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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

25
Ago20

Chávena de Letras: "A Única História"

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Julian Barnes é perito em (d)escrever memórias. Mas memórias a sério, de forma fidedigna, com tudo a que têm direito. Narrar uma história no presente é muito diferente faze-lo enquanto se pensa no passado; não se trata só da precisão e dos detalhes que damos (ou não damos, quando contamos alguma coisa de memória, onde algo inevitavelmente nos falha), mas também da perspectiva que ganhamos da nossa própria história.

A nossa visão muda ao longo dos anos - uma queda no presente não tem graça, mas somos capazes de nos rir quando já tiverem passado uns anos. Da mesma forma, o mesmo desgosto amoroso não tem a mesma intensidade na altura em que o vivemos e volvidos uns anos, quando o lembramos; e o mesmo se passa com todo o processo de enamoramento com alguém. A memória tira detalhes e encantamento e normalmente acrescenta uma pitada de racionalidade.

É nisto que Julian Barnes é bom, a fazer este jogo de lembranças e seus confrontos com o presente. Mas se "O Sentido do Fim" me conquistou imediatamente e é ainda hoje um dos livros que recordo com maior carinho (apesar da história praticamente me passar ao lado), "A Única História" não teve a mesma capacidade. Embora tenha achado à partida a narrativa interessante - a ideia de relembrar o amor da nossa vida, todo o processo de enamoramento (e a forma como é visto pelos outros) e, depois, o confronto com os problemas que qualquer relação acarreta, este não me cativou por aí além e, de certeza, não me ficará na memória como a primeira obra que li do autor.

23
Ago20

Ontem um mocho piou

Nos últimos anos tenho desenvolvido uma certa aversão à expressão "empregada de limpeza". Penso que, acima de tudo, se deve ao facto de ser um trabalho muito "mal-amado" por todos, visto como uma profissão de baixo nível. Em resultado disso, muitos acham-se no direito de mal-tratar este tipo de profissionais, proporcionando-lhes condições de trabalho vergonhosas e tratando-os abaixo de cão.

Eu, pelo contrário, considero-a uma profissão tão digna como ser engenheiro ou arquiteto - e não me choca que uma empregada de limpeza receba tanto ou mais que alguém que tirou um curso destes. Tudo depende do mercado, da oferta e da procura (diria que hoje em dia há muito mais bons engenheiros do que boas empregadas e, como tal, penso que o salário deve refletir essa falta de oferta e, ainda por cima, a crescente procura) e, como em tudo, da dedicação e do amor à camisola que cada um tem no seu trabalho. Mas uma empregada (principalmente a tempo inteiro) tem ainda uma condicionante extra, importantíssima: o seu trabalho é no seio de uma família. Para mim, a partir do momento em que alguém é contratado para esse cargo, tem um passe de entrada como membro daquele núcleo e deve ser tratado como tal. A partir daí, normalmente, advém um carinho e uma amizade especiais, típico de alguém que convive connosco diariamente, que nos conhece, que cuida, que sofre com as tristezas e que festeja connosco as alegrias.

Tenho a sorte de sempre ter tido empregadas a trabalhar lá em casa (como disse, evito dizer "empregada", mas infelizmente não há grandes alternativas) - e guardo, de todas, boas memórias. Mas, acima de tudo, há uma que me ficou guardada na memória - e no coração - depois de lá ter trabalhado durante dezoito anos.

Chamava-se Joaquina. Faleceu ontem. 

A D. Joaquina ensinou-me a ler as horas, depois de me ter oferecido o meu primeiro relógio analógico, todo decorado com cãezinhos. Confiou em mim quando lhe pedi a minha "pi" (vulgo: chupeta) uma última vez, no dia do meu sexto aniversário - o mesmo em que prometi a pés juntos, aos meus pais, que deixaria esse vício. Foi ela quem me ensinou a andar de autocarro e deu comigo a primeira voltinha, dizendo-me onde entrar e onde sair. Ofereceu-me a única Barbie que guardo com carinho e a única pulseira de ouro que perdi - e ainda bem, porque é sinal de que a usei, ao contrário das outras que continuam religiosamente guardadas. 

A D. Joaquina subornava-me com amêndoas de chocolate que guardava no bolso da bata, enquanto me pedia para ir com ela passar a ferro para a lavandaria. Fazia os melhores panados do mundo - e também pataniscas. Adorava os bolos de aniversário lá de casa e farturas frias, que eu trazia de propósito para ela na altura das festas da cidade. Sabia as datas de aniversário de todos nós de cor - e era a primeira a ligar-nos, lá pelas 7:30h da manhã. Fazia contas de cabeça mais rápido do que eu as fazia na máquina de calcular, muito embora tenha passado muito pouco tempo na escola. Acreditava que que, quando um mocho cantava de dia, alguém ia morrer - e eu ainda hoje não gosto de ouvir esse pássaro piar.

Há mais de uma década que deixou de trabalhar, depois de lhe ter sido diagnosticada uma doença que não se coadunava com o trabalho árduo e diário que é cuidar de uma casa grande como a minha. Foi lá várias vezes visitar-nos - e, nos últimos anos, fui eu ter com ela, quando as suas pernas já não conseguiam vir até nós. Em quase todas as visitas trazia-me panados na carteira, para que não me esquecesse de que eram os melhores do mundo.

Numa das últimas vezes que estive com ela contei-lhe que tinha namorado ("finalmente", disse-me ela) - e não vou esquecer o seu ar de felicidade por saber que agora tinha alguém para cuidar de mim. Nos últimos tempos falava-lhe, em média, uma vez por mês; e, em cada despedida, ela mandava "um beijo para o teu Miguel" - nome que nunca esqueceu, apesar de nunca o ter conhecido. 

A D. Joaquina foi uma lutadora a vida toda - e, nos últimos anos, eu achei mesmo que ela tinha algo de imortal, tal a magnitude de tudo aquilo que conseguiu ultrapassar. Mas, no fundo, sabia que algum dia ia ceder às provações que lhe eram constantemente colocadas no caminho.

Ontem recebi a notícia ao final da tarde, depois de um almoço em que falei dela. No dia anterior tinha dito ao meu namorado que, um dia em que casássemos, queria que a D. Joaquina estivesse presente. E, algures num almoço da semana passada, sei que o seu nome também veio à baila. Não creio que seja coincidência. 

Ontem, algures, um mocho piou. E não me levou uma empregada de limpeza. Levou-me família. 

 

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20
Ago20

Chávena de Letras: "Patagónia Express"

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A classificação que dou a este livro (4 de 5 estrelas) aumentou uma estrela na última página. Gostei muito do início do livro, achei a terceira parte algo confusa (e confesso que não sei se percebi totalmente algumas metáforas e comparações que foram feitas), mas o final - a pescadinha de rabo da boca - conquistou-me totalmente. Não considero que isto sejam crónicas de viagem, mas sim um conjunto de textos que, vistos como um todo, são uma imensa declaração de amor.

É dito inicialmente pelo autor que estes eram textos guardados "na gaveta", pelo que se compreende à partida que não tenha de existir uma linha lógica entre as partes (e até entre capítulos). Isto pode, ou não, abonar a favor do livro - dependerá do leitor. Se houve partes e personagens que me conquistaram, outras ficaram aquém.

Ainda assim, gostei. Sepúlveda tem uma escrita poética, limpa e doce. Tenho pena de só ter começado a explorar a sua obra agora (tinha lido um livro do autor antes, ainda na escola, numa leitura conjunta - o que não abonou a favor do livro), tendo a certeza que a sua partida precoce é uma das grandes perdas de 2020 no campo da literatura.

19
Ago20

A antítese dos dias

Este ano não parece ser feito de meses ou de semanas, mas sim de um "antes" e "depois" de um dos maiores sustos que o mundo teve nos últimos tempos. Sem querer refiro-me a Fevereiro como se fosse "o ano passado" e sinto que fui ao Japão há dois. O tempo voou e parou, ao mesmo tempo, qual síndrome de Gato de Schrödinger.

É-me estranho agora estar parada, quando tive meses frenéticos no pico da pandemia (curiosamente, quando todos estavam fechados em casa). Já não estou habituada a ler três livros de catadupa ou a ter tanto tempo livre que já nem sei o que escrever no meu blog, tão parado que parece moribundo. Não me lembrava de acordar a outra hora que não as 7 da manhã. O meu corpo estranha comer uma bola de berlim todos os dias, em vez de estar preocupada em comer apenas uma colher de sopa de hidratos às refeições. É estranho que o tempo livre de hoje fosse há uns dias o meu horário de trabalho, e que o tempo ocupado hoje (a comer, claro) fossem antes as horas livres do dia.

Em férias o contrário impõe-se e a antítese dos dias normais é a rainha.
Mas este ano nem Agosto quer ser normal: o Algarve há uma semana acordou com nuvens e morrinha; a água do mar está fria como no norte - e, como se isso não bastasse, também o vento se assemelha aquela nortada que levanta pazadas de areia ao mínimo esforço.

2020 foi, é, tão estranho que até estranho estar de férias, embora tenha sentido que precisava delas como de pão para a boca. Perdão: de como bola de berlim para a boca. Porque quando as férias acabarem volta a dieta e, aí sim, a normalidade. Talvez, nessa altura, estranhe o normal e queira tudo ao contrário outra vez.

 

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14
Ago20

A lealdade, a traição e os direitos entraram numa loja (ou, neste caso, saíram da SIC e entraram na TVI)

Há um mês estava no Algarve e caiu uma bomba na sociedade portuguesa: Cristina Ferreira saía da SIC para a TVI. Na altura isso levantou-me um debate interior, na verdade já recorrente, sobre o qual decidi escrever. Até hoje. Entretanto já voltei ao trabalho e já voltei de férias - estando outra vez no Algarve, pelo que me parece a altura ideal para fechar o ciclo e publicar este texto (que nunca viu a luz do dia, de tanto lhe mexer e remexer, acrescentar e tirar - mas é desta, vamos tentar).

A lealdade no trabalho é um dos temas que domina muitas das minhas conversas no dia-a-dia: à mesa do almoço, em reuniões de trabalho, com amigos ou simplesmente conhecidos. Acima de tudo porque me divide enquanto pessoa e enquanto empresária - e eu sinto-me, ao mesmo tempo, advogada do diabo e advogada da paz. O tópico voltou a estar em cima da mesa naquele fim-de-semana em que uma bomba caiu em cima deste país, depois de há dois anos termos sido assolados por outro tremor de terra: Cristina Ferreira, até aqui desertora da TVI, voltou à casa-mãe. E eu voltei às minhas discussões interiores.

Eu percebo que cada um de nós tem o direito de ambicionar algo melhor ou diferente, independentemente do sítio onde trabalha ou até daquilo que receba - basta ter leves noções de recursos humanos para perceber que não é só o dinheiro que cai ao final do mês que conta. No entanto, como em tudo, acho que os direitos devem ser usados com conta, peso e medida, nunca olhando exclusivamente para o nosso umbigo. Há uma relação de interdependência entre a empresa e os seus trabalhadores: sem funcionários não haveria empresa, mas sem empresa também não haveria necessidade de dar emprego a ninguém. Será, penso que eternamente, uma das relações mais difíceis de gerir. 

Com esta facilidade de acesso a novas oportunidades - para além de uma lista prolongada de tantas outras vantagens dos tempos modernos, entre as quais a facilidade de locomoção e o contacto constante com quem está longe apenas utilizando um telemóvel - a ideia de um trabalho para a vida foi-se desvanecendo. Mas, em muitos casos, não houve um meio termo: passou-se de ter, em 40 anos de trabalho, apenas um emprego, para algumas pessoas terem 20. São aqueles que apelido de "salta-pocinhas" - os que passam a vida a saltar de posição e de empresa, ora porque ambicionam mais, ora porque não gostam do local onde estão naquele momento. E esses, confesso, fazem-me confusão.

Primeiro porque, do ponto de vista pessoal, não me revejo neste papel: detesto grandes mudanças de rotinas e é-me difícil imaginar que, a cada ano, tenha de me adaptar a um novo local, a um novo trabalho, a novos colegas, novas chefias, etc. Por outro lado, do ponto de vista da empresa, esta instabilidade tem de ser dura de gerir, até porque apesar de uma pessoa poder estar qualificada para um determinado emprego, existe sempre uma aprendizagem específica que tem de ser feita para aquele posto - algo que pode demorar uma semana ou meio ano, dependendo daquilo que estamos a falar (para além do poder de adaptação das pessoas em causa).

Mas é do ponto de vista de empresária têxtil que este tópico mexe comigo. Quando preciso de contratar alguém, não é como ir buscar um enfermeiro ou um jornalista ao mercado de trabalho. Primeiro porque não há formação na área - somos obrigados, internamente, a formar uma pessoa do princípio ao fim; e depois porque, devido ao nível de especialização, não é um trabalho em que exista em "modo default". Um jornalista, independentemente do sítio onde trabalhe, sabe que há questões que vai ter de fazer sempre, que vai ter de escrever, que vai ter de ligar e ouvir as partes; um enfermeiro, quer trabalhe em geriatria, ortopedia ou pediatria, tem de saber dar injeções, limpar um paciente e fazer pensos. Aqui não - mesmo pessoas que trabalharam uma vida no ramo podem não saber trabalhar específicamente com determinadas máquinas: e essa técnica leva anos a aprender. Isso revela-se um investimento de tempo, de dinheiro e de confiança gigante por parte da empresa (quando, nos outros casos, é um investimento da própria pessoa, que paga para tirar um curso na faculdade, por exemplo). E cai-me muito mal se essa pessoa, em que eu investi, saia da minha empresa para ir para outra (ou, pelo menos, que o faça de ânimo leve, sem razões que o justifiquem).

No caso da Cristina Ferreira, a verdade é que há muitos cursos de comunicação e qualquer pessoa poderá ser, à partida, apresentador de televisão. Mas ela distinguiu-se de tal forma que, aparentemente, a sua presença numa estação televisiva dita as vitórias e as derrotas do canal. É diferente, pois não se trata só de conhecimentos, mas também de popularidade. Mas, para mim, todas as pessoas que trabalham comigo (ou que façam o mesmo noutros sítios) são autênticas Cristinas Ferreiras - porque agregam um conhecimento e uma importância vital na estrutura onde estão inseridas. Este tipo de profissões são hoje tão raras, tão específicas, tão especiais... que uma só pessoa faz a diferença.

Num mundo idílico, isto vai contra todos os bons princípios de gestão de recursos humanos. Não é suposto haver insubstítuiveis; é sempre preciso estar preparado para a saída de alguém, tendo já dentro da empresa alguém qualificado para o efeito. Infelizmente, só no papel é que isso é possível. E eu imagino o abanão que é termos de nos adaptar, de um dia para o outro, à saída de alguém que parece ter uma importância equivalente a um orgão vital no seio da nossa empresa. Percebo bem, por isso, o azedume demonstrado pela SIC nos dias seguintes à saída da apresentadora.

Por outro lado, eu própria já me despedi quando senti que já não estava feliz num posto de trabalho e senti que tinha todo o direito a fazê-lo (porque todos temos). A maneira como o fazemos é que dita muitas vezes a forma como saímos  - e, mais, diz muito sobre aquilo que somos! No meu caso fiz o que ditava a minha consciência: avisei com antecedência, de forma a termos tempo de arranjar substitutos e a ser eu própria a forma-los. (Como se tem vindo a ver nos últimos anos, a televisão e as despedidas não se coadunam, pelo que raramente se viu uma cessação de contrato que não acompanhe uma saída imediata). Mas nem sempre é assim. E é nessas situações que a "traição" e o "oportunismo" entram em linha de conta. O que faz de alguém um traidor? E que diferença faz para um indivíduo que tenha, simplesmente, os seus objetivos bem definidos? Diria que é a forma como ambas as partes conduzem o processo... Assim como o contexto. E o timing.

Cristina Ferreira foi com popa e circunstância para a SIC e anunciava-se feliz como nunca com o programa que, dizia, fora sempre o seu sonho. E, do dia para a noite, trocou tudo isso pela casa que, ainda há tempos, não lhe dava oportunidades suficientes. Lá está:o contexto. Para mim não tem nada a ver com o facto de ser mulher (como tanto se falou) - tem a ver com a coerência das atitudes, ainda que no mundo da televisão nada seja aquilo que parece ser. E se é verdade que Cristina Ferreira tem o direito de fazer aquilo que quer da sua vida - e seguir os seus sonhos, os seus instintos e fazer valer os seus direitos -, o público também tem o direito de tentar ler e perceber as suas ações. No fim, independentemente do mote e dos objetivos que conduziram a este terramoto, e muito para além daquilo que ela foi apelidada, há algumas coisas que ficam claras: Cristina Ferreira é talvez a pessoa com mais impacto desde sempre na televisão portuguesa, é uma das mulheres com mais garra e capacidade de trabalho que o público que já viu, mas não tem na lealdade o seu forte. Como todos, tem os seus defeitos e qualidades; e como todos os que gerem empresas e pessoas, têm simplesmente de aprender a lidar com isso.

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