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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

31
Jan18

Review da semana 26#

Carolina

Caixas de música na Conto de Fadas

 

“Quem sai aos seus não degenera”, diz o provérbio. E isso pode explicar o porquê de eu gostar de caixas de música - acho que posso agradecer à carga genética vinda da minha mãe. Na verdade não é nenhuma paixão assolapada, não perco a cabeça por um destes objetos - mas como adoro música de uma forma geral, o meu amor também se estende a estas peças, principalmente se as musicas forem do meu agrado (o que muitas vezes não acontece - acho-as normalmente repetitivas e irritantes).

Há uns dias estava no facebook e cruzei-me com um anúncio de uma loja de Viana do Castelo que vende, entre outras coisas, caixas de música. Não aquelas incríveis e bonitas, que valem mais pelo aspeto visual do que outra coisa (embora tenha algumas), mas simplesmente o realejo, com o cilindro rotativo e a pequena manivela para o fazermos “cantar”. Nunca me tinha lembrado de pesquisar estas coisas e imagino que no ebay e outros sítios que tais isto se venda ao preço da chuva, mas vi ali tantas musicas que gostava, a um preço tão simpático (menos de cinco euros cada) que mandei vir para pôr no meu quarto. 

Encomendei três: uma com a Yesterday, dos Beatles, para oferecer ao meu pai; outra com a Valse d’Amélie, do filme da Amélie, porque é talvez a minha musica preferida daquela banda sonora e às vezes atinge-me de tal forma que me apetece chorar as pedras da calçada; por fim comprei também um realejo (esse vinha mesmo dentro de uma caixa, que abre estilo livro) do Harry Potter, com o tema principal.

Aquilo que se ganha em comprar em lojas portuguesas em vez de no ebay - ainda que possivelmente se pague mais dinheiro -, para além de termos a noção de que estamos a ajudar a nossa economia e não outra do outro lado do mundo, é a simpatia com que nos tratam. Isto não é regra: há muita gente antipática e mal agradecida por aí, mas tenho tido experiências fantásticas ao nível das compras online em pequenas lojas portuguesas. Acho que as pessoas se aperceberam que muitas vezes, não podendo competir pelo preço, é no trato e nos detalhes que mora a diferença é isso sente-se. O pacote onde me enviaram as caixinhas era absolutamente amoroso, claramente feito com tempo e carinho, assim como o bilhete personalizado que estava dentro da encomenda.

É lógico que não estamos a falar de caixas de música hiper potentes ou de alta qualidade - dado o preço, não poderíamos esperar isso. Mas os produtos correspondem à expectativa e a forma como tudo foi tratado deixa vontade de comprar mais, quase como uma dose de mimo vinda diretamente pelo correio. A loja chama-se Conto de Fadas e pode ser visitada aqui.

 

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(a caixinha onde vinham as minhas compras)

 

30
Jan18

(Tentar) Voltar aos sabores de infância

Carolina

Acho que todos nós temos alguns sabores idílicos dos nossos tempos idos; paladares que guardamos em recantos da nossa memória e que deixam muitas saudades, porque são quase sempre irrecuperáveis. Normalmente são de comidas feitas por alguém que já cá não está (quantos elogios já ouvi às comidas de tantas avós!), provadas em sítios onde não voltaremos ou que simplesmente fazem parte de um pacote de memórias irrepetível.

Felizmente eu não tenho muitas lembranças dessas. Nunca tive avós que cozinhassem para mim e a pessoa que faz as minhas comidas preferidas - a minha mãe - ainda está cá para as fazer sempre que lhe peço. Tenho vários sabores que me remontam à infância, alguns dos quais nem sei dizer se eram bons ou maus... são apenas lembranças. Assim de repente só me lembro de duas coisas que adorava e que tenho realmente saudades: a primeira são as verdadeiras tapiocas brasileiras, que comia todos os dias ao pequeno-almoço quando fui ao Brasil. Durante muitos anos nem soube o nome daquilo e só recentemente, quando a moda apareceu por cá, é que me caiu a ficha e percebi que era aquilo que eu tanto tinha adorada na minha primeira viagem ao estrangeiro; ainda não experimentei em restaurantes, mas tentei fazer várias vezes cá em casa e o resultado foi desastroso.

A segunda coisa era o meu bolo favorito do mundo, feito numa pastelaria que fechou aqui há uns anos e da qual eu guardo as melhores memórias. Sempre que alguém fazia anos cá em casa era lá que íamos - e normalmente era a mim e ao meu pai que recaía a (difícil) tarefa de ir levantar a encomenda. Esta não era uma pastelaria qualquer: era uma coisa antiga, só com venda ao público (sem sítio para sentar ou estar), localizada numa viela sem acesso a carros, longe da vista de qualquer consumidor comum. Tenho as melhores memórias desses momentos: eu e o meu pai, gulosos como somos, atacávamos imediatamente a caixa das miniaturas e depois tentavamos disfarçar os doces em falta, afastando-os entre si, para que em casa ninguém desse por nada. Ele comia os jesuítas, eu os éclairs: eram o meu pastel favorito. Entretanto, deixaram de ser - foi ali que defini o meu padrão, eram aqueles os meus éclairs de referência, e nunca mais encontrei uns sequer parecidos.

Para além disso, faziam o melhor bolo-pão-de-ló com ovos moles do mundo (com cobertura de massapão, de açúcar e amêndoa) e, muito antes de sermos invadidos por esta moda do cake design, já eles faziam coisas incríveis. Eu tive direito a Minnie's, a Tweeties, a Borboletas, a Capuchinhos Vermelhos e, entre outros que já não me recordo, o meu favorito de sempre: um palhaço (de tal forma que até repeti ao longo dos anos). Era a coisa que eu mais ansiava no meu aniversário: aquele bolo. Até ao dia em que eu fiz anos, a minha mãe tentou ligar para a pastelaria para encomendar o bolo e ninguém atendeu. Foi lá e bateu com o nariz na grade, já que a porta estava entreaberta. Pesquisei, perguntei, quis muito que aquela decisão voltasse atrás. Mas nunca mais. 90% das vezes que passo na rua que dava acesso à tal viela, sinto o sabor e a suavidade daquele bolo na minha boca. E tenho saudades.

Tantas que fiz uma coisa que quase nunca dá resultado: tentei reproduzir o bolo. Por mero acaso a minha pasteleira de eleição (a La Dolce Rita) deu a receita deste bolo, tipicamente servido em aniversários, e eu aproveitei que a minha irmã fazia anos para pôr a mão na massa (dado que estou em dieta e não posso fazer doces para além das datas excepcionais). Fiz a receita direitinha (com muito custo, diga-se de passagem: só à terceira é que consegui que o doce de ovos me saísse direito), fui pesquisar receitas de massapão (que também tive de repetir, porque a primeira correu mal) e lá montei o bolo. Acho que nunca estive tão ansiosa para cantar os parabéns! Queria tanto, tanto, tanto que o sabor estivesse lá. Queria tanto acertar.

E estive perto. Quando meti uma garfada à boca, quis pôr logo outra. O sabor estava lá. Faltava alguma humidade no bolo, precisava de mais doce de ovos e o manuseamento da massapão também não foi o ideal (embora fosse algo meramente estético). Mas tudo estava lá. Viajei no tempo enquanto saboreei a minha própria obra e desfrutei do meu dia da asneira. Tirei notas mentais sobre o que tinha de melhorar da próxima vez e já anseio pelo próximo aniversário para o meu paladar voltar aos tempos de criança. Que saudades traz um simples bolo...

 

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 (alguns dos meus bolos antigos)

 

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(o bolo que fiz para a minha irmã. as flores de açúcar, comestíveis, foram compradas - não tenho arte para tanto)

24
Jan18

Review da semana 25#

Carolina

O meu mini-projetor LED

 

Esta foi uma daquelas compras em que eu quase acendi uma velinha, com medo do que vinha dali. Ainda corria Novembro, estava eu a delinear os vídeos do meu projeto de Natal, quando comecei a pensar de que forma é que os ia mostrar à família. Nós somos muitos – éramos 26 este ano – e eu não queria mostrar uma coisa que sabia que ia ser importante num ecrã de computador ou até mesmo numa televisão. Ia ficar toda a gente amontoada, o som ia ser miserável, ninguém ia conseguir ver nada direito com tantas cabeças à frente e eu pensei que a melhor forma era projetar os vídeos. Havia apenas um ligeiro problema: não tinha projetor.

Eu sabia que aqueles projetores como há na escola e nos restaurantes eram caríssimos e estava fora de questão comprar material desses quando não tinha outro objetivo para além desta utilização pontual. Fui pesquisar e descobri que há todo um mundo de mini-projetores LED à venda, alguns por menos de 50 euros. O meu tempo já não era muito e eu não podia correr o risco de mandar vir uma caixa da China, de ela demorar um mês a cá chegar e ainda ficar presa na alfândega (e eu ter de pagar um balúrdio para a tirar de lá). Tinha por isso a condição de mandar vir o material da União Europeia, por uma questão de tempo e para minorar os riscos. O problema é que, normalmente, as coisas mais baratas vêm do Oriente, por isso esta condição iria exigir-me mais pesquisa para arranjar algo bom a um preço competitivo.

Acabei por ter sorte. Encontrei um site de tecnologias que tem vários armazéns – uns na China, outros na Alemanha – e do meu top 3 de projetores, um deles tinha stock no país europeu. A medo, mandei vir. Não confio muito nestes sites estrangeiros que vendem material eletrónico a preços de saldo, mas era a minha única alternativa. E a verdade é que a encomenda chegou, direitinha, sem qualquer tipo de problemas. Assustei-me foi com o tamanho dela. Eu sabia que aquilo era um mini-projetor, mas não sabia que era assim tão mini! O projetor é mais pequeno que a minha mão, e eu não sou propriamente um gigantone. Aí voltei a ficar preocupada, mas relaxei quando o liguei e percebi que funcionava.

Aliás, fiquei surpreendida! Não é como aqueles que vemos nos sítios públicos, mas serve perfeitamente para nos safarmos destas situações. O detalhe não é genial (até porque a focagem é pouco precisa) e a distinção de cores também não é a melhor, sendo esta falha mais notória nos tons mais escuros. Mas dá um som porreiro, tem várias ligações possíveis (HDMI, USB, ligação de som) e lê vários formatos, sendo possível mostrar fotos, documentos e vídeos. Não tive qualquer tipo de problema com o formato dos filmes que coloquei (coisa rara – hoje em dia há tantos que a falta de codecs dá quase sempre problemas) e fiquei acima de satisfeita.

Curiosamente acabei por não o utilizar no Natal – o meu irmão conhecia alguém que tinha um projetor “a sério”, que deu outra qualidade aos vídeos, mas tenho a certeza que se isso não tivesse acontecido também veríamos tudo sem problemas. Arranjei-lhe uma caixinha e está guardado para outra eventualidade – talvez um dia destes transforme a minha sala num cinema ;) Ah, e não esquecer um detalhe: o projetor é amarelo, lindo, tem a minha cara. Caso queiram, comprei-o aqui, por 44 euros (portes incluídos).

 

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22
Jan18

Um dia vou ter um piano de cauda

Carolina

Desde que me lembro que esta casa tem um piano. Sei que não o compraram mal viemos para aqui, mas não tenho memória da minha sala sem aquela peça. É um piano vertical antigo – acho que terá mais de cem anos -, com as teclas em marfim, como hoje em dia já não se fazem (e ainda bem). Foi nele que comecei a tocar, com cerca de sete anos – mas, se a memória não me falha, já não estava em perfeitas condições.

Os anos foram passando e ele continua ali, com as fotografia e um par de candeeiros em cima. Até há bem pouco tempo era mais uma peça de mobiliário do que propriamente um instrumento musical. Ao longos destes anos em que estive parada, muito de vez em quando, ia lá tentar dar uns acordes e tocar algo, mas o piano estava tão desafinado que era impossível tocar o que quer que fosse ali e fazer com que soasse bem. Ia sempre desistindo.

Entretanto voltei a tocar. Pedi emprestado o piano eletrónico da minha sobrinha, que estava parado, e coloquei-o longe de grandes centros comuns, para poder tocar sossegada (e sem chatear ninguém, usando os headphones). Mas, por outro lado, quando queria tocar para a minha família, recorria ao velho piano da sala. Mandei vir cá a casa um afinador e o som que sai das teclas já se aproxima ao desejado – mas tocar nele continua a ser dificil. As traças comeram-lhe as almofadinhas das teclas, há umas mais acima e outras mais abaixo, outras em que se tem que clicar com mais força, outras com menos. Os sons agudos são fracos, os sons graves reverberam pela caixa toda. E eu soube, pouco depois de voltar a tocar, que mais cedo ou mais tarde ia querer um piano novo.

Fixei a data de 2020, quando tivesse 25 anos. Pensei: “vai ser a minha prenda de aniversário”. Eu tenho uma casa e uma sala grande e um dos meus sonhos sempre foi ter um piano de cauda. E nessa altura, pensava eu, já ia tocar bem o suficiente para ter um piano dessa envergadura.

Não é o que estão a pensar: não comprei um piano novo. Mas dei autorização a que o bichinho se instalasse e dei por mim a querer muito um piano melhor aqui para casa. Este mês tenho tocado várias vezes no piano de cauda lá da escola e é incrível o poder e o som daquilo; é tão fácil tocar ali, tão leve, parece que os sons saem diretamente da nossa pele. E enche-nos a alma de forma tão grande e impactante, quase como se enchessemos os pulmões de um ar profundamente bom... é incrível.

É lógico que comprar um piano não é propriamente igual a comprar-se uma camisola ou um casaco. Tem de ser uma coisa muito pensada, ponderada e experimentada e eu vou dar tempo a isso tudo. Quando fixei a data de 2020 era também para me certificar que não ia deixar o piano de lado outra vez; não quero fazer um investimento num piano de cauda só para ele ser uma peça de cenário. E a vida muda, dá muitas voltas, mas a cada dia que passa eu gosto mais de tocar. Ainda não se passou meio ano desde que voltei a aprender, mas já olho para trás e penso “o quê que eu fazia quando não tocava piano? Com quê que eu ocupava o meu tempo aos sábados de manhã e nesta hora diária que agora passo ao teclado?”.

A modos que é isto: se tudo correr bem, a médio prazo, quero comprar um piano de cauda. Até lá tenho de decidir o que faço ao meu antigo piano vertical (que não sendo um piano excepcional, é uma peça pela qual tenho bastante carinho), que tipo de piano é que quero (há pianos de um quarto de cauda, por exemplo) e onde e em que valores quero comprar. Já ando de olho no OLX, atenta a qualquer boa oportunidade. Até lá, é ir amadurecendo a ideia e ir treinando, treinando, treinando, para dar pelo menos uma boa razão para não esperar até 2020 para ter um instrumento novo.

20
Jan18

Quatro coisas que me fazem fugir de blogs alheios

Carolina

Eu não tenho grande tempo para ler blogs – mas a verdade é que também já não tenho interesse em ler muitos. Mas às vezes sinto falta. Naqueles minutinhos preciosos que por vezes temos no sofá ou antes de nos levantarmos da cama, gostava de ver outras coisas para além do meu feed de instagram ou facebook e os blogs sempre foram uma boa alternativa nestes casos. Aliás, até há um ano para cá, o feedly (uma ferramenta que reúne todos os blogs que eu gosto) fazia parte do meu top 3 de aplicações diárias, ao lado das duas redes sociais que falei acima. Mas o meu desinteresse nos blogs intensificou-se de tal forma que agora, se passar lá uma vez por semana, já temos sorte.

E isto não se trata só de tempo: eu podia sacrificar perfeitamente os (demasiados) minutos que passo no facebook a ler coisas com muito mais valor acrescentado. Mas a mim chateia-me a forma como agora tudo é feito e escrito para vender, como nada me soa a genuíno, como as pessoas só criam os blogs para serem ricas, terem a caixa de correio cheia ou só para imitar os outros.

Mas a verdade é que estou de alma aberta para acolher novos blogs, apetece-me ler coisas novas. E ontem, nos momentos que pude, deitei o olho aos espaços destacados no follow friday dos Blogs do Sapo, só para ver se algo me chamava à atenção. E comecei a pensar naquilo que queria encontrar ou naquilo que me faz dar meia volta, clicar no retroceder e sair de um blog tão rápido quanto entrei. Então aqui vai disto - as quatro coisas que me fazem fugir de blogs alheios:

 

Música automática. Eu não tenho nada contra aquelas pessoas que põem na barra lateral a sua playlist pessoal do spotify para quem quiser ouvir. Sou sincera: nunca ouço (e acho que ninguém ouve, mas se calhar estou enganada). Nesses casos, cada um é livre de clicar no play, em explorar as músicas e etc., podendo ler, se assim quiser, a ouvir os grilos a cantar lá fora. Mas aqueles sistemas automáticos, em que passados três segundos de uma pessoa entrar no site já estão a bombar música como se não houvesse amanhã, são coisinha para me tirar do sério e fazer clicar na cruzinha do lado direito do ecrã de forma instintiva. Gostar de um blog, gostar da escrita de uma pessoa ou gostar de alguém que escreve por detrás de um destes espaços não é sinónimo de que gostemos do mesmo tipo de música. Por isso, por favor, não nos obriguem a levar com as vossas músicas preferidas (recordam-se que, provavelmente, não são as nossas).

 

Design ruidoso. Fundos cor-de-rosa choque ou azul eletrizante, padrões minuciosamente florais ou cheios, letras cuja cor não faz contraste com o fundo... tudo o que faça com que o conteúdo do blog seja menosprezado relativamente ao design, para mim, é um não garantido. Até porque me custa “conviver” naquele ambiente, não consigo lidar com tudo o que está a acontecer, é impossível concentrar-me na leitura quando tudo à minha volta pisca, brilha ou chama mais à atenção que os textos em si. Ah! E não me esqueci daquelas borboletas/ flocos de neve/ fantasminhas que às vezes andam atrás do cursor, qual perseguição. Isso é só a pior invenção de todos os tempos, não se metam nisso.

 

Erros de ortografia e de concordância sistemáticos. Eu dou erros, toda a gente dá erros. Quanto mais não seja por culpa dos corretores automáticos, que teimam em não nos deixar escrever as palavras que realmente queremos. Quando releio muitos dos meus textos deteto gralhas aqui e ali (que na altura, por muito que tente, acabo por não encontrar), por isso sou longe de ser perfeita nesse sentido. Mas normalmente são coisas ligeiras: repetições de palavras, trocas de umas letras por outras graças a escrever demasiado rápido ou erros de concordância em frases com 12 orações diferentes que eu sou incapaz de decompor. Outra coisa completamente diferente é trocarem os “há” com os “à”, o coser à mão com o cozer de cozinhar ou de entrarem em estilos de português livre com palavras como “entuição” ou “caxecol”. Há erros e erros. Alguns uma pessoa percebe, outros deixa passar, e depois há aqueles que uma pessoa não consegue tolerar e sai porta fora. E porque tudo o que é demais é erro, todos eles, quando são em demasia, também dão direito a cartão vermelho.

 

Comic-sans. Eu não sei quando é que apanhei este ódio de estimação ao Comic-sans, mas foi uma coisa que aconteceu naturalmente. Quando eu era miúda era a minha fonte favorita – tal como era a fonte de todas as raparigas de 12 anos. Lembro-me perfeitamente de ter este tipo de letra no messenger, em laranja, e adorar. Mas entretanto o comic-sans passou de bestial a besta para o mundo inteiro, e eu não fui excepção. Lembro-me de ter professores de informática e de design que diziam, aquando da entrega dos trabalhos: “o tipo de letra é indiferente. Com excepção de comic-sans! Nem pensem em usar isso!”. E o bichinho ficou. Hoje em dia detesto aquele arrendondado-fofinho do comic-sans e tendo a arrepiar caminho quando vejo um blog com este estilo de fonte nos seus textos. É um preconceito, eu sei – nem toda a gente tem de ter a mesma opinião que eu, nem toda a gente tem o mesmo percurso que eu tive com este tipo de letra e nem toda a gente liga sequer à fonte que usa nos seus textos. Mas a mim lembra-me aquela miúda de 12 anos, que escrevia mal e com erros, e por isso a minha tendência natural é fugir.

18
Jan18

Porque é que os homens discutem pormenorizadamente os lances de futebol?

Carolina

Acho que hoje em dia passo mais tempo rodeada de homens do que por mulheres, muito por culpa do trabalho. E, como não podia deixar de ser, um os tópicos recorrentes é o futebol. Mas uma das coisas que eu não percebo - nem nunca percebi, para dizer a verdade - é a necessidade que eles têm de descrever pormenorizadamente as jogadas de futebol.

"Bom, aquilo foi um golaço que nem te passa. O Danilo passou a bola ao Marega do meio campo e ele, no lado esquerdo, finta o defesa lateral do Ave, depois centra para o Aboubakar, que chuta para a baliza mas a bola bate na trave. O Herrera está na recarga, ganha a bola de cabeça com um salto incrível, passa para o Brahimi e ele com um chuto de uma potencia incrível remata para o canto superior direito da baliza. O redes ainda tentou atirar-se, a luva quase chegava lá, mas aquilo era indefensável, pá." (Sim, o "pá" é um detalhe importante nas conversas masculinas).

Eu tenho a teoria de que os homens que escutam isto só apanham a parte de quem fez o centro e quem marcou o golo. Mas, se estiver enganada, quero desde já dar os parabéns aos homens deste mundo por terem a capacidade de imaginar todo este cenário nas suas cabeças. E congratular também todos os outros que decoram estes lances e detalhes, prontos para ir para o café discutir tudo ao pormenor, como quem estudou aplicadamente para um exame.

E a verdade é que eu acharia isto natural se estivéssemos em 1979, quando não havia jogos na televisão, repetições e internet - não havia outra forma de dar a entender ou mostrar as coisas. Mas porquê que esta prática se mantém agora quando, passado dez minutos, está tudo no Sapo Desporto e daí a umas horas os lances passam cinco vezes nos noticiários, 12 vezes naqueles debates com gente-que-finge-que-discute-futebol e 31 vezes nos canais especializados? Porquê que no café não sacam do telemóvel e vêem no youtube, em vez de fingirem que estão num daqueles relatos de rádio?

Porque o mais curioso disto tudo é que até podia ser uma coisa geracional - mas não é! Lembro-me desde sempre de ouvir os meus colegas rapazes a discutirem lances como se fosse a coisa mais interessante do mundo - ou, pior, a descrever aquele "golaço" que marcaram no campo da escola que, como é lógico, ninguém tem interesse em saber. 

Enfim, homens e futebol. Vai ser sempre uma cena estranha.

17
Jan18

Review da semana #24

Carolina

Trello

 

Não sei quanto a vós, mas eu sou doidinha por listas. Infelizmente ando a desleixar-me no meu bullet journal, que devia ser a casa-mãe de todas as minhas listas e listinhas, mas mesmo na altura em que andava sempre com ele de atrelado apercebi-me que já não o usava 100% das vezes que queria apontar algo. Tudo o que eram coisas rápidas, que estavam no meu top-of-mind e que eu sabia (ou achava?) que não me ia esquecer, optava por não escrever só com a preguiça de ter de ir buscar o caderno, abri-lo, pegar no estojo, tirar a caneta, escrever e guardar tudo de novo.

Acho que já se imagina o final desta história: eu às vezes não apontava e acaba por me esquecer de algumas coisas. Como dizem os outros, de boas intenções está o inferno cheio - e eu tinha muitas, mas também já tinha uma lista mental demasiado grande para conseguir dar conta do recado. Entretanto chegou Janeiro, eu ainda nem sequer inaugurei o mês no meu bullet journal e o trabalho não abranda... muito pelo contrário. E eu sinto-me perdida, com um medo terrível de falhar, de que a memória não chegue para tudo... e por isso recorro às minhas melhores-amigas listas. Acima de tudo - mais até do que a componente organizacional - é uma forma de me acalmar, de saber que tudo o que paira na minha cabeça está assente em qualquer lado, de que não ficará esquecido e que está sempre lá mal chegue o tempo de executar a tarefa x ou y.

Lembro-me de ter esta sensação nos meus primeiros tempos no mundo laboral: vinham coisas para fazer de todos os lados, sobre assuntos diferentes, que implicavam recados para ali, tarefas para acolá, marcações na agenda, emails para uns, notas para outros... e eu sentia que o meu cérebro estava a jogar à cabra-cega, de tão perdido que estava. Na altura passou mas, nesta nova fase no trabalho, em que faço o dobro do que fazia antes, o pânico de me faltar algo voltou para me assombrar. E por isso eu voltei a utilizar uma ferramenta que tinha utilizado há cerca de um ano e meio, na altura para uma função muito específica, mas que é maravilhosa para "listólicos" como eu. Chama-se Trello e consiste numa aplicação à base de... (rufos de tambores) listas!

Podem criar vários "cartões", que é como quem diz tópicos-chave, e a partir daí recheá-los com tudo e mais alguma coisa. Mesmo dentro dos próprios tópicos podem colocar comentários, pondo notas se assim precisarem, e até anexar fotografias e ficheiros, colocar datas limite, fazer check-lists e até adicionar outras pessoas às vossas listas e tabelas, sendo por isso uma ferramenta útil também para o trabalho. Depois de feitos, arquivam os tópicos-chave ou simplesmente as tarefas neles contidas (ou movem-nas, conforme preferirem).

Tem a grande vantagem de funcionar em browser e em aplicação no telemóvel, o que faz com que tenham sempre um aparelho à mão para atualizar as listas quando necessário. Acima de tudo, é uma forma rápida, organizada e muito flexível (pelas muitas possibilidades que tem, tanto a nível das listas, como de personalização e até de partilha) de trabalhar com listas, principalmente para alguém como eu que se apoia nelas para ter sempre tudo sobre controlo e que passa a vida a escrever e a apagar coisas à medida que o dia vai passando. 

 

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15
Jan18

Livro não há. E então o blog?

Carolina

Há uns dias falava-se aqui em casa de como os meus sobrinhos (e extrapolando até para a malta mais nova, da geração YouTube) vivem com base na constante aprovação dos outros. Quase todos eles já têm redes sociais e festejam cada novo seguidor como se tivessem ganho a lotaria – ou o Euromilhões... ou talvez o Placard, porque já nem devem saber o que é a lotaria. Tudo o que fazem é com vista a ter mais likes: enviam mensagens a dizer que se pusermos gosto nas coisas deles, eles devolvem o botão mágico em todas as nossas publicações e até põem screenshots censurados nos instastories a dizer “foto nova, vão ver!!!”. No fundo, fazem tal e qual como os influencers que eles tanto admiram.

E isso admira-me porque eu não sou nada assim. Quando um dos meus irmãos disse a um dos filhos que só podia ter como amigos pessoas conhecidas, a criança respondeu: “mas o objetivo disto é ter mais likes, se começar a rejeitar qual é o objetivo?”. E isso é um sinónimo de toda a nossa sociedade atual: tão cheia de likes, tão vazia em tudo o resto. Mas continuemos: estava a dizer que não me revejo por esta luta cega de likes e de aprovação exterior. No meio da conversa, dei comigo a pensar: “caraças, se eu fosse assim já não tinha o blog há muito tempo”.

Porque as poucas dúvidas que eu tenho em relação a este espaço prendem-se precisamente com a divulgação que eu faço – ou não faço, neste caso – dele. A minha posição em relação a este estaminé resume-se à frase "não promovo mas não escondo". Isto quer dizer que nunca me ouviram dizer a alguém desconhecido "sabes que eu tenho um blog onde escrevo todos os dias cenas que não interessam ao menino Jesus?"; mas também é muito pouco provável que alguma vez tenha negado a sua existência, sempre que me confrontam com o assunto. E esta sempre foi a minha abordagem por várias razões: 1) nunca quis ser famosa, nunca quis ser blogger, nunca quis fazer deste espaço uma fonte de rendimento; 2) fazer divulgação de algo tem como objetivo trazer mais pessoas - e mais pessoas quer dizer mais haters, mais gente sem nada que fazer da vida, com o objetivo de estragar o dia dos outros... e eu não tenho grande paciência para isso; 3) sinto que apesar de já ter estabelecido uma linha bastante sólida relativamente aos conteúdos aqui no blog, nomeadamente sobre a partilha de temas e conteúdos mais pessoais, este continua a ser um espaço muito meu, onde continuo a dizer coisas que em voz alta não me são fáceis de pronunciar, e por isso custa-me partilha-lo com todo o mundo, não sabendo em que mãos é que esse conhecimento alheio sobre a minha pessoa vai cair. Aquilo que senti das poucas vezes que fui reconhecida na rua foi uma desigualdade imensa: as pessoas sentiam que me conheciam, que eu lhes era algo, enquanto que para mim elas eram totalmente estranhas. E isso, digam o que disserem, é desconfortável.

Tudo isto para dizer que eu não preciso de um público para escrever, apesar de adorar ter um feedback e utiliza-lo para tentar perceber aquilo que resulta e não resulta ao nível de tópicos e na escrita, quase como um estudo muito adiantado para os livros que um dia quero escrever. A verdade é que há quase sete anos que aqui estou e a minha audiência, embora vá crescendo à velocidade que uma tartaruga sobe uma rampa, é sempre a mesma. Nunca há grandes oscilações para além daqueles dias especiais em que sou destacada pelos blogs do sapo e isso não me incomoda. É óbvio que é reconfortante receber elogios e comentários (que na sua maioria são, na verdade, interações – que é o que eu gosto mais) e é por isso que escrevo aqui em vez de escrever no word ou num diário - e sinto e percebo quando uma publicação não tem tanto feedback e tento perceber os porquês. O que não implica que não volte a escrever algo do género se isso for algo que eu goste ou que faça sentido.

Novembro e Dezembro foram o exemplo perfeito disso: notei uma quebra significativa de interações e fico sempre a pensar se quem está desse lado simplesmente desistiu de ler as minhas parvoíces. Mas por outro lado senti-me orgulhosa de mim mesma por, nestes dois meses tão difíceis para mim ao nível da gestão de tempo, ter conseguido colocar aqui conteúdo, tentando nunca menosprezar a qualidade. E sinto que 2018 vai ser feito disso: de um esforço contínuo para continuar a escrever e num registo low-profile, porque é só assim que sei ser. Se há dias em que por um lado gostava de ver isto mais mexido, há outros em que relembro dias mais agitados e de como isso quase nunca me fez mais feliz. 

2017 foi provavelmente o ano com menos posts aqui no blog, mas foi de certeza o ano em que me esforcei mais para os fazer. Estou a ajustar-me a uma nova vida, e nem sempre é fácil manter o ritmo e o meu objetivo que, como nunca escondi, é escrever todos os dias. Mas, acima de tudo, foi provavelmente o único ano na vida deste blog em que eu não pensei em desistir, em "fechar portas", em dizer adeus a este diário aberto. E isso deveu-se ao facto de ter mais para me preocupar e devido esta calmia que aqui se vive, sem polémicas, pedradas ou berros virtuais. 

Há dias em que quero dar um passo em frente; há outros em que sei que se não aconteceu durante estes quase sete anos, nunca mais vai acontecer; e há outros em que simplesmente não quero que aconteça. 2018 vai ser, para este blog - mais do que aquilo que eu fizer dele - aquilo que eu conseguir fazer com ele. E só no fim é que saberemos o quê que isso é.

12
Jan18

Saí do Sá da Bandeira a cantar “sou uma merda” e não me importei (ou como adorei a "Abenida" Q)

Carolina

Não é com orgulho que confesso que nunca tinha ao Teatro Sá da Bandeira. Mais: é mesmo com vergonha que vos digo que nunca tinha ao teatro sem ser numa visita de estudo. Isto quer dizer que para aí desde 1976 que não via um palco (pronto, está bem, estou a ser exagerada)... ou, pelo menos, há uns seis anos que não via uma peça. Sendo que nunca tinha visto algo “a sério”, feita para um público graúdo e não para miúdos que gostam mais da viagem de autocarro da visita de estudo do que propriamente da parte cultural da coisa. A parte boa no meio disto tudo é que comecei com o pé direito.

Eu estava com a Avenida Q debaixo de olho há meses, desde que a peça estreou em Lisboa. Acho que foi a primeira vez na minha vida que quis mesmo muito que um espetáculo destes viesse para o Porto e, mal soube que já havia bilhetes à venda, comprei logo para a data de estreia - se eu já tinha esperado meses a fio, vendo tantas vezes os ensaios e os aquecimentos nos instastories do Rui Maria Pego, a ler críticas do outro mundo e a ouvir promos da peça em Lisboa, não ia esperar nem mais um dia do que o necessário para a ver aqui.

Em resumo (muito resumido) basta dizer que adorei. Eu sempre gostei de musicais (o Mamma Mia tem um lugar especial no meu coração), mas este aqui tem ainda a particularidade de estar ajustado à cultura e realidade do nosso país, tocando em pontos que com um espetáculo generalista nunca seria possível. Mais: até por ser no Porto o espetáculo passou a chamar-se, pertinentemente, "Abenida Q" - o que combina na perfeição com o sotaque da Paula Porca, uma das melhores personagens da peça.

Achei tudo, tudo, tudo bem feito e bem pensado. Desde as personagens até quem lhes dá voz, passando pelos bonecos até às músicas. O meu aplauso sentido a quem fez a adaptação da peça original para a versão portuguesa, porque o fez de forma genial - às vezes pensamos que é mais complicado e trabalhoso criar coisas de raiz, mas adaptar algo que outros fizeram e torna-lo igualmente genial é por vezes uma tarefa mais difícil que a primeira. Adorei o facto de existirem as marionetas (se é que aquilo se chamam marionetas) mas os atores nunca estarem escondidos, fundindo-se na perfeição com os bonecos que interpretam, não causando qualquer tipo de ruído. Adorei os vozeirões que saíam de cada uma daquelas bocas, por vezes de forma surpreendente. Adorei as músicas e as letras - mesmo aquelas mais porquitas, porque as achei pertinentes e muito bem apanhadas. E adorei ver atores que tanto gosto e que remontam à minha infância: o Rodrigo Saraiva, eterno Rafa dos Morangos com Açúcar; o Manuel Moreira, o meu Pedro preferido na Uma Aventura; o Diogo Valsassina, que será sempre o "Tojó" dos Morangos. E mais recentemente o Rui Maria Pêgo, que para mim é uma das personagens jovens mais interessantes do panorama nacional, que me fez trocar a Comercial pela MegaHits e me fez pensar "eu gostava de ter este gajo como amigo".

Fiquei admirada por ver tanta gente "mais velha" na plateia, quando o espétaculo se apresenta com uma imagem tão jovem e um elenco com pessoas que (tal como a mim) dizem algo ao pessoal da minha geração. Até porque, para mim, a peça tem duas grandes vertentes: a inclusão da diferença e a perseguição do sonho - que é algo com que as pessoas mais novas se deviam rever (ou acho eu...). E isto, se fosse uma tese, era de certeza uma seca pegada. Mas aqui não é, porque é tudo apresentado de uma forma tão divertida e descomplexada que não há forma de se tornar entediante. Aliás, quem diz que esses são os dois temas-chave da peça sou eu, já depois de pensar sobre o assunto: porque, no fundo, aquelas duas horas no Sá da Bandeira foram de relaxamento e diversão, não houve tempo para meditações. 

Penso que no fundo aquilo é uma sátira da nova geração: achamos que somos todos muito abertos, que temos liberdade para tudo, mas no fundo continuamos a não respeitar a diferença. Por outro lado, impingem-nos a ideia de que as nossas vidas têm de ser guiadas por um sonho, quando na verdade podemos apenas ir vivendo - ora porque não temos sonhos (nem precisamos), ora porque temos mas não os conseguimos concretizar e ficamos frustrados, ora porque já o tivemos, eles já passaram e não sabemos o que fazer à vida. Pelo meio há de tudo um pouco: piadas geniais, partes com linguagem puxada mas nunca chocante (pelos menos para mim, que achei sempre um piadão aos termos bem empregues e à forma como tudo era cantado) e picos altos e baixos de emoção - porque apesar de esta ser uma comédia no seu fundo, tem partes que satirizam acontecimentos mas que não têm necessariamente piada - sempre com músicas que bem-dispõem e que nos fazem querer voltar.

Eu, pelo menos, era menina para ir ver outra vez. Se estiverem no Porto, não deixem de aproveitar. A peça estará em cena até 25 de Fevereiro, de quinta a domingo. Talvez nos encontremos por lá.

 

 

09
Jan18

Então e o livro, quando vem?

Carolina

De vez em quando recebo emails e comentários - ou o tema surge mesmo em conversa com pessoas – a perguntar quando é que vem um livro. Quem me conhece sabe que este é um dos meus maiores sonhos, é uma coisa que eu quero muito fazer, mas quero faze-lo bem. A minha resposta é: “é muito cedo”. E sim, é verdade que hoje em dia há muitos jovens autores, como também é verdade que grandes nomes da literatura só lançaram as suas primeiras obras quando a sua idade já era um posto.

A minha mãe sempre me disse que só há uma forma de fazer as coisas: bem. E eu não acho que tenha maturidade suficiente para escrever um livro. Mas, mais grave que isso, não tenho sequer uma história. Podia dizer-vos que quero dar tempo ao tempo, que neste momento não tenho disponibilidade, que não estou suficientemente segura da minha escrita… tudo isso, que até pode ser verdade. Mas, acima de tudo, uma das razões que me leva adiar este sonho por mais uns anos é o facto de até hoje nunca me ter surgido uma história que eu quisesse contar.

O meu cérebro e a minha vertente literária funcionam, pelo menos para já, na perspetiva de crónicas: pegar em temas do dia a dia e esmiúça-los, passa-los para palavras, explica-los, faze-los ter piada ou ganhar expressão. É raríssimo eu olhar para alguém ou ter uma ideia qualquer e fazer disso um fio condutor para uma história de ficção. Não sei se isso é algo que ainda não cresceu em mim ou se, de facto, não faz parte daquilo que sou. Confesso que esta ultima perspetiva preocupa-me: e se eu não nasci para escrever ficção? Se eu não conseguir manter vivas personagens dentro de mim, dar-lhes uma história de vida e faze-la acontecer no papel? Acho que só o tempo o dirá.

Mas, dizem os outros, até podia lançar um livro de crónicas. Poder, podia, mas não era bem a mesma coisa. Podia lançar um best of com o que escrevi aqui – como muitos bloggers fazem hoje em dia – mas, sinceramente, não é uma ideia que me agrade. É verdade que a comida aquecida no micro-ondas continua a ser boa se a comida inicial também for boa, mas perde-se o elemento surpresa. Não sei quanto a vocês, mas eu não gosto muito de ler a mesma coisa duas vezes. É como comida requentada – eu como-a porque tenho fome, preguiça, não quero dar trabalho e causar desperdício. Porque, se pudesse, faria algo diferente e não perderia tempo com coisas antigas. E os textos requentados, para mim, perdem a piada.

Podia era escrever crónicas novas. Podia. Mas a verdade é que não é bem esse o livro que eu um dia gostava de publicar. E sinto que, nesta fase, lançar um livro seria só mesmo pelo ato simbólico em si e seria só mais um, como agora há milhões. Toda a gente acha que pode escrever um livro – e eu acho bem que exista essa liberdade, mas tenho pena que as pessoas não tenham sentido crítico suficiente para perceber que o papel ali gasto não vai acrescentar nada ao mundo. E eu não quero ser mais uma. Posso não ter a obra mais apreciada pelo público ou pela crítica; ter apenas quatro livros vendidos (um pelos meus pais, e três pelos meus irmãos): mas seria apreciado por mim e eu lançá-lo-ia de consciência tranquila, pensando que segui aquilo que sempre quis e fiz o meu melhor para a época.

Se a vida correr o seu caminho eu terei muitos anos para escrever livros e cumprir o meu sonho. Não quero pôr a carroça à frente dos bois; não quero pagar uma fortuna só para ter o ego cheio; não quero contribuir para esta época de esvaziamento da literatura; não quero fazer só por fazer. E isso pode ser daqui a dois anos ou daqui a trinta. Só o tempo o dirá.

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