Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

31
Dez25

Adeus 2025

Vou começar este texto de balanço com a frase mais óbvia de sempre: 2025 foi a continuação de 2024. Parece linear - e é -, mas eu não queria que fosse. Queria rotura - queria o sol em vez da chuva, a luz em vez da escuridão, o bom em vez do mal. Aquilo que às vezes nos esquecemos quando o ano vira é que, na verdade, isto é somente uma continuação - não há quebras, não há paragens, não há interrupções. 

É difícil imaginar um ano pior que o meu 2024 - e temos de ser justo: 2025 não o foi certamente! Mas foi uma continuação daquilo que vivi no ano anterior, como se fossem os dois misturados num só, numa espécie de novelo indissociável. Foi, verdadeiramente, um ano de luto. De introspeção profunda, de muita solidão, de gestão e pensamento, de reorganização - não daquelas que sabem bem porque renovam o ar e tornam o nosso mundo diferente, mas das que doem porque implicam mexer em partes internas que não estão só em ferida, mas que ainda sangram ativamente. Se em 2024 a dor advinha mais daquilo que via do que daquilo que sentia, este ano foi o contrário; o ano passado eu sentia que podia ser mais ativa e prática com a minha dor - podia ajudar, podia tratar, podia estar com a minha irmã em todos os momentos possíveis. Este ano só restei eu, o meu luto, e todas as pessoas em luto à minha volta - todos num processo com o mesmo nome mas que se revela de formas diferentes, todos eles difíceis de gerir, e ainda mais complicados de acudir quando nós próprios estamos a tentar manter-nos à tona da água. Eu mantive-me, mas não fui feliz. E, caraças, queria tanto!

Sei, hoje, que carrego o peso de um trauma vivido na linha da frente e que não me abandona nunca. E se, por um lado, esta bagagem me dá perspetiva em relação à vida e à morte e ao modo como estas devem ser vividas, por outro persegue-me - em particular à noite, em sonhos temíveis e pesadelos terríveis. Raramente sei o que é acordar leve. E, na verdade, houve poucos dias deste ano em me deitei sem pesos na alma - a pressão diária que sinto e me imponho empurra-me para uma depressão a que fujo a sete pés e que trato o melhor que sei. Há dias em que, entre o acordar e o deitar, venço; outros em que simplesmente perco. E volto a tentar no dia seguinte. E a verdade é que tento ultrapassar os dias com um sorriso e um espírito positivo, tentando emanar calma e esperança para com o futuro; acho, até, que o consigo na maioria das vezes. Mas quando olho para trás percebo o esforço que faço e o peso que carrego, e sei que é demasiado; carrego comigo tudo o que vou acumulando e não consigo fazer um balanço feliz do que vivi.

Vou entrar em 2026 sem vontade nenhuma de festejar o que quer que seja. Por mim, à meia noite, estaria a dormir - aquilo que o meu corpo pede e a mente precisa. De nada me adianta "matar" 2025 quando tenho plena consciência que o ano que vem a seguir é só mais uma continuação; que isto não é um gráfico que começa do zero, mas sim uma linha que já vem lá de trás e que mora no eixo negativo há demasiado tempo. Mas, enfim, o calendário - e a tradição, os costumes e os hábitos - assim nos obrigam. Por isso, para dois mil e vinte seis, só quero uma coisa: que a linha continue, a seu ritmo, a seguir em modo ascendente. E, idealmente, que bata no positivo em algum momento (gostava que rápido, qual gráfico em modo Speedy Gonzalez, mas sei que é pedir demasiado e que não se coaduna com o processo que estou a viver). Porque gostava de não me sentir com um peso de um elefante ao final do dia; porque gostava de só gerir uma fábrica e não ter de o fazer com tudo o resto à minha volta. No fundo, gostava de viver mais e de sobreviver menos. 

Feliz 2026, queridos leitores. 

 

IMG-20251130-WA0010.jpg

12
Dez25

O limite de caracteres não é coisa que me assiste

Há dias uma antiga blogger - agora influencer das redes digitais que rendem alguma coisa - respondeu à pergunta de uma leitora que questionava o porquê de já não escrever mais no seu blog, um dos mais famosos do passado. Ela foi simples e perentória: os blogs estavam mortos, não fazia sentido cá continuar.

E eu pensei: se é verdade que muito pouca gente ainda cá anda, também o é que não existe nenhuma plataforma que ofereça aquilo que esta oferece. Se aquilo que nos motiva é escrever, não há mais nenhum sítio onde o possamos fazer tão livremente como aqui. E se por um lado percebo que as influencers se tenham ajustado ao modelo de negócio que lhes rendia, obrigando-as a cingirem-se às imagens e vídeos, de preferência curtos, para corresponderem à expectativa dos cérebros com concentração de peixe que estão do outro lado do ecrã - por outro não percebo como é que partindo de uma narrativa de "gosto de escrever e é aqui que o posso fazer com liberdade" passamos todos para os instagrams e facebooks desta vida, onde o número de caracteres são contados (e a exposição que temos é inversamente proporcional ao número de palavras que escrevemos). Já nem falo do Twitter - ou X - onde nos obrigam a resumir tudo numa frase curta. Não é para mim.

Não que tenha dificuldade em resumir as coisas - sou capaz de o fazer, e é o que acontece no dia a dia, onde não tenho vontade, tempo ou espaço para escrever e explicar as coisas conforme me apetece. Mas quando tenho um tema e reúno todas as condições para o desenvolver, sinto-me feliz por ter uma plataforma que agrega e aceita tudo aquilo que tenho para dizer. Onde não tenho de dividir os meus textos por cinco comentários ou onde, por ter letras a mais, os meus posts não são desvalorizados em relação aos restantes, feitos só com imagens. Gosto de escrever e gosto de ler o que escrevi - e a pessoa que fui - passado uns anos; gosto de ler sobre os sítios onde passei, de reviver o que já vivi. Posso não ter as visitas ou os comentários do passado, posso não ter a disponibilidade que tinha para escrever diária ou semanalmente, mas conheço o sitio onde a minha forma de estar se encaixa. Que é aqui. Mais ou menos morta, com mais ou menos afluência, mas é aqui.

Este post foi motivado por um texto - que achava ser pequeno - que escrevi para o instagram, no dia 1 de Dezembro, acompanhando um vídeo da Christmas Band que integrei em 2023. O Instagram não só não me permitia publicar o texto todo como me obrigou a parti-lo em três (descrição mais dois comentários), mostrando-me claramente que não é o sítio certo para mim. Deixo, por isso, o texto e o vídeo aqui: 

 

Há dias o meu pai mostrava-se feliz por a festa de Natal não ser este ano em nossa casa. "Assim têm menos trabalho", argumentou. E eu, abanando a cabeça - num misto de pena, tristeza e frustração, disse-lhe simplesmente: "não percebes nada".

Porque aquilo que o meu pai chama de "trabalho" é o meu sinónimo de Natal. O meu Natal é um caminho, não é um dia. O Natal é fazer a árvore de três metros da minha mãe, suar enquanto subo e desço as escadas e ficar feliz ao fim de cinco horas quando dou a missão por terminada; o Natal é abrir um documento nas notas do telemóvel, algures em Setembro, com uma ideia de prenda, após uma inspiração qualquer dada por uma montra algures; o Natal é ir comprando uma bolina por semana durante o mês de Dezembro; o Natal é ter a agilidade mental de perceber como sentar trinta e tal pessoas em duas mesas; o Natal é acordar às 7h da manhã para ir fazer doces; o Natal é obrigar-me a pensar como se veste determinada pessoa, os seus gostos e personalidade de forma a arranjar-lhe um presente que lhe aqueça a alma; o Natal é babar-me a pensar que vou ter mais uma oportunidade de ouro para comer o cabrito da minha mãe; o Natal é luz quente e lareira a crepitar, casacos aconchegantes e feirinhas de rua; o Natal é ir racionando durante o mês os presentes para embrulhar, garantindo que consigo embrulhar prendas durante o maior número de dias possível; o Natal é ansiar pelas rabanadas e bolo-rei, pondo-lhes o dente por antecipação, e chegar ao dia 25 e não comer nenhum deles.

Escrevo isto porque hoje, dia 1, é por excelência, aquele em desempacotamos tudo o que é Natal dos nossos arrumos. (Eu andei durante anos a tentar contrariar esta tendência e fui quase sempre mal sucedida - agora decoro tudo quando me apetece, uma autêntica vitória da vida adulta!) É o arranque oficial das festividades e, por isso, achei a data certa para partilhar algo que ainda não tinha visto a luz do dia: um vídeo da primeira e única atuação da nossa Christmas Band, nascida e cessada em 2023, altura em que alguns dos músicos da família se decidiram juntar e fazer uma surpresa musical aos restantes - por acaso, toda a banda era do meu núcleo familiar, o que tornou tudo isto ainda mais especial. O contexto já não era famoso - o ano estava a acabar e 2024 já nos cheirava a esturro, muito embora ainda não soubéssemos o quanto. Mas, ainda assim, juntamo-nos; mesmo quando as notícias más se iam adensando, nós mantínhamos os ensaios (afinal de contas, the show must go on).

Aquele mês de Dezembro foi, de longe e desde que vivemos em casas separadas, aquele em que mais vezes me juntei com os meus irmãos - eram ensaios de fim de semana, ensaios de fim de dia, jantares, lanches e uma casa (a minha) sempre virada do avesso. Colunas em cima da pesa, pautas espalhadas no piano, cabos, amplificados e microfones; barulho, às vezes, a ultrapassar o limite das 22 horas - mas, ao menos, dávamos música aos vizinhos. Foi um mês atarefado, cheio, duro. Mas feliz.
O concerto correu bem, a família não esperava e adorou cada momento, tal como nós. E, alinhando-se perfeitamente com o espírito natalício, aquilo que mais me recordo e que mais gostei não foi do concerto - foi do caminho. Tal e qual como no Natal, em que nunca dou por mim a ansiar pelo dia 25, que tantas e tantas vezes me defrauda. O fim não é aquilo que mais desfruto ou que mais almejo: aquilo de que realmente usufruo é do processo.

Por isso, sabendo que o Natal é uma época delicada e que todas as razões para gostar ou não gostar dele são válidas, relembro que restam 23 dias para conseguirem usufruir deste caminho numa atmosfera que, queiramos ou não, é única no ano. O dia 25 não é o objectivo; é só um fim para viver o meio. E aproveitem o meio - nunca sabem quando é o vosso último concerto (ou de qualquer membro que faça tocar o vosso coração).

 

Pesquisar

Mais sobre mim

foto do autor

Redes Sociais

Deixem like no facebook:


E sigam o instagram em @carolinagongui

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Leituras

2025 Reading Challenge

2025 Reading Challenge
Carolina has read 3 books toward her goal of 24 books.
hide


Estou a ler:

O Segredo do Meu Marido
tagged: eboook and currently-reading
A Hipótese do Amor
tagged: currently-reading
I'm Glad My Mom Died
tagged: currently-reading
Spare
tagged: currently-reading

goodreads.com

Arquivo

    1. 2026
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2025
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2024
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2023
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2022
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D