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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

19
Jun15

Sabes que o mundo está virado do avesso quando... 1#

Desistes de um exame.

 

Calma! Não foi um ato de rebeldia da minha parte ou uma decisão louca tomada em cima do joelho. Foi, simplesmente, uma escolha estratégica - mas não deixa de ser uma escolha estranha, uma vez que gosto de despachar tudo bem rápido.

A culpa é de muitas coisas. Foi deste semestre (e principalmente do último mês) que me esgotou completamente, foi do calendário de exames atípico (normalmente temos sempre uma semana de intervalo entre o fim das aulas e o primeiro exame - coisa que este semestre não existiu; ainda para mais, a primeira semana de exames coincidiu com a semana de entrega de trabalhos que foi de um stress monumental), foi de se terem concentrado o LGP Challenge, o Nos Primavera Sound, o aniversário da minha mãe e a chegada do meu irmão e sobrinhos, tudo praticamente na mesma altura.

Para além de estar esgotada e com a capacidade de concentração semelhante à de uma ervilha, tenho vinte e sete mil coisas que me parecem mais interessantes que estudar (nem que seja tirar os caroços de frutas, ver vídeos sobre gatinhos ou perceber o que é a teoria da relatividade). Quando, efetivamente, pegava nos apontamentos, os meus olhos começavam a fechar gradualmente (o que, como podem calcular, dificultava-me um bocadito a vida).

Tinha um exame na segunda que decidi deixar automaticamente para recurso, mas ontem queria mesmo fazer o exame e tirar um notão. Mas isso ia ser um bocadinho difícil porque, embora tivesse passado os olhos por toda a matéria, não tinha sido o suficiente - aliás, com a cabeça com que estou preciso de ler as coisas dez vezes para a minha cabeça as começar a perceber. Mas, enfim, tentei. Fui para a faculdade, apresentei-me a exame (a uma cadeira que até gosto, com um dos meus professores favoritos) e, quando o papel me chega às mãos, percebi que podia passar mas ia tirar uma nota desgraçada. Sobre uma das perguntas não sabia nada (nem o autor, nem o conceito, nem nada), sobre outra sabia os conceitos envolvidos mas não sabia responder à resposta em concreto; as outras duas eram mais fáceis, responderia, mas com muitos floreados, uma vez que os meus conhecimentos eram (indubitavelmente) débeis.

Posto isto, recebi o exame, esperei cinco minutos até os ânimos acalmarem e levantei-me. Escrevi na folha "declaro que desisto do exame", assinei, e entreguei, perante o olhar admirado do professor. As minhas razões foram simples: eu não quero um 10 (que , provavelmente, conseguia), um 11 ou um 12 - quero uma nota mesmo decente, porque é uma cadeira que gosto, com matéria gira e com a qual pretendo retirar alguma coisa. E como uma nota baixa seria o máximo que eu ia tirar, acabaria sempre por ir a recurso - e, se passasse nesta época, ainda tinha que pagar por cima.

Com tudo isto na minha cabeça, com o sono, o cansaço e a vontade de ter uma boa nota... fiz aquilo que achei que não ia fazer. Desisti. O recurso calha a meio do Alive (por isso é que queria fazer este exame, em particular, na época normal), mas nada que um par de viagens não resolva. 

O caminho nem sempre é fácil mas o resultado - I feel it - vai ser bem melhor. A desistência dói no orgulho, mas depois vai saber melhor na pauta.

16
Jun15

Quem quer santini quando tem gelados caseiros?

A Santini abriu no Porto no dia em que comecei a fazer gelados em casa. Gelados esses que, por acaso, são - para mim, e sem falsas modéstias - ainda melhores do que os da Santini.

Como grande fã da La Dolce Rita que sou (já falei dela neste texto), e tendo ela lançado um livro só sobre gelados caseiros, não pude deixar de o comprar e entrar neste maravilhoso mundo dos melhores refrescos do verão. A verdade é que já há uns anos (uns cinco, talvez) tinha tentado fazer gelados, com receitas perfeitamente improvisadas, metendo simplesmente os ingredientes na sorveteira que tinha guardada a um canto. Os resultados não foram muito promissores e desisti pouco tempo depois.

Mas agora... a história é claramente outra. O primeiro sabor, foi, obviamente... chocolate! E estava de babar. O sabor era igual ao do chocolate belga da Haagen-Dazs (para mim, o melhor gelado de chocolate que existe à venda) mas a textura muito mais macia, estilo mousse gelada. Literalmente de comer e chorar por mais. Aproveitei o facto de ser a festa de anos da minha mãe para dar a provar a todos e foi mais do que aprovado por unanimidade.

E tendo em conta que, do gelado de ontem, não sobrou nada, hoje tentei outro, bem simples: coco tostado. Eu sou uma apaixonada por coco (como barras de coco, iogurte de coco, bolos de coco, chocolates de coco), mas devo admitir que este sabor não me caiu no goto (talvez por ser pouco doce). Ainda assim, para os restantes moradores da casa apreciadores também apreciadores do fruto, ficou mais do que aprovado. Já não é mau!

Amanhã tentamos morango e, já que quinta torna a haver festa, vou tentar fazer - pelo menos - mais um sabor (as receitas do gelado de baunilha e after-eight estão a deitar-me os olhinhos).

Posto isto, não há Santini para ninguém nos próximos tempos. Estes saem-me mais barato, são deliciosos e estão mesmo ali - literalmente - ao virar da esquina (ou, como quem diz, ao abrir a porta do congelador).

15
Jun15

É hora de parar

Pronto, já chega, há que pousar os pés no chão. Não há pássaro que voe intermitentemente, sem parar, e eu já sinto que fiz um voo muito grande - que me soube muito bem, que me encheu muitas baterias (a da alegria, a da confiança, mas também a do cansaço) e quero voltar à normalidade. Estou seriamente cansada e sinto que tenho de reorganizar tudo à minha volta. Incluindo eu mesma. Têm sido semanas tão preenchidas que não tenho tempo sequer para parar para pensar e arrumar as ideias, mas está na altura de deixar as asas de lado e voltar ao sítio.

O meu quarto está um desastre, a minha secretária desanimadamente insuportável; o meu quarto de banho já merecia uma arrumação geral, o meu ambiente trabalho precisa de uma limpeza séria de todos os ficheiros que lá tenho arrumado ao calhas. Tenho postais para escrever, livros para arrumar, lembranças para guardar. Tenho imenso que estudar, resumos para fazer e preparar, partes de livros para imprimir e de me concentrar seriamente para o resto da época de exames que tenho pela frente. Preciso de acabar de arrumar este quarto, de lhe dar os últimos toques e ajustes para ficar o meu quarto perfeito. Preciso - tanto - de voltar a ler e a escrever on a daily basis. Enfim. Sinto que tenho tudo para fazer e que estive a saltitar nas nuvens nestes últimas semanas.

Este verão tem muito mais para dar - tenho o meu irmão e os meus sobrinhos aqui em casa, tenho muitos concertos para ir, feiras medievais para visitar, mas... é hora de reorganizar as ideias, parar com este ritmo frenético de trabalhos em cima de trabalhos, em cima de cafés e noites mal dormidas - que me tem trazido muitos sucessos e coisas boas mas que, a longo termo, sinto que só me faz mal. Como diria a outra, preciso de alinhar os chacras. 

12
Jun15

Os melhores irmãos do mundo

Tenho dois irmãos e uma irmã. São parte de mim, do meu núcleo mais-que-duro, tal como os meus pais e imaginar a minha vida sem eles - sem cada um deles - é, no mínimo, inexplicável. Foram sempre os meus segundos pais, os meus melhores amigos, os meus melhores irmãos, os meus companheiros, os melhores a darem-me presentes e, claro, um amor em quantidade infinita.

Quem não tem irmãos não percebe, sequer, a extensão do azar que tem. É só uma das melhores coisas do mundo.

 

(E não, eu não gosto deles de forma igual. Gosto deles de forma diferente, por razões diferentes, mas numa quantidade inquestionável, imensurável e incomparável. Gestos como vir a minha casa à 1.30h da manhã e ficar aqui mais hora e meia a aturar os meus dramas, problemas e dúvidas com o javascript - quando trabalha cedo no dia seguinte - é só uma das pequenas razões para ter, neste caso e hoje em particular, o melhor irmão do mundo.)

 

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10
Jun15

Mais um desafio concluído

Ontem eu e parte da equipa do Fora da Caixa rumamos à FEUP para fazer o livestream do LGP Challenge - uma grande apresentação de trabalhos finais, por alunos de engenharia. Era algo em bom, num grande auditório, com uma banda a tocar no início, com direito a momento humorístico no final e etc.

Para não vos massar muito, basta dizer que foram seis horas em direto. Como se isso já não fosse complicado o suficiente, havia, por acréscimo, a dificuldade de não termos a mínima noção do que se passaria a seguir (entra quem? a apresentadora vai para o púlpito? vai entrar um vídeo ou são só slides? quando é que acaba o vídeo e mudámos para as câmaras?); por outro lado, havia um trabalho muito maior por parte de quem filmava, pois os alunos estavam sempre a andar de um lado para o outro, o que obrigava a um trabalho de câmaras constante (coisa que não se verificou no Fora da Caixa, porque toda a gente estava sentada).  Para melhorar o panorama, a nossa régie portátil estabeleceu-se num vão de escada - por isso o espaço para circular era mínimo e a logística complicada. 

O início foi um bocadinho caótico, principalmente para mim que tinha de gerir as palavras de seis pessoas (as três câmaras, a assistente de realização - em comunicação pelos auscultadores - e o misturador de vídeo e o professor) e estava quase a entrar em parafuso. Mas passou, começamos a habituar-nos e acho que a nossa inexperiência não foi nada óbvia. Espero ter acesso ao resultado final em breve e poder ver aquilo que, com tanto esforço, fizemos.

Foram seis horas duras - chegamos ao fim a implorar por cama. Ainda assim, foi um luxo poder repetir esta experiência, de termos elevado ainda mais o desafio inicial e de termos tido bons resultados. Estou orgulhosa de nós.

07
Jun15

Nos Primavera Sound

Ontem à noite, quando cheguei a casa, senti-me como que a voltar de férias, com aquela sensação de tristeza de que algo acabou mas com a alegria imensa de ter voltado. É estranho para mim estar tantas horas sem vir a casa, sair tão cedo e chegar tão tarde; dizer aos meus pais "até amanhã" logo a seguir ao almoço. Mas fez-se e foi muito bom. Foi mais um passo para, dentro daquilo que sou e quero ser, sair de dentro da caixa e da minha zona de conforto.

Aquilo que eu tinha de fazer era muito simples: controlar a entrada dos fotógrafos no fosso (o espaço entre o público e o palco) e os canais de TV e rádio na régie. Cada banda tem as suas restrições - umas deixam fotografar, outras não, outras deixam filmar, outras só as duas primeiras músicas, outros só os primeiros 90 segundos... e cabia-nos a nós fazer cumprir todas essas ordens. A nós e aos seguranças - o pessoal mais fixe do festival. Sempre simpáticos, sempre prontos para ajudar - a minha companhia e ajuda enquanto estive no fosso a acompanhar os concertos. Podiam ser os típicos "brutamontes" com cara de maus, mas eram super galanteadores e queridos comigo. 

Isto quer dizer que metade dos concertos que se passaram nos dois palcos principais... eu estive lá, ali ao ladinho, a fazer de polícia enquanto ouvia e via o concerto num lugar exclusivo. Gostei mesmo muito, mas os meus tímpanos e o meu corpo não concordaram. No primeiro concerto que fiz, achei que ia morrer com o impacto das colunas e que tanta vibração ia dar cabo, literalmente!, do meu coração. Mas sobrevivi. 

Serviu também para conhecer outras bandas, para mim desconhecidas, para além daquelas que queria ver. Mac DeMarco, apesar de não ser a minha onda, foi divertidíssimo; Banda do Mar (que vi na relva, sem trabalhar) transpirou boa onda; Belle and Sebastian foi super giro, com imensa interação com o público e com músicas muito bem dispostas; Foxygen, embora seja um estilo de música também fora do meu espectro, foi super divertido (embora, por momentos, tenha achado que o vocalista tivesse tomado uns ácidos antes de subir ao palco, de tão elétrico que estava - o que acabou por tornar tudo ainda mais divertido); Damien Rice, o último concerto que fiz e o que tinha mais restrições, foi muito... romântico e especial; e por fim, mas não menos importante, Antony and the Johnsons. Foi incrível. Inacreditável. Ver uma orquestra a tocar num festival já é estranho... mas ouvir tocar uma orquestra, com uma voz daquelas por detrás, e sentir que toda a gente naquele recinto se calou para ouvir... foi mágico. Achamos sempre que o barulho, os gritos e as vozes é que têm poder... mas claramente que subestimamos o silêncio. Todo o meu corpo se arrepiou naquele momento - e quase na hora e meia a seguir. As imagens que passavam por detrás eram estranhas, meias tétricas, mas completavam todo aquele cenário na perfeição. Vi muito boa gente a chorar copiosamente - e eu admito que me apeteceu fazer o mesmo. De uma forma estranha, foi o concerto que mais gostei e que, sem dúvida alguma, mais me marcou.

O ambiente do festival é todo muito cool e descontraído, o que me agradou imenso. Adorei estar sentada na relva, com a minha toalhinha amarela aos quadrados, a ver os concertos; adorei o equilíbrio das pessoas, o facto de não ter visto grandes excessos (que é como quem diz pessoas a caírem de bêbadas, em coma alcoólico ou a vomitarem pelos cantos); adorei as comidas (vou manter para mim a quantidade de pães com chouriço que comi) e da imensa escolha que tínhamos - particularmente daquelas pipocas, literalmente as melhores que comi em toda a minha vida; adorei todo o conceito de diferenciação do festival, das coroas de flores que ofereciam e de todos os detalhes tão bem pensados, em cada pormenor; e também adorei o sentimento de segurança generalizado - andei muito sozinha e foram raros os momentos em que me senti menos segura. Só me faltou mesmo uma companhia constante... mas é a vida.

Como é óbvio, também foi marcante o facto de ter, pela primeira vez, uma pulseira que diz "press" no pulso. Hoje em dia já não sei bem o que quero para o futuro (quer dizer, sei o que não quero - e jornalista está logo nos primeiros nomes da lista), mas foi algo muito especial para mim entrar numa tenda gigante dedicada à imprensa e dizerem-me "este espaço também é teu". É estranho ter acesso a um sítio destes, é estranho ir pela primeira vez na vida a um festival e estar num local "exclusivo" como o fosso. É estranho entrar no festival por uma fila diferente da do "comum dos mortais". É estranho, mas muito bom, à semelhança de muito do que se tem passado na minha vida nos últimos tempos. Tem sido uma fase muito especial e feliz para mim e estes três dias de festival enquadraram-se na perfeição neste quadro que tenho vindo a pintar. Foram diferentes. Foram Fora da Caixa.

Mas agora está na hora de voltar a casa. E aqui também estou bem.

 

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07
Jun15

Pronta para mais uma semana louca

De volta do Primavera Sound, já um bocadinho revigorada, depois de uma noite de sono. Foram três dias giros, diferentes e que acho que me vão marcar positivamente - mas sobre isso escrevo depois.

Agora tenho pela frente mais uma semana em modo non-stop - já tenho três exames esta semana e sexta-feira é o prazo de entrega de quase todos os trabalhos (alguns ainda por fazer). Entretanto, segunda e terça tenho os dias quase preenchidos na totalidade - como o Fora da Caixa correu tão bem, fomos convidados para fazer a cobertura em livestream de uma conferência que vai acontecer na FEUP, dia 9. Apesar das datas serem péssimas, não tínhamos como recusar.

Posto isto, não há tempo para sol, piscina, cafés ou amigos. A questão vai mesmo ser encontrar tempo para dormir. Mandem-me cafés virtuais, por favor!

04
Jun15

O meu verão começa aqui

Podemos só estar a 4 de Junho, posso ainda ter trinta trabalhos para entregar (e não perceber como os vou fazer a todos), posso ainda ter seis exames pela frente, mas... o meu Verão começa hoje. Pelo menos o meu espírito de Verão, aquele que eu quero que se mantenha pelos próximos meses e que quero fotografar com a minha polaroid - que, nem de propósito, deve chegar hoje!

Há umas três semanas surgiu a oportunidade de ir trabalhar para o Nos Primavera Sound (a decorrer hoje, amanhã e sábado no Parque da Cidade) para fazer assessoria de imprensa. Eu nem sabia bem que datas eram, mas aceitei a proposta sem pensar duas vezes - o que se revela perigoso, tendo em conta que o festival se situa, precisamente, no fim-de-semana com mais aperto deste segundo semestre (mas, com muito esforço, vou dar a volta por cima). Queria mesmo ter esta experiência - ir a um festival, desfruta-lo, mas também perceber como funciona - faze-lo na parte da imprensa é ainda melhor, por estar diretamente relacionado com a minha área de estudo, o que torna tudo mais interessante e aliciante!

Não aceitei por querer ir ver as bandas - no imenso cartaz que o festival tem, conheço músicas de umas três bandas (e mais um par delas que só reconheço pelo nome). De resto, nada me chama. Queria, sim, conhecer mais um festival, mais um espaço, mais pessoas e ter mais experiências para mais tarde recordar. Estou de espírito aberto e estilo esponja, para absorver tudo o que esta experiência (e outras que vou ter em breve) me possam dar. Tanto que ontem, na distribuição dos turnos, acabei por calhar na tenda de música alternativa e não me importei (fui investigar as bandas e há lá senhores que tocam música com berbequins e coisas do género - coisa muito normal - e outros que misturam folclore com electrónica - weird). Entretanto pediram-me para trocar de palco, por uma questão de horários, e eu acedi - saí portanto da música estranha e vou ficar a trabalhar nos dois palcos principais.

Na lista para ver estão a Banda do Mar, a FKA Twigs e o José Gonzaléz (que, por acaso, calham todos em hora de folga). De resto, é conhecer e desfrutar ao máximo daquele espaço incrível. Podem ir acompanhando estes três dias intensos no meu instagram (@carolinagongui ou vendo as fotos aqui ao lado)!

 

 

03
Jun15

Chávena de letras - "Homens há muitos"

 Já andava há muito tempo para ler um livro de Francisco Salgueiro. Aparentemente, a maioria dos livros dele saiu das livrarias, com excepção de dois livros que suponho serem mais conhecidos, os "O Fim da Inocência", que nunca me despertaram interesse.

Não há muito para dizer sobre esta obra. É escrita em forma de diário, do ponto de vista de um rapaz simpático, giro e solteiro há mais de dois anos - e só aqui é que está o fator de diferenciação, uma vez que este ponto de vista e narração não é muito comum, muito menos por parte de um homem. De resto, a história é tremendamente previsível - ao segundo capítulo já adivinhava o final (e não me enganei). Peca por essa previsibilidade, que o autor quer adiar até à última, mas a que não consegue fugir.
O livro é de leitura muito ligeira e devora-se facilmente; a escrita chega até a ser descontraída demais para o meu gosto. Quando cheguei ao fim, fiquei com a sensação de que podia ter escrito algo muito parecido, sem grande esforço - nota-se que não há uma cuidado enorme na escolha das palavras, que é uma escrita muito "oral".
Ainda assim, e apesar de tudo, gostei de ler. Dou muito valor à rapidez com que leio um livro - e conseguir despachar este numa semana, quando mal tempo tenho para comer uma refeição pausada, é muito bom sinal. Posso pôr-lhe vários defeitos, mas a leitura fácil, rápida e bem-disposta é uma característica que ninguém lhe pode tirar.
Um livro descontraído, bem disposto e com pitadas de bom humor em várias páginas, o que faz dele uma óptima obra para ler num par de tardes solarengas de verão. Já tenho mais um livro do autor à espera da sua vez.

02
Jun15

Pé de urso

Hope. It’s recurrent, it keeps creeping back in no matter how many times it gets ripped apart and every time the hope goes it takes chunks of you with it.

Dr. Nicole Herman, Grey's Anatomy

 

Todas as pessoas que me conhecem minimamente sabem duas coisas sobre mim: 1) eu tenho fobia de médicos e 2) tenho um pé cronicamente inchado (aka pé de urso). Nenhuma dessas duas coisas é fácil de explicar mas, com tempo, as pessoas acabam por chegar lá (pelo menos com as informações que posso dar, uma vez que ambas as situações saem fora do meu controlo).

Estas duas informações estão ligadas na medida em que tenho um pé cronicamente inchado há uns quatro anos e, depois de várias visitas a médicos de medicina interna, endocrinologistas e ortopedistas e de uma ressonância magnética e uma ecografia à parte renal, desisti de saber o que tinha e a suposta solução para o problema. Eu acho que um bocadinho de mim morre de cada vez que tenho de pôr os pés num médico - é uma coisa que ultrapassa a minha racionalidade e com a qual não vale a pena gastar muito latim. É, simplesmente, doloroso - não física, mas psicologicamente. Por ter percebido, a uma certa altura, que não havia muito mais a fazer pelo meu pé e que havia de morrer, daqui a muitos e bons anos, com o pé inchado, achei que não compensava todo o desgaste emocional de passar a vida em médicos e exames.

O diagnóstico é tão simples como complexo: tenho um linfedema. Ou seja: uma concentração de linfa (líquido que circula no sistema linfático, e que é responsável por ficar com as impurezas que circulam no nosso sangue - uma espécie de canal paralelo ao sistema circulatório que transporta as coisas menos boas) que não é distribuída pelo corpo. A gravidade encarrega-se de puxar a linfa para baixo, e há uma qualquer estrutura, que devia fazer de "escada rolante", que não me leva a linfa para cima. Este problema pode acontecer por muitas razões - quase todas elas muito difíceis de descobrir. Também por isto, é complicadíssimo arranjar uma cura, uma vez que não se sabe a razão da anomalia.

E eu já me tinha conformado. Pronto, vou ter um pé inchado para o resto da vida. Há, definitivamente, coisas piores. Mas, ao contrário de mim, toda a gente à minha volta está inconformada. Porque sou demasiado nova para ter uma sina destas, porque não fiz tudo o que tinha para fazer para despistar outras causas, porque deve haver uma cura algures, porque é uma chatice por causa dos sapatos e é sempre um filme para conseguir comprar o que quer que seja. O que não deixa de ser verdade - apenas não estou disponível para continuar com esperanças e a levar baldes de água fria por cima.

A maioria dos dias nem noto que tenho um pé deformado pelo inchaço; faz parte de mim, tal como as minhas unhas dos pés horríveis ou as minhas ancas largas. Há dias piores, claro. Aqueles em que tenho de comprar sapatos e percebo que me ficam horrivelmente; aqueles em que quero usar saltos altos e não posso porque o pé mal cabe num chinelo; aqueles em que já me sinto triste e feia e olho para o espelho e vejo que há ali mais uma coisa a piorar o panorama. Mas, na conta final, não são assim tantos como isso. A menos que me lembrem e que me chateiem com isto, é algo com que aprendi a lidar com tranquilidade.

O pior é que de cada vez que estou com alguém que me vê com menos frequência e que sabe do problema, a lenga-lenga do costume vem à baila. "Estás melhor?", "vai fazer mais exames, pode ser que até se resolva". E, de cada vez que dizem isto, para além de me chatearem com o panorama de ter de visitar mais médicos, implantam em mim uma semente de esperança que eu não quero que nasça. E lançam toda a discussão de novo: porquê que não procuras mais uma vez? Mais exames, mais alternativas?

E há dias, à custa de tudo isto, decidi fazer os malditos exames. Foi hoje o dia. Como esperava, não há nada a apontar nas minhas veias - não há entupimentos, não há nada de anormal. Já posso (finalmente) dizer que fiz os exames todos, que não há nada a fazer, que vou ficar com um pé de urso para a vida inteira. Não é algo que me agrade, mas ao menos corto o mal pela raiz. A esperança de ter melhorias faz-me mais mal do que ter um pé cronicamente inchado. 

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