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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

02
Nov13

Quem puxa para baixo

O sentido da gravidade é para baixo; é para lá que vamos se estivermos em queda livre. Já viram alguém saltar de um avião e ir subindo, subindo, quebrando todas aquelas barreiras imaginárias às quais criámos nomes, na atmosfera? Não, pois não? Isso é porque o sentido natural das coisas é de cima para baixo e não de baixo para cima. Sem esforço, só vamos para cima com escadas rolantes ou com alguém a puxar-nos; para baixo, "todos os santos ajudam". Às vezes os santos, outras vezes os demónios, outras vezes nós mesmos, outras... só mesmo a gravidade, sem a ajuda de mais nada.

Há uma frase no Pretty Woman, dita pela eterna Julia Roberts, que diz assim: "People put you down enough, you start to believe it". Mas, hoje, eu pensei melhor. A verdade é que as pessoas não precisam sequer de nos deitar abaixo. Basta não deitarem, não mexerem, não tocarem, não respirarem, não estarem: porque nós vamos sozinhos, sem ajuda de nada ou de ninguém. 

Dei conta - apesar de já o saber - que todos os actos (ou não-actos) têm palavras implícitas; o facto de não se fazer, de não acontecer, de não se dizer, faz com que se passe uma mensagem que, se calhar, não é a verdadeira. O nosso cérebro é um tradutor de todas as línguas: as faladas, a que se transmite pelos olhos, pelo resto do corpo, as escondidas naquilo que nem sequer se diz; mas engana-se, e engana-nos a nós. E às vezes somos nós que nos pomos em baixo, porque a gravidade assim nos convida (sim, ela consegue ser terrível) - e, mais uma vez, não precisamos de ninguém para ser infelizes e acreditarmos no que não devemos. Ou, por outras palavras, esquecermo-nos daquilo que não devíamos.

Hoje, aqui, disseram-me que era bonita. Não quero saber daquilo que o meu cérebro diz (ou o que dizem os vossos, já agora, principalmente se tiverem uma opinião contrária): este comentário mexeu mais comigo do que qualquer olhar de um homem da rua ou dos piropos que ouvi na quarta-feira passada nos corredores do ginásio. Não é a mesma coisa. Não precisou de passar por centenas de descodificadores para decifrar a mensagem. Entrou e ficou, directamente. E já há muito tempo que não mo diziam. Porque embora eu me olhe ao espelho todos os dias e ache que, afinal de contas, não sou assim tão feia, não é isso que vejo - ou sinto - no meu dia-a-dia. E sabe bem, de vez em quando, uma mensagem destas entrar assim de rompante no nosso dia, para nos lembrarmos, muito claramente e sem mensagens nas entrelinhas, que nem todos os (não-)actos transmitem as mensagens certas e que o cérebro também nos engana. Há comentários feitos na altura certa. Outros lidos na altura correcta. Este conjugou os dois factores. E não podia ter sido melhor. Obrigada.

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