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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

14
Fev19

Posso ser solteira? Por favor?

Já há muito tempo que vivemos numa sociedade em que estar solteiro é visto como uma coisa má. Mas hoje, mais do que nunca, isso se evidencia - a começar pelos programas de televisão, altamente empenhados em arranjar "a alma gémea" de qualquer um, utilizando métodos altamente inovadores e de eficácia, digamos, duvidosa. Vejamos: casar pessoas sem elas nunca se terem conhecido (Casados à Primeira Vista), fazer dates em restaurantes (First Dates) e dentro de carros (O Carro do Amor) ou juntar uma dúzia de miúdos dentro da mesma casa para ver quem se engata primeiro (Love on Top). Para vir estão outras maravilhas como os serem os pais a eleger o novo namorado da filha, escolher (ou, neste caso, eliminar) potenciais parceiros tendo por base o aspeto das suas partes iíntimas (Naked Attraction) ou ainda ter conversas muito intensas e profundas com um "match" enquanto estão deitados numa cama... usando apenas lingerie. Tudo formas maravilhosas de se conhecer a fundo uma pessoa, não é? 

É engraçado como toda a gente parece estar ansiosa por arranjar alguém mas depois desencanta as formas mais escabrosas e descabidas para o fazer. Os programas são claramente a nova moda, mas também podíamos falar do Tinder, do facebook e afins. Acho que o problema principal é o objetivo ser, à partida, encontrar alguém com quem ter uma relação amorosa - passa-se logo à frente uma possível amizade, logo aniquilada por se dar um passo maior que a própria perna. Mas estas são, provavelmente, as mesmas pessoas que se queixam de já não haver relações a sério, com um bom fundo, que é tudo feito com base em questões superficiais. Querem o quê, se os escolhem os outros pelo tamanho das mamas ou se põem o futuro nas mãos de produções de programas que nunca vos viram à frente?

Neste momento a pressão da sociedade para se arranjar um/a companheiro/a é de tal forma que nós quase que nascemos com essa ambição máxima. Já não precisamos que nos digam que só se é feliz quando se partilha a cama e a vida, isso já nos está embutido. A pressão é nossa. Não vale a pena dizer "deixem os solteiros em paz" quando são a maioria das vezes eles próprios quem mais se impõe para mudar de estado civil - e, aparentemente, agora vale tudo. Já não sabemos estar sozinhos.

Eu sou solteira por defeito - defeito por ter nascido assim, solteira, sem amarras (no sentido de default) e por não ter paciência, tolerância e disponibilidade (mental) para dedicar tanto tempo a alguém (no sentido de falha de personalidade). Vejo todo este fenómeno com alguma estranheza e, confesso, alguma impaciência. Já não tenho pachorra para quem me pergunta se tenho namorado, se anda "mouro na costa" ou quando têm claramente mais vontade de me ver casada do que eu própria tenho. E este Dia dos Namorados lembra-me sempre isto, esta necessidade contemporânea de atualizar o estado de uma relação no facebook e de partilhar fotos mimosas de mãos dadas.

Acho graça como tanta gente critica ultimamente o Natal, por se ter tornado numa festividade comercial, mas mal pensa nisso relativamente ao São Valentim, que não é nada mais do que comercial. É curioso ver como este é um dia que já temos muito enraizado na nossa vida, até mais do que alguns feriados. Quando olhamos para os nossos calendários em Fevereiro já sabemos que ali para o meio está o dia mais piroso do ano. E é de tal forma que não deixamos de o celebrar (penso que em grande parte por termos medo que a "nossa metade" fique triste por deixarmos passar esta data em branco).

E isto é um cliché, mas é verdade: o dia dos namorados, do pai, da mãe, dos irmãos e dos avós devia ser todos os dias. Não devíamos precisar de reminders para isso. E gastar 50 euros por cabeça num jantar só para provar que é amor serve de muito pouco. O mesmo se pode dizer daqueles peluches enormes, pirosos, que eventualmente vão acabar no sótão porque não há sítio melhor para os pôr. Ah, e das rosas, que pagamos neste dia ao quíntuplo do preço daquilo que pagamos nos outros 360 dias do ano (há que contabilizar o dia anterior ao dos namorados, cujas vendas aumentam à custa dos mais precavidos, e o dia da mãe e respetivo dia anterior, que segue a mesma lógica comercial). 

Não quero ser aqui a velha do Restelo, mas gostava de relembrar nascemos sozinhos e morremos da mesma forma - com ou sem anel no dedo, papéis assinados, com ou sem averbamentos na nossa ficha do registo civil. Acho bem que nos divirtamos pelo caminho e, quem quiser e tiver disposição, que o partilhe com alguém de quem gosta - mas esta pressa, esta necessidade quase absurda de se ter alguém faz-me muita comichão. 

Posto isto, resta-me desejar-vos um bom dia dos namorados. Para os comprometidos, para os que "é difícil", para os que têm amigos coloridos ou room-mates. E, claro, para os solteiros. Lembrem-se que os 50 euros que gastariam entre flores, jantares e bonecada dá para uma mariscada das boas. Não é bem a mesma coisa, mas dá para um orgasmo gastronómico. Digam lá que é mau? 

 

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12
Fev19

Antes um calendário da Pirelli que do Benfica

Estou agora a imiscuir-me no meio industrial. Nasci no seio dele, mas há coisas que há quinze anos atrás me passavam ao lado - e ainda bem, porque não tinha sequer idade para as perceber. Coisas tão simples e tão complexas como a relação patrão-colaboradores ou a própria interação dos empregados entre si. Quando era criança achava mais graça aos processos e não estava tão preocupada com esta vertente, que agora me é essencial, tendo em conta que estou a tentar assumir o papel de liderança dentro de uma empresa. 

Aprendi muito na minha passagem pelo jornal, quanto mais não fosse porque ouvi muitas opiniões (que eu às vezes concordava, outras não) e vi outras empresas, transpondo agora um bocadinho desses conhecimentos e daquilo que vi para a minha realidade atual e tentando tornar isto o melhor possível.

Há uns dias, enquanto tentava aprender um dos processos aqui da fábrica, deparei-me com uns cartazes e calendários do "Benfica Campeão" colados numa das paredes. Ora o tetra, ora a reconquista, ora o penta que aí vinha - não sei, nem olhei bem, vermelho e branco não é a minha praia. Mas fiquei a matutar naquilo e como não gostava da imagem que aquilo transmitia. E não, não é por ser do Benfica: podia ser do Porto, do Sporting ou do Leixões. É por ser de futebol. Veio-me à memória um escritório da fábrica onde cresci, quase pintado de azul e branco da cabeça aos pés, como quem grita "este escritório é de um portista doente". E isso não é bom, porque no futebol quase todas as reações, discussões e opiniões saem diretamente do coração. E, numa empresa, aquilo que queremos é cabeça.

Lembro-me perfeitamente de uma vez, no Leroy Merlin, ter mandado uma piada sobre o Benfica a um colaborador que estava a ajudar a carregar para o nosso carro umas placas pesadíssimas que viriam a forrar a piscina. Não sei o conteúdo da piada, da boca, da indireta ou da brincadeira, creio que até foi ele que começou e eu não me deixei ficar, mas lembro-me perfeitamente do desfecho: o senhor deixou o carrinho e foi-se embora, deixando-me a mim e à minha mãe a carregar aquele peso bruto. Tudo por causa do futebol. Escusado será dizer que, de cada vez que vou a uma destas lojas, me lembro da gentileza e racionalidade deste homem, que manchou a imagem do sítio onde trabalha por uma atitude parva e irrefletida.

Há quem critique as pessoas por adornarem as secretárias com as fotos dos filhos, quem deteste ir a oficinas automóveis porque se depara com calendários cheios de mulheres em poses indecentes. Pode ser piroso e revelar muito sobre quem os tem, mas não há muito a comentar sobre isso. Já coisas com teor futebolístico são, para mim, bem piores, pois criam cisões graves à partida entre as pessoas, sem estas sequer se conhecerem. Um cartaz de futebol é uma posição expressa de um gosto clubístico e pode criar pequenas guerras perfeitamente desnecessárias. Então e se as pessoas que partilham o mesmo espaço não forem todas do mesmo clube? E se alguém doente por um outro clube visitar o sítio em questão e se puser a mandar postas de pescada sobre o golo mal anulado do jogo de domingo? É irreal pensar que alguém que se dá ao trabalho de colar posters ou adornar o seu escritório com coisas do seu clube não vai ripostar a um desafio desse género. E muito dificilmente uma conversa destas vai ter a algum sítio bom ou culminar com elogios e uma ideia positiva de quem está do outro lado.

Não quer isto dizer que vá andar por aí a tirar posters alheios das paredes ou acabar com pregões clubísticos, qual extremista. Mas, a longo prazo, preferia que eles não existissem. Mal por mal, tragam os da Pirelli.

07
Fev19

Deus escreve direito por linhas tortas

Não me lembro de, em miúda, querer ser muita coisa "quando fosse grande".  Recordo-me, sim, das duas principais profissões que sempre disse querer ter: primeiro, ser engenheira informática, como o meu irmão; depois, trabalhar na têxtil, tal e qual como o meu pai. Pelo meio tive algumas epifanias: professora de música, veterinária (esqueci a ideia quando uma prima mais velha me disse que tínhamos de pôr o braço in-tei-ro dentro do rabo de uma vaca), decoradora (só porque  achava que fazia um trabalho formidável no Sims) e acho que me passou pela ideia ser cabeleireira, um pensamento breve mas claramente egocêntrico, uma vez que tinha como objetivo não ter de passar pelas mãos de profissionais alheias que me cortavam mais do que os 7 milímetros de cabelo que eu achava serem adequados e que eu impunha como máximo de corte. Já não se pode dizer que fosse muito miúda quando a escrita e o jornalismo apareceram no horizonte.

Há uns meses, numa limpeza geral que fizemos nos arrumos, em que deitei centenas de quilos de papel fora (sem exagero), apanhei o primeiro jornal que alguma vez fiz, ainda no primeiro ciclo. Chamava-se "Notícias da Cidade", era um jornal de parede e tinha artigos sobre o que ia acontecendo na escola, que não passava muito da cena de pancada que tinha havido entre o António e Luís, com direito a relatos das auxiliares que separaram os dois meninos - eu sei, muito informativo... Lá pelo meio encontrei ainda o segundo jornal que desenvolvi, que teve mais de uma dezena de edições, chamado "Simple" - lembro-me bem de ir à reprografia e de fazer tabelas de custos, para pelo menos não ter prejuízo com a impressão. E enquanto folheava estes tesourinhos apercebi-me que a vida é um ciclo. É engraçado ver que nessa altura  estava a léguas de pensar em jornalismo - aliás, sempre fora uma aluna mediana a Português, não gostava nada de ler e os erros ortográficos eram uma constante - mas a verdade é que dois dos meus primeiros projetos "a sério" foram nessa área; mal eu sabia que uma década depois ia mesmo tirar esse curso e fazer parte de um jornal a sério!

Depois olhei para o presente e caí na real: então não é que hoje dou aulas de piano com regularidade? Que me chamam "professora" quando precisam de ajuda entre partituras e teclados? Que sou "a escritora da família"? E que estou, tal como o meu pai, no ramo têxtil? É verdade que não dei em decoradora nem em veterinária (embora, com seis cães , faça de veterinária quase todos os dias), mas a informática continua a ter um peso considerável na minha vida. Ah, já para não esquecer que corto a minha própria franja em casa, o que deve contar um bocadinho para a parte do "cabeleireira".

Agora fora de brincadeiras: a maioria dos emails que recebo na caixa do correio do blog prende-se muito com indecisões no campo profissional, ou ainda mesmo na fase dos estudos. Como tive um percurso um bocadinho atribulado penso que há muita gente que vê em mim alguém com alguma experiência para ajudar nestes campos. E se é verdade que ninguém deve ser infeliz a fazer um curso ou a trabalhar num determinado sítio, também o é que devemos ser resilientes e ter em mente o nosso objetivo final. É preciso pesar bem as coisas e tentar ter uma visão imparcial da nossa própria vida e situação emocional o que, obviamente, é tudo menos fácil. Aquilo que digo sempre é que os caminhos que percorremos não têm necessariamente de traçar o nosso futuro. Deviam ajudar, mas se não o fizerem, ninguém morre. A escola e a faculdade são um meio para atingir um fim. E o trabalho é algo que podemos mudar, desde que não nos falte a coragem e um meio de apoio qie nos ajude a sustentar essa decisão.

Lembro-me bem que, quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande, me diziam aquilo que os adultos dizem a todos: "mas não podes ser tudo! Tens de escolher! Umas coisas nem sequer têm que ver com as outras... É como dizeres que queres ser astronauta e florista, não funciona". E eu hoje venho dizer o contrário, que não é bem assim, e que a vida não tem de ser resumida a uma só coisa - até porque é um caminho, e todos nós sabemos que há muitas estradas diferentes que vão dar ao mesmo sítio.

Sim, é verdade: eu não vou viver a vida toda neste vai-não-vai. Eventualmente vou ter de fazer escolhas, deixar de me partir em muitas e de andar de um lado para o outro estilo barata-tonta. A gestão da minha agenda, entre dar e receber aulas de piano, as fábricas, o blog e a pós-graduação é coisa para, de vez em quando, me dar calores e muitas dores de cabeça. Mas ao menos posso dizer que fiz. Um dia quis ser jornalista? Já fui. Um dia quis ser professora de música? Já sou. Um dia quero ser como o meu pai e trabalhar na têxtil? Já trabalho. E cabeleireira? Não sou porque não quero, porque na verdade acho que nunca quis, e estou bem com isso. 

Sinto que a vida passou um lápis por cima de muitas das coisas que eu antes, em miúda, delineei a tracejado - quase como se faz naqueles livrinhos de crianças. Penso que tudo isto aconteceu por uma mistura de sorte, de disponibilidade e abertura da minha parte e por, de alguma forma, querer e fazer por isto. Ou então é mesmo o destino, sei lá. A verdade é que se calhar era tudo mais fácil se fôssemos seres coerentes, que tudo batesse certo e que fizesse tudo muito sentido na nossa vida, nos nossos gostos e nas nossas ambições. Mas as coisas não funcionam assim. E ainda bem, porque acaba por ser muito mais divertido desta forma ;)

09
Nov18

Um mundo com demasiada informação (da rubrica #Viver sem telemóvel mas a trabalhar para ter um)

Depois de ter visto o meu telemóvel ir por água abaixo - literalmente -, e sabendo que nessa situação são normalmente poucos os sobreviventes, comecei logo a pensar que outro telefone poderia comprar. Uma coisa era certa: eu estava aberta a novas experiências, e comprar um iPhone não ia voltar a acontecer. Muito para além de gostar ou não do telemóvel ou do interface, o iPhone tem o problema dos serviços adjacentes (iCloud e iTunes) que são capazes de levar até um santo à loucura - principalmente se esse mesmo santo tiver um computador que não seja Apple.

Lancei-me por isso ao mercado dos telemóveis de braços abertos, pronta para experimentar as maravilhas da Huawei, passando pela competição renhida da Xiaomi, dos rejuvenescidos Nokia e até pela Samsung, da qual nunca fui fã. E aqui começa o problema: num universo de centenas de telemóveis - mesmo que consigamos reduzir a gama devido ao fator preço - qual escolher?

Comecei por fazer o típico: ligar ao meu irmão, a pessoa em quem mais confio nestes tópicos, a pedir a sua opinião. Foi ele que me apresentou ao GSM Arena, cujas opiniões acabaram por pesar bastante na minha decisão final. O drama é que todos estes sites que avaliam telemóveis são eternamente insatisfeitos: há sempre alguma coisa que está mal, há sempre detalhes que faltam, há sempre uma lista demasiado grande de desvantagens - e pior, há sempre uma comparação com outros modelos, dentro da mesma linha e preço, que eventualmente também nos podem satisfazer (mas que também têm uma lista recheada de prós e contras). 

Chegamos a este ponto e, para além do problema inicial de escolher um telemóvel, ainda temos outro: lidar com a quantidade soberba de informações que temos nas mãos mas que, em vez de nos esclarecerem como era suposto, só nos confundem mais. Do nada, caímos num silo que em vez de ter cereais tem nomes de processadores, tipos de entrada USB, tamanhos de RAM, polegadas e diagonais de ecrã, chipsets XPTO, câmaras que vêm aos pares, não sei quantos miliamperes de bateria, cartões SD para se enfiar em vários sítios diferentes... a par dos testes à luz solar, dos altifalantes, da rapidez, da qualidade do som, da duração da bateria, da câmara fotográfica de dia e de noite, do modo de desfoque, de retrato, de paisagem, de panorama, da utilização do HDR, da qualidade do vídeo com 1080p a 30 fps ou 60 fps, com ou sem estabilizador... E, wow!, não conseguimos respirar! E se depois chegamos a alguma conclusão - algo altamente improvável, dado que o nosso cérebro está feito em papa depois de processar tamanha quantidade de informação -, ainda vemos todas as promoções em vigor, todos os sites meios rafados que têm preços altamente competitivos mas cuja confiança é duvidosa ou cujo local de envio fica do outro lado do mundo, o que é um bocado chato tendo em conta que precisamos do telemóvel para ontem. Cansativo, hun?

A verdade é que neste momento vivemos num mundo com demasiada informação sobre tudo. Há dez anos, quando se queria adquirir um telemóvel ou um carro, compravam-se revistas, analisavam-se as características e liam-se as críticas - limitadas a um espaço relativamente curto, dentro de uma ou duas páginas; tudo o resto eram opiniões com base em experiências pessoais, do indíviduo X que tinha tido imensos problemas com determinada marca ou de outro que adorava o carro Y. Mas hoje o espaço é ilimitado e não há só duas ou três revistas sobre o tópico - há milhares de fontes para escolher. Qual é que a mais fiável? Qual é aquela que procura um telemóvel com características semelhantes àquelas que nós próprios queremos?

Cheguei à conclusão de que este processo é um ciclo vicioso. Li várias críticas (em sites estrangeiros e portugueses) a uma seleção de meia-dúzia de smartphones, vi vários vídeos do youtube ("Porque é que NÃO deve comprar este telemóvel", "Porque é que este smartphone é o melhor do ano", "Comparação entre o Huawei X e Z") - e tudo isto nos leva a ainda mais conteúdos, ora porque não percebemos uma coisa, ora porque diferentes artigos se contradizem em determinado detalhe ou simplesmente porque nos são sugeridos e "mais um também não faz mal a ninguém". Até que parei. Percebi que já tinha tirado tudo o que podia dali: já tinha feito uma shortlist, já tinha feito os prós e os contras mais importantes de cada uma das minhas escolhas, já tinha todas as pré-informações possíveis e imaginárias e já tinha aprendido uma série de coisas novas ("nodge" e "chipset" passaram a fazer parte do meu vocabulário, por exemplo). 

E daí segui o derradeiro conselho do meu irmão: "vai a uma loja, experimenta o telemóvel, vê se gostas do interface, da maneira como fica na mão... e depois decides". E foi assim. Não é curioso como, no fim de tudo isto, depois de todas as horas de pesquisa, e de comparações... tudo se volta a resumir à vida real? Ao "feel" da coisa, para lá de todos os gigas, processadores e cenas geek-racionais? Somos criaturas complexas, não é verdade?

04
Nov18

Viver sem telemóvel

Ontem de manhã o meu telemóvel caiu na sanita.

 

Pronto, um parágrafo foi bastante para se rirem? Já contraíram o abdominal o suficiente à minha custa? Olhem que essas gargalhadas de gozo que estão a soltar neste preciso momento podem voltar-se contra vós - o karma é lixado, e eu estou em crer que muito telemóveis no mundo visitam diariamente sanitas alheias, por isso é melhor terem cuidado. 

Fiz tudo aquilo que dizem que se deve fazer nestas situações - tirei-o logo da água, sequei-o, tirei-lhe todas as capas e partes que podia retirar, aspirei-lhe todos os orifícios, coloquei-o no meio de sílica gel para absorver a humidade e no meio do arroz. Neste post não me quero concentrar nas hipóteses de sobrevivência do meu telemóvel (que, a meu ver, serão poucas) mas sim em como vivi estes dois dias sem telemóvel - um estudo interessante nos dias de hoje, que praticamente só é possível em alturas como estas, por obrigatoriedade.

Admito que é com surpresa que digo que me senti muito bem. Não houve cá suores frios pela síndrome de abstinência nem senti falta de, ao longo do dia, estar sempre a carrega-lo comigo. Na verdade, senti-me até algo aliviada: não me era possível ser contactada e isso não era culpa minha - e por isso tinha carta branca para não ver o que me diziam, não me sentir culpada por não responder, não ver, não atender. Porque a verdade é essa: os telemóveis fizeram com que estejamos contactáveis a 100%, a toda a hora, de todas as formas, em praticamente qualquer lugar do mundo - e, se não respondemos a esse chamamento, ou somos mal-educados por não dar resposta, ou uns totós afastados das tecnologias. 

O Miguel Araújo escreveu há uns tempos uma crónica na Visão a propósito disso e sobre o facto de não atender o telemóvel de forma deliberada, que convido a que leiam aqui (mas só depois de acabarem o meu post, está bem?). Escreveu: "Eu quase não atendo o telefone. Aquela solicitude de falar imediatamente, de estar disponível para uma conversa não solicitada é algo que eu reservo para as pouquíssimas (4 ou 5) pessoas da minha mais exclusiva intimidade. Tudo o resto (tudo!) fica resolvido com mais delicadeza, eficácia, celeridade e concludência através das outras mil maneiras que o mesmo dispositivo permite", que enumera posteriormente. Depois acrescenta: "Mas telefonar, convenhamos, soar um alarme que pede resposta imediata por parte do nosso semelhante, é quase sempre inconveniente, nos dias atarefados que correm. (...) Entendo que um telefonema convenha a quem liga. Mas dificilmente convém a quem se destina. E isso, na sua essência, é indelicado."

Na verdade, eu estendo as palavras dos Miguel dizendo que é indelicado, como um todo, esperar uma resposta imediata de alguém, qualquer que seja o meio de comunicação. E, para mim, há regras "invisíveis" que atenuam este novo paradigma, mas que aparentemente são ignoradas por quase toda a gente (um exemplo é contactar alguém depois das 18h acerca de coisas de trabalho, sabendo à partida que a pessoa em questão já não está a trabalhar - escrevi sobre isso neste post). Nesse sentido, aproveitei este momento para ter paz e não ser consumida com notificações. O meu pai emprestou-me um telemóvel antigo, em que nem sequer coloquei o meu cartão ou instalei qualquer tipo de aplicações - só os meus pais e os meus irmãos têm o número, em caso de haver alguma emergência. Não anunciei no facebook que não tinha telemóvel, não dei alternativas de contacto, não providenciei outro número; para o mundo, hibernei. Dei-me a esse luxo.

E é engraçado ver como a função primária do telemóvel - contactar e ser contactado pelos outros - não é de todo aquilo que sinto mais falta. Ontem dei por mim em três momentos a sentir a falta do smartphone: o primeiro foi ter sentido necessidade de uma sessão de meditação promovida por uma aplicação que tinha instalado (não perguntem - um dia hei-de escrever sobre isto, mas ainda estou muito no início); o segundo foi quando me deitei, altura em que queria escrever um texto que estava a começar a surgir na minha cabeça; e o terceiro foi quando acordei a meio da noite e precisei de ver as horas, momento em que tive de ligar o candeeiro para conseguir ver os ponteiros no meu relógio de pulso que já tinha deixado estrategicamente na mesinha de cabeceira. As coisas mais óbvias e que supostamente me fariam mais falta - para além das comunicações -, aquelas que me gastam mais tempo no dia-a-dia, foram aquelas de que mal me lembrei: nem facebook, nem instagram, nem whatsapp e as suas cansativas conversas de grupo. Foram coisas corriqueiras, de utilidade pessoal e não de procrastinação.

É lógico que isto não vai durar para sempre - e é óbvio que a minha despreocupação com o telemóvel não é assim tão grande. Chateia-me tê-lo deixado cair, aborrece-me e entristece-me plenamente a possibilidade de perder algumas coisas de que não tinha feito backup e irrita-me ter de gastar dinheiro noutro telemóvel quando ainda queria que este durasse dois anos para o conseguir "amortizar" por inteiro. Mas às vezes não temos escolha. E é bom ver que, afinal, até vivo muito bem sem uma coisa que já parecia uma extensão de mim. Melhor que isso: perceber que até gosto de viver sem ela.

 

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24
Out18

Sobre a moda e o lixo noticioso que ela produz (ou a síndrome do colega engraçadinho)

Sinto que hoje em dia as novas abordagens ao mundo da moda se fazem ao estilo do colega engraçadinho que todos tínhamos na turma. Aquele que nos dizia que tínhamos ido para a escola de pijama, que a nossa mãe se tinha esquecido de nos pentear o cabelo, que o buraco entre os nossos dentes era uma auto-estrada digna de um camião ou que a nossa roupa parecia vir da feira. É uma característica comum em muitos engraçadinhos: não têm graça. Pegam nos pontos fracos de alguém e jogam-nos contra a pessoa, a ver se resulta. E os outros riem-se, não por o engraçadinho ter graça, mas esperando que o alvo da graça nunca sejam eles próprios.

Devido à crise (em todos os campos) que o jornalismo está a passar, o humor - em conjunto com o clickbait (a "arte" de atrair as pessoas através de títulos polémicos, que chamam à atenção e nem sempre são verdadeiros) - é uma arma forte para nos convencer a clicar numa notícia. E por isso acha-se que todos podem fazer os outros rir ou que têm jeito para isso; acha-se que tudo é um bom tema para fazer piada ("ah e tal, o humor não tem limites!"... mas quando gozavam convosco na escola não tinha graça, pois não?); acha-se que não há uma linha que separa a piada da maldade.

É no seguimento deste novo paradigma que surge a nova vaga de notícias de moda (já muito à frente das Vogue's ou Elle's), produzidas em revistas "inovadoras" que, dizem, querem dar uma nova visão da indústria. Já há um ou dois anos que as duas semanas de moda em Portugal são desculpa para fazer de tudo: já vi vox pop's em que se questionam as pessoas sobre os criadores que vão desfilar (ou outros que foram inventados no momento) e se espera uma resposta completamente descabida por parte de quem está outro lado do microfone; já vi imensas peças que nomeiam a pessoa com mais pinta no dia "X" e d«a pessoa mais mal vestida no dia "Y" de um dos eventos; já li textos de opinião escritos por "humoristas" não identificados, onde se admite que o autor não percebe nada de moda mas que está ali para ter um olhar diferente perante o desfile. Tudo isto com um único objetivo: tentar ter graça, fazer diferente. Como? Gozando com as pessoas, tal e qual como o coleguinha engraçado do 5º ano.

Façamos uma reflexão: como se sentirão os indivíduos escolhidos como os mais mal vestidos da Moda Lisboa - que se deixaram fotografar, mas nunca sabendo em que âmbito iriam ser publicadas as suas fotos - quando vêem as suas caras escarrapachadas num artigo que se está a espalhar pelo facebook? Como é que se sentirão as manequins e as modelos quando se vêem referidas num artigo por as suas nádegas estarem cheias de celulite e a fazer, passo a expressão, "boing, boing, boing" enquanto desfilam pela passarela? Como se sentirá a Cristina Ferreira - e todas as Cristina's do país - quando se lê no título de uma notícia que a apresentadora já não tem idade para esta coisa dos desfiles e que aqueles "tronquinhos" já não são para aquelas botas? Como se sentiu Sílvia Alberto quando foi comparada com o "emplastro"do FCPorto por ter um sinal na cara, mais ao menos no mesmo lugar? (Eu esta sei a resposta: mal, de tal forma que exigiu o direito de resposta pela forma como foi tratada por esse meio de comunicação). 

Isto não são notícias, não é jornalismo. É lixo. Talvez mesmo abaixo de lixo - o esgoto. Lixo é aquilo que agora se vê em todo o lado, uma forma de encher chouriços quando nada mais há para dizer: coisas como "os cinco casacos da Mango que tem de comprar esta estação", "as coisas mais horripilantes que encontramos nos saldos da Bershka", "porque é que nunca deve misturar ganga escura e ganga clara" ou "afinal de que cor é este vestido?".

E eu, que apesar de nunca ter gostado daquela visão cinzenta e demasiado séria do jornalismo (foi isso, em grande parte, que me fez distanciar desta vertente, na faculdade), vejo-me obrigada a insurgir-me quando vejo tudo isto. Mete-me nojo, principalmente quando assisto a uma espécie de ciber-bullying no lugar de notícias - que, para além da maldade, se juntam aqui à hipocrisia, numa altura em que se fala tanto da liberdade de expressão, na normalização dos corpos e no fim da magreza excessiva das modelos (coisas que os mesmos meios de comunicação aplaudem e divulgam, mas rapidamente se esquecem).

Talvez o facto de ter trabalhado dois anos neste ramo me tenha deixado mais sensível e alerta para estas questões, até porque nunca imaginei chatear-me em prol do bom jornalismo - mas a verdade é que acho que nem é isso que me move, mas sim o ridículo que é gozar com as pessoas de forma gratuita em praça pública, muitas delas que estão só e apenas a fazer o seu trabalho. E é por isso que desde há dois anos para cá que, de vez em quando, lá estou eu a mandar "postas de pescada" nas caixas de comentários no facebook, para ver se alguém acorda para a vida. Há sempre quem ache graça ao "engraçadinho" mas tenho visto cada vez mais gente como eu, que reclama de forma civilizada e que tenta pôr fim a esta nova moda no mundo da moda. Todos os exemplos que dei nos parágrafos acima são reais: alguns mais antigos, que já poucos se lembrarão, e outros que ainda estão neste momento a correr tinta (nomeadamente com um pedido de desculpas de um meio de comunicação a propósito de notícias deste género publicadas no âmbito do último Portugal Fashion). 

Hoje saltei das caixas de comentários para aqui, algo que já estava para fazer há muito. Porque há que falar e mudar o que está mal. Porque sempre me ensinaram que as desculpas não se pedem, evitam-se. E porque ainda está bem fresca a minha memória em relação aos "engraçadinhos"; não me deixei enganar pelo tempo, não romanceei as saudades que tenho desses anos. Continuo a saber que não tinham piada nenhuma. Nem nunca irão ter.

08
Set18

Gorjetas: dar ou não dar, eis a questão

Há certas normas na sociedade que já estão mais que formadas, implementadas, concretizadas e especificadas. E depois há outras deixadas um bocadinho ao Deus dará (ou o chamado senso comum), que por vezes causam certas dúvidas a quem se dedica um bocadinho a pensar sobre elas. Para mim, uma dessas normas pouco definidas é a cultura das gorjetas – pelo menos aqui, porque nos Estados Unidos (e, calculo, noutros locais) está bem padronizado e, calculo até, previsto na lei.

Apesar de ao longo de toda a minha vida me ter confrontado com este "problema" e opinado frequentemente sobre se ou o que deixar, só nos Açores (mais uma vez) é que me caiu a ficha. Estava sozinha, não podia deixar a decisão de dar ou não gorjetas para cima dos meus pais, como fiz quase sempre durante a minha vida. A situação era específica: depois de duas tours - que, importa dizer, correram bem, embora tivesse gostado mais de uma que de outra – perguntei-me a mim mesma se devia dar alguma coisa aos meus guias.

Este é o tipo de situação em que tipicamente se dá qualquer coisa assim de forma muito discreta – algo que eu também nunca percebi. Num restaurante deixamos o dinheiro em cima da mesa, no cabeleireiro metemos-lhes a moeda ao bolso de forma nada discreta, num cruzeiro deixam-se envelopes a dizer "GORJETA" em cima da mesa, mas ali faz-se a coisa pela calada. Porquê?

Há ainda o problema da quantidade a deixar. Num restaurante dos Estados Unidos deixa-se o equivalente a 10 ou 15% da conta total... mas e aqui? Num tour que, em princípio, eu nem saberia o preço, uma vez que estava incluída num pacote comprado previamente?

Acho que o que tende a acontecer em países como o nosso, que não têm nenhuma norma estabelecida para este tipo de casos, é cada um estabelecer a sua própria norma. Eu própria estou a construir a minha – e confesso que nem sempre a sei explicar. Se sou mal servida, em qualquer tipo de sítio ou serviço, nunca deixo nada – isso é certo. Mas se for a um restaurante ou café costumo deixar alguma coisa; o mesmo não se passa no cabeleireiro, onde vejo muitas pessoas a darem moedas a quem lhes fez a manicure ou pintou o cabelo, por exemplo, algo que nunca faço; também não dou àqueles rapazes que nos hotéis transportam as malas para os quartos. Porquê? Não sei bem e depende de caso para caso. Se às manicures, pensando bem, até podia dar – porque me tratam sempre bem, já sabem como gosto das unhas -, ao camareiro – que tem um serviço rápido – já não me faz tanto sentido. O que levanta outra questão: porquê que há profissões em que se dá "gorjas" e outras que não? Porque é que não damos umas moeditas a um médico ou enfermeiro que nos tratou de forma impecável e hiper humana? Porque é que não damos um extra à senhora do IKEA que nos ajudou a escolher o móvel? Porque é que não damos gorjeta à senhora da frutaria por debaixo da nossa casa?

Enfim, são questões que me assolam de vez em quando. A verdade é que acabei por dar gorjeta a cada um dos meus guias, tentando dar-lhes o dinheiro de forma discreta mas sem arranjar todo um esquema para o fazer. Vi que as pessoas que estavam comigo não deram nada, o que gera ainda outro problema: o confronto de normas dentro do mesmo grupo, que faz cada um dos indivíduos sentir-se mal, ora porque deu, ora porque não deu.

E se por um lado o rapaz recebeu bem o presente extra que eu lhe dei, a rapariga disse-me logo que não era preciso. Para mim, que não sou muito boa a interpretar este tipo de coisas, foi um momento um bocado chato: era óbvio que eu não ia retirar o dinheiro que já lhe tinha dado, mas por momentos até achei que a podia ter ofendido. Depois a situação rolou normalmente, ela aceitou e eu lá suspirei de alívio, mas naquele momento pensei em tudinho que está aqui neste post e amaldiçoei o facto de não existir um livro com este tipo de regras, para não andarmos todos aqui meio perdidos.

Mais tarde perguntei a uma prima minha, também ela guia, qual era a relação dela com gorjetas e se de alguma forma o dinheiro extra podia ser mal interpretado. Ela quase se riu na minha cara. Mas eu sei lá – as coisas mudam tanto, há pessoas com filosofias de vida tão distintas, que é difícil o mesmo comportamento agradar a gregos e a troianos. Embora eu perceba que, metendo dinheiro extra no bolso, poucos se possam queixar.

E por aí, dão gorjetas? Só a alguns, a todos ou são os sovinas?

 

02
Jun18

Hoje em dia é tudo instagram

Acabei o último post dizendo que não havia instabooks. A verdade é que não me dei ao trabalho de procurar, esperei simplesmente (e esperançosamente) que eles não existissem - porque, hoje em dia, existe tudo o que é passível de ser “instagramável”, que é como quem diz “tudo o que fica bem na fotografias”. O que tem tanto de bonito como de fútil.

Pensei muito nisto no Brasil, onde o meu primeiro momento de “pânico” na viagem foi quando achei que ia integrar uma comitiva de instagramers, bloggers e influencers. Percebi que o hotel estava pejado delas logo no primeiro pequeno-almoço, quando uma rapariga passou cerca de vinte minutos a tirar fotos aos seus pratos e a fazer instastories de todo o material comestível disponível no buffet. Quando eu digo vinte minutos, foram mesmo vinte minutos: ao ponto de nem sequer chegar a vê-la comer! Mexia um prato, trocava outro, tirava a foto de 47 ângulos diferentes, fazia zoom in e zoom out... e nisto o café já devia estar frio. Notei também devido à presença constante de câmaras e de telemóveis e, claro, pela forma como elas se vestiam só para ir comer, demonstrando que não eram pessoas da mesma "classe" que todas as outras presentes na sala. Entre maquilhagens e vestidos esvoaçantes, tenho a certeza que passavam mais tempo a arranjar-se para ir comer antes de ir para a praia do que eu costumo demorar antes de ir para um qualquer evento de maior importância - o que é indiferente, desde que elas gostem... mas que não deixa de ser uma prisão para elas, porque Deus-me-livre de ir tomar o pequeno-almoço com o cabelo apanhado e as olheiras de quem acabou de acordar! Não vá alguém pedir uma foto, claro! ;) E foi por isso com o maior alívio que eu percebi que não ia andar com elas no evento. Se me senti desintegrada com os três jornalistas que me acompanharam nesta viagem, se tivesse de andar com elas sentir-me-ia pior que o patinho feio durante quatro dias. 

A situação mais caricata que vivi durante aqueles dias foi numa das minhas manhãs na praia. Estava deitada a ler o meu livro na areia e surge um grupo destas raparigas, em conjunto com um fotógrafo, prontas para uma sessão fotográfica. Uma vem educadamente falar comigo e diz: "olá, desculpe incomodar! Posso pedir um favor a você?". Respondi que sim. "Pode emprestar o seu livro, para tirar uma foto?". Eu não sei precisar a minha cara naquele momento, mas deve ter sido engraçada. "S... sim." E entreguei o livro de João Pinto Coelho à brasileira, que prontamente se deitou na espreguiçadeira, abriu a obra em parte incerta e fingiu ler com muito afinco. Uma série de disparos depois, vem entregar-mo, rematando: "ao menos o livro é bom?". "Muito bom", disse-lhe, esperando que ao menos fizesse boa publicidade ao livro de um autor português. (Poupo-vos a pergunta: apesar dos meus esforços em encontrar a blogger em questão e a foto em particular, as minhas pesquisas foram infrutíferas).

Toda esta necessidade de tirar fotos para ficar bem e parecer melhor mexe-me um bocadinho com as entranhas. Não é só tornar a realidade mais bonita do que aquilo que ela é: trata-se de mentir mesmo. Eu tenho noção de como é que tudo isto funciona e estava lá nesta situação em particular - e em todas as outras, enquanto comiam os seus próprios cabelos esvoaçantes à medida que andavam sensualmente pela praia, quando o mar lhes dava chicotadas nas costas e elas pareciam estar a saborear o cheiro a maresia ou em puros momentos de narcisismo ou mesmo má-educação, enquanto tiravam selfies a meio dos desfiles. Mas a verdade é que muita gente não sabe disto - principalmente as miúdas mais novas, que acham que os pequenos-almoços são sempre incríveis, que aquelas pessoas que seguem têm tempo para ser lindas, bonitas e cultas ao ponto de até lerem na praia, pensando que tudo é um mar de rosas.

A verdade é que hoje em dia é tudo para o Instagram. Eu vejo aqueles fatos de banho com 59 fitas espalhadas pelo corpo e sei que nenhuma influencer que se preze quer ficar com aquelas 59 marcas no corpo; sei que são fatos-de-banho para a foto. Vejo aquelas agendas com frases inspiradoras e percebo que são apenas para "flatlays" perfeitas. Reparo naqueles saltos assustadoramente finos e sei que a foto deve compensar a dor nos pés ao final do dia. E vi muitas, muitas vezes todos aqueles sorrisos momentâneos, enquanto a câmara se apontava para elas, e que se desvaneciam imediatamente quando olhavam para o ecrã, já com o dedo pronto para retocar e esconder qualquer imperfeição.

Esta rede social ganhou uma dimensão ainda mais irreal do que o facebook, na medida em que tudo tem de ser bonito e perfeito; em que não só as fotos são 100% cuidadas como o próprio feed é mexido com muito carinho e amor, qual bonequinho de porcelana. Acho incrível - no bom e no mau sentido - como é que alguém tem paciência para prever o seu feed antes de publicar uma foto, só para perceber se o "conjunto" fica bonito e coerente. Porque, aparentemente, a vida para estas pessoas é isto: a beleza de tudo, em tudo. E eu não acho mal que se veja o bright side of life. No meio das minhas pesquisas para encontrar a blogger-do-livro, deparei-me com fotos incríveis da praia e do resort onde estive e pensei "bolas, aquilo era assim tão bonito?". De facto elas tornam o banal em algo incrível, transformam o bonito em tendência. Mas, pelo meio, espelham uma vida irreal que (mesmo inconscientemente) todos acabamos por ter como referência: porque queremos aquele pequeno-almoço completo e de aspeto delicioso, queremos um rabo sem estrias, queremos os biquinis mais giros do mercado, queremos aquela maquilhagem perfeita, queremos as viagens, queremos aquele carro XPTO, queremos o relógio em promoção, queremos um fotógrafo que nos tire aquelas fotos bonitas. Só nos esquecemos que a vida é também tudo o resto. Tudo o que não é instagram. Se calhar, tudo o que é de mais real. Basta pensar num cozido à portuguesa: pouco bonito e fotogénico, mas delicioso e autêntico. E a verdade é que há um mar de coisas estilo cozido à portuguesa espalhadas por aí.

30
Mai18

Desculpem, mas preciso de falar sobre a eutanásia

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Nunca fui muito de pensar na morte. Desde muito pequena que é um assunto que me perturba muito, pela perda e pela incerteza do que vem a seguir, pelo que é algo que eu conscientemente evito pensar. Mas, curiosamente, a eutanásia e a morte assistida sempre foram dois temas que me interessaram e, depois do chumbo de ontem no parlamento a propósito deste tópico, senti urgência em escrever. Já há muito que evito temas polémicos, mas dei por mim a não adormecer à noite por estar perturbada com o assunto.

Isto porque não consigo conceber o porquê de tanto drama à volta disto. À parte de questões de regulamentação, legislação e afins, este devia ser um problema “simples”. Mais simples que o do aborto, por exemplo! Não se trata de uma sentença de morte, de uma decisão dos outros: é uma decisão nossa, sobre a nossa própria vida, quando ela muitas vezes já nos tirou os meios de fazermos o que quer que seja com ela. É um direito, devia ser uma liberdade - tal como é liberdade eu decidir ir jantar fora e comer quatro hambúrgueres, tal como sou livre de fazer um piercing ou laquear as minhas trompas (puristas dirão que estou a mutilar o meu corpo - e no entanto eu posso faze-lo). É o meu corpo, a minha vida. E, em situações normais, eu sou também livre de acabar com ela. Sou livre de me atirar da ponte, de tomar 40 comprimidos de uma vez, de cortar os pulsos. Quem não é livre são aqueles que, por doença, já há muito estão presos no seu próprio corpo e não podem tomar nenhuma destas decisões. Por estes dias, só estamos a confirmar o quão enjaulados eles estão nos próprios corpos, que já não estão em condições de carregar almas.

Todo o ruído que se ouve em volta deste assunto agonia-me. Em alguns casos enoja-me. Dizerem que o Serviço Nacional de Saúde serve para curar e não para matar é simplesmente ídilico - morrem todos os dias centenas de pessoas nos hospitais, muitas vezes em condições degradantes, e ninguém se preocupa com isso. Pergunto-me quantos médicos já terão praticado "a eutanásia", por mera misericórdia (e a pedido desesperado dos doentes, claro), mesmo sabendo que não podiam; por terem percebido que aquele voto que fizeram sobre salvar a vida de alguém já estava totalmente inválido naquele caso; por respeito pela dignidade humana, por pena de um ser em sofrimento, por verem que não há mais vida ali para ser vivida. Eu desconfio sinceramente que muitos já o terão feito.

A argumentação dos cuidados paliativos passa-me ao lado - estes devem ser melhorados, trabalhados e fomentados (força nisso!), mas não deviam ser a única alternativa quando estamos em fase terminal. É um caminho diferente, paralelo. Há dores que a morfina não tira - em particular a dos outros, que sofrem com o doente - e há pessoas que não querem chegar àquele estado de degradação. Porque é que temos simplesmente de aceitar o nosso destino, se sabemos que ele vai ser miserável e vai causar sofrimento não só a nós, mas também aos nossos? Temos de esperar pela decisão de Deus - esse, que eu e tantos outros não acreditamos que existe? 

O que aconteceu ontem entristeceu-me profundamente. Porque conheço casos, porque acho que nesta situação me consigo pôr no lugar do outro, porque já desejei que um ente querido morresse para não o ver sofrer mais e porque sei que não estou livre de um dia uma destas situações me bater à porta. Nem eu, nem ninguém. E eu acho que todos aqueles deputados que ontem votaram não, se um dia se virem em situações onde eles próprios ou os seus passam o dia com dores crónicas, diarreias constantes, bacias constantemente atestadas com vomitado, algálias enfiadas em sítios que não queriam e toda a sua qualidade de vida anulada e confinada a uma cama, vão pensar no momento em que tomaram essa decisão. E no egoísmo que foi e no sofrimento que se podia poupar a tantos, que vão ter de continuar a esperar. A esperar pela sua morte ou esperar que a sociedade mude de ideias em relação ao que fazer sobre a vida de cada um de nós. Que hipocrisia, acharmos que podemos mandar assim na vida dos outros.

(A sorte deles - e a nossa sorte - é que agora é uma questão de tempo até isto mudar. Tal como mudou com o aborto. Tal como mudou com o casamento gay. Porque, cada vez mais, cada um sabe de si. Graças a Deus! - irónico, não é?)

01
Mai18

Quando é que devemos parar de esperar pelos outros?

Acho que nunca cheguei a publicar um texto que há tempos escrevi sobre o facto de ter medo de não estar a "viver a vida" - aquela expressão que, em jovens, todos ouvimos vezes sem conta. "Vive a vida!", dizem-nos os mais velhos enquanto olham o horizonte, claramente revivendo momentos da sua juventude... ou então pensando em tudo aquilo que não fizeram e queriam ter feito.

Isto aterroriza-me. Há um medidor de vivências? De qualidade de vida? Será que o pessoal que curte ao máximo a vida universitária - entre praxes, festas, bebedeiras e queimas - viveu mais do que eu, que não gosto de nada disso? Será que se eu me tivesse obrigado a presenciar isso tudo faria de mim uma pessoa mais feliz (que, ao fim e ao cabo, é o objetivo de estarmos vivos)?

Este conceito confunde-me muito, mas também me atemoriza. Não pelo que não vivi (porque já lá vai e tenho a certeza que aquilo que preenche o conceito de "viver a vida" da maioria, não corresponde ao meu), mas pelo medo que tenho de não viver. Porque por um lado sou nova e tenho a vida pela frente; emas também porque por outro sou nova e é aqui, nesta fase, que o melhor da vida acontece.

Isto - e o facto de estar numa fase altamente contemplativa - tem-me colocado inúmeras questões. Nem eu sei o que é "viver a vida", mas penso que para além de tudo aquilo que já tenho e que é essencial (que em linhas gerais se pode descrever como saúde, família e trabalho) acho que, para mim, tudo o que me faz sentir mais viva, feliz e inspirada é viajar e ouvir espetáculos ao vivo. E por isso comecei a fazer contas e a pensar: "se eu quero viver a vida, é isto que tenho de fazer". O próximo verão em particular pareceu-me  a altura ideal para pôr isto em prática, uma vez que, se tudo correr planeado, terei tempo e dinheiro no bolso. Mas rapidamente me apercebi que faltava só um detalhe nesta equação: as pessoas.

Este "detalhe" não é de hoje, é mesmo algo transversal na minha vida (lembro-me de ter doze anos e jogar monopólio sozinha, porque não tinha com quem jogar) e também um tanto ao quanto paradoxal: sei que não posso viver sem os outros, não quero viver sem os outros, mas também preciso de uma quantidade muito maior que o normal de tempo só para mim.

Já há muito que aceitei o facto de ser assim - o que não quer dizer que lide bem com isso todos os dias, até porque diariamente são-nos impostos novos desafios e as coisas vão modificando. Até aqui todos me diziam para esperar, que com as diferentes fases viriam novas pessoas e que tudo acabaria por surgir naturalmente. Mas acho que se enganaram, provavelmente por o defeito não estar nos outros, mas em mim. Não fiquei com muitos amigos do secundário, fiquei com ainda menos da faculdade e do trabalho também não tenho ninguém que leve de férias. 

E, se pensarmos bem, as duas coisas que destaquei como o meu sinónimo de "viver a vida" fazem-se, normalmente, com companhia. Companhia que eu, normalmente, não tenho. Por isso, olhando para o quadro geral de tudo o que quero fazer, dos "anos de ouro" que tenho pela frente e para as poucas pessoas que tenho no meu caminho, pergunto-me: vale a pena continuar a esperar? Vou continuar a não ir a concertos como o do Sam Smith porque não tenho ninguém que goste das músicas dele? Vou deixar de ir ao cinema à noite porque não tenho ninguém que queira sair do sofá? Vou esperar que o teatro do Harry Potter em Londres acabe porque os meus pais ficam com o coração nas mãos por eu viajar sozinha? Vou deixar de ir à Islândia porque ninguém tem dinheiro para lá ir? 

Sempre tentei que esta minha péssima característica (a solidão crónica) nunca me impedisse de fazer as coisas de que gosto. Da mesma forma que, em miúda, peguei no tabuleiro do Monopólio e comecei a jogar sozinha, também aprendi a relaxar, pegar no carro e ir ver um filme sem ninguém. Mas estou a chegar a uma fase em que sinto que preciso de passar uma linha que, até agora, restringia as atividades a fazer em grupo. É estranho ir a um concerto sozinha. É estranho viajar sozinha. É estranho ir experimentar um restaurante novo sozinha. É estranho para mim e é terrível para os meus pais que sofrem por tudo isto. Mas até quando é que é suposto eu esperar? Quando é que é aceitável eu atirar a toalha ao chão, aceitar que é assim, que sou assim, e que isto não deve mudar? Quando é que eu devo parar de esperar pelos outros para viver a minha própria vida?

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