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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

16
Abr20

38 não é só um número de calças - é de auto-estima

No início do ano ganhei coragem para ter um encontro com a balança. Depois chorei. 

Há momentos na vida que são de reviravolta e não têm de ser necessariamente especiais ou bonitos. Não há uma fórmula mágica. Lembro-me perfeitamente de há uns dez anos me ter olhado ao espelho, enquanto mexia na cara, e reparei no quão horrorosas estavam as minhas unhas roídas. Deixei de as roer a partir daquele momento. Foi um clique.

Aqui também foi um bocadinho assim. Não se emagrece tão rápido como se deixa de roer as unhas, mas aquilo despoletou uma ação. Passados vinte minutos estava a ligar para uma clínica de nutrição e decidi-me mesmo a perder o peso a que me tinha proposto (na altura até escrevi aqui, nos meus objetivos, que queria despedir-me de pelo menos 5kgs).

Demorei mais uns dois meses até voltar a subir à balança; as calças já começavam a ficar largas, mas eu tinha medo de que o esforço não estivesse a dar resultados. Quando ganhei forças vi que tinha perdido quase seis quilos. Vitória! Fiquei tão feliz! E agora que já tenho uma série de hábitos enraizados, decidi que queria ir pelo menos para os 60kgs - na loucura até um bocadinho menos, que sempre foi o meu peso de sonho.

E depois apareceu o Covid-19. Não sou das que está em casa e precisa de deixar mensagens no frigorífico para me lembrar de que não tenho fome, mas nestas coisa das dietas a rotina é muito importante. E, mesmo continuando a trabalhar,  muito mudou. Para além disso o fator stress também tem de entrar em conta - há quem coma mais para compensar, há quem coma menos. Eu sou das que me vingo na comida (obviamente...).

Ainda assim digo, com orgulho, que devo ser a única pessoa no país inteiro que, desde que isto começou, não fiz um pão ou um bolo. Comecei a dieta numa altura cheia de aniversários e festas e jantares e dei por mim a ter de saber gerir esta questão: por um lado não posso não comer (podendo até passar por mal educada), mas por outro não posso aproveitar a situação para me vingar e comer por todos os dias em que não o fiz. 

Por isso, neste momento, limito-me a tentar levar essa estratégia avante (nomeadamente com a Páscoa e seus  pães-de-ló e amêndoas do demónio) e, pelo menos, não engordar. No entanto, graças às mudanças de rotina e de horários, surgiu algo positivo: comecei a treinar! Corrijo: o meu namorado começou a treinar. Eu vi-o uma e outra vez a suar as estopinhas ali à minha frente, enquanto copiava os exercícios que passavam na televisão, enquanto eu continuava refastelada no sofá a ler o meu livro. Até que fiquei com vergonha de mim própria e da minha falta de força de vontade. Resultado: treinos de meia hora a 45 minutos, cinco vezes por semana (fazemos descanso de três em três treinos). E a verdade é que se antes emagreci, hoje sinto-me mais tonificada (em relativamente pouco tempo). 

No meio de tudo isto as calças iam-me começando a cair pelo rabo abaixo. Um dia, mal entrei em casa, disseram-me: "essas calças ficam-te horríveis de tão grandes". E, aproveitando os Shoppings Days da Mango, mandei vir uma série de calças 38 - número que não visto há, seguramente, seis ou sete anos (senão mais). Quando chegaram fiquei nervosa. Quando me serviram fiquei estupidamente feliz.

Sempre me irritaram as discrepâncias dos tamanhos das roupas de marca para marca - e sei que algumas calças que tinham escrito "40" eram, na verdade, um 42 (embora, mentalmente, não o aceitasse). E, também por isto, é errado medirmo-nos por uma tabela que não é constante. No entanto é inevitável não sentirmos a felicidade de fechar um botão que, há três meses, não conseguiria caber na sua casa. E é também uma responsabilização acrescida das minhas próprias ações, sabendo que consegui e lutei por caber naquelas calças - e que terei de as manter se quiser continuar a entrar nelas e a apertar o fecho. E, acima de tudo, é aprender a gostar mais de mim. A não desviar o olhar do espelho quando entro na banheira. E perceber que não sou perfeita, mas que ao menos lutei para me sentir melhor com o meu próprio corpo.

 

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10
Abr20

Chávena de Letras: "Raparigas como Nós"

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Fico sempre um bocadinho "chateada" quando percebo que a minha opinião não se enquadra com a da maioria - não na vida em geral (aí, estou-me a borrifar) mas nos livros o caso é diferente. Quando uma massa grande de pessoas diz uma coisa e uma ou outra ovelhas ronhosas entendem dizer o contrário, a probabilidade é que sejam as ovelhinhas que estão erradas.

Neste caso, a esmagadora maioria das reviews que li era positivas - muito positivas. Já me haviam falado do livro, vi-o à venda, gostei muito da capa chamativa e, ainda por cima, era assinado por uma escritora portuguesa. Tinha tudo para correr bem.

Mas a verdade é que eu não sou uma rapariga como as "Raparigas como Nós". Acho que o segredo do sucesso da obra foi o facto dos leitores se identificarem, de reviverem na Isabel (a personagem principal) e nas suas experiências a sua própria adolescência. Amores, desamores, drogas, amigos, outros que deixam de o ser, grupinhos, os populares e os "feios"... enfim, o normal. Talvez por eu ter tido uma adolescência muito pacífica e um tanto anormal (muito fora dos círculos comuns, com muito poucos amigos - e em particular sem uma melhor amiga, tal como a Isabel tem a Alice -, e com opiniões demasiado fortes que não me permitiam "entrar" em grupos), este livro disse-me pouco.

Tem 420 páginas e sinto que a história podia ser contada, com a mesma riqueza e informação, em 350. A parte II do livro, com cerca de 70 páginas, foi para mim altamente maçadora - aquelas descrições sem fim de um amor platónico e parvo de miúdos tirou-me a paciência e li muitas das páginas na diagonal, retendo apenas o que me pareceu útil. Confesso que a personagem principal também não me apaixonou inicialmente, mas fui gradualmente gostando dela - e, acima de tudo, do facto de se manter firme nas suas convicções (confesso que achei que ia vacilar). Foi subindo, à medida que as páginas iam passando, na minha consideração. E isso, para mim, é o melhor do livro -a par do lado moral que transporta consigo e que nos pode ensinar algo, principalmente se formos mais novos.

Também por ter lido algumas reviews consegui antever com facilidade o fim do livro - e, talvez por si, fiquei longe de me sentir despedaçada, como muita gente diz ter-se sentido. Sinto que conheço aquela história, é uma realidade algo próxima, e o final pareceu-me óbvio. Triste, mas feliz ao mesmo tempo.

Do livro retenho duas lições importantes: 1) projetamos muitas vezes os nossos sonhos e fantasias nas pessoas com quem estamos quando elas não correspondem necessariamente à realidade, acabando com relações que até podiam dar certo se não houvesse essa dose de expectativas; 2) há o primeiro amor e depois há o amor de uma vida - e eles não são necessariamente coincidentes.

Não adorei o livro - longe disso - mas acho que Helena Magalhães pode vir a dar cartas. Continuarei atenta.

08
Abr20

La Casa de Papel: uma continuação desnecessária de uma história que já tinha fim

(mas, ainda assim, uma série que nos agarra do primeiro ao último segundo)

Há que saber parar. 

Foi este o pensamento que esteve na minha cabeça enquanto vi a quarta temporada de "La Casa de Papel". Terminei-a ontem e, logo depois, fui ler o post que escrevi há quase precisamente dois anos quando vi o final da primeira temporada. O engraçado no meio disto tudo é que os anos passaram, a história e as personagens evoluíram e a minha opinião permanece exatamente a mesma.

 

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Escrevi, na altura, que era uma história de ferro com pormenores de papel. Hoje continuo a dizer que os pormenores são frágeis como o papel, mas atrever-me-ia a dizer que a história perdeu alguns alicerces que lhe davam aquela estabilidade de ferro de que falei. Sinto que lhe falta tempo, que o guião foi escrito à pressa - algo que acontece mesmo, pois nestas duas últimas temporadas a história era escrita ao mesmo tempo que decorriam as filmagens, muitas vezes sem os próprios atores prepararem a cena que iam filmar (algo que podem vêr no documentário "La Casa de Papel, El Fenómeno") - e isto faz com exista alguma falta da coesão que existia nas duas primeiras temporadas. 

"O problema para mim está no facto desta série ser (em teoria) uma representação da realidade: existe a casa da moeda, existem assaltos onde há reféns. Ou seja, é algo feito “neste mundo”, o que implica que exista alguma coerência e coesão na construção da história e dos seus detalhes. Eu não ouso criticar Game of Thrones, Harry Potter ou os Hunger Games, tão simplesmente porque os autores podem dizer “mas foi assim que eu imaginei”. São coisas irreais. Todos sabemos que não há dragões, que as vassouras não voam e que não vivemos em Panem. Eles podem fazer o que quiserem. Por isso é que se distingue a ficção do fantástico - uma coisa é uma interpretação da realidade, outra é a criação de uma realidade completamente diferente!"

Aquilo que já tinha ressalvado nesse post (e na citação acima) continua a ser um problema para mim. Tiram-me do sério alguns detalhes completamente irrealistas ou mudanças súbitas de espírito de algumas personagens, que demonstra alguma precipitação na escrita, falta de fundo e background na história de cada uma das pessoas retratadas e, acima de tudo, perder por vezes a noção da "big picture", olhando para cada personagem como alguém isolado e não perceber que algo sai fora do contexto.

 

 

No entanto, não há dúvidas sobre uma coisa: La Casa de Papel continua a ser das séries mais viciantes que já vi, uma característica que não pode ser menosprezada. A ação a cada minuto, o fim de cada episódio com cliffhangers e os twists na história são a imagem de marca da série e isso mantém-se. (Confesso que, a certa altura, o stress que isto me estava a causar levou a que fosse ver como é que tudo acabava; no estado de caos que o país e o mundo atravessam tudo o que não preciso é de mais uma fonte de nervosismo. Asseguro que saber alguns detalhes chave e o final não me tirou qualquer tipo de interesse ou  vontade de deixar de ver. Tenho poucos problemas com spoilers.) O lado ardiloso da série, com todos aqueles planos inimagináveis pensados ao milímetro pelo professor também se mantém - mas senti que esta temporada teve muito mais violência do que inteligência.

A ideia original de roubar algo sem, no entanto, roubar alguém perdeu-se no meio de um enredo que ficou subitamente demasiado complexo e onde jogam agora muitas variáveis. O objetivo de não se aliar a imagem de um ladrão a uma pessoa má (no fundo, fazendo-nos gostar daqueles que normalmente seriam os maus da fita) ficou debilitado nesta temporada, em que se vive um ambiente de guerra constante e onde as más ações acabam por ser quase involuntárias. Sinto que a ideia inicial é a mesma, mas não está tão bem conseguida, muito por culpa da evolução natural das personagens e dos acontecimentos, que acabam por aliar o stress aos sentimentos que já todos nutrem uns pelos outros. 

Por isso digo que há que saber parar. Percebo que não seja fácil dizer que não quando nos oferecem budgets milionários para dar continuidade a uma série de extremo sucesso; é natural que todos queiram continuar a ganhar dinheiro, ainda mais quando são os próprios clientes, os fãs, que pedem por mais. Mas quase sempre isso implica sacrificar a qualidade da coisa. 

A quarta temporada da Casa de Papel satisfaz, é muito melhor que a terceira, mas não deixa de ser um acrescento desnecessário a uma história que já tinha fim. Um fim genial como poucas séries têm.

07
Abr20

Um ano da melhor decisão da minha vida

Há um ano tomei uma decisão. Uma das mais importantes da minha vida. Tomei-a com toda a convicção de quem faz algo em que acredita - independentemente do medo de arriscar naquilo que sempre mais a assustou: uma relação amorosa. Dei o passo consciente de tudo aquilo que ia ter de enfrentar, o que fez com o momento que muitos vêem como o mais romântico de uma relação (o início, o primeiro beijo) fosse, para mim, um autêntico salto no escuro. Não sabia para onde ia, mas sabia que queria saltar. Não foi instinto, não foi um golpe de paixão, não foi um impulso. Foi decisão. E, por muito pouco romântico que pareça, ter a certeza de que queremos fazer algo deste género vale muito mais do que um beijo apaixonado, dado de rompante, de quem não vê o dia de amanhã com a pessoa a quem acabou de tocar com os lábios.

Falhei quando achei que estava consciente do que vinha a seguir. 

Falhei por achar que era aquela "A" decisão. Foram muitas "AS" decisões que tomei ao longo deste ano - e algumas foram muito, muito difícieis. Descobri que pesar amores, compara-los, dói muito; que relativizar, pensar a longo prazo e tentar imaginar a vida no futuro com a pessoa que amamos tem tanto de maravilhoso como de assustador (por todos os danos colaterais que implica). E soube, pela primeira vez na vida, que cabe muita dor dentro da felicidade.

Falhei por achar que a minha boa capacidade de gerir o tempo iria dar conta do recado e do desafio que tinha pela frente. E passei a saber que há algo muito difícil de fazer numa relação - e que foi, sem dúvida, o maior desafio deste ano: gerir o tempo que temos para nós, com o outro, com a nossa família e com os nossos amigos. Que percentagem dar para cada lado? Com quem ir almoçar no fim-de-semana? Com quem ir passar férias? E, no meio disto tudo, de não nos esquecermos de sermos nós mesmos; de não darmos tudo aos outros e ficarmos sem nada para nós. Durante muitos destes 12 meses o piano, a escrita, a leitura e outras atividades que gosto de fazer foram postas de parte em prol da minha relação e de tudo o que gira à sua volta.

Mas, acima de tudo, falhei redondamente quando achei que isto não era vida para mim. Que, a partir do momento em que o descobri, podia ter a escolha de não o ter como meu. Porque quando a vida nos dá um presente assim, nem sequer temos o direito de o desperdiçar. É como ver que nos saiu o Euromilhões e deitar o boletim fora: mais do que estúpido, seria um desrespeito para com o destino e a sorte que nos calhou na rifa.

Sorte. Digo-o todos os dias. Tenho - e tive - muita sorte. Por ter encontrado alguém que me fez alterar a minha perspectiva de vida, por este ser um homem por quem me apaixono diariamente, que gosta e cuida de mim, com quem consigo falar sobre tudo, que me respeita, ouve e mima - e de ele próprio saber que tudo isto é recíproco. E isto bastaria para haver química, amor e carinho - mas podia não ser o suficiente para vivermos os dois pacíficamente, como se partilhássemos casa há uma vida. Acima de tudo partilhamos valores, princípios e lemas de vida. Acreditamos nas mesmas coisas. Temos, sem querer, a mesma forma de viver.

Há uns dias, depois de pousar o meu livro na mesinha de cabeceira e me preparar para dormir, disse-lhe: "já viste a sorte? Se eu gostasse de fumar um charro sempre que chegasse stressada a casa ou de ir beber uns copos com os amigos à noite... se calhar a nossa relação não era igual". Ele respondeu: "gostava de ti na mesma. Talvez menos um bocadinho". Esse bocadinho pode não ser um pormenor. Lá está: o amor e carinho podiam estar lá, mas a facilidade de convivência podia não ser a mesma que temos hoje. Porque partilhamos pilares que ambos consideramos essenciais.

Acreditando na lei das probabilidades, nunca acharia isto possível. Encontrar alguém de quem eu goste. Encontrar alguém que goste de mim. Que por acaso não bebe álcool. Que por acaso não fuma. Que por acaso vê a família como o diamante mais precioso que há na vida. Que por acaso tem uma casa onde cabemos os dois, em que há espaço para cada um conseguir vestir a melhor versão de si próprio. Que por acaso gosta das minhas comidas. Que por acaso gosta de cães. Que por acaso gosta de miúdos (e roubou o coração aos meus sobrinhos). 

Que, por acaso, se sentou ao meu lado numa pós-graduação na faculdade.

Que, por acaso, era a peça que me faltava para ser feliz.

 

É caso para dizer que há acasos felizes. O dia 7 de Abril de 2019 não foi um deles: foi uma decisão (que implicou muitas e que vale todas elas). Foi a mais acertada que fiz até hoje, aproveitando o melhor acaso da minha vida.

 

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05
Abr20

Chávena de letras: "O desaparecimento de Stephanie Mailer"

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Jöel Dicker deu-me, há uns anos, um dos melhores livros que li até hoje: "A Verdade Sobre o Caso de Harry Quebert". Bastou um só livro para o considerar um escritor incrível. Continuei a achar, apesar de "O Livro dos Baltimore" e o "Os Últimos Dias dos Nossos Pais" (que, não sei porquê, não escrevi crítica) não me terem cativado como a primeira obra que li do autor.
Agora, a chama voltou. "O Desaparecimento de Stephanie Mailer" é um daqueles livros que não queremos pousar; em que apetece pôr uma placa de "ocupado" em cima da nossa testa até termos a certeza que chegámos à última página. É maravilhoso.

Não o achei tão esteticamente bonito como o Harry Quebert - que está recheado de frases maravilhosas e que nos fazem pensar muito no sentido da vida -, mas igualmente viciante e empolgante (uma característica que, para mim, é difícil de encontrar). Cada personagem tem um background interessante e poderoso, que condiciona as ações que teve ou tem, e que são reveladas a conta-gotas para que a curiosidade nunca deixe de se apoderar de nós.

O final surpreende. Peca por ser "apressado", quando ata todos os nós que faltavam para fechar plenamente a história, mas não deixa de ser um livro extraordinário. Quanto mais não seja por me ter dado vontade de ler mais e mais e mais após o seu fim.

02
Abr20

Coisas boas que surgiram à custa da pandemia

Ou como tentar ver as coisas de um ponto de vista positivo

Não sou uma otimista por natureza. Nunca fui, acho que nunca vou ser. Pelo contrário, sempre tive tendência para ser mais depressiva, ver o lado negro das coisas, das pessoas, das histórias e das situações.

Nesta fase que vivemos cada um aborda o assunto da forma que quer e se sente mais confortável - depende não só da nossa personalidade mas também da maneira como tudo isto nos afeta. Quem está fechado em casa por vontade própria e quem está por obrigação não terão, decerto, a mesma visão; quem é obrigado a trabalhar e quem trabalha porque quer também não deve partilhar opiniões. Mas é o que é. Neste caso, na maior parte das vezes, cada um faz aquilo que tem de ser feito - e tem como sua obrigação aprender a lidar com isso.

Eu, que me mantenho a trabalhar, continuo a ter a mesma rotina de vida, assim como tudo o que lhe diz respeito: tenho as mesmas obrigações em casa e possuo o mesmo tempo para desfrutar dos meus hobbies e fazer coisas de que gosto, para além de tudo o que diz respeito ao trabalho. A minha vida não mudou, como a da maioria dos portugueses, hoje fechados em casa. Mas, curiosamente, olhando ao pormenor, mudaram os hábitos. A televisão mantém-se desligada, pois não me apetece ver esmiuçada toda esta situação - antes estava sempre on, nem que fosse para servir de barulho de fundo ou dar luz à casa. Passa-se o mesmo com as redes sociais, onde divagava frequentemente nos tempos livres; hoje dispenso opiniões alheias ou testemunhos, que só pioram o meu estado de espírito e de ansiedade. Dou uma vista de olhos, páro normalmente para ver coisas com piada e desligo. Agora abro o livro, que anda sempre comigo; leio mais. Toco mais vezes piano, durante mais tempo. Dedico-me mais ao meu namorado. Ligo aos meus pais por videochamada, nem que seja para dizer que a minha sopa estava muito boa. Tenho escrito - e tem sido tão bom! E, no meio disto tudo, percebo que me dediquei àquilo que é a nata da minha vida. Àquilo de que realmente gosto. Muito porque as coisas que me entretinham antes passaram a ser tóxicas nesta fase da vida.

Foi assim que, no meio deste caos todo, percebi que estou a retirar uma bela lição positiva. E que muito mais coisas positivas estão a sair daqui, que muita gente está a fazer o mesmo que eu - embora o objeto, a "nata" de cada um, possa ser diferente. Vejo todos os dias iniciativas que acho graça, que entretêm, que bem dispõem e que não teriam aparecido se não fosse tudo isto. Por isso hoje destaco uma série delas, que apareceram à custa do Covid-19, e que merecem ser apreciadas. Nem que seja para ver o lado positivo da coisa.

 

Nas redes sociais

. As baladas de adormecer do Miguel Araújo, partilhadas pelo cantor no seu facebook e instagram, pelas 21h. Aquilo que ele fazia para as duas filhas (cantar para adormecerem), faz agora, também, para os filhos dos outros - quer estes sejam miúdos ou graúdos. E é muito, muito bonito.

. Num outro registo, Bruno Nogueira também aderiu aos diretos - desta feita no instagram, para os adultos e com um copo de vinho na mão, a partir das 23h. A essa hora aqui a velhota já está frequentemente a dormir, mas dizem as boas línguas (e os vídeos gravados das emissões em direto, que já pude ver - mas que, parece, deixaram de estar disponíveis) que é um deleite e faz muito bem a quem precisa de treinar o ato de gargalhar.

. Ainda num outro registo, parvo mas engraçado, vale a pena deitar o olho no "Big Corona" - o reality show criado pela "A Pipoca Mais Doce" no seu instagram, com episódios praticamente diários, cujos quatro concorrentes são a sua família. Tendo em conta que o Big Brother foi adiado e estamos quase todos enclausurados dentro de casa - só faltam as câmaras - a paródia não podia ser mais oportuna. Para quem é fã deste tipo de programas mas que, ainda assim, tem espírito crítico e sentido de humor, perceberá a ideia. Nada melhor se aplica a este período que as tão faladas "24 sobre 24 horas, sempre fechados no mesmo sítio". 

 

Na cultura

. Esta é uma óptima altura para aproveitarmos para ler tudo aquilo que queríamos e não tínhamos tempo ou que arranjávamos desculpas para adiar (o meu caso). Não têm livros em casa? Tudo bem: há várias livrarias independentes a fazer entregas grátis em casa, só à distância de um clique. A Wook também tem estado recheada de promoções.

. Os livros de cordel voltaram - não para se comprar por capítulos nas papelarias (o objetivo é não sair de casa, lembram-se?) mas em versão online. A página do Bode Inspiratório junta vários escritores (como Mário de Carvalho e Rita Ferro, entre outros nomes menos sonantes mas a que devemos dar oportunidade) e cada um tem de continuar a história do outro, tendo apenas 24 horas para a escrever. Todos os dias sai um capítulo. Podem saber mais aqui

. São mais de livros a sério e não querem gastar dinheiro neste período de incerteza? José Rodrigues dos Santos disponibilizou um dos seus best-sellers - A Fórmula de Deus -, completamente grátis em versão virtual, para que todos o possam ler e passar estes tempos de quarentena mais entretidos.

. Prosa não é a vossa cena? Querem poesia? Na Comunidade Cultura e Arte podem descarregar, gratuitamente, 17 livros de Fernando Pessoa. Diria que ele é das personalidades que mais combinam com o tempo em que vivemos: estranho, meio esquizofrénico e com poemas que se adaptam a todos os nossos estados de espírito.

. Para quem é do Porto, a Livraria Lello também está a oferecer livros em modo "drive-thru": basta fazer a inscrição e passar no local no dia seguinte para o ir levantar (entre as 10h e o 12h), como quem levanta um hambúrguer no McDonalds. Mais informações aqui.

. Para além disso, a Lello disponibiliza online uma série de livros célebres para ler em casa, incluindo os contos de Edgar Allan Poe e, em breve, uma obra de Oscar Wilde. Aqui.

. Ah! Não esquecer o universo Harry Potter, que também tem novidades. J.K. Rowling lançou uma nova plataforma interativa, o "Harry Potter at Home", que ofere conteúdos interativos para miúdos e graúdos que sejam fãs destes livros e filmes - atraindo ao mesmo tempo novos e potenciais "potterheads", disponibilizando gratuitamente o primeiro livro da saga em vários idiomas.

. Saindo dos livros e passando para o teatro: foram vários os espaços que disponibilizaram algumas peças para se assistir online. Caso do Teatro Aberto e tantos outros, que podem consultar aqui.

. Também para quem gosta de sair de casa e não pode - neste caso não falando de salas de espetáculos mas de museus - há centenas de visitas guiadas através da Google Arte e Cultura dos mais variados museus, nos quatro cantos do mundo. É só escolher. Para mim, grande destaque para o museu Anne Frank, que podem "visitar" aqui.

 

Outros destaques (nomeadamente sobre comida)

. É hora de dar valor ao que é nosso e, acima de tudo, de comprar local. Só agora é que muitas pessoas se aperceberam da dependência total que têm dos supermercados - e agora tentam fugir deles a todo o custo, procurando mercados locais, lotas, mini-mercados, feiras (infelizmente fechadas, que tantas saudades me dão...), talhos, frutarias e padarias independentes, entre outros. Fazem-no, ora porque estão cheios, ora porque as entregas estimadas das encomendas online são para daqui a um mês. Os monopólios criados pelos super e hipermercados são pouco saudáveis para a economia - e é bom que as pessoas abram os olhos e vejam as alternativas à sua volta, que também alimentam bocas, sonhos e ambições. Neste momento há muitos pequenos negócios que levam comida e outros bens essenciais a casa de qualquer um - e a plataforma "Hora de Encomendar" é o sítio certo para encontrar quem está próximo de nós e o que têm para oferecer. Aproveitem a oportunidade para saber o que têm de bom perto de vossas casas - e conheçam as pessoas por detrás desses negócios. 

. Diz-se que a necessidade aguça o engenho. Já tinha falado do pão da Pachamama aqui, mas tive sempre muita dificuldade em encontrá-lo. Sempre achei que o negócio devia passar pela entrega em casa e, finalmente, aconteceu! Comprem estes pães maravilhosos, agora à distância de um clique, na novíssima loja virtual da Pachamama

. Tudo isto e muito mais pode ser encontrado em alguns sites que têm feito um acompanhamento mais ao menos permanente às coisas boas que têm surgido graças a esta pandemia. Um deles é o "Fica em Casa", que podem ir consultando aqui.

 

Por aí, têm mais sugestões de coisas giras que tenham surgido por causa deste ambiente apocalíptico que vivemos? Partilhem!

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