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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

24
Abr18

O drama de uma pessoa não beber álcool

Carolina

Estamos em pleno século XXI. Há casais de homens a andar de mão dada na rua; há pessoas que não comem peixe, carne, lacticínios e derivados; há quem diga que não tem género, que não é homem nem mulher; há mulheres que deixam totalmente de depilar o corpo; há muitos países onde a venda de marijuana já é legal; há um Trump na presidência da América; há todo um movimento para acabar com as touradas; acho que até o papa já deu o seu amén ao preservativo!

Vivemos numa época em que supostamente as individualidades são cada vez mais aceites; a época das mentes abertas, da liberdade individual. Aceitam-se coisas que há cem anos atrás davam um diagnóstico de loucura, totalmente impensáveis para os dias de hoje. Desafia-se a cultura, a religião, a moral, os costumes, as regras básicas da igreja - e até a inteligência dos humanos, se quisermos falar do Trump. 

Com mais ou menos opiniões, tudo é aceite. Cada um é como cada qual.

No entanto, de cada vez que me tentam servir um copo de vinho e eu tapo educadamente o copo com a mão, passando a vez ao próximo, sou sujeita a um interrogatório. “Mas não gostas de vinho branco, preferes tinto?”. “Mas não bebes álcool de todo?”. “Mas já experimentaste?”. 

Há tantas coisas aparentemente estranhas a acontecer no mundo e o facto de eu não beber álcool é, e continua a ser, uma questão. Não falha um almoço com quem ainda não me conhece. Nunca. Assim como o remate final: “ainda mudas”.

Se não fosse tão bem educada, dizia aqui umas quantas coisas. Se não fosse tão reservada, dizia outras. Se não estivesse tão cansada de explicar o que não tenho de explicar, até explicava. Como tal, tudo o que me resta é pedir uma água. Fresca, por favor. Sim, porque eu não bebo álcool. Será que isso ainda é permitido?

21
Abr18

Um cabelo à Tokyo... ou quase

Carolina

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No fundo, foram os primeiros a saber. Eu avisei-vos. Deixei aqui um sinal da minha próxima maluqueira!

Não sei se se lembram de, no post sobre a "La Casa de Papel" (que, caso queiram ler algo que não diga só maravilhas da série, penso ser uma boa leitura), eu ter escrito "aquele corte de cabelo da Tokyo está a tentar-me seriamente...!". E, de facto, tentou-me de tal forma que, apesar de todas as reticências que tinha, acabei por passar da ideia à ação em pouquíssimos dias.

Não me perguntem porque é que eu falo tanto do cabelo aqui no meu blog. Acho que desde 2011, ano em que passei a te-lo curto, comecei a vê-lo como uma forma de expressar a minha personalidade, muito para além de uma simples questão estética. Ao longo destes sete anos cortei-o muitas vezes, de diferentes formas, penteando-o de maneiras diferentes; o ano passado fiz uma pausa e deixei-o crescer, porque sentia que estava a acabar por cair sempre no mesmo e porque não estava a ficar tão contente com os resultados finais. Mas, apesar disso, continuei sempre a achar que um cabelo com um bom corte é um cabelo com caráter e personalidade forte. E eu, podendo ter muitos defeitos, tenho algo que ninguém me pode tirar: um caráter vincadíssimo e - penso - algo diferente do normal. Mas, exteriormente, sou super corriqueira e simples, tendo encontrado no cabelo um meio de transparecer aquilo que sou por dentro. Há cabelos compridos que são lindos mas, para mim, não deixam de ser mais só mais uns. Adoro cortes "a sério".

Já há muitos anos que me passava pela cabeça fazer repas (também conhecidas por franjas), mas sempre tive medo. Que me ficassem mal, que fossem um drama para depois deixar crescer, que tivessem necessidade de muita manutenção, que ficassem todas engorduradas por ter muito mais contacto com a pele... uma infinidade de coisas! Mas, apesar de ter cortado o cabelo há relativamente pouco tempo, eu estava louca por mudar. Adoro a sensação de ver uma versão nova de mim mesma ao espelho.

E por isso fui. Recolhi uma série de fotos (como faço sempre), mostrei à cabeleireira, contei-lhe os meu requisitos e receios e depois disse-lhe: "corte por onde quiser, faça o que quiser, deixe isto equilibrado". E assim foi. Quando vi a tesoura a esbarrar-me nas pestanas o coração deu um saltinho, mas passou rápido. Acho que nunca adorei tanto um corte logo à primeira vista. Normalmente detesto ver-me enquanto estou a cortar o cabelo, porque aquelas luzes todas me deixam branca que nem cal e com as olheiras dignas de um panda, mas naquele momento nem quis saber. O meu primeiro pensamento foi que estava igual a quando era miúda, na altura em que a minha mãe ainda tinha rédeas sobre mim e me fazia usar o cabelo curto. O segundo foi "Tokyo". Não é que estava mesmo parecida?!

Admito: estes dois dias com um novo visual foram um boost para o ego. O choque das pessoas é semelhante àquele de há sete anos atrás - o que é curioso, tendo em conta que praticamente só muda a franja em relação a outros cortes anteriores. Mas acho que nunca na minha vida recebi tanto elogio (e, como boa anti-social que sou, não sei lidar com isso). Mas o melhor disto tudo é que, talvez pela primeira vez, eu acredito naquilo que me dizem. O corte está incrível. E, caraças, não é que eu tenho mesmo cara para usar repas?

Durante muitos ano fui lendo, em blogs, facebooks e tumblrs alheios uma frase atribuída a Coco Chanel que diz: "a woman who cuts her hair is about to change her life". Sempre a adorei. Em 2011, quando passei de uma crina até meio das costas para ter o cabelo o nível do queixo, foi isso que aconteceu - dei uma volta a tudo. Se quisermos fazer uma leitura mais aprofundada da coisa, acho que o ano passado, em que o cabelo cresceu como queria, foi o ano em que deixei que a vida levasse o seu rumo natural, sem rédeas. E nestes últimos meses sinto que, apesar das muitas dores de crescimento que tenho tido, voltei a pegar nelas. A minha vida vai, efetivamente, mudar. E um novo corte de cabelo é sempre uma boa forma de o assinalar. Que o positivismo, a boa energia e a confiança desta mudança de visual se transfira para os desafios que estão para vir.

 

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19
Abr18

Desconcerto... desconcertante

Carolina

Na terça-feira fui ver o Desconcerto, com a Luísa Sobral, o Miguel Araújo, o António Zambujo e o César Mourão. Não sabia ao que ia - acho que ninguém sabia. Na verdade, com estes quatros nomes em palco, uma pessoa nem precisa de saber para o que vai - sabe simplesmente que vai ser bom. E foi.

O espetáculo consistia num conjunto de momentos, pré-pensados, que davam origem a músicas, compostas e feitas completamente de improviso (ou com apenas pouquíssimos minutos para pensar no assunto). O primeiro "número" consistiu, por exemplo, em fazer uma canção sobre a mala de uma das senhoras da plateia - o César Mourão (que era, no fundo, o cicerone de todo o espetáculo) vasculhou a mala em causa e foi sacando algumas informações acerca da vida pessoa, enquanto a Luísa e o Miguel iam compondo uma música com aquilo que iam ouvindo e o Zambujo pensava na melodia. 

Esta ideia é espetacular se não houver erros de casting na escolha das pessoas da plateia; o espetáculo passa a viver muito daquilo que elas dizem, do à vontade que têm, do seu sentido de humor e disponibilidade. E, infelizmente, houve alguns... chegou a apetecer-me gritar coisas como “inventa qualquer coisa, mulher” ou “sorri, estás no palco com a nata da música portuguesa neste preciso momento!”. Mas contive-me (com esforço...).

Acima de tudo, aquilo que senti - e que me fez adorar aquelas duas horinhas - foi que a grande diferença deste para um concerto normal era a proximidade artista-publico. Nós estávamos lá dentro, era como se fôssemos da família. Já tinha ido a espetáculos de todos eles (exceto do Mourão, porque comédia não é propriamente a minha praia, embora lhe ache graça) e sempre senti a inevitável distância do artista para com a sua plateia, ainda que que eles sejam calorosos, queridos e interativos com quem está à frente deles. Mas aqui era diferente - também pode ter ajudado o facto de eu estar na primeira fila e sentir tudo ali a acontecer - porque eles agiam de uma forma natural e pouco programada... levantavam-se para ir ao computador escrever a letra, iam buscar a folha à impressora enquanto os outros tocavam, paravam as musicas para rir um bocadinho e trocar uma piada e acho que o Zambujo até foi à casa de banho enquanto se esperava por uma letra. Pareciam mesmo simples pessoas, sabem? Nós tendemos a esquecermo-nos disto quando os artistas estão em palco.

Mas depois percebemos que eles não são simples pessoas (e refiro-me maioritariamente à Luísa e ao Miguel). Podem ser pessoas como nós (que o são, obviamente, mas percebem a ideia) mas têm um dom que as pessoas simples não têm. Improvisar musicas e letras é uma coisa - o Mourão é mestre nisso, como todos sabem. Mas compor coisas incríveis em cinco minutos é outra. Não se trata de escrever - isso até eu faço com uma perna às costas - mas sim de criar um poema, bonito, musical e às vezes até com simbolismo por detrás, com coisas corriqueiras ou até parvas ouvidas há um par de minutos. É incrível.

Eu sempre achei estranho o processo de construção de uma música e, por ser uma realidade que me é alheia, pensei que era algo difícil. Mas depois disto, ao ouvir músicas feitas em dez minutos e que eu compraria e consumiria, sem problemas, no caminho para casa em plena rádio, percebi que quem é bom nisto o faz com uma perna às costas. É um dom, ponto final. E apesar dos outros dois serem muito bons, caraças!, a Luísa e o Miguel são do melhor! Já era fã deles, mas saí de lá completa e totalmente rendida - só tenho pena de não ter podido repetir a dose, porque este é o género de espetáculo que se pode ir quatro vezes seguidas e ser sempre diferente.

Não sei de onde é que, de um momento para o outro, apareceram tantos músicos portugueses tão bons. Há dez anos "música portuguesa" era sinónimo de pimba, fado ou algo com um toque meio revolucionário. E depois veio isto. Um misto perfeito: pessoas simples (mas com dons), simpáticas e com reis fora da barriga, que constroem cenas lindas, tão profundas como leves, bonitas e incríveis. E o melhor é que a tendência se está a reproduzir e nascem em Portugal cada vez mais artistas incríveis. E toda a gente que gosta de música sabe que há poucas sensações tão boas como a inspiração profunda que se sente durante e depois de um bom concerto, não é verdade?

 

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06
Abr18

La Casa de Papel: pormenores de papel numa história de ferro

Carolina

Troquei Narcos pela Casa de Papel. Já aqui o confessei: não me dou bem como info-excluída. Estou habituada a ser uma outsider em tudo, mas no que diz respeito à cultura gosto de saber do que se fala e ter também a chance de mandar palpites e meia dúzia de bitaites. E falava-se tanto e tão bem desta série espanhola que eu - por agora - troquei o castelhano "acolombianado" do Narcos (só me faltam uns cinco episódios) pelo espanhol serrado de nuestros hermanos. E fui com as expectativas mesmo muito elevadas. Talvez por isso tenham caído um pouco por terra.

 

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Acabei ontem de ver a primeira temporada - foi quase cronometrado, mesmo a tempo de ver a estreia da segunda, que está a partir de hoje no Netflix - e fiquei desiludida. Isto porque acho que quase tudo na vida se torna muito bom devido aos detalhes - quando eles estão lá e estão bem, nós nem damos por eles; quando eles falham, por vezes tornam-se “pormaiores”. E acho que há muitos detalhes que faltam nesta Casa de Papel, uma série com uma bela ideia original mas que peca por pequenos erros de execução e de lógica que me custam a engolir. Para mim, tornam aquilo que poderia ser uma série de excelência numa boa série; fica uma história de ferro um bocadinho fragilizada com os seus detalhes pobres e maleáveis como o papel. Acredito que muito daquilo que eu reparei passe em branco para os outros: ora porque estavam mais interessados ou concentrados na trama principal, ora porque não estão para pensar muito, ora porque não estão suficientemente atentos para os notar. Eu ia com as expectativas em alta e a partir do momento em que reparei na primeira “falha”, fui engatando nas outras todas.

Quero, no entanto, dizer que isto são “falhas” para mim - já tive esta discussão com pessoas que menosprezavam completamente os detalhes que a mim me fizeram comichão. O problema para mim está no facto desta série ser (em teoria) uma representação da realidade: existe a casa da moeda, existem assaltos onde há reféns. Ou seja, é algo feito “neste mundo”, o que implica que exista alguma coerência e coesão na construção da história e dos seus detalhes. Eu não ouso criticar Game of Thrones, Harry Potter ou os Hunger Games, tão simplesmente porque os autores podem dizer “mas foi assim que eu imaginei”. São coisas irreais. Todos sabemos que não há dragões, que as vassouras não voam e que não vivemos em Panem. Eles podem fazer o que quiserem. Por isso é que se distingue a ficção do fantástico - uma coisa é uma interpretação da realidade, outra é a criação de uma realidade completamente diferente!

 

 

Acho as personagens bem construídas e complexas o suficiente para dar sumo à série, mas isso às vezes leva às tais incongruências que falei acima - sentimos que já começamos a conhecer aquela pessoa e, do nada, ela tem uma ação completamente diferente daquilo seria de esperar, por tudo aquilo que nos foi mostrado anteriormente. E para encerrar este capítulo de críticas, resta-me acrescentar que há cenas desnecessariamente longas: não sobre o assalto em si, mas sim sobre as histórias paralelas. Acho que, para uma mini-série, tudo tem de ser medido com muito cuidado para não ficar desproporcional - e às vezes, para além da dimensão pessoal de cada uma das personagens ganhar uma importância muito grande, passam-se minutos a ver coisas que já se tinham percebido à partida.

E agora passando à parte boa e óbvia: a série é absolutamente viciante, senão não tinha o sucesso que está a ter. Muitos dos episódios terminam em cliffhangers e às vezes, por muito sono que tenhamos, não temos alternativa senão ver o próximo. Nesta ótica, a série está muito bem pensada e construída - ao ponto de mesmo quem está um bocado irritado por todos os "errinhos" e "falhas" que acima mencionei, continuar a ver aquilo como se não houvesse amanhã. As reviravoltas constantes, a emoção e (eu diria mesmo) o desespero para saber se tudo vai resultar prende-nos sempre ao ecrã. Ponto muito positivo também para a fotografia (belos contrastes entre os cinzentos e os vermelhos) e para a banda sonora. Entre a "My life is goin on" e a "Bella Ciao", poucos sairão do sofá sem cantarolar aquilo que por lá se ouve.

As personagens são empáticas e carismáticas, principalmente os assaltantes. Alguns dos reféns sofrem do mal dos clichés e algumas fragilidades, mas todas as personagens conseguem arrancar-nos algum sentimento - quer seja pelo lado positivo como negativo. E, como dizia o outro, não importa o que sentes - o que importa é que sintas algo. E, vá lá, vamos à pergunta que se impõe: qual é a minha personagem preferida? É difícil escolher entre a Nairobi e a Tokyo, não consigo... E o fofinho do Rio? Não dá. Mas digo-vos: aquele corte de cabelo da Tokyo está a tentar-me seriamente...!

Por fim, dizer que é óptimo estarmos todos a alargar os nossos horizontes a uma série que não é americana, onde não se fala inglês e que, ainda para mais, é feita aqui tão perto - dá-nos a noção de que não é preciso atravessar o Atlântico para se ver e fazer coisas de qualidade. Concluo com aquele que, para mim, é um dos pontos chave da série: ela põe-nos a torcer pelos maus da fita! Aposto que não há ninguém que a veja e que torça pela polícia. É impossível! Agora resta saber se eles se safam.

Vou ali ver à Netflix e já volto. 

05
Abr18

Não escrevo

Carolina

Estava a pensar porque é que não tenho escrito. Disse a mim mesma que precisava de contrariar isto, tomar a iniciativa e que ia escrever naquela mesma altura. E, subitamente, veio-me ao cérebro uma vontade súbita de procurar (e instalar) um jogo no telemóvel. E eu nem sequer sou de jogos.

Nesse momento percebi que não escrevo porque não quero pensar. Escrever é uma consequência de um dos meus piores defeitos: o overthinking. Racionalizo tanto as coisas que preciso de as explicar de alguma forma; não fazem ideia da quantidade de teorias que tenho sobre tudo e todos e muito menos das ficções que crio na minha cabeça, nomeadamente sobre as relações dos outros para comigo. A minha cabeça é um poço sem fundo. E escrever é uma espécie de escadinha - nunca me traz à tona, mas obriga-me a ir subindo. Principalmente na racionalização de emoções, escrever é algo que me ajuda muito. No fundo, é um pau de dois bicos: escrevo porque me desanuvia a cabeça, mas também porque me ajuda a desembaraçar os meus próprios pensamentos (embora, como qualquer bom novelo, às vezes o resultado seja ainda pior).

Mas a vontade de instalar o jogo não veio só. Virei-me para as séries, toco piano, voltei a instalar o Sims e até vou tomar café! Tirando o piano, não me lembro de uma fase em que fizesse tanto de inútil. Não que eu não adore séries ou não tenha achado piada a reviver o Sims, mas não é algo que me preencha a não ser que seja acessório e “consumido” de forma muito regrada.

Percebo agora que estou a fugir de pensar. De racionalizar. Que estou a encher a minha vida de tralha para não pensar no que vem aí. Para não enfrentar já os desafios, os medos, as vitórias e as derrotas que vão chegar. Para não sofrer por antecipação. Para não dizer aquilo que não quero exteriorizar. Para esperar que passe.

Não escrevo porque estou a fugir de mim própria.

20
Mar18

23! Hoje é dia de comer bolo e ter uma boa desculpa para isso!

Carolina

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Hoje faço 23 anos.

Como costuma acontecer sempre que festejo o meu aniversário (calha sempre neste dia, coisa estranha!), andava a pesquisar uma imagem para assinalar esta data - que, embora não seja a minha favorita, é sempre algo a festejar. Lá pelo meio, encontrei uma postal um bocado feio que dizia "23: Stay patient and trust your journey". E eu, que nem sequer sei se acredito em coincidências ou destinos, pensei: caraças, é isto! 

Acho que os 23 vão ser diferentes e vão marcar uma viragem na minha vida. Tenho esperança que seja um dos anos em que mais me dedico a mim mesma, antes de me atirar de cabeça (e alma e coração) a projetos que me vão ocupar por inteiro.

Que me tragam força, paciência, perseverança e fé em mim própria, nas minhas decisões e no meu próprio caminho - e que tudo isso comece já hoje, por favor!

Que não seja só mais um. 

Que seja um ano do carago.

19
Mar18

Um post sobre o último post

Carolina

Este post é sobre o último post. Se não leram, vão ler.

Se não reconhecem aquele estilo de escrita, eu apresento-vos: é de uma Carolina antiga, enterrada algures em mim. Era de uma miúda mais emocional, menos racional; mais misteriosa, menos aberta. Era assim que eu escrevia há uns anos atrás - ou, pelo menos, era assim que eu via a minha escrita "antiga". Olho para aquele post e penso "porra, que texto bonito". Mas também sei que só a mim - e talvez a mais meia-dúzia - é que possa dizer algo.

Não tenho escrito aqui, porque não tenho conseguido pensar em grande coisa por entre o caos que vai na minha cabeça. Mas aquele texto veio das profundezas do meu ser; veio de todas as Carolinas que fui guardando ao longo dos anos, talvez da miúda mais sincera que há em mim. Talvez por isso se pareça aos textos que escrevia quando era mais nova.

Acho que sempre fui naturalmente assim, mas fui crescendo para ser cada dia mais racional. Vi este espaço como uma forma de treinar a minha escrita e partilhar todo o tipo de coisas e, a partir de uma certa altura, achei que não fazia sentido continuar com misteriosismos, metáforas, comparações ou coisas meio em código que ninguém percebia (embora achassem esteticamente bonito e até fizessem um esforço quase heroico para perceber) - porque a verdade é que eu não consigo (nem gosto de) revelar os meus sentimentos ou emoções, mas sei ser incisiva, precisa e dura em relação a tudo o que penso. Gosto de ser clara. Gosto de falar de coisas mundanas. Gosto de ser profunda - mas prefiro ser racionalmente profunda, em vez de emocionalmente profunda.

E por isso tracei uma linha sobre aquilo que partilho ou não partilho. Sei que, por isto, o meu blog perdeu uma carga emocional que, nos seus primórdios, tinha em abundância - e sei que isso é tirar uma parte integrante de mim aqui deste espaço, porque ninguém é só feito de cabeça. Talvez falte aqui coração. Mas este é um defeito transversal em mim: a minha cabeça é para quase todos, o meu coração é de quase nenhuns. Cada vez menos tenho a capacidade de me abrir dessa forma. E portanto encontrei um registo que me é confortável, um mix bem feito daquilo que sou, e que espero que alguns consigam desvendar.  

Aquele texto é uma mistura de um post racional com um post emocional. É o resultado de muitas dores de crescimento, de vários dias a pensar que "ser adulto é isto", de algumas horas duras para a alma, de sentimentos entre a solidão e a incompreensão. E apesar de ser um post "à lá antigamente", tem poucos segredos nele contidos. Quero muito contar os meus planos - aqueles que entretanto perdi -, quero muito continuar a contar-vos a jornada da minha vida, os meus altos e baixos, as minhas aventuras, os meus sucessos, os meus obstáculos. E só não os conto porque, na verdade, ainda não os conheço na totalidade, ainda não os tracei. E sim, estou a sofrer por causa disso. Não gosto do desnorte.

A verdade é que eu normalmente escrevo porque gosto. No início, comecei a escrever porque precisava. E aquele post, escrevi-o porque precisei, como antes acontecia. Porque estava sufocada. Porque enfrentar este teclado é uma das minhas formas de limpar as vias respiratórias. E, na verdade, há anos que isso não acontecia.

 

16
Mar18

A vida não espera por ti

Carolina

Nunca percebi aquela coisa dos vilões das telenovelas fazerem "planos maléficos" contra os seus inimigos - não percebo como é que isso se faz, se há algum tipo de verdade nesse sentido da palavra. Mas também nunca percebi as pessoas que não têm planos. Planos de vida, planos para o futuro. Para amanhã, para hoje, para as férias, para o verão.

Eu tenho necessidade de ter planos para tudo. Não gosto de andar à deriva. Não gosto de me perder a menos que o meu plano seja mesmo perder-me. E eu uso agendas, uso blocos, uso este blog como testemunho de todos os planos que tenho. Os objetivos que traço. As datas que determino. As coisas que quero. E gosto de ter tempo para pensar em tudo, para não dar passos em falso.

Mas no meio disto tudo, desta papelada toda, de todas as datas e planos que tenho na minha cabeça, esqueço-me que o relógio continua a andar. E que não é só o meu que anda - o dos outros também. A vida passa. E a minha vida - quer eu queira quer não - cruza-se com a de quem me rodeia. E há momentos em que os ponteiros coincidem. E pumba. A vida não espera. Não espera que eu termine os meus planos. Não espera que eu esteja preparada. Não espera que eu tenha o meu discurso pronto. Não espera que eu tenha todos os argumentos, todas as armas.

 

Tenho há algum tempo a cabeça cheia de planos. É um conjunto infinito de remendos, cosidos a ideias de há muitos anos e colados a medos. Caraças, muitos medos. E, de um momento para o outro, sinto que, como numa rajada de vento, todos eles se espalharam por mim toda. Buuuuuf. Não os agrafei, nem tive tempo para pôr clips. Confiei que nesta altura não vinham tempestades, mas foi-se tudo pelo ar. Não eram castelos de papel - mas quase. Há remendos por todo o lado; o sopro da vida tapou-me os olhos, entupiu-me as vias respiratórias. Não vejo, não respiro. Não tinha ordenado os meus planos, esqueci-me de numerar as páginas, está tudo num caos.

É hora de apanhar as folhas, arranjar os vincos, ir buscar aquela página que ficou lá atrás. E olhar para o relógio, perceber que ele não pára, mas que felizmente é fim-de-semana, e temos tempo para reorganizar. Porque, de facto, a vida não "são dois dias", mas em dois dias dá muitas voltas.

A vida não espera. A única coisa que se pode esperar da vida é que ela continua. E o nosso remédio é continuarmos com ela.

 

08
Mar18

Um fim-de-semana no centro do país

Carolina

Eu sou provavelmente a pessoa mais caseira do universo. Adoro estar em casa mas, com a crescente quantidade de trabalho e coisas extra (ginásio e piano), acabo por estar menos no meu habitat natural do que aquilo que gostaria. E apesar dos meus dias serem todos diferentes, de não ter uma rotina e de estar mais tempo fora de casa do que alguma vez estive, sinto-me numa prisão - sinto-me presa nesta vida, ando a sentir-me a sufocar nas minhas crescentes responsabilidades, nas minhas constantes pressões sobre mim própria e nos meus planos para o futuro, enquanto olho à minha volta e toda a gente da minha idade está a usufruir do "bom da vida".

Normalmente, quando estou assim, é quando tomo as decisões mais malucas ou arriscadas para mim. Ainda não saí bem desse estado e ainda não sei o que vem por aí, mas de uma coisa eu sei - ou soube, naquela altura: eu precisava de sair de casa durante um bocadinho. Não tenho possibilidade de tirar férias para já, pelo que já tinha um dos fins-de-semana que se avizinhavam como alvo. Já andava a dizer aos meus pais para irmos a algum lado, fiz uma lista de sítios bonitos em Portugal onde queria ir e estava à espera que os dias chegassem e a meteorologia ajudasse. Mas acabou por resultar mais cedo do que pensei.

Há dois fins-de-semana atrás rumamos por isso até Palmela. Porquê Palmela? Nem eu sei. Foi quase olhar para o mapa, ver uma pousada bonita e seguir viagem. Acho cada vez mais que tenho de conhecer melhor o meu país, já que conheço cada vez mais do mundo. É hipócrita andarmos por aí em aviões quando, a poucas horas de carro, temos tantas coisas incríveis para ver. Tenho especial interesse no interior do país, mas as temperaturas mais altas e o bom tempo arrastaram-nos mais para a região centro, que eu também não conhecia. Tantas vezes fui a Lisboa e nunca tinha posto um pé em Setúbal. Enfim, agora já ;)

O roteiro do fim-de-semana foi simples: Palmela, Serra da Arrábida, Sesimbra, Setúbal, Óbidos, Caldas da Rainha, Mealhada e de volta ao Porto.

 

A nossa visita por Palmela resume-se ao castelo, que ficava a um minuto do sítio onde dormíamos. Aliás, a pousada fica mesmo dentro das suas muralhas. Acho que, tal como a maioria das pousadas, não é super barata, mas é excepcionalmente bonita; os quartos são muito agradáveis e o pequeno-almoço muito bem servido para a dimensão do espaço. Não tem piscina (nesta altura também era a última coisa que queríamos) mas no verão o claustro da Pousada (que foi em tempos um convento) deve ser o sítio ideal para se ler um livro em pleno sossego.

No interior do castelo tem várias lojinhas e um restaurante, bem classificado nos sites conhecidos, mas que estava fechado quando lá fomos (assim como os restantes espaços comerciais). Há, no entanto, uma vista boa para desfrutar e uma série de recantos por entre as muralhas giros de se explorar. Antes de se subir para o castelo há também a indicação de um miradouro, onde se vê, por um lado, a cidade e por outro as serras.

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A vista da cidade

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A vista das serras

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Dentro do Castelo

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A vista do meu quarto

 

No sábado fomos imediatamente ao sítio que eu mais queria ver: Portinho da Arrábida. A minha reação combinou com aquelas águas - foi um banho de água fria. Sim, a cor da água é incrível, mas não passa muito disso. Passamos por várias praias, descemos mesmo até ao Portinho e eu só pensava "é só isto?". Não sei se parei nos lugares errados, se ia com as expectativas demasiado altas ou se tinha simplesmente uma ideia errada do que ia ver, mas nada na serra me tirou a respiração como eu esperava.

Ficamos os três um bocadinho sem graça depois daquela desilusão e deixamos de ter planos. Fomos vendo as placas e seguimos até onde as estradas nos levavam. Primeiro paramos no Castelo de Sesimbra, onde não exploramos muito, mas vimos um dos cemitérios mais curiosos onde já estive - pequeno, com uma organização muito aleatória mas mesmo junto à muralha, dentro do Castelo. Depois vimos a indicação do Cabo Espichel e decidimos seguir caminho até lá. Aquilo sim, era o que esperava. Achei o sítio lindíssimo, uma lufada de ar fresco, fez-me lembrar as praias do Adriático (ainda que à distância). 

 

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A vista do Castelo de Sesimbra

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Cemitério do Castelo junto à muralha

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Cabo Espichel 1

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Cabo Espichel 2

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Cabo Espichel 2

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Igreja no Cabo Espichel (bonita por dentro)

 

Depois disto foi uma confusão. Já eram 13h30 e queríamos almoçar. Pensamos ir a Sesimbra - sítio onde nenhum de nós havia estado mas que sabíamos ser bonito - e seguimos caminho até à marginal, onde havia muitos restaurantes. O problema é que, dado o belo dia que estava, também havia muitas pessoas, muitos carros e zero lugares para estacionar. Já em desespero de causa decidimos pôr o carro num parque coberto - e a experiência foi tão desastrosa que eu até fixei o nome do dito: Parque da Praia da Califórnia. Nunca vi nada assim. No primeiro andar não havia lugares e não havia saída, obrigando a uma inversão de marcha mal parida quando queríamos sair (isto nem devia ser permitido... em caso de incêndio fica lá tudo); a cancela do segundo andar não abria, mas não havia qualquer indicações disso; o terceiro andar era para hóspedes de um hotel; no quarto deu para estacionar mas, quando percebemos que não havia elevador, arrepiamos caminho (o meu pai não consegue fazer esse tipo de esforços) - e quando fomos obrigados a voltar a fazer inversão de marcha dentro do parque para ir embora, demos de caras com um casal escondido atrás de uma parede, que ou estava a namorar (embora a posição não o indicasse) ou estava à espera de ter os carros à sua mercê para poder "explorar". Eu, quando cheguei ao segundo andar, já estava a dizer para irmos embora - todos os meus instintos de defesa (e acreditem que tenho muitos) gritavam para que eu saísse dali para fora. Foi dos parques mais manhosos, mal iluminados e estranhos que entrei em toda a minha vida. E só descansei quando saí de lá.

Depois disso seguimos até Setúbal, onde almoçamos (e depois à noite voltamos). Provei, finalmente, o famoso choco frito! Não sei se foi daquele prato em particular, mas achei o choco muito gordo e grande, estava à espera de algo mais pequeno; também já não estou muito habituada a tanta fritura numa só refeição, mas de facto é um bom petisco. Para comer uma vez por ano, talvez ;) Também não me escapou a torta de azeitão (boa) e o doce do abade, que não me caiu tanto no goto. À noite fiquei-me pelo peixinho grelhado, que parece ser o ex-libris de Setúbal - as montras acabam por ser parecidas com as que vemos aqui em Matosinhos (e eu adoro peixe!), mas os preços são bem mais apetecíveis lá do que aqui.

Entre o pouco tempo que tivemos entre o almoço tardio e o jantar, demos uma volta pela marginal de Setúbal e, mais uma vez, fomos levados pelas placas até ao Moinho de Maré da Mourisca. Infelizmente chegamos já à hora de fecho, mas ainda conseguimos entrar e ver as mós, embora tenha sido só mesmo entrar com um pé e sair com o outro. Há um café no exterior agradável e toda a envolvente é também muito bonita, com o Sado à nossa volta (embora fosse "pouco" Sado, devido à seca). Ainda passeamos e fomos até ao observatório dos pássaros, onde não vimos grande coisa, mas que compensou pelo passeio.

 

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Setúbal

 

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Moinho de Maré da Mourisca

 

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O Sado um tanto ao quanto pantanal no Moinho de Maré da Mourisca, onde supostamente havia pássaros para observar

 

No dia seguinte rumamos a Óbidos, onde eu já queria ir há muito tempo, mas de onde passo a vida a fugir por haver todo o tipo de eventos que enchem aquilo até ao tutano. Achei que estava safa por ser início de ano e qual não é o meu espanto quando vejo cartazes sobre a festa do chocolate que começava nesse fim-de-semana. Arg! Para minha sorte não estavam multidões gulosas prontas para entrar na vila, pelo que foi tudo mais ao menos tranquilo. Não explorei aquilo como queria (estava imenso calor e nós estávamos vestidos para um dia de inverno rigoroso, estávamos com fome e os altos e baixo não são bons para o coração do meu pai), mas prometi a mim mesma voltar em breve. Acho que tudo tem a minha cara. Parece uma feira medieval constante! E, guess what... tinha pão com chouriço! E eu, como boa lontra que sou, não deixei escapar!

 

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Muito glamour enquanto comia o meu pão com chouriço. Mas não dá para esconder aquela esguelha de felicidade típica de lontra ;)

 

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Um autêntico altar dos livros, em Óbidos

 

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Óbidos

 

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Óbidos 2

 

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Óbidos 3

 

Antes de pararmos na Mealhada para almoçar, pedi só mais uma paragem: Caldas da Rainha. Estávamos perto e eu sabia que tão cedo não ia ter uma oportunidade destas. Eu sou doida por loiças e ali fica, nem mais nem menos, que a loja da Bordallo Pinheiro. Pior: tem um outlet! Ainda estivemos à espera que a loja abrisse e depois, com o carro cheio de loiça, rumamos a norte - enchemos a barriga na Mealhada e voltamos a casa. É bom passear, mas a sensação de voltar ao sítio onde realmente pertencemos enche-nos a alma. E dá-nos força para mais umas semanas na rotina-sem-rotina, que era aquilo que eu precisava.

 

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"A" loja

 

06
Mar18

Vamos pôr a conversa em dia sobre o Festival da Canção

Carolina

Este foi o primeiro ano em que vi o festival da canção. Acho que não fui caso único - muitos dos que nunca viram, começaram a ver; muitos dos que já tinham desistido, voltaram a assistir; e, pelo estilo da coisa, os que antes eram acompanhantes assíduos, agora já podem não achar graça à coisa. Digo isto porque para além de todo este fôlego que o Salvador Sobral deu ao Festival da Canção, é impossível não dar os louros à RTP, que deu uma volta de 180º ao programa. Se compararmos este novo formato com aquele em que a famosa Suzy ganhou, parecem ser duas coisas completamente diferentes - e é natural que os fãs de um não sejam precisamente os fãs do outro. Ainda que a diversidade musical continue a existir - não houve, este ano, nenhum exemplo "pimbalhão", mas podia - o antigo festival era muito mais "popularucho" e fraco, tanto em letras, como em melodias, passando por interpretes e mesmo autores.

E foram estes dois últimos factores que mudaram no formato - e que mudaram mesmo "o" formato. Diria mesmo que os autores e compositores foram a chave de tudo, mais ainda que os intérpretes. Isto porque, este ano em particular, acho que houve músicas incríveis com interpretações muito más. O problema é que as músicas têm de ser avaliadas como um todo e não se pode passar uma canção só por ela ter uma letra bonita. Para além disso, ouvindo apenas a música uma vez, aquilo que nos fica é a ideia que o intérprete nos passa (tanto vocalmente como fisicamente) - não conseguimos prestar a atenção devida à letra, nem à construção da melodia. Essa é a maior razão para muitas pessoas não terem gostado da "Amar pelos Dois" o ano passado - a figura do Salvador é estranha, com todas aquelas caretas e movimentos de mãos que muitas vezes o fazem parecer um autêntico totó. Se calhar, se a ouvissem na rádio, gostariam da música logo à partida: mas a presença do intérprete, naquele caso, pode ter sido um obstáculo.

Este ano não aconteceu o mesmo no que diz respeito à presença dos artistas, mas não tenho dúvidas de que muitas músicas foram altamente prejudicadas pela escolha do/a cantor/a. O exemplo mais óbvio é a música "Anda Estragar-me os Planos" que, para mim, tem a letra mais bonita de todas. É in-crí-vel. Mas a interpretação é feita de uma forma tão sorumbática, estranha, grave, meio monocórdica e pouco convicta que vai tudo pelo cano (a figura e a sua presença também não ajudam). A melhor forma de vermos isto é tendo um termo de comparação. Basta ouvir a interpretação da Joana Barra Vaz apresentada no festival e uma do Salvador, que ele colocou no seu facebook, e ver a diferença. Esta música, na voz dele, voltava a ganhar os prémios todos.

O mesmo acontece com a "Só Por Ela", de Peu Madureira. A letra é muito bonita, a melodia também - mas aquele estilo faduncho deu um tom pesado à música, quando ela, cantada docemente, se torna algo completamente diferente. A prova? Está aqui, no instagram da Carolina Deslandes, que a interpreta incrívelmente. Não tenho dúvidas que esta seria a música vencedora se tivesse sido ela a cantar. Sei que havia muita gente fã da música conforme ela foi apresentada, mas acho que não batia a cara com a careta. Faltava ali algo. E aquilo não era fado, mas também não era outra coisa qualquer. Era incoerente e de certa forma inconsistente. E a música, mais uma vez, não era a culpada - mas sim quem a cantou.

Mas falemos da vaca fria: a música vencedora. Estão prontos para o que eu vou dizer a seguir? De certeza? Estão bem sentadinhos? Então pronto: eu gosto da canção. Mais uma vez, não adoro a interpretação. Mas como disse, neste caso, não temos outra hipótese senão avaliar as composições como um todo - e de tudo o que nos foi apresentado na final, esta foi a que eu mais gostei. Para mim, "O Jardim" e a "Para Sorrir Não Preciso de Nada" - as que estiveram taco a taco para vencer - têm imenso em comum. Tanto a voz da Catarina Miranda como a Claúdia Pascoal são dois vidrinhos - parece que se vão partir a cada nota que atingem. Eu não sou apreciadora desta característica, nao adoro vozes frágeis e muito menos quando se posicionam lá em cima, nos agudos - e, na verdade, acho que também o público gosta de vozes mais seguras. Em ambas há a sensação de que desafinam, quando na verdade (pelos a mim, que não sou um expert) elas simplesmente tremem com a voz, porque é assim que cantam. Se isso dá um efeito estranho? Dá. Se acontece mais com a Claúdia Pascoal? Acho que sim. E acho que a Catarina Miranda terá outra imponência, tanto na voz como na presença, mas no final foi a música que contou. Nem sequer vou avaliar se a emoção da Pascoal é, ou não, sincera (já vi muito escrito sobre este tópico); para mim, prevalece o facto da letra ser mais bonita, fazer mais sentido, ter dor, luto e esperança nela contida. Na outra música, não sinto grande coisa. Mas, curiosamente, outra coisa que penso que têm em comum é o facto de primeiro se estranharem e depois se entranharem - não gostei de nenhuma delas quando as ouvi pela primeira vez, e fui apreciando à medida que as fui ouvindo e conhecendo melhor (ao ponto de já ter feito uma versão minha, ao piano, d'"O Jardim).

Aquilo que ninguém podia esperar era que acontecesse o que aconteceu o ano passado. É verdade que o festival melhorou imenso, mas não podemos ter sempre músicas brilhantes; não podemos ter sempre combinações música-autor-compositor-arranjo perfeitas. Eu lembro-me como se fosse ontem da minha pele de galinha quando ouvi apenas cinco segundos da "Amar pelos Dois". E isso é raro. E se não ganhámos a Eurovisão durante cinquenta e tal anos, também não podemos agora exigir, quais ditadores, que ganhemos outra logo de seguida.

Eu não conheço as músicas dos outros países, não sei a competição que vamos ter, mas por todas as razões e mais algumas penso que não vamos trazer o troféu para casa. O trabalho da Isaura e da Claúdia Pascoal vai ser ingrato, pois vão estar sempre na sombra do Salvador Sobral e à luz de todas as comparações. Mas não acho que vamos fazer má figura. Pelo contrário. Mais uma vez, acho que é uma música que sabe tocar, mesmo quando não sabemos o que está lá "escrito"; tem alguma alma e só precisa de ser aceite e mais rapidamente entranhada, em vez de estranhada. E acho injusto tudo aquilo que se anda a escrever, entre plágios (a sério? agora virou moda?) e artistas dizendo que "esta canção não representa o povo e a cultura portuguesa". O que é uma música que representa um povo? Vamos lá cantar o hino? Vamos falar do bacalhau e dos pastéis de nata? Da corrupção e do Palácio de Belém? Dos Descobrimentos e do Pedro Álvares Cabral? É como no ano passado, quando meio mundo dizia que a música do Salvador não era música de festival. Pois não era. Talvez por isso é que ganhou.

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