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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

15
Set25

O meu carro AliExpressiano

Há dias, enquanto estava nos meus serviços de Uber ao serviço de uma das minhas sobrinhas, ela liga-me pelo caminho e pergunta: "Tili, por acaso não tens desodorizante contigo?!". E eu, já meio irritada - porque estava no carro e ela em casa, onde devia ter isso tipo de coisas - respondo: "Porque raio havia de ter desodorizante no carro?!". Ao que ela responde: "Sei lá, Tili, tu tens tudo no carro...". Não contra-argumentei. Não tenho tudo, tudo, tudo, pois preciso de espaço para pôr algumas coisas que possa ter de transportar - mas tenho de lhe dar crédito, pois tenho quase tudo.

O meu próprio pai, o criador da narrativa de que "um carro deve ter tudo o que é essencial", a pessoa que mais me influenciou e me ensinou que devemos sempre prevenir e antecipar tudo e mais um par de botas, teve no outro dia o desplante de me dizer que o meu carro parecia o de um "vendedor ambulante". Lá no fundo, eu percebo: viu a aprendiz a superar o seu mestre - e isso dói. 

Mas porquê este comentário, perguntam vós.  Porque o meu pai abriu a mala do meu carro - num dia particularmente mal organizado, devo dizer - e percebeu que eu não só tenho uma panóplia de artigos de sobrevivência como os tenho bem organizados. E como? Com as tralhas que compro no AliExpress. Eu tenho para mim que os chineses acham que eu sou a Marie Kondo portuguesa. Porque não é só para os carros. 80% das coisas que compro na plataforma deles são colmeias, organizadores, caixas e tudo o que possam imaginar para organizar a casa. E no meu carro não é diferente: tenho um saquinho para cada carregador elétrico, com velcro para se colar às paredes da mala; tenho uma rede, com velcro também, para que tudo o que está encostado aos lados da mala não caia; tenho todo um aparato organizacional preso nos bancos de trás que me proporciona uma quantidade infinita de bolsos e compartimentos para guardar tudo o que preciso; tenho um apoio para guardar os óculos de sol na paleta do pára-brisas. Enfim, tudo coisas úteis!

Mas eu sei o que se estão a perguntar: o que raio é que tu guardas para precisares de tanta arrumação? Ora bem, por onde começar..? Talvez pela secção "acidentes-do-dia-a-dia": temos papel higiénico, kit de costura, cuecas, meias, uma t-shirt e sapatilhas, assim como tampões e pensos e, claro, casaco, hoodie e cachecol quando o frio nos apanha desprevenidos. Seguindo para a secção "problemas-na-estrada": kit de reparação de pneus, canivete suíço, lanterna para a cabeça, fita cola extra-forte. Na zona canina temos trelas, muito úteis quando vejo cães fugidos (nomeadamente quando são os meus). Depois passamos para a parte de saúde: temos kit de picada de abelhas e kit de primeiros socorros, com pequenos pensos e outras coisas que tais. Sazonalmente, existe também o saco da praia, que inclui duas toalhas finas, um bikini e pó de talco para tirar as areias antes de entrar no carro (este kit só entrou a uso este ano e ainda necessita de retoques, nomeadamente chinelos e uns calções para o meu marido). Falar ainda de alguns itens avulso, úteis em várias circunstâncias: sacos de plástico, tripé de fotografia, boné, guarda-chuva e toalhitas.

Posto isto, já sei o que me vão dizer, naquela vozinha irritante e julgadora: ai, tanta coisa, mas ainda tens espaço sequer para entrares no carro?! Tenho, e muito, graças à minha organização de excelência e capacidade de descobrir tralhas inacreditáveis no Ali Express. E a vossa sorte é não precisarem de andar comigo, pois quem ataca os conteúdos da minha mala-preventiva fica logo sem direito de usufruir das suas capacidades. Os miúdos já sabem - gozam e, na próxima saída em que não trouxerem casaco (que são, basicamente, todas), ficam ao frio, sem poderem tocar num dos meus itens do kit de problemas do dia-a-dia. Os meus pais sempre me disseram: mulher prevenida vale por duas. E eu levei aquilo a sério e prefiro estar prevenida para uma família inteira.  

 

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08
Set25

Pôr termo ao scroll

Não sei quanto a vós, mas eu debato-me diariamente com o scroll nas redes sociais. Sei e sinto que não me faz bem e pouco me acrescenta. Podia valer a pena pelas gargalhas que às vezes traz - mas, honestamente, são cada vez menos. Pelo contrário, parece que só vejo e oiço coisas que pouco que me acrescentam: estou cansada de ver animais abandonados e pedidos de adoção, cansada de ver notícias trágicas e a sua exploração até ao osso, cansada de publicidade e cremes milagrosos, cansada de vidas felizes e perfeitas e magras e equilibradas. O problema não é quem eu sigo nas redes sociais: é tudo aquilo que as redes me oferecem e que eu não peço. 

E, como tal, tento encontrar mecanismos para fugir desse mar de coisas não pedidas. No trabalho tendo a fugir do computador e do telemóvel quando a concentração fica reduzida, passando de tarefas de secretária/computador para coisas que impliquem trabalhar com o corpo. E em casa refugio-me em tudo aquilo que tenho para fazer - embora, claro, seja inevitável pegar na alternativa mais fácil e tentadora que é o telemóvel.

Isto era especialmente pior à noite, antes de dormir, em que "dava uma voltinha" antes de me recostar na almofada e começar a ler um livro. Essa voltinha podia ser curta, mas também podia demorar uma hora, tirar-me o sono e implantar-me na cabeça ideias que não me proporcionavam depois um sono reparador. Por isso, mais uma vez, arranjei uma forma para fugir a isto: a minha rotina de noite, quando chego à cama e antes de ligar o Kobo, é fazer uma série de joguinhos rápidos que encerram oficialmente o funcionamento do meu cérebro para o dia. Os meus preferidos do momento são o Strands, o Pips e o Termo (os dois primeiros são do New York Times (NYT), em inglês, e o último em português) - mas vou oscilando com outros também do jornal americano, que tem uma série de outros passatempos que gosto muito.

O Strands consiste numa sopa de letras relativa a um tema, com o twist de não conhecermos as palavras que temos de procurar; o Pips, que é o jogo mais recente do NYT, obriga à gestão de peças de dominó consoante o número de pintinhas que o jogo pede numa determinada secção. Também gosto do Tiles, um jogo de semelhanças diferente do habitual mas igualmente visual e do Connections, em que nos são oferecidas 16 palavras e temos de perceber as quatro invíseis linhas condutoras (ou o tema, ou o filme, ou a música) que ligam quatro daquelas palavras. Este último, para mim, é o mais difícil - como o inglês não é a minha língua nativa tenho muitas vezes de procurar os significados das palavras, até porque, muitas vezes, tratam-se de palavras de uma qualquer gíria, tornando-se duplamente difícil; só o jogo quando tenho tempo e paciência. Até agora também ia jogando o Letter Boxed (um jogo de formação de palavras com 16 letras mas muitas limitações) mas, tal como as palavras cruzadas, passou a ser pago. Também podem jogar o Sudoku em três níveis distintos de dificuldade. Ainda têm outros dois jogos que não gosto tanto.

O Termo, o meu jogo preferido, que faço muitas vezes em modo competição com o meu marido, é construído à luz do jogo mais popular do NYT - o Wordle. Mais uma vez, por não ser expert em inglês, evito jogar - mas adoro o Termo, que é uma perfeita versão portuguesa deste jogo. Consiste em descobrir palavras de cinco letras através de tentativa-erro numa fase inicial - mas que depois, com a informação de que letras fazem parte da palavra e percebendo o seu posicionamento, conseguimos chegar à palavra pretendida. Como bónus têm também o Dueto (descobrir duas palavras em simultâneo) e o Quarteto (quatro palavras ao mesmo tempo). 

E, assim, sinto que consigo gastar os últimos cartuchos de energia da minha cabeça e fechar o dia sossegada, sem estímulos, comparações ou tragédias a vaguearem a minha mente. Experimentem!

 

(não sei se, agora que leram o post até ao fim, perceberam o trocadilho do título - mas eu fiquei orgulhosa de mim própria!)

01
Set25

No verão aproveita-se a vida

Ou será que não?

O verão é o meu período oficial de FOMO ("fear of missing out" para os mais distraídos ou, em português, algo como "medo de perder alguma coisa importante"). Sempre foi - mas agora, com uma ideia muito mais clara da finitude da vida, está muito pior. Sempre me questionei sobre o conceito de "aproveitar a vida" - uma expressão que o meu pai usa muito e que me atormenta até aos dias de hoje porque... o que é aproveitar a vida? (Achava que já tinha escrito sobre isto aqui mas, se escrevi, não encontro o post). Sei o que é que nós, enquanto sociedade, achamos desse conceito - é partilhar a vida com família e amigos, comer bem, ir beber uns copos, ver espetáculos, viajar. Mas e se não nos enquadrarmos nisto? Será que ficar a ver Netflix encostada ao meu marido não é aproveitar a vida? E ficar em casa durante as férias, também não é aproveitar - ou só estando fora é que aproveitamos verdadeiramente?

A questão é que o verão, com os seus dias mais longos e soalheiros, é propícia para que tudo isto seja levado ao expoente máximo. A certa altura, em meados de Julho, dei por mim exausta: já não jantava em casa há não sei quantos dias, saía do trabalho e ia para a praia porque o dia tinha estado extraordinário e queria aproveitar nem que fosse um bocadinho, fui a todas as festas da cidade da periferia e, claro, roubei o descapotável do meu pai um sem fim de dias para poder aproveitar as noites de verão. Essas, sim, são o epíteto da estação e do meu FOMO. O meu pai sempre me disse que as noites quentes e sem vento são raras no norte do país; sempre que estava assim, íamos passear, jantar fora ou, no limite, jantávamos no alpendre de nossa casa. Porque verdadeiras noites de verão não se desperdiçam (mas, lá está, que conceito é este de "desperdiçar noites"?). Mas este ano, felizmente, houve muitas. Houves noites verdadeiramente extraordinárias, para serem vividas de manga curta, calções e chinelo de meter o dedo. Este ano não foram raras - e cheguei a um ponto em que só queria ir para casa, aninhar e estar no meu ninho sossegada. Mas e se na noite seguinte já não estivesse assim? E se aquela fosse a última noite boa deste verão? E lá ia eu, "aproveitar".

E a verdade é que esta coisa de querer espremer o sumo da vida a toda a força tem muito que se lhe diga. Eu não sei o que é aproveitar - mas sei que o meu conceito não bate com o de muita gente. Não me encontram em jantares cheios de amigos, porque não os tenho; não me vão ver num bar ou discoteca, porque não os frequento; hoje em dia dificilmente vou a concertos, porque parece que me desabituei de tal coisa. E tenho fome de viver, medo de não ter tempo de desfrutar, mas tudo culmina num misto de cansaço, de frustração e de expectativas defraudadas com o qual não estou a saber lidar muito bem. 

É igual com as férias: namoramo-las durante tanto tempo, desejamo-las ardentemente - mas e depois? Quando chega o momento parece que não consigo vivê-las como era suposto. Não me sinto descansada como queria, não me sinto feliz como devia ou satisfeita como seria de esperar. Traço objetivos e não os concretizo. Peço paz e não a tenho. Quero descanso e a minha mente não me deixa tê-la. Penso demais, como sempre. 

E agora a rádio diz que o regresso às aulas já começou, que os jantares longos com a família já acabaram e que o verão terminou. E mesmo que eu faça ouvidos moucos, basta olhar para o calendário: hoje é dia 1 de Setembro e, mesmo que o verão só chegue ao fim oficialmente daqui a vinte dias, a promessa daquilo que seria a minha estação preferida já caiu por terra. Agora só para o ano. (E o medo estúpido de não chegar até para o ano?).

Ate lá, vou ruminando sobre o que vivi e tentar transformar aquilo que agora já são memórias em algo melhor do que foi. E agora, com tempo até ao ano que vem, pode ser que eu consiga aprender o que é "aproveitar a vida". Ou, quiçá, a ter expectativas ajustadas sobre aquilo que gosto e a forma como gosto de desfrutar os meus dias. E, no limite, a aprender a viver em paz com isso.

 

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