Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

27
Fev19

O maior mal das estradas portuguesas

Carolina

Gosto muito de conduzir. Não sei bem porquê, mas uma das melhores coisas que me podem dizer é que conduzo bem. Talvez por ser um elogio muitas vezes guardado para os homens.

Mas a verdade é que o estado caótico do trânsito nas cidades é capaz de tirar todo e qualquer prazer que exista na condução. Isso e o facto da maioria das pessoas ter claramente ganho a sua carta no bolo-rei. (Soei a velho de restelo, não foi?). Pronto, vou ser mais razoável: acho que o facto de se conduzir tão mal, com maus hábitos enraízadissimos, faz com que rapidamente as pessoas se esqueçam das normas da condução. Lembro-me bem de me dizerem que um mês depois de tirar a carta já não iria usar piscas nem fazia perpendiculares. E eu mantenho-me aqui firma e hirta, a mexer no manípulo dos piscas para cima e para baixo e a contornar ângulos de 90º tentando-que-perfeitos de cada vez que estou num cruzamento - porque acho que são normas que fazem sentido, que precavêm acidentes e problemas e que contribuem para uma maior fluidez do trânsito. Mas sei que deixar de fazer estas coisas - e tantas outras - é fácil, principalmente quando quase ninguém as pratica.

Ainda assim, e apesar da baixa qualidade dos portugueses ao nível da condução, o principal problema das estradas não se prende com questões de jeito ou gosto pela condução. É tão somente uma questão de civismo e respeito pelo próximo. Chama-se estacionamento em segunda mão.

Tenho este post entalado há três dias, altura em que fui buzinada e insultada na estrada (entretanto, aconteceu de novo). Se há coisa coisa que eu não gosto é de ser criticada; mas se há coisa que eu detesto é ser criticada injustamente. O que aconteceu em ambas situações foi o seguinte: num troço com pouca visibilidade fui obrigada a mudar de faixa - dedicada aos veículos que vinham no sentido oposto - por culpa de uma carrinha e um carro (respetivamente) estacionados em segunda-mão. Eu não sou nenhuma santa ao volante - meto-me e tento encontrar o meu espaço, mas não sou aselha (disso, tenho noção) - por isso achei que tinha tempo e espaço, dentro da curta visibilidade que tinha, para poder ultrapassar os obstáculos. Na verdade, continuo a pensar que tinha: mas muitas das pessoas que vêm no sentido contrário fazem questão de apertar o acelerador para poder ter com quem embirrar e despejar as suas frustrações depois de um dia de trabalho.

Mesmo que os meus cálculos fossem errados, mesmo que eu não tivesse tempo, mesmo que eu não tivesse visto bem, mesmo que eu tivesse arriscado (o que é obrigatório em horas de ponta, em que estão constantemente a passar carros no sentido contrário) eu não estou a fazer aquilo por livre vontade. Eu não estou a sair da minha via porque me apeteceu. Estou a faze-lo porque há um terceiro envolvido que, por achar que as suas prioridades são mais importantes do que a dos restantes humanos, decidiu deixar a sua viatura no meio da estrada - e está a prejudicar-me tanto a mim como a todos os outros, incluindo os da outra faixa de rodagem. E eu só gostava que toda a raiva que me foi a mim dirigida fosse, em metade, em direção a quem deixa o carro à vontadinha no meio da estrada.

E sim, todos temos telhados de vidro. Eu também tenho - mas com a consciência muito, muito tranquila, por o ter feito meia dúzia de vezes ao longo dos meus anos de carta, em situações muitíssimo esporádicas. Isto porque acho inaceitável. Acho de um egoísmo, de uma falta de civismo e de respeito para com o próximo brutal. E o pior é que é um comportamento massivo, que está a ficar cada vez mais enraizado na nossa sociedade e, desta forma, a ser aceite (faz lembrar o consumo de marijuana - é ilegal, mas já tanta gente o faz que se tornou moralmente aceite e quase já deixou de assumir o estatuto de droga). 

Não tenho problemas em admitir que sou radicalista e que acho que um sistema altamente punitivo resolveria o assunto - viu-se bem a diferença do estacionamento com parquímetros no Porto a partir do momento em que uma empresa começou a deixar bilhetinhos laranjas com multas de cada vez que alguém não punha moedinha. Antes não se arranjava um lugar - hoje, há-os às dezenas. Aliás, o caricato no meio disto tudo é que as pessoas preferem deixar os carros em segunda-mão, onde sabem não ser multadas, do que em lugares legais, mas pagos. É indecente.

Desafio-vos a sair de casa e, no percurso até ao vosso trabalho, contarem o número de carros que têm de contornar, qual corrida de obstáculos. Acho que muito dificilmente farão o caminho sem impedimentos. Porque o estacionamento em segunda mão é, para mim, o maior problema das estradas portuguesas - muito mais do que os aselhas e os pouco dotados para a arte da condução.

Não, ir buscar os filhos "ali num instantinho" ao infantário não é desculpa.

Não, ir só ali comprar pão não é desculpa.

Não, deixar o carro em segunda mão enquanto se almoça ou janta não é aceitável. É i-naceitável.

Não, parar os camiões para descarregar bebidas, para poupar o lombo do trabalhador, não é desculpa. 

Não há desculpas. 

Estamos a falar do benefício de uma ou duas pessoas contra o malefício de centenas (sim, porque não são só as pessoas que têm de ultrapassar ou deixar que os outros ultrapassem, mas também todos aqueles que têm de esperar atrás desses) que, por aquele "instantinho", vêem as suas vidas atrasadas. Que, por aquela coisa "que toda a gente faz e que não tem mal nenhum", até são insultadas e buzinadas de forma gratuita. Que, porque "tem mesmo de ser", sofrem acidentes.

Porque o vosso tempo não vale mais que o meu. Porque as vossas prioridades não são maiores que as minhas.  Porque se têm direitos, também têm deveres. Porque a estrada não é vossa, nem minha, mas sim de todos.

25
Fev19

Não sei o que sou nem o que fui

Carolina

Há três anos que não sei o que sou. De cada vez que tenho de preencher um formulário ou apresentar-me formalmente fico bloqueada, tentando prender-me a uma classificação que claramente ainda não existe no dicionário. Há uns dias, na pós-graduação, falava-se em "tudologos" - aquelas pessoas que fazem tudo nos sítios onde trabalham - e eu achei que era a única descrição justa para muito do que fui fazendo nos últimos tempos.

Quando trabalhava no jornal apresentava-me como gestora de conteúdos, designação de que me lembrei depois de alguns meses de luta interior para descobrir o que realmente era. De qualquer das formas, para evitar perguntas, os meus cartões não tinham função. Esclareci, desde o início, que não era jornalista (por opção e por não possuir carteira); mas ia dizer o quê? Paginadora, designer, gestora de redes sociais, publicista?

Hoje em dia, se quiser ir pela via mais fácil, digo que sou estudante – escondendo apenas que aquilo que estou a tirar é um curso pós-laboral, que ocupa duas noites por semana. Ninguém precisa de saber esse tipo de detalhes insignificantes, não é verdade?

Entretanto também dou aulas de piano – aqui a coisa começa a complicar-se. Faço-o assim num part-time muito, muito part-time, só um par de horitas por semana. Isto para além de cobrir as faltas e férias dos outros. Sou uma professora de piano de substituição? Sou meia professora? Professora nas horas vagas?

E resta-nos o caso mais sério, aquele que – espero – vai evoluir nos próximos tempos. Agora trabalho com o meu pai nas fábricas da família. Sou o quê, aprendiz de CEO? Mera observadora? Assistente? A que faz perguntas chatas? Deverei arranjar um nome catita em inglês, para parecer mais requintado? Tipo CEO to be? Chief to-become? Manager Aprentice, estilo o reality show americano? Ou, simplesmente, a filha do patrão – o nome que provavelmente mais passa na cabeça de todos de cada vez que me apresento? 

Hei-de escrever sobre isto, sobre o peso que os filhos dos patrões carregam nos ombros, mas fica para outra altura. Até lá, tenho de arranjar uma função para pôr no LinkedIn, só para não pensarem que não ando a fazer nenhum quando na verdade ando a tentar encontrar uns minutinhos para respirar.

Tudologa é um bocadinho presunçoso, não é?

17
Fev19

Uma carta ao... #4 Instagram

Carolina

Caro Instagram,

 

Acabei de passar uma semana inteirinha com os meus sobrinhos, por isso encarnei um bocadinho a vertente de "mãe", sentindo-me na obrigação de os educar sempre que achava necessário. Essa onda ainda não saiu de mim, por isso vais ter de levar um sermãozinho neste domingo. Então é assim:

Vivemos na época das igualdades. As mulheres já votam; os salários querem-se iguais entre os dois géneros. Por falar em géneros: já há quem não seja homem nem mulher, e está tudo bem com isso. Já é permitido em muitos países o casamento entre pessoas do mesmo sexo. As mulheres podem ser trolhas e os homens dançarinos; as mães podem ir trabalhar e são os pais a desfrutar da licença de parto. Pessoas normais tornam-se figuras publicas em dois tempos, utilizando plataformas democráticas e onde todos têm acesso. Agora eles cozinham e elas lavam os carros; eles depilam-se e elas deixam de se depilar. As mulheres podem bem ser o sustento da família e eles pais a tempo inteiro. Há mulheres na política e na liderança de empresas - e há homens também. Tudo dá para os dois lados, ou para todos os lados. O acesso a tudo quer-se democratizado e justo, sem diferenças ou discriminação.

Mas tu, rede social da nova geração que ajudas a veicular muitos destes valores, és o primeiro a discriminar. Primeiro, passei meses sem poder pôr músicas nos instastories - não havia atualização ou desinstalação que me valesse, estava condenada a ficar com o mísero som dos meus vídeos. Mas, mais grave que isso, é não conseguir pôr swipe up quando quero dirigir os meus leitores aqui para o estaminé. "Ah e tal, só com não sei quantos mil seguidores é que essa função fica ativa". Porquê? Porque é que os fixes, os famosos e os populares é que têm direito? É uma lógica estilo Blogs do Ano, em que se promove ainda mais quem não precisa de se promover? Facilitar a vida a quem já a tem simplificada, porque já tem um alcance orgânico muito maior à partida? É só parvo, injusto e discriminatório.

Isto tudo para dizer que estás em contra-ciclo. E que estava na horinha de mudares de atitude, ouviste, meu menino? Ainda tu não tinhas nascido e já eu andava na escola, estás a perceber?

Então pronto. Fico à espera de mudanças.

 

Carolina 

(@carolinagongui para os amigos do insta que não podem ver os meus "swipe up")

 

Instagram-Stories-Redbull.png

 

14
Fev19

Posso ser solteira? Por favor?

Carolina

Já há muito tempo que vivemos numa sociedade em que estar solteiro é visto como uma coisa má. Mas hoje, mais do que nunca, isso se evidencia - a começar pelos programas de televisão, altamente empenhados em arranjar "a alma gémea" de qualquer um, utilizando métodos altamente inovadores e de eficácia, digamos, duvidosa. Vejamos: casar pessoas sem elas nunca se terem conhecido (Casados à Primeira Vista), fazer dates em restaurantes (First Dates) e dentro de carros (O Carro do Amor) ou juntar uma dúzia de miúdos dentro da mesma casa para ver quem se engata primeiro (Love on Top). Para vir estão outras maravilhas como os serem os pais a eleger o novo namorado da filha, escolher (ou, neste caso, eliminar) potenciais parceiros tendo por base o aspeto das suas partes iíntimas (Naked Attraction) ou ainda ter conversas muito intensas e profundas com um "match" enquanto estão deitados numa cama... usando apenas lingerie. Tudo formas maravilhosas de se conhecer a fundo uma pessoa, não é? 

É engraçado como toda a gente parece estar ansiosa por arranjar alguém mas depois desencanta as formas mais escabrosas e descabidas para o fazer. Os programas são claramente a nova moda, mas também podíamos falar do Tinder, do facebook e afins. Acho que o problema principal é o objetivo ser, à partida, encontrar alguém com quem ter uma relação amorosa - passa-se logo à frente uma possível amizade, logo aniquilada por se dar um passo maior que a própria perna. Mas estas são, provavelmente, as mesmas pessoas que se queixam de já não haver relações a sério, com um bom fundo, que é tudo feito com base em questões superficiais. Querem o quê, se os escolhem os outros pelo tamanho das mamas ou se põem o futuro nas mãos de produções de programas que nunca vos viram à frente?

Neste momento a pressão da sociedade para se arranjar um/a companheiro/a é de tal forma que nós quase que nascemos com essa ambição máxima. Já não precisamos que nos digam que só se é feliz quando se partilha a cama e a vida, isso já nos está embutido. A pressão é nossa. Não vale a pena dizer "deixem os solteiros em paz" quando são a maioria das vezes eles próprios quem mais se impõe para mudar de estado civil - e, aparentemente, agora vale tudo. Já não sabemos estar sozinhos.

Eu sou solteira por defeito - defeito por ter nascido assim, solteira, sem amarras (no sentido de default) e por não ter paciência, tolerância e disponibilidade (mental) para dedicar tanto tempo a alguém (no sentido de falha de personalidade). Vejo todo este fenómeno com alguma estranheza e, confesso, alguma impaciência. Já não tenho pachorra para quem me pergunta se tenho namorado, se anda "mouro na costa" ou quando têm claramente mais vontade de me ver casada do que eu própria tenho. E este Dia dos Namorados lembra-me sempre isto, esta necessidade contemporânea de atualizar o estado de uma relação no facebook e de partilhar fotos mimosas de mãos dadas.

Acho graça como tanta gente critica ultimamente o Natal, por se ter tornado numa festividade comercial, mas mal pensa nisso relativamente ao São Valentim, que não é nada mais do que comercial. É curioso ver como este é um dia que já temos muito enraizado na nossa vida, até mais do que alguns feriados. Quando olhamos para os nossos calendários em Fevereiro já sabemos que ali para o meio está o dia mais piroso do ano. E é de tal forma que não deixamos de o celebrar (penso que em grande parte por termos medo que a "nossa metade" fique triste por deixarmos passar esta data em branco).

E isto é um cliché, mas é verdade: o dia dos namorados, do pai, da mãe, dos irmãos e dos avós devia ser todos os dias. Não devíamos precisar de reminders para isso. E gastar 50 euros por cabeça num jantar só para provar que é amor serve de muito pouco. O mesmo se pode dizer daqueles peluches enormes, pirosos, que eventualmente vão acabar no sótão porque não há sítio melhor para os pôr. Ah, e das rosas, que pagamos neste dia ao quíntuplo do preço daquilo que pagamos nos outros 360 dias do ano (há que contabilizar o dia anterior ao dos namorados, cujas vendas aumentam à custa dos mais precavidos, e o dia da mãe e respetivo dia anterior, que segue a mesma lógica comercial). 

Não quero ser aqui a velha do Restelo, mas gostava de relembrar nascemos sozinhos e morremos da mesma forma - com ou sem anel no dedo, papéis assinados, com ou sem averbamentos na nossa ficha do registo civil. Acho bem que nos divirtamos pelo caminho e, quem quiser e tiver disposição, que o partilhe com alguém de quem gosta - mas esta pressa, esta necessidade quase absurda de se ter alguém faz-me muita comichão. 

Posto isto, resta-me desejar-vos um bom dia dos namorados. Para os comprometidos, para os que "é difícil", para os que têm amigos coloridos ou room-mates. E, claro, para os solteiros. Lembrem-se que os 50 euros que gastariam entre flores, jantares e bonecada dá para uma mariscada das boas. Não é bem a mesma coisa, mas dá para um orgasmo gastronómico. Digam lá que é mau? 

 

980x.png

12
Fev19

Antes um calendário da Pirelli que do Benfica

Carolina

Estou agora a imiscuir-me no meio industrial. Nasci no seio dele, mas há coisas que há quinze anos atrás me passavam ao lado - e ainda bem, porque não tinha sequer idade para as perceber. Coisas tão simples e tão complexas como a relação patrão-colaboradores ou a própria interação dos empregados entre si. Quando era criança achava mais graça aos processos e não estava tão preocupada com esta vertente, que agora me é essencial, tendo em conta que estou a tentar assumir o papel de liderança dentro de uma empresa. 

Aprendi muito na minha passagem pelo jornal, quanto mais não fosse porque ouvi muitas opiniões (que eu às vezes concordava, outras não) e vi outras empresas, transpondo agora um bocadinho desses conhecimentos e daquilo que vi para a minha realidade atual e tentando tornar isto o melhor possível.

Há uns dias, enquanto tentava aprender um dos processos aqui da fábrica, deparei-me com uns cartazes e calendários do "Benfica Campeão" colados numa das paredes. Ora o tetra, ora a reconquista, ora o penta que aí vinha - não sei, nem olhei bem, vermelho e branco não é a minha praia. Mas fiquei a matutar naquilo e como não gostava da imagem que aquilo transmitia. E não, não é por ser do Benfica: podia ser do Porto, do Sporting ou do Leixões. É por ser de futebol. Veio-me à memória um escritório da fábrica onde cresci, quase pintado de azul e branco da cabeça aos pés, como quem grita "este escritório é de um portista doente". E isso não é bom, porque no futebol quase todas as reações, discussões e opiniões saem diretamente do coração. E, numa empresa, aquilo que queremos é cabeça.

Lembro-me perfeitamente de uma vez, no Leroy Merlin, ter mandado uma piada sobre o Benfica a um colaborador que estava a ajudar a carregar para o nosso carro umas placas pesadíssimas que viriam a forrar a piscina. Não sei o conteúdo da piada, da boca, da indireta ou da brincadeira, creio que até foi ele que começou e eu não me deixei ficar, mas lembro-me perfeitamente do desfecho: o senhor deixou o carrinho e foi-se embora, deixando-me a mim e à minha mãe a carregar aquele peso bruto. Tudo por causa do futebol. Escusado será dizer que, de cada vez que vou a uma destas lojas, me lembro da gentileza e racionalidade deste homem, que manchou a imagem do sítio onde trabalha por uma atitude parva e irrefletida.

Há quem critique as pessoas por adornarem as secretárias com as fotos dos filhos, quem deteste ir a oficinas automóveis porque se depara com calendários cheios de mulheres em poses indecentes. Pode ser piroso e revelar muito sobre quem os tem, mas não há muito a comentar sobre isso. Já coisas com teor futebolístico são, para mim, bem piores, pois criam cisões graves à partida entre as pessoas, sem estas sequer se conhecerem. Um cartaz de futebol é uma posição expressa de um gosto clubístico e pode criar pequenas guerras perfeitamente desnecessárias. Então e se as pessoas que partilham o mesmo espaço não forem todas do mesmo clube? E se alguém doente por um outro clube visitar o sítio em questão e se puser a mandar postas de pescada sobre o golo mal anulado do jogo de domingo? É irreal pensar que alguém que se dá ao trabalho de colar posters ou adornar o seu escritório com coisas do seu clube não vai ripostar a um desafio desse género. E muito dificilmente uma conversa destas vai ter a algum sítio bom ou culminar com elogios e uma ideia positiva de quem está do outro lado.

Não quer isto dizer que vá andar por aí a tirar posters alheios das paredes ou acabar com pregões clubísticos, qual extremista. Mas, a longo prazo, preferia que eles não existissem. Mal por mal, tragam os da Pirelli.

07
Fev19

Deus escreve direito por linhas tortas

Carolina

Não me lembro de, em miúda, querer ser muita coisa "quando fosse grande".  Recordo-me, sim, das duas principais profissões que sempre disse querer ter: primeiro, ser engenheira informática, como o meu irmão; depois, trabalhar na têxtil, tal e qual como o meu pai. Pelo meio tive algumas epifanias: professora de música, veterinária (esqueci a ideia quando uma prima mais velha me disse que tínhamos de pôr o braço in-tei-ro dentro do rabo de uma vaca), decoradora (só porque  achava que fazia um trabalho formidável no Sims) e acho que me passou pela ideia ser cabeleireira, um pensamento breve mas claramente egocêntrico, uma vez que tinha como objetivo não ter de passar pelas mãos de profissionais alheias que me cortavam mais do que os 7 milímetros de cabelo que eu achava serem adequados e que eu impunha como máximo de corte. Já não se pode dizer que fosse muito miúda quando a escrita e o jornalismo apareceram no horizonte.

Há uns meses, numa limpeza geral que fizemos nos arrumos, em que deitei centenas de quilos de papel fora (sem exagero), apanhei o primeiro jornal que alguma vez fiz, ainda no primeiro ciclo. Chamava-se "Notícias da Cidade", era um jornal de parede e tinha artigos sobre o que ia acontecendo na escola, que não passava muito da cena de pancada que tinha havido entre o António e Luís, com direito a relatos das auxiliares que separaram os dois meninos - eu sei, muito informativo... Lá pelo meio encontrei ainda o segundo jornal que desenvolvi, que teve mais de uma dezena de edições, chamado "Simple" - lembro-me bem de ir à reprografia e de fazer tabelas de custos, para pelo menos não ter prejuízo com a impressão. E enquanto folheava estes tesourinhos apercebi-me que a vida é um ciclo. É engraçado ver que nessa altura  estava a léguas de pensar em jornalismo - aliás, sempre fora uma aluna mediana a Português, não gostava nada de ler e os erros ortográficos eram uma constante - mas a verdade é que dois dos meus primeiros projetos "a sério" foram nessa área; mal eu sabia que uma década depois ia mesmo tirar esse curso e fazer parte de um jornal a sério!

Depois olhei para o presente e caí na real: então não é que hoje dou aulas de piano com regularidade? Que me chamam "professora" quando precisam de ajuda entre partituras e teclados? Que sou "a escritora da família"? E que estou, tal como o meu pai, no ramo têxtil? É verdade que não dei em decoradora nem em veterinária (embora, com seis cães , faça de veterinária quase todos os dias), mas a informática continua a ter um peso considerável na minha vida. Ah, já para não esquecer que corto a minha própria franja em casa, o que deve contar um bocadinho para a parte do "cabeleireira".

Agora fora de brincadeiras: a maioria dos emails que recebo na caixa do correio do blog prende-se muito com indecisões no campo profissional, ou ainda mesmo na fase dos estudos. Como tive um percurso um bocadinho atribulado penso que há muita gente que vê em mim alguém com alguma experiência para ajudar nestes campos. E se é verdade que ninguém deve ser infeliz a fazer um curso ou a trabalhar num determinado sítio, também o é que devemos ser resilientes e ter em mente o nosso objetivo final. É preciso pesar bem as coisas e tentar ter uma visão imparcial da nossa própria vida e situação emocional o que, obviamente, é tudo menos fácil. Aquilo que digo sempre é que os caminhos que percorremos não têm necessariamente de traçar o nosso futuro. Deviam ajudar, mas se não o fizerem, ninguém morre. A escola e a faculdade são um meio para atingir um fim. E o trabalho é algo que podemos mudar, desde que não nos falte a coragem e um meio de apoio qie nos ajude a sustentar essa decisão.

Lembro-me bem que, quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande, me diziam aquilo que os adultos dizem a todos: "mas não podes ser tudo! Tens de escolher! Umas coisas nem sequer têm que ver com as outras... É como dizeres que queres ser astronauta e florista, não funciona". E eu hoje venho dizer o contrário, que não é bem assim, e que a vida não tem de ser resumida a uma só coisa - até porque é um caminho, e todos nós sabemos que há muitas estradas diferentes que vão dar ao mesmo sítio.

Sim, é verdade: eu não vou viver a vida toda neste vai-não-vai. Eventualmente vou ter de fazer escolhas, deixar de me partir em muitas e de andar de um lado para o outro estilo barata-tonta. A gestão da minha agenda, entre dar e receber aulas de piano, as fábricas, o blog e a pós-graduação é coisa para, de vez em quando, me dar calores e muitas dores de cabeça. Mas ao menos posso dizer que fiz. Um dia quis ser jornalista? Já fui. Um dia quis ser professora de música? Já sou. Um dia quero ser como o meu pai e trabalhar na têxtil? Já trabalho. E cabeleireira? Não sou porque não quero, porque na verdade acho que nunca quis, e estou bem com isso. 

Sinto que a vida passou um lápis por cima de muitas das coisas que eu antes, em miúda, delineei a tracejado - quase como se faz naqueles livrinhos de crianças. Penso que tudo isto aconteceu por uma mistura de sorte, de disponibilidade e abertura da minha parte e por, de alguma forma, querer e fazer por isto. Ou então é mesmo o destino, sei lá. A verdade é que se calhar era tudo mais fácil se fôssemos seres coerentes, que tudo batesse certo e que fizesse tudo muito sentido na nossa vida, nos nossos gostos e nas nossas ambições. Mas as coisas não funcionam assim. E ainda bem, porque acaba por ser muito mais divertido desta forma ;)

03
Fev19

Uma carta à... #3 Primor

Carolina

Olá Primor,

 

Antes de mais, não tens de quê: estou prestes a revelar ao mundo que produzes a melhor manteiga que há no mercado, a Primor com Cristais de Sal. Não há palavras para descrever o quão bom é comer uma torrada, quentinha, e barrada com esta manteiga, até apanhares uma daquelas pepitas de sal que parecem deixar todo o sabor ainda mais intenso. Porque a verdade é mesmo essa: para quem gosta de manteigas salgadas (que é como quem diz, boas), não há cá President ou marca Continente que se safe. A tua é a melhor. Infelizmente é a melhor para o palato, mas não para o ambiente.

Acredita que eu percebo o conceito de produto premium - mal fora se não entendia, depois de já ter perdido a conta às aulas de marketing que já tive ao longo da vida. Percebo que queiras cobrar 1,39 euros por um pacote com 125 gramas de manteiga e tenhas de justificar o preço de alguma forma. Mas vender o produto dentro de caixas de plástico rígido, com a manteiga envolvida em papel de prata lá dentro, é só parvo. "Ah e tal, é para não ficar a saber a frigorífico - ninguém quer que uma manteiga desta altíssima qualidade perca o seu esplêndido sabor". Verdade - mas a pensar assim também todos os queijos, fiambres e coisas do género teriam de vir em caixinhas - e não vêm. Porquê? Porque 99% das pessoas têm uma coisa em casa chamada tupperwares que, veja-se só!, foram mesmo pensados para esse efeito: guardar coisas para que elas não se estraguem ou deteriorem.

Deves estar a pensar: "lá vem esta miúda com as teorias ecologistas da geração dela, que não percebe que precisamos de vender quer o mundo acabe ou não daqui a 200 anos". Não é verdade. Sou até bastante despreocupada em relação a este tópico, nada extremista (já me chega ser extremista em quase tudo o resto), mas acho que todos temos um cérebro e devemos pelo menos tentar rentabiliza-lo. Eu gosto de caixas, caixinhas e caixotas (basta entrar no meu quarto para se perceber isso), mas sou incapaz de dar utilidade às dezenas de caixas minúsculas que advém dessa embalagem. Já não tenho mais clips, totós, ganchos e molas para guardar; já nem sequer tenho mais espaço para empilhar caixinhas na eventualidade de vir a precisar delas no futuro. Sou obrigada a deita-las fora. E numa altura em que até querem abolir as palhinhas e os cotonetes, produzir uma caixa de bom plástico só por uma questão de vendas não é só parvo: é irresponsável.

Imaginemos que, de facto, as pessoas não têm tupperwares em casa (essas pessoas existem?!). Tudo bem, vende-se a manteiga com a caixinha. Mas para todos os outros que ou já têm sítio onde guardar ou que já compraram a vossa bela e durável embalagem com tampa dourada, a dizer orgulhosamente "Primor", a melhor ideia era vender a manteiga em separado. Até podiam baixar o preço por não terem de pedir tantas caixas ao vosso fornecedor, já viram? E, baixando o preço, mais pessoas provarão e ficarão viciadas na vossa maravilhosa manteiga. E mais vendas é sinónimo de mais dinheiro. E mais dinheiro é aquilo que a Primor quer, certo?

Apercebo-me agora que estou quase a dar um serviço de consultoria à distância e a custo zero, mas é para que se perceba o meu amor a este produto. Gostava muito de não o comprar com peso na consciência ou a pensar "e agora, onde é que vou utilizar mais uma caixa?!". Ou, pior, ver esta manteiga extinta do mercado porque é demasiado cara ou por não ter clientes que, ao contrário de mim, são mais radicais nestas coisas.

Pensem nisso. 

 

Obrigada,

Carolina, o meio ambiente e os arrumos de casa da Carolina que já não têm mais sítio para albergar caixas da Primor (as únicas que não agradecem são as minhas ancas, mas vamos optar por ignorar)

 

manteiga primor.jpg

01
Fev19

Um reencontro forçado - um texto do concurso de escrita criativa

Carolina

Dado o feedback sobre no último texto sobre o concurso de escrita criativa, aqui vai uma das minhas participações. O mote: um reencontro entre quatro amigos, 20 anos depois de se terem visto pela última vez.

 

A sua respiração estava pesada, depois de começar a subir a escadaria. Nestes momentos lembrava-se que já não tinha quinze anos e que a idade começava a pesar – nomeadamente nas suas pernas, que se faziam sentir depois de meia dúzia de degraus.

Ao cimo, um homem estava encostado ao corrimão, abatido. Quando chegou ao topo, viu-lhe a camisa apertada pela barriga, a cabeça calva e os olhos azuis, que naquele preciso momento deixaram de ser estranhos.

- João, não me reconheces? – disse, ainda a recuperar a respiração.

- Não posso crer! Joel, aos anos! – Encontraram-se num abraço ruidoso, por entre as palmadas características de quem não se vê há demasiado tempo. – Como estás?

- Pergunta mais “como estamos”. Velhos, pá. E gordos, olha só para ti… para nós! – respondeu, arrependendo-se logo do que dissera, esquecendo-se que já não estava a falar com o amigo de antigamente.

- É verdade… Enfim, pena encontrarmo-nos nesta situação. Como é que soubeste? – perguntou João.

- Li no jornal. Quis vir cá vê-lo. E tu?

- Também. É assim a vida… Está lá dentro o Manel, encontrei-o há pouco.

Entraram na sala escura e Joel sentiu um misto de sentimentos. Que bom era voltar a estar na mesma sala com quem partilhava as suas raízes; que triste ser esta a ocasião. Lá estavam os quatro, de novo, vinte anos depois. Os seus três melhores amigos da primária: João, o aventureiro; Manel, o dono da casa com o melhor quintal da vila; e o Carlos, o autor das histórias mais memoráveis. Que saudades tinha daqueles tempos, em que jogar à bola e saber quem seria a vítima das próximas tropelias era a maior das suas preocupações.

Hoje, arranjar flores foi o seu principal problema. Não podia deixar de se despedir do seu velho amigo.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Deixem like no facebook:


E sigam o instagram em @carolinagongui

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Leituras

A ler:



goodreads.com


2018 Reading Challenge

2018 Reading Challenge
Carolina has read 5 books toward her goal of 12 books.
hide

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D

Ranking