofá a comer bolachas caseiras. E depois disto vem o arrependimento; olhar-me ao espelho - inchada, porque já nem estou habituada a comer tanto - e recriminar-me. E se não parar o ciclo imediatamente, se não levantar a voz a mim mesma, tudo isto continua em estilo ciclo vicioso - como aconteceu há sete anos atrás - até chegar a um ponto que eu não quero imaginar.

Isto - desta vez - durou três dias e eu não deixei que durasse mais. Impus-me. Mas entristece-me sempre que acontece. Sei que é uma fragilidade minha (hereditária, o meu pai faz o mesmo e a minha avó também fazia) mas apercebi-me dela cedo o suficiente para aprender a controla-la (e acho que cada vez melhor a cada dia que passa) e sei que é algo com que vou ter de lidar toda a vida. Por outro lado, tenho de aprender a desculpar-me e a parar de me culpar por todos estes comportamentos: porque isto sou eu, faz parte de mim, e tudo o que eu tenho de fazer é viver com isso e aprender a dar a volta: comandar a minha própria vida.

Todo este controlo de alimentação que as pessoas acham muitas vezes exagerado passa por aí e por estas duas causas: querer sentir-me cada vez melhor com o meu corpo (corrigindo umas coisas e aprendendo a lidar com outras) e não me deixar destabilizar e desequilibrar, porque sei que se abro uma brecha, por vezes entra mais do que eu consigo controlar e começa todo um ciclo vicioso muito mais difícil de parar. 

Este fim-de-semana fica marcado por voltar ao ritmo, ao trabalho (tenho-me sentido uma sostra por não estar a fazer nada de útil) e por voltar à alimentação regrada e saudável - mais restrita que o normal, uma vez que vou ter de me ausentar do ginásio por uns tempos e quero voltar à forma que estava há umas semanas atrás, antes de começar neste ciclo menos bom (lembram-se dos pães com manteiga?) que culminou com a operação. Porque, afinal de contas, quem tem o comando da minha vida sou eu, só tenho é de aprender a mexer direito com ele. 

 

30
Out15

As duas palavras da semana: "coragem" e "obrigada"

Carolina

Estou cansada. Tenho muito para escrever, muito para fazer (tenho medo de olhar para a minha agenda recheada - não sei estar sem fazer nada por muito tempo, principalmente quando sei que há muito para ser feito, mas nestes dias não houve mesmo volta a dar), muito para processar.

Foram três dias de dores internas e externas, ataques de pânico e medo. Porra, tanto medo. Do hospital, das batas, do cheiro, das macas, do bisturi. E da dor, que a dor se repetisse. Que me dissessem que não tinha funcionado, que tinham de repetir, que tinha de continuar a ir diariamente ao hospital. Choro só de pensar. Se para alguém o procedimento que fiz é doloroso por si só, para mim é matar-me. É pôr a minha fobia maior na ordem do dia e obrigar-me a enfrenta-la. Foi duro. Agora estou melhor e, se o processo continuar assim, espera-se que dentro de uma semana esteja sarado. Já não tenho o dreno comigo e só tenho de mudar o penso diariamente. Depois tenho a cirurgia mas... Cada coisa a seu tempo.

Por tudo isto que escrevi, as palavras da semana só podem ser duas: "coragem", por tudo o que expliquei acima e que me vi obrigada a enfrentar (algumas vezes melhor que outras, mas são coisas que saem fora do meu controlo emocional) e "obrigada", por todos os comentários aqui, pelas mensagens no facebook e telemóvel e preocupação em geral. Um obrigada como o das foto: com muitas olheiras, com um sorriso cansado e pouco convincente e um olhar que não será dos mais felizes, mas mesmo, mesmo muito sincero.

27
Out15

Este blog está de rabo para o ar

Carolina

 

O dia de hoje não foi fácil - nada fácil mesmo, e incluiu dores internas e externas quanto baste.
Não vou - nem quero, nem me apetece, nem tenho grandes forças - para explicar tudo direitinho. Basta-me dizer que já desde há uns anos para cá que tenho um quisto no fundo das costas, mesmo por cima do cóccix; hoje em dia, pelo que sei, é um sítio tão comum como chato. Nunca foi algo que me incomodasse por aí além, vivemos muito tempo os dois pacificamente, embora ele às vezes "acordasse" e me provocasse bastante desconforto, que passava com um par de comprimidos anti-inflamatórios.
Infelizmente, nós últimos tempos, ele andava demasiado presente - eu tenho aulas muito compridas em cadeiras altamente desconfortáveis e acabo por me apoiar sobre ele (e na zona mais lombar) quando começo a escorregar pela cadeira fora, de tão cansada; por outro lado, as aulas de Pilates têm posições em que a base de apoio é precisamente o sítio onde tenho o quisto, pelo que acabo sempre as aulas com algum desconforto; por fim, a minha posição de leitura antes de deitar também assenta sobre o quisto. Isto provocou inflamações sucessivas, mal curadas, o que julgo que esteja na base na infecção que começou ontem e que fez com que hoje mal conseguisse andar tamanhas as dores.
Depois de uma chamada a um tio cirurgião, tornou-se evidente que tinha de ir de urgência para o hospital antes que a coisa piorasse, tivesse de ficar internada e com um problema que podia demorar meses a sarar. Fui, muito contrariada e com um ataque de pânico à mistura (a quem não sabe, eu tenho iatrofobia - fobia de médicos) e acabei mesmo por ser lancetada. Desde pequenina que me lembro de dizerem que isto não era coisa boa e, de facto, não é. Sofri naquela marquesa, as lágrimas escorriam sem pedir licença e eu dizer um ai. Foi duro. Trouxe um dreno para casa, que só quinta é que devo tirar. Ando mal e com dores, mas já estive pior - quando cheguei a casa piorei gradualmente, de tudo: tive uma descompressão muito grande, tremia muito, estava com um início de enxaqueca e senti-me muito mal. Mas já passou, pelo menos a dose de hoje. Depois do quisto vazio, vou precisar de o tirar em cirurgia, a breve trecho. Mas é viver isto devagar e tentar não sofrer por antecipação.
Estou a fazer o meu melhor e ver o lado positivo da questão - depois de ter isto fora, já vou poder fazer Pilates sem dor e abdominais sem desculpa (se calhar isto não é assim tão positivo, mas uma pessoa tem de se animar com alguma coisa, não é?).

13
Out15

Aquela sensação terrível de vazio...

Carolina

De quando acabas de ler um livro que adoraste e não saberes o que vais fazer da vida depois disso. 

 

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[isso e estar com um ataque de hipocondria terrível só porque dei um "jeito" com a anca - já me estou a imaginar numa mesa de operações a colocar uma prótese só (só!!!!!) porque a perna está a estalar - há definitivamente dias em que a maluqueira e a fobia dos médicos descem demasiado em mim; e nesses dias, o melhor é mesmo ir dormir o mais rapidamente possível]

18
Set15

(Não é só) Uma questão de postura

Carolina

Desde muito nova que me diziam que andava sempre curvada, que não punha as costas direitas e que um dia ia sofrer com isso. Como todas as crianças e adolescentes, encolhia os ombros, anuía e nada fazia para mudar isso. Acho que há muitas razões para sempre ter adotado esta posição corporal: o muito tempo que sempre passei sentada, em particular em frente ao computador; o facto de olhar muito para o chão e ser eu própria fechada (intelectual e emocionalmente), que tem repercussões físicas, de auto-defesa, totalmente inconscientes. 

A questão é que, como de costume, os adultos tinham razão. As minhas costas começaram a ressentir-se e eu senti algum desconforto, principalmente ao fim do dia, por cansaço. Simultaneamente comecei a olhar para as fotos que tinha e a detesta-las pela simples razão de ter os ombros descaídos para a frente, as costas curvadas e uma posição muito... submissa  e, honestamente, feia. Que, aos meus olhos, demonstram fraqueza, falta de confiança e auto-estima. E, no momento em que percebi isso, decidi mudar.

E custa, porque cansa muito. Quando a nossa posição base já é esta, mudar - mesmo que seja para uma melhor e mais saudável - é extremamente cansativo e chega a causar dor. Neste momento passo os dias a encarar a personagem da velhinha chata que passa a vida a dizer "costas direitas, jovem! Quer ficar corcunda como eu?" e a auto-corrigir-me. Estou com esperança que as aulas de pilates também me ajudem nesta "tarefa" e que até ao fim do ano a velhinha que vive em mim possa tirar algumas férias e que o default das minhas costas já seja aquilo que é natural e saudável. Tem sido um trabalho de auto-teimosia e de persistência - que eu quero muito, muito que dê frutos. 

Quero para as minhas costas aquilo que quero para a minha vida. Direitas, a "olhar" para a frente, sem se curvarem perante nada nem ninguém. E estou a fazer por isso.

15
Jul15

Trabalho do momento: gestão de expectativas

Carolina

Cheguei no domingo de Lisboa e aterrei logo num churrasco de família, com os meus irmãos e sobrinhos todos aqui em casa. Depois de comer, deitei-me e dormi durante o resto da tarde, para tentar repor energias dos três dias de festival. Quando acordei, depois de umas voltas, tomei um banho e preparei-me para sair e ir dar uma volta nas festas da cidade. Já estava pronta, com um pé fora do quarto e de carteira ao ombro, quando a minha sobrinha bate à porta com ar de carneirinho mal morto e preocupação, dizendo "a avó caiu". 

Caiu-me tudo e, naquela fraçãozinha de segundos, tive um dejá-vù daquele dia, há um ano atrás, em que o telefone tocou e me disseram quase o mesmo, mas em relação à minha avó. Essa chamada culminou com o fim imediato do meu verão e do início de meio ano de muito tormento e sofrimento. A questão é que, neste caso, era a minha própria mãe e eu limitei-me a correr para a sala, onde ela já estava deitada no sofá, cheia de dores no pé.

Depois de uma ida ao hospital, o veredito é, para todos os efeitos, um pé partido. Ou seja: um mês e meio de bota (para evitar o gesso). A minha mãe, que é uma pulga elétrica, está com uma bota até ao joelho, com receita de descanso absoluto pelo menos durante os primeiros dez dias. Podia dizer-vos que imaginam o filme, mas não imaginam: é o inferno para ela, que não se pode mexer e é o inferno para nós, que temos de passar a vida a dar-lhe nas orelhas para se ir deitar no sofá.

Se para ela as perspectivas são de muito sofá e descanso, para mim são o oposto. Se as previsões estiveram certas, só no início de Setembro é que ela se livra da bota, logo o verão vai pelo cano. Pelo meio, passa-se a altura do ano em que esta casa está com mais gente, que é também aquela em que não temos a nossa empregada para nos ajudar. E, sem a minha mãe que não pára e faz imensas coisas só num par de horas... vai sobrar para mim. Para além de cuidar dela, de a ajudar e de a transportar de carro para onde é preciso, tenho de ajudar em tudo o resto e na manutenção da casa. O que quer dizer que não há muita praia, férias fora ou descanso que me reste.

É claro que o cenário podia ser muito pior! É só um pé partido, vai passar rápido e tudo vai ficar melhor. E eu não me importo de arregaçar as mangas, trabalhar e fazer o que for preciso. A única coisa que me custa aqui é gerir as expectativas. Este ano fiz algo que nunca tinha feito: fiz all in neste verão, disse que ia ser um dos verões da minha vida. Depois de, no ano passado, ter sofrido demasiado e aproveitado muito pouco, jurei a mim mesma que este ia valer a pena. E agora, no meu segundo dia de férias, isto acontece. 

Fiquei fula. Não comigo, não com a minha mãe, não com a cadela que a fez cair, mas com o raio da vida. Quis muito chorar e deitar esta raiva cá para fora; não me importei de parecer a mais egoísta da casa por estar fula com toda esta situação. Não me interpretem mal: eu amo a minha mãe, dava a minha vida pela dela se preciso fosse e temos uma relação fantástica. Mas foi um golpe duro e que demorou algumas horas a aceitar. O meu último verão grande, o meu último verão como universitária, as minhas últimas férias grandes sem ter de me preocupar com trabalho. O meu verão pelo cano. Pelo segundo ano consecutivo. Doeu. 

 

[agora... é cuidar da mãe e esperar que passe rápido]

02
Jun15

Pé de urso

Carolina

Hope. It’s recurrent, it keeps creeping back in no matter how many times it gets ripped apart and every time the hope goes it takes chunks of you with it.

Dr. Nicole Herman, Grey's Anatomy

 

Todas as pessoas que me conhecem minimamente sabem duas coisas sobre mim: 1) eu tenho fobia de médicos e 2) tenho um pé cronicamente inchado (aka pé de urso). Nenhuma dessas duas coisas é fácil de explicar mas, com tempo, as pessoas acabam por chegar lá (pelo menos com as informações que posso dar, uma vez que ambas as situações saem fora do meu controlo).

Estas duas informações estão ligadas na medida em que tenho um pé cronicamente inchado há uns quatro anos e, depois de várias visitas a médicos de medicina interna, endocrinologistas e ortopedistas e de uma ressonância magnética e uma ecografia à parte renal, desisti de saber o que tinha e a suposta solução para o problema. Eu acho que um bocadinho de mim morre de cada vez que tenho de pôr os pés num médico - é uma coisa que ultrapassa a minha racionalidade e com a qual não vale a pena gastar muito latim. É, simplesmente, doloroso - não física, mas psicologicamente. Por ter percebido, a uma certa altura, que não havia muito mais a fazer pelo meu pé e que havia de morrer, daqui a muitos e bons anos, com o pé inchado, achei que não compensava todo o desgaste emocional de passar a vida em médicos e exames.

O diagnóstico é tão simples como complexo: tenho um linfedema. Ou seja: uma concentração de linfa (líquido que circula no sistema linfático, e que é responsável por ficar com as impurezas que circulam no nosso sangue - uma espécie de canal paralelo ao sistema circulatório que transporta as coisas menos boas) que não é distribuída pelo corpo. A gravidade encarrega-se de puxar a linfa para baixo, e há uma qualquer estrutura, que devia fazer de "escada rolante", que não me leva a linfa para cima. Este problema pode acontecer por muitas razões - quase todas elas muito difíceis de descobrir. Também por isto, é complicadíssimo arranjar uma cura, uma vez que não se sabe a razão da anomalia.

E eu já me tinha conformado. Pronto, vou ter um pé inchado para o resto da vida. Há, definitivamente, coisas piores. Mas, ao contrário de mim, toda a gente à minha volta está inconformada. Porque sou demasiado nova para ter uma sina destas, porque não fiz tudo o que tinha para fazer para despistar outras causas, porque deve haver uma cura algures, porque é uma chatice por causa dos sapatos e é sempre um filme para conseguir comprar o que quer que seja. O que não deixa de ser verdade - apenas não estou disponível para continuar com esperanças e a levar baldes de água fria por cima.

A maioria dos dias nem noto que tenho um pé deformado pelo inchaço; faz parte de mim, tal como as minhas unhas dos pés horríveis ou as minhas ancas largas. Há dias piores, claro. Aqueles em que tenho de comprar sapatos e percebo que me ficam horrivelmente; aqueles em que quero usar saltos altos e não posso porque o pé mal cabe num chinelo; aqueles em que já me sinto triste e feia e olho para o espelho e vejo que há ali mais uma coisa a piorar o panorama. Mas, na conta final, não são assim tantos como isso. A menos que me lembrem e que me chateiem com isto, é algo com que aprendi a lidar com tranquilidade.

O pior é que de cada vez que estou com alguém que me vê com menos frequência e que sabe do problema, a lenga-lenga do costume vem à baila. "Estás melhor?", "vai fazer mais exames, pode ser que até se resolva". E, de cada vez que dizem isto, para além de me chatearem com o panorama de ter de visitar mais médicos, implantam em mim uma semente de esperança que eu não quero que nasça. E lançam toda a discussão de novo: porquê que não procuras mais uma vez? Mais exames, mais alternativas?

E há dias, à custa de tudo isto, decidi fazer os malditos exames. Foi hoje o dia. Como esperava, não há nada a apontar nas minhas veias - não há entupimentos, não há nada de anormal. Já posso (finalmente) dizer que fiz os exames todos, que não há nada a fazer, que vou ficar com um pé de urso para a vida inteira. Não é algo que me agrade, mas ao menos corto o mal pela raiz. A esperança de ter melhorias faz-me mais mal do que ter um pé cronicamente inchado. 

15
Mar15

Palavra da semana: orgulho

Carolina

Esta pode não ter sido a semana mais feliz da minha vida - aliás, não foi mesmo -,  mas foi uma boa semana. Não andei por aí a sorrir aos sete ventos, nem a assobiar de contentamento - pelo contrário, os meus suspiros infundados cá continuam, os medos permanecem assim como as minhas preocupações constantes. Mas superei-me, e isso é tão, tão bom!

Orgulho 1: fui quatro vezes ao ginásio, e só não fui mais uma para não abusar do meu joelho que anda a queixar-se há um par de semanas. Três vezes zumba e quarenta minutos na piscina, a nadar de um lado para o outro até os músculos gritarem de tão moídos. De relembrar que, há dois anos atrás, era possivelmente uma das pessoas mais sedentárias que habitava no planeta Terra.

Orgulho 2 (e 3): fui ao dentista. Sim, eu tenho quase 20 anos, mas também tenho iatrofobia (também conhecida como fobia de médicos). Pode ter muita graça para quem está de fora, mas para quem vive isto é tudo menos engraçado. O dentista sempre foi dos médicos que mais me aterrorizou - das primeiras vezes que fui tive ataques de pânico tais que não conseguiram tratar-me. Há uns três anos, depois de uma cárie me ter proporcionado as dores mais agonizantes, terríveis e inesquecíveis da minha vida, não tive outra opção se não ir - da primeira vez fui com dois ansiolíticos no bucho, que adormeceriam qualquer pessoa em circunstâncias normais (eu fiquei acordada, claro está, mas acalmei). Depois, nos tratamentos seguintes, fui diminuindo a dose até ir "limpa". Com muito azar para mim, a clínica fechou, a minha médica desapareceu do mapa e eu, claro está, nunca mais pus um pé no dentista. Até esta sexta-feira, em que me decidi a ir, a muito custo, fazer uma limpeza aos dentes. Não andei muito bem disposta durante a semana, sendo que piorava à medida que chegava o dia D (é que nem de propósito), mas nada de intragável. E não fui medicada, não chorei, não fiz cena nenhuma no antes, durante e depois e, vejam lá isto, até dormi na noite anterior! Para vós pode (e deve) ser a coisa mais natural do mundo, mas acreditem que para mim é uma vitória. Daquelas enormes!

Como se já não bastasse um médico durante a semana, tive de ir a um ortopedista (ainda que fora de ambiente hospitalar, o que ajudou bastante). Tudo porque sentia que o meu joelho não estava no seu melhor e tinha medo que piorasse com o exercício físico que tenciono continuar a praticar. As suspeitas confirmaram-se: tenho de facto aqui um desarranjo que me provoca desconforto e sensação de instabilidade, mas felizmente não é nada de grave e posso continuar a fazer a minha vida normalmente, tentando só não abusar do joelho.

Em suma, dois médicos numa semana, sem calmantes, noites mal dormidas ou paragens de digestão à mistura. Se tudo isto não são razões suficientes para nomear estes sete dias como a semana do orgulho, não sei o que será.

 

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