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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

16
Set20

Chávena de Letras: "O Tatuador de Auchwitz"

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Um bom livro não vive só de uma boa história. Não sei se por "ter vindo" de uma obra em que a escrita era central e crucial (sendo que a história tinha na escrita o seu pulmão de oxigénio, por não "sobreviver" sozinha) ou por ter, simplesmente, um sentido crítico apurado: achei que este livro pobre no que à escrita diz respeito. Falo a todos os níveis: desde o vocabulário, passando pela fraca construção frásica e uma escrita demasiado básica (pontos finais a cada oração, falta de qualquer frase mais trabalhada), pelo parco trabalho na construção das personagens, terminando naquilo que me parecem trechos cheios de "arestas", que não viram a mão de um editor. Não sei que culpa é que a tradução poderá ter no meio disto tudo. Mas continuo a achar estranho a (tão) alta pontuação que é atribuída ao livro.

Acho ainda que o tema dos campos de concentração é abordado pela rama; não sei se sou só eu, mas apesar das atrocidades relatadas, este acaba por não ser um livro pesado. As personagens têm sempre um fundo de esperança que confere à obra uma aura mais leve do que aquilo que esperaria - o que, sendo bom por um lado, por outro acaba por lhe tirar um pouco de credibilidade (porque não há nada de light quando se fala em Auschwitz).

Não obstante, esta é uma bonita história de amor, que sem dúvida mereceu ver a luz do dia. Destaque positivo para o destaque de uma das dualidades mais duras do holocausto: colaborar com os agressores para sobreviver ou morrer com a dignidade intacta. Creio que o peso dos crimes que foram praticados pelos judeus contra judeus, principalmente dentro dos campos, é das questões que mais deve ferir um povo - já para não falar da consciência de quem os praticou.

13
Set20

Um ano de tatuagem. Arrependimento?

Fez há dias um ano que fiz a minha tatuagem. Mentiria se dissesse que foram muitas as vezes em que falei sobre ela - e foram ainda menos as ocasiões em que me fizeram alguma pergunta (em grande parte porque durante a maior parte do tempo uso relógio, fazendo com que ninguém note que tenho a pele marcada para a vida). Ainda assim, quando o assunto vem à baila, a pergunta é sempre a mesma: "doeu?". E eu acho curioso como isso não reflete aquele que foi o meu maior receio na altura, mas que por outro lado demonstra muito do estilo de vida atual: o pensamento focado no agora, sendo que o futuro a ele o pertence. A mim apoquentava-me a ideia do arrependimento, do poder mudar de ideias. Não eram os 15 minutos de dor; era o futuro, os anos que tenho pela frente, que me preocupavam.

Entretanto, desse futuro de que receava, já passou um ano. Arrependimentos: zero.

Gosto muito da minha tatuagem - e guardo dois momentos deste ano em que ela foi particularmente importante para mim. O primeiro foi em Dezembro, no dia em que fui operada à fístula criada por o quisto que tive no cóccix. Em momentos importantes sou muito de amuletos, de algo físico que me sirva de suporte e inspiração (uso normalmente peças dadas ou herdadas das minhas avós, curiosamente); no momento da entrada no bloco, por força das circunstâncias, uma pessoa vê-se despida de tudo - da roupa, dos anéis, dos adereços. Quase de si própria. A ideia que fica é que somos só um nome, associado a um diagnóstico que tem no seu foco uma cura - e que os bisturis, e todo aquele aparato de instrumentos que vemos à nossa volta, estão prontos a trabalhar sem se importarem com quem está deitado naquela cama. A solidão - e o medo, acima de tudo - que senti ali, enquanto estava sozinha (e foi por pouco tempo!), foram aterradores. E a única coisa que tinha para me agarrar, a única coisa que era minha no meio daquelas roupas e toucas e fios que estavam coladas ao meu corpo - e médicos, e luzes, e instrumentos, e aquele cheiro a éter que nos entra pelos pulmões até à alma - eram as minhas aspas. Foram elas a última coisa que vi quando me senti a desfalecer, um minuto depois de ter pedido encarecidamente para me porem a dormir e me tirarem daquele inferno. 

Uns meses mais tarde, no meio de uma crise de inspiração brutal - não só na escrita como na vida em geral, em que me sentia completamente incapaz de escrever o que quer que fosse e de completar uma tarefa com sucesso -, o meu namorado agarrou-me no braço e mostrou-me aquilo que eu tinha feito questão de desenhar na pele. E relembrou-me o porquê de a ter feito. Disse-me: "fugiste das letras, escolheste outro caminho, mas as letras não fogem de ti. Nunca". Fez-me ver que posso não escrever um dia, dois, cinco ou quinze; que de facto não o faço com a frequência que queria, mas que eventualmente ia voltar a fazê-lo - era só uma questão de tempo, porque as palavras não me fogem, só se escondem por uns tempos.

No fundo, um pouco como a minha tatuagem: anda quase sempre escondida, mas está sempre lá. Foi muito importante em momentos chave e, só por isso, já compensou o risco. Compensou o medo, a dor, o receio do futuro. Fez a diferença - e isso basta para ter valido a pena.

 

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02
Set20

Uma dona de casa e os supermercados (e, como bónus, a forma como o Pingo Doce me conseguiu fidelizar)

O meu maior sonho enquanto dona de casa moderna é existir um supermercado-em-um. Ou seja: num só sítio ter tudo aquilo que todos os supermercados têm. Porquê? Porque ir buscar todos os produtos que gosto a quatro supermercados diferentes (enquanto faço piscinas de um lado para o outro) é uma gestão díficil - dentro da própria gestão, por vezes problemática, da nossa despensa e da casa de uma forma geral.

Então é assim: gosto dos pães de leite do Continente e do facto de ter uma maior oferta em termos de iogurtes. Gosto do peixe, da carne, do presunto e da massa fresca do Mercadona. Gosto do pão do Lidl e dos iogurtes-falsos da Milbona (já para não mencionar aquele corredor de tralhas, demoníaco para a carteira). E gosto do sistema de águas do Pingo Doce, assim como as maçãs Granny Smith e o chocolate de culinária.

No entanto detesto a fruta do Continente. A massa folhada do Mercadona é terrível e também não adoro o pão - já para não falar de que não tem a maioria das marcas que consumimos no dia-a-dia. Já o Lidl não tem uma série de coisas mais específicas (Água das Pedras, muitos dos iogurtes, etc.). No Pingo Doce dispenso as filas.

Em suma: não se trata só de ir buscar os produtos que gostamos - é ter de fugir e procurar alternativas ao que não gostamos! Ainda para mais dou por mim presa a alguns produtos, que de certa forma me fidelizaram a um sítio. Falo, em particular, das águas ECO, que fazem com que eu seja obrigada a ir ao Pingo Doce com alguma regularidade - logo eu, que nunca gostei deste supermercado por ser o mais sujo e apertado de todos! Apercebi-me  depois que eles me tinham conseguido "agarrar" por umas meras garrafas de água - um golpe de marketing bem pensado da parte deles. E porquê?

Quando vim viver com o meu namorado deparei-me com a triste realidade dos garrafões de água. Em casa dos meus pais bebe-se água da torneira (que não é sequer da companhia), que foi a que sempre me soube melhor. Mas o "meu homem" não gosta de beber água da torneira - e eu tive de passar a fazer algo que nunca havia feito até então (e que, na verdade, continuo a achar um bocadinho parvo): comprar água. 

Nos primeiros tempos fiz o que toda a gente faz: comprar garrafões, usa-los e deitá-los fora. Mas por vezes dava por mim com dois garrafões de água gastos numa só semana - os dois monos parados na lavandaria, à espera para ir para o lixo, ocupando até lá quase metade do espaço útil daquela divisão. Os garrafões são monstros de plástico e nós deitamo-los fora como se fossem o invólucro de uma palhinha - e isso, apesar de eu estar longe de ser uma fanática pelas questões do meio ambiente, fazia-me confusão.

Até que dei de caras com a máquina de águas da ECO, presentes em algumas lojas Pingo Doce. O sistema é simples: da primeira vez que usamos, compramos uma garrafa (de 1,5 ou 3 litros). A partir daí, utilizando uma máquina que nos permite encher as garrafas de forma rápida e prática, pagamos apenas o valor do enchimento. Para além de reutilizarmos quase infinitamente as garrafas (que são mais pequenas e por isso melhores de transportar), a água fica mais barata: seis cêntimos por litro (enquanto que, em garrafões, pagamos dos 10 aos 30 cêntimos por litro). Ah, e um pormenor importante: a água é boa!

Por isso, apesar de agora ser agora refém do Pingo Doce, gosto de pensar que o faço por uma boa causa. Posso andar de um lado para o outro, mas ao menos não deito garrafões fora a torto e a direito.

 

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(mais informações sobre a ECO aqui)

25
Ago20

Chávena de Letras: "A Única História"

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Julian Barnes é perito em (d)escrever memórias. Mas memórias a sério, de forma fidedigna, com tudo a que têm direito. Narrar uma história no presente é muito diferente faze-lo enquanto se pensa no passado; não se trata só da precisão e dos detalhes que damos (ou não damos, quando contamos alguma coisa de memória, onde algo inevitavelmente nos falha), mas também da perspectiva que ganhamos da nossa própria história.

A nossa visão muda ao longo dos anos - uma queda no presente não tem graça, mas somos capazes de nos rir quando já tiverem passado uns anos. Da mesma forma, o mesmo desgosto amoroso não tem a mesma intensidade na altura em que o vivemos e volvidos uns anos, quando o lembramos; e o mesmo se passa com todo o processo de enamoramento com alguém. A memória tira detalhes e encantamento e normalmente acrescenta uma pitada de racionalidade.

É nisto que Julian Barnes é bom, a fazer este jogo de lembranças e seus confrontos com o presente. Mas se "O Sentido do Fim" me conquistou imediatamente e é ainda hoje um dos livros que recordo com maior carinho (apesar da história praticamente me passar ao lado), "A Única História" não teve a mesma capacidade. Embora tenha achado à partida a narrativa interessante - a ideia de relembrar o amor da nossa vida, todo o processo de enamoramento (e a forma como é visto pelos outros) e, depois, o confronto com os problemas que qualquer relação acarreta, este não me cativou por aí além e, de certeza, não me ficará na memória como a primeira obra que li do autor.

23
Ago20

Ontem um mocho piou

Nos últimos anos tenho desenvolvido uma certa aversão à expressão "empregada de limpeza". Penso que, acima de tudo, se deve ao facto de ser um trabalho muito "mal-amado" por todos, visto como uma profissão de baixo nível. Em resultado disso, muitos acham-se no direito de mal-tratar este tipo de profissionais, proporcionando-lhes condições de trabalho vergonhosas e tratando-os abaixo de cão.

Eu, pelo contrário, considero-a uma profissão tão digna como ser engenheiro ou arquiteto - e não me choca que uma empregada de limpeza receba tanto ou mais que alguém que tirou um curso destes. Tudo depende do mercado, da oferta e da procura (diria que hoje em dia há muito mais bons engenheiros do que boas empregadas e, como tal, penso que o salário deve refletir essa falta de oferta e, ainda por cima, a crescente procura) e, como em tudo, da dedicação e do amor à camisola que cada um tem no seu trabalho. Mas uma empregada (principalmente a tempo inteiro) tem ainda uma condicionante extra, importantíssima: o seu trabalho é no seio de uma família. Para mim, a partir do momento em que alguém é contratado para esse cargo, tem um passe de entrada como membro daquele núcleo e deve ser tratado como tal. A partir daí, normalmente, advém um carinho e uma amizade especiais, típico de alguém que convive connosco diariamente, que nos conhece, que cuida, que sofre com as tristezas e que festeja connosco as alegrias.

Tenho a sorte de sempre ter tido empregadas a trabalhar lá em casa (como disse, evito dizer "empregada", mas infelizmente não há grandes alternativas) - e guardo, de todas, boas memórias. Mas, acima de tudo, há uma que me ficou guardada na memória - e no coração - depois de lá ter trabalhado durante dezoito anos.

Chamava-se Joaquina. Faleceu ontem. 

A D. Joaquina ensinou-me a ler as horas, depois de me ter oferecido o meu primeiro relógio analógico, todo decorado com cãezinhos. Confiou em mim quando lhe pedi a minha "pi" (vulgo: chupeta) uma última vez, no dia do meu sexto aniversário - o mesmo em que prometi a pés juntos, aos meus pais, que deixaria esse vício. Foi ela quem me ensinou a andar de autocarro e deu comigo a primeira voltinha, dizendo-me onde entrar e onde sair. Ofereceu-me a única Barbie que guardo com carinho e a única pulseira de ouro que perdi - e ainda bem, porque é sinal de que a usei, ao contrário das outras que continuam religiosamente guardadas. 

A D. Joaquina subornava-me com amêndoas de chocolate que guardava no bolso da bata, enquanto me pedia para ir com ela passar a ferro para a lavandaria. Fazia os melhores panados do mundo - e também pataniscas. Adorava os bolos de aniversário lá de casa e farturas frias, que eu trazia de propósito para ela na altura das festas da cidade. Sabia as datas de aniversário de todos nós de cor - e era a primeira a ligar-nos, lá pelas 7:30h da manhã. Fazia contas de cabeça mais rápido do que eu as fazia na máquina de calcular, muito embora tenha passado muito pouco tempo na escola. Acreditava que que, quando um mocho cantava de dia, alguém ia morrer - e eu ainda hoje não gosto de ouvir esse pássaro piar.

Há mais de uma década que deixou de trabalhar, depois de lhe ter sido diagnosticada uma doença que não se coadunava com o trabalho árduo e diário que é cuidar de uma casa grande como a minha. Foi lá várias vezes visitar-nos - e, nos últimos anos, fui eu ter com ela, quando as suas pernas já não conseguiam vir até nós. Em quase todas as visitas trazia-me panados na carteira, para que não me esquecesse de que eram os melhores do mundo.

Numa das últimas vezes que estive com ela contei-lhe que tinha namorado ("finalmente", disse-me ela) - e não vou esquecer o seu ar de felicidade por saber que agora tinha alguém para cuidar de mim. Nos últimos tempos falava-lhe, em média, uma vez por mês; e, em cada despedida, ela mandava "um beijo para o teu Miguel" - nome que nunca esqueceu, apesar de nunca o ter conhecido. 

A D. Joaquina foi uma lutadora a vida toda - e, nos últimos anos, eu achei mesmo que ela tinha algo de imortal, tal a magnitude de tudo aquilo que conseguiu ultrapassar. Mas, no fundo, sabia que algum dia ia ceder às provações que lhe eram constantemente colocadas no caminho.

Ontem recebi a notícia ao final da tarde, depois de um almoço em que falei dela. No dia anterior tinha dito ao meu namorado que, um dia em que casássemos, queria que a D. Joaquina estivesse presente. E, algures num almoço da semana passada, sei que o seu nome também veio à baila. Não creio que seja coincidência. 

Ontem, algures, um mocho piou. E não me levou uma empregada de limpeza. Levou-me família. 

 

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20
Ago20

Chávena de Letras: "Patagónia Express"

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A classificação que dou a este livro (4 de 5 estrelas) aumentou uma estrela na última página. Gostei muito do início do livro, achei a terceira parte algo confusa (e confesso que não sei se percebi totalmente algumas metáforas e comparações que foram feitas), mas o final - a pescadinha de rabo da boca - conquistou-me totalmente. Não considero que isto sejam crónicas de viagem, mas sim um conjunto de textos que, vistos como um todo, são uma imensa declaração de amor.

É dito inicialmente pelo autor que estes eram textos guardados "na gaveta", pelo que se compreende à partida que não tenha de existir uma linha lógica entre as partes (e até entre capítulos). Isto pode, ou não, abonar a favor do livro - dependerá do leitor. Se houve partes e personagens que me conquistaram, outras ficaram aquém.

Ainda assim, gostei. Sepúlveda tem uma escrita poética, limpa e doce. Tenho pena de só ter começado a explorar a sua obra agora (tinha lido um livro do autor antes, ainda na escola, numa leitura conjunta - o que não abonou a favor do livro), tendo a certeza que a sua partida precoce é uma das grandes perdas de 2020 no campo da literatura.

19
Ago20

A antítese dos dias

Este ano não parece ser feito de meses ou de semanas, mas sim de um "antes" e "depois" de um dos maiores sustos que o mundo teve nos últimos tempos. Sem querer refiro-me a Fevereiro como se fosse "o ano passado" e sinto que fui ao Japão há dois. O tempo voou e parou, ao mesmo tempo, qual síndrome de Gato de Schrödinger.

É-me estranho agora estar parada, quando tive meses frenéticos no pico da pandemia (curiosamente, quando todos estavam fechados em casa). Já não estou habituada a ler três livros de catadupa ou a ter tanto tempo livre que já nem sei o que escrever no meu blog, tão parado que parece moribundo. Não me lembrava de acordar a outra hora que não as 7 da manhã. O meu corpo estranha comer uma bola de berlim todos os dias, em vez de estar preocupada em comer apenas uma colher de sopa de hidratos às refeições. É estranho que o tempo livre de hoje fosse há uns dias o meu horário de trabalho, e que o tempo ocupado hoje (a comer, claro) fossem antes as horas livres do dia.

Em férias o contrário impõe-se e a antítese dos dias normais é a rainha.
Mas este ano nem Agosto quer ser normal: o Algarve há uma semana acordou com nuvens e morrinha; a água do mar está fria como no norte - e, como se isso não bastasse, também o vento se assemelha aquela nortada que levanta pazadas de areia ao mínimo esforço.

2020 foi, é, tão estranho que até estranho estar de férias, embora tenha sentido que precisava delas como de pão para a boca. Perdão: de como bola de berlim para a boca. Porque quando as férias acabarem volta a dieta e, aí sim, a normalidade. Talvez, nessa altura, estranhe o normal e queira tudo ao contrário outra vez.

 

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14
Ago20

A lealdade, a traição e os direitos entraram numa loja (ou, neste caso, saíram da SIC e entraram na TVI)

Há um mês estava no Algarve e caiu uma bomba na sociedade portuguesa: Cristina Ferreira saía da SIC para a TVI. Na altura isso levantou-me um debate interior, na verdade já recorrente, sobre o qual decidi escrever. Até hoje. Entretanto já voltei ao trabalho e já voltei de férias - estando outra vez no Algarve, pelo que me parece a altura ideal para fechar o ciclo e publicar este texto (que nunca viu a luz do dia, de tanto lhe mexer e remexer, acrescentar e tirar - mas é desta, vamos tentar).

A lealdade no trabalho é um dos temas que domina muitas das minhas conversas no dia-a-dia: à mesa do almoço, em reuniões de trabalho, com amigos ou simplesmente conhecidos. Acima de tudo porque me divide enquanto pessoa e enquanto empresária - e eu sinto-me, ao mesmo tempo, advogada do diabo e advogada da paz. O tópico voltou a estar em cima da mesa naquele fim-de-semana em que uma bomba caiu em cima deste país, depois de há dois anos termos sido assolados por outro tremor de terra: Cristina Ferreira, até aqui desertora da TVI, voltou à casa-mãe. E eu voltei às minhas discussões interiores.

Eu percebo que cada um de nós tem o direito de ambicionar algo melhor ou diferente, independentemente do sítio onde trabalha ou até daquilo que receba - basta ter leves noções de recursos humanos para perceber que não é só o dinheiro que cai ao final do mês que conta. No entanto, como em tudo, acho que os direitos devem ser usados com conta, peso e medida, nunca olhando exclusivamente para o nosso umbigo. Há uma relação de interdependência entre a empresa e os seus trabalhadores: sem funcionários não haveria empresa, mas sem empresa também não haveria necessidade de dar emprego a ninguém. Será, penso que eternamente, uma das relações mais difíceis de gerir. 

Com esta facilidade de acesso a novas oportunidades - para além de uma lista prolongada de tantas outras vantagens dos tempos modernos, entre as quais a facilidade de locomoção e o contacto constante com quem está longe apenas utilizando um telemóvel - a ideia de um trabalho para a vida foi-se desvanecendo. Mas, em muitos casos, não houve um meio termo: passou-se de ter, em 40 anos de trabalho, apenas um emprego, para algumas pessoas terem 20. São aqueles que apelido de "salta-pocinhas" - os que passam a vida a saltar de posição e de empresa, ora porque ambicionam mais, ora porque não gostam do local onde estão naquele momento. E esses, confesso, fazem-me confusão.

Primeiro porque, do ponto de vista pessoal, não me revejo neste papel: detesto grandes mudanças de rotinas e é-me difícil imaginar que, a cada ano, tenha de me adaptar a um novo local, a um novo trabalho, a novos colegas, novas chefias, etc. Por outro lado, do ponto de vista da empresa, esta instabilidade tem de ser dura de gerir, até porque apesar de uma pessoa poder estar qualificada para um determinado emprego, existe sempre uma aprendizagem específica que tem de ser feita para aquele posto - algo que pode demorar uma semana ou meio ano, dependendo daquilo que estamos a falar (para além do poder de adaptação das pessoas em causa).

Mas é do ponto de vista de empresária têxtil que este tópico mexe comigo. Quando preciso de contratar alguém, não é como ir buscar um enfermeiro ou um jornalista ao mercado de trabalho. Primeiro porque não há formação na área - somos obrigados, internamente, a formar uma pessoa do princípio ao fim; e depois porque, devido ao nível de especialização, não é um trabalho em que exista em "modo default". Um jornalista, independentemente do sítio onde trabalhe, sabe que há questões que vai ter de fazer sempre, que vai ter de escrever, que vai ter de ligar e ouvir as partes; um enfermeiro, quer trabalhe em geriatria, ortopedia ou pediatria, tem de saber dar injeções, limpar um paciente e fazer pensos. Aqui não - mesmo pessoas que trabalharam uma vida no ramo podem não saber trabalhar específicamente com determinadas máquinas: e essa técnica leva anos a aprender. Isso revela-se um investimento de tempo, de dinheiro e de confiança gigante por parte da empresa (quando, nos outros casos, é um investimento da própria pessoa, que paga para tirar um curso na faculdade, por exemplo). E cai-me muito mal se essa pessoa, em que eu investi, saia da minha empresa para ir para outra (ou, pelo menos, que o faça de ânimo leve, sem razões que o justifiquem).

No caso da Cristina Ferreira, a verdade é que há muitos cursos de comunicação e qualquer pessoa poderá ser, à partida, apresentador de televisão. Mas ela distinguiu-se de tal forma que, aparentemente, a sua presença numa estação televisiva dita as vitórias e as derrotas do canal. É diferente, pois não se trata só de conhecimentos, mas também de popularidade. Mas, para mim, todas as pessoas que trabalham comigo (ou que façam o mesmo noutros sítios) são autênticas Cristinas Ferreiras - porque agregam um conhecimento e uma importância vital na estrutura onde estão inseridas. Este tipo de profissões são hoje tão raras, tão específicas, tão especiais... que uma só pessoa faz a diferença.

Num mundo idílico, isto vai contra todos os bons princípios de gestão de recursos humanos. Não é suposto haver insubstítuiveis; é sempre preciso estar preparado para a saída de alguém, tendo já dentro da empresa alguém qualificado para o efeito. Infelizmente, só no papel é que isso é possível. E eu imagino o abanão que é termos de nos adaptar, de um dia para o outro, à saída de alguém que parece ter uma importância equivalente a um orgão vital no seio da nossa empresa. Percebo bem, por isso, o azedume demonstrado pela SIC nos dias seguintes à saída da apresentadora.

Por outro lado, eu própria já me despedi quando senti que já não estava feliz num posto de trabalho e senti que tinha todo o direito a fazê-lo (porque todos temos). A maneira como o fazemos é que dita muitas vezes a forma como saímos  - e, mais, diz muito sobre aquilo que somos! No meu caso fiz o que ditava a minha consciência: avisei com antecedência, de forma a termos tempo de arranjar substitutos e a ser eu própria a forma-los. (Como se tem vindo a ver nos últimos anos, a televisão e as despedidas não se coadunam, pelo que raramente se viu uma cessação de contrato que não acompanhe uma saída imediata). Mas nem sempre é assim. E é nessas situações que a "traição" e o "oportunismo" entram em linha de conta. O que faz de alguém um traidor? E que diferença faz para um indivíduo que tenha, simplesmente, os seus objetivos bem definidos? Diria que é a forma como ambas as partes conduzem o processo... Assim como o contexto. E o timing.

Cristina Ferreira foi com popa e circunstância para a SIC e anunciava-se feliz como nunca com o programa que, dizia, fora sempre o seu sonho. E, do dia para a noite, trocou tudo isso pela casa que, ainda há tempos, não lhe dava oportunidades suficientes. Lá está:o contexto. Para mim não tem nada a ver com o facto de ser mulher (como tanto se falou) - tem a ver com a coerência das atitudes, ainda que no mundo da televisão nada seja aquilo que parece ser. E se é verdade que Cristina Ferreira tem o direito de fazer aquilo que quer da sua vida - e seguir os seus sonhos, os seus instintos e fazer valer os seus direitos -, o público também tem o direito de tentar ler e perceber as suas ações. No fim, independentemente do mote e dos objetivos que conduziram a este terramoto, e muito para além daquilo que ela foi apelidada, há algumas coisas que ficam claras: Cristina Ferreira é talvez a pessoa com mais impacto desde sempre na televisão portuguesa, é uma das mulheres com mais garra e capacidade de trabalho que o público que já viu, mas não tem na lealdade o seu forte. Como todos, tem os seus defeitos e qualidades; e como todos os que gerem empresas e pessoas, têm simplesmente de aprender a lidar com isso.

26
Jul20

Chávena de Letras: "Manual de sobrevivência de um escritor"

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Nunca li nada de João Tordo para além deste seu manual de escrita, se assim podemos chamar. Mas mal o vi nas prateleiras virtuais de uma livraria online não resisti em comprar; sou sempre atraída por obras que explorem este ofício, independentemente de o analisarem de um ponto de vista mais técnico ou mais poético e romântico (como é o caso deste).

Apesar de ter sido uma leitura bastante agradável, devo confessar que o rolar das páginas não abonou a favor do livro: achei o início delicioso (a dissertação sobre o que é ser escritor e a forma como ele olha o mundo à sua volta), mas a parte do fim acabou por me soar um bocadinho... vá, presunçosa. Acho que a o meu desagrado começou algures quando o autor escreveu que "A menos que tenhas a sorte de escrever um bestseller à primeira, e vender centenas de milhares de exemplares (o que, habitualmente, significa que escreveste um livro mauzito) (...)" e continuou com aquilo que considera serem os "escritores literários" que, para além de serem aqueles que se dedicam a 100% a esta arte (não tendo mais nenhuma profissão), se depreende que se distinguem dos autores "pimba" (esta comparação com a música é a melhor forma que me ocorre de descrever este tipo de escritores - pelo menos vistos deste prisma -, que não se pautam por uma escrita super eclética, rica e que narram histórias mais corriqueiras). Eu percebo a distinção, mas acho-a preconceituosa. Não acho que se possa comparar Mário Vargas Llosa com Nicholas Sparks - mas, para mim, são ambos escritores: sentam-se, escrevem, corrigem, reescrevem, publicam, publicitam. Também não ouso comparar o Rui Veloso com o Quim Barreiros: mas ambos são, indubitavelmente, cantores, compositores e homens do mundo do espetáculo. São estilos diferentes - mas não tem de haver necessariamente um demérito de nenhum deles derivado ao estilo que preferem. A nossa tendência é, obviamente, juntarmo-nos ao grupo daqueles que consideramos ser os melhores. O autor cita muitos outros "escritores literários" ao longo da obra (o que enriquece imenso o livro) e ambiciona, claramente, fazer parte desse grupo. O que não é mau - mas pode deixar um rasgo de presunção que nem sempre conquista a simpatia de quem lê.

A visão purista da escrita também me dá alguma comichão; João Tordo dá-nos a entender que o escritor é quase refém do seu próprio ofício, que é a escrita que lhe comanda a vida e não o contrário - e que só assim será bem sucedido. Não sei se a visão é partilhada pelos seus colegas de trabalho (já li alguns, mas não muitos, manuais deste género), mas não me consigo identificar com ela. A verdade é que a minha opinião vale o que vale: apesar de sonhar publicar livros, nunca esteve nos meus planos fazer da escrita a minha fonte de rendimentos exclusiva - e, até agora, não publiquei nada, não me podendo considerar uma escritora, embora tenha escrito muitos milhares de palavras ao longo destes anos (mas guardo com carinho algo que Tordo escreve quase no fim da obra: "Faz a ti próprio esta pergunta à maneira de Rilke: Preciso de escrever? E, caso a resposta seja positiva e sincera, então podes chamar a ti próprio «escritor», mesmo que nada tenhas publicado.")

Tirando estes dois pontos, achei muito interessante o enfoque de alguns aspetos pessoais que os autores nem sempre mencionam neste tipo de obras: a dificuldade que é viver da escrita (e as cedências que temos de fazer para viver dela), a relação com a crítica e a maneira de retirarmos o melhor dela e, uma coisa que gostei em particular, a ligação normalmente próxima que os escritores têm com drogas e álcool, que embora a curto prazo possam parecer trazer inspiração, a longo prazo só trazem desgraça. A escrita é leve e rica em exemplos, muitos deles retirados dos livros e da experiência do próprio autor (algo que neste tipo de livros nem sempre é fácil, baseando-se tudo em citações de outros e ideias bonitas mas pouco concretas).

O facto de ser escrito por um autor português é um ponto positivo - e vai direitinho para a prateleira ao lado do "Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão", do Mário de Carvalho, que considero que vai muito na onda deste livro do João Tordo. É um livro para se ir pegando de vez em quando - talvez no dia em que me decida a escrever um livro de fio a pavio, talvez numa altura em que duvide de mim própria e destas minhas ambições literárias ou simplesmente numa altura em que me apeteça reler algumas das passagens que mais me inspiraram.

24
Jul20

A capa da Women's Health: inspiração ou frustração?

Nas últimas semanas meio mundo ficou de queixo caído com a transformação da "youtuber do momento". Helena Coelho passou de uma rapariga perfeitamente normal a uma mulher mega fit e capa de revista, com um tanquinho à maneira e um rabo de fazer inveja às inimigas. 

Nunca fui sua seguidora mas, no meio de tanto burburinho, tive de ir espreitar a Women's Health. No meio da pesquisa vi alguns dos seus insta stories onde contava tudo sobre o seu processo de transformação, dizendo que foi duríssimo, que teve de se aguentar imenso para não comer o que os outros comiam e que não era nada fácil resistir a certas tentações. Mas que, naquele momento, se sentia a mulher mais feliz do mundo.

Devo, desde já, dizer o seguinte: o corpo "inicial" da Helena Coelho (ou, talvez, o correspondente à segunda foto que conseguem ver abaixo) era o corpo que eu desejaria para mim. Não acho as mulheres muito musculadas particularmente bonitas. Gosto, sim, de ver um corpo tonificado, sem nada a abanar. São gostos, não se discutem, mas é um disclaimer importante tendo em conta o que vou dizer aqui para a frente.

Faz-me impressão que numa altura em que tanto se fala na normalização e aceitação do corpo da mulher, aquela seja a imagem do corpo perfeito. Aliás, o pior para mim é que o antes (aquele que eu considero mais bonito, com formas) seja considerado "o mau". Como é que depois podem vir para as redes sociais dizer que todos os corpos são lindos, que "para ter um corpo de praia basta ter um corpo", quando depois se apresentam assim? É lógico que 98% das mulheres se sente frustrada, compreendendo imediatamente que não tem um corpo à altura.

Uma coisa eu não nego: a Helena é uma inspiração, um exemplo de força e de superação. Tinha um objetivo - com o qual eu posso ou não concordar, gostar ou não gostar - e conseguiu atingi-lo. É de louvar! Mas faz-me confusão que só se tenha em conta o resultado e não o percurso; acredito que ao olhar para aquela primeira página nas bancas de todo o país, o dia de lançamento tenha de facto sido um dos mais felizes de sempre. Mas penso que este tipo de comportamentos têm de ser vistos a longo prazo: aquele estilo de corpo só se mantêm com uma alimentação sempre regrada, com a prática de exercício diária e planeada. Senão, ao fim de um mês, desaparecer e não passa daquilo: um momento, uma fotografia bem tirada com as sombras nos sítios certos. Se ela fala no período de mudança como algo duro, em que não pôde comer aquilo que lhe apetecia e em que tinha de treinar em dias em que essa não era a sua vontade... o impacto que isso teve, nesses dias, não conta? Só conta o resultado final?

Do meu ponto de vista, as pessoas que conseguem manter este tipo de corpo durante longos períodos de tempo são aqueles que são realmente felizes a fazer desporto, que o fazem até por necessidade (dizem que o "corpo pede"), porque foram habituados assim desde cedo. De resto, para a maioria, este tipo de vida é um sacrifício. Se assim naõ fosse não havia tantas pessoas gordinhas; não havia tantas desistências nos ginásios. Fazer exercício depois de um dia de trabalho particularmente mau é difícil. Comer uma salada quando os outros estão a comer pizza é difícil. E é assim para, sei lá, 98% das pessoas! Os outros 2% são de facto tão poucos que eu, assim de repente, só me lembro da Carolina Patrocínio. De todos os outros - desde famosos a conhecidos meus, que já atingiram objetivos do género -, recordo-me sempre de os ouvir dizer (e mesmo de ver com os meus próprios olhos) que aqueles corpos não passam de momentos (sessões fotográficas, provas, etc.), resultantes de um esforço particularmente intenso e que não é normalmente prazeroso. 

O que quero dizer é que uma capa daquelas faz a maioria das pessoas sonhar. Diz a Helena que o objetivo é fazer as pessoas acreditarem que conseguem. E é verdade que sim. Mas a que custo? Será que o custo-benefício vale a pena? Rotular aquilo como "o bom" e "o bonito" só vai fazer com que as pessoas que não conseguem lá chegar - e todos sabemos que são a esmagadora maioria - se vão sentir frustradas e, provavelmente, relacionar-se ainda pior com o próprio corpo. E é assim que uma capa que devia ser uma inspiração se transforma em mais uma forma de sentirmos que nos esfregam na cara aquilo que nós próprios não conseguimos.

 

Antes-Depois_1.jpg

(retirado do instagram da Helena Coelho)

Capa-WH_28_NOVA_FINAL-ok.jpg

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