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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

18
Fev17

A fórmula da felicidade pode ter dor pelo meio

Não acho que tenha sido uma adolescente difícil, com aqueles dramas todos do costume. Simplesmente não fui uma adolescente feliz. Não que não tivesse condições para isso, mas simplesmente não me conseguia ver livre dos meus fantasmas, que tomavam conta de mim de forma permanente. De qualquer das formas, acho que esta é das épocas da vida em que é difícil ser-se feliz, a menos que se seja muito parvo e ninguém tenha uma rédea sobre nós. Eu estava a passar por aquilo, sabia os "sintomas", mas não me identificava com eles: via os meus colegas a passarem por todas as fases a que tinham direito, a fazerem asneiras sem olho em qualquer consequência, e eu abanava a cabeça, num "não" constante.

Foi só mais uma fase em que não me integrei com nada nem ninguém e que embora não andasse enrolada com 3 gajos na mesma semana, a fumar um cigarro na parte de trás da escola e já de olho no dealer de erva ou a mentir aos meus pais, vivia com os meus próprios dramas e cocktail de sentimentos que não sabia gerir. E acho que isso só resultou num isolamento total e numa tristeza que morou em mim até, provavelmente, ao 11º ano - ano em que me senti mais no fundo do poço e já com anti-depressivos na carteira mas onde também decidi tomar as rédeas da minha vida e deixar-me de merdas.

Por outro lado também culpo a genética. Acho que tenho propensão para estar triste, ver o copo meio vazio, estar de olho no lado negro da vida, optar pelo ponto de vista negativo em detrimento do positivo. Esta é a minha forma natural de estar, mas também é aquela em que não quero viver - por isso todos os dias faço o exercício de gostar das coisas, sorrir para as pessoas, fazer listas de coisas boas se assim for necessário, ser simpática e esperar que o universo retribua com positivismo. E quem está a ler isto e não me conhece deve estar a pensar que eu sou o Gustavo Santos em modo feminino, a tentar inspirar o mundo para uma auto-ajuda generalizada, mas não é verdade: primeiro porque não acho que seja exemplo para ninguém e, segundo, acima de tudo, porque o que eu estou a dizer é a mais pura das verdades, no meu caso em particular. A mudança foi radical e sei que no exterior também se notou: sou hoje uma pessoa mais feliz e muito mais fácil de conviver e privar. Porque a verdade é que viver ou estar com alguém que está sempre triste, deprimida e chateada com a vida é um castigo: castigo esse que eu não queria dar nem aos que amo - porque são quem me atura diariamente - nem a mim própria. Eu já não me aguentava, estava farta de mim. E isso era uma bola de neve que ia piorando gradualmente porque não conseguia sair deste ciclo. 

Esta mudança aconteceu porque cresci mas, acima de tudo, porque quis. Ai de quem me tire os louros nisto e os ponha em cima dos anos que passaram por mim. Porque embora eu duvide seriamente que conseguisse voltar ao que era - a não ser que um acontecimento avassalador tomasse conta da minha vida e eu perdesse totalmente o controlo -, não tenho dúvidas que aquela Carolina ainda continua ali. E ela aparece todos os dias e eu não consigo deixar de ser eu. Costumo dizer "deram-me os 5 minutos, mas já passou"; ou então, já antevendo a coisa: "estou prestes a ter os 5 minutos, mas já passa". Esses cinco minutos são de choro compulsivo e música deprimente; são fonte de inspiração para escrita, são dores de alma. Mas são só cinco minutos - e depois pára. Porque eu não sufoco aquilo que sou, mas preciso de ser outra coisa. Estabeleço-me limites para gozar e viver as tristezas, as deprimências, as ânsias e os sofrimentos - podem não ser cinco minutos, podem ser dez, um dia, uma semana. Depende do que for, depende dos quê's da questão, de uma previsão para eu ver a coisa resolvida. Mas tem de terminar ali.

E isto pode parecer estranho e irreal porque, de facto, as dores e os desgostos não têm prazo de validade; só o tempo é que os cura. A questão é que, a menos que sejam autênticos elefantes na sala que não consigamos controlar - que acontecem -, podemos prioriza-las. O truque é deixar de lhes dar prioridade. Primeiro há uma vida para viver, passeios para dar, viagens, trabalho, pessoas - e depois podemos resolver tudo isso. Mas a verdade é que, bem vivida, a vida é demasiado cheia de coisas (boas e más) para termos muito tempo para estarmos ocupados a resolver coisas antigas e a carpir como se não houvesse amanhã.

Às vezes dizem-me, ferverosamente, para parar de racionalizar. Deixar de pensar em hipóteses, de parar de descodificar aquilo que sinto, que os outros sentem. O que essas pessoas não sabem é que o ato de racionalizar, tanto me mata, como me salva diariamente. É como as enzimas dentro do nosso corpo, que partem partículas maiores noutras mais pequenas, de forma a serem digeridas: pode doer à primeira, mas é a única forma de elas serem absorvidas e serem uma parte integrante de nós. E eu preciso de desconstruir tudo, ordenar as ideias, dar-me tempos para arrumar tudo direito e seguir em frente. É assim que consigo ser feliz. (Literalmente) Estranhamente feliz.

13
Fev17

Oh não, ando a ver séries portuguesas!

Ando há séculos para vos falar das novas séries da RTP. Quer dizer... "novas" é uma expressão. Ando a adiar este post há tanto tempo que elas já podiam estar quase na segunda temporada e eu ainda aqui estava. Mas enfim, vocês percebem. Acho que pelo caminho até já estrearam outras (shame on me, again), mas vinha falar-vos do "Ministério do Tempo" e do "Sim, Chef".

Com o Ministério do Tempo a RTP fez um alarido de todo o tamanho, uma promoção incrível. E a verdade é que eu acho que deixa muito a desejar. A ideia original é engraçada mas, tal como todos os filmes e séries que envolvem viagens do tempo, acho que há discrepâncias enormes, erros que nem sei bem explicar. Enquanto vejo aquilo surgem-me mil e um problemas e outras mil e uma questões e eu acabo por não desfrutar do que vejo.

Não percebo muito bem aquelas passagens temporais e, no caso específico desta série, não entendo como é que eles depois recrutam o Luís Vaz de Camões ou o Pessoa para o ministério. Depois há outras coisas: lembro-me de uma cena em que a Amélia só dizia que queria ir dormir para casa - mas então ela vai dormir ao século XIX? E depois vai embora, e depois volta? E o tempo que passa noutros tempos é igual ao do tempo dela? Ou seja, enquanto os minutos passam em 1943 também passam em 1851? Acho tudo muito confuso. Por outro lado, acho a caracterização de algumas personagens mesmo muito fraquinha: ainda há dias o Hitler e o Salazar eram os ícones centrais do episódio e os atores eram de bradar aos céus. E ainda há a questão das paisagens: quando se trata de tempos muito antigos, os fundos são autênticas pinturas, há uma total aceitação de que não vão recriar aqueles cenários - e embora eu perceba que mais vale fazer isto do que asneira da grossa, dá um ar pouco autêntico e um bocadinho amador à coisa. Por isso, e embora ache alguma graça ao enredo inicial, acho que há demasiada coisa a estragar, por isso desisti de ver.

O mesmo não se pode dizer do Sim, Chef. Acho a série super, hiper, mega bem conseguida, de rir do início ao fim. Nos primeiros episódios também apareciam assim umas nuvens, ao estilo desenho animado, mas até isso eu achei piada, embora tornasse a série um bocadinho mais acriançada. Acho o casting incrível - os dois atores principais, o chefe e o aprendiz, nasceram para fazer aquilo. O enredo de cada episódio é hilariante, há sempre plot twists pelo meio e cada personagem tem o seu papel - que, ainda pequeno, não deixa de ser essencial, tal e qual como acontece numa cozinha. Pelo que sei, a série é inspirada numa outra estrangeira, mas não acho que lhe tire valor - aquilo faz as minhas quartas-feiras à noite muitooo mais divertidas. Normalmente todas as séries que eu gosto não passam dos primeiros episódios experimentais, mas estou a fazer figas para que esta tenha continuidade e que os roteiristas continuem inspirados.

Por isso, em resumo: para o Ministério do Tempo, embora aprecie a tentativa... avaliação negativa. Para o Sim, Chef... que mais venha! Ah, e já agora, uma nota de apreciação para a RTP, pela tentativa de disrupção das novelas, onde há sempre o anjo, o diabo e o casal sensação, e que já enjoam neste país tão pequenino onde tudo soa ao mesmo. Não tenho visto muito mais séries para além destas, mas apanho alguns anúncios e críticas pela internet fora - e mesmo que algumas não tenham sido tão bem conseguidas, acho que vale pelo esforço!

 

12
Fev17

Um guia turístico diferente

Antes de fazer as viagens, emprestaram-me um molho enorme de guias para eu fazer uma seleção dos sítios onde queria ir. É óbvio que não tinha grande tempo para fazer muita coisa, mas foi uma boa hipótese para fazer ver aquilo que achava ou não que valia a pena visitar.

No meio de tudo isso veio um livro enorme e pesado, chamado "36 hours - Europe", em que o conceito é basicamente "o que fazer num fim-de-semana num destino europeu?". Começa a meio da tarde de sexta feira, passa por sábado e pela manhã de domingo - no fundo, um tipo de viagens muito instituída pelas companhias low-cost, em que se tem de ver tudo em modo Speedy Gonzalez e pensar "é melhor que nada".

Mas bom, a ideia era eu ver o que o livro trazia sobre Madrid e Munique, mas a verdade é que gostei tanto do conceito que dei por mim a folhear o livro por inteiro - principalmente nas cidades que já conhecia, para perceber se os sítios que eles sugeriam iam de encontro aos que eu tinha ido e gostado. E a verdade é que há muitos sítios de que gostei muito, mais ao menos comerciais, e que o livro sugere. No fundo, tem um bocadinho de tudo: primeiro uma breve contextualização da cidade, depois um sítio para passear, outro para jantar, outro para tomar um copo, um museu, uma loja ou outra coisa que os autores acharem relevante. Acho que isto é uma compilação de textos publicados no The New York Times e, para além da edição sobre a Europa, há sobre os USA&Canadá, Nova Iorque, Londres e América Latina.

Para além do formato giro e pouco usual de apresentar as coisas, o livro é lindo, muito bem desenhado, com fotos e ilustrações incríveis, que fazem com que não apeteça parar de se folhear. Encontrei-o no The Book Depository a 23 euros (agora está a 24) e achei uma autêntica pechincha. Os guias turísticos são caríssimos, um só livro sobre uma cidade pode chegar a custar mais do que isto, e pagar pouco mais de vinte euros por um livro com quase 700 páginas, que pode servir até de decoração de centro de mesa (por exemplo) e que tem informação sobre todas as cidades principais da Europa, é quase de borla. Fiquei rendida ao formato e à beleza da obra, por isso não podia deixar de a partilhar convosco. E, se gostam de viajar, este é capaz de ser um bom investimento.

 

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Para terem uma ideia, no Porto aconselham o Restaurante DOP, o Mercado do Bolhão, o Hard Club, o Centro Comercial Bombarda, as Galerias de Paris, a Fundação Serralves, as caves Sandeman, entre outros.

 

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 Em Lisboa aconselham a visita ao LX Factory, à Casa da Comida (não conheço), ao MUDE, ao Museu Nacional de Arte Antiga e ao Le Chat (que também não conheço), entre outros.

 

11
Fev17

Uma semana de viagem: o resumo

É engraçado pensar que apenas viajei durante uma semana. Enquanto a vivi, a azáfama foi tão grande que o tempo pareceu passar a correr (pelo menos a maior parte, fora aquelas em que eu me ia abaixo, escondida nos arrumos, e contava quase os micro-segundos a passar). Agora que quero fazer um resumo das minhas peripécias, começando por Madrid, parece que passou tanto tempo que já nem as lembro de uma forma muito viva. Por um lado é mau, porque a veracidade das coisas já não vai ser espetacular; mas por outro, quer dizer que sorvi cada segundo daquela experiência, o que não podia ter sido melhor. Vamos lá por partes.

 

   1) Passei apenas uma noite em Madrid, mas viajei com três malas de porão, com 24 quilos cada uma. E não, não foi culpa minha - era material que tinha de ir para a feira e que não chegou a tempo para seguir por uma transportadora, por isso não houve volta senão ir comigo no avião. O que me valeu é que conhecia pessoas que - não tendo viajado lado a lado comigo - me ajudaram depois a transportar a carga.

   2) Mal cheguei fui logo trabalhar, não houve tempo para passagens pelo hotel. Quando lá cheguei, à noite mesmo antes do jantar, percebi que era um quarto habilitado para pessoas portadoras de deficiência. Nada contra, mas a casa de banho era terrível: para poder albergar uma cadeira de rodas, o chuveiro não tinha limites ou paredes, pelo que de cada vez que tomei banho alaguei a casa de banho in-tei-ra. Não foi bonito.

   3) Jantei com pessoas que não conhecia de lado nenhum. É engraçado como em situações que nos são estranhas acabamos por nos adaptar - já de tarde tinha falado espanhol (ou portunhol) como nunca tinha feito na vida (sempre tive imensa vergonha) - e depois ali estava eu, com três pessoas estranhas, a partilhar mesa e um jantar. Foram, por acaso, muito simpáticas e acabei também por estar com elas no pequeno-almoço. A verdade é que foi muito mais estranho o momento antes do jantar e o pós (como agora, em que estou a pensar nisso) do que o momento em si. Na altura limitei-me a ligar os meus instintos não-anti-sociais e tentar parecer alguém normal.

   4) O vôo Madrid-Porto foi o pior da minha vida. Foi sexta-feira à noite e, pelo que sei, houve um vendaval por todo o país (e também em Espanha, onde foram adiados jogos de futebol e etc.). Só tivemos uns 20 minutos de sossego - os outros 40, entre descolagem e aterragem, foram do pior. Vi a minha vida a andar para trás, à medida em que ia sentido o avião a balançar da esquerda para a direita de forma incessante, as malas acima da minha cabeça a baterem umas contra as outras e os compartimentos do avião onde os hospedeiros guardam as comidas e todas aquelas tralhas a remexerem-se todas. Chegou uma altura em que tive de me agarrar ao banco da frente para me estabilizar e procurei o saquinho de papel, caso precisasse. Vim depois a saber que houve pessoas que tiveram mesmo de o utilizar. Eu só queria chegar a terra - e rezava para que dali a umas horas o temporal já tivesse passado.

   5) Tinha vôo para Munique apenas seis horas depois de chegar de Madrid, pelo que estava no aeroporto apenas 4 horas depois de lá ter saído. O plano era tratar da mala mal chegasse à noite, mas dado o meu estado de oura, preferi dormir duas horas primeiro e depois trocar as tralhas essenciais de uma mala para a outra (que já tinha deixado pronta). Estava a tratar disso quando percebo que havia umas bolsas que estavam abertas e não deviam. Fui roubada no aeroporto de Madrid. Felizmente não tinha objetos de valor, mas roubaram-me dois colares (ambos Parfois, mas estavam bem tratados, devem ter achado que roubaram grande coisa) e os meus cartões de memória da máquina fotográfica, que estavam naquele saquinho que vos tinha mostrado aqui - também estavam vazios. Deixaram o colar mais valioso, tanto na nível monetário como emocional, pois era da minha avó. Ao menos isso. Ainda assim, chateou-me o facto de terem andado a remexer nas minhas coisas.

   6) A primeira noite em Munique foi de festa, num bar português, onde vimos o Porto ganhar ao Sporting. Vim a saber que aquele era o poiso dos jogadores do Bayern de Munique e o meu sobrinho mais velho quase me trucidou quando lhe disse que estava lá um tal de Rafinha (quem?) e eu não lhe tinha pedido um autógrafo.

   7) Aprendi que o schinitzel - o panado - é a minha salvação numa terra onde só se comem salsichas, algumas com um aspeto definitivamente horrível. Não como salsichas de uma forma geral, é algo que me faz aflição, e estar numa feira onde só se serviam snacks com salsichas pelo meio foi algo medonho.

   8) A feira onde fui tinha 19 pavilhões. Andei uma média de 10 quilómetros por dia, só dentro da feira. Saía do hotel pelas 7.30 locais (6.30 daqui) e houve dias em que cheguei depois da meia-noite. Fiquei morta. A certa altura tinha pessoas a gozar comigo, sem eu me aperceber porquê - só quando me olhei no espelho do elevador é que entendi que, embora tentasse estar bem-disposta, a minha cara me denunciava. Olhos raiados de sangue e olheiras até ao chão não perdoam. Passei essa semana a levantar-me às 5 da manhã de Portugal e aprendi que sei dormir em qualquer lado.

   9) Apercebi-me disso no dia em que fiquei sozinha, porque relaxei do frenesim da feira. No caminho de volta de Dachau adormeci sentada no metro, algo que nunca na vida me tinha acontecido. Depois à ida para o aeroporto aconteceu-me o mesmo, agarrada à mala (tenho a certeza que o gajo que estava à minha frente me tirou fotos). E tornei a adormecer enquanto esperei para fazermos o embarque.

   10) É engraçado ver a reação das pessoas quando se apercebem que uma miúda nova está sozinha. Ao jantar, certificaram-se que tinha dito que a mesa era só para um. Depois, quando veio o meu pernil, o empregado desfê-lo por mim (tinha ido ao mesmo restaurante no dia anterior, com pessoas, e isso não aconteceu) e sempre que passava sorria-me e perguntava-me se estava tudo bem. No dia seguinte, no aeroporto, uma senhora alemã ajudou-me a pôr as alças da mochila direitas quando se apercebeu que as tinha deixado tortas quando a coloquei nas costas. Achei o gesto enternecedor.

   11) Relativamente a estar sozinha, o meu maior receio era andar de noite - ali em redor do hotel havia muitos bares de strip e algumas prostitutas, sendo que havia também alguns magotes de homens que eventualmente podiam tentar algo. Meti os pensamentos maus atrás das costas e fiz-me à rua, e ainda andei uns dois quilómetros, desde o restaurante ao hotel. Certifiquei-me apenas que jantava cedo e voltava cedo para o ninho, para evitar andar sozinha a altas horas da noite. Achei a cidade muito morta, passei por sítios onde não passava vivalma e onde não havia animação, nem mesmo em montras. 

   12) No dia seguinte, o dia S (de "sozinha"), a vida não estava a colaborar. Fiz o check-out logo depois do pequeno-almoço, deixei as malas no hotel e fiz-me ao caminho para Dachau. Lá no campo comecei a enregelar seriamente mas, entre tirar telemóvel para tirar fotos e etc., perdi os phones e uma luva. Fiquei fula. Os phones eram a minha companhia e a luva, naquele momento, parecia essencial para a minha sobrevivência. Mal punha a mão de fora parecia perder a atividade, de tanto frio que fazia.

   13) Dirigi-me depois a Marienplatz, a praça mais antiga e principal da cidade, onde sabia que havia umas lojas pelas redondezas. Fui a uma H&M e comprei umas luvas. Quando ia a pagar, olhei para a carteira e apercebi-me que me faltava dinheiro - tinha-o deixado no cofre do hotel! Não tinha os documentos do hotel comigo, não tinha internet no telemóvel para saber sequer o número para ligar para lá. Meti-me no metro e fui a correr de volta, com o coração nas mãos. Quando cheguei, fiquei a saber que não só tinha deixado o dinheiro como o passaporte, que deixei lá por segurança, caso me roubassem o cartão de cidadão. Foi uma sorte e ficarei eternamente agradecida às senhoras da limpeza por terem guardado e entregue tudo. Nesse momento, para além de estar esgotada e a bater o dente de frio, senti-me derrotada. Já não queria passear, já não queria saber: só queria dormir, ir para o aeroporto e vir para casa. Mas fiz um esforço, voltei a abandonar o hotel e fiz-me à estrada.

   14) Comprei uns phones, já tinha outra vez companhia. Comprei também uns ímans para o frigorífico, para a minha mãe, e uns croiassaints e uma água para quando a fome apertasse. Dei mais umas voltas no centro histórico, sem grande plano definido, porque percebi que a vida não estava para essas coisas. Nas minhas pesquisas pré-viagem tinha visto que se podia subir a uma torre, mas quando lá passei não vi ninguém e parecia estar tudo fechado. Voltei a tentar, empurrei portas e lá acabei por encontrar a entrada. Estava cheia de frio e achei que aquela era uma boa forma de aquecer. Subi. Subi. Subi. Subi. Olhava para cima e as escadas não terminavam. Estava a deitar os bofes pela boca e só pensava "ainda bem que comprei uma água, quando chegar lá acima vai-me saber pela vida". Cheguei, mais viva que morta, e abri a água. Vi bolhinhas. Tinha comprado água com gás, algo que sou perfeitamente incapaz de beber. Roguei-me pragas.

   15) Tirei fotos, respirei, e voltei a descer, dando graças por aquilo não ter começado a arder quando eu estava lá em cima. As escadas eram todas de madeira e se algum dia algum louco passa por ali, está tudo condenado a uma morte certa. Quando cheguei cá abaixo, lembrei-me de ler o letreiro: 91 metros de altura, 306 degraus. Entre subida e descida, 612. As minhas pernas pareciam piores que gelatina, quase como se tivesse saído de um treino de PT. Roguei-me pragas mais uma vez, por não ter lido o letreiro antes de subir.

   16) Dei mais umas voltas, bebi um chocolate quente e voltei para o hotel. Peguei nas malas e fui para o metro, em direção ao aeroporto. Aparato policial, a porta para a linha da estação de metro que precisava estava fechada. Perguntei ao polícia uma alternativa, não percebi o que me disse, dei duas voltas à estação gigante para perceber se havia outra porta e nada. Como já dominava o metro, entrei noutra linha e depois troquei para a que queria - uma volta maior, mas não tinha outra alternativa. Tinha uma mochila carregada de coisas, entre computador, carregadores,máquina fotográfica, objetiva, porta-moedas, carteira de medicamentos, bloco de notas. Enfim, pesava chumbo - mais a mala grande. Ainda tive de subir escadas pelo caminho, decifrar as linhas de metros e estava esgotada.

   17) Quando cheguei ao aeroporto, depois de despachar a mala, ainda esperei uma meia hora para entrar na segurança, que é caótica em Munique graças a umas máquinas de raio-x que demoram o dobro do tempo. As minhas costas gritavam por descanso e tenho noção de que o meu caminho até à porta de embarque foi penoso - ia a passo de caracol, já com um olho meio aberto e outro fechado. Quando cheguei, atirei-me para uma cadeira e, com os phones nos ouvidos, fui dormindo. Depois entrei no avião e, bem... missão cumprida. Consegui, caraças.

 

A verdade é que no meio disto tudo, destas peripécias que agora aqui escritas parecem pequenas coisas, ninharias de nada, eu senti-me exausta. E quis desistir, ir direta ao aeroporto num táxi e arrumar aquilo. Dizer à vida: "porra, ganhaste". Mas optei pela escolha difícil. Saí do hotel depois de achar que tinha perdido o dinheiro e o passaporte; fui de metro mesmo tendo de andar o dobro para ir para o aeroporto. Algo tão pequeno como a falta de música nos meus ouvidos ou a falta da água no topo da torre fizeram-me repensar em tudo, em dizer que se calhar esta ideia de viajar sozinha não é assim tão boa e que a vida estava só a tornar isso tão claro como a água.

E eu digo-vos uma coisa: eu levo estes feelings e estas mensagens muito a sério, costumo ouvi-las. Mas há momentos em que temos de lhes fazer frente, porque temos algo a provar - e que queremos muito que se concretize. Portanto, segundos depois de quase lhe dizer "porra, ganhaste", dizia-lhe "bate mais, bate! Eu hoje chego ao aeroporto, nem que seja a arrastar-me". E cheguei. Viajei sozinha e sobrevivi. Vi todas as barreiras à minha frente e não só as ultrapassei como nunca escolhi o caminho mais fácil. E isto sozinha, como estou sempre. Como sempre estive e como acho que vou sempre estar.

É isto, vida. Estamos quites. Se fazia outra vez? Com todo o gosto. Não só para me bateres mais um bocadinho, mas também para te dizer que sou capaz. 

 

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10
Fev17

Campo de concentração de Dachau

Ir a um campo de concentração não era uma questão, a única pergunta que se colocava era quando. Quando comecei a ver coisas para visitar em Munique, apercebi-me de que o Campo de Concentração de Dachau ficava a mais ao menos 45 minutos do centro, por isso era uma oportunidade que não podia perder.

Eu sempre tive imensa curiosidade no que diz respeito ao período fascista na Europa, em particular o regime Nazi - e, mais do que gostar de saber as factos, sempre tive imensa curiosidade em perceber como é que os alemães lidam com esse período da sua história neste momento. Nunca me dei bem suficiente com um alemão para lhe fazer uma pergunta dessas, que pode ser algo íntima, mas foi algo que sempre me questionei. 

E, por incrível que pareça. foi esta vertente (a de ver os outros) que mais me impressionou quando visitei Dachau - mas já vos explico. O caminho para lá, desde o centro da cidade, é feito de metro e autocarro; é fácil, não tem muito que saber. A entrada é livre, paga-se apenas pelas visitas guiadas ou pelos audio-guides (3,50€ para adultos) - eu optei pela segunda opção, que a meu ver foi errada, porque não usufrui de metade. Aquilo funciona com números e mapas e eu não estava particularmente inspirada para perceber o esquema, pelo que cheguei a um ponto em que desisti e só mais tarde voltei a pegar naquilo. Penso que numa visita guiada uma pessoa tem uma visão mais abrangente e detalhada de tudo, até porque há partes realmente chatas no museu; há demasiada informação, quadros demasiado grandes. Uma pessoa ouve muito melhor do que lê e eu posso ter perdido partes cruciais do campo por não me aperceber da sua importância (espero que não, mas nunca fiando).

Em Dachau não há um grande choque com aquela realidade que conhecemos nos livros. É um sítio especial e com uma aura pesada, porque todos sabemos aquilo que lá se passou: senão, podia ser só mais um conjunto de edifícios. Não há, como em Auschwitz, cabelo dos judeus, dentes, óculos e objetos pessoais. Há somente alguns objetos, mas nada que seja chocante ao ponto de nos deixar aterrados com o que paira à frente dos nossos olhos. Na parte do museu há muita informação, muitas fotos, mas é algo muito massudo e eu duvido seriamente que alguém leia aquilo de uma ponta à outra. Para além do mais, e ao contrário do que estava à espera, grande parte dos edifícios foram reconstruidos - a maioria nem sequer se reergueu, na verdade - e muito pouco do que lá havia era da época, são quase tudo réplicas. Neste sentido, fiquei muito dececionada.

O frio que se fazia sentir também não ajudou. A temperatura era de -1º, mas a sensação térmica era de -6º e, também por isto, não aguentei muito tempo por lá. Por ser um descampado, o frio ainda parecia sentir-se mais e eu cheguei a um ponto em que mal conseguia respirar. Ainda assim, o frio foi útil, porque pensei o que seria sentir isto apenas com uma peça de roupa no corpo, magra como um cão maltratado, doente (muita gente morreu em Dachau com tifo), como a maioria das pessoas que lá passaram. Em jeito de breve contextualização, Dachau foi o primeiro campo de concentração alemão, e há registo oficial de cerca de 32 mil mortes, embora a contagem não oficial passe por muito mais de centenas de milhar. Os 34 pavilhões que lá havia para além do edifício principal, construídos pelos prisioneiros, serviam de muita coisa, incluindo para as tão faladas experiências médicas, salas de tortura, celas minúsculas, salas de execução e etc.

Há também um crematório, cujo o edifício está intacto - aliás, há dois, o mais antigo e o mais recente. Cada forno dava para cremar três pessoas de uma vez. Apesar de ter lido algures que não havia câmaras de gás em Dachau, elas estão lá também, portanto essa realidade está presente e latente. Para além disso, há também vários monumentos e memoriais no campo, representativos das diferentes religiões. No museu dá-se particular destaque às diferentes religiões, raças e culturas que estavam no campo, mostrando fotos e exemplos de pessoas que contam o seu testemunho.

Há também um filme, que não vi, porque estava uma turma prestes a entrar e eu não estive para me chatear. Aliás, esta foi a pior parte da minha visita a Dachau, aquilo que me realmente chocou. Apesar de ter ido cedo e o campo estar deserto (no exterior, aquilo é enorme), havia muitas visitas de grupo e visitas de estudo, de alunos alemães entre os 15 e os 17 anos, diria. Numa primeira fase chateou-me, porque não conseguia ler as placas informativas, por os guias se colocarem sempre em frente delas e por ter de andar a fugir por entre os grupos; depois, chateou-me pela leviandade com que eles levavam aquilo. Riam-se, chamavam-se uns aos outros para ver alguns objetos pessoais dos prisioneiros, como se de um macaquinho a fazer graçolas de tratasse; andavam por lá com a menor das preocupações e consternações e eu só pensava que, provavelmente, os avôs e bisavôs deles tinham andado por aquelas bandas a chacinar pessoas e eles não estão nem ali.

Percebo que sejam novos, que estejam na idade da parvalheira, mas isto em grande parte respondeu àquela minha pergunta que há tantos anos me perseguia: como é que eles, enquanto povo, lidam com aquilo. Para uma faixa etária próxima da minha, aquilo é claramente uma fase posta atrás das costas; percebi pela maioria das reações que eles não têm qualquer tipo de ligação com aquilo, não lhes diz simplesmente nada. Estão livres de responsabilidades, peso na consciência ou qualquer tipo de legados. Estão a marimbar-se. Aquilo foi só mais uma saída da escola e bora' lá gozar o tempo livre. E isso chocou-me imensamente, mais do que qualquer outra coisa que ali tenha visto, porque eu sabia ao que ia. Aqueles putos, se aparecesse outro Hitler, faziam igual. Numa parede central do campo, está uma inscrição em várias línguas que diz: "Que o exemplo daqueles que aqui foram exterminados entre os anos 1933 - 1945, porque eles resistiram ao nazismo, ajude a unir os vivos pela defesa da paz e liberdade e respeito por todos os outros homens". E eu sinto que isto, estar ou não estar lá escrito, é igual. Infelizmente, talvez seja uma questão de tempo, uma questão de vontade, uma questão de aparecer um louco e tantos outros que lhe sigam as ordens. E isto faz-me estremecer.

Optei por não tirar muitas fotos, a não ser para registar e partilhar convosco. Aquele não é propriamente um local para selfies. Para mim, acima de tudo, foi um sítio de contemplação e reflexão, importante nos tempos em que vivemos agora. Acho que o campo em si, por ter pouco de chocante, não mexe suficiente com as pessoas; não está tão trabalhado como de Auschwitz, por exemplo (nunca lá fui, mas já vi muitas reportagens, sei mais ao menos o que tem e não tem), e faltou-me também ouvir alguém que me tangibilizasse aquilo que lá se passou, mais ao pormenor. Era capaz de voltar, só para fazer uma visita guiada em termos e sorver a totalidade do que ali está patente, embora pouco visível.

Ainda assim, aquilo que trouxe comigo foi um frio, não só no corpo, mas também na alma. É um sítio com um silêncio aterrador, apesar das pessoas e dos estudantes parvinhos que lá passavam. Enquanto me arrastava de frio por aquele descampado, onde sei que morreram milhares de pessoas, pensava na minha sorte e, embora não saiba sequer rezar, sinto que me aproximei algo que espiritualmente daquela realidade e daquelas pessoas que lá ficaram. Não me perguntem porquê, mas ao contrário daqueles estudantes, eu sinto que tenho uma responsabilidade - senão no passado, pelo menos no futuro, para não deixar acontecer igual. 

 

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 A típica frase "o trabalho liberta", que abre sempre os campos de concentração. Em Dachau não tem grande destaque, mas também está presente.

 

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O campo - como se nota, algo de perder de vista. Os retângulos com pedras eram pavilhões, os tais construídos pelos prisioneiros que tinham diferentes funções.

 

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Uma casa de banho, replicada.

 

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Os fornos.

 

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 Réplicas das camas, que tinham três níveis de altura. 

 

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Edifício principal, agora com um memorial.

 

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 Vista geral e central. Neste caminho faziam-se execuções e caminhadas dolorosas para uma morte certa.

08
Fev17

Este post é sobre uma viagem, mas não é um diário de bordo

Isto tem sido uma viagem e tanto - muito mais emocional do que propriamente de passeio. Tem sido duro e tão bom ao mesmo tempo. Por um lado é a prova de que já sou adulta, que não preciso de álcool para me sentir crescida (desculpem, foi uma private joke para o post anterior); por outro também foi a evidência de que embora já sobreviva sozinha, estou melhor no colo dos que me querem, porque é o único sítio do mundo onde me sinto querida e amada.

Esta viagem é pura e simplesmente uma daquelas experiências a que chamamos "crescer". Às vezes dói como o caraças, outras sabe a liberdade pura. Passei por estes dois extremos tantas vezes ao longo destes dias, em que lutava contra o cansaço, o medo, o desconhecido, que dei por mim a procurar muitas vezes o conforto na única coisa que aqui me era conhecida e confortável, porque vivo com ela há anos: a solidão. Nos momentos de aperto - e não só - escondia-me nos arrumos atrás do computador, com o trabalho como pano de fundo, e limitava-me a relaxar e a racionalizar.

Não devia e acho que esse é um dos meus grandes problemas - mas também uma das minhas virtudes, quando é feita no momento certo. Não consigo não racionalizar aquilo que sinto e que penso, o que por vezes torna as coisas mais confusas do que já são. No meio de tudo isto, foi o factor social que mais mexeu comigo: a quantidade de pessoas que tive de me relacionar, falar, privar, deu-me cabo do sistema. E, chegada ao fim da feira, mal pus os pés do metro já a caminho do hotel, dei por mim com uma necessidade imensa de escrever, com as lágrimas a quererem escorregar-me pela cara a abaixo e com uma vontade louca de ouvir as músicas que me aquecem a alma, porque só assim é que iria conseguir despir-me de tudo isto que me invadiu nos últimos dias. Adorava, a partir daquele momento, viver esta cidade, descobri-la e arquivar esta experiência e estuda-la mais tarde: mas há coisas que nos ultrapassam, que nos passam a ferro, que nos deixam sem folga para respirar. E, naquela carruagem, o que senti não era saudade, não era tristeza, não era medo: foi descompressão, foi aceitação, foi alívio e foi dor, por ter andado a remexer - ainda que de forma despropositada - em partes de mim que me doem particularmente. 

Um dia alguém me deixou aqui um comentário que me fez chorar as pedras da calçada. Não por ser um hater; pelo contrário, foi por ser alguém que, só por me ler, pareceu conhecer-me melhor do que eu própria e dizer coisas que eu não queria admitir. Um dos meus filmes preferidos é o "The perks of being a wallflower", que fala basicamente de alguém que não se integra por problemas interiores e acaba por se meter num grupo, que viria a ser o dos seus amigos, mas que aos olhos dos outros é completamente louco. Numa das frases do filme, proferida por Emma Watson, ela diz "we accept the love we think we deserve". E no fim desse segmento, eu chorei que me matei, porque isso foi como uma flecha que me atingiu no sítio certo. E doeu muito.

Digo muitas vezes que sou anti-social e muitos vêm dizer-me que não é verdade. Tudo bem, pode não ser: mas os problemas de socialização existem, de facto, em mim, e sempre foram o ponto fraco da minha vida. Sofri muito, com muita gente, e isso mantém-se até hoje. Sinto-me incapaz de confiar ou me entregar a alguém, mesmo que seja uma pessoa em que ache que deva investir. O medo de não sair de poços demasiado profundos como os que já caí fala demasiado alto e acabo sempre por perder quem gosto, de uma forma ou de outra.

Isto custa a escrever, mas já estou para o dizer há muito - e foi, aliás, aquilo que me deixaram um dia na minha caixa de comentários: sinto que não sei amar nem ser amada para além daqueles com quem já nasci. Num misto de falta de confiança em mim própria e também na confiança dos outros, acho sempre - e sempre, é sempre - que as pessoas não gostam de mim, não gostam da minha companhia ou de estar comigo. E sinto que aos 21 anos desisti de esperar outra coisa por parte delas; mas, de forma igualmente proporcional, faço o máximo para que gostem. É estranho, algo contraditório, mas que não consigo explicar na sua plenitude. E acima de tudo é triste.

Nesta semana que tive fora, esta realidade embateu contra mim como se de um camião se tratasse. O contacto com pessoas novas, as exigências, as diferentes formas de ser e, acima de tudo, a necessidade de me agarrar a alguém para não me sentir abandonada, fez-me perceber que tenho uma série de barreiras na minha vida que me causam imensa dor, mas que eu vivo com elas há tantos anos que já nem noto. Tenho pensado muito, colocado muitas das minhas teorias à prova e tantas outras coisas em perspetiva.

Esta não foi uma viagem de lazer, e por muitos mais dias que ficasse, nunca seria. E para além de ter sido de muito trabalho, muito cansaço e muitas olheiras, esta foi acima de tudo uma viagem de auto-descoberta, tão dolorosa como produtiva. Por um lado sei que foi valiosa, mas por outro só quero voltar ao ninho, e reorganizar todas estas gavetas dolorosas que abri e tornar a fecha-las a sete chaves durante tempo indeterminado. Porque este exercício, apesar de bom, cansa-me a alma.

06
Fev17

O álcool e a sua micro cultura do demónio

Penso muitas vezes em como é engraçado algumas ruas terem quase uma cultura própria. Por exemplo, na minha cidade há uma mini avenida onde se tornou hábito toda a gente estacionar em segunda fila; mal passa um carro pelo meio, mas quase ninguém reclama, porque já faz parte. Aliás, chega ao ponto de muitos já nem estacionarem nos lugares assinalados mas sim em segunda fila, porque sabem que mais cedo ou mais tarde vai ficar entalados por outros iguais a eles. E podia dar este como outros exemplos, porque isto acontece em todo o lado: há hábitos que se criam por repetição e que ficam, mesmo que saiam da norma e toda a gente veja que está errado.
Isto é a prova de que tudo tem uma cultura própria, mesmo as coisas mais insignificantes. E uma das coisas que mais me irrita na cultura portuguesa é a do álcool: porque se tu não bebes álcool, não és adulta. E eu estou a sentir isso tanto na pele, agora que preciso - e tenho - de me integrar em grupos com pessoas mais velhas... quando almoçamos em qualquer lado, o vinho é um habitué. E, para mim...: água, por favor. E a resposta é sempre um olhar julgador, a maior parte das vezes acompanhados por comentários desnecessários - porque, para umas coisas, temos de ter tento na língua, noutras não. Um dos clássicos é a do "ah, ainda és miúda, isso passa-te!".
Desculpem-me, mas fodasse! Porquê que eu estou a ser julgada e muitas vezes menosprezada por não ter um hábito que comprovadamente faz mal, engorda, nos tira capacidades e nos coloca num estado fora do natural? Porquê que não é aceite que uma pessoa "crescida" não queira tocar em álcool, independentemente das suas razões?
E sim, eu tenho-as, mas não sou obrigada a partilha-las com o mundo. Na verdade são muitas, um conjunto de racionais com emocionais, mas as pessoas esquecem-se inclusivamente que o álcool pode ser uma doença, tratada com extremo tabu, e que pode haver traumas e razões associadas que nos levam a tomar certas posições. Há uma série de coisas que nunca se perguntam, que nunca se põem em causa, principalmente em assuntos relacionados com morte, doenças, sexo, sei lá... mas em relação ao álcool, tenho sempre que frisar nos meus primeiros encontros que não bebo. "Mas prefere branco a tinto?"; "uma cervejinha então?"; "e só vai beber mesmo água?!". Lá está, são estas micro-culturas que vivem dentro de nós sem sequer darmos conta.
Porque eu não bebo álcool, independentemente do tipo ou da ocasião. Nunca bebo, não gosto de ver os outros beber - e sim, vinho inclui-se - e ponho praticamente as minhas mãos no fogo em como não vou consumir álcool até ao fim da minha vida. Até porque acho que estou a ir no sentido contrário ao normal: em vez de amenizar a minha posição em relação a este tipo de tópicos, estou a tender a piorar. Por isso, a única coisa que peço é respeito. Porque se até as ruas têm as suas próprias manhas e culturas, nós temos muito mais - e não há que buzinar só por alguém fazer diferente e gostar de estar sempre na total posse das suas capacidades.

04
Fev17

Eu e as bolas, uma relação pouco feliz

Há uns dias fui buscar os meus sobrinhos ao colégio. A Clara estava no ginásio, onde tinha tido uma aula, e eu fui busca-la à ponta oposta do salão - tive por isso que passar, ainda que bem rente à parede, por todas aquelas bolas em pleno vôo na eminência de embaterem contra mim. Sim, porque é isso que as bolas fazem e sempre fizeram durante toda a minha vida - porque se acham que a gravidade puxa tudo e todos na direção do chão, estão enganados. Tal como todas as regras, esta também têm uma excepção: quando eu estou por perto, a força gravitacional das bolas não é em direção à terra mas sim à minha pessoa o que, como devem imaginar, é um bocadinho chato.

Desde que me lembro de existir que sofro com este drama. Aliás, educação física sempre foi O real drama da minha vida - aqueles 45 minutos ou hora e meia, duas vezes por semana, assemelhavam-se ao inferno na terra. Não sei contar a quantidade de vezes que caí, que falhei, que escorreguei, que apanhei com uma bola nas trombas: mas acreditem quando vos digo que foram mesmo muitas. Lembro-me de, no primeiro dia de aulas do sétimo ano - com professores novos, turma nova, numa escola nova - me esforcei tanto para me sair bem na corrida de estafetas que comecei a avançar com o corpo gradualmente para a frente, na esperança vã de correr mais rápido, até que me espetei contra o chão. Fui literalmente de cabeça, ao ponto de ficar com um olho negro. E isto foi só no primeiro dia do sétimo ano, por isso imaginem os anos mágicos que se seguiram.

Mas enfim, já passou. Lembro-me que mal saí daquela escola pela última vez, apesar de estar triste e das saudades durarem até hoje, o meu primeiro pensamento positivo foi "nunca mais na vida vou ter educação física!". E a verdade é que saí há quatro anos do secundário e sinto que no último ano a minha vida mudou totalmente - e eu obrigatoriamente com ela. Às vezes a vida dá tantas voltas que, de tão "ourados" que ficamos, nos esquecemos dos pequenos detalhes em que tudo está igual.

Naquele dia em que fui buscar a minha sobrinha ao ginásio da escola, entrei e cheirou-me logo a borracha; ouvi aquele som familiar das sapatilhas a escorregarem pelo chão e as quedas dos saltos mais aparatosos. E, claro, ouvi e vi as bolas a embaterem contra o chão, as paredes e as tabelas. E, caraças, naqueles segundos em que todo aquele ambiente me refrescou a memória e me lembrou dos velhos tempos, percebi que por muito que cresça... vou continuar sempre a ter medo de bolas.

03
Fev17

Ser badass, um conceito

Escrevo-vos do aeroporto de Madrid, onde espero pelo meu avião. Cheguei cá ontem, naquela que foi a minha primeira viagem de trabalho, e parto daqui a umas horas para Munique. Na verdade, a viagem de trabalho inclui-se num enorme lote de coisas que nas últimas 48 horas fiz pela primeira vez: a minha primeira viagem "sem rede" (já tinha viajado sozinha, mas sempre com pessoas à espera no destino), a primeira feira profissional, o meu primeiro contacto direto com as empresas e tudo o que isso envolve. É uma sensação um bocadinho avassaladora. 

Em conjunto com alguns problemas que Janeiro me trouxe, a expectativa e o medo destes dias fazia com que o meu estômago desse cambalhotas o dia inteiro e o meu sistema nervoso andasse todo escangalhado. Não tinha medo de estar sozinha, mas sim de não corresponder às expectativas ou de fazer um bom trabalho - defraudar as esperanças que os outros depositam em mim é algo com que lido sinceramente mal. E aqui não se trata de sair da minha zona de conforto: porque isso, por estes dias e com este trabalho, já é por onde habitualmente ando; esta aventura eleva-se a todo um outro nível. Se eu estava a uns metritos da minha zona de conforto, fora dela mas sem a perder de vista, agora fui catapultada para uma zona onde nem sei o que é isso de conforto, comodismo ou relaxamento. Tudo me é estranho, tudo é um desafio, tudo é novo. Sou a mais nova que aqui anda - consigo ser mais nova que as hospedeiras que distribuem panfletos, bolas! - e isto é um mundo tão grande, com tanta gente, com tantos metros quadrados, com tantas línguas, que uma estreante como eu se sente uma verdadeira formiga.

Por saber disto é que estava estava a morrer de medo. Mas a verdade é que, como noutro par de ocasiões, há um clique que se dá em mim (acho que é o botão do "desenrasca-te, mexe-te e faz acontecer") e tudo isto se evapora e eu simplesmente faço. Como dizem os antigos, a necessidade aguça o engenho, e eu que detesto o meu portunhol já o falava quase como língua materna. E o exemplo da língua aplica-se a tudo o resto: à minha espécie de jornalismo, ao meu medo de falar com pessoas. Faço-o inevitavelmente de forma inexperiente, por isso às vezes tenho de repetir; mas faço. Dei por mim a meter conversa com as pessoas, a perguntar coisas sobre os seus negócios e a saber a história de vida daquelas empresas; a aceitar jantar com pessoas que tinha acabado de conhecer (ou, na verdade, nem sequer conhecia) e no dia seguinte tomar o pequeno-almoço com elas. E depois chegar ao fim do dia, com umas olheiras estilo panda e o corpo dorido, deitar-me na cama com o meu livro (que me devolve o cheiro a casa) e aí pensar: calma aí, que extraterrestre é que eu encarnei hoje? Quem foi esta pessoa?

Vão ser dias tão difíceis como interessantes de analisar, estes. Passo por todas as sensações em apenas 24 horas: desespero num momento em que vejo que não vou conseguir, euforia quando percebo que afinal consegui, frustração quando afinal vejo que não resultou tão bem como queria, orgulho por mesmo assim ter tentado, saudades de um abraço que me apoie quando a moral está em baixo, entusiasmo por estar sozinha e independente e poder fazer o que quiser da minha vida.

Acho que sou muito racional e organizada, principalmente a nível mental, mas este é um daqueles embates com a realidade que nos abana os alicerces. Pode parecer só uma experiência, mas há muita coisa que daqui se vai perceber. Se eu seguir o plano que delineei para mim, isto vai fazer parte da minha vida de uma forma constante. E falo de tudo: de estar sozinha, independentemente de estar ou não só; de passar a vida metida em aviões e em hotéis; e no cansaço de estar em feiras, monta-las, desmonta-las, empacota-las... e depois repetir tudo de novo (aqui já na óptica de quem expõem e não de "jornalista" e de apoio logístico a quem expõem). 

Mas, acima de tudo, sinto orgulho. Não sou capaz de me meter numa montanha russa, não gosto de parques de diversões, tenho medo de ratos, detesto filmes de terror e sou incapaz de ir fechar a portada do meu quarto se ouvir um barulhinho. No entanto, na minha primeira oportunidade de trabalho, atirei-me de cabeça mesmo sem saber no que me estava a meter - e depois percebi que era afinal uma área que nunca quis, que não gostava e que me custava fazer; depois perguntam-me se quero ir a Madrid e a Munique, sem me dizerem datas, tarefas ou expectativas - e eu torno a dizer que sim. E vou. Vim. E faço. E vou fazer acontecer. Por isso, da próxima vez que me chamarem medricas por não me meter numa daquelas diversões numa qualquer romaria, eu sorrio e aceno, pensando interiormente que já fiz coisas muito mais badass e desafiantes que tudo isso. Mesmo que antes sofra, que no momento doa e que ache que não vou conseguir. Estou cá para provar o contrário.

 

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02
Fev17

Eu sou uma #cabifylover e vocês também vão passar a ser

Há uns dias fiz aqui um post sobre como me tinha estreado na Cabify e como tinha adorado a experiência. Foi a melhor coisinha que fiz para viajar por Lisboa e não tenho dúvidas que vou utilizar isto daqui em diante, nomeadamente aqui pelo Porto, sempre que não de der jeito levar carro.

Quando escrevi o texto foi uma crítica como tantas outras que já aqui fiz, de coisas que adorei e outras que não gostei tanto. Esta correu espetacularmente, testei-a três vezes com diferentes condutores e nenhum ficou atrás do outro, por isso a prova dos nove ficou mais que tirada. Na altura até estava com uma amiga e ficamos ambas deliciadas com o serviço, a sua eficácia e simpatia dos condutores.

Nessa mesma semana fui contactada pela Cabify, que fez de mim uma #cabifylover e ofereceu aos meus seguidores um valor de 8€ na primeira viagem - para que, como eu fiz em Lisboa, possam testar o serviço à vontade e por "conta da casa". Acho que nunca vos tinha oferecido nada e fico mesmo contente por dar algo que acho que realmente tem valor e de que honestamente gostei muito!

 

Portanto, passando ao que realmente interessa: para usufruirem do voucher coloquem o código PARENTESIS na vossa aplicação cabify... e boa viagem!

 

(obrigada Cabify!)

 

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