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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

27
Jun22

Uma história com princípio, meio e sim: um ano depois

Hoje é dia de bodas de papel!

Um ano. 365 dias. Casei há um ano e tudo parece ainda tão fresco... Sinto que foi ontem, mas que se passaram um trilião de coisas pelo meio - coisas que, claro, nunca caberiam num espaço de vinte e quatro horas. Mas lá que parece, parece!

Este foi um tema muito batido no blog até ao final do ano passado - e penso que bastante maçador para alguns (desculpem!) -, ultrapassando qualquer recorde no que diz respeito às séries de textos já existentes aqui no blog (mesmo os das viagens). A rubrica "Uma história com princípio, meio e sim!" tem o equivalente a um pequeno livro de 45 páginas A4 - é muita letra sobre um só casamento, eu sei...

Tudo isto seria relativizado se os textos se tivessem diluído ao longo do tempo, mas a verdade é que eu agora pouco tenho escrito, pelo que basta recuar meia-dúzia de posts para se ter rápido acesso a tudo escrevi sobre este tema. Sei que este é mais um para o monte - mas sinto que é importante para mim fazê-lo. Passou um ano, caramba! Como é que estou, em comparação com há um ano? Quero refletir sobre esse contraste, do sítio onde me encontro agora versus o de onde estava (e não me refiro fisicamente); quero perceber a evolução da minha visão de um acontecimento que foi tão colossal e avassalador na minha vida; quero comparar o tamanho das feridas; quero olhar para trás e ver as diferenças - e, se calhar, o que tinha mudado no caminho para aquele dia.

Neste momento consigo comparar aquilo que sinto em relação ao bolo total do casamento (o dia e os seis meses de preparação) com a leitura de um livro já longínqua: fica a ideia geral - se gostei ou não da obra, dos sentimentos com que fiquei e as emoções por que passei enquanto folheava o livro, assim como uma visão muito genérica da história; mas os detalhes desvaneceram-se. Tenho um grande suporte com tudo o que escrevi aqui - coisas mais práticas sobre a organização de um casamento, que quis eternizar porque sei que a memória não dá para tudo -, mas os detalhes e meandros da história, tudo aquilo que foi central neste iceberg em que bati mas que só revelei a pontinha, foi desaparecendo - e ficam "apenas" os sentimentos de seis meses muito difíceis de gerir internamente, para além de uma série de temas-chave que ainda hoje me moem.

Tenho muito a tendência de rever mentalmente acontecimentos - não fosse eu uma overthinker clássica! -, de perceber o que podia ter feito diferente, de re-encenar discussões e chegar à conclusão de que devia ter dito isto e não aquilo. O casamento não é exceção - mas sei, neste caso em específico, que fiz o melhor que sabia e podia, tendo em conta as circunstâncias.

Ainda assim, por vezes, deixo-me cair nesta tentação de pensamentos com possibilidades infinítas e dou por mim a pensar: "fogo, se era para sofrer assim, mais valia ter partido a loiça toda e ter feito as coisas exatamente como queria! Que se lixassem os tradicionalistas - levava o Miguel comigo para decidir o vestido de noiva e ponto final. Se não queria a pessoa Y no casamento, não era convidado e ponto final. Se não queria fazer a primeira dança, não tinha sequer de dar explicações - e ponto final!". Mas no fundo sei que o "ponto final" é sempre mais um ponto na história - ou, se o quisermos ver de forma mais dramática, mais um prego num caixão que estava a ganhar forma caso eu não tivesse posto pés ao caminho. O sofrimento não tem uma escala: mas acho que podemos concordar que ele funciona como a Lei de Murphy - pode sempre piorar. E pioraria. Porque eu estava no limite do meu esforço: lutei as batalhas que consegui, venci algumas, mas sinto que perdi outras tantas. E essa mágoa, por se tratar do meu casamento (com aquilo que deviam ser as minhas decisões, as minhas vontades e as minhas expectativas), está ainda longe de ser ultrapassada. Tenho ainda um longo caminho pela frente, onde o principal fator é o tempo. Porque na verdade, ainda que hoje o meu pensamento predominante seja "já passou um ano", a minha cabeça sabe que na verdade deveria dizer: "calma, ainda só passou um ano...".

E enquanto o tempo passa - e, lentamente, cura... -, a vida acontece. E entre dias bons e maus, vem ao de cima a certeza daquilo que realmente importa: a de que tomei a decisão certa, independentemente de quaisquer pedras ou pedregulhos que me tenham atravessado o caminho. Que o Miguel foi a melhor prenda que a vida me deu, o acaso mais feliz que me aconteceu e a melhor escolha que eu podia ter feito. E que o correto era dar aquele passo, supostamente tão normal e inocente, mas que na verdade encapsula todo um conjunto de memórias, mágoas e dores que, hoje percebo, são normais em muitos casos - só não são é conhecidas nem expectáveis, uma vez que o mau tem sempre tendência para ser escondido e atirado para debaixo do tapete, ficando só as fotos com os sorrisos por cima da prateleira para toda a gente ver.

Eu optei por não esconder nada - até porque tornar-me visível foi uma parte muito importante para apaziguar a minha alma. E hoje, um ano depois, sinto muita coisa: mas, acima de tudo, muita felicidade por ter casado com o homem da minha vida. Sei, todos os dias, que fiz a escolha certa - e casar-me-ia de novo com ele, mesmo sabendo tudo o que sei hoje.

Há uns dias, ao passar numa montra de vestidos de noiva, demos por nós a comentar e a partilhar precisamente o mesmo pensamento, que a olho nu pode parecer um tanto ao quanto paradoxal mas que para nós faz todo o sentido: que o casamento é um dia bonito de viver e que voltaríamos a fazê-lo, um pelo outro; mas não o quereríamos reviver. A parte boa é agora, que já passou e virou memória. Porque o dia é uma experiência gira, mas o que vem a seguir é muito melhor. E nós ainda só vamos no início. 

 

26
Abr22

Algumas considerações sobre estes dois meses em que não escrevi

1. Na verdade, escrevi, mas ainda não publiquei: tenho o post sobre as Maldivas a marinar há semanas, mas há uma inércia qualquer que me impede de o terminar. Vou tentar dar a volta à questão o mais rápido que conseguir.

2. Apanhei Covid, na altura em que já não está na moda ter Covid - foi o meu marido que trouxe o bicho para casa (por isso, apesar de ter apanhado, sinto que estou isenta de culpas) mas passamos os dois muito bem. Na verdade, sinto que estava a precisar daquela pausa para parar com uma rotina que me estava a desgastar há uns longos meses. Foi bom para pôr a casa em ordem, fazer arrumações a fundo que iam sendo adiadas ad eternum e descansar. 

3. Foi também óptimo para cumprir escrupulosamente com a dieta, que comecei seriamente no início de Março. O Miguel alinhou comigo neste regime e tem sido muito mais fácil fazer isto com um parceiro do que a solo: primeiro porque as refeições estão sempre alinhadas e eu não tenho de resistir ao vê-lo comer batatas fritas ou coisas do género; segundo porque temos sempre uma vozinha que nos ajuda a não desistir, mesmo nos dias em que a tentação de pecar é muita; e terceiro porque quase entramos em espírito de competição, ao estilo "quem consegue chegar aos 60kg em primeiro". Do meu lado, tendo em conta o peso que atingi no final do ano passado, já consegui dizer adeus a cinco quilos. Para além da dieta, tenho feito exercício cinco vezes por semana, em média (o que, tendo em conta que estamos a falar de mim, é uma completa LOUCURA!). E não parei durante o Covid! Foi sempre a pedalar - o que resultou, provavelmente, na melhor semana de sempre na nossa dieta, apesar de estarmos fechados em casa.

4. Fiz 27 anos, o que me faz estar tão perto dos 30 como dos 25. Estou um bocadinho assustada.

5. Voltei a ler. Estou tão, tão, tão contente com isto! Li três livros nos últimos dois meses - um mais técnico, um romance e um de banda desenhada (o primeiro de toda a minha vida) - e agora só quero que isto pegue para conseguir voltar a agarrar este hábito. Mais tarde coloco aqui as minhas reviews e falarei de uma das táticas que me fez voltar a ler. Oxalá conseguisse alguma para voltar a escrever com regularidade...

6. Apareci na televisão, numa reportagem sobre a minha fábrica, cujo resultado final gostei mesmo muito! Se tiverem curiosidade em conhecer um pouco do processo de tecelagem e do local onde trabalho, podem ver o programa aqui. A reportagem começa no minuto 1 e tem uma segunda parte, que surge por volta dos 11:45min. 

7. Dois anos depois, voltei a tocar piano num recital. Foi tudo muito bonito até ao momento em que me sentei no piano de cauda do estúdio, para tocar o Canon in D do Pachabel; mas quando me deparo com o teclado, os meus dedos fizeram um bailado nunca antes visto. Tendo em conta tudo isto, e sabendo que o difícil naquela situação era acertar nas teclas, a coisa até nem correu muito mal - mas, na verdade, podia ter saído muito melhor. Toco muito menos do que tocava antes e perdi o hábito de atuar em público. Mais uma coisa a trabalhar nos tempos vindouros... Ate lá, vou ver se gravo uma versão decente e sem nervos para partilhar.

8. Já tenho férias marcadas - whowooooo! Foi uma decisão que demorou a ser tomada, mas já está - agora não dá para "des-decidir". Por muito que goste do nosso país, sinto uma "fome" enorme de mundo e quero muito colmatar estes dois anos de privação e aproveitar estes tempos com o Miguel. Mais uma vez a escolha recaiu sobre um cruzeiro que passará por Itália, Grécia e Malta. Nunca fui à Grécia, por isso será o "check" deste ano.

9. E custe o que custar, venha o que vier, eu sei que terei de voltar a escrever. Há dias, aquando da marcação do cruzeiro, tive uma dúvida sobre um dos sítios onde parámos numa das viagens anteriores e voltei atrás nos meus posts. E estava tudo lá, com detalhe e precisão, de tal forma que quase me permite viajar de novo, ainda que sentada no meu lugar. E nesse momento pensei, e soube, que tenho mesmo de continuar a fazer isto: não só roteiros e crónicas de viagem, mas escrever de uma forma geral. Tenho saudades - mas elas não compram horas extra no meu dia, não arrumam a casa nem fazem a sopa. Passaram-se três anos de namoro e ainda não consegui reorganizar a minha vida com todas as "novas" rotinas e hábitos - mas ainda não perdi a esperança. Tenho saudades - e, no fundo, espero que também tenham saudades minhas.

 

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08
Fev22

Uma arca congeladora, o luxo de uma dona de casa prevenida

Cresci numa casa enorme, com quintal e animais, e nunca pensei que de lá ia sair. O que veio a seguir toda a gente sabe, é a lenga-lenga mais falada neste blog: a vida trocou-me as voltas e o avesso da vida acabou por se revelar o certo, mas a verdade é que a adaptação nem sempre foi fácil. Mas uma coisa correu muito melhor do que eu esperava: a mudança de uma moradia para um apartamento. Achei que me ia sentir claustrofóbica num espaço tão pequeno comparado ao meu habitual, mas a verdade é que a minha casa, mesmo antes de ser minha, revelou-se sempre um lugar de enorme conforto. 

A arrumação e organização foi o meu maior desafio - mas a otimização de espaços é algo que até me dá algum gozo (tanto que já estive várias vezes tentada a escrever sobre isso aqui, partilhando alguns hacks e tralhas que compro e que vão ajudando no processo), pelo que sempre consegui agilizar as coisas de alguma forma. No limite, ponho numa caixa e levo para casa dos meus pais, onde o que não falta é espaço.

Mas a verdade é que por muito que agilizemos, por muito que queiramos, por muito que sejamos a Marie Kondo portuguesa... não há como alargar espaços pequenos. Há limites para o que cabe dentro das coisas. E sabem o que é seriamente pequeno em minha casa? A arca congeladora. 

Vinda de uma casa como a dos meus pais, quase uma pequena quinta que "produz" muita da comida que consome, nunca antes isto havia sido um problema. Com umas cinco arcas congeladoras, há espaço suficiente para os coelhos e para os frangos, para os tomates e as courgetes, para as ervilhas e para os pimentos. Nada comparado com as minhas duas singelas gavetas, que dão para pouco mais de meia dúzia de refeições.

Ora, eu sou toda virada para a otimização, não só de espaço mas também de viagens, idas ao supermercados e mercearias. Sei que, na verdade, não sou assim tão bem sucedida, porque passo a vida a saltar de supermercado em supermercado em busca dos meus produtos favoritos; ainda assim, tento ao máximo ampliar o espaçamento das minhas visitas à mesma loja. E, para isso, é essencial planear e armazenar. Sempre gostei de planear as refeições semanalmente e de ter tudo pensado com antecedência, mas a pandemia veio agravar este meu traço, tendo em conta que hoje em dia todos estamos em risco eminente de um isolamento (o que, até agora, ainda não aconteceu connosco, whowoooo!). A questão é: onde armazenar? 

A minha luta com a arca durante estes dois anos foi estoica e dura. Gosto sempre de ter de tudo um pouco em casa - desde carne a vegetais (corto tudo depois de vir da feira e congelo, para ser mais rápido fazer sopa durante os dias da semana), passando por algum peixe, pão e uns gelados - mas às vezes o tetris era demasiado exigente e alguma coisa acabava mesmo por ficar de fora, ao ponto de ter de levar alguma comida para casa da minha mãe. 

Mas esses tempos acabaram. Finnito!!! Cedemos à pressão da falta de espaço e ao tetris constante e compramos uma pequena arca para pôr na cozinha; são mais três gavetas vindas diretamente do paraíso dos congelados para minha casa, que agora me permitem ceder a pequenos luxos (uns crepezitos, talvez?) e a não ter de proceder a quinze minutos de encaixa-aqui, desencaixa-ali para conseguir chegar a algum tipo de alimento.

Ah... a liberdade! O luxo! O espaço! A capacidade de planeamento durante uma semana, sem precisar de ir ao supermercado pelo meio! Que pequena maravilha. Ser adulta tem destas coisas, não é? Quem diria que um dia havia de ficar tão feliz com uma arca congeladora. 

 

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02
Fev22

Uma carta ao.... #6 Mercadona

Querido Mercadona,

Sou assumidamente tua fã. (Será que já inventaram alguma alcunha para os vossos fãs? Mercadonnas, para agarrar a clientela italiana? Merca-ladies, a piscar o olho aos anglo-saxónicos? Merca-dónas, para atrair as donas de casa portuguesas? Tudo um bocado preconceituoso, mas serviria o propósito. Se calhar vou pesquisar naquele grupo do "Feedback Sincero - Produtos Mercadona" que há no facebook - de certeza que já se auto-apelidaram de alguma coisa.)

Enfim, divaguei, desculpa. Na verdade é mais ao menos como faço contigo: entro na loja e em vez de ir direta ao pão ou ao presunto, vou dando umas voltas para ver o que encontro de novo. E isso tem-me trazido consequências. Graves. Gravíssimas. Não porque o resultado tenha sido mau... é só pessimamente bom.

Porque é assim: já todos sabemos que os produtos do Bosque Verde cheiram muito bem, que as vianinhas estão fresquinhas e no ponto, que a carne sai sempre bem, que a tua peixaria é o mais próximo que um supermercado tem de uma lota, que os mirtilos são dos melhores que se encontra no mercado, que os pãezinhos com alho são um mimo, que os iogurtes de proteína têm uma excelente relação qualidade-preço, que as pizzas são muito boas, assim como os morangos, os gelados, as castanhas congeladas, o pão ralado e, claro, o presunto que é de bradar aos céus de tão delicioso. Mas é assim... há uma linha que separa. Que separa o bom do diabolicamente bom; o desejável do irresistível; a capacidade de escolha e o vício. Que separa aquilo que se quer daquilo que não se consegue evitar. Que distingue o querer comer e não ter escolha. O querer parar e o não conseguir.

E é aqui que entram os teus chocolates, os Fusion Oreo, que eu descobri enquanto passeava e olhava para as prateleiras, numa das minhas últimas visitas. É que uma coisa são os iogurtes, a carne, o peixe e até o presuntinho. Outra coisa são aqueles chocolates, importados diretamente pelo Diabo, para nos infernizar as papilas gustativas para todo o sempre - e que, mal habituadas, não querem saborear mais nada desde então. Sabias que a gula é um dos sete pecados mortais? E que os cúmplices são tão culpados quanto os próprios culpados? 

Como tal, teremos de tomar medidas - até porque nenhum de nós quer ir parar ao inferno, certo? A medida mais sensata da tua parte seria retirar isto do mercado; tal como as drogas são proibidas, chocolates neste calibre de viciação e gostosura não deveriam ser permitidos. A outra alternativa será eu deixar de frequentar os teus supermercados e arrumar o meu crachá de merca-dóna - sei que parece exagerado e será duríssimo viver sem o teu jámon reserva, mas para grandes males, grandes remédios, e já se sabe que a ideia de resistir a comprar aquele pedacinho de céu (perdão - inferno) é perfeitamente utópica. Podemos arranjar também aqui uma solução intermédia, algo que te ficava bem de qualquer das formas, uma vez que o mal já está feito: criar vários clubes de chocolatólicos anónimos distribuídos pelo país, para todas as pessoas que, tal como eu, já só têm oito quadradinhos de chocolate e que não sabem como será a vida depois deles acabarem; serviria também de apoio a todos aqueles que se sentem fortes o suficiente para deixar o Fusion Oreo de vez, partilhando as suas emoções e dores neste processo de doloroso desmame para as papilas gustativas e o corpo de uma forma geral.

Neste momento já fomos obrigados a tomar medidas aqui em casa e a única coisa que me separa do restinho da tablete que jaz na cozinha é a providência cautelar que o meu marido colocou para salvaguardar as minhas ancas, muito queixosas desde o dia em que descobri o maldito chocolate. Ele ameaça-te com processos judiciais, nomeadamente por achar que isto se pode encaixar num quadro de adultério, uma vez que acha que neste momento gosto mais do chocolate do que dele. E o pior é que não sei se ele não terá razão.

Há por isso várias vertentes de peso envolvidas nesta questão: a fé (queremos ir ambos para o inferno?), a moral e a ética (será correto ter um produto destes no mercado?) e até a justiça (por ciúmes do meu marido). Não valerá mais a pena cortar o mal pela raiz e segregar o chocolate de vez das tuas prateleiras? Por favor. Por mim, pelas minhas ancas e glicémias. Por nós, no fundo, e pela relação que temos vindo a construir ao longo do último ano. E, claro, pelo meu marido - pessoa que, não sabendo a chocolate, eu também gosto muito. 

Conto com a tua compreensão.

Obrigada,

A tua merca-dóna favorita,

Carolina

 

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31
Jan22

A vida é uma estranha bola de neve

Um update sobre a minha vida: dieta, trabalho, desporto e um super-relógio

Há cerca de um ano e meio fui à nutricionista porque achei que estava a ficar com peso a mais e eu não estava a conseguir emagrecer sozinha. Na altura resultou, passei dos quase 67 quilos para uns felizes 61 e segui contente da vida, com o objetivo de manter. Entretanto fiquei noiva, 2021 não chegou para brincar e eu voltei a sair dos eixos. Ainda fui a consultas aí pelo meio, para ver se a pressão de uma balança que não a de casa e o compromisso com outra pessoa funcionaria, mas nem isso fez com que eu conseguisse privar-me de certas coisas e obrigar-me a outras. Valores mais altos se levantavam.

Em Outubro, quando a vida acalmou, voltei à carga. Entre o tempo da marcação da consulta e a própria ida ao médico, vi a minha vida profissional ser abalada por um tremor de terra que mexeu muito com os alicerces da fábrica. A calmia durou dias. De qualquer das formas fui à consulta - já andava a fazer um esforço para emagrecer, a treinar pelo menos três vezes por semana e com um olho forte sob a minha alimentação (fiz um diário alimentar e tudo) mas, mais uma vez, nada resultava. Perante tudo aquilo que tinha apontado e tendo em conta tudo o que andava a fazer, a solução era só uma: cortar com todos os pequenos erros, com os deslizes e os pecadinhos que se iam cometendo para consolar a alma. 

Ainda tentei, mas não consegui durante muito tempo - entretanto, com o Natal à mistura, mais difícil tudo isto se tornou. Sei que é na privação que está a capacidade de atingir o meu objetivo - em muitas dietas não é nem deve ser, mas no meu caso e com o meu metabolismo, não há grande volta a dar - mas eu não estou em época de me privar de algo que me dê alento. Comer emocionalmente é mau, mas há alturas em que é a das poucas coisas que restam para nos aquecer o coração e a alma. Estou numa fase tão estranha e rara que sou capaz de comer uma tablete de chocolate num só dia (eu, que normalmente como um quadrado de chocolate por mês, se tanto), por isso nem vale a pena tentar fazer grandes negociações, pois sei que serão em vão. 

Este tipo de processos são complicados, pois são autênticas bolas de neve. Já estamos tristes por um acontecimento exterior e pior ficamos por não conseguirmos alcançar um objetivo a que nos auto-propusemos. Depois entra a auto-sabotagem ("perdida por dez, perdida por mil - vou comer a tablete de chocolate inteira!"), que levam a uma tristeza e uma frustração ainda maiores, que não compensam o prazer de termos comido o que quer que seja. E as coisas vão-se arrastando, piorando, dilacerando-nos por dentro. 

O trabalho sempre foi para mim uma força motriz, onde eu alicerçava os meus maiores objetivos e esperanças. Quando era mais nova e achava que ia ficar solteira para sempre, imaginava que a vertente profissional seria o pilar principal e moldador da minha vida, que seria uma trabalhadora nata, que o trabalho seria o alimento da minha alma; hoje, ainda que os meus planos se tenham alterado e a família tenha passado para primeiríssimo lugar na minha lista de prioridades, o trabalho continua a ser preponderante na minha vontade de viver, de sair da cama e fazer mais, de ver um projeto meu crescer. Mas tive azar na altura em que fiquei com a fábrica e o contexto nunca esteve a meu favor. Por muito que se goste e que se queira fazer mais, há alturas em que o desânimo e a desmotivação tomam o controle - e aquilo que aprendi nos últimos tempos é que embora devamos lutar contra isso, também devemos ser tolerantes para connosco. Não estamos sempre bem nem podemos querer estar sempre bem - e isso faz parte, porque não controlamos tudo à nossa volta. E, nessas alturas, não podendo mudar aquilo que nos provoca dor, podemos tentar mudar nós. Somos altamente adaptativos, mesmo quando achamos que não. E a verdade é que não é preciso alterar muito para às vezes acontecerem coisas que antes acharíamos inacreditáveis. 

Como não conseguia emagrecer e como a minha vida profissional também não me está a dar abébias (muito pelo contrário...), surgiu naturalmente um dos objetivos mais estranhos na história da minha vida: fazer desporto cinco vezes por semana. Quando fui à nutricionista já estava a treinar cerca de três a quatro vezes por semana, num duo entre alimentação e desporto que já achava hercúleo da minha parte. Hoje, não estando a apostar em cortes na alimentação, pus as fichas no desporto, e tem sido um desafio semanal com direito a suor e lágrimas mas, acima de tudo, de muita superação. Porque não estou focada nos resultados - e ainda bem, porque emagrecimento nem vê-lo - mas sim no facto de estar a conseguir cumprir algo que para mim seria impossível. Intercalo entre o spinning e o padel (o primeiro faço em casa, normalmente de manhã, e com muito esforço; o segundo já encaro mais como um divertimento e convívio) e controlo tudo no meu super relógio - algo que nunca pensei que ajudasse tanto neste processo.

O smartwatch (Versa 3, para quem quiser saber o modelo) foi uma prenda de Natal do meu marido, e apesar de ser um presente incrível, é daqueles assim meio envenenados. No fundo funciona como aqueles vernizes para deixar de roer as unhas: têm um sabor amargo mas o objetivo é bom. Porque por um lado o relógio é chato e controlador - queixa-se logo quando não me mexo durante uma hora e é pior que uma vizinha cusca, sabendo quantas horas durmo, quantos passos ando, quantos pisos subo, quantas calorias queimo, o oxigénio que tenho no sangue - e, se lhe der trela, até quer saber detalhes sobre o que como, o que bebo, sobre o meu ciclo menstrual e estados de stress. Admira-me, na verdade, não ter interesse sobre xixis, cocós e outras coisas igualmente íntimas - mas acredito que lá chegaremos! Por outro lado regista todos os exercícios e avanços que faço, quantas calorias perco e o meu nível de esforço, fazendo-me querer ir mais além e criando um histórico que não engana. De cada vez que penso que não sou capaz é só ir à aplicação e ver que na segunda-feira fiz isto, na terça fiz aquilo, e que continuo cá para contar a história.

A vida, de facto, dá voltas muito estranhas. Nunca achei que fosse beber inspiração e força no desporto mas, à falta de melhor, aqui estamos nós. A lutar para ficar à superfície - e, para isso, a definir novas metas quando as que tínhamos se vêem impraticáveis. A mostrar que somos capazes, mesmo em áreas que nunca achamos ser possíveis. E a trabalhar em novos hábitos, que podem manter-se em alturas de maior estabilidade. E nessa altura sim, talvez consiga perder o peso, a anca e a barriga que acho que tenho a mais. Uma coisa de cada vez. Até lá, o horizonte é sempre a tona da água.

 

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14
Jan22

Eu não quero desmontar a árvore da Natal

Todas as época do ano são bonitas na sua forma distinta de ser, mas nenhuma traz preparativos como o Natal. O verão pode ser digno de ânsia, mas não tem chocolates para fazer contagem decrescente; o São João é muito giro, mas não começamos a preparar a decoração um mês antes.

O Natal é sinónimo de esperança do que vem, nem que sejam os chocolates para nos adoçar a vida; é uma de perspetiva de futuro, por termos algo que ansiar. É perceber que o amor e a partilha se calhar têm um cheiro - a canela, cravinho e vinho do porto. É ter curiosidade sobre o que é que nos espera no sapatinho, mais por saber que alguém pensou em nós do que pela prenda em si.

O Natal para mim é tudo isso. É luz quente, é um coro de vozes como pano de fundo, são as músicas mais bonitas do ano inteiro. Um calor interno que não se explica.

E para mim, este ano, foi especial: passei-o pela primeira vez em minha casa, com os meus pais e a família do Miguel (agora minha também). Foi a celebração do meu espaço e da família que criámos. Foi um dos dias mais bonitos do meu 2021. E por isso, e não só, custa-me desmanchar a árvore, tirar o presépio, arrumar o centro de mesa e esconder a rena. É como se desmantelasse memórias a cada galho da árvore que ponho na caixa.

Um ano passa rápido, mas tão devagar também... O que temos para ansiar nos próximos tempos? A que cheiram estes meses frios que se seguem? A quê que nos agarramos para uma vida mais doce, somente com o calendário da secretária e sem o do advento?

Sei, racionalmente, que não faz sentido manter a árvore todo o ano - porque é o símbolo de uma época específica, porque é estranho tê-la ali parada e faz com que pensem que tivemos simplesmente preguiça de a desmanchar. Mas, agora que penso, é exatamente por ser simbólica que eu gosto tanto dela. Uma árvore de Natal é muito mais do que uma simples árvore, não é?

Mas, mais do que aquilo que os outros pensam ou acham, eu vou tirá-la para, daqui a uns tempos, a poder montar de novo. Porque magia não rima com rotina, e eu quero que esta época continue especial e diferente, destacada do resto do ano; porque quero que a hora de montar a árvore continue a ser um momento de felicidade - e, para o fazer, não tenho outra hipótese senão a desmanchar.   

Por isso, este fim-de-semana, já preparada emocionalmente, dispo a muito custo o Natal aqui de casa, mas só para ter algo com que ansiar nos próximos onze meses. Porque dentro das incertezas normais da vida, o Natal é a certeza de um momento feliz; o resto do ano é incerto. Só sabemos que não tem árvores de Natal. 

 

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11
Jan22

Os escolhidos do ano de 2021

A escrita é assim: tem vida própria, leva-nos para onde quer. Esta lista que hoje aqui trago nasceu para um post que ganhou outra vida, aquele que acabou por ser o resumo do meu ano. Aquilo que escrevi era para ser só uma breve introdução e, quando dei conta, já era todo um texto com princípio, meio e fim, já demasiado profundo, não abrindo espaço para listas ou coisas um bocadinho mais supérfluas. Deixei que seguisse o seu caminho independente e fiquei com esta lista das minhas escolhas do ano para outra altura. E aqui está ele!

Não vou matar dois coelhos de uma só cajadada: vão ser muitos! A maioria dos temas ou nomes que aqui trago estavam à espera de um texto (mais propriamente uma "review da semana") há demasiado tempo, por isso vou fazer uma pequenina descrição de tudo aquilo que gostei no ano que findou, fazendo ao mesmo tempo uma "mixórdia de temáticas" de coisas muito boas.

 

Produto do ano

- Pão da Granélia -

Estive muito, muito, muito indecisa entre dois produtos - vou prometer a mim mesma que escrevo sobre o outro - mas tenho de escolher aquele que mais chama o meu coração: o pão da Granélia.

A Granélia é uma mercearia que abriu no centro do Maia há relativamente pouco tempo, que tem a sua ideia base na venda a granel (podem comprar hidratos e leguminosas como arroz e feijão ou especiarias como caril ou matcha, levando apenas um frasquinho) mas que está recheada de outras coisas boas: produtos biológicos, locais e de boa qualidade assim como outras soluções ecológicas para produtos de limpeza, higiene corporal entre outras coisas. Mas a melhor de todas é mesmo o pão de fermentação natural. Não é produzido lá - é comprado no Pão da Terra (que fica em Matosinhos mas é fora de mão para mim) - mas revendido nesta mercearia, e é só a melhor coisa do mundo. Eu adoro pão - e já tinha escrito aqui (texto sobre um pão igualmente bom, mas não TÃO bom) que o melhor pão do mundo era o sourdough que o meu irmão me trazia de Inglaterra quando vinha cá passar férias. Pois que este é o sourdough. O tal! O maravilhoso! Mas em Portugal, e aqui tão pertinho, ao virar da esquina. Como resistir?!

Os pães estão disponíveis à quarta e à sexta-feira em várias modalidades, mas têm de ser encomendados com antecedência. Eu vou lá de duas em duas semanas buscar o meu - tenho de me conter para não comer meio quilo de pão logo no primeiro dia, por isso congelo-o para não me tentar e vou descongelando ao longo dos dias quando tomo o pequeno almoço. Foi a descoberta do ano!

 

Podcast do ano

- Conta-me Tudo -

2021 foi o ano dos podcasts. De manhã, antes de sair de casa, faço sempre uma arrumação geral para que ao fim da tarde o peso das tarefas domésticas não seja tão grande e tenhamos, eu e o Miguel, algum tempo de qualidade juntos. Mas arrumar ou limpar em silêncio é um tédio. E eu já ouço muita música enquanto trabalho... por isso virei-me para os podcasts, que cumprem uma função mais extensiva que a música: dá para rir, chorar e informar, mas tem sempre como base o entretenimento.

Este hábito começou com o conselho do meu ex-chefe para ouvir o Extremamente Desagradável, da Joana Marques. Na "review de 2021" o Spotify diz que este é o meu podcast favorito (porque ouvi não sei quantos episódios de rajada até ficar em dia), mas não é verdade. Não que não goste (senão não ouvia), mas porque acho que os humoristas têm uma tarefa inglória ao tentarem ter piada todos os dias. É verdade que é um estilo de humor diferente, mas não deixa de ser um bocadinho desgastante - para ela e para nós.

Aquele que eu mais gostei foi o Conta-me Tudo, do David Cristina. Não só pela diversidade de histórias, de temas mas, acima de tudo, pelo leque de emoções que nos faz sentir; para além disso é curto e ideal para ouvir enquanto me arranjo ou faço as lides domésticas - entre fazer a cama, esticar o cabelo e pôr a comida a descongelar, um episódio fica ouvido.

Ouvi também alguns episódios do Reset, da Bumba na Fofinha, vários d'O Avesso da Canção, da Luísa Sobral (aconselho muito o episódio do Miguel Araújo e o do Pedro Abrunhosa) e também do E Projetos Para o Futuro, do Nuno Markl em parceria com a Delta (curtinhos e perfeitos para quando o tempo e a paciência não abundam). Quando não havia mais para ouvir, entretinha-me com A Noite da Má Língua - e enquanto me ria com as opiniões parvas de uns e uns tiros certeiros de outros, ficava a par das notícias do dia-a-dia, em vez de pensar só em fait divers.

Neste momento estou à procura de novos podcasts para me entreter, por isso se tiverem sugestões, chutem!

 

Série do Ano

- Sex Education -

Sei que não é a escolha mais óbvia, por isso carece de contexto. Sempre gostei muito da ideia original do Sex Education mas fiquei muitíssimo desiludida com a segunda temporada - de tal maneira que não a vi até ao fim. Achei que desvirtuaram a linha de ação (e personalidade) de algumas personagens e até o enredo me estava a irritar. Dei uma segunda oportunidade e vi a terceira temporada, lançada em 2021, e voltei a ficar agarrada e fã. 

É claro que o fim da Casa de Papel é digno de menção, mas ao contrário da Sex Education não acho que as últimas temporadas tenham dado a volta ao texto e melhorado - como já tinha escrito aqui, a série devia ter parado no primeiro assalto e fechado com chave de ouro. Squid Game leva o prémio de série mais viciante, mas é demasiado dark para o meu gosto pessoal. Por fim, mencionar as Doce - a série em português que mais gostei no ano passado. Espero que existam mais, com a mesma qualidade, neste 2022.

 

Documentário do ano

- Three Identical Strangers -

Three Identical Strangers é um documentário sobre o (re)encontro de irmãos trigémeos, separados à nascença, que aconteceu por mero acaso. É sobre a forma caricata como se encontraram uns aos outros, mas vai muito mais a fundo: porque é que eles foram separados? Será que tinham semelhanças apesar de terem vivido mais de duas décadas sem se conhecerem? E como é que o reencontro os afetou? As respostas são pouco óbvias e muito mais obscuras do que aquilo que se pensaria.

Não sei porque é que me marcou tanto - se pela história engraçada, se pelo twist que acabou por ter -, mas a verdade é que falo dele com regularidade e por isso penso ser justo dar-lhe este "prémio". O documentário estava na Netflix mas penso que entretanto saiu. 

 

Música do ano

- You Get What You Give, dos New Radicals - 

O Spotify dita que a música do meu ano é a Spring 1, uma revitalização do clássico de Vivaldi pelo Max Richter - mais uma vez porque a ouvi vezes sem fim, principalmente enquanto escrevia ou precisava de me sentir inspirada. Mas vou de novo desdizer a plataforma de streaming: apesar de adorar a Spring 1, não considero que tenha sido a música do meu ano.

Por alguma razão que desconheço, a You Get What You Give, dos New Radicals, é a música que eu associo ao meu casamento - e o facto de eu ter contraído matrimónio foi, sem dúvida, o evento central do meu ano (ou pelo menos da primeira metade). Por isso, e embora seja um bocadinho estranho escolher uma música de 1998 como a minha música de 2021, é o que vai acontecer.

Podendo dividir a coisa em dois semestres, a Adele marca sem dúvida a segunda parte do ano, com o seu novo álbum. A minha música preferida é a "I Drink Wine", mas aquela que descreve melhor 2021 é a "Hold On". Destaque extra para a lusofonia, com a minha música preferida do ano em português: Onde Vais, da Bárbara Bandeira e Carminho.

 

 

Livro do ano

- Almoço de Domingo, de José Luís Peixoto - 

Não é difícil escolher o livro do ano porque só li... dois. Eu sei, é vergonhoso. Ao menos um deles foi óptimo!

Gostei mesmo de ler este "Almoço de Domingo" - desde a estória até à construção peculiar da narrativa (algo a que os leitores de José Luís Peixoto já devem estar habituados, mas eu não). Há livros deste autor que, devido à estrutura e estilo de escrita peculiares, não me convencem. Abri uma exceção para este e ainda bem. Fiquei inspirada pela história de vida e pela força de Rui Nabeiro, de quem não sabia muito, mas de quem me senti muito mais próxima quando acabei de ler a última página.

 

"Quando acumulamos suficiente tempo, os domingos transformam-se num período de vida. Recordamos os domingos como uma unidade, anos inteiros só de domingos, estações inteiras compostas apenas por domingos: os domingos de verão, os domingos de outono, todos os domingo de inverno e, de novo, as promessas feitas pelos domingos de primavera. Foram dias separados por semanas, antecedidos por sábados com ilusões próprias, sucedidos por segundas-feiras com agendas precisas, tarefas fatais que exigiam ser feitas, mas tudo se dissipa até ficar apenas uma amálgama de domingos. Ao serem vividos, transformaram-se nessa amálgama, como um almoço de domingo infinito, a crescer permanentemente a partir do seu interior."

 

 

Programa de TV do ano

- Trafficked by Mariana van Zeller -

Sou completamente viciada nesta série que estreou o ano passado no National Geographic. A campanha promocional foi grande mas eu só me interessei mesmo pelo programa quando percebi que a jornalista era portuguesa, quando ouvi parte da entrevista que a Mariana deu ao Era O Que Faltava, da Rádio Comercial. E que jornalista! Que "tomates"!

A Mariana van Zeller mete-se no meio de gangs, de bunkers cheios de armas, de florestas recheadas de narcotraficantes e em mundos que só ouvimos falar nos filmes ou nas otícias, naquele que parece ser um mundo e uma realidade muito distantes. São normalmente 45 minutos de programa que devem exigir horas e horas e horas de pesquisa e de tentativas falhadas para ter alguém que dê a cara (ou pelo menos a voz) por todas as coisas ilegais de que já ouvimos falar mas com as quais nunca tivemos proximidade. 

A segunda temporada está agora a passar no National Geographic aos sábados, às 22h30. A primeira, para mim, ainda é melhor. Vale muito, muito, muito a pena!

 

O (meu) post do ano

- Uma História com Princípio, Meio e Sim! -

Toda a rubrica "Uma História com Príncipio, Meio e Sim!" foi um exercício muito bom, bonito e "depurador" para mim - e marcou claramente o meu ano a nível de escrita, pois foi aí que me foquei acima de tudo, defraudando todos os outros temas sobre os quais costumo dissertar. Esta série de textos foi dolorosa em alguns momentos e curativa noutros. Fi-la muito mais para mim do que para os outros, mas eu queria muito deixar registos desta fase tão conturbada da minha vida - um evento tão bom misturado com sentimentos tão difíceis... foi uma gestão complicada que quis documentar. Dentro deles, o post do vestido de noiva foi o mais lido e também o mais sentido - hoje choro quando o leio. Mas o mais importante de todos, o post do meu ano, foi o último, em que falo do casamento e da terapia.

 

A viagem do ano

- Maldivas -

Só fiz duas, Maldivas e Açores, e ainda quero escrever sobre ambas (ainda que já leve meio ano de atraso). Mas é claro que as Maldivas - perdoa-me Açores!!! - arrecadam este meu galardão, pois roubaram o meu coração. Quero tanto voltar!

 

A palavra do ano

- Resiliência

 

A foto do ano

Não há "a" foto. Há muitas, felizmente! E tendo em conta que este ano tive um fotógrafo por minha (nossa) conta num dia tão especial, a foto do ano tinha de ser uma das muitas que ele nos tirou. Mas de tão boas é difícil escolher... por isso, em vez de uma, vão duas:

 

C&M_TheStorytellers-1977.jpg

C&M_TheStorytellers-2035.jpg

 

O vídeo do ano

Não há grandes dúvidas: o casamento foi o evento do meu ano e tudo roda à volta dele. Ainda não tinha mostrado nenhum vídeo daquele dia, por isso fica aqui em modo best of (este é o teaser, mais curtinho, bom para terem um glimpse daquilo que foi este dia tão bonito). 

 

31
Dez21

Em 2021 eu...

- Comecemos pelo mais óbvio: casei-me!

- Fui às Maldivas, a Barcelona e aos Açores;

- Passei férias no Algarve com os meus sogros, os meus pais e só com o Miguel - três semanas, umas autênticas "férias grandes" à antiga. Fizemos várias paragens: desde Portimão, passando por Albufeira, Almancil, Olhão, Tavira, Cacela Velha e Vila Real de Santo António;

- Tendo em conta estas três semanas, fiquei com um moreno de meter inveja (mas só durante uns tempos...);

- Demos passeios ou fizemos fins-de-semana em Chaves, Évora e Lisboa;

- Repeti dois "programas" que já não fazia há muitos anos: fui ao Oceanário e ao Zoomarine;

- Viajei pela primeira vez em primeira classe;

- Perdi a conta aos testes Covid que fiz - mas, felizmente, todos deram negativos;

- Comecei a fazer terapia;

- Vi várias séries: La Casa de Papel, Sex Education, The Nevers, Lupin, Quem Matou Sara?, The One, Baking Impossible, Squid Game e, em português, Glória e as Doce;

- Fiz, pela primeira vez, o Natal em minha casa, onde juntei os meus pais e os meus sogros num dia muito bem passado;

- Voltei (aliás, voltámos) às festas em família: este ano já consegui festejar o meu aniversário, já fizemos magusto e desfolhada, assim como o Natal;

- Vi muitos documentários sobre a casa real, outros tantos sobre crimes - Elize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime, Night Stalker, Sophie: Crime em Cork, Abducted in Plain Sight, Shiny Flakes: O traficante adolescente - e outros, sobre os mais variados temas, como o Three Identical Strangers, Aeroporto do Dubai, 100ft Wave, Athete A e La Casa de Papel: de Tóquio a Berlim;

- Tornei-me numa jogadora consistente (não disse "boa", atenção) no padel - e, reitero o que disse o ano passado, "surpreendentemente não odeio"!;

- Para além disso comecei a fazer cycling em casa. Isto sim: odeio, mas faço;

- Apesar de não terem havido feiras medievais ou de artesanato, descobri um sítio que tinha pães com chouriço na Arca de Água, onde fui três vezes, naquelas que foram das melhores do meu ano. Foi demasiado tempo sem saborear a 8ª maravilha do mundo...

- Consegui o certificado ISO 9001 para a fábrica, depois de um ano e meio de muito trabalho;

- Voltei aos escape rooms, com duas fugas de sucesso!;

- Dei mais alguns passos importantes naquele que é o meu sonho para a fábrica: inaugurei os novos balneáreos/ casas de banho para o pessoal, assim como um refeitório e uma serralharia nova. Já no final do ano terminamos o novo gabinete do diretor técnico. Uhooo!;

- Escrevi pouco, muito pouco, mas consegui documentar fielmente (e extensamente...) o percurso até chegar ao dia do meu casamento;

- Se escrevi pouco, li ainda menos. Mais precisamente... dois livros #shame;

- Não cortei o cabelo;

- Consegui tocar algum piano, mas vi-me grega com peças maiores e mais consistentes - mas o Canon está afinado e o Rudolph the RedNose Raideer está a chegar lá. A música da Mia e do Sebastian, do LaLaLand ficou pelo caminho;

- Não fui ao campismo de família;

- Fui várias vezes ver o Porto ao estádio;

- Mantive-me consistente na crianção de álbuns de fotografias: fiz os álbuns do meu casamento, um álbum pré e pós casmento (ou seja: despedida de solteiros e e lua de mel) e um best of de 2020;

- Tomei as duas doses da vacina do Covid;

- Aumentei (ou aumentaram...) consideravelmente a minha coleção de plantinhas - algumas já são felizes cá em casa, outras estão a aprender (e eu com elas...) e as que definitivamente não se dão, eu recambio para a minha mãe, também conhecida por milagreira das plantas ;

- Comecei a ouvir podcasts, principalmente quando arrumo a casa e trato das tarefas domésticas;

-

 

 

30
Dez21

Com cinco palavras apenas se descreve 2021

A hell of a ride.

É assim, com cinco pequenas palavrinhas, que eu descrevo este 2021. É um bocadinho triste que a frase que primeiro me surge no pensamento quando reflito sobre este ano seja em inglês... mas até isso espelha os meses que até agora atravessamos: de pouca leitura em português, muitas séries estrangeiras e, de uma forma geral, pouco sumo que se aproveite.

Gosto sempre de refletir e olhar para trás no final do ano, fazendo logo a ponte para o ano seguinte, mas este ano vou fazer diferente. Não quero estipular resoluções de ano novo com objetivos específicos nem tão pouco rever as coisas que escrevi o ano passado. Porque, honestamente, fiz o melhor que pude - e esse melhor, mesmo podendo representar um falhanço quando olho para aquilo a que me tinha proposto, é uma vitória. Porque representou muita luta. E cumpriu com o objetivo máximo, que foi manter-me à tona da água.

Espero daqui a uns anos conseguir olhar para trás com leviandade e desdramatizar o ano que passou (quanto mais não seja por comparação, pois sei que coisas bem piores podem acontecer). Mas, caraças, foi mau! É difícil explicar a dimensão deste "mau", pois não pode ser medido através de meia-dúzia de acontecimentos isolados que me entristeceram ou mandaram abaixo. Foi o culminar de um conjunto de processos mal resolvidos que, à enésima picada, arrebentaram com a bolha. Foi o nó cego definitivo dentro de um novelo de lã já muito mal amanhado, que teve de ser todo desfeito. Foi a dor de viver e a dor que tem de ser feita para reavermos a nossa vida conforme a imaginamos - aquela porque temos de passar para recuperar bem, sem nós cegos ou soltos, envoltos com casca rija, com cicatrizes e marcas, tal e qual como todas as cascas que vemos na natureza.

Todas as frases feitas que cabem nesta realidade não me enchem as medidas. Uns exemplos: "deixa lá, sais deste ano mais forte!", "o que não nos mata torna-nos mais fortes!" ou, em versão futurologista, "melhores tempos virão". Os tempos mais negros da nossa vida tornam-nos sempre mais fores, mas não necessariamente melhores ou mais felizes. É verdade que aprendi muito - sobre mim, sobre os outros, sobre a interação humana e, acima de tudo, sobre como romper ciclos (mentais, naturais, da vida, impulsionados por traumas ou por simples gatilhos) - mas ganhar... só ganhei experiência. E rugas. E brancas. 

E se as coisas acalmaram dentro de mim, muitas delas já resolvidas (embora ainda muito dorida)... a verdade é que, pelo menos a nível de trabalho, 2021 fechou cheio de problemas e 2022 não espreita com coisas boas. Por isso deixo a futurologia de lado e fico-me pela esperança de coisas melhores, acreditando na força do trabalho e da fé que me fez chegar até aqui. 

É lógico que não foram só coisas más! Casei-me com o homem que amo e que salvou os meus dias, que me amparou em todos os momentos e me deu a mão a cada minuto que esteve presente; solidifiquei uma rotina que me faz feliz, tornei a minha casa no meu lar, passeei mais do que esperado (dadas as circunstâncias pandémicas) em sítios mágicos e rodeei-me de amor. No meio do caos, tive algumas grandes conquistas. Acho que não tive muitos dias bons mas, no meio deles, consegui guardar momentos felizes: um abraço apertado, o festejo de uma boa venda, a festa dos meus cães quando entro em casa, uma piada dos meus sobrinhos, prendas incríveis, o sorriso dos meus pais ou um almoço bem servido. Porque talvez a essência esteja mesmo nestas pequenas coisas.

O meu desejo para 2022 é que ele seja diferente de 2021. Acima de tudo que traga, a todos, estabilidade e saúde - mental e física. Que não nos arrebate a perseverança, a coragem e a força de querer continuar a lutar por mais e melhor. Que seja sinónimo de esperança e serenidade.

Boas entradas (e cuidem-se!)!

Obrigada por continuarem desse lado - prometo que tenho coisas para escrever nos próximos tempos.

 

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01
Nov21

Uma história com princípio, meio e sim! #20

O casamento não foi o dia mais feliz da minha vida (e falemos de saúde mental)

Este vai ser o último texto que escrevo sobre o casamento (ou puramente sobre o casamento), mas é porventura o mais importante de todos. É sobre aquilo que está por detrás de todos os silêncios - Junho foi o único mês na vida deste blog em que não escrevi um só post - e das palavras um bocadinho mais amargas que foram apontando timidamente os meus textos sobre este tema (e que os mais atentos se podem ter apercebido). É sobre a pergunta que faltou no post anterior. Porque, na verdade, nunca perguntam - assumem simplesmente que foi verdade.

"O casamento foi o dia mais feliz da tua vida?"

A resposta é muito fácil. 

Não, não foi.

O meu casamento não podia ser, nunca, o dia mais feliz da minha vida porque foi o culminar de uma série de meses muito infelizes. Não foram felizes, acima de tudo, por questões familiares, mas também por uma gestão de expectativas dificílima. Nunca quis casar, mas sem saber tinha todo um plano construído para esse dia - e que, claro, não se refletiu na realidade.

E se as minhas expectativas iam esmorecendo à medida que as coisas iam avançando - o vestido de noiva sendo o momento mais marcante, um dos maiores baldes de água fria de toda a minha vida - a expectativa maior, a do "dia mais feliz da minha vida", era o epíteto da minha infelicidade. Até que percebi que não era a única. Aqui e ali, quando me ia abrindo sobre o assunto, algumas pessoas iam partilhando comigo as suas histórias de casamentos não-assim-tão-felizes. A manicure falou-me do trauma com que ficou do seu primeiro casamento; a minha mãe contou-me sobre uma rapariga que chorava a cântaros na cabeleireiro, aquando da sua prova de cabelo, por se achar horrível a cada mecha de cabelo que lhe prendiam. E eu, que até aqui me perguntava muitas vezes porque é que as pessoas não tinham fotos do seu casamento expostas pela casa inteira (porquê, se era sempre um dia tão feliz?!), cheguei a uma conclusão: se calhar não é o dia mais feliz da vida de muitas pessoas. Ingenuamente ou não, eu não tinha essa noção. Acima de tudo porque as pessoas não falam do assunto. E é aqui que eu entro.

A pessoa que mais chocada e magoada poderia ficar com esta informação seria o Miguel, o homem que me pediu em casamento - mas ele sabe, melhor que ninguém, tudo o que se passou. Como tal, e apesar de não ser a verdade mais bonita do mundo, eu não tenho pudores em partilhar a minha experiência e poder ajudar a acabar com este mito, de forma a normalizar sentimentos mais negativos que se possam sentir durante toda a odisseia que é organizar (e a viver) um casamento. No fundo, à luz do que aconteceu nos últimos anos em relação à maternidade: se antes só se diziam coisas boas, agora pinta-se esta questão de outras cores, muito mais parecidas à realidade. A verdade é que isto é universal: nada é um mar de rosas. Mas este tipo de questões que prestam um papel central na nossa vida, que são vistas como pilares e conquistas, faladas desde crianças, têm uma identidade muito profunda e muito própria dentro de nós.  

Desde muito cedo que vemos desenhos animados de princesas, que casam com vestidos de noiva cintilantes, lindos e grandiosos. São sempre bonitos, elas sempre magras e com o cabelo impecavelmente arranjado. Crescemos e passamos a ver comédias românticas em que o final é sempre o mesmo: tudo acaba bem, os protagonistas apaixonam-se e casam-se; elas já não são em duas dimensões como víamos em crianças, mas continuam lindas e esbeltas, e tudo corre bem, finitto, felizes para sempre. 

Quer queiramos, quer não, isto fica no nosso subconsciente. E quando um dia somos nós naquele papel que tanto sonhamos (ou não, como era o meu caso), é aquilo que projetamos para nós e para o nosso dia - mesmo sendo uma ideia totalmente irrealista.

A parte prática do casamento deu-me um gosto tremendo, apesar de ser muito trabalho para o número de horas em que se desfruta de tudo aquilo que se planeou. Mas a parte emocional deu cabo de mim. Dei por mim no fundo do poço. Eu e a minha dor, aparentemente invisíveis. Vivi dias negros, ao ponto de não querer casar - e é algo que ainda hoje me dói a pensar, pois ponho-me no papel do Miguel e imagino o quão duro é ouvires a tua noiva dizer que já não se sente com forças para ir para a frente com aquele plano conjunto, que oficialmente vos tornará família. Foi a maior provação que vivemos enquanto casal, e sei que se as nossas bases não fossem bem fundas e as estruturas bem trabalhadas, provavelmente não estaríamos aqui hoje. Foi doloroso para mim, que estava a sentir tudo - mas para o Miguel não terá sido melhor.

Cheguei a um ponto em que me faltavam as forças para ir trabalhar, em que ficava a dormir de manhã para conseguir fazer algo durante a tarde. E foi aí que decidi que isto tinha de parar e recorri à ajuda de uma terapeuta para conseguir gerir tudo aquilo que me estava a deixar arrasada. 

Foi um ato de desespero profundo, em que usei a minha máxima de que só são precisos 20 segundos de coragem para se ir em frente nos casos em que temos muito medo do que nos vai aparecer pela frente. A partir do momento em que liguei, sabia que não seria capaz de desmarcar - e, daí para a frente, era só enfrentar a agenda, o dia a dia, e tudo iria correr pelo melhor. E a verdade é que correu. Exigiu coragem - enfrentar os nossos demónios é duro, doloroso, quase penoso às vezes - mas compensou pela qualidade de vida que me deu quase de forma imediata. 

Sei que estas duas dezenas de textos que escrevi sobre o casamento foram demasiado extensas para o interesse público, mas constituíram mais uma forma de fazer as pazes com aquele processo que tanto me custou a percorrer. Este blog sempre foi o espaço que utilizei para desanuviar, organizar ideias e racionalizar emoções que não tinha capacidade de processar de outra maneira - e de, ao mesmo tempo, ajudar os outros.

Sempre vi esta plataforma como uma oportunidade e um meio de contribuir com algo de positivo para a comunidade e, mais uma vez, chegou a hora de fazer mais do que mostrar coisas giras, viagens ou compras. Não tenho vergonha nenhuma em dizer que faço terapia - e, como isso ainda é raro, quero "dizê-lo" aqui, a alto e bom som, para que alguém, algures, numa má fase da vida, possa ler e achar que também é pertinente e faz sentido para si. A saúde mental é um tema tabú para a maioria - eu diria que até que por muitas pessoas que frequentam psicólogos - e eu sinto que, por estar tão à vontade com isto, tenho a responsabilidade de partilhar a minha experiência. O desconhecimento causa medo - e o medo afasta-nos de coisas tão simples como falarmos da nossa vida e desanuviarmos! 

Se é fácil? Não, não é. Se os resultados são imediatos? Não, não são - e não são poucas as vezes em que, no próprio dia, parece que nos passou um camião em cima. Se é estranho falarmos com alguém que não conhecemos? É - mas é tão libertador podermos falar de tudo sem amarras, sem medo de fofocas ou de julgamentos! É necessária uma mente aberta, capacidade de foco e, acima de tudo, muita vontade em recuperar e cooperar. Ali não é sítio para fugir dos problemas - é o local onde os reencontramos. Mas também é o mesmo onde finalmente os resolvemos. Percebemos que é essencial ouvirmo-nos, em voz é alta. E que é igualmente importante  sentirmo-nos ouvidos.

Acho que apesar de existir um apelo grande para uma maior consideração das doenças e problemas do foro mental, há ainda muito pouca partilha de experiências. Apela-se muito ao "despreconceito", à difusão de informação, mas na hora H é difícil encontrar alguém que assuma já ter ido, que explique o porquê e que normalize esse comportamento. Mais raro ainda é ter alguém que nos dê uma referência, um nome, algo para nos agarrarmos. As pessoas dizem-se despuduradas em relação à terapia ou aos anti-depressivos, mas quando chega o momento de marcar a consulta ou de levantar a receita, não o fazem. "Não estou maluco", é o diálogo interno mais comum.

Pois bem: eu também não sou. Para quem não me conhece, eu apresento-me: chamo-me Carolina, tenho 26 anos e sou feliz - apenas tenho muitos momentos de infelicidade. Fui uma filha muito desejada, tive muito amor numa família enorme e uma infância óptima. Olhando para trás, diria que tive um único episódio traumático a destacar. Não tenho nem nunca tive dificuldades financeiras, nem problemas de saúde graves. Estou há três anos à frente de uma fábrica têxtil, o que sempre foi o meu sonho. Saí de casa com 24 anos, fui pedida em casamento aos 25 e casei-me aos 26. Tenho um marido maravilhoso. E sim, ando na terapia - não por capricho, não por moda, mas porque precisei. Não por traumas, mas por processos que nunca consegui desenvencilhar. Muito prazer em conhecer-vos. 

Este texto devia ter saído no dia 10 de Outubro, dia Internacional da Saúde Mental - mas não consegui ter prontos  todos os posts do casamento antes desta data e acabou por me agradar fazê-lo fora de horas. Primeiro porque assim não seria só mais um no meio de tantos outros que se lêem nesse dia; segundo para passar para a prática aquele mote de "todos os dias devem ser dias em prol da saúde mental". Hoje é, por isso, um dia tão pertinente como qualquer outro - pois todos são importantes. Foi num dia igual a este que eu pedi ajuda; foi graças a alguém que me deu uma referência, mas acima de tudo foi graças a mim. E esse foi o dia do ano em que eu mais me ajudei a mim própria. 

No meu caso o casamento e a terapia andam juntos por uma simples relação de causalidade. E se por um lado é triste que uma festa destas, que devia ser só pautada por momentos felizes, de partilha e muito amor, acabe na poltrona de um psicólogo (lá está, expectativas: não era isto que eu esperava quando o Miguel me pôs o anel no dedo), por outro foi uma decisão que me ajudou de forma transversal, não só para resolver o problema que eu estava a viver naquele momento. Por isso este acaba por ser, sem querer, um bom exemplo do que é a psicoterapia: não muda o passado - altera simplesmente a nossa relação com ele, ajudando-nos numa primeira fase a sobreviver no presente - e depois a vive-lo com plenitude. Aprendi a lidar com as coisas, a estar atenta a gatilhos, a tornar-me visível sem que isso implique conflito; enfraqueci as dores associadas a algumas memórias, que passaram a deixar-me respirar com muito mais facilidade. E, assim, sobrevivi aos últimos meses de organização do casamento, conseguindo até desfrutar do próprio dia, algo que em muitos momentos duvidei que seria capaz.

Um par de meses depois do casamento, enroscada no Miguel à noite, perguntei-lhe se aquele tinha sido o dia mais feliz da vida dele. Depois de responder, não me lançou a réplica: "e para ti, foi?", que normalmente faz com que uma conversa role durante uns minutos. Depois da pausa, fiz eu a questão de lhe dizer: "não perguntaste se tinha sido o meu..." Ao que ele diz: "já sei a resposta". 

A resposta é que eu adoro estar casada - adoro andar de aliança, adoro dizer que ele é meu marido (e não namorado) - e que não me arrependo um segundo de tudo aquilo que percorremos e fizemos. Mas a verdade é que de facto aquele não foi o dia mais feliz da minha vida - embora também não consiga dizer qual foi. O meu casamento foi um dos dias mais completos e cheios desde a minha existência, mas esse caos de pessoas e emoções não é sinónimo de felicidade para mim. Houve momentos muito felizes no casamento - e é a coletânea de vários momentos que perfaz, no final do dia, "um dia feliz". O casamento foi só mais um. Um no meio dos tantos que já vivemos - e viveremos - juntos. 

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