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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

28
Out20

A vitória não foi (só) de Ângela - foi da democracia

Fiquei mesmo, mesmo, mesmo contente por saber que foi aprovada por maioria, na Assembleia da República, a medida que permite a procriação medicamente assistida num caso post mortem.

Na altura em que a reportagem sobre a Ângela e o Hugo foi para o ar eu fiquei bastante sensibilizada. De um ponto de vista profissional achei a construção da peça jornalística incrível: storytelling no seu melhor. E fui de imediato assinar a petição que já corria o país fora - porque não é algo que afete ninguém negativamente, porque ninguém está livre de ser o próximo. Porque podia ser uma luta minha, de uma amiga ou de outra pessoal qualquer que só quer perpetuar o amor e os genes de alguém que já não o pode fazer em vida.

Mas, felizmente, esta não é uma dor minha. Assinei a petição, fiquei comovida com a história, mas não era algo que fizesse parte da minha lista de causas ou que estivesse no meu top of mind. Mas depois de ver que a medida tinha sido aprovada fiquei, acima de tudo, contente pelo feito de Ângela - muito mais do que a própria medida em si.

Fiquei feliz pelo fôlego e a esperança que um acontecimento destes dá à democracia. Num tempo em que crescem os radicalismos, no mesmo tempo em que as nossas liberdades individuais estão a ser postas em causa por um bem maior - a saúde de todos - devido a um mal gigante - a pandemia - é bom lembrar a essência de sermos livres, de podermos escolher. Acima de tudo, de termos palavra. De sermos ouvidos.

Ângela tinha um sonho - que calculo que para 99% das pessoas que estivessem na posição dela, teriam como inalcançável. A luta deve ter sido dura. Não deve ter sido fácil conseguir chamar à atenção de um jornalista, nem de se expor da forma que fez (sendo que a reportagem desceu quase à esfera intima do casal). Mas conseguiu. Trouxe a sua causa à ribalta, reuniu as assinaturas necessárias para que fosse ouvida no órgão máximo da nossa democracia. A sua causa, a sua voz, a sua vontade e a sua crença tiveram a capacidade de mudar uma lei. De fazer a diferença na sua vida e, quiçá, na vida de outras pessoas na mesma posição que ela.

Conseguiu.

Independentemente daquilo que queiramos, que sonhemos... quer concordemos ou não com esta medida em particular. Não há como negar que este feito é uma lufada de esperança, a prova de que vale a pena ir à luta mesmo que esta pareça perdida. Que nos faça pensar - e lutar se assim for preciso. Oupa!

25
Out20

Eu e o desporto: o que vai para além de uma má relação

É triste andar para trás nos arquivos desde blog - e já são nove anos de memórias -, selecionar as tags "desporto" e "educação física" e perceber que o elo comum em quase todos os posts é a desistência. Não se pode deixar de ver o lado da tentativa, claro - foram muitas as resoluções de ano novo (ou os números deprimentes na balança) que resultaram em inscrições em ginásios e outras experiências; mas saber que tudo isso culminou sempre num fracasso não é uma sensação feliz.

Gostava de estar num lugar de paz em relação a esse assunto, mas não estou. O meu namoro trouxe ao de cima muita coisa que estava escondida em mim, no que diz respeito à atividade física. Tenho a sorte de ter ao meu lado um homem multi-facetado e que, neste caso, é o oposto de mim: é ótimo em tudo o que é desporto e gosta de o praticar. Para meu bem tem-me tentado afastar da nuvem negra que me acompanha neste campo, incentivando-me, ensinando-me com uma paciência e um amor como nunca ninguém tinha feito até aqui; chega ao ponto de entender o meu sofrimento, mesmo não o percebendo.

E se por um lado este esforço tem tido alguns resultados, por outro faz vir ao de cima muita coisa que tinha guardada. Há memórias que surgem do nada, enquanto tento lidar com a frustração de não conseguir fazer um serviço de jeito no padel ou de não conseguir levantar um peso nos workouts que de vez em quando faço em casa.

Lembro-me de quando se sentavam em cima de mim, forçando os meus músculos e articulações a esticarem-se ao máximo de forma a fazer a espargata (devido a uma ideia infeliz da minha irmã - embora bem intencionada - de me inscrever na ginástica acrobática).

Lembro-me de uma professora de educação física me chamar para um teste prático de ginástica (se a memória não me falha) e, como introdução, dizer "lá vem aí o desastre".

Lembro-me de na primeira aula de educação física do sétimo ano, de forma a tentar não prejudicar a minha equipa com as minhas fracas capacidades físicas, me esforçar tanto para correr e dar a estafeta ao colega mais próximo que caí, de cara direta ao chão e de forma tão desamparada que fiquei com um olho negro.

Lembro-me do que senti - a humilhação, a sensação de que o tempo não passava - quando, também no sétimo ano, a minha professora de dança propôs apresentarmos o nosso nome em forma de dança - no centro do pavilhão, com todos os colegas a assistir. Foi talvez a única vez em que amaldiçoei o meu nome. Porque não me chamar "Ana", "Rita" ou "Eva"? Porquê que o meu nome tinha de ter oito letras e eu não saber "escrevê-lo" em modo de dança?

Lembro-me do vaticínio de ficar sempre em último quando os professores davam a liberdade dos colegas escolherem as equipas na aulas de educação física.

Lembro-me de não ter par - porque todos escolhiam outros - e de ter de fazer os exercícios com o professor.

Lembro-me de ser a última a completar o "mega quilómetro" - a prova em que tínhamos de fazer um quilómetro no menor tempo possível - e de ter os meus colegas, com ar de frete de quem já está à espera há muito tempo, a olhar para mim enquanto cruzava a meta. 

Lembro-me de não aguentar um minuto em prancha e, por minha causa (em modo "um por todos e todos por um"), sermos todos obrigados a repetir a sequência de exercícios que já tínhamos terminado até ali.

Lembro-me da minha primeira e última aula de step, num ginásio, em que numa "aula básica" dei um tombo tal no soalho flutuante, depois de tropeçar naquele degrau do demónio, que parecia que tinha acabado de cair um meteoro em plena sala.

Lembro-me do stress e do pânico de ir para as aulas com o PT - algo que ainda hoje não gosto sequer de recordar. Lembro-me de ele me dizer que tinha de aguentar com aquela barra nas costas, que era a mais leve, e que a única alternativa era fazer o exercício sem nada (e da vergonha que isso me fez sentir). Lembro-me de só querer chorar, de ter vontade de vomitar. E de desaparecer, de uma forma geral.

Há uns tempos, a propósito do padel, que de vez em quando "tento jogar" - e a propósito de uma frase em que, obviamente, me auto-criticava -, uma amiga minha perguntou-me, admirada, se eu ainda tinha esta panca em relação ao desporto. Eu disse que sim - e, em modo brincadeira, acrescentei que isto só ia lá com terapia. Não é algo que tenha vontade de fazer (nem ache pertinente nesta altura da minha vida) mas, como diz o ditado, a brincar é que se dizem as verdades. E eu sinto que, mesmo sem ser num especialista, a terapia está a ser feita.

Tem sido este esforço que tenho feito em conjunto com o meu namorado - e a aposta incrível que ele tem feito em mim, um trabalho muito mais psicológico do que físico. E, como tal, tem envolvido uma mistura de sentimentos difícil de gerir - e muito choro, muita frustração, muitas gavetas de memórias que surgem do nada e que eu não queria abrir. É por ele que este ainda não é um post de desistência. E é por ele que, de vez em quando, ainda vou tentando.

Nesta fase, mais do que bater na bola, os desafios são outros. Não consigo tolerar o peso de uma equipa nos meus ombros; jogar a pares, como é o caso do padel, é muito difícil para mim, porque tenho a perfeita noção de que a minha inaptidão prejudica o meu colega de equipa - e mesmo sendo ele família, é algo com que não consigo lidar bem. Não consigo jogar tendo plateia a olhar para mim - e, por plateia, entende-se inclusivamente o par que está do outro lado da rede (que também é família). Não consigo ser competitiva - porque, neste campo, a vida me ensinou a perder - mas também não gosto que me forcem a querer jogar mais, atiçando-me, porque isso não me dá vontade de contra-atacar, mas sim de desistir. Eu não entro em nenhum desporto com a ambição de ganhar. Tentar, só por si, é uma vitória. E dentro da vitória vivem-se dentro de mim batalhas muito duras, difíceis de descrever por palavras, que duvido que algum dia se dissipem na totalidade.

Sinto que na altura em que tentava frequentar ginásios e via as minhas desistências como simples desistências - e as pessoas iam sugerindo outras coisas, e dizendo que não era assim tão mau e mandando alguns bitaites - eu não via a questão com a abrangência e profundidade que ela merecia. Eu estava só no início da escavação do buraco, quando na verdade ali existe uma cratera.

Um dia, ao ler um post no facebook de uma pessoa conhecida que falava também das suas memórias tristes em educação física, da pressão e incompreensão dos professores, da sensação de ser deixada para trás e gozada pelos colegas, eu percebi que não era a única. Não sei se na altura lhe chamou trauma, mas eu subentendi-o. E, olhando para tudo o que escrevi - e para o que tenho meditado sobre o assunto nos últimos meses - acho que o partilho. 

Estou no caminho de aceitar as minhas desistências todas ao longo destes anos - e, lá está, de tentar olhar para elas como tentativas. Estou a tentar perceber que, de facto, aqueles pequenos atos e vergonhas que passei em miúda - que sempre tentei desvalorizar, assim como todos à minha volta - deixaram uma mossa que não achei possível. E estou, aos poucos e com alguém que me compreende, que puxa por mim mas não desmesuradamente, a curar as feridas profundas que hoje percebo que tenho. Quer consiga ou não, sei, por certo, que ficarão cicatrizes. E - longe da vitimização - não me permitirei mais desvalorizá-las.

09
Out20

Há um ano estava no Japão

Lembro-me de estar à entrada do prédio e pensar para mim: "tu estás completamente louca". Estava a subir, pela primeira vez, à casa daquele que viria a ser o meu namorado. As borboletas na barriga já existiam há muito, mas este seria apenas um jantar de amigos, com a irmã dele. Há dias fui pesquisar na memória do WhatsApp e descobri: foi dia 1 de Março.

Nesse jantar, enquanto me impediam de lavar a loiça ou ajudar a arrumar a mesa de jantar, eu decidi que ia fazer a inscrição para a minha viagem de grupo para a Islândia. Não demorou muito até perceber que estava esgotada. Fiquei triste - era "A" viagem que tinha destinada para 2019 - exteriorizei tudo aquilo, enquanto ouvia a água a correr e os pratos a tilintar. Entretanto fiz scroll nas restantes viagens disponíveis e saiu-me: "olha, acho que vou ao Japão".

Palavra que disse. Abri ali uma caixa de pandora - o que é estranho, tendo em conta que só nos conhecíamos há meio ano e, do nada, achamos perfeitamente normal ir para o outro lado do mundo juntos. 

Tive medo - fazer férias com amigos (principalmente que se conhecem há tão pouco tempo) é uma jogada arriscada. Falei com os meus pais, pensei no assunto, olhei para a conta bancária. Três semanas depois, acabada de me sentar na cadeira do anfiteatro que viu nascer a maior das paixões, disse ao ouvido do Miguel: vamos ao Japão. Daí a uma semana - ainda amigos! - estávamos a marcar a viagem.

Faz hoje um ano que aterrei no Japão - nessa altura já com um namorado e uma cunhada-wannabe: duas pessoas que se reafirmaram acima de tudo grandes amigas, antes de qualquer relação "familiar". E é difícil não dizer que foi perfeito. Porque foi! Sim: estivemos no meio de um dos piores tufões dos últimos anos no Japão e passamos um dia inteiro trancados num mínimo quarto de hotel. Sim: sentimos o prédio a oscilar de um lado para o outro. Sim: todos tivemos o nosso momento mais chato, mais frágil, mais impaciente. Mas foi nesses momentos que a cumplicidade veio ao de cima; a empatia, a compreensão, a compaixão. A amizade. O amor. 

Foi o cimentar dos alicerces de uma relação que queremos que seja para a vida. Foi um voto de confiança de todos para com todos, com a abertura necessária para fazer tanto cedências como exigências - e encontrar, no meio de tudo isso, um equilíbrio.

Tenho nas memórias do Japão o epíteto da felicidade. É difícil viver momentos contínuos com um sorriso no rosto - independentemente do cansaço, das saudades, do jet lag ou de algum mal estar. Mas lá tudo isso era ultrapassado - por me sentir tão grata por aquela oportunidade, tão fascinada por tudo o que me rodeava e tão contente por ter aquelas pessoas ao meu lado.

A viagem para o Japão estava destinada - tal como aquele jantar e a minha ideia estapafurdia de marcar naquele momento as minhas férias. O meu namoro estava destinado no momento em que toquei à porta. E a altura em viajamos também foi a perfeita, longe de saber que, se fosse hoje, provavelmente não a faríamos.

Tenho um feeling de que um dia voltarei ao Japão. Até lá, ficam as saudades. E as memórias de uma viagem inesquecível.

 

 

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