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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

02
Out18

Budapeste, a incrível capital da Hungria

“Budapeste, cortada por um rio. O Danúbio, pensei, era o Danúbio mas não era azul, era amarelo, a cidade toda era amarela, os telhados, o asfalto, os parques, engraçado isso, uma cidade amarela, eu pensava que Budapeste fosse cinzenta, mas Budapeste era amarela.” 

Chico Buarque

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É isto. As palavras de Chico Buarque dizem tudo. Não vale a pena estar cá com paninhos quentes: Budapeste ganhou-me no momento em que, na primeira noite, subi ao Castelo. Foi o momento "wow" que precisava nesta viagem e foi, sem dúvida alguma, o mais impactante de todos. Quando observei a cidade toda iluminada lembrei-me de algumas fotos que já tinha visto e soube que esta também seria a imagem que ia guardar para o resto da vida. Budapeste ganhou-me ali, sem sequer a ver à luz do dia. E, é engraçado, pensei que nunca a vista de dia bateria aquela paisagem noturna. E se por um lado não bateu, por outro não deixou de me surpreender, mais uma vez. De dia, a cidade continuava linda, mas uma beleza diferente, quase reinventada.

Budapeste são, na verdade, duas cidades: Buda - o lado da colina - e Peste, o lado plano. Pelo que percebi há uma certa rivalidade - ainda que saudável - entre os moradores de cada lado. Buda, dizem, é para os mais endinheirados, enquanto que Peste é o lado das pessoas "normais". Os dois lados são separados pelo rio Danúbio, tão celebrizado por uma obra de Strauss - há várias pontes que possibilitam esta passagem, a mais conhecida é a Ponte das Correntes (onde infelizmente não passei a pé, mas que me parece inspirada na ponte de Brooklyn, em Nova Iorque). Eu fiquei do lado de Buda, o mesmo do Castelo - daí a facilidade de ter subido até lá na noite da minha chegada -, e o oposto ao Parlamento.

 

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A Igreja de Matias de noite

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A vista do Panteão dos Pescadores, de noite. Ao fundo a Ponte das Correntes

 

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O Parlamento iluminado durante a noite, visto do Panteão dos Pescadores

 

 Acho mesmo que o Castelo e o Parlamento são os dois edifícios que nos fazem cair o queixo em Budapeste, tanto de dia como de noite. Estive, para além da primeira noite, um dia e meio na cidade - e as visitas em cada uma das manhãs corresponderam, precisamente, a estes dois locais. 

A área do Castelo (como podem ver no mapa abaixo) é gigante: isto porque o Castelo não é só o monumento em si, mas também aquela parte da cidade. Dentro do perímetro dos ex-libris, também conhecido por cidade medieval, estão a Igreja de Matias e o Bastião dos Pescadores, entre outros edifícios também conhecidos (se não me engano, um era um antigo convento das Carmelitas). Era aqui que antes viviam as pessoas importantes do reino (daí ser um castelo), mas ultimamente toda a parte institucional da Hungria (nomeadamente o governo) está do lado de Peste. Segundo a nossa guia isso pode estar prestes a acabar, uma vez que este Governo tem a intenção de se "mudar" outra vez para Buda. Em jeito de má língua, contou-nos também que o Primeiro-Ministro (sim, aquele que adora os migrantes) pretende ficar num gabinete em frente ao Danúbio, onde vai acrescentar uma varanda para poder ver melhor as vistas. Só os invejosos dirão que é má ideia ;)

A Igreja de Matias é bonita, imponente e incrivelmente branca (a entrada é paga). Digo isto porque as igrejas (principalmente muito trabalhadas) tendem a ficar escuras (e mais feias) ao longo dos tempos, dada a dificuldade de as limpar. Esta está impecável, num estado de conservação formidável, e tem um telhado em cerâmica lindo de morrer. O seu interior também é bonito, em tons de laranja. Uma das peças mais importantes, com uma história ligada à Segunda Grande Guerra, é uma Nossa Senhora negra, que está numa das capelas a igreja. A pior coisa deste duo Igreja-Bastião dos Pescadores foi um "trio" que se lhes juntou - o Hotel Hilton, um autêntico monstro feio ao lado daqueles monumentos incríveis. É uma pena. Só demonstra o poder do dinheiro.

 

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O Mapa do Castelo

 

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A Igreja de Matias

 

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 O interior da Igreja de Matias

 

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Alguns detalhes da Igreja de Matias (a Nossa Senhora à esquerda e uns vitrais à direita)

 

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A vista do Panteão dos Pescadores

 

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 Num dos "spots" mais requisitados do Bastião... e com razão

 

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Um ponto de vista do Bastião dos Pescadores

 

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À saída do Bastião dos Pescadores

 

Um dos photo-stops mais populares é a Praça dos Heróis, onde estão estátuas dos maiores líderes Húngaros e uma homenagem ao Soldado Desconhecido. Se é verdade que é uma praça bonita, também o é que eu não fazia questão de lá ter parado. Sinto que é algo "comum", que se vê em vários sítios. É mais uma. Portanto, se tiverem com um tempo apertado, aconselho a que passem esta à frente ou só de carro. Lá à volta há vários edifícios conhecidos, nomeadamente o do Museu de Belas Artes (neste momento fechado para obras); relativamente perto fica também o Parque da Cidade (penso que é lá que está inserido um lago que, no verão, dá para passear de gaivota e, no inverno, quando ele gela, se pode patinar). Ainda nas redondezas, mencionar o Balneário Széchenyi, com as famosas águas termais da Hungria - não fui lá, mas dizem ser incrível e muito bonito, com 15 piscinas, três delas ao ar livre e, claro, com água quentinha! As termas e os spa's são um must em Budapeste, há ao pontapé... de tal forma que o lago dos hipopótamos, no Jardim Zoológico, é com água termal. Luxos! ;)

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A Praça dos Heróis

 

Foi aqui que acabou a tour do primeiro dia e tivemos ordem de soltura. Optamos por ir conhecer o mercado e eu fiquei espantada com a quantidade de enchidos que eles lá têm. No andar de baixo o edifício tem inúmeras bancas de comida (peixe, carne, verdes e fruta e outras comidas) - incluindo paprika, a especiaria mais famosa da Hungria - e no de cima milhões de souvenirs. Na verdade aquilo é tanta tralha junta que é difícil ter o discernimento e a paciência para se encontrar o que quer que seja, mas não deixa de ser um local muito giro e que merece a visita. No fundo, é o nosso Bolhão mas em bom (até porque parece ter sofrido uma requalificação há relativamente pouco tempo) ou a Boqueria em Barcelona mas, se a memória não me trai, um pouquinho maior.

 

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A fachada do edifício do Mercado

 

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No interior do Mercado

 

A paragem seguinte foi na Sinagoga. Se em Praga acabamos por passar o "capítulo judeu" praticamente à frente, em Budapeste optamos mesmo por entrar (o bilhete não é barato: três mil florins). Nunca tinha entrado numa Sinagoga, em Portugal não há esta abertura, e por isso fiquei feliz por ter esta oportunidade, principalmente tendo em conta que esta é a maior da Europa, a segunda maior do mundo (a primeira fica em Nova Iorque, creio). Por sorte apanhamos uma visita guiada (grátis) dentro do local e acabamos por visitar os arredores do monumento - o cemitério e as várias homenagens que fizeram aos mortos no holocausto e a algumas personalidades que fizeram a diferença (pela positiva) neste genocídio. Aprendi muito, o guia era um senhor fantástico e um comunicador de excelência, e tive muita pena de não ter tempo para ouvir o resto da visita, feita no interior da sinagoga. Tenho a certeza que teria aprendido ainda mais. Achei o local bonito e interessantíssimo - e ainda me ri um bom bocado, uma vez que todos os homens que entram têm de usar um quipá (aqueles "chapeuzinhos" que os judeus usam) descartável, feito de papel. Mas alguns eram carecas e outros não tinham simplesmente cabeça para aquilo, por isso era vê-los sempre a segurar o papel para não voar. Hilariante.

 

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A entrada da Sinagoga

 

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Dentro da Sinagoga (vêem os quipás de papel?)

 

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Monumento aos judeus mortos no Holocausto

 

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Em muitas das "folhas" deste monumento há nomes de pessoas mortas durante aquele período negro; outras estão vazias, em homenagem aos muitos que ainda continuam desaparecidos ou que não há registo de morte

 

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Pelas ruas de Budapeste

 

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Com uma estátua desconhecida atrás de mim mas que ficou bem na foto ;)

 

O segundo dia começou com a subida ao Monte Gellert onde, para além de uma vista muito bonita para o Danúbio e para os dois lados da cidade, está a estátua da liberdade (que se vê de toda a cidade). Confesso que, apesar de ter gostado, não me fez cair o queixo. Não sei se se pode visitar este local de noite, mas desconfio que terá outra magia. No dia em que fui havia uma certa neblina no ar, que fazia com que tudo ficasse um bocadinho mais baço... talvez por isso não me tenha perdido de amores por esta vista. Mas vale a pena, quanto mais não seja para umas fotos bonitas.

 

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O Danúbio e as duas partes da cidade

 

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Uma das vistas do Monte Gellert

 

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A estátua da liberdade

 

A paragem final foi no Parlamento. Na maioria dos sítios este é um edifício que ignoramos, mas em Budapeste é impossível faze-lo: pela beleza, pela grandiosidade e pela riqueza deste monumento que faz esconder o nosso parlamento de vergonha. É incrível e bonito, tanto por dentro como por fora, e por isso merece uma visita. Se o fizerem, informem-se antes e comprem um bilhetes pela internet, porque as filas não eram pequenas; os preços são diferentes para residentes e não residentes da UE, os horários são apertados e as visitas (divididas por línguas - não há em português) entram em tranches, com horários muito rígidos e apertados. 

Aquilo é um parlamento, mas podia perfeitamente ser um palácio. Se a memória não me trai, a guia disse que com o dinheiro que se gastou entre construção e decoração deste monumento se poderia construir uma cidade funcional com cerca 70 mil pessoas, com todas as infraestruturas necessárias. Alguns detalhes interessantes e que eu apontei: tem 700 salas, 4km de passadeira vermelha ao longo dos corredores (que é aspirada todos os dias... por homens) e 20 kms de escadas! A Sala da Cúpula é a mais popular, uma vez que (para além da sua beleza) é o local onde estão as joias da coroa, guardadas por vários guardas com uma cara muito séria - desculpada unicamente pelo trabalho aborrecidíssimo que eles lá desempenham. Nessa área é proibído fotografar.

 

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O exterior do Parlamento

 

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A entrada do Parlamento para pessoas que lá trabalham, não para a "plebe"

 

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A parte traseira do local onde estão as joias da coroa, com umas escadarias imponentes

 

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Detalhes do teto do Parlamento

 

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Numa das salas do Parlamento

 

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A sala da assembleia

 

 A nossa despedida foi feita no maior ícone de Budapeste: o Danúbio! A nossa tour incluía um almoço a bordo de um barco, onde percorremos uma pequena parte do rio e vimos algumas das principais pontes de um ponto de vista diferente. E é só por isso que esta pequena volta pode eventualmente valer a pena: ver as pontes e a cidade de uma outra forma. Enquanto lá estava pensei muito sobre como se compararia aquela viagem à de uma no rio Douro e a verdade é que aqui a viagem é muito melhor; primeiro porque as pontes são mais bonitas e segundo porque as margem são também elas muito mais belas. Cá, mesmo saindo das cidades, há sempre vegetação e um quadro verde pintado a toda a volta; ali eram umas margens pouco naturais e feias, feitas maioritariamente por pedras, o que fazia com que só um lado da cidade (Peste) é que conseguisse ser visto. Ou seja: pode valer a pena se gostarem de andar de barco, de ter outra perspetiva da cidade e, acima de tudo, se tiverem tempo.

 

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O Parlamento visto do rio

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A Ponte das Correntes

 

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No barco

 

Em resumo, adorei Budapeste. Achei-a menos coerente que Praga (no sentido em que tem uma maior diversidade no tipo e no estilo de edifícios e na altura dos mesmos, por exemplo), mas de uma grande beleza. Continuo a dizer que aquela vista do Castelo, no dia da minha chegada, teria sido o suficiente para adorar a cidade. Tal como Praga, é uma cidade bonita de geral mas, ao contrário da capital Checa, tem monumentos que, no seu particular, são estonteantes (como o Parlamento). O facto de ter um rio tão popular (impossível não nos lembrarmos do Danúbio Azul) também faz com que entremos numa aura do nosso imaginário que, só por si, já traz alguma magia à cidade. Uma das coisas que também gostei muito foi a cultura das esplanadas que eles têm: em todos os sítios há cafés para nos sentarmos e aproveitarmos o dia. A Avenida Andrássy e a Váci Utca (esta última pedonal - a primeira não me lembro...) são as ruas mais populares da cidade, cheias de lojas de souvenirs e de compras, que têm mesmo de ser visitadas. 

Mas não há bela sem senão. Para além daqueles elogios todos que Chico Buarque teceu sobre Budapeste, também disse que o húngaro é a única língua que o diabo respeita. Porque o húngaro é mesmo isso: diabólico. Quando achávamos que o checo já era péssimo, fomos presenteados com aquele dialeto completa e totalmente imperceptível e impronunciável. Um terror. A par disso, diria eu, estão os húngaros, com os quais não simpatizei minimamente. Achei-os mal-educados e rudes, com muito pouca vontade de ajudar; no hotel (e apesar de eu não entender uma palavra do que diziam) percebi que estavam a gozar com a nossa cara quando reclamamos a propósito do pequeno-almoço. São uma mistura de europeus-ciganos-móngois. Eu sei que é estranho (pode até soar a preconceituoso), mas é a melhor forma que tenho de os descrever. Não vim de lá fã deste povo.

De resto... muitos corações para Budapeste! Posso confessar secretamente que, da quadra de capitais que visitamos, foi a que mais me encantou. 

 

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Um "cheirinho" da cidade

 

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E mais um, com a sua luz tão característica

 

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... e mais um!

 

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Até um dia, Budapeste!

 

Onde fiquei? No hotel Mercure Buda. Diria que a localização é boa (15 minutos a pé do Castelo), mas a experiência foi no geral má - em grande parte por viajar em grupo. Achei o quarto agradável, confortável e bem decorado, com uma casa de banho espaçosa - mas o pequeno-almoço foi um desastre. Tão mau que valeu uma reclamação por escrito na receção e uma crítica destruidora no TripAdvisor, quando cheguei cá. Havia um espaço de pequeno-almoço reservado a grupos e que era frequentemente invadido por dezenas de asiáticos, que usurpavam tudo o que podiam. E estou em falar de tupperwares em cima de tupperwares cheios de ovos, fruta, pão e tudo o que houvesse, deixando o local - para além de imundo - completamente vazio. Mais do que ter pouco que comer, tinha nojo sequer de pôr os cotovelos em cima da mesa. Foi horrível.

No que respeita à estadia, escolher um hotel em Budapeste é sempre um bocadinho cruel: temos obrigatoriamente de escolher um lado da cidade e vamos ter, eventualmente, de atravessar para o outro de forma a visitar as coisas mais bonitas. Por isso boa sorte!

A saber: A moeda é o mais chato na Hungria porque a conversão não é muito prática e implica muitos zeros. Um euro equivale a cerca de 300 florins. Portanto é normal pagarem valores que, para nós, são absurdos... tipo 10 mil florins por um almoço ou mil florins por um íman. Soa-nos tudo demasiado grande.

Gostei do ambiente noturno da cidade, com muitas luzes e com uma boa sensação de segurança.

Uma das coisas populares em Budapeste são os jantares com música ao vivo e com as danças húngaras, com semelhanças ao nosso folclore. Os músicos são quase todos ciganos (é mesmo, dizem-no sem pudores) e as músicas seguem esse estilo. Um dos jantares de grupo foi num destes locais e eu dispensava mais que muito, mas depende do estilo de cada um. 

O que faltou ver? Acabar de ouvir a visita guiada na Sinagoga, passar a pé na Ponte das Correntes e ir às termas. Ver a Basílica de São Estevão e a Ópera.

17
Set18

Uma breve passagem por Bratislava, na Eslováquia

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A minha passagem por Bratislava não passou mesmo disso: uma passagem. A capital da Eslováquia fica a meio caminho entre Praga e Budapeste, pelo que é a paragem perfeita para esticar as pernas, comer qualquer coisa e fazer mais um "check" na nossa lista de capitais e de países por onde já passamos. Demoramos cerca de 4 horas a lá chegar - saídos de Praga - e depois ainda passamos mais três horas dentro do autocarro para ir até Budapeste. Estava muito preocupada com estas horas de viagem, principalmente tendo em conta que nunca fui muito fã de viagens de autocarro, mas devo dizer que não foi nada por aí além: entre um estado de meio-sono e o embalo da música que pus nos auriculares, a coisa fez-se bem.

Ou seja: eu não posso dizer que conheci Bratislava. Foi um passeio agradável, digamos. Mas a verdade é que fiquei com a ideia de que não é uma cidade que tenha muito que ver e onde compense ir de forma exclusiva, sem passar por outras cidades ou países.

Tivemos cerca de uma hora para passear no centro depois do almoço (curiosamente o restaurante era precisamente em frente à embaixada portuguesa), parte dela feita com uma guia que nos fez uma breve introdução à capital e explicou alguns dos edifícios que vimos. Como só vagueamos por aquela zona, o Castelo de Bratislava - que dizem ser um dos pontos a visitar na cidade - ficou de fora dos planos. Confesso que não fiz grande pesquisa sobre a cidade porque sabia que não ia ter tempo para a explorar. Fui sem expectativas e sem planos - e, com tão pouco tempo, era difícil defraudar qualquer um dos dois.

Como não tenho muito para dizer, prefiro mostrar fotos e legendar com aquilo que sei e as impressões que fui ficando. Ora vamos lá:

 

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A Catedral de São Martinho, uma das maiores e mais antigas da cidade, que foi o local de coroação de vários reis entre 1563 e 1830. Não houve tempo para ver o seu interior

 

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A embaixada portuguesa que, curiosamente, ficava precisamente em frente ao local onde almoçamos

 

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O local onde Mozart deu o seu primeiro concerto, aos 6 anos. Metade das peças que tocou já eram compostas por ele. Um génio. (Nesta fase da minha vida, ai de mim que não tirasse uma foto aqui!)

 

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Provavelmente a estátua mais conhecida e visita de Bratilslava: o Cumil, mais conhecido por Man at Work, que representa um homem deveras trabalhador que nos seus muitos tempos livres se punha nesta posição para espreitar por debaixo das saias das senhoras. Há muitas estátuas engraçadas (e bem feitas) nesta cidade. Podem ver mais algumas neste site.

 

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A estátua de Hans Christian Andersen é outra das tais. De frente pode parecer uma estátua normal, mas nas suas costas estão algumas personagens dos muitos contos infantis que escreveu. Daquilo que percebo, Hans nunca viveu nesta cidade, mas referiu-se uma vez a ela como sendo um autêntico conto de fadas.

 

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A praça principal, que tem uma fonte no centro, e em onde o protagonismo vai para o Old Town Hall, que atualmente alberga o Museu Municipal, o museu mais antigo da Eslováquia, fundado em 1868.

 

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À volta da praça há inúmeros cafés e esplanadas muito agradáveis. Na altura em que fui, havia também uma pequena feirinha de souvenirs e algum artesanato.

 

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A cidade é calma e o espírito é bom, sem grandes correrias, pressas ou multidões de turistas.

 

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Para além de caixas de música de Mozart e de imensas coisas de Klimt (o pintor vienense - não me perguntem porque há coisas dele aqui), os souvenirs mais riquinhos de Bratislava eram estas flores em vidro. Havia de diferentes tamanhos e cores e, quando colocadas naqueles vasinhos de madeira, eram um autêntico mimo.

 

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A apreciar o edifícios, também eles bonitos como em Praga, mais mais pobres. Tudo na Eslováquia é mais pobre do que na República Checa e essa diferença berrante também deve ter contribuído para a divisão dos (agora) dois países. Apesar de tudo, ainda que com um centro histórico pequeno, achei uma cidade simpática. O que lhe falta em ex-libris tem em calmia o que, por estes dias, parece ser raro em quase todas as capitais. É como digo: se estiverem por lá, vale a pena passar uma tarde e fazer o "check". 

 

 

Importa saber: na Eslováquia o Euro está implementado, por isso não há trocas ou contas de cabeça para fazer. Yey!

O que faltou ver? De berrante, o Castelo de Bratislava e o Castelo de Devin, construído sobre um rochedo, à moda do Game of Thrones. A Igreja de Santa Elisabeth, também conhecida por Igreja Azul, também parece ser um local que merece a visita.

15
Set18

Dois dias em Praga, a cidade harmoniosa

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 À entrada do Castelo de Praga, com a bandeira nacional

 

Praga foi a primeira cidade que visitei neste meu percurso. Devo confessar que era aquela da qual guardava maiores expectativas, muito por culpa da (pouca) preparação que fiz antes da viagem, das imagens que fui vendo e do muito que me foram falando dela ao longo dos últimos anos.

A minha primeira perceção da cidade foi um tanto ao quanto vazia; fui dar um passeio de noite, no dia da minha chegada, e não se via praticamente ninguém na rua. Pensei, mais uma vez, na situação não-tão-hipotética de estar lá sozinha e a verdade é que não me sentiria muito segura. Não por me sentir ameaçada, mas pela sensação de que se gritasse ninguém me ouviria - não obstante, toda a gente diz que a cidade é muito segura e que não costumam haver problemas para além dos típicos carteiristas. Nessa mesma noite também comecei a definir a minha opinião sobre o checos, quando os vi no único bar movimentado da zona a pôr as beatas dos cigarros nos cinzeiros que carregaram consigo até ao exterior (pousando-os nos beirais das janelas e noutros sítios práticos, de forma a não as atirar para o chão). Mais uns pontinhos na minha consideração! Ao fim dos dois dias acabei também por os achar acessíveis, numa clara tentativa de abertura ao mundo (depois das consequências de quarenta e cinco anos de comunismo no país) - começando pela língua. O checo é absolutamente incompreensível e apesar de a maioria deles ainda não ser perito no inglês - mesmo as camadas mais jovens - nota-se um esforço grande para comunicar com os turistas.

Já de dia, percebi que o adjetivo que melhor descreve a capital da República Checa é “harmoniosa”. Isto porque Praga é uma cidade linda como um todo, é coerente - não só por fora, mas também por dentro, com bares, hotéis e espaços públicos muito bem decorados, com um ar "cozy" e confortável. Mas se olharmos ao detalhe não vemos nada que nos faça cair o queixo de espanto, como acontece por exemplo em Itália. Tudo ali é bonito, limpo e bem tratado (os edifícios são todos reconstruídos - e o que não está, está a sofrer obras de requalificação), ornamentado com as imensas igrejas que por lá há, que pintalgam a paisagem com uns elementos mais ricos e as suas imensas estátuas. Todos os edifícios do centro da cidade (não só o centro histórico, mas também os bairros centrais – na periferia já não é tanto assim) têm um estilo imperial: todos da mesma altura, com majestosas janelas e tons pastel, que fizeram as minhas delícias em cada rua que passei. 

Se tivesse de fazer uma comparação - e já desvendando um bocadinho do post sobre Budapeste -  diria que Praga é comparável ao Porto e a capital da Hungria seria, nesta minha analogia, Lisboa. Isto porque Praga é ligeiramente mais escura, as ruas são mais estreitas, a luz não se reflete em tudo o que se vê. Vi partes que me lembraram Tallin (a saída do Castelo em direção à Cidade Velha), com o seu ar medieval, e outras São Petersburgo, em algumas das avenidas mais amplas. A verdade é que o tempo que apanhei não abonou à boa luz da cidade, mas foi óptimo para passear: estava muito nublado, quase sempre a ameaçar chover, mas tal acabou por nunca acontecer. Isto fez com que o passeio fosse fresco e que não tivéssemos de estar constantemente a parar em sombras e a beber litros de água para conseguirmos continuar a caminhada.

 

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Se por um lado o tempo ajudou ao passeio, houve um "pormaior" que dificultou a nossa vida em Praga: a mala da minha mãe não chegou connosco, por isso passamos parte do tempo que estaríamos a conhecer a cidade atrás de algumas roupas que ela pusesse usar caso a mala não chegasse durante mais um dia - felizmente chegou (seria muito mau se não chegasse, porque dali a dois dias já seguiríamos caminho para outra cidade) e o resto da viagem decorreu de forma normal.

O circuito que compramos previa dois dias na República Checa, mas só um dia em Praga - o segundo seria passado em Karlovy Vary, a cidade balnear mais famosa do país, que fica a cerca de duas horas e meia de autocarro. Ainda antes de partimos, eu e os meus pais tínhamos decidido não ir com o grupo a este sítio: se dois dias em Praga já é pouco, um dia muito menos. Pesquisei, vi fotos e de facto a cidade balnear é muito gira - mas, para nós, não compensava passar cinco horas dentro do autocarro quando estava numa outra cidade linda que ainda me faltava conhecer. Assim, fizemos uma tour conjunta na manhã do primeiro dia e tivemos essa tarde livre, assim como todo o segundo dia. 

A visita começou no Castelo de Praga, a morada do presidente checo. Devo já adiantar que esta foi provavelmente a tour que, para mim, foi pior gerida: passamos muito tempo em sítios que não mereciam tanto destaque e não fomos a outros locais que devíamos ter ido. A Catedral de São Vito é um exemplo: apesar de ser o símbolo maior do Castelo acabamos por não visitar, por supostamente estar uma missa a decorrer (embora eu tenha visto um grupo a entrar na igreja). Por fora é bonita, mas tenho a certeza que valia a pena a ida ao seu interior - para além das suas inúmeras capelas, túmulos e vitrais amplamente conhecidos, é lá que estão as jóias da Coroa, dentro da Capela de São Venceslau - algo que está literalmente fechado a sete chaves, cada uma delas distribuída por várias pessoas importantes para a cidade ou para o país (como o Presidente da Republica, o Primeiro-Ministro, o Arcebispo e etc.). Se quiserem saber mais sobre esta catedral, este site tem imensas informações sobre todos os seus recantos.

 

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Um dos pátios do Castelo

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Catedral de São Vito

 

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Uma das entradas da Catedral

 

A Rua do Ouro é outra falha grave: não passamos por lá - se não me engano, é uma das partes pagas da visita ao Castelo - mas é geral a opinião de que este é um dos sítios a visitar: inicialmente era a rua onde viviam os guardiões do Castelo, mais tarde ourives (daí o seu nome) e depois passou a ser povoada por mendigos e delinquentes. Coincidência ou não, foi lá - no número 22 - que viveu Frankz Kafka durante parte da sua vida.

 

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 Basílica e Convento de São Jorge - atualmente alberga a coleção de arte boémia do século XIX da Galeria Nacional de Praga

 

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Numa das entradas do Castelo 

 

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No miradouro junto à entrada do Castelo 

 

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Já ia preparada para apanhar avalanches de gente em tudo o que era ruas da cidade, apesar daquele primeiro impacto inicial depois do passeio noturno. No entanto, acho que me mentalizei de tal forma para isto que, quando lá cheguei, não foi assim tão mau; talvez o tempo mais escuro tenha afugentado algumas pessoas das ruas, mas a verdade é que já testemunhei muito pior (neste momento lembro-me de Dubrovnik, que por vezes se tornava intransitável). Frisar, no entanto, as paletes de turistas asiáticos que se veem em todas as cidades por onde passei. É i-na-cre-di-tá-vel. É um bocadinho chato dizer isto, mas estamos a ser invadidos. E a presença deles faz-se sentir em grande parte porque andam sempre todos juntinhos - desconfio que andam religiosamente atrás dos guias, até porque não sabem falar outra língua para além da deles - e torna-se difícil ultrapassa-los quando os encontramos em ruas mais apertadas ou espaços já por si caóticos.

A encabeçar o Top 3 dos sítios mais movimentados de Praga está, sem dúvida alguma, a Ponte Carlos - uma das várias que faz a travessia do rio Vltava (ou, em português, Moldava) . É a mais bonita da cidade e a "residência" de muitos artistas de rua - desde músicos até pintores - o que atrai muitos, muitos turistas. É a ponte que liga a área do Castelo até à cidade velha, por isso é usada de facto para fazer uma rota muito comum, o que ainda piora as coisas no que à afluência de pessoas diz respeito.

 

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Na Ponte Carlos

 

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Um retratista na Ponte Carlos

 

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A Ponte Carlos lá atrás

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O movimento na ponte Carlos

 

Outro dos ex-libris da cidade é o Relógio Astronómico, situado na Praça Velha. Infelizmente, quando lá fui, o relógio (e o edifício?) estava fechado para obras; segundo apurei é suposto tudo estar pronto em Outubro, mês em que se vai festejar o centenário da fundação da Checoslováquia, mas até àquele momento pouco se deslindava por detrás dos panos que o protegiam.

Toda a praça é animada, com estátuas vivas, música e lojinhas de souvenirs e de comida. O que mais se vê é o trdelnik, um doce tradicional um tanto ao quanto difícil de descrever: são uns rolinhos de massa "assados" em forma de cilindro, que se servem simples (com açúcar e canela) ou recheados com gelado. Era algo que, se fosse em Portugal, seria claramente frito: lá, assam-nos quase como nós assamos o porco no espeto, rodando a massa constantemente até ficar cozida e tostada por fora. O veredicto? É um doce engraçado, um bocadinho enjoativo e nada do outro mundo. Experimentem-no, mas guardem o resto das calorias para a verdadeira pastelaria: a portuguesa. Outra coisa que me ficou debaixo de olho foram as batatas fritas, com casca!, servidas num palito gigante. Tinham um ar delicioso, mas nunca chegou a altura certa para as comer.

 

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Ao lado do relógio astronómico (à direita vêem-se os panos azuis que o cobrem devido às obras)

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Uma das igrejas vista da Praça Velha 

 

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Na Praça Velha

 

Se há coisa que eu gosto de fazer numa cidade estrangeira é "perder-me" no seu centro, conhecer as ruas afluentes dos sítios principais e andar um bocadinho sem destino. No fundo, tentar perceber como funciona a cidade fora dos seus locais mais consagrados, ver as pessoas que lá vivem e trabalham. Ao fazer isto, no dia que tivemos livre, apercebi-me que o centro de Praga é relativamente pequeno - embora no mapa as distâncias parecessem muito maiores. Andava por duas ou três ruas diferentes e ia dar a um sítio onde já tinha estado. E para fugir deste ciclo vicioso decidimos sair um bocadinho do centro da cidade e visitar um dos locais que dizem ter a melhor vista de Praga: o Monte Pétrin. Fomos a pé, num caminho feito em grande parte pelas margens do rio, e enquanto apreciávamos os patos bravos que lá nadavam o meu pai reparou num animal dissonante. Não tinha penas, não eram patos. Depois de vermos bem - e de nos perguntarmos inúmeras vezes "será que isto são ratos gigantes?" - percebemos que eram castores. Castores! Nunca na vida tinha visto uns, parecia uma criança no dia de Natal. (Mais tarde fui pesquisar porque estes castores não tinham uma "pala" no lugar da cauda, parecia simplesmente uma cauda nojenta de rato, mas pelos vistos há algumas espécies assim. Lá se foi a ideia "fofinha" que tinha dos castores...).

Não sei se foi uma coisa esporádica ou da época, mas - e já que estamos a falar de animais - nunca vi uma cidade com tantas abelhas. Como andei sempre de casaco amarelo, cor que elas parecem apreciar, fui várias vezes perseguida por estes insetos que estavam literalmente por todo o lado - e em particular nos caixotes do lixo, dos quais eu fugia a sete pés. Diria que foi um milagre ter saído de lá sem uma única picadela.

 

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Segundo li, os castores estiveram "desaparecidos" do Rio Moldava durante mais de 150 anos. Parece que agora estão de volta!

 

A Torre Pétrin (uma "miniatura" da Torre Eiffel, com 51 metros de altura) é o monumento mais conhecido deste alto da cidade, que fica 138 metros acima do nível do rio. Para além disso é conhecido pelos seus enormes jardins, uma igreja (que não vi), um observatório espacial e um labirinto de espelhos. Fiquei um bocadinho chateada porque a vista sobre a qual tinha lido referia-se ao topo da Torre - o que implicava subir mais de 200 degraus, algo para o qual não estava preparada nem tinha particular vontade - e não propriamente ao local em si, cuja vista para a cidade está maioritariamente impedida por árvores e outros tipos de vegetação. Acabei por ir ao labirinto de espelhos, que é giro, mas que não é um labirinto - é apenas um caminho curto com espelhos, que dá para tirar algumas fotos giras, mas pouco mais para além disso. Para quem tiver tempo e coroas checas em excesso na carteira (a entrada custa 180), aconselho; caso contrário, munam-se de água, toalhitas para o suor e uma camisola de manga curta e subam até à Torre. 

 

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Torre Pétrin - a foto parece a preto e branco, mas não é: o dia estava mesmo assim

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No labirinto dos espelhos, no Monte Pétrin

 

Como nesse dia estávamos sozinhos e sabendo que íamos andar de um lado para o outro - e tendo em conta que o nosso hotel era relativamente longe do centro (informações sobre o sítio onde fiquei no fundo do post) e tinha elétrico praticamente à porta - optamos por comprar o bilhete de 24 horas que é transversal para todos os transportes públicos (podem comprar nas estações de metro - muitas só aceitam moedas - e nas tabacarias), que nos custou 110 coroas checas (pouco mais de quatro euros). A frequência dos elétricos é bastante boa e o seu funcionamento é intuitivo, desde que tenham um mapa convosco e saibam os sítios para onde querem ir. Foi assim que subimos até ao Monte Pétrin (através do funicular) e que voltamos para o centro da cidade, de elétrico.

Por entre os passeios ainda houve tempo para ver umas montras giras e de passear no bairro judaico, onde há cinco sinagogas (onde é permitida a entrada). O sítio mais conhecido deste bairro é, no entanto, o cemitério, onde se estimam que estejam enterradas mais de 100 mil pessoas (e onde estão 12 mil lápides). O bilhete que dá acesso a todos estes locais custa 300 coroas checas (o equivalente a 12 euros), mas optamos por não visitar, em grande parte porque já se aproximava a hora do fecho e íamos ter de andar a correr de um lado para o outro.

 

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Numa montra de brinquedos 

 

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Numa "ilha" vertical no meio da cidade, com roupa a secar

 

Referir, por fim, que Praga transpira cultura: muito mais do que os artistas de rua, Praga tem imensos teatros, espalhados por tudo quanto é sítio. A nossa tour incluía uma peça de teatro negro (chamada WOW), que acabou por me surpreender muito pela positiva. Pelo sítio onde foi e pelo número de pessoas envolvidas no espetáculo, calculo que seja algo com um low-budget, mas os efeitos visuais eram muito giros e, diria até, surpreendentes. O pior da peça foi mesmo a história, praticamente impercetível: uma mistura entre sonhos, a natureza e os seus elementos... qualquer coisa estranha. Mas foi uma hora engraçada, que valeu algumas gargalhadas.

 

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Um dos teatros no centro de Praga

 

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A Torre da Pólvora, uma das mais conhecidas da cidade

 

Podendo, é sem dúvida uma cidade a visitar. Diria que três dias inteiros dão para muitos passeios calmos, muitas fotos e, claro, (para quem gosta) muitas paragens nos bares para beber a típica cerveja! 

 

Onde fiquei? Por ter feito uma excursão, os hotéis onde fiquei não foram escolhidos por mim. Mas em Praga tive sorte: fiquei no Penta Hotel, um hotel giríssimo, em que a receção era um bar e onde todo o espaço de lobby era recheado de mesas (tinha restaurante - bastante bom para o nível de um hotel), sofás, um bilhar, playstation e todas essas coisas giras. Era também lá que eram servidos os pequenos-almoços (bons e completos). O quarto era giríssimo, super bem decorado e confortável; as amenities eram super originais e cheirosas. Tinha wi-fi grátis (sinal fraquinho) e um Lidl a um minuto a pé, o que dá jeito para comprar frutas, bolachas e líquidos para andarmos abastecidos durante o dia inteiro. Lado menos positivo: ficava um bocadinho longe do centro.

Importa saber: Apesar de fazerem parte da União Europeia, não adotaram o Euro - o que para nós, gente já pouco habituada a ter de trocar moeda e fazer contas, é um bocadinho chato. Um euro representa cerca de 25 coroas checas. A língua checa é impossível de perceber, por isso ou se recorre ao inglês ou à linguagem gestual. Boa sorte em ambos os casos! ;)

O que faltou ver? A Rua do Ouro, a vista da Torre Petrín e do Parque Létna, a Lenon Wall, o cemitério judeu e o Relógio Astronómico a funcionar. Ah!, e fazer um retrato na Ponte Carlos.

11
Set18

Fazer uma excursão: como é, vantagens e desvantagens

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 A vista do meu lugar no autocarro

 

Apesar de o blog ter andado pacatamente normal na última semana, quem me acompanha nas redes sociais deve ter-se apercebido que os últimos dias tiveram pouco de calmo. Na verdade, foi um corropio. Durante uma semana passei por Praga, Bratislava, Budapeste e Viena – um percurso que fizemos de autocarro com um grupo e um roteiro muito bem definido, cansativo quanto baste.

Depois de nos dois últimos anos termos feito cruzeiros, e já tendo esgotado as nossas rotas preferidas (nomeadamente na Europa), decidimos que este ano íamos fazer algo diferente. Há muito tempo que as capitais da Europa central pairavam nas nossas cabeças e algures no início do ano fomos a uma agência de viagens e acabamos por nos decidir por esta alternativa - o circuito "As 4 Capitais da Europa Central", feita pela Nortravel. Os meus pais já tinham feito uma coisa deste género nos Estados Unidos, para mim foi uma estreia. E, como em tudo na vida, tem vantagens e desvantagens - que vou passar a enumerar abaixo, assim como alguns detalhes que acho importantes.

 

AS PESSOAS

A forma mais fácil que eu tenho de descrever isto é dizer que fazer uma excursão em grupo é quase como um regresso à escola, mas numa permanente visita de estudo. Ao todo éramos 23 (eu era a única desemparelhada – a culpada por sermos um número ímpar - e, claro, a mais nova do grupo) e, como seria de esperar, vínhamos todos de contextos e sítios diferentes, com uma formação e educação muito distintas. Era um grupo bastante heterogéneo, em todos os sentidos. Havia o palhaço, havia o tímido, havia a-Maria-vai-com-todos, havia a estridente, havia a “mãezinha”... havia de tudo, tal e qual uma turma de liceu! E, como é lógico, surgem rapidamente empatias com uns e distância de outros, tal como acontece numa turma – e grupos, claro. Ao fim de dois dias os elementos das mesas já estão praticamente definidos, assim como quem se sente atrás e à frente do autocarro (eu não disse que isto era como na escola?!).

Confesso que para mim foi estranha a falta de abertura que houve logo de início. O grupo era maioritariamente de pessoas mais velhas (com média entre os 50 e 60 anos, provavelmente) e talvez isto seja algo geracional, mas a verdade é que saí da excursão sem saber o nome de muita gente. Acho que na minha geração temos logo a tendência de nos apresentarmos, dizermos de onde somos, o que fazemos, que idade temos; talvez aqui, por ser de alguma forma evidente que os contextos socio-económicos eram distintos e serem pessoas com outros hábitos, tal não aconteceu. Parecia que estava tudo no segredo dos deuses, o que não ajudou a uma interação completa entre todos os membros – os viajantes que faziam parte do mesmo “grupinho” iam sabendo mais entre si, todos os outros tendiam a ficar na ignorância. Apesar disto, a convivência entre todos era simpática, ainda que de alguma circunstância. Acredito que um mau grupo – ou simplesmente um grupo onde alguém não se integre – possa fazer a diferença numa viagem deste tipo.

 

AS GUIAS

Não há uma turma sem professora. Neste caso tínhamos uma guia, que nos acompanhou do princípio ao fim da viagem, e que era quem tinha de pôr toda a gente na linha – um papel que não invejo. Não é fácil para uma rapariga, na ordem dos seus 30 anos, pôr ordem num conjunto de pessoas que têm idade para ser pais dela – e alguns homens que, sendo homens, não apreciam que sejam uma mulher a impor as regras. Mas a verdade é que não há alternativa e há que ser muito rigoroso: se há alguma coisa essencial nestas viagens é, por exemplo, a pontualidade. Houve uma situação em que dois elementos se atrasaram e tudo ficou um bocadinho em alvoroço. A gestão de pessoas é, em todas as áreas, o maior desafio de todos – e aqui não é exceção.

Para além desta guia principal, com quem tratávamos de todas as questões práticas (era ela que definia o horário e o plano do dia) havia, em cada uma das cidades, uma guia local que nos levava e descrevia os locais com mais pormenor. Curiosamente foram todas mulheres e todas falavam português – algo indispensável, pois vários membros do grupo não sabiam falar inglês.

 

AS REGRAS

Eu ficava fula sempre que as pessoas se punham a reclamar dos horários, dos tempos para isto e para aquilo. Quem se mete neste tipo de viagens tem de perceber que isto não funciona sem regras rígidas, que têm mesmo de ser cumpridas. Se são do tipo de pessoas que gosta de acordar ao 12h, passear relaxadamente pelas avenidas e ainda fazer um retrato pelo caminho numa das ruas pedonais mais famosas da cidade... esta modalidade de viajar não é a indicada para vós. Também não é o ideal para quem gosta de passar dez minutos atrás da fotografia perfeita. Nem para quem é demasiado independente.

Primeiro havia hora para acordar. E não, não era definida pelas pessoas: era a guia que definia a wake-up call à hora pretendida, por isso ou acordam... ou acordam. Nos dias de viagem entre cidades havia também uma hora para colocar as malas à porta do quarto (cerca de uma hora antes da saída do hotel) para que não tivéssemos de as carregar e estas pudessem ser contadas e colocadas dentro do autocarro. E, claro, havia horas de saída e de pontos de encontro. Todos os tempos livres eram contados ao minuto e a tolerância para atrasos era baixa – até porque em alguns sítios os autocarros só podiam parar por escassos momentos, por isso era problemático se a contagem das pessoas não desse o número certo à hora marcada.

No fundo, a única coisa que é preciso fazer (para além de não ser preguiçoso) é pôr as regras de civismo e boa educação em prática, ter em mente que deixamos de ser um só para ser “apenas” um dos membros de um grupo maior, que deve sempre prevalecer nas nossas decisões durante o tempo de viagem.

 

AS VANTAGENS

A maior vantagem é, sem dúvida, ter a “papinha” toda feita. Nem o check-in fazíamos! Chegávamos ao hotel, esperávamos cinco minutos e logo depois tínhamos a chave na nossa mão, já com tudo pronto para nos receber. Esta excursão em particular tinha tudo incluído, por isso até as refeições estavam todas combinadas ao pormenor.

Esta é também  uma forma fácil de conhecer vários sítios num curto período de tempo, com a garantia de que nos mostram os sítios mais emblemáticos e que nos dão a conhecer algum do contexto e da história da cidade, assim como do país. Se não quisermos não precisamos de fazer nenhum tipo de pesquisa à priori – podemos ir completamente às cegas, pois sabemos que vamos ser sempre elucidados pelo caminho. As guias estão sempre disponíveis para dar dicas sobre onde ir, como ir, o que ver e quando ver – ou porque vivem lá ou porque já têm conhecimento de causa para falar, o que evita muitos imprevistos e percalços que acontecem a todos os viajantes que andam por si próprios e partem à descoberta.

É também uma forma óptima de se viajar sozinho, pois apesar de estarmos sem a companhia de alguém conhecido, rapidamente nos entranhamos no grupo e simpatizamos com alguém que se assemelhe a nós. No fundo, é viajar sozinho, mas acompanhado.

 

AS DESVANTAGENS

Para mim, a maior desvantagem é a falta de liberdade e a sensação de que o meu tempo não está a ser gerido da melhor forma – sim, tenho uma veia independentista um bocadinho acentuada. Os minutos estão sempre contados neste tipo de situações e há momentos em que parece que estamos a correr contra o tempo. Lembro-me de estar na Ponte de Carlos, em Praga, e da guia estar a acelerar por ali fora, quando todos queríamos parar e tirar fotos; acaba por ser algo stressante, porque acabamos mesmo por tirar as fotos, mas estamos sempre de olho na bandeirinha de Portugal que ela carrega para tentarmos não a perder de vista e tentar apanhar o grupo com uma corridinha logo depois de todos os clicks estarem feitos. O nosso tempo deixa de ser nosso, para estar a ser governado por outras pessoas – mas é mesmo assim, faz parte das regras quando se entra numa coisa deste género.

Os tempos livres sabem a pouco e há que fazer cedências, que não são poucas: não convém afastarmo-nos muito do ponto de encontro e, de tudo o que gostaríamos de fazer, sabemos que só algumas é que podem ser concretizadas. Nunca há tempo para tudo e, creio eu, nunca aproveitamos as coisas a 100%: estamos sempre a pensar no que vamos fazer a seguir, no caminho que vamos seguir, a forma mais rápida de lá chegar... e quando lá chegamos, mais uma vez, já pensamos em partir para outra coisa qualquer.

A falta de liberdade pode também revelar-se numa coisa tão simples como não poder escolher aquilo que se come às refeições. Eu vim um quilo mais leve, e não foi por ter adorado a comida ;)

E, claro, não esquecer o cansaço que uma viagem destas acarreta. Apesar da maioria das pessoas que faz este tipo de coisas ter idades mais avançadas, a verdade é que isto cansa! Andar sempre com as malas num faz-desfaz constante (mesmo que não as desfaçam na totalidade, como aconteceu comigo), acordar cedo, fazer várias horas de viagem num autocarro, andar a passo de procissão atrás da guia, às vezes debaixo de um sol abrasador... não é fácil. Não se compara a uma praia no Algarve ou em Punta Cana. É para chegar mais cansado do que se foi – com a alma cheia, é um facto, mas com o corpo a pedir umas horinhas extra de sono ;)

 

Nos próximos posts faço uma descrição alargada, estilo diário de bordo, sobre cada uma das paragens desta minha viagem. Podem ler tudo relacionado com ela clicando aqui.

04
Set18

Chávena de letras - "O Projeto Rosie"

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 Ler as primeiras páginas aqui.

 

Achei este livro muito "queridinho". Adoro ler livros sobre pessoas que não se adaptam à sociedade (neste aspeto, esta obra lembra-me um pouco o "A Educação de Eleonor"), talvez porque me fazem sentir melhor comigo própria. Penso sempre: "ufa, afinal há quem seja pior que eu!". Ambos fazem com que esta característica tenha piada, de tão profunda que é e de cenas tão caricatas que proporciona. É a racionalidade levada a limite. 

É uma histórinha impossível de acontecer mas que bem dispõe e cuja escrita é agradável. Nota apenas para o final: não sei se fui eu que estava desatenta, mas não o achei nada óbvio. Tive de pensar, reler e voltar atrás para ter a certeza se percebi bem - e já vi perguntas aqui no Goodreads relacionadas com isso, daí achar que pode não estar tão bem conseguido. 

De resto, óptima leitura de praia.

 

P.S. Esta obra tem uma sequela, chamada "O Efeito Rosie", também editada em português pela Editorial Presença. Talvez o leia em breve.

02
Set18

Pela hora de verão, alé, alé

Eu não fui uma das pessoas que votou na sondagem da União Europeia sobre a mudança da hora. Não fui porque não o consegui fazer no telemóvel, embora tenha tentado várias vezes. E foi por isso com grande alívio que recebi as notícias dos últimos dias, que revelam que cerca de 80% das pessoas que votaram querem acabar com a mudança da hora – algo que eu também quero há muitos, muitos anos (daí ter tentado votar e ter ficado chateada por não ter conseguido).

É claro que agora, como em tudo, se insurgem mil e uma vozes contra. Que seria de uma mudança destas se não tivesse opositores? É mau porque faz mal às crianças, é mau porque as pessoas precisam de dia para acordar verdadeira, é mau por isto, é mau por aquilo. Para mim, a única coisa de mal que esta mudança pode trazer é a aniquilação de um dia muito feliz, que surge inevitavelmente uma vez por ano: o dia em que mudamos para a hora de verão. Por outro lado, também acaba com um dos dias mais infelizes, aquele em que roubamos uma hora de luz ao nosso dia. Por isso é ela por ela.

Acho que todas estas desculpas que os especialistas estão a trazer ao de cima – que, para mim, não passam mesmo de desculpas – se argumentam com casos reais, Como é que fazem as pessoas que vivem mais perto dos pólos? Como é que dormem, vivem e acordam os islandeses (e outros tantos), que têm épocas de só de dia e outras só de noite? E que diferença faz, para a maioria das pessoas, o sol nascer às sete e tal ou às oito e picos da manhã? Nesse período estamos quase todos entre o fim do sono, o acordar, a rotina diária e o sair de casa. Não é muito melhor termos mais uma hora de dia para aproveitar – essa sim, em que todas as pessoas com horários normais estão de pestana aberta e sedentas de sair do trabalho ou da escola com um bocadinho de luz natural, de forma a aproveitar um bocadinho o dia?

Lembro-me perfeitamente de, no meu 8º ano, em que tive um horário estapafúrdio em que acabava as aulas muitas vezes às 18.30h, sair da escola e ser escuro como breu. O cenário repetiu-se certamente ao longo dos anos, mas esse ano marcou-me: era escuro e frio demais, sentia-me como se tivesse a andar na rua às tantas da manhã. Com noite às cinco e tal da tarde uma pessoa tem a tendência para se aninhar e sentir menos viva, de sair menos, de se enrolar numa manta e esconder do mundo. O verão é maravilhoso não só pelo tempo e pelas férias, mas também por ter dias que se esticam e que parecem não acabar. E se podemos trazer um bocadinho disso para o Inverno sombrio, por pouco que seja, acho que chegou a hora de tentar. E não pode ser por acaso que tantas pessoas tenham a mesma vontade. Estou mesmo a fazer figas para que esta medida vá para a frente.

29
Ago18

Vamos falar sobre o "perigo" do Gerês?

Estava ontem no meio de uma insónia, a fazer scroll no facebook, quando me deparei com mais uma notícia que contava o desaparecimento de duas pessoas no Gerês. A pergunta que se impõe é: até quando é que isto vai durar? Até quando é que vão continuar a “diabolizar” uma das zonas mais bonitas do país? Porque a continuar assim, tenho medo que tomem medidas radicais e mais ninguém possa voltar a ver as cascatas.

A verdade é que há três principais razões pelas quais as pessoas morrem, se magoam e/ou se perdem nas zonas das cascatas do Gerês: a primeira é estupidez, a segunda é falta de sorte e a terceira é falta de indicações e condições. As primeiras duas são altamente faladas nas notícias e nas redes sociais, a última parece ser ignorada, quando não devia.

Estou longe de conhecer a região como a palma da minha mão, mas há três anos consecutivos que vou às cascatas - nos últimos dois anos acampei, este ano fiz só uma visita de médico. Já fui a todos os ex-libris - a Portela do Homem, o Arado, o Thaithi, as 7 Lagoas - e desta vez fui a dois sítios menos conhecidos - a Cascata de Pincães e a Cela de Cavalos. E antes de mais nada, é preciso fazer aqui um disclaimer: eu considero-me uma pessoa muito responsável e ajuizada, que corre poucos riscos e que mede sempre as consequências. E, apesar de tudo isso, fui.

Comecemos por analisar os problemas, um a um:

- A estupidez humana. Começa por fazer aqueles trilhos, subidas e descidas de rochas com havaianas. Se cair com havaianas, em solo normal, já é fácil, num sítio daqueles ainda mais. Depois há uma percentagem enorme de pessoas que é incapaz de medir os riscos: já disse aqui que saí várias vezes das cascatas por me sentir agoniada ao ver dezenas de pessoas a saltar, muitas vezes sem sequer testar o sítio onde vão cair, e com rochas no caminho (que, quando um salto não é bem dado e a distância mínima não é assegurada, pode acabar em morte). Depois existem ainda as crianças, que para além de também saltarem (sem reprimendas dos pais) não tomam muitas vezes as precauções devidas, nem durante o caminho, nem enquanto lá estão.

Para mim, as cascatas do Gerês são como o Monte Palace nos Açores: não se deve ir nem com amigos parvos nem com crianças, uma vez que a segurança de ninguém está assegurada e não há margem para grandes brincadeiras. Parte do problema reside também no facto das pessoas acharem que aquilo se trata de uma praia e acamparem nestes locais o dia inteiro - vi várias grupos a fazer aqueles caminhos com lancheiras, garrafões de água e até carrinhos de bebé (quem é que vai com um bebé de colo para estes sítios?!), o que depois dificulta a circulação na própria lagoa, o que faz com que as outras pessoas circulem por caminhos mais perigosos e os acidentes aconteçam.

 

- Má sorte. Está em todo o lado. Ir num dia mau para o Gerês não é uma boa escolha. Basta uma pedra mal assente ou musgo escondido numa rocha para um dia divertido dar para o torto. A única hipótese é ter cuidados redobrados.

 

- Falta de indicações ou condições. Este fator tem quase tanta culpa como o da estupidez humana. Eu acho que a autarquia, de forma a evitar que as pessoas vão para aqueles sítios que só lhes dão problemas, coloca pouca ou nenhuma informação acerca do caminho para as cascatas. O sítio delas está indicado em placas de trânsito mas, quando uma pessoa lá chega, nada. A forma típica de encontrar caminhos é ir perguntando às pessoas que estão a voltar. Lembro-me que nas cascatas do Thaithi a senhora onde estacionei o carro me disse qualquer coisa como "siga sempre pelas oliveiras e depois vire à direita". E, atenção, eu sei distinguir oliveiras, mas no meio de outras 300 espécies e quando se está concentrado em não cair, a tarefa não é assim tão fácil. Desta última vez, em Pincães, disseram-me para seguir sempre o curso de água e já estaria logo lá: o "logo" era meia hora depois, o curso de água acabava num sítio e depois uma pessoa tinha de aventurar. Nesse mesmo dia, para ir à Cela de Cavalos, andei uns 3kms a mais do que devia; no fundo, perdi-me. Tive a sorte de, num certo ponto, ter apanhado rede e visto no GPS que me estava a afastar do sítio onde a lagoa estava sinalizada. E sabem que mais? Eu tinha estado a 300 metros da dita cascata, mas em vez de virar à direita na ponte, virei à esquerda. Uma simples seta faria a diferença! Uma porcaria de madeira lá pendurada. Isto faz sentido?

Mesmo no que diz respeito aos caminhos e aos trilhos, para além das indicações, tudo devia estar melhor definido e em melhores condições. Lembro-me de, nos Açores, existirem grandes desníveis onde eles "inventaram" umas escadas, feitas com troncos de madeira, que não tornava o ambiente menos natural mas que era muito mais seguro para quem viajasse. E os caminhos eram visíveis, não tinham mato a confundir, não tínhamos de nos seguir por indicações fatelas tipo "vira à direita depois das oliveiras". É claro que isso vai dar asneira, sempre, até decidirem que têm de fazer alguma coisa.

As pessoas não vão deixar de visitar estes sítios porque são potencialmente perigosos (ou não sabem que as coisas más só acontecem aos outros?!). Mais: sem as cascatas e as lagoas, o Gerês não teria metade do movimento que tem hoje em dia, incluindo turismo internacional. Está mais que na altura de quem manda naquela zona pôr mãos à obra, valorizar estes locais, dar-lhes mais condições de segurança e parar de se esconder por detrás da peneira, de pesares de morte e de apelos que caem em saco roto. Assim como está na altura das pessoas terem mais noção das suas limitações e dos perigos por detrás destas belezas naturais. 

Como sei que a primeira opção é mais fácil que a segunda - a estupidez natural das pessoas é praticamente incurável -, estou a torcer para que alguém faça força para se intervir no local.

 

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Cascata do Thaiti (2017) - para mim uma das que tem os acessos mais perigosos e menos evidentes e, por outro lado, das que tem mais gente

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Cascata do Thaithi (2017)

 

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7 lagoas (2017) - um dos caminhos mais bonitos

 

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Cascata de Pincães - a tal onde se segue o curso de água e depois se sobe uma série de rochas até se chegar a esta vista

 

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Cascata de Pincães

 

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Cascata de Cela Cavalos - o acesso é feito pela capela de Cela (o caminho até lá é em terra e há pouco espaço para carros) e o caminho é óptimo. Virar à direita depois da ponte em madeira (foto em baixo). Caminho de cerca de 1,5 kms. Como nos perdemos, chegamos tarde à cascata e estávamos sozinhos.

 

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A tal ponte, em Cela de Cavalos, onde devem virar à direita (se vierem da capela).

14
Jul18

Como é a experiência de viajar sozinha?

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Já há muito, muito tempo que eu queria fazer uma viagem sozinha. Com todas as condições reunidas, achei que este era o momento ideal – e, acima de tudo, o momento em que eu precisava. Precisava de sair para respirar, precisava de estar sozinha, precisava de sair da minha zona de conforto, precisava de mudar de ambiente e entrar em rotura com os últimos dois anos. Precisava de paz.

E porquê os Açores? Porque, apesar de ser fora de Portugal continental, ainda é Portugal. Porque partilhamos a mesma cultura e a mesma língua (embora às vezes não pareça) e porque, dentro do choque que é estarmos sozinhos num sítio que desconhecemos, este era o que teria menos impacto. Se eu fosse para o Vietname, aí sim, seria uma aventura e tanto! Agora os Açores foi jogar pelo seguro (até literalmente, visto que é um sítio onde os problemas de segurança são residuais, o que também pesou na escolha) e fazer com que esta viagem fosse ouro sobre azul, porque este era um destino que queria muito conhecer.

Viajar sozinha foi, sinceramente, um exercício de liberdade. Ao contrário do que se possa pensar, é muito mais fácil viajar sozinho do que acompanhado – pela mesma razão que é mais fácil viver sozinho do que com alguém. Só temos de corresponder às nossas vontades, aos nossos planos, aos nossos gostos; não temos de fazer fretes, esforços, coisas que gostamos menos só para agradar aos outros; comemos as refeições que quisermos, às horas que quisermos; deitamo-nos e acordamos à hora que nos apetece; gastamos o dinheiro que temos e que queremos gastar e nunca temos pressões exteriores para o que quer que seja. Não temos de estar preocupados com os outros, gerir horários, emoções ou personalidades. E isso para mim, criatura egoísta e pouco dada à sociabilidade, é maravilhoso.

A questão é: não me senti sozinha? A resposta pode ser inesperada. Não, não senti. Em alguns momentos pensei em como gostava de estar com alguém - em particular os meus pais -, mais por saber que eles gostariam do que eu estava a ver do que propriamente por eu precisar de uma pessoa ao meu lado. A verdade é que fui mantendo um contacto permanente com eles e com os meus irmãos (criei um grupo no whatsapp para lhes mandar fotos e fazer inveja de tudo o que via e comia) e isso é essencial: é saber que estamos sozinhos mas que a nossa base está lá, que não estamos desamparados ainda que sem gente ao lado. 

Acho que sou uma pessoa atípica em termos sociais (uhuh, como se ninguém desconfiasse!). Eu não sinto necessidade de estar sempre a falar com alguém ou a partilhar decisões. Aquilo que conversava com os meus pais era o suficiente para satisfazer as minhas necessidades de interação (ainda que tenha falado mais, uma vez que me “juntei” a uma mãe e uma filha que fizeram tours comigo) e o facto de poder ser eu a decidir tudo o que queria em relação ao meu dia foi um autêntico alívio. No fundo, cumpri um dos meus objetivos para esta viagem, que era confirmar se de facto eu me dava tão bem sozinha como eu achei que daria. Sei que a vida muda, nós mudamos, os nossos planos e perspetivas mudam: mas perante a amostra destes meus 23 anos de vida, eu já percebi que não será fácil arranjar pessoas que partilhem vida comigo, e é uma preocupação minha certificar-me que, mais do que sobreviver, também consigo ser feliz sozinha (dentro dos limites do razoável - e por “razoável” quero dizer “não me tornar numa eremita”). Por muito que me custe, devo até admitir uma coisa: esta foi, talvez, a viagem da minha vida em que tive menos saudades (e eu sou uma saudosista nata). Acho que estive sempre tão entretida nos meus planos, sem tempos mortos, que a minha vida foi correndo da forma mais natural de sempre. Não fiz coisas que não quisesse ou que não gostasse, não sentia necessidade de estar sempre com o telemóvel, e a minha cabeça estava sempre centrada naquilo que eu estava a viver e não a passear por coisas tristes, preocupações ou saudades. 

Há apenas uma grande exceção: as refeições. Eu não me importo de comer sozinha, mas também não gosto. Estou habituada a almoçar e jantar sempre com a minha família e é-me estranho não ter ninguém para falar enquanto como - e confesso que também não gosto de estar agarrada ao telemóvel ou a um livro enquanto como. Neste caso não há muito a fazer: é aguentar. Mais uma vez, tive sorte: juntei-me em várias refeições às duas pessoas com quem fiz as tours é essa questão desvaneceu-se. De qualquer das formas, é de notar que quando as pessoas veem uma mulher/rapariga a almoçar sozinha, estranham sempre um pouco e têm tendência a ser mais atenciosas. E nisto incluem-se os parceiros da mesa ao lado, que frequentemente fazem conversa a partir de algo tão corriqueiro como pedir para utilizar o nosso saleiro.

A verdade é que quando não temos ninguém que nos "prenda", falamos com as outras pessoas com muito mais facilidade. É a mesma história de ir para uma escola nova com ou sem um amigo: se formos com um amigo, juntamo-nos a ele e formamos uma redoma onde é muito mais difícil alguém entrar; se formos sozinhos, é mais fácil (e somos quase obrigados a) integrarmo-nos.

 

QUESTÕES PRÁTICAS

Segurança

Há coisas más em viajar sozinha? Claro que há. Logo à partida a questão da segurança em todos os campos: se cairmos para o lado no quarto ninguém dá pela nossa falta, por exemplo; se tropeçarmos na banheira ninguém nos vai levantar de lá. Andar na rua acompanhado é sempre mais seguro, mesmo num sítio onde não existam problemas de segurança - e nisto, o facto de ser mulher também tem um certo peso. Tanto nos Açores como em qualquer outra parte do mundo há inevitavelmente homens que olham para nós como se fossemos um naco de carne - é algo que temos de aceitar e ignorar, tendo só a certeza e o cuidado (estando alerta) de que não passam mesmo de olhares. No caso desta viagem em particular eu não fiz trilhos pedestres precisamente por estar sozinha: apesar de gostar muito de andar no meio da natureza, sei que sou uma naba e que caio com facilidade, e fazer caminhos com obstáculos pela frente, em que possa cair e me magoar, não me pareceu uma boa opção - até porque muitos destes lugares têm pouca rede e não são assim tantas as pessoas que passam por ali todos os dias. Acima de tudo, acho essencial que tenhamos noção das nossas próprias limitações, que nos conheçamos minimamente e que antecipemos os problemas. E ter bom senso, claro! 

Eu deixei com os meus pais todas as informações de onde ia estar e partilhava frequentemente os meus planos para o dia, para saberem minimamente o sítio onde eu estava, caso acontecesse algo ou eu ficasse incontactável. Tive também uma série de outros cuidados que, se quiserem, posso listar, caso estejam a pensar ir numa aventura e precisem de "inspiração" neste campo.

(ainda sobre os trilhos, falarei depois sobre isso, mas fiz apenas uma única caminhada mais "selvagem", de cerca de 1km. E até aí adorei estar sozinha, a absorver o silêncio e a ir ao meu ritmo. Neste tipo de coisas, como sou mais lenta e cuidadosa a caminhar, sinto sempre que as pessoas ficam à minha espera ou que se obrigam a ir mais devagar por minha causa, algo que não gosto)

 

Fotografias

Houve quem também me perguntasse sobre a questão das fotografias: como é que se tiram boas fotografias enquanto estamos sozinhos (e já considerando que a selfie não é uma ótima opção)? Se forem malucos como eu, podem andar com o tripé atrás. Sim, eu levei o tripé na mala! Como fiz muitos dos passeios de carro, mantinha-o na mala e, quando precisava, tirava-o. Atenção: certifiquem-se que, quando fazem isto, já têm experiência e à vontade em trabalhar com o tripé. Isto aplica-se à máquina fotográfica e ao telemóvel: para a máquina o tripé grande e para o smartphone aqueles tripés que parecem polvos, pequeninos e moldáveis, que se compram por tuta e meia e se agarram a quase todo o lado e ajudam a tirar fotos bem melhores. À falta destes instrumentos, improvisem tripés (também o fiz) pousando as máquinas em sítios estratégicos e seguros. Ter um comando que tira fotos à distância também ajuda muito (em caso de ter tripé ou não), para não ter de se andar sempre com o temporizador e a correr para trás e para a frente. Mas a verdade é que a forma mais fácil de resolver este problema é pedir a alguém que nos tire a fotografia, sempre com dois riscos: que nos roubem a máquina e que a foto saia uma treta. A primeira opção parece-me sempre bem improvável, embora saiba que às vezes acontece; a segunda é muito comum, mas não há muito a fazer. Eu tive a sorte (e a falta de lata) de nunca ter de o pedir a “desconhecidos”: ou pedia aos guias que me fizeram as tours ou às duas pessoas que fizeram grande parte das visitas comigo. Em suma: pode ser chato, pode demorar mais, mas não é um problema irresoluto e há muitas alternativas.

 

Dinheiro

Viajar sozinho fica mais caro do que viajar acompanhado. É lógico que se virmos o valor acumulado gasto por quatro pessoas, este é muito maior do que se for só uma. Mas se dividirmos por cada cabeça rapidamente percebemos que é mais económico ter companhia. O carro é um óptimo exemplo. Eu aluguei um automóvel nos Açores e andei sozinha com ele, quando havia mais quatro lugares vagos - ou seja, se fossemos cinco, o valor era a dividir. Mesmo nos restaurantes isso é notório: um cesto de pão é igual para mim ou para uma mesa de três; uma dose de lapas tem sempre 20 lapas (por exemplo), quer eu seja só uma ou quer sejamos quatro. A verdade é que há muito mais coisas divisíveis do que individuais, por isso o dinheiro gasto por pessoa é inferior numa viagem em grupo do que numa feita a solo.

 

Este é o feedback de uma primeira experiência que foi recheada de momentos incríveis mas que, como contei no post anterior, também teve as suas peripécias e dificuldades. Não foi um mar de rosas, mas esteve a quilómetros de ser um mar de espinhos. Adorei viajar sozinha, mas isso permitiu-me perceber que há também muitas vantagens em fazer viagens com outros. Esse momento crítico no barco foi um daqueles em que eu desejei ter o colo da mãe ou alguém que me fosse buscar um chá quando eu achei que não podia fazer nem mais um metro a pé. Mas a verdade é que o que não nos mata torna-nos mais fortes e eu saio desta viagem, mais do que revitalizada, muito mais segura de mim mesma. Fui capaz. Sou capaz. Fui racional nesse momento de agonia; fui prática e rápida quando tive de comprar outra viagem de avião e cancelar tranfers e entregar o carro mais cedo; e fui descontraída em tudo o resto. Fui tudo o que era preciso porque, quando é preciso, nós somos tudo e mais alguma coisa. E relembrarmos isso de vez em quando é a melhor coisa que podemos fazer.

Mas é importante ressalvar que isto se aplica a mim e está longe de ser uma fórmula universal. Sempre gostei de estar sozinha e sempre me dei bem assim; gosto do silêncio e gosto do poder de decisão; gosto de estar sem ninguém no carro com o rádio em altos berros e gosto de me sentar a ler um livro num jardim bonito. Nem todos são assim - há muita gente que não sabe e não gosta de estar sozinha, e isso é justo e tão bom como qualquer outra forma de estar na vida. Ver o que quer que seja com alguém ao lado dá-nos sempre uma perspetiva diferente das coisas, porque não há duas pessoas iguais. Mas para a minha forma de ser e de estar (que é, de uma forma geral, solitária) viajar sozinha foi das melhores coisas que fiz até hoje.

Foram apenas cinco dias, quase nada comparado com tantas aventuras que vejo por aí e muito pouco para sequer me cansar de mim mesma. Resta-me dizer que, para grande preocupação dos meus pais, isto foi só o início. E isso resume bem o balanço que faço sobre aquilo que é viajar a solo. In-crí-vel.

 

(Sobre os Açores e a viagem em si, escrevo muito em breve!)

27
Jun18

Call Me by Your Name - o livro, a opinião e uma leitura simultânea

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É preciso, antes da crítica, fazer um disclaimer importante: quando comprei este livro já tinha visto o filme, sabendo por isso de antemão a linha da história e que eventualmente o final me ia deixar com o coração partido. O filme, apesar de espetacular, não supera o livro, que (para mim) é soberbo.

Esta obra, mais do que uma história de amor, é um conjunto complexo (e muito fidedigno) de pensamentos quase infindáveis, que nos faz mergulhar dentro da cabeça de um adolescente que claramente se está a apaixonar mas que está em negação. E isto tem muito de bom, mas algo de mau: é incrível testemunharmos a evolução da personagem, perceber como o livro está bem construído e é fiel à complexa mente humana, mas esta constante torrente de pensamentos não necessariamente linear e incoerente pode ser cansativa, até porque o livro tem muito poucas pausas (sem capítulos, apenas quatro partes distintas). Mas enfim, até isso é real: às vezes o pensamento e as dúvidas constantes que assombram a nossa cabeça também são cansativas. Talvez tenha sido esse o objetivo do autor.

Acho que este é provavelmente o livro que li que melhor relata a complexidade que as relações humanas acarretam, ainda para mais quando são de teor amoroso. O querer e não quer, o medo de avançar, de estragar o que já existe, de atingir situações sem ponto de retorno. A eterna duvida se aquela pessoa vale a pena. Isto é algo constante na obra, nunca cessa; não é como na maioria dos romances, em que depois da duvida inicial as personagens se mudam de malas e bagagens e se atiram de cabeça para uma relação. Identifiquei-me muito em muitas passagens porque toda eu sou dúvidas nisto das relações. Aquela coisa de nos negarmos a nós próprios algo que emocionalmente sabemos que queremos mas que racionalmente não temos a certeza ser a escolha certa; de chegarmos ao ponto de querer que algo de mal aconteça só para não termos o poder de decisão, para que a culpa não seja nossa por aquilo não ter acontecido, arranjando na vida ou no destino um bode expiatório para a nossa própria cobardia. O vai-não-vai de Elio, as interpretações que faz das ações de Oliver e tudo o que vem a perceber depois é algo que faz jus à realidade e tiro o chapéu ao autor por conseguir descrever todo esse processo mental para o papel.

Aqui se prova que não há amores gay ou hetero, simplesmente há histórias de amor. E que bela história de amor, esta (ainda que triste, por isso preparem os lenços). Prova-se também que não é preciso descrever tudo ao pormenor (sim, estou a falar de ti, 50 Shades of Grey) para um livro ser extremamente sexy e erótico. Acho que toda a obra transmite, desde o inicio ao fim, um clima de romance e de uma tensão sexual difícil de encontrar.

Tudo para dizer que gostei muito, muito do livro - e que penso que será daqueles em que posso pegar daqui a uma dúzia de anos, dar-lhe novos significados, identificar-me com outras coisas, encontrar novos detalhes, e voltar a adorar.

Se vale a pena ler depois de ter visto o livro? Vale sempre a pena ler as histórias originais e, apesar da interpretação muito fidedigna, este não é excepção.

 

Curiosamente, li este livro ao mesmo tempo que a Beatriz, do "Procrastinar Também é Viver". Entre trocas de instastories - ferramenta através da qual nos apercebemos que estávamos a ler a mesma obra, na mesma altura - achamos que seria giro publicar as nossas reviews ao mesmo tempo, quase como uma comparação em tempo real. Porque, como a minha mãe diz, cada livro pode ser um milhão de livros, consoante o número de pessoas que o lê :) Sendo eu uma grande fã da Beatriz e levando muito a sério todas as suas críticas e conselhos literários, acho que este nosso timing não podia ser melhor. Passem pelo "estaminé" dela e digam de vossa justiça! 

02
Jun18

Hoje em dia é tudo instagram

Acabei o último post dizendo que não havia instabooks. A verdade é que não me dei ao trabalho de procurar, esperei simplesmente (e esperançosamente) que eles não existissem - porque, hoje em dia, existe tudo o que é passível de ser “instagramável”, que é como quem diz “tudo o que fica bem na fotografias”. O que tem tanto de bonito como de fútil.

Pensei muito nisto no Brasil, onde o meu primeiro momento de “pânico” na viagem foi quando achei que ia integrar uma comitiva de instagramers, bloggers e influencers. Percebi que o hotel estava pejado delas logo no primeiro pequeno-almoço, quando uma rapariga passou cerca de vinte minutos a tirar fotos aos seus pratos e a fazer instastories de todo o material comestível disponível no buffet. Quando eu digo vinte minutos, foram mesmo vinte minutos: ao ponto de nem sequer chegar a vê-la comer! Mexia um prato, trocava outro, tirava a foto de 47 ângulos diferentes, fazia zoom in e zoom out... e nisto o café já devia estar frio. Notei também devido à presença constante de câmaras e de telemóveis e, claro, pela forma como elas se vestiam só para ir comer, demonstrando que não eram pessoas da mesma "classe" que todas as outras presentes na sala. Entre maquilhagens e vestidos esvoaçantes, tenho a certeza que passavam mais tempo a arranjar-se para ir comer antes de ir para a praia do que eu costumo demorar antes de ir para um qualquer evento de maior importância - o que é indiferente, desde que elas gostem... mas que não deixa de ser uma prisão para elas, porque Deus-me-livre de ir tomar o pequeno-almoço com o cabelo apanhado e as olheiras de quem acabou de acordar! Não vá alguém pedir uma foto, claro! ;) E foi por isso com o maior alívio que eu percebi que não ia andar com elas no evento. Se me senti desintegrada com os três jornalistas que me acompanharam nesta viagem, se tivesse de andar com elas sentir-me-ia pior que o patinho feio durante quatro dias. 

A situação mais caricata que vivi durante aqueles dias foi numa das minhas manhãs na praia. Estava deitada a ler o meu livro na areia e surge um grupo destas raparigas, em conjunto com um fotógrafo, prontas para uma sessão fotográfica. Uma vem educadamente falar comigo e diz: "olá, desculpe incomodar! Posso pedir um favor a você?". Respondi que sim. "Pode emprestar o seu livro, para tirar uma foto?". Eu não sei precisar a minha cara naquele momento, mas deve ter sido engraçada. "S... sim." E entreguei o livro de João Pinto Coelho à brasileira, que prontamente se deitou na espreguiçadeira, abriu a obra em parte incerta e fingiu ler com muito afinco. Uma série de disparos depois, vem entregar-mo, rematando: "ao menos o livro é bom?". "Muito bom", disse-lhe, esperando que ao menos fizesse boa publicidade ao livro de um autor português. (Poupo-vos a pergunta: apesar dos meus esforços em encontrar a blogger em questão e a foto em particular, as minhas pesquisas foram infrutíferas).

Toda esta necessidade de tirar fotos para ficar bem e parecer melhor mexe-me um bocadinho com as entranhas. Não é só tornar a realidade mais bonita do que aquilo que ela é: trata-se de mentir mesmo. Eu tenho noção de como é que tudo isto funciona e estava lá nesta situação em particular - e em todas as outras, enquanto comiam os seus próprios cabelos esvoaçantes à medida que andavam sensualmente pela praia, quando o mar lhes dava chicotadas nas costas e elas pareciam estar a saborear o cheiro a maresia ou em puros momentos de narcisismo ou mesmo má-educação, enquanto tiravam selfies a meio dos desfiles. Mas a verdade é que muita gente não sabe disto - principalmente as miúdas mais novas, que acham que os pequenos-almoços são sempre incríveis, que aquelas pessoas que seguem têm tempo para ser lindas, bonitas e cultas ao ponto de até lerem na praia, pensando que tudo é um mar de rosas.

A verdade é que hoje em dia é tudo para o Instagram. Eu vejo aqueles fatos de banho com 59 fitas espalhadas pelo corpo e sei que nenhuma influencer que se preze quer ficar com aquelas 59 marcas no corpo; sei que são fatos-de-banho para a foto. Vejo aquelas agendas com frases inspiradoras e percebo que são apenas para "flatlays" perfeitas. Reparo naqueles saltos assustadoramente finos e sei que a foto deve compensar a dor nos pés ao final do dia. E vi muitas, muitas vezes todos aqueles sorrisos momentâneos, enquanto a câmara se apontava para elas, e que se desvaneciam imediatamente quando olhavam para o ecrã, já com o dedo pronto para retocar e esconder qualquer imperfeição.

Esta rede social ganhou uma dimensão ainda mais irreal do que o facebook, na medida em que tudo tem de ser bonito e perfeito; em que não só as fotos são 100% cuidadas como o próprio feed é mexido com muito carinho e amor, qual bonequinho de porcelana. Acho incrível - no bom e no mau sentido - como é que alguém tem paciência para prever o seu feed antes de publicar uma foto, só para perceber se o "conjunto" fica bonito e coerente. Porque, aparentemente, a vida para estas pessoas é isto: a beleza de tudo, em tudo. E eu não acho mal que se veja o bright side of life. No meio das minhas pesquisas para encontrar a blogger-do-livro, deparei-me com fotos incríveis da praia e do resort onde estive e pensei "bolas, aquilo era assim tão bonito?". De facto elas tornam o banal em algo incrível, transformam o bonito em tendência. Mas, pelo meio, espelham uma vida irreal que (mesmo inconscientemente) todos acabamos por ter como referência: porque queremos aquele pequeno-almoço completo e de aspeto delicioso, queremos um rabo sem estrias, queremos os biquinis mais giros do mercado, queremos aquela maquilhagem perfeita, queremos as viagens, queremos aquele carro XPTO, queremos o relógio em promoção, queremos um fotógrafo que nos tire aquelas fotos bonitas. Só nos esquecemos que a vida é também tudo o resto. Tudo o que não é instagram. Se calhar, tudo o que é de mais real. Basta pensar num cozido à portuguesa: pouco bonito e fotogénico, mas delicioso e autêntico. E a verdade é que há um mar de coisas estilo cozido à portuguesa espalhadas por aí.

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