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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

31
Ago18

Menu de fim-de-semana (uma nova versão do Follow Friday): Tea for Two

Carolina

Já há algum tempo que eu estava a preparar este “menu de fim-de-semana” que, na prática, é um follow friday mas que em vez de partilhar um blog, mostra projeto, uma série de vídeos ou qualquer coisa que eu ache que vale a pena seguir e dar atenção. Isto porque, por um lado, já partilhei todos os blogs que sigo fielmente e, por outro, porque com o enriquecimento de novas plataformas (em detrimento da escrita, o que muito me entristece) há muita coisa nova e gira a aparecer e que eu acho que deve ser partilhada.

Não quero com isto comungar a sentença que agora é profetizada de que “os blogs acabaram, passem à próxima moda”. Diziam isso com a têxtil, faziam-no também em relação aos livros em papel, e nenhum deles chegou ao fim. Não que os blogs sejam essenciais à vida, algo profundamente enraizado na nossa cultura ou que tenham uma carga cultural imensa (como o papel ou os suportes de escrita, que vêm de há não sei quantos milénios). É simplesmente uma questão de fé: acho que ainda há pessoas que valorizam a palavra escrita e que não querem ter o poder de concentração de um peixe e, como tal, vão continuar desse lado. E enquanto eu achar que assim é, continuarei a escrever e ao mesmo tempo partilhar outras coisas, noutras plataformas, porque não há necessariamente uma rivalidade - o ideal é haver uma complementação de todas estas modas, novidades e tecnologias.

A minha primeira partilha vai para uma série de vídeos chamada "Tea for Two", do canal Jubilee (do qual gosto muito). A premissa da série é baseada num artigo do New York Times, já antigo, em que constam 36 perguntas que, supostamente, vão fazer com que duas pessoas se apaixonem uma pela outra. São coisas como "O que seria um dia perfeito para ti?", "Qual é a tua memória mais valiosa?" ou partilhar um momento de que a outra pessoa se envergonhe; no fundo, obrigar que um e outro partilhem coisas íntimas e profundas, talvez algo filosóficas, que demonstrem quem realmente são.

É claro que isto não funciona na realidade - pelo menos não na totalidade - e que as pessoas escolhidas para entrar nestes vídeos já têm, provavelmente, alguma coisa em comum uma com a outra. Independentemente de tudo isso, o resultado é quase sempre muito engraçado e fica no ar alguma conexão (giro era ver se, passado um mês, alguma coisa tinha acontecido entre esses mesmos indivíduos). A edição dos vídeos é boa (não se vêem as respostas às 36 perguntas, somente as que eles devem considerar mais interessantes), o ambiente também e as pessoas que lá aparecem são, de uma forma geral, muito simpáticas e inspiradoras. Os episódios não são regulares, por isso convém ir dando um olho ao canal e procurar por novidades. Até à data constam 8 episódios e só houve um que eu não gostei tanto. Deixo abaixo um dos meus preferidos. Os outros 7, podem ir vendo ao longo do fim-de-semana ;)

Ver a playlist completa aqui.

 

30
Ago18

Eu, miúda saudosista da geração morangos, me confesso

Carolina

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No facebook não se fala de outra coisa: há 15 anos, neste mesmo dia, começava uma série que ia mudar a juventude de todos os que por lá passaram nessa época. Lembro-me perfeitamente de começar a ver e de pensar que nunca nenhuma novela iria bater a "Saber Amar", uma novela protagonizada pela Leonor Poeiras e pelo Rodrigo Menezes (o meu primeiro amor platónico), que tinha terminado precisamente antes dos Morangos com Açúcar. Também me recordo, pouco tempo depois, de ter dado a mão à palmatória: os Morangos eram melhores. Não havia nada como os Morangos.

Isto porque era uma novela para todos, sobre todos. Eu nunca fui a miúda fixe da escola, nunca tive grandes amigos, nunca tive namorados - e havia personagens como eu. Também havia os rebeldes, os betos, os surfistas, os skaters, os graffiters. O bar do Pipo, o bar do Fred, as primeiras bebedeiras, os primeiros "spots", as "primeiras vezes", os namoros, as traições, as gravidezes na adolescência, as zangas com os pais, as férias com os amigos, os bons e os maus. Na verdade, era o retrato de todo um mundo em que eu estava a entrar (tinha 8 anos quando a série estreou), mas que acabou por me moldar e definir um bocadinho daquilo que sou hoje.

Lembro-me de andar a suspirar pelos cantos em pleno 4º ano, apaixonadíssima pelo Simão (aka Pedro Teixeira - há coisas que nunca mudam...) e de também querer beber um MorangIce. Lembro-me de ter usado uma camisola laranja no dia depois do Francisco Adam (o grande Dino!) ter morrido, por ser essa a sua cor favorita. Lembro-me de regular a minha vida e os meus trabalhos de casa de forma a estar - religiosamente! - às 18h à frente da tarde para ver a repetição do episódio do dia anterior e às 19h o episódio do dia. Lembro-me de quando o Colégio da Barra foi infetado por um vírus terrível, quando a Ana Luísa se perdeu no deserto e de quando a Matilde foi esfaqueada (e se eu vos disser que não pesquisei nenhum destes nome e que ainda está tudo na ponta da língua?!). Lembro-me de ter todos os CD's com as bandas sonoras, de os esfregar até à exaustão para ficar com o cheirinho a morango nos dedos e de chorar quando ouvia a "Picture of my own", dos Fingertips (a música do Simão e da Ana Luísa). Lembro-me de um talk show, à tarde, feito por atores da série (que toda a gente parece ter esquecido e que eu também não me recordo do nome) e do teatro dos Morangos. Lembro-me de várias letras dos DZR'T de cor e ainda vibro de cada vez que ouço "Ação, é o clique da claquete, presta atenção a este show de marionetas (...)". Lembro-me de dizerem que a série era uma má influência para os adolescentes, que a certa altura só faziam rabiscos nas paredes para tentar imitar o Manel e a Becas. Lembro-me de muitas, muitas personagens (não se nota nada...). Lembro-me de uma das séries de verão em que eles estavam numa "surf house", que ainda hoje existe no meu imaginário e é idealizada como as minhas férias de sonho com amigos (que não tenho, mas que na altura sonhava ter). Lembro-me do SACO do Rafa - Serviço de Apoio à Cabula Organizada. E lembro-me do dia em que me apercebi que já não via Morangos, que essa fase já tinha terminado (talvez algures na 7ª temporada), e do quão triste fiquei com isso.

Quer queiram, quer não, os Morangos foram um marco para a minha geração. Para mim, foi tão indescritível que é impossível pôr em palavras ou descrever as lembranças, até porque foi um fenómeno partilhado (ainda o é hoje, quando vejo os meus sobrinhos a ver episódios no Panda BIggs). As personagens faziam parte do meu grupo de amigos, os seus dramas eram os meus. Eu podia não ter amigos, podia não ter nada em comum com quem me rodeava - mas era certo que os Morangos eram um tópico seguro, porque toda a gente via e adorava.Tudo aquilo que escrevi no parágrafo acima é só uma pequena parcela do que me lembro, assim como das saudades que tenho. Apesar de tudo, ainda era um mundo um bocadinho diferente - nessa altura, as televisões davam-se ao luxo de repetir um episódio que havia passado no dia anterior, nunca sonhando que dez anos depois qualquer um podia andar com a emissão para a frente e para trás. 

Este post já era para ter sido escrito há uns três meses, quando o meu coração palpitou de saudades ao ver um reencontro da família Morangos, relatados em muitos instagrams alheios (o da Mariana Monteiro é um bom exemplo, podem ver esses posts aqui e aqui). Foi aí, ao ver que muitos dos meus atores preferidos da época já têm rugas, cabelos brancos e provavelmente filhos para criar - e isto depois de ter passado alguns minutos até conseguir reconhecer alguns -, que percebi que tinham passado 15 anos desde a primeira série. Primeiro fiquei de queixo caído. Depois lembrei-me que os anos não passam só para alguns e que eu também sofri a passagem do tempo; que a menina de 8 anos, algures no 3º ano, que esperava ansiosamente pelos episódios em frente ao mono a que chamava TV, também já se foi embora há muito tempo.

 

29
Ago18

Vamos falar sobre o "perigo" do Gerês?

Carolina

Estava ontem no meio de uma insónia, a fazer scroll no facebook, quando me deparei com mais uma notícia que contava o desaparecimento de duas pessoas no Gerês. A pergunta que se impõe é: até quando é que isto vai durar? Até quando é que vão continuar a “diabolizar” uma das zonas mais bonitas do país? Porque a continuar assim, tenho medo que tomem medidas radicais e mais ninguém possa voltar a ver as cascatas.

A verdade é que há três principais razões pelas quais as pessoas morrem, se magoam e/ou se perdem nas zonas das cascatas do Gerês: a primeira é estupidez, a segunda é falta de sorte e a terceira é falta de indicações e condições. As primeiras duas são altamente faladas nas notícias e nas redes sociais, a última parece ser ignorada, quando não devia.

Estou longe de conhecer a região como a palma da minha mão, mas há três anos consecutivos que vou às cascatas - nos últimos dois anos acampei, este ano fiz só uma visita de médico. Já fui a todos os ex-libris - a Portela do Homem, o Arado, o Thaithi, as 7 Lagoas - e desta vez fui a dois sítios menos conhecidos - a Cascata de Pincães e a Cela de Cavalos. E antes de mais nada, é preciso fazer aqui um disclaimer: eu considero-me uma pessoa muito responsável e ajuizada, que corre poucos riscos e que mede sempre as consequências. E, apesar de tudo isso, fui.

Comecemos por analisar os problemas, um a um:

- A estupidez humana. Começa por fazer aqueles trilhos, subidas e descidas de rochas com havaianas. Se cair com havaianas, em solo normal, já é fácil, num sítio daqueles ainda mais. Depois há uma percentagem enorme de pessoas que é incapaz de medir os riscos: já disse aqui que saí várias vezes das cascatas por me sentir agoniada ao ver dezenas de pessoas a saltar, muitas vezes sem sequer testar o sítio onde vão cair, e com rochas no caminho (que, quando um salto não é bem dado e a distância mínima não é assegurada, pode acabar em morte). Depois existem ainda as crianças, que para além de também saltarem (sem reprimendas dos pais) não tomam muitas vezes as precauções devidas, nem durante o caminho, nem enquanto lá estão.

Para mim, as cascatas do Gerês são como o Monte Palace nos Açores: não se deve ir nem com amigos parvos nem com crianças, uma vez que a segurança de ninguém está assegurada e não há margem para grandes brincadeiras. Parte do problema reside também no facto das pessoas acharem que aquilo se trata de uma praia e acamparem nestes locais o dia inteiro - vi várias grupos a fazer aqueles caminhos com lancheiras, garrafões de água e até carrinhos de bebé (quem é que vai com um bebé de colo para estes sítios?!), o que depois dificulta a circulação na própria lagoa, o que faz com que as outras pessoas circulem por caminhos mais perigosos e os acidentes aconteçam.

 

- Má sorte. Está em todo o lado. Ir num dia mau para o Gerês não é uma boa escolha. Basta uma pedra mal assente ou musgo escondido numa rocha para um dia divertido dar para o torto. A única hipótese é ter cuidados redobrados.

 

- Falta de indicações ou condições. Este fator tem quase tanta culpa como o da estupidez humana. Eu acho que a autarquia, de forma a evitar que as pessoas vão para aqueles sítios que só lhes dão problemas, coloca pouca ou nenhuma informação acerca do caminho para as cascatas. O sítio delas está indicado em placas de trânsito mas, quando uma pessoa lá chega, nada. A forma típica de encontrar caminhos é ir perguntando às pessoas que estão a voltar. Lembro-me que nas cascatas do Thaithi a senhora onde estacionei o carro me disse qualquer coisa como "siga sempre pelas oliveiras e depois vire à direita". E, atenção, eu sei distinguir oliveiras, mas no meio de outras 300 espécies e quando se está concentrado em não cair, a tarefa não é assim tão fácil. Desta última vez, em Pincães, disseram-me para seguir sempre o curso de água e já estaria logo lá: o "logo" era meia hora depois, o curso de água acabava num sítio e depois uma pessoa tinha de aventurar. Nesse mesmo dia, para ir à Cela de Cavalos, andei uns 3kms a mais do que devia; no fundo, perdi-me. Tive a sorte de, num certo ponto, ter apanhado rede e visto no GPS que me estava a afastar do sítio onde a lagoa estava sinalizada. E sabem que mais? Eu tinha estado a 300 metros da dita cascata, mas em vez de virar à direita na ponte, virei à esquerda. Uma simples seta faria a diferença! Uma porcaria de madeira lá pendurada. Isto faz sentido?

Mesmo no que diz respeito aos caminhos e aos trilhos, para além das indicações, tudo devia estar melhor definido e em melhores condições. Lembro-me de, nos Açores, existirem grandes desníveis onde eles "inventaram" umas escadas, feitas com troncos de madeira, que não tornava o ambiente menos natural mas que era muito mais seguro para quem viajasse. E os caminhos eram visíveis, não tinham mato a confundir, não tínhamos de nos seguir por indicações fatelas tipo "vira à direita depois das oliveiras". É claro que isso vai dar asneira, sempre, até decidirem que têm de fazer alguma coisa.

As pessoas não vão deixar de visitar estes sítios porque são potencialmente perigosos (ou não sabem que as coisas más só acontecem aos outros?!). Mais: sem as cascatas e as lagoas, o Gerês não teria metade do movimento que tem hoje em dia, incluindo turismo internacional. Está mais que na altura de quem manda naquela zona pôr mãos à obra, valorizar estes locais, dar-lhes mais condições de segurança e parar de se esconder por detrás da peneira, de pesares de morte e de apelos que caem em saco roto. Assim como está na altura das pessoas terem mais noção das suas limitações e dos perigos por detrás destas belezas naturais. 

Como sei que a primeira opção é mais fácil que a segunda - a estupidez natural das pessoas é praticamente incurável -, estou a torcer para que alguém faça força para se intervir no local.

 

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Cascata do Thaiti (2017) - para mim uma das que tem os acessos mais perigosos e menos evidentes e, por outro lado, das que tem mais gente

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Cascata do Thaithi (2017)

 

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7 lagoas (2017) - um dos caminhos mais bonitos

 

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Cascata de Pincães - a tal onde se segue o curso de água e depois se sobe uma série de rochas até se chegar a esta vista

 

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Cascata de Pincães

 

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Cascata de Cela Cavalos - o acesso é feito pela capela de Cela (o caminho até lá é em terra e há pouco espaço para carros) e o caminho é óptimo. Virar à direita depois da ponte em madeira (foto em baixo). Caminho de cerca de 1,5 kms. Como nos perdemos, chegamos tarde à cascata e estávamos sozinhos.

 

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A tal ponte, em Cela de Cavalos, onde devem virar à direita (se vierem da capela).

28
Ago18

O mistério de um rapaz desconhecido numa festa de família

Carolina

Há 16 anos a minha família organizou aquele que foi para mim – e considero-o ainda hoje – o melhor carnaval de sempre. Como sempre fomos muitos, decidimos vestir-nos de baralho de cartas e pregar um susto aos meus pais, invadindo a minha própria casa e fazendo deles os “jokers” deste baralho.

Foi divertidíssimo, estávamos cheios de adrenalina e todo o processo foi engraçado: as minhas tias fizeram os fatos, pretos e vermelhos (na prática era um vestido e um gorro de cabeça inteira, só com furos para os olhos), e os meus tios fizeram as cartas. Na noite destinada juntamo-nos todos em casa de uma das minhas tias, preparamo-nos e encaminhamo-nos aqui para casa – onde fomos, no inicio, parados pelos meus cães, que assustados com o aparato não nos queriam deixar fazer a invasão (pelo menos não de forma silenciosa). Eu tinha sete anos, não tenho imensas memórias desse dia, mas ficou-me marcado para sempre – e acho que espelha bem o sentido de humor peculiar e o espírito de partilha da minha família.

Há dois anos, enquanto estava a ver as poucas fotos que tenho desse dia, deparei-me com uma cara desconhecida no meio do grupo. Não é certamente da família, pois tê-lo-ia reconhecido; achei que era o namorado de alguém, na altura, ou um amigo (algo pouco provável, porque estávamos só em família, mas nunca se sabe).

Aproveitei as festas de família para questionar cada tio, cada primo, até os meus irmãos. Nada. Todos se riam como uns perdidos de cada vez que alguém dizia “não conheço”. Estive dois anos nisto – a família é tão grande que é difícil apanha-los a todos – e ninguém reconhece aquela cara. Pus no nosso grupo no facebook, voltei a perguntar. Nada. Neste campismo de família fiz uma tentativa final e obtive a mesma resposta. Decidi passar isto para uma esfera pública e colocar no meu facebook um post publico, pedindo a amigos, ex-namorados, primos de primos e quem mais visse a publicação para ver se alguém reconhecia a cara do rapaz. Ninguém. Pedi para o meu irmão partilhar (aquele que mais trazia amigos aqui para casa) e ninguém sabe.

Ou seja: esteve alguém numa festa de família, que não é da família, e que ninguém parece (re)conhecer. O pior é que este não era um evento fácil de “crashar”: tudo foi planeado, os fatos foram feitos para um determinado número de pessoas, assim como as cartas. Não podia haver convidados de última hora – esta pessoa tinha de estar na nossa lista. E eu só pergunto: como é possível?

Só tenho uma foto nítida da cara do rapaz e outras com ele aqui em casa, a vaguear com o grupo, como era suposto. Não há aparentemente nada de errado, para além de ninguém o conhecer e todos agirmos como se o conhecêssemos!

Posto isto, se alguém reconhecer a cara do intruso, que se acuse. Mesmo que seja algum antepassado (embora, a meu ver, ele tenha um ar bastante contemporâneo). Neste momento, em que eu acho que já fiz tudo ao meu alcance para descobrir esta pessoa, já estamos abertos a todo o tipo de teorias, desde fantasmas a vampiros que nos fizeram uma lavagem cerebral para o integrarmos no grupo. Ou talvez um assassino ou ladrão, que se escondeu algures aqui em casa – e quiçá ainda está para aí, 16 anos depois. Em último caso, talvez seja um extraterrestre, que só se vê nas fotografias e não na vida real. Já estou por tudo! (Será que já é evidente que este mistério me está a endoidecer?!)

 

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27
Ago18

Slow living

Carolina

A única coisa que nos Açores me deixou preocupada foi o facto de eu gostar tanto daquela vida e daquela calmia. É um facto que só lá estive uma semana – longe de ser o suficiente para me fartar daquilo – mas já noutros momentos eu me tinha apercebido de que uma das coisas que me dá saúde mental é não ter de andar sempre a correr, é não sentir a necessidade de reclamar com o trânsito, é não ter barulhos de fundo. Não é a ausência de regras – essas, tenho-as sempre, em tudo o que faço – mas sim não ter o stress da sociedade toda em cima de mim.

E isso assusta-me, porque o plano que eu tenho para a minha vida não é esse. Lembro-me de ser mais nova e pensar que queria que a minha vida fosse um corropio, sempre com coisas para fazer, nunca parar, viajar, aviões, trabalho, reuniões, feiras. Enfim, muita confusão – um bocadinho à semelhança do que vi os meus pais fazerem. E eu sei que para se ter sucesso em qualquer área que seja é necessário trabalho – e, nos dias de hoje, sucesso e trabalho não ligam com sossego e calma. Acho que nunca ligaram, mas agora mais do que nunca, numa altura em que somos obcecados com a eficácia e a eficiência e os índices de produtividade e tudo e tudo e tudo. E eu, como futura empresária que me imagino, também serei (pelo menos em certa parte) motivada e obrigada a olhar para esses fatores e sei – por já ter visto – que nada me é entregado de mão beijada e eu vou ter de lutar muito e trabalhar muito para ter aquilo que quero e manter o meu nível de vida.

Ou seja: há aqui um conflito de interesses. Por um lado o facto de saber que sou mais feliz com uma vida pacata e calma; por outro, saber também que aquilo que quero não se compadece muito bem com esse estilo de vida. A não ser nas férias – que é precisamente o que estou a fazer agora, antes que chegue Setembro e que me arrebate de cansaço com as extremas mudanças que vai trazer para a minha vida.

Depois da dose de sossego que levei nos Açores e de um dia que passei no Gerês, estive a acampar com toda a minha família em Castelo Branco. Dentro do campismo, a paz não é muita – nunca é, quando se juntam quase 30 pessoas, com crianças pelo meio, que querem pôr os assuntos de um ano em dia. Mas a calma da vila onde estive aqueceu-me a alma. Ver o rapaz da caixa de supermercado a contar os cêntimos a uma senhora velhinha, para ela pagar a conta; vê-lo a apanhar calmamente uma aranha com a mão, que estava em cima do tapete das compras, e sair do seu posto de trabalho para a ir pôr lá fora; abrirem-nos a porta do mini-mercado quando já íamos fora de horas comprar bebidas para o jantar; ver os banquinhos de jardim todos alinhados, dia após dia, mesmo depois das jogatinas de cartas pela tarde fora.

São pessoas que não têm pressa – o que não significa não ter respeito pelo tempo dos outros. Se fosse no Porto, já estaria a reclamar porque a senhora já devia ter o dinheiro preparado e porque era muito mais prático o rapaz ter matado o bicho. Porque temos sempre sítios para onde ir, coisas para fazer, assuntos para tratar. Mas ali não. É como se a medida de tempo fosse diferente, como se o tempo não passasse tão rápido. É o chamado slow living. E é maravilhoso.

18
Ago18

Life is what happens to you while you're busy making other plans

Carolina

Tenho uma plaquinha aqui no quarto, que comprei numa altura em que fiz algumas remodelações, que diz "life is what happens to you while you're busy making other plans". Comprei-a porque a achei gira, não por ter pensado a fundo naquilo que dizia - até porque dizer-me para não fazer planos é quase como me pedir para não mudar de roupa todos os dias. É impossível.

Mas é inegável que enquanto fazemos planos para a nossa vida inteira, a própria vida se vai encarregando de dar as suas própria voltas. E eu voltei a ser "vítima" de mais uma volta da vida.

Decidi sair do meu anterior trabalho para poder ter um ano mais sossegado, dedicado à minha pós-graduação e à minha introdução no negócio de família. Queria, pelo meio, não ter de pensar nos 22 dias úteis de férias e poder meter-me num avião sem grandes complicações e compromissos (quase) sempre que me apetecesse e viver sem grandes amarradas ou responsabilidades. Como não sei como será a pós-graduação, como tenho medo da minha re-adaptação ao mundo universitário e ao estudo (do qual tenho zero saudades!) e como não tinha necessidade de estar a trabalhar de dia e a estudar de noite (o que, apesar de ser exequível, é cansativo), na altura decidi que era melhor assim. Teria tempo para mim, para os meus pais, para viajar...

Até que me ofereceram trabalho, numa área completamente diferente, e eu disse que sim - embora tivesse pensado muito em dizer que não, em ficar agarrada ao meu plano e à ideia que tinha concebido de um ano de "liberdade". Acho que a minha geração sofre de um grave problema chamado “juventude eterna” - estamos presos a um certo estilo de vida e não o queremos largar, tendo ainda por cima a desculpa de que hoje em dia não é fácil arranjar trabalho e ter condições financeiras para a vida andar para a frente e seguir o seu curso normal (estudar, trabalhar, sair de casa, ter filhos, etc.). Vejo muita gente da minha idade que ainda não terminou o curso - ou está a acumula-lo com mestrados, pós-graduações e especializações, de forma a eternizar a sua passagem pela universidade - ou que simplesmente está estagnada num estilo de vida-loka, porque não sabe admitir o fim de um momento. Ou porque não querem dar o corpo ao manifesto. Ou porque não querem responsabilidades de maior.

E eu não quero ser assim - mas admito que quando pensei neste "ano de liberdade" me agarrei às poucas boas lembranças que tinha da faculdade, que se prendem com a questão da liberdade de horários, a liberdade de faltar sem ter grandes consequências. E pus tudo na balança. Vou deixar de viver uma experiência completamente diferente, que provavelmente nunca mais terei oportunidade de fazer, só por estar agarrada a essa ideia? Por querer ter mais tempo (mesmo sem saber se, de facto, o teria)? Ou vou sacrificar, digamos, um ano da minha vida, que será concerteza mais atarefado mas também diferente?

Escolhi a segunda hipótese. A tremer como varas verdes, cheia de medo, mas escolhi. Não tendo, em dia algum, a certeza de que tomei a decisão certa. Tendo receio de falhar, de não ser boa naquilo a que a partir de agora me propus. De me chatear ou de roubar-me a mim mesma uma das coisas que ultimamente mais gosto, porque a tornei em trabalho em vez de lazer. Medo de andar eternamente cansada, medo de estar a tentar agradar a todos e a mim mesma, medo de estar a tentar engolir uma fatia demasiado grande de mundo e não a conseguir digerir.

Não sou boa a deixar planos nas mãos dos outros, mesmo que por “outros” se entenda o destino. Mas tenho orgulho em conseguir aceita-los, mesmo ficando paranóica com tudo o que pode correr mal; em dizer que “sim”, mesmo que as pernas tremam. A verdade é que apesar destas fintas que a vida dá, eu acho-lhes graça; as chapadas de luva branca podem doer, mas não lhes podemos tirar o mérito e a ironia. Trabalhei dois anos num jornal, depois de ter rogado pragas a tudo e todos que tivessem que ver com jornalismo; agora vou ensinar crianças (e não só) a dar os primeiros passos no piano, depois de sempre ter dito que crianças-cruzes-credo-nem-pensar-só-longe-de-mim.

Não sei como é que tudo isto vai correr, não sei onde vou encaixar a minha vida – a escrita, o ginásio, a minha família – no meio de dois trabalhos e uma pós-graduação. Mas se não conseguir, ao menos posso dizer que tentei.

02
Ago18

Tudo sobre a minha incrível viagem aos Açores (parte 2)

Carolina

Eu acho que há razões para tudo. Hoje, perguntando-me porque é que demorei tanto tempo a lançar este post - quando ele estava quase todo escrito há mais de uma semana - acho que cheguei a uma conclusão: este é o meu último post sobre São Miguel e eu não me quero despedir da ilha. Depois de descrever a sensação de viajar sozinha, o drama da natação com os golfinhos, de partilhar um vídeo, de mandar fazer um álbum com as fotos e de ter partilhado parte desta experiência, resta-me fechar este capítulo. Perdoem-me: encostar este capítulo. A porta só fica encostada, não a fecho. Voltarei aos Açores, conhecerei as outras ilhas. Por agora, o fim da descrição da minha viagem:

 

Fui ainda a mais duas lagoas. O processo de seleção dos sítios onde fui passou, primeiro, por uma pesquisa à priori - onde vi desde blogs às recomendações do TripAdvisor - e depois por, já in loco, olhar para o mapa e pensar "se eu quero ir para ali, pelo caminho passo por aqui e acolá e talvez seja interessante parar". Para além disso, houve algumas vezes em que parei porque vi uma placa algures e me apeteceu sair do carro e respirar ou fotografar a vista. Ora, a Lagoa do Congro já ia planeada; a Lagoa de São Brás foi decidida quando cheguei a São Miguel e foi a minha primeira paragem de todas, mal peguei no carro - e dei logo de caras com centenas de hidrângeas (também conhecidas por hortênsias), vaquinhas e paisagens magníficas, por isso foi um bom início.

 

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Lagoa de S. Brás

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Lagoa do Congro

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Lagoa do Congro

 

A Lagoa de S. Brás não é um espanto, mas é de um sossego incrível - fica bem alta mas toda a sua envolvência é relativamente plana (dando para ver toda a sua pequena extensão) e o caminho dá acesso direto à água (sendo possível contornar a lagoa quase na totalidade, se não me engano), sendo o sítio perfeito para um pic-nic sossegado enquanto se vigia de longe os patinhos e se vê a água a baloiçar com o vento. Não tem o espanto de outras lagoas, mas ainda me parece pouco explorada, por isso tem o seu encanto.

A Lagoa do Congro também ainda é muito "pura" e o caminho até lá chegar também ajuda a que fiquemos encantados pela natureza. Só se ouvem os passarinhos. Do sítio até onde se pode ir de carro até à lagoa é, talvez, um quilómetro de caminho. Não há muito a temer: o trilho está bem definido e não tem praticamente perigo nenhum, apenas um ou dois troncos de árvores caídos e umas descidas (quase com "escadas") que se tornam fáceis com o apoio de uma das mãos. Se eu consegui ir, ainda para mais sozinha, acreditem que toda a gente consegue! Aquando da chegada à lagoa o ângulo de visão não é perfeito (a menos que sejamos exploradores e aventureiros); o sítio mais popular, que tem acesso direto à água, dá apenas para ver parte da lagoa (devido ao seu recorte) que, ao contrário da de S. Brás, fica envolta em árvores e rochas, dando um ar muito mais "fechado". Não há muitos sítios para se estar sentado e sossegado, é quase um "photo-stop", para apreciar e ir embora - até porque o espaço para se estar é pequeno e a afluência de pessoas acaba por ser alguma, portanto são raros os momentos de silêncio que temos aqui. Para mim, parte da beleza deste sítio deve-se também ao caminho que percorremos até lá.

 

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Vista das Sete Cidades do Monte Palace

 

Ainda voltei às Sete Cidades, noutro dia maravilhoso em que se conseguia ver a lagoa por completo. O guia da primeira tour, vendo-me interessada por fotografia e completamente apaixonada pela ilha, disse-me que eu tinha de ir ao Monte Palace porque era de lá que ia ter a melhor vista. Eu já tinha ouvido falar e feito as minhas pesquisas antes de ir, claro, mas entrar num sítio que diz "Perigo! Não entrar!" é coisa para me dar calafrios. Fi-lo pela conjugação de dois motivos: primeiro porque ele me garantiu que a vista era imperdível e segundo porque eu sei que em breve aquilo irá voltar ao ativo - as obras já estão a começar - e não haveriam muitas mais oportunidades para visitar o edifício. Então, contra tudo aquilo que seria meu costume, entrei. Filmei tudo com a GoPro - parte aparece no vídeo - e percebe-se perfeitamente que eu não estou minimamente confortável com tudo aquilo. Não sabia o que havia de esperar. Um edifício destes aqui no Porto, abandonado há não sei quantos anos, cheio de recantos e cantinhos, é meio caminho andado para albergar coisas que nem sempre são boas de ver. Mas acho que por se encontrar numa zona meio distante de tudo e por ser tão visitado por turistas, o edifício acabou por se tornar mais numa atração turística do que propriamente num sítio estilo albergue de sem-abrigo, consumo de estupefacientes e coisas do género. Não vi seringas nem esse tipo de objetos que espero encontrar num espaço destes - só umas garrafas de cerveja, que uns preguiçosos se "esqueceram" de levar para o lixo. Fora isso, não sobra nada do que era o hotel, com excepção de alguma alcatifa - nem um bocadinho da mármore das paredes, nem uma sanita... nada! O guia do dia anterior brincava dizendo que todas as casas de São Miguel tem alguma coisa do hotel, tal foi a dimensão da pilhagem. "Até os elevadores levaram!", contaram-me.

Isto quer dizer que todos deviam visitar o Monte Palace? Não. Levar crianças para lá é perigoso: não há proteções nenhumas, as escadas em caracol não têm corrimões ou apoios, o fosso do elevador está lá pronto para qualquer um fazer queda livre; um tombo em qualquer um daqueles lugares pode ser dramático. Neste aspeto, ir sozinha até foi bom: levei o meu tempo, avaliei o estado das coisas e todos os sítios onde fui e que pisei. Não me sentiria confortável em ir lá com "amigos-engraçadó-parvos", como vi alguns, que faziam barulhinhos "fantasmagóricos" e pregavam sustos uns aos outros. 

Mas vamos ao que interessa: a vista. Sim, é incrível. Eu não subi ao telhado, onde dizem que se vê melhor (não descobri o sítio), vi apenas de um dos quartos. É uma vista que eu gostava de ter desfrutado durante mais tempo mas eu não estava confortável naquele sítio nem com a sensação de estar a cometer uma infração. Vi, fotografei, dei meia volta e vim-me embora. Não sou, definitivamente, uma pessoa rebelde.

 

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A entrada do hotel

 

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 O estado de degradação do hotel

 

Depois de ter ultrapassado este stress (passar aquela placa e aquelas fitas agitou-me!) fiz a melhor coisa que podia ter feito: fui andar de paddle. Era algo que já queria fazer há cerca de dois anos e nunca tinha tido coragem - e que melhor altura para me aventurar do que esta? Mais uma vez, devo a dica ao meu primeiro guia, que me disse, ao pararmos na ponte que divide a Lagoa Verde, que se alugavam kayaks ali, depois de lhe ter dito que adorava esse tipo de desportos. Não sabia muito bem onde ficava a entrada da lagoa, segui o meu instinto e sentido de orientação e acabei por chegar lá - claro, sempre prevenida com o meu fato de banho e restantes coisas na mala do carro. Foi aí que vi que, para além dos kayaks, também haviam pranchas de paddle. "Nunca fiz isto na vida. Acha que me aguento?", foi a única coisa que perguntei à menina antes de me atirar ao lago. Ela disse que sim. E fui logo de pé! Fiquei tão orgulhosa. Atrapalhei-me toda com a pagaia no início, com as trocas de braços e coisa e tal, mas quando me habituei, foi uma experiência inesquecível. Fiquei por lá pouco menos de uma hora: primeiro com medo de apanhar um escaldão (esqueci-me do protetor) e de, no dia seguinte, não me mexer com dores nos braços. Foi pouco, mas bom - e quase de borla! Dez euros numa prancha de paddle, aqui no Continente, daria para para uns quinze minutos... e com sorte. Continuo a dizer que não há silêncio igual àquele que se sente quando se está no meio da água, num sítio sossegado e lindo como este. E nunca ter caído subiu-me o ego. Ter feito isto sozinha, sem me preocupar se o outros viam ou avaliavam, foi outra das razões que me fizeram adorar ter feito esta viagem a solo.

 

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A fazer paddle na lagoa

 

Por falar em água, voltemo-nos para as praias. Visitei duas, ambas de passagem - mas ficou o bichinho para fazer lá praia, quando um dia for com mais tempo. A primeira foi a praia dos Moinhos e a segunda foi a dos Mosteiros - adorei a areia preta e é incrível como a tonalidade muda de sítio para sítio. Ah, e os brilhantes que a areia pode ter... parecem cristais nos nossos pés! Quando na água, dá um efeito lindo. De realçar que as estruturas adjacentes são incríveis - na primeira a que fui, os quartos de banho (com duches) eram bonitos e cuidados, havia lava-pés e um bar muito completo; na outra existiam cinzeiros disponíveis para quem quisesse, também um bar, e sempre nadadores salvadores a postos para qualquer eventualidade. Fiquei tão fã deste pack completo ao nível de praias! É verdade que são pequeninas e o tempo é instável, mas como nunca há muita gente e o tempo tanto muda para sol como chuva, vale a pena o risco :)

 

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Praia dos Moinhos

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Praia dos Moinhos

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Praia dos Mosteiros

 

Ainda sobre o capítulo "água", tenho de falar da Ferraria - talvez o sítio que menos gostei, por ser aquele que vi com mais gente (de todos os que visitei na ilha). Naquela altura do campeonato eu já não estava habituada a locais com mais de dez pessoas, por isso fugi daquela pequena "baía" mal vi o cenário que me esperava. Não fui à água - era muita gente por centímetro quadrado -, que dizem ser espetacular, e nem sequer me sentei a ver as vista: o sítio que envolve a piscina natural pareceu-me muito desconfortável, com todas aquelas rochas vulcânicas que parecem legos quando as pisamos. Fui à hora certa, muito perto da maré vaza, mas percebi que este se tornou num dos sítios mais populares de São Miguel e preferi procurar outras belezas mais desconhecidas - se calhar "perdi" uma grande coisa, mas enfim. Outra das guias disse-me que havia um outro sítio onde havia um fenómeno semelhante, com águas do mar aquecidas, mas num sítio mais remoto e de difícil acesso - mas, estupidamente, não apontei o nome (se alguém souber, diga-me!).

 

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A Ferraria cheia de gente

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O outro lado da Ferraria

 

Para fechar o tema, tenho de mencionar o Parque Terra Nostra. Sei que aquela água não cai no goto de todos, mas eu não tive problema nenhum em lá entrar - não sei se se nota muito, mas água e banhos é comigo. Infelizmente, pouco tempo depois de ter entrado, começou a chover torrencialmente - e o problema não está em estar dentro de água a chover (até sabe bem, o contraste), mas sim nas coisas que tinha ali perto e que iriam ficar encharcadas. Vi-me obrigada a sair da piscina maior e, pouco depois, quando a chuva abrandou, ainda dei um saltinho aos jacuzis, ainda mais quentes que a piscina. O ideal é ir em dias não muito quentes, senão a probabilidade de cairmos para o lado é maior. Falo por mim, mas acho que se aplica à generalidade das pessoas, quando digo que aquilo é óptimo, mas não pode ser por muito tempo: as tensões têm tendência para baixar e é fácil cairmos para o lado depois de uma banhoca que era suposto ser só relaxante. Eu enfiei-me quase mesmo até ao pescoço, para poder afogar os meus trapézios e suas queridas contraturas, e soube-me pela vida. E o sono que nos dá depois disto? Se houvessem espreguiçadeiras ali ao lado, para umas sestas depois do banho, era ouro sobre azul ;)

Sobre o Parque Terra Nostra, é obrigatório falar dos jardins, que são lindíssimos e super bem cuidados. Existem lá muitas espécies de plantas que eu nunca tinha visto na vida e ter um guia (ou alguém que nos dê uma contextualização da história do parque e de algumas espécies de flora lá presentes) é, sem dúvida, muito mais enriquecedor. Este correspondeu a um dos pontos de paragem da minha segunda tour, que fiz com a Picos de Aventura. Achei a guia simpátiquíssima (chamava-se Liane, gostei tanto do nome!), mas a tour anterior foi bem mais dinâmica. O facto de estar numa carrinha (em comparação com a outra, que foi de jipe) talvez não tenha ajudado. De qualquer das formas, é das empresas mais bem apresentadas e de confiança em São Miguel para inúmeras atividades.

Em suma: acho que esta é uma das paragens obrigatórias na ilha, tanto pelos banhos como pelos jardins.

 

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Os jardins à entrada do Terra Nostra - adorei aquelas plantas no lago, que parecem umas autênticas "bóias"

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A grande piscina quente 

 

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De molho

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... e mais jardins

 

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... e mais molho (desta vez nos "jacuzzi's", ainda mais quentes que a piscina)

 

Nesse dia ainda parei nas Furnas (zona onde depois almocei o cozido) e nas plantações de chá Gorreana. Confesso que estava com medo das Furnas. Eu sou uma cheirinhas de primeira classe, todos os odores me incomodam (nem sequer consigo usar perfume) e imaginei que o cheiro a enxofre me agoniasse até aos ossos. A verdade é que sobrevivi sem problemas de maior. Só era dramático quando o vento levava aquele vapor cheiroso na nossa direção, mas de resto fez-se bem. Nunca fui louca por geologia (no 10º e 11º sempre fui mais fã de biologia), mas é incrível ver a terra a fazer a sua magia - e todo aquele ritual dos montinhos, com os tachos lá dentro, também é muito giro de se ver. 

Acho que a lagoa das Furnas é um bocadinho ofuscada por todo este fenómeno que se passa lá ao lado mas eu achei-a lindíssima e de uma paz tremenda. No dia em que fui o tempo estava mais fechado, mas mesmo assim a lagoa estava incrível. Também lá há gaivotas para alugar e se dar uma passeio pelas águas (não sei preços).

 

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Furnas

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Com o cozido que viria a comer ali atrás

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Lagoa das Furnas

  

Quanto às plantações de chá também acho essencial levar alguém que nos explique o processo, uma vez que se pode visitar livremente a fábrica e os campos (estes últimos dão fotos incríveis se tivermos a ajuda de alguém minimamente prendado e paciente) mas que não há visitas guiadas feitas pela própria fábrica. Se não levarmos ninguém ou se não formos com conhecimento prévio, nos campos só vemos arbustos aparentemente normais e na fábrica só máquinas cujo funcionamento não percebemos (até porque não há grandes informações em lado nenhum, apenas um vídeo explicativo numa das salas do edifício, que as pessoas podem assistir caso não estejam acompanhadas por alguém que conheça o processo). Confesso que estranhei este conceito de visita (no fundo, focam-se simplesmente em vender o produto, não ganhando dinheiro extra noutro tipo de serviços adjacentes) mas depois percebi que noutros países é bastante comum e que acontece também noutros pontos da ilha, como a Fábrica de Cerâmicas Vieira (onde também fui, no último dia, porque estava a chover). 

Infelizmente, no dia em que visitei a Gorreana, as máquinas não estava a funcionar portanto tive de usar a minha imaginação enquanto ouvia as explicações da guia. Vimos as senhoras a fazer a triagem das folhinhas (com um ar muito chateado e um tanto ao quanto ralado por estarem a ser observadas por tantas pessoas) e no fim devo ter trazido mais de quilo e meio de chá para a família inteira. Compensou a visita!

 

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Nas plantações de chá

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 Fábrica do Chá Gorreana

 

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 Na fábrica de cerâmicas Vieira

 

Só no último dia é que fui dar uma volta pela cidade, aproveitando que o tempo não estava com ar de muitos amigos. Confesso que, com tanta beleza natural, a cidade em si - e eu posso visitar tantas! - passou para segundo plano. Acho que é paragem obrigatória a igreja principal e as portas da cidade. Já contei isto no meu instagram (quem é que ainda não me segue?! @carolinagongui) mas, no dia em que cheguei, o senhor que me levou do aeroporto para o hotel contou-me uma "lenda" que diz que se passarmos por debaixo das portas da cidade uma vez, voltamos a São Miguel; se passarmos três, casamos com um açoriano. Pouco depois, perguntei-lhe de onde ele era, pois não lhe notava o sotaque característico. Disse-me que era do Alentejo mas que vivia ali há trinta anos; não sabia da tal história, passou debaixo das portas três vezes, e casou-se com uma açoriana que o fez mudar para a ilha ;)

Eu, por via das dúvidas e para não desafiar o destino, passei duas: por um lado para garantir que voltaria a São Miguel, por outro para ver se nenhum açoriano me roubava o coração.

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As portas da cidade

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A igreja matriz

 

Acho que Ponta Delgada ainda tem muito por crescer e isso nota-se nos pequenos pormenores - principalmente no que diz respeito ao turismo, não tanto para os açorianos. Queria trazer uns souvenirs para casa e só encontrei uma loja com coisas diferentes (uns peluches em forma de baleias, uns postais mais fora do comum e outras coisas giras) - de resto, tudo muito clássico e com um ar quase "velho". Por um lado é bom, sinto que não venderam a alma ao diabo e que não fazem de tudo para vender, mas por outro é curioso percebemos que há uma margem de crescimento grande. No centro há uns cafés e esplanadas agradáveis para se ficar e há sempre uma banquinha que vende gelados perto de nós, óptimo para nos saciar de alguma gulodice.

Ainda fui ao mercado (sofri com o cheiro no Rei dos Queijos, mas fui para que a minha família pudesse comer queijos da ilha - é amor!) e adorei a simpatia de todos. Ainda trouxe um ananás (nunca tinha comido ananás dos Açores, por muito estranho que pareça) e comprei uns pézinhos de maracujá amarelo, ananás e uma flor qualquer para a minha mãe plantar aqui no jardim - depois de uma conversa longa com o vendedor, que me explicou como plantar cada uma das espécies de forma detalhada. Ainda houve tempo de passar na peixaria e de ver as maiores lulas que alguma vez me passaram à frente. Incrível a variedade do mar dos Açores! Vale muito a pena passar lá.

 

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Há muita (e boa) arte urbana nos Açores. Vale a pena estar atento às paredes!

 

 

Sobre a comida

Falar nos Açores é falar no cozido das furnas... mas também não podemos esquecer-nos do peixe grelhado e das lapas! Nunca repeti um sítio enquanto lá estive e nunca comi mal. As duas tours que fiz tinham almoço incluído e eu, que já levo alguma experiência em excursões, achei mesmo que a comida não ia ser nada especial - mas enganei-me. Até nesses sítios comi sempre bem e sem aquele drama de não podermos pedir uma bebida diferente sem termos de pagar à parte e outras situações clássicas. Adorei!

Sobre o cozido: não sou a maior apreciadora deste prato, só costumo comer algumas carnes "selecionadas", mas gostei. Pena não ter as minhas partes favoritas: orelheira, patas e coisas assim do género. Achei que, mal arrefeceu, as carnes ficaram muito mais duras, o que não foi bom. Tentei comer o inhame mas não consegui passar a fase do "tentar", achei a textura estranha. Não senti o sabor a enxofre (dizem que sabe muito mais se a comida for reaquecida) e achei-o, de uma forma geral, mais "light" e menos gorduroso que o que como em casa.

Fui ao Alcides, que dizem ter o melhor bife de Ponta Delgada, e de facto fui bem servida (e é incrível ver a quantidade de gente que eles "manda embora" porque não têm mesas para albergar mais gente). Para quem não gosta de alho, as comidas na ilha podem não ter muita graça - é claramente um dos temperos favoritos dos açorianos!

De resto, comi peixe e lapas, sempre deliciosos! Como não sou esquisita e não conhecia a maioria dos peixes disponíveis, dizia simplesmente ao empregado para me trazer o peixe mais fresco ou que pessoalmente gostasse mais. Acabei por comer Boca Negra, Bicuda e Veja (este último foi o meu favorito), todos aprovados! Também comi um arroz de tamboril que, como dizem os meus sobrinhos, estava "bem gostoso". Foi tudo de bom! 

(Ah, e também experimentei a famosa Kima. Gostei!)

 

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O cozido das Furnas

 

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A Veja (esquerda) e a Bicuda (direita)

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O bife do Alcides

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 As lapas

 

Onde fiquei hospedada?

Como comprei o pack da Abreu não escolhi propriamente o hotel onde fiquei - o que, às vezes, até pode ser uma alívio dada a imensa oferta que existe em muitos sítios que muitas vezes ainda nos baralha mais. Calhou-me o Vip Executive Azores (que, pelo que vi depois, fica por cerca de 120 euros por dia) e eu não adorei nem detestei. Não sou muito exigente: quero um quarto limpo e sem baratas, de preferência com ar condicionado, e um quarto de banho privativo. Não sou de me queixar das camas ou dos quartos, por isso não sou a pessoa certa para esse tipo de avaliações exigentes.

A dizer: o quarto tinha uma dimensão bastante agradável, andava-se de um lado para o outro de forma folgada e eu dormi sempre bem; os espaços comuns do hotel eram limpos (não fui à piscina, mas disseram-me que era bem pequenina), os funcionários simpáticos e o pequeno-almoço entre o razoável e o pouco-razoável - o café era daquelas máquinas automáticas, que sabia a café de dissolver (blhec), os croissants (um must nos pequenos-almoços de hotel) eram maus e não havia uma variedade por aí além e os bolos eram pré-fabricados. Eu limitava-me a comer pão com manteiga, a beber água e ocasionalmente a comer um iogurte (para além de ter provado uma coisa ou outra, que não repeti por não ter gostado). Achei o pequeno-almoço o ponto mais negativo. De positivo, realçar a localização do hotel (pertíssimo do eixo norte-sul, dos acessos principais e do centro da cidade) e o facto de ter parque de estacionamento gratuito para estacionar o carro em segurança.

 

"Achas que eu devia ir aos Açores?"

Não, meus amigos. Fiquem em casa a ver passar os passarinhos. Ou vão para as Seychelles, passem umas dez horas dentro de aviões e outras tantas nos aeroportos, quando têm só um paraíso para explorar aqui perto e que, ainda por cima, é nosso. 

Quanto a mim, já não se trata de ir, trata-se de voltar. E já estou a fazer planos para que tal aconteça em breve. Um bocadinho do meu coração ficou nos Açores e eu não tenciono resgata-lo de lá - apenas tratar de o visitar de vez em quando. 

 

Leiam todos os posts sobre a minha viagem aos Açores clicando aqui.

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