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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

19
Dez17

A praga dos jantares de Natal (ou a desilusão com os britânicos)

Carolina

No último fim-de-semana estive duas noites em Inglaterra, onde fui buscar um dos meus sobrinhos para vir passar o Natal connosco. Já lá tinha ido uma vez em Novembro, mas nunca tão perto do Natal, o que me permitiu chegar a uma conclusão: se acham que marcar uma mesa em Portugal por esta altura do ano é um filme, nem vos passa o que acontece em Inglaterra. Eles são maluquinhos por jantares de grupo natalícios!

Não estou a gozar quando digo que achei mesmo que não ia conseguir jantar. Éramos quatro e fomos entrando em todos os restaurantes que vimos à procura de mesa. Um. Dois. Três. Quatro. Nada. “Fully booked, I’m sorry”. Estava tudo a abarrotar pelas costuras e eu a ver que iamos acabar no Domino’s para ir buscar uma pizza e comer no hotel. Por sorte, acabamos por entrar num restaurante italiano que tinha uma mesinha onde nos conseguimos encaixar, engolindo algo o mais rapidamente possível, para fugir daquele barulho infernal mal pudemos.

Porque para além de cheios de gente e cheios de barulho, os restaurantes estão cheios visualmente. Eles vestem-se a rigor! E não falo só daqueles corninhos de renas que nós pomos por brincadeira ou daqueles óculos com uns pais-natal: são mesmo fatiotas, de alto a baixo, com direitinho a sapatinho de vela vermelho e tudo. Fatos de Pai Natal, tuxedos pintados nataliciamente, camisolas de malha com desenhos de pinheirinhos, flocos e bonecos de neve, gingerbreads, bengalinhas e tudo o que mais têm direito... Isto para não falar das coroas de papel que toda a gente usa, por saírem sempre em forma de brinde nos típicos crackers - que, para quem não conhece, são uns “rebuçados” feitos em papel com uns brindes lá dentro, que fazem “crack” quando se abrem. Enfim, uma festa!

Isto para não falar dos bêbados. O meu quarto de hotel ficava no sexto andar e às tantas da manhã eu ainda ouvia gritos, risos e garrafas a cair no chão - cujos vestígios, partidos em mil pedacinhos, ainda se notavam bem na manhã seguinte. Já me tinha apercebido disto, mas a cultura de cair-para-o-lado-de-tanto-beber ainda está mais implementada lá do que cá, o que é absolutamente decrépito. No restaurante onde ficamos, um rapaz caiu para o lado em cima da mesa e um dos amigos puxou-o de tal forma que ele varreu os pratos e os copos cheios de cerveja para o chão, qual cenário de filme. A melhor parte? Deixaram-no ficar ali, caído, enquanto foram fazer qualquer coisa - nem um ficou lá! - e, quando voltaram, passaram por cima dos vidros, da cerveja e das pizzas como se um tapete de pétalas de rosa se tratasse.

E eu adoro Inglaterra, sempre disse que se um dia tivesse de emigrar era para lá que iria e, confesso, durante alguns anos o meu homem idílico era um rapaz com british accent - lembram-se daquela velha máxima "don't worry if you're single, God is saving you for a British boy"? - mas, de cada vez que lá ponho os pés, sinto-me mais distante daquele estilo de vida. Adoro as cidades (isto que vos conto foi em Bristol, a sul de Londres) mas a forma de estar de quem lá vive não coincide com a minha - ou, pelo menos, com aquilo que pensava dos ingleses. Talvez fosse uma ideia irrealista. Talvez seja eu que estou mais intransigente a cada dia que passa. Ou então talvez seja apenas a época natalícia a dar com toda a gente em doida. Tudo é relativo: até a praga dos jantares de Natal, para os quais nunca mais vou olhar da mesma forma depois desta experiência. Aqui em Portugal somos uns autênticos meninos.

10
Dez17

Os filmes podem ser chatos, mas são uma cópia da vida

Carolina

Desde muito cedo que me recordo do meu pai de máquina na mão, a tirar fotografias ou a filmar todos os eventos importantes de família, ajuntamentos, ocasiões engraçadas ou simplesmente momentos do dia-a-dia. Sou uma privilegiada por ter fotografias e vídeos de todas as fases da minha vida - mesmo aquelas em que eu não gostava de ser fotografada! Mas de uma forma gradual acabei por ser eu a ficar com a câmara na mão: primeiro porque sempre gostei de fotografar, depois porque tirei um curso e me acho com competências suficientes para tirar boas fotos e porque, tenho de admitir, eu sou muito chata e passo a vida a dizer para o meu pai não tirar fotos com a câmara dele, para tirar com a minha que é melhor, e isto e aquilo - o que acaba, ainda que não propositadamente, por fazer com que a tarefa recaía sobre mim.

Mas, se repararem, eu referi-me sempre a fotos. Eu tiro fotos e adoro tirar fotos. Mas vídeos - outra das coisas que o meu pai fazia imenso - não é a minha praia. Sinto-me capaz de filmar alguma coisa de forma decente, se necessário, mas não é daí que retiro grande prazer. E nem é tanto por filmar, mas mais por depois por ver os filmes; porque a verdade é que eu acho sempre os filmes um tanto ao quanto entediantes - inclusivamente aqueles que eu faço! Acho que quando estamos com uma câmara na mão, e como somos incapazes de prever o futuro, vamos filmando e filmando até termos algo digno de aparecer no nosso filme; algum conteúdo bom, algo que pensemos "isto vai ser giro de ver daqui a uns anos" - mas, nisto, passaram-se minutos. Minutos de pessoas a fazer a mesma coisa, minutos de conversa fiada que não interessa a ninguém, minutos a ver as crianças a descer nos escorregas do parque aquático, minutos a observar o não-sei-quem a dar os primeiros passos, minutos a ver a muda da primeira fralda. E se somarmos todos estes minutos, em todas estas ocasiões... são mesmo muitos minutos. E quando pegamos em cassetes ou CD's antigos para ver, as primeiras filmagens passam-se bem, mas depois quase nunca resistimos em pegar no comando e clicar no forward, à procura de conteúdo que capte a nossa atenção.

E é por ter consciência disso - por perceber que a menos que exista um cuidado imenso da parte de quem filma e posteriormente na edição, os filmes são uma seca - que eu praticamente não faço filmes. Mas nas últimas semanas tenho-me apercebido que faço mal que, apesar da fotografia ser a minha real paixão, eu não devo deixar as filmagens de lado. Porque apesar de ter passado dezenas de horas embrenhada em filmes caseiros, da vida corriqueira da minha família onde muitas vezes nada de especial se passava, reconheço agora que tudo aquilo é um privilégio. Há coisas que as fotografias não captam e que só os filmes passam realisticamente. Os maneirismos, os tiques, o movimento, a forma de sorrir, a forma de sentar ou de cruzar a perna, o movimento das mãos de alguém. E a voz! Ouvir a voz de alguém que já faleceu, quase como se ainda estivessem cá... é quase irreal. Infelizmente os meus avós maternos morreram quando eu era pequena o suficiente para não me recordar e tudo o que eu sei sobre eles, em termos físicos, foi graças aos filmes que vi, muito mais do que as fotografias.

Continuo a achar que ver filmes pode ser entediante, mas cada vez mais percebo que as partes "chatas" destes vídeos são, na verdade, a parte realística da coisa. É a vida a passar, o dia-a-dia. O menino a brincar, a menina a dormir, a senhora a estender a roupa; os aniversários, os natais, as passagens de ano podem ser mais divertidas e bagunçadas que tudo isto, mas os momentos do banho, da sesta, os primeiros passos, as primeiras palavras ou um passeio no jardim não deixam de ser mais importantes. 

Vou passar a filmar mais para que um dia, se algum dos meus sobrinhos (ou eventualmente, ainda que pouco provavelmente, um filho meu) se lembrar de fazer algo parecido com o que eu estou a fazer por estes dias, se possa lembrar das nossas vozes, das nossas maluqueiras, mas também da calmia das nossas vidas.

05
Dez17

Duas considerações sobre a rádio

Carolina

Já há muito tempo que ando para escrever isto, mas nenhuma das ideias é grande e desenvolvida o suficiente para escrever um post indivídual sobre cada uma delas. O tema de ambas é a rádio. Isto porque há muitas coisas na rádio atual que me irritam e outras que eu simplesmente acho curiosas, pelo que me surgem muitas vezes ideias para dissertar sobre este tema. Apesar de estar sempre sintonizada, não sou fiel a nenhuma estação: salto entre a Comercial e a Mega Hits (as principais) e a Cidade e a RFM. Quando só passa publicidade - o pior praga das rádios hoje em dia - ou simplesmente não estou no mood, ligo a pen que tenho com músicas e venho o caminho todo ao som da minha própria banda sonora. Mas enfim, vamos aos dois pontos que hoje quero abordar:

 

1) O conceito de músicas "novas". De cada vez que um locutor da Rádio Comercial anuncia uma música nova eu tenho vontade de mandar um murro eletromagnético, que atravessa o éter, e chega diretamente à bochecha do dito radialista. Isto porque a música nunca - mas nunca! - é nova. Ela pode ser nova na Rádio Comercial, mas não é nova para o resto do mundo. Acho que ainda hoje eles chamam à "Too Good at Goodbyes" a "música nova do Sam Smith". E daqui a um par de meses, quando a "Pray" virar single ou sucesso de vendas - porque tem qualidade para tal - voltará a ser a "música nova do Sam Smith", ainda que já tenha saído num álbum que, na altura, já terá saído há meio ano. Isto não acontece em todas as rádios - na Mega Hits, a rubrica "Lugar às Novas" tem de facto conteúdos inéditos para os meus ouvidos - mas na Comercial é todos os dias. E é irritante. Porque isso não são músicas novas - são os hits do momento!

 

2) Os vídeos. Percebo perfeitamente que hoje em dia as rádios - como tudo, aliás - tenham de estar presentes em todos os meios e redes sociais. É através deles que vejo muitos dos seus conteúdos, quando não os consigo ver em direto. Mas, para mim, a rádio perde a magia quando eu a vejo em vez de só a ouvir. E isto acontece com quase tudo, mas principalmente com a Mixórdia de Temáticas, onde apanho um balde de água fria quando me lembro de ver um vídeo em vez de ouvir o podcast. Adoro o Ricardo Araújo Pereira mas não seguia esta rubrica com particular atenção: quando ouvia, óptimo; quando não ouvia, também não ia procurar. Mas por vezes aparecia-me o vídeo no feed do facebook ou alguém me mandava por achar que eu ia gostar e o meu pensamento é sempre o mesmo: parte da magia da rádio desaparece. Isto porque vejo que ele está a ler - assim como todos os outros, em participações que parecem naturais e espontâneas quando se ouve na rádio - e que tudo aquilo, afinal, é mais do que pensado. E é lógico que eu sei disso, sei que tudo aquilo é escrito ao pormenor para ter piada, mas quando uma pessoa está no carro, concentrada no trânsito e a ouvir aquelas histórias como pano de fundo, descentra-se da irrealidade de tudo aquilo. E é aí que está a magia e é essa a receita do sucesso: tudo parecer tão natural que tem mesmo muita piada. Não sei se há mais pessoas como eu mas esta é a razão pela qual eu, de uma forma geral, evito ver os vídeos daquilo que se passa por detrás dos microfones e prefiro usar a minha imaginação (ou capacidade de abstração) enquanto ouço o que se passa do outro lado. Até porque, como quase sempre, as imagens que criamos na nossa cabeça são normalmente muito melhores que a realidade.

04
Dez17

Eu julgo as pessoas pelos seus carrinhos de compras

Carolina

Julgar é feio, eu sei. Mas, na verdade, isto não se trata bem de um julgamento: é mais um conjunto de ideias, características e histórias que eu obtenho através daquilo que as pessoas levam nos seus carrinhos de compras e pela forma como agem quando estão numa fila de supermercado - e, em minha defesa, posso também dizer que faço o exercício inverso. Ou seja, penso muitas vezes "o quê que as pessoas pensariam de mim perante os produtos que tenho aqui em cima do tapete?"

Isto depende muitos dos dias, do meu estado de humor, da má-língua e até do tipo de compras. Sobre aquelas pessoas que compram poucas coisas - muitas vezes aquisições de última hora ou os ingredientes para o jantar - eu tento adivinhar quais os pratos que vão sair dali; em compras mais substanciais, tento mesmo decifrar o estilo de pessoa, passando primeiro pelos produtos e depois para uma avaliação superficial do próprio indivíduo. Vejamos algumas das categorias que costumo encontrar:

- Os saudáveis (onde se incluem também as fit, que não são necessariamente saudáveis, mas pelo menos parecem): o carrinho está frequentemente recheado de proteínas, carnes brancas, skyrs, óleo de coco, aveia e coisas assim; esta é talvez a tipologia mais rara.

- Os "não-saudáveis": estas não são, necessariamente, as que trazem mais gordices no carrinho, mas sim aquelas pessoas que às vezes têm filhos e lhes levam pacotes de todos os cereais possíveis - estrelitas, chocapic, kellogs com frutos vermelhos -, iogurtes gregos de caramelo, bolachinhas dos crocodilos, rissóis e pizzas congeladas. Dou sempre por mim a pensar "será que esta senhora sabe a quantidade de açúcar que está naqueles cereais?" e na falta de clareza que há neste sentido, não sendo este um julgamento necessariamente pejorativo (no sentido de pessoas gordas, por exemplo) mas sim de alguma desinformação.

- Os gulosos: estes, ao contrário dos não-saudáveis, sabem bem o que levam no carrinho - e que, no caso das mulheres, se vai transferir diretamente para as ancas e, no caso dos homens, para a barriguinha. Chocolates, gomas, sugos, gelados. Tudo uma maravilha... mas não há bela sem senão, e nós sabemos disso.

- Os caça-promoções exagerados: detetam-se à distância através dos carrinhos estilo monopólio - só levam um tipo de produto em quantidades abismais e ridículas, que só um exército é que é capaz de deitar abaixo durante um mês inteiro, seguido, e sem pausas. Mas estava em promoção, por isso vale a pena.

- Os cupõezaólicos: este tipo de pessoa não se vê bem pelo conteúdo do carrinho - a menos que sejamos, também nós, cupõezaólicos e saibamos que tudo o que está ali é patente de uma promoção - mas sim pelos dezassete minutos que as pessoas demoram a ir buscar os cupões, a procurar os cupões, a ler os cupões, a entregar os cupões, a guardar os restantes cupões. Enfim. Cupões e cupões e cupões.

- Os esperançosos: bastante comum no dia dos namorados - uma rosa, morangos e preservativos. É fácil tirar-lhes a pinta.

- Os desorganizados: isto não tem que ver com o conteúdo do carrinho, mas sim com a forma como as coisas estão arrumadas. Estas pessoas chumbaram na disciplina do tetris e estão matam um obsessivo-compulsivo de cada vez que atiram impiedosamente mais um item para dentro do carrinho, não respeitando a regra do mais-pesado-por-baixo e outras coisas que tais;

- Os jovens pré-ressaca: o vodka mais barato da secção, copinhos de plástico e nada para comer, que é para o álcool bater o mais rapidamente possível e eles nem se lembrarem que aquela noite existiu;

 

No fim disto tudo, e fazendo uma avaliação global da minha pessoa, gosto de pensar que sou uma boa mistura entre o saudável e o guloso. Ou então sou simplesmente aquela pessoa que vai só buscar pão e que mal põem o pé fora do supermercado já está com uma bucha na boca, o que me abre toda uma nova categoria: a esfomeada. Assenta-me que nem uma luva.

03
Dez17

Um throwback aos anos 90

Carolina

Como vos disse no outro dia, estou embrenhada num projeto natalício que, embora me esteja a roubar todas as horas livres, fins-de-semana e até algum sono, me tem dado muito gozo. Estou a recolher todos os vídeos que tenho da família para depois fazer um apanhado geral do nosso "desenvolvimento" e a ideia é mostrar o resultado final na Véspera de Natal, quando estivermos todos (ou quase todos...) juntos, para rirmos e chorarmos em conjunto, como uma família deve fazer.

E isto tem-se revelado numa autêntica viagem ao passado, não só por passar horas e horas (só neste fim-de-semana prolongado foram pelo menos umas oito...) a ver vídeos de família antigos - quando os meus tios ainda tinham cabelo, quando os meus irmãos eram adolescentes e os da minha geração ainda usavam fraldas ou ainda não eram sequer um plano - mas também por ter de voltar a manusear materiais que, hoje em dia, já são quase uma relíquia. Tem sido muito engraçado voltar a trabalhar com cassetes e câmaras antigas e a reaprender coisas que já muitos nem sabem o que são. Neste momento, o meu quarto é quase um salão vintage: entre dois leitores de VHS e umas quantas cassetes, três (três!) máquinas de filmar em vídeo 8 e uma dezena de cassetes também neste formato e ainda uma câmara mais recente - também de cassete, embora mais pequena -, é só mesmo o freguês escolher.

Isto porque apesar de eu querer é ver os vídeos, muitos deles estavam ainda em formato analógico, portanto tive de ir um passo atrás no processo e antes de ver o que quer que seja, tinha de arranjar uma forma de passar o conteúdo para formato digital. Fui à procura, perguntei a quem de direito, e pus logo mãos à obra: tentei arranjar um leitor de VHS para ler as cassetes, pedi emprestada a máquina de filmar do meu pai para ler os Vídeo 8 e ainda arranjei, por pura acaso, os cabos e o software para gravar os conteúdos no computador. E isto seria fácil se tudo corresse bem - o que, como é lógico, não foi o caso!

Trabalhar com equipamentos com mais de 20 anos tem os seus problemas - a idade e os anos sem funcionar têm consequências. Primeiro fui buscar o leitor de VHS do meu irmão, que estava ligado e a funcionar cinco minutos antes de o ter metido no saco; quando o voltamos a ligar, pzzzzzzzzz. Foi-se. Morreu ali, nas nossas mãos, quando há pouco antes estava aparentemente de boa saúde. Felizmente tinha um plano B - a minha irmã - que me emprestou o dela. Depois foram as câmaras de vídeo; tinha duas cá em casa. Ligamos a primeira, ela acorda e, um segundo depois, dá um flash de luz e morre. Segundo óbito nessa semana. Tentei a outra máquina - funcionava, até filmava, mas com muitos problemas ao nível da leitura de cores e imagem... não servia. Com bastante esforço, o meu irmão conseguiu uma emprestada, que foi o que me safou.

Depois foram as cassetes. Logo na primeira que pus no leitor, a fita ficou presa. O pânico, o horror, a tragédia: era um vídeo muito importante, sem cópia, que não podia ficar estragado. Lá se resolveu, com muitos "ai mãe, ai mãe!" pelo meio. Na segunda capelinha em que fui bater à porta para obter mais relíquias, ponho a cassete dentro do leitor e nada - passava a vida a cuspi-la. Quando fui ver, a fita estava partida. Abriu-se a cassete, cortou-se um bocadinho da parte danificada e com mãos de cirurgião colaram-se as duas partes. Ficou funcional! Aconteceu o mesmo com outra - que era Vídeo 8 - mas, infelizmente, o resultado não foi o mesmo. E custou-me muito não saber o que estava ali dentro e andar a cortar fita - mesmo, com tesoura! - e saber que estava a cortar memórias, pessoas, momentos.

Ando muito cansada à custa desta brincadeira, porque a quantidade de horas passadas em frente a este ecrã têm sido claramente demasiadas, mas isto tem-me dado um gozo imenso e conteúdo para muitos posts e pensamentos. Mas hoje, enquanto destruía aquela cassete para tentar recuperar, tive um daqueles momentos profundos em que de facto me apercebi da passagem do tempo: hoje em dia não estamos habituados a cortar coisas, a fazer algo definitivo. Eu senti um pesar tão grande de cada vez que dava uma tesourada ou que a fita se rasgava, não sabendo o que estava ali, e pensei que se tudo isto tivesse no computador eu simplesmente fazia CTRL+Z e voltava atrás em qualquer erro, em qualquer nanosegundo que não quisesse cortar e que, mesmo se fizesse delete ao ficheiro desejado, tinha sempre a reciclagem onde o ir buscar. Antigamente as coisas eram mais difíceis, mais cruas, mais definitivas, mais limitadas - mas se calhar também mais saborosas. As dores deviam doer mais, mas as alegrias se calhar tinham mais ênfase. Hoje é tudo feito tão rápido que nem queremos saber. E estes dias, estas horas em que tenho passado entre vídeos, cassetes e a resolver problemas do século passado, fizeram-me dar ainda mais valor a estas pequenas coisas, que hoje achamos tão simples, mas que antes requiriam uma perícia e uma motricidade fina que não era para todos. Tem sido bom regressar ao passado.

20
Nov17

Viver num mundo de beijinhos, passou-bens e acenos

Carolina

Nos últimos meses, por questões de trabalho, tenho vindo a conhecer mais pessoas do que o normal. Aliás, muitas vezes nem é conhecer, as pessoas são-me simplesmente apresentadas: "muito prazer" para trás e para a frente, "foi um gosto, até à próxima" e adeus. Mas quer sejam situações em que falamos mais com as pessoas e passamos a conhece-las e até conviver com elas ou simplesmente apresentações mais formais, há sempre uma questão que se coloca: como é que cumprimentamos alguém no primeiro contacto? Beijinho, passou-bem ou um simples aceno de cabeça?

Eu acho que neste tipo de coisas cada um cria as suas próprias regras - o pior é que as regras nem sempre coincidem e algumas situações tornam-se um tanto ao quanto desconfortáveis: um dá a mão e o outro já tem a cara estendida para um beijo; ambos já têm o cumprimento de mão dado mas, naquele impasse, ainda dão um beijo por cima enquanto as mãos estão juntas; há uma hesitação estranha tipo vai-não-vai e fazem apenas um ligeiro aceno de cabeça e um trejeito com a boca como quem diz "foi quase, não percebi o que aconteceu, mas foi estranho"

Eu sou pouco dada a toques e a intimidades por isso a minha primeira reação é sempre estender a mão - pelo menos no que diz respeito a homens. Penso que em mulheres está muito universalizado o beijinho - resta saber se é um ou dois, o que ainda vem tornar toda esta questão mais complexa - e só não o faço quando percebo que há um distanciamento maior do que normal ou quando são de outras culturas ou religiões que entendo que não têm o hábito de dar a cara logo à partida. Mas nos homens é que está o busílis da questão.

Acho que é lógico para todos nós que um beijo é mais íntimo que um aperto de mão - e, por isso, eu opto quase sempre pelo passou-bem. Mas há outra questão deveras pertinente: a higiene. Apesar de nos parecer mais "próximo" cumprimentar alguém de beijo, e embora possamos pensar na quantidade de germes que por ali andam e em "quantas bocas e sítios é que esta boca já passou?", a verdade é que apertar a mão é provavelmente menos higiénico, uma vez que é a nossa ferramenta para tudo nesta vida: para nos apoiarmos nos corrimões, para tirarmos o dinheiro do bolso, para fazermos festinhas aos cães ou - aquilo em que todos pensamos - irmos à casa de banho (e depois não lavarmos as mãos).

Apesar disto, a questão "intimidade" costuma-me pesar mais e eu não dou grandes hipóteses: mal vejo a pessoa já estou de mão em riste. Mas por vezes noto que não era aquilo o esperado ou que estranham o facto de uma mulher dar um passou-bem de forma tão convicta. Mas o mais engraçado é que, se for o caso de ter uma conversa, um jantar ou algo mais próximo, já me é natural deixar que se despeçam com um beijo. E quando saio deste tipo de situações dou sempre por mim a pensar "o quê que mudou nesta hora para já passar de um comportamento para o outro?". A verdade é que eu acho que mudou muito pouco: apenas nos habituamos à presença uns dos outros, o que não quer dizer que não continuemos a ser estranhos. Mas tudo isto não se colocaria se, simplesmente, tivéssemos dado dois beijinhos à partida.

Da mesma forma que há um livro de estilo nos jornais, um livro de marca para as empresas ou um livro de instruções para os eletrodomésticos, devia acontecer o mesmo connosco - ...pelo menos em algumas situações. Isto de viver numa sociedade com beijinhos, passou-bens e acenos é muito complexo.

19
Nov17

Desabafos de uma autodidata

Carolina

Desde muito miúda que me lembro que um dos elogios que a minha irmã mais me tecia era de eu ser autodidata. Não me recordo sobre o quê que ela se referia na altura, mas a verdade é que com o passar os anos essa foi uma característica que de facto eu fui apurando e gostando mais e mais em mim. E, acima de tudo, penso que ela é movida por uma outra característica: eu detesto pedir ajuda. Posso estar perdida numa vila qualquer, posso não encontrar o fermento no supermercado, posso não saber de onde veio uma t-shirt que encontrei numa loja e que quero num tamanho acima: mas antes de pedir ajuda utilizo todos os recursos à minha disposição para tentar encontrar as minhas respostas.

E eu percebo que nem toda a gente seja como eu. Penso que também já nasci numa geração onde é fácil encontrar as respostas à maioria das nossas dúvidas - saco do telemóvel, vou ao google e encontro o que procuro; ou vou ao maps, ao Youtube, ao TripAdvisor ou o que quer que seja. Vivemos numa era em que só é inculto quem quer, porque quase todos temos acesso a esta cena incrível que é a internet. Ainda assim, desculpo as pessoas mais velhas, que não nasceram com um telemóvel no bolso e com a certeza de que aquilo não serve só para fazer chamadas, mas sim que todo o mundo cabe ali dentro. Mas a preguiça é algo que eu tenho mais dificuldade em aceitar - e acho que muitas das "dificuldades" que muita gente tem não passam disso mesmo. Porque é mais fácil perguntar a quem sabe.

Mas como é que eu sei dar uns toques em html e css? Como é que eu sei trabalhar em photoshop, premiere e lightroom? Olhando para os programas, tentando, errando, pesquisando, querendo fazer sempre mais que o básico. São raras as vezes em que trabalho nestas ferramentas e que não faça uma pausa para ir ao youtube e pesquisar qualquer coisa que comece com "how to...". Porque é assim que hoje em dia se faz: não é em livros, não é em enciclopédias, não é com CD's que vêm em revistas especializadas. As coisas evoluem tão rápido que não dá sequer tempo para escrevermos e lermos sobre elas. É fazer e aprender; e aprender mais depois disso.

Por isso aflige-me que as pessoas tenham medo de clicar, de fazer asneiras, não tendo sempre em mente que nos programas quase tudo é reversível; aflige-me que estejam sempre a perguntar se "é aqui?" sem ler aquilo que está escrito, sem tentarem fazer um raciocínio lógico; aflige-me que o seu primeiro recurso aquando de qualquer dúvida é chamar o nome de alguém que acham ser entendido em vez de o fazerem pelos seus próprios meios; e aflige-me que me digam "um dia destes tens de me ensinar a trabalhar com este programa".

Porque a verdade é esta: as coisas aparecem feitas, eu na prática sei funcionar com os programas, mas não sei ensinar ninguém a trabalhar com o que quer que seja para além do básico. Eu aprendo à medida que trabalho: eu faço asneiras, volto atrás, tento de novo; eu pesquiso depois de não conseguir, tento, não consigo, pesquiso de novo, tento de novo; às vezes decoro os truques, outras vezes tenho de procurar de novo aquilo que outrora já soube; não tenho manuais, não tenho coisas escritas. Aquilo que eu tenho é prática, são horas de trabalho, é a capacidade de não desistir aos primeiros erros nem com a frustração. É capacidade de pesquisa, de encontrar respostas. Porque eu ajudo, mas não sou o Google: e muito menos um manual de instruções.

Se querem fazer, é porque acham que conseguem. E se eu consegui aprender, os outros também podem. Por isso mexam-se. Os tempos mudam - tentem mudar também.

01
Nov17

A subtil arte de fazermos crescer melhores versões de nós próprios

Carolina

Já há algum tempo que percebi que de cada vez que conheço alguém novo posso ser, também eu, uma pessoa diferente. E a liberdade de estar solta de preconceitos, de ideias predefinidas que os outros podem ter de nós é maravilhosa, porque podemos optar por sermos quem quisermos, a melhor versão de nós próprios. 

Tenho noção de que este talvez seja um conceito difícil de perceber, mas eu vou tentar explicar. Acho que todos interpretamos papéis na sociedade e eles são todos diferentes consoante quem nos rodeia: eu não sou com os meus pais a mesma pessoa que sou com os meus amigos, nem estou no trabalho como estou no ginásio. São posturas diferentes, personagens construídas ao longo do tempo - e que, como tudo o que é construído, tem de ter a sua coerência. O que quero dizer é que, por exemplo, eu não danço em frente dos meus amigos - porque eles passaram comigo a fase em que eu tive aulas de dança, em que esse era o meu momento mais embaraçoso da semana, e presenciaram a altura em que eu disse "nunca mais na vida danço!". Assim como não bebo uma Somersby, nem que me apeteça, em frente aos meus colegas de trabalho, porque já afirmei, veementemente, que não toco em álcool. Também não saio à noite, mesmo que esteja num mood especial, porque já habituei os outros a que esse não é um hábito meu. E o mesmo se pode dizer em relação a tantos, tantos outros comportamentos a que habituamos os outros e que chega a um ponto em que não é fácil contrariar.

Eu acho que esse tipo de "regras" se criam porque, de facto, nós as impomos a nós próprios: eu, de facto, não danço, não bebo álcool, não saio à noite. Mas pode haver uma noite em que me apetece fazer tudo isso, mas não o faço, porque me custa sair daquele padrão que criei para mim; porque sei que quem me conhece vai olhar e pensar que eu não estou bem.

Não se tratam só de atitudes ou atividades: passa também por humores, estados de espírito, traços de personalidade. Lembro-me perfeitamente de estar na fisioterapia, numa das piores fases da minha vida, e o fisioterapeuta me dizer "lá vem a miúda sorridente". E, no entanto, eu estava a cozinhar uma depressão. Aquela era a minha personagem na fisioterapia: feliz, comunicativa, faladora, esperançosa. O choro deixava-o para as viagens de carro e antes de adormecer. E foi aí que eu percebi que, em circunstâncias diferentes, podia ser quem eu quisesse, apenas com uma condição: tinha de ser coerente, porque há que manter um comportamento constante. E é assim que se constroem facetas.

Os meus pais são as pessoas que me conhecem melhor. É aqui em casa que eu me deixo ser a versão mais pura de mim mesma – que, por acaso, é das versões que menos gosto, porque carrega sempre uma carga demasiado negativa. Apesar de achar sempre que os outros têm uma ideia errada de mim – penso que amigos e restante família me acham severa e sisuda, quando na realidade até consigo ser bem divertida – tenho a noção de que no dia-a-dia, tal como acontecia na fisioterapia, não tenho uma aura assim tão negra. Posso ter dias piores – e eles distinguem-se à distância – mas, de uma forma geral, sou uma miúda bem disposta pelos lugares por onde circulo: no trabalho, no ginásio, no piano.

Não sei porquê que no final do dia me cai tudo em cima. Acho que é um problema de núcleo: o pessimismo, a negatividade e a depressão fazem parte do meu íntimo, daquilo que sou. Mas viver um dia-a-dia positivo ajuda. E não sei até que ponto é que as facetas que vamos encarando não se tornam, de facto, em nós próprios. É lógico que todas as personagens que interpretamos ao longo do dia (e da vida) também fazem parte de nós, mas é difícil distinguir qual é a mais pura delas todas, aquela que se aproxima mais da versão menos trabalhada de nós próprios. Não seremos um mix delas todas?

Eu, por vezes, gostava de mudar a ideia que as pessoas que me conhecem há muito tempo têm de mim. Porque acredito que no meio de tantas facetas e mudanças (que as há, inevitavelmente, ainda que não acredite em transformações profundas), mudei para melhor: mas chego a um ponto em que não me sinto à vontade para o demonstrar, acho que ninguém se pode acreditar que aquela "outra" pessoa também sou eu.

É por isso que agora aproveito as oportunidades que tenho para deixar a Carolina antiga em casa e tentar construir uma nova imagem à volta de mim própria, de forma consciente, ponderada e coerente. O estúdio de piano tem sido uma lufada de ar fresco e o local ideal para pôr isto em prática. Lá, todos temos pelo menos um denominador comum: gostamos de música. Mas a experiência tem sido ainda mais enriquecedora porque, de facto, não é só a música que nos une. O grupo de alunos é super eclético: homens e mulheres, dos 14 aos 60, passando de médicos a arquitetos, jornalistas a professores, estudantes a políticos. Não faltam tópicos de conversa – e se não gostamos de um, não faltam outros tantos possíveis de abordar. Ajuda o facto de já sermos todos adultos, estarmos ali por vontade própria, sem fretes ou obrigações (como acontece com a maioria das crianças que aprendem piano, como já foi o meu caso) e de querermos usufruir ao máximo de todas as experiências, incluindo o convívio uns com os outros.

E tem sido bom perceber que eu posso, de facto, ser descontraída. Que posso não ser uma control freak. Que não tenho sempre de marcar posições vincadas, de não gritar ao mundo a minha personalidade acentuada e feitio difícil. Que posso até ser desinibida, ser a primeira a tocar ao piano, falar com os outros sem problemas. É bom perceber que podemos e conseguimos ser uma versão simplificada de nós próprios - nem que seja só de vez em quando. Nem que seja na esperança de que esse de vez em quando passe a estado permanente.

22
Out17

Relembrar o gosto da leitura

Carolina

Há dias estava a pensar na evolução que fiz enquanto apreciadora de letras – de escrita, de livros, de leitura – e de como isso me mudou enquanto pessoa e, acima de tudo, em como alterou o rumo da minha vida. E cheguei à conclusão de que sou uma “leitora auto-construída”.

Eu nunca na minha vida pensei seguir um caminho que envolvesse letras. Nunca. Passei os meus primeiros anos de escola a odiar português – não tanto como educação física, mas quase. Não gostava de descodificar textos, não gostava de escrever, não gostava de ler, odiava fazer ditados (devido à quantidade absurda de erros ortográficos que dava), não percebia nada de gramática e tinha um ódio de estimação por trabalhos de casa longos, que obrigassem a grandes dissertações. Tinha notas miseráveis, nunca passava de um 3 medíocre na pauta e era uma das disciplinas que estava sempre condenada à desgraça.

Até ao dia em que comecei a ler, por impulso da minha irmã – devia ter os meus 13 anos. Não era a primeira vez que tentava, já tinha pegado no Harry Potter e nos livros de Uma Aventura, mas nunca tinha resultado – desistia sempre. E lembro-me de gostar do primeiro livro que li de uma ponta à outra, mas de nunca ter sido uma coisa natural: a mão não ia buscar o livro à mesinha de cabeceira de forma instintiva, não era algo que eu desejasse por antecipação. Era quase como ir ao mar quando a água está fria: custa muito lá entrar, mas só quando lá estamos é que percebemos o quão bom aquilo é. E quando saímos o ciclo volta a ser o mesmo: está frio, dá vontade de não entrar, esquecemo-nos do bom que é estar lá dentro e por isso estamos em constante negociação connosco próprios.

Hoje sei que a leitura é, acima de tudo, um hábito. São rotinas que se criam, a que depois de sucedem ciclos viciosos. E depois há incentivos que cada um vai criando para si próprio: para mim, há poucas coisas que me sabem tão bem como gastar dinheiro em livros, por exemplo; o prazer de deambular por uma livraria e trazer os escolhidos para casa é enorme; escrever críticas sobre o que acabei de ler é outra coisa que me dá gozo, assim como trocar impressões sobre escritores com outras pessoas que também gostam de ler. Tudo isso me dá prazer. Mas tudo isso se esquece com facilidade.

É engraçado como mudei o rumo da minha vida à custa das letras, por algo que inicialmente odiava. Hoje, escrever é uma parte essencial do meu trabalho, e é curioso ver como isso aconteceu por uma série de escolhas. Neste caso, não posso dizer que as letras me escolheram a mim: porque fui eu que as escolhi a elas. Foi por elas que bati o pé a ciências e a quase todos os que me rodeavam. E começou em nada, num pequenino ódio de estimação, inicialmente contrariado pelo meus familiares, e depois por mim, de forma sucessiva.

A minha relação com as letras – e nomeadamente com a leitura – é parecida com aquilo que devem ser as relações dos casais. Segundo ouço, o segredo é irem-se apaixonando uma e outra vez – mas, pelo meio, há sempre períodos de desamor, em que é preciso ter paciência e lentamente saber reaprender a amar, talvez até por razões diferentes.

Apesar de ter continuado a escrever (ainda que menos..), já há algum tempo que os meus hábitos de leitura deixaram de ser o que eram. Nunca li trinta livros num ano, nunca fui um bicho-papão, mas já há uns anos para cá que gostava de manter uma média razoável de leituras que, nos últimos dois anos, caíram a pique. E eu fiquei desgostosa. Perdi o hábito da leitura, em todas aquelas situações que me auto-ensinei a ler. E quando lia era por obrigação, numa tentativa de retomar o hábito e não por gostar daquilo que se estava a passar enquanto folheava as páginas – e depois de várias tentativas falhadas, desistia, escondia o livro como quem se esconde de vergonha, e tentava esquecer.

Mentia se dissesse que essa fase já passou. Estou a fazer por voltar a ler – a comprar livros que me intriguem, a voltar a pôr um livro na mesinha de cabeceira, a deixar de pensar que tenho demasiado sono e negociar comigo mesma uma leitura de um capítulo - mas não é fácil voltar a hábitos que não nos são inatos. E eu detesto dizer isto! Detesto dizer que a leitura - algo tão importante para mim e tão relacionado com a escrita - não é uma coisa que vive em mim permanentemente. Mas, de facto, não é. E, de tempos a tempos, temos de nos voltar a reconquistar. E cá estamos nós para ir à luta.

19
Set17

Há mesmo tempo para tudo?

Carolina

Lembro-me de há uns bons anos ler um post num blog de alguém que se queixava de falta de tempo. Eu ainda estudava - provavelmente ainda no secundário - e sei que pensei "pfff, ou isto é falta de organização ou falta de vontade; se fosse eu a querer mesmo fazer algo até roubava umas horas de sono se fosse preciso!". E a verdade é que, na grande maioria dos casos, isso continua a ser verdade: na minha opinião, muitos dos que se queixam de falta de tempo ou são mal organizados ou preguiçosos. Curiosamente, aqueles que aparentemente têm menos falta de tempo são os que mais fazem!

Acho que muitas vezes estas questões são até uma bola de neve: alguém que faz muito pouco, tende a fazer muito pouco. Alguém que faz muito, tem tendência a querer fazer ainda mais. E eu sei-o porque sou o perfeito exemplo disso: nas minhas terríveis fases letárgicas, o problema agrava-se com o tempo porque me vou sentindo gradualmente inútil, cansada e desmotivada; quando estou espevitada para a vida, preencho a agenda, deito-me feliz e contente, faço trinta por uma linha e ainda quero fazer mais no dia seguinte.

Mas há dias em que realmente falta tempo? Há. Principalmente para pessoas como eu, que têm uma terrível tendência para deixar alguns trabalhos para a última e, quando chega à deadline, têm todos os segundinhos preenchidos e estão prestes a ter um esgotamento nervoso. Mas essa falta de tempo é algo constante? De todo. Porque a questão "falta de tempo" baseia-se em dois conceitos básicos: organização e prioridades.

Dei por mim a pensar naquilo que há uns anos tinha dito a mim mesma sobre essa pessoa que se queixava que as 24 horas do dia não eram suficientes para si e concluí que talvez tenha sido um bocadinho dura (como sou muitas vezes, bem sei). Porque, de facto, eu acho que há tempo para tudo: mas antes disso é preciso fazer uma análise a toda a nossa vida, aos nossos gostos, às nossas prioridades, aos nossos hábitos e saúde - e há fases em que não conseguimos fazer essa leitura de nós próprios, porque já estamos demasiado enterrados em nós mesmos. Hoje sei que há coisas que, embora gostemos de fazer, acabam por cair por terra - porque há outras coisas de que gostamos mais (aka prioridades). Agora dificilmente diria que "se fosse eu, até roubava umas horas de sono se fosse preciso!", porque eu preciso mesmo muito de dormir. Gosto de dormir, de me deitar cedo e acordar com as galinhas, de forma a aproveitar o dia e não andar a rastejar pelos cantos durante o dia. A minha vida mudou - na altura em que pensei isto deitava-me facilmente às duas da manhã, acordava às 7:30h e dormia um par de horas durante a tarde -, assim como tudo o resto.

Estou numa fase de reajustamento. Durante um ano dediquei-me inteiramente ao trabalho e, apesar dos primeiros meses terem sido realmente preenchidos e sem tempo para dramas - para além de estarem recheados de novidades -, os restantes não foram assim tão bons. E eu senti que agora tinha de me dedicar a mim. Inscrevi-me nas aulas de piano, troquei de ginásio, montei a minha própria agenda, fiz um plano de posts aqui para o blog. E agora ando aos apalpões, a ver o que resulta ou não para mim, o tempo que sobra - e, acima de tudo, o que fazer com ele. Ou seja: organizando-me. E apercebo-me que, para além de ter deixado de fazer algumas coisas de que gostava - por gostar mais de outras -, há também atividades que são substituíveis.

Neste momento, por exemplo, estou empenhada em terminar a série Game of Thrones. Durante o dia não tenho muito tempo, por isso, regra geral, vejo um episódio antes de ir dormir. Isto rouba-me, para além de cerca de meia hora de sono, o meu período de leitura. E sim, há demasiado tempo que eu não leio um livro: e isso entristece-me, é uma coisa que eu quero retomar, mas percebo que só quando terminar a minha maratona de GoT é que vou voltar a ter este hábito. São duas atividades que ocupam o mesmo espaço na minha vida - o lazer e a hora pré-sono. E eu, para usufruir de uma, tenho de abdicar de outra. É claro que podia ver a série e depois ler um par de páginas - mas a concentração já não é a mesma e o tempo que roubo ao sono continua a contar. Lá está: as famosas prioridades.

Acho que ser adulto é isto, este paradoxo estranho: perceber que temos tempo para tudo mas que esse "tudo" é relativo. Porque, na realidade, não é tudo. Não é "o tudo" que cabia na nossa vida quando andávamos no básico e tínhamos meia hora de recreio, três meses de férias e três dias de gazeta no Carnaval. Quando crescemos, o "tudo" é aquilo que é essencial e um bocadinho mais para além disso. O "tudo" são as escolhas que fazemos mas que, na maioria dos casos, completa um leque suficientemente grande para ser capaz de nos satisfazer, de nos cansar e fazer felizes. Porque continuo a achar que todas aquelas pessoas que se queixam cronicamente de falta de tempo, se tivessem três meses de férias, continuariam a queixar-se do mesmo. Porque é crónico. Tal como o tempo, que é igual para todos - só resta saber vive-lo (e preenche-lo) da melhor forma.

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