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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

30
Mar23

Chávena de Letras: "Mãe, Doce Mar"

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Li este livro rapidamente na tentativa de não esmorecer a leitura, pois rapidamente me apercebi que o estilo de escrita não era o meu favorito. Já tinha lido João Pinto Coelho, mas se a memória não me falha, nem o "Perguntem a Sarah Gross" (que adorei)  nem "Os Loucos da Rua Mazur" (gostei menos) tinham uma escrita tão poética como este "Mãe, Doce Mar". Aqui, tinha muitas vezes de reler a frases para entender o seu significado; sinto que, principalmente no início da obra a articulação das frases era rebuscada, tornando até a compreensão da história um pouco mais difícil. Um exemplo:

 

"Fora o mar que me arrastara e cercara a toda a volta, mas deixando à tona de água até as certezas mais firmes, agora cascas de noz à deriva no oceano. Podia dizer o mesmo daquele pedaço de terra para onde Catherine me levara. Era a ilha do tesouro ou o meu cesto de gávea, esse posto de vigia de onde eu me observava, com a distância que falta aos marinheiros de água doce."

 

Senti isto na primeira metade do livro. Não sei se foi por me habituar, mas na segunda tudo fluiu muito melhor - menos paragens para reler, mais cadência na narrativa e, consequentemente, mais vontade de continuar a leitura.

E a verdade é uma: que história bonita. Triste, mas bonita. As personagens são bem desenvolvidas, com uma história de fundo que justifica os seus comportamentos e forma de estar, tornando tudo muito coerente. Não adoro a forma como a história está construída, com muitas analepses em diferentes tempos, mas sei que só assim se consegue entregar o final que o autor pretende. João Pinto Coelho é sempre um autor para manter debaixo de olho.

28
Mar23

Contra as raposas velhas: remar, remar!

Aprendi que devo falar com muito pudor sobre o meu trabalho. Sou sempre muito contida nas apreciações e opiniões que teço, não vá ofender o mais próximo. Não me apetece comprar guerras. Sei que,  aos olhos da maioria, estou numa posição de favorecimento constante - e não vai ser o meu discurso que vai mudar (ou, simplesmente, suavizar - o que já não era mau) as teorias de Marx e companhia, que ainda hoje agudizam o gap que existe entre patrões e trabalhadores. Tenho pena que, quase a um quarto do século XXI, isto ainda venha à baila num país desenvolvido - mas não me iludo e sei que provavelmente este paradigma nunca se vai alterar. Teria muito para dizer - mas, para isso, teria que ouvir também, e nesta fase que atravesso não tenho energia para tanto.

O facto de não escrever sobre o meu trabalho faz com que, na maioria dos dias, não escreva de todo - porque muito do que me apoquenta, muitas das minhas reflexões, giram à volta deste mundo. Quer eu queira, quer não, é na fábrica que passo a maior parte do meu dia - e é lá que nascem os meus maiores problemas. Cedo defini balizas sobre o que escrever ou não - e pus um risco bem visível sobre este tema depois de ter escrito um post que achei inofensivo (e instrutivo) sobre a construção de currículos mas que, na área dos comentários, deu pano para mangas.

Hoje, no entanto, quebro a regra para poder desabafar. Não sobre um problema do ponto de vista de um patrão ou de um emprego - mas sim sobre uma questão geral que assola a indústria onde trabalho (a têxtil) e, infelizmente, a sociedade em geral.

A mentira. Aliás, permitam-me o vernáculo: a merda da mentira! A falta de transparência. A ganância. A falta de vontade de deixar tudo claro; a premeditação, o costume, o tão habitual que é o normal. E, no fim de linha, a incapacidade de percebermos que temos de romper ciclos para passar para o próximo nível.

Cresci a ouvir os clientes ligarem em repeat mode para os comerciais para saberem os prazos de entrega de um determinado produto. "É já amanhã", diziam eles, sabendo que só passado quatro dias é que entregavam a mercadoria. Mesmo na altura, do alto dos meus sete ou oito anos, percebi que não o faziam por mal - mas a pressão do cliente era tanta que se rendiam à evidência de que do outro lado só se iriam calar quando lhes dissessem o que queriam ouvir. 

Vejo diariamente jogadas sujas, que repudio sempre. Pedir cotações de algo e perceber, por comparação, que alguém me está a dar um preço inflacionado para ver se cola - mas, quando confrontados, "falam com a administração" e conseguem um valor significativamente mais baixo; ou então, pura e simplesmente, mandar o rececionista dizer que "estamos numa reunião até ao final da tarde" quando passamos o dia todo ao computador no nosso escritório.

Isto são só o exemplos próximos, do meu dia-a-dia, com que sempre lidei. Há tantos outros que me poderia lembrar se quisesse. Têm todos um elo comum: a falta de honestidade. E o problema aqui é que, em qualquer fase que apanhemos o comboio, somos obrigados a adequarmo-nos àquilo que está instituído - e isso, normalmente, implica mentir também. 

Eu sou nova, ocupo uma posição de poder dentro de uma instituição (que é pequena, mas o tamanho não importa) e, como tal, sinto a responsabilidade moral de fazer parte da mudança - uma mudança transversal, que passa por ações e por mentalidades, por um estreitamento do gap patrão-funcionário e cliente-fornecedor. E por isso, quando assumi que era isto que queria fazer da vida, decidi partir a roda. Enquanto patroa, não quero ficar-me pelo escritório e não conhecer o chão de fábrica. Não quero que me tratem por doutora ou engenheira (que, na verdade, não sou), mas pelo nome que me deram quando nasci. Não quero reger pelo medo, mas pelo respeito e pelo exemplo. Quero condições dignas para todos, quero equilíbrio, quero abertura para se darem opiniões e reportarem problemas. Quero a verdade - mesmo que isso tenha consequências.

Defini que o rigor nos prazos e a transparência tinham que ser o nosso mote. Se o cliente quer uma malha para dia 24 e eu só a posso entregar dia 26, então o negócio não acontece. Se o cliente liga a perguntar se eu estou e se eu estiver, de facto, disponível, eu atendo - e não mando alguém mentir por mim. Se a malha vai com uma quantidade de defeitos maior que o aceitável, a crise antecipa-se: fala-se ao cliente, explica-se a situação, propõem-se solução e não se espera simplesmente que eles não notem.

Os conservadores apontar-me-ão o dedo e dirão que, no meio deste jogo, sou eu quem sai a perder, porque os outros não jogam no mesmo tabuleiro que eu, muito menos com as mesmas regras. Mas como é que queremos que algo mude se não formos os primeiros a acreditar na mudança? O facto de eu me reger por determinados valores não quer dizer que esteja delirante, a viver num mundo irrealista: sei com que linhas é que o meu negócio se cose. Pretendo é mudá-las. E acho que a única forma de o fazer é dando o exemplo, mostrando que é possível ser-se honesto e transparente - mesmo que, em primeira instância, possa parecer que o prejuízo chega primeiro que o ganho. Como na agricultura, penso que temos de ter paciência - plantar para depois colher.

Não sei se esta é uma guerra que se possa ganhar - a inércia das raposas velhas é tão grande e forte (e, infelizmente, já com grandes heranças) que é difícil deixar de sentir que estou sempre a remar contra a maré. Sinto alguma mudança no ar - acho que as pessoas mais novas, por perceberem os erros do passado, estão a tentar fazer diferente, mas infelizmente a ganância não é uma característica que se extinga - mas sei que, a acontecer, será algo para demorar décadas. Isso não me demove, porque eu não sei trabalhar de outra forma - e se algum dia me adequar aos (maus) padrões de normalidade, dêem-me por favor uma palmada bem dada nas costas e digam-me que já não vale a pena continuar. 

Para mim, o propósito de um negócio não é só fazer dinheiro. É empregar, é criar e distribuir riqueza, é trazer algo de novo - mesmo que esse "novo" seja uma mudança de mentalidade. Eu dirijo uma fábrica velha - velha nas máquinas, velha na infraestrutura, velha nos anos e com muitas pessoas já "entradotas". Mas espero seriamente que não me faltem as forças para, daqui a uns anos, perceberem que apesar de uma carcaça velha, somos feitos de uma fibra moderna e fresca e não de uma carne rija como a das raposas velhas. 

23
Mar23

Chávena de Letras: "Born a Crime"

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Não sou espectadora do Daily Show nem conhecia o trabalho de Trevor Noah como humorista - mas não acho necessário estarmos familiarizados com uma personalidade para gostarmos e simpatizarmos com a sua biografia. O importante é ter algo para contar - e Noah tem quanto baste!

Filho de uma mulher negra e de um homem branco - um crime na África do Sul, em tempo de Apartheid, daí o nome do livro -, o autor explica como sobreviveu (e viveu) num país onde após a ascensão de Mandela se deram passos efetivos para a liberdade mas onde os estigmas se mantiveram durante muitos anos, continuando a existir um enorme gap de oportunidades (e tantas outras coisas) entre pessoas de diferentes cores.  Noah explica muito bem o que é o racismo - e como ele próprio, sendo mestiço, o sentiu na pele (mas fugindo ativamente de estigmas e rótulos).

É um livro rico, cheio de histórias que refletem um país. Noah tem graça a contar as suas experiências de vida e torna leve muitos episódios que devem ter sido muito pesados de os viver na altura. De um par de vídeos que tinha visto do autor, antes de ler o livro, a ideia que tinha era de alguém ponderado, equilibrado e com empatia - e a raiz de tudo isto é descrita nestas páginas, fruto de uma educação livre mas bem conduzida e de um homem que procurou concretizar-se desde muito cedo.

Trevor Noah é novo mas tem já uma bela história de vida para contar - digna de livro e digna de ser lida. Acho que todos podemos aprender algo com este "Born a Crime". Tenho pena que, só tendo o áudio-livro, não tenha conseguido sublinhar algumas ideias que transmite, nomeadamente sobre o racismo, que me pareceram preciosas. Apesar disso, achei a construção da obra um bocadinho confusa, pois pareceu-me que não estava organizada por ordem cronológica.

Sobre o áudio-livro: Noah tem uma voz incrível e que insta à audição; imita os sotaques e vozes de quem o rodeia, o que torna tudo ainda mais dinâmico e aprazível. Os capítulos são muitos longos e por isso não há alturas muito propícias para fazer pausas. A linguagem é de fácil entendimento - já o sotaque do autor exige a alguma concentração, pelo menos no início, e em particular quando entoa as vozes de outras personagens da sua vida, onde tende a intensificar os sotaques e maneirismos na fala. Ainda assim, no geral, é um óptimo livro para se ouvir.

21
Mar23

28 anos, quatro músicas e um desejo

(este post era para te saído ontem, dia 20 de Março - vamos fingir que recuamos uns minutinhos no tempo, sim?)

Faço hoje 28 anos e estes marcos dão-me para introspeções - ainda mais que os dias costumeiros. Os últimos anos da minha vida têm sido de aprendizagens profundas, muitas vezes cravadas a fogo num coração que, apesar de bem protegido por uma carapaça forte, não deixa de ser dócil, mole e frágil.

Há um antes e depois de 2018 na minha vida, ano marcado por dois grandes acontecimentos: o do aparecimento do Miguel e o desaparecimento do meu avô, que levou à minha entrada no mundo da indústria. Nesse ano arranjei uma base sólida emocional como nunca antes tinha sentido, mas simultaneamente atirei-me de cabeça pelas águas movediças da indústria, do patronato e da incerteza constante. Na altura ia a meio dos meus 23 anos. As hipóteses de futuro eram quase infinitas: um primeiro amor e uma primeira relação, a par de uma herança em forma de trabalho e de projeto de vida. Tinha muitas ideias, esperança no futuro e na mudança que estava a acontecer. 

Fast forward para hoje: 28 anos, cinco depois do ano de maior mudança. A vida agudizou-se, extremou posições. O lugar seguro continua cá - agora já sem dúvidas e sem medos, que foram substituídos pela maior das certezas de que escolhi a pessoa certa para estar ao meu lado. Mas o pântano também apurou as suas armadilhas, mostrou-me bem que não estou num navio de cruzeiro, mas num barco a remos onde tenho de puxar pelo cabedal para o fazer andar em frente. Estou sempre à espera de dias melhores, de sossego, mas não sei até que ponto sonho com uma situação idílica; olho para trás e vejo que não tive muita sorte - pandemia, guerra, crise inflacionária - mas será que alguém teve? Será que há de facto períodos em que o coração não mora constantemente nas nossas mãos, em que são mais as noites que dormimos do que temos de insónias? Ou será que foi esta a vida que escolhi sem saber ao certo ao que vinha?

Qualquer que seja a resposta, uma coisa é certa: os últimos meses não foram fáceis. Os últimos anos, por razões várias, também não - a base está lá (estamos todos vivos, temos todos trabalho) mas o desgaste foi maior do que previsto. Faço hoje 28 anos, mas creio que podia estar a fazer 48 e a sentir-me de igual forma: cansada, desgastada, triste e com pouco alento.

Eu não sei se acredito no destino e em todas essas coisas meio-místicas, mas a sensação que tenho é de que algumas coisas veem ter connosco nos momentos em que precisamos. Pode parecer parvo, mas a verdade é uma: nas alturas em que estou mais triste e me deito no sofá a recuperar forças, a probabilidade de estar a passar algum dos filmes do Twilight é grande - não interessa se é no AXN, na Fox Life, no NOS Studios ou no TVCine, mas normalmente estão lá . Não são grandes filmes, mas tenho com eles uma relação emocional tão forte que me aquecem sempre o coração. 

Ultimamente os dias maus têm sido mais que os dias bons. Não costumo ligar a TV na maior parte dos dias (por isso não dou sequer hipótese do Robert Pattinson me entrar pelo ecrã adentro), mas música oiço sempre - quer seja na rádio ou no computador, enquanto trabalho. O Miguel diz, com razão, que a música tem uma capacidade transformadora e empoderadora - quer seja pela vibe que nos transmite ou pela mensagem que tem. Há uma troca de frases muito engraçada em Castle - uma das minhas séries preferidas de sempre - que nunca mais me esqueci: a Beckett pergunta ao Castle "- How do you know you're in love?", ao que ele responde "All the songs make sense". E não é que é verdade? É um bom teste para sabermos como estamos ao nível do coração - mas vai para além disso, pois quando aguçamos o ouvido há muitas canções que passam a fazer muito sentido. E, nos últimos tempos, eu tenho estado atenta ao que ouço.

Janeiro ficou marcado pela "It Ain't Over 'Til It's Over". É uma música da minha infância - a minha memória leva-me logo para dentro do Volvo branco da minha irmã, enquanto andava com ela por aí, provavelmente com a minha cadela Isis a acompanhar-me no banco de trás. A música não passou uma, mas duas vezes seguidas na rádio, tal foi o impacto nos ouvintes, que mandaram mensagens a pedir para repetir a malha. E eu, deliciada, até parei o carro ao sol, para a absorver.

So many tears I've criedSo much pain insideBut baby, it ain't over 'til it's over

It Ain't Over 'Til It's Over, Lenny Kravitz

 

A vida continuou - e em Fevereiro entortou mais um bocadinho. E, na Rádio Comercial, numa daquelas manhãs difíceis, passava a homenagem que fizeram a Jorge Palma, com vários artistas a cantar a sua "A Gente Vai Continuar".

Enquanto houver estrada pra andarA gente vai continuarEnquanto houver estrada pra andarEnquanto houver ventos e marA gente não vai pararEnquanto houver ventos e mar

A Gente Vai Continuar, Jorge Palma

 

A verdade é que as manhãs são as mais difíceis. Dou muitas vezes por mim meio letárgica, aprisionada no meu escritório, sem saber o que fazer e como sair de situações que muitas vezes me ultrapassam. O comboio continua a andar, mas às vezes faltam as perspetivas claras de futuro. No limite, até a esperança. Mas a verdade é que eu entrei num comboio em movimento, que ainda tem combustível no tanque, e enquanto houver estrada para a andar... a gente vai continuar. A lutar. A procurar um propósito. À procura de um constante refill nesta energia que nos faz andar.

Quando vim para a fábrica sabia que tinha muitos desafios pela frente - o facto de ser mulher, de ser nova, de ser neta e filha do patrão, de ter de provar que o meu valor e a minha vontade de superação são muito maiores que um simples fator hereditário. Nunca é isso que me deita abaixo - mas fazem parte de um conjunto de pequeninas pedras que, num todo, muitas vezes atrasam o percurso. E, há dias, estranhei a nova música da Carolina Deslandes que passava na rádio; fiz cara feia, como quando experimentamos uma comida nova, que à partida não nos agrada muito, mas depois dispus-me a ouvir. E ela cantou:

Cuidado com a Carolina
Que vem de punho cerrado
A saia da Carolina ardeu no meio do mato
A história da Carolina é que ela agora veste fato

A Saia da Carolina, Carolina Deslandes

 

Caraças, não foi isto escrito para mim? Não sou eu que visto fatos para ir para feiras e reuniões importantes? Não sou eu que estou tipicamente num cargo de homens, tentando quebrar estereótipos, vícios e hábitos enraizados há sessenta anos? Sou, pois. 

Entretanto, também há um par de dias, passa na rádio uma música que o ano passado me aqueceu muito a alma e o coração, que diz assim:

Vou viverAté quando eu não seiQue me importa o que serei?Quero é viver

Quero É Viver, Sara Correia

 

Porque, de facto, é o que eu quero. Quero usufruir da companhia do Miguel, do ombro dele no sofá; do ritual de fazer a sopa, de fazer comida que ambos gostamos e de ver wrestling à terça feira à noite e ao sábado de manhã, enquanto comemos a nossa regueifa. Quero estar com os meus pais e com os meus irmãos em momentos de partilha. Quero conhecer o mundo. Quero estar com os meus cães, deixar que me sujem as calças e dar-lhes mimo até que se fartem de mim. Quero continuar rituais felizes: quero ir lanchar um cachorrinho ao Gazela, seguido de uma natinha quentinha em Santa Catarina; quero ir às 11h da manhã ao Natário, em Viana, devorar uma bolinha de berlim acabada de sair do forno; quero  comer a minha rufadinha à sexta-feira de manhã. 

Gostava de continuar o projeto que me deixaram nas mãos, gostava de sentir que continuo a fazer um bom trabalho para a sociedade enquanto alguém que emprega e que se esforça por agradar, gostava de me sentir mais útil e capaz em muitos momentos. Mas o que eu quero mesmo é viver para além de todos os problemas - algo que não tenho consigo fazer. Quero usufruir do caminho, e não continuar a andar na estrada só por andar. Quero usar saia quando quero e o fato quando assim o desejo.

Hoje faço 28 anos e o que eu quero mesmo... é viver. E aprender a saborear a vida, mesmo tendo (quase) permanentemente um sabor amargo na boca.

Que venha finalmente a Primavera.

 

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09
Mar23

Chávena de Letras: "Spare"

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Sigo há muitos anos a família real inglesa e, como tal, a fã british que vive dentro de mim não me permitiria passar sem ler este livro. 

Diria que a obra pode ser descrita, rapidamente, em quatro partes: 1) os primeiros 20% são dedicados à infância e adolescência de Harry, obviamente marcados pela morte da mãe, em que se fala da turbulência na escola, a(s) dor(es) na sua relação com o irmão e das indecisões do futuro; 2) os seguintes 30% relatam acima de tudo a sua história militar, as suas idas ao Afeganistão e aventuras por lá vividas; 3) os 20% posteriores incidem no seu retorno e ao reinicio de uma vida dedicada à realeza, sem guerras à mistura (pelo menos daquelas que envolvem armas, porque na família existem-nas em quantidade mais que suficiente), que o voltaram a deixar num limbo, sem saber onde pertencia e como se posicionar interna e publicamente; 4) o que resta é a história que temos mais viva nas nossas memórias - o início do namoro com Meghan, o casamento, os filhos e todo o drama já conhecido com a imprensa.

Há âncoras que estão presentes em todo o livro (e, suponho, na vida dele): primeiro, a mãe - um trauma claramente mal resolvido, que o acompanhará para a vida, e que eu creio que dita muitos dos comportamentos de proteção que teve em relação à mulher; segundo, África - um elo comum em todas as fases acima mencionadas, sempre como um amuleto de escape e clarividência, fazendo depois também a ponte com ações solidárias e visitas com amigos; e terceiro, não menos importante, a imprensa - os vilões da vida dele, ainda antes da morte de Diana, mas principalmente depois do acidente que a vitimou.

Apesar de gostar muito de família reais, e em particular da britânica, nunca achei que a vida deles fosse de sonho; lá por serem príncipes e princesas não quer dizer que vivam como nos contos da Disney. E este livro torna isso bem claro: eles vivem numa gaiola dourada. E das duas uma: ou se opta por olhar simplesmente para o ouro, ou mantemo-nos concentrados no facto de estarmos dentro de uma gaiola, independentemente do seu material. Escolhendo a primeira, segue-se a linhagem; optando pela segunda, encontra-se a nova ovelha ronhosa - e ao Harry assenta-lhe este papel que nem uma luva.

Creio que este livro pode ser lido de várias perspetivas, dependendo do espectro onde nos posicionamos em relação à história do Harry, do "Megxit" e a tudo o que foi veiculado na imprensa. Eu sempre achei que a saída deles tinha sido feita de forma bruta e injusta, mas que era uma decisão ponderada por parte do casal, que se viu encostado contra a parede e completamente espremido pelos tabloides. E eu interpreto a escrita deste livro como o último reduto: ao sentir que não tinha nada a perder, Harry deitou ao mundo a sua verdade, sabendo que os outros intervenientes (nomeadamente a sua família) nada iriam contrapor, pois é esse o seu mote e forma de estar. Com tanta mentira espalhada e impressa em tanta página, percebo que a vontade maior seja dar um grito de libertação - mesmo que ninguém o ouça. 

Neste caso, ouvem alguns - mas acho que poucos o farão da forma que Harry desejaria. Primeiro porque os consumidores de tabloides - sendo que muitos só passam os olhos pelas letras grandes - não vão perder o seu tempo a ler um livro longo como este; segundo porque quem o lê para difundir notícias escolhe a dedo aquilo que quer apresentar aos leitores - e eu tenho a certeza que o objetivo máximo de Harry não era que só se falasse do facto de ele ter queimado o escroto ou que o irmão o tivesse atirado ao chão; terceiro porque é difícil mudar opiniões moldadas durante anos apenas com um par de intervenções (a série e o livro) estratégicas. Ainda assim, é uma oportunidade única para a "plebe" perceber a dinâmica de uma família real, com tudo aquilo que ela tem de bom e de mau; para se entender como é um negócio, como está moldada para gerar espalhafato e gerir expectativas. Mas é, acima de tudo, uma tentativa, uma redenção - e acho que justa, tendo em conta tudo aquilo por que o príncipe passou. Não sei se, de facto, o Harry não tem nada a perder aqui - creio que as ligações familiares devem ter ficado muito fragilizadas depois disto, não só por ele contar episódios chave que mancham amplamente a imagem do pai e do irmão (principalmente) mas por todo o sentimento de não pertença que ele descreve (e que se sente) ao longo do livro, que acaba por ser ainda mais grave que os acontecimentos algo isolados que foram acontecendo entre os três ao longo das suas vidas.

Sobre o livro em si: não li muitas biografias /memoirs e, como tal, não tenho grande termo de comparação. Adorei o prólogo e a ideia de que o livro foi tudo aquilo que ele não teve oportunidade de contar, explicar e fazer ver ao pai e ao irmão - foi um pontapé de saída ótimo, mas que esmoreceu logo no inicio do relato militar da sua história. A segunda e terceira partes são mais lentas, explicativas e, em alguns casos, algo chatas - salvam-se por terem capítulos curtos, que fazem as páginas virar mais depressa. No início do romance com a Meghan parece que o livro ganha outra vida - e daí até ao fim, ainda que com muitas partes tensas, lê-se tudo rapidamente. Ainda assim... é um livro triste - escrito por alguém perdido, onde se lava demasiada roupa suja (embora eu perceba o porquê de ele se ver nesse direito).

Apesar de todas as asneiras que possa ter feito, de algumas más decisões que tenha tomado, acho que será sempre alguém com a qual eu tenho muita empatia. Desculpem, Charles e William... deste lado escreve-vos alguém Team Harry.

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