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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

17
Fev19

Uma carta ao... #4 Instagram

Carolina

Caro Instagram,

 

Acabei de passar uma semana inteirinha com os meus sobrinhos, por isso encarnei um bocadinho a vertente de "mãe", sentindo-me na obrigação de os educar sempre que achava necessário. Essa onda ainda não saiu de mim, por isso vais ter de levar um sermãozinho neste domingo. Então é assim:

Vivemos na época das igualdades. As mulheres já votam; os salários querem-se iguais entre os dois géneros. Por falar em géneros: já há quem não seja homem nem mulher, e está tudo bem com isso. Já é permitido em muitos países o casamento entre pessoas do mesmo sexo. As mulheres podem ser trolhas e os homens dançarinos; as mães podem ir trabalhar e são os pais a desfrutar da licença de parto. Pessoas normais tornam-se figuras publicas em dois tempos, utilizando plataformas democráticas e onde todos têm acesso. Agora eles cozinham e elas lavam os carros; eles depilam-se e elas deixam de se depilar. As mulheres podem bem ser o sustento da família e eles pais a tempo inteiro. Há mulheres na política e na liderança de empresas - e há homens também. Tudo dá para os dois lados, ou para todos os lados. O acesso a tudo quer-se democratizado e justo, sem diferenças ou discriminação.

Mas tu, rede social da nova geração que ajudas a veicular muitos destes valores, és o primeiro a discriminar. Primeiro, passei meses sem poder pôr músicas nos instastories - não havia atualização ou desinstalação que me valesse, estava condenada a ficar com o mísero som dos meus vídeos. Mas, mais grave que isso, é não conseguir pôr swipe up quando quero dirigir os meus leitores aqui para o estaminé. "Ah e tal, só com não sei quantos mil seguidores é que essa função fica ativa". Porquê? Porque é que os fixes, os famosos e os populares é que têm direito? É uma lógica estilo Blogs do Ano, em que se promove ainda mais quem não precisa de se promover? Facilitar a vida a quem já a tem simplificada, porque já tem um alcance orgânico muito maior à partida? É só parvo, injusto e discriminatório.

Isto tudo para dizer que estás em contra-ciclo. E que estava na horinha de mudares de atitude, ouviste, meu menino? Ainda tu não tinhas nascido e já eu andava na escola, estás a perceber?

Então pronto. Fico à espera de mudanças.

 

Carolina 

(@carolinagongui para os amigos do insta que não podem ver os meus "swipe up")

 

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14
Fev19

Posso ser solteira? Por favor?

Carolina

Já há muito tempo que vivemos numa sociedade em que estar solteiro é visto como uma coisa má. Mas hoje, mais do que nunca, isso se evidencia - a começar pelos programas de televisão, altamente empenhados em arranjar "a alma gémea" de qualquer um, utilizando métodos altamente inovadores e de eficácia, digamos, duvidosa. Vejamos: casar pessoas sem elas nunca se terem conhecido (Casados à Primeira Vista), fazer dates em restaurantes (First Dates) e dentro de carros (O Carro do Amor) ou juntar uma dúzia de miúdos dentro da mesma casa para ver quem se engata primeiro (Love on Top). Para vir estão outras maravilhas como os serem os pais a eleger o novo namorado da filha, escolher (ou, neste caso, eliminar) potenciais parceiros tendo por base o aspeto das suas partes iíntimas (Naked Attraction) ou ainda ter conversas muito intensas e profundas com um "match" enquanto estão deitados numa cama... usando apenas lingerie. Tudo formas maravilhosas de se conhecer a fundo uma pessoa, não é? 

É engraçado como toda a gente parece estar ansiosa por arranjar alguém mas depois desencanta as formas mais escabrosas e descabidas para o fazer. Os programas são claramente a nova moda, mas também podíamos falar do Tinder, do facebook e afins. Acho que o problema principal é o objetivo ser, à partida, encontrar alguém com quem ter uma relação amorosa - passa-se logo à frente uma possível amizade, logo aniquilada por se dar um passo maior que a própria perna. Mas estas são, provavelmente, as mesmas pessoas que se queixam de já não haver relações a sério, com um bom fundo, que é tudo feito com base em questões superficiais. Querem o quê, se os escolhem os outros pelo tamanho das mamas ou se põem o futuro nas mãos de produções de programas que nunca vos viram à frente?

Neste momento a pressão da sociedade para se arranjar um/a companheiro/a é de tal forma que nós quase que nascemos com essa ambição máxima. Já não precisamos que nos digam que só se é feliz quando se partilha a cama e a vida, isso já nos está embutido. A pressão é nossa. Não vale a pena dizer "deixem os solteiros em paz" quando são a maioria das vezes eles próprios quem mais se impõe para mudar de estado civil - e, aparentemente, agora vale tudo. Já não sabemos estar sozinhos.

Eu sou solteira por defeito - defeito por ter nascido assim, solteira, sem amarras (no sentido de default) e por não ter paciência, tolerância e disponibilidade (mental) para dedicar tanto tempo a alguém (no sentido de falha de personalidade). Vejo todo este fenómeno com alguma estranheza e, confesso, alguma impaciência. Já não tenho pachorra para quem me pergunta se tenho namorado, se anda "mouro na costa" ou quando têm claramente mais vontade de me ver casada do que eu própria tenho. E este Dia dos Namorados lembra-me sempre isto, esta necessidade contemporânea de atualizar o estado de uma relação no facebook e de partilhar fotos mimosas de mãos dadas.

Acho graça como tanta gente critica ultimamente o Natal, por se ter tornado numa festividade comercial, mas mal pensa nisso relativamente ao São Valentim, que não é nada mais do que comercial. É curioso ver como este é um dia que já temos muito enraizado na nossa vida, até mais do que alguns feriados. Quando olhamos para os nossos calendários em Fevereiro já sabemos que ali para o meio está o dia mais piroso do ano. E é de tal forma que não deixamos de o celebrar (penso que em grande parte por termos medo que a "nossa metade" fique triste por deixarmos passar esta data em branco).

E isto é um cliché, mas é verdade: o dia dos namorados, do pai, da mãe, dos irmãos e dos avós devia ser todos os dias. Não devíamos precisar de reminders para isso. E gastar 50 euros por cabeça num jantar só para provar que é amor serve de muito pouco. O mesmo se pode dizer daqueles peluches enormes, pirosos, que eventualmente vão acabar no sótão porque não há sítio melhor para os pôr. Ah, e das rosas, que pagamos neste dia ao quíntuplo do preço daquilo que pagamos nos outros 360 dias do ano (há que contabilizar o dia anterior ao dos namorados, cujas vendas aumentam à custa dos mais precavidos, e o dia da mãe e respetivo dia anterior, que segue a mesma lógica comercial). 

Não quero ser aqui a velha do Restelo, mas gostava de relembrar nascemos sozinhos e morremos da mesma forma - com ou sem anel no dedo, papéis assinados, com ou sem averbamentos na nossa ficha do registo civil. Acho bem que nos divirtamos pelo caminho e, quem quiser e tiver disposição, que o partilhe com alguém de quem gosta - mas esta pressa, esta necessidade quase absurda de se ter alguém faz-me muita comichão. 

Posto isto, resta-me desejar-vos um bom dia dos namorados. Para os comprometidos, para os que "é difícil", para os que têm amigos coloridos ou room-mates. E, claro, para os solteiros. Lembrem-se que os 50 euros que gastariam entre flores, jantares e bonecada dá para uma mariscada das boas. Não é bem a mesma coisa, mas dá para um orgasmo gastronómico. Digam lá que é mau? 

 

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12
Fev19

Antes um calendário da Pirelli que do Benfica

Carolina

Estou agora a imiscuir-me no meio industrial. Nasci no seio dele, mas há coisas que há quinze anos atrás me passavam ao lado - e ainda bem, porque não tinha sequer idade para as perceber. Coisas tão simples e tão complexas como a relação patrão-colaboradores ou a própria interação dos empregados entre si. Quando era criança achava mais graça aos processos e não estava tão preocupada com esta vertente, que agora me é essencial, tendo em conta que estou a tentar assumir o papel de liderança dentro de uma empresa. 

Aprendi muito na minha passagem pelo jornal, quanto mais não fosse porque ouvi muitas opiniões (que eu às vezes concordava, outras não) e vi outras empresas, transpondo agora um bocadinho desses conhecimentos e daquilo que vi para a minha realidade atual e tentando tornar isto o melhor possível.

Há uns dias, enquanto tentava aprender um dos processos aqui da fábrica, deparei-me com uns cartazes e calendários do "Benfica Campeão" colados numa das paredes. Ora o tetra, ora a reconquista, ora o penta que aí vinha - não sei, nem olhei bem, vermelho e branco não é a minha praia. Mas fiquei a matutar naquilo e como não gostava da imagem que aquilo transmitia. E não, não é por ser do Benfica: podia ser do Porto, do Sporting ou do Leixões. É por ser de futebol. Veio-me à memória um escritório da fábrica onde cresci, quase pintado de azul e branco da cabeça aos pés, como quem grita "este escritório é de um portista doente". E isso não é bom, porque no futebol quase todas as reações, discussões e opiniões saem diretamente do coração. E, numa empresa, aquilo que queremos é cabeça.

Lembro-me perfeitamente de uma vez, no Leroy Merlin, ter mandado uma piada sobre o Benfica a um colaborador que estava a ajudar a carregar para o nosso carro umas placas pesadíssimas que viriam a forrar a piscina. Não sei o conteúdo da piada, da boca, da indireta ou da brincadeira, creio que até foi ele que começou e eu não me deixei ficar, mas lembro-me perfeitamente do desfecho: o senhor deixou o carrinho e foi-se embora, deixando-me a mim e à minha mãe a carregar aquele peso bruto. Tudo por causa do futebol. Escusado será dizer que, de cada vez que vou a uma destas lojas, me lembro da gentileza e racionalidade deste homem, que manchou a imagem do sítio onde trabalha por uma atitude parva e irrefletida.

Há quem critique as pessoas por adornarem as secretárias com as fotos dos filhos, quem deteste ir a oficinas automóveis porque se depara com calendários cheios de mulheres em poses indecentes. Pode ser piroso e revelar muito sobre quem os tem, mas não há muito a comentar sobre isso. Já coisas com teor futebolístico são, para mim, bem piores, pois criam cisões graves à partida entre as pessoas, sem estas sequer se conhecerem. Um cartaz de futebol é uma posição expressa de um gosto clubístico e pode criar pequenas guerras perfeitamente desnecessárias. Então e se as pessoas que partilham o mesmo espaço não forem todas do mesmo clube? E se alguém doente por um outro clube visitar o sítio em questão e se puser a mandar postas de pescada sobre o golo mal anulado do jogo de domingo? É irreal pensar que alguém que se dá ao trabalho de colar posters ou adornar o seu escritório com coisas do seu clube não vai ripostar a um desafio desse género. E muito dificilmente uma conversa destas vai ter a algum sítio bom ou culminar com elogios e uma ideia positiva de quem está do outro lado.

Não quer isto dizer que vá andar por aí a tirar posters alheios das paredes ou acabar com pregões clubísticos, qual extremista. Mas, a longo prazo, preferia que eles não existissem. Mal por mal, tragam os da Pirelli.

07
Fev19

Deus escreve direito por linhas tortas

Carolina

Não me lembro de, em miúda, querer ser muita coisa "quando fosse grande".  Recordo-me, sim, das duas principais profissões que sempre disse querer ter: primeiro, ser engenheira informática, como o meu irmão; depois, trabalhar na têxtil, tal e qual como o meu pai. Pelo meio tive algumas epifanias: professora de música, veterinária (esqueci a ideia quando uma prima mais velha me disse que tínhamos de pôr o braço in-tei-ro dentro do rabo de uma vaca), decoradora (só porque  achava que fazia um trabalho formidável no Sims) e acho que me passou pela ideia ser cabeleireira, um pensamento breve mas claramente egocêntrico, uma vez que tinha como objetivo não ter de passar pelas mãos de profissionais alheias que me cortavam mais do que os 7 milímetros de cabelo que eu achava serem adequados e que eu impunha como máximo de corte. Já não se pode dizer que fosse muito miúda quando a escrita e o jornalismo apareceram no horizonte.

Há uns meses, numa limpeza geral que fizemos nos arrumos, em que deitei centenas de quilos de papel fora (sem exagero), apanhei o primeiro jornal que alguma vez fiz, ainda no primeiro ciclo. Chamava-se "Notícias da Cidade", era um jornal de parede e tinha artigos sobre o que ia acontecendo na escola, que não passava muito da cena de pancada que tinha havido entre o António e Luís, com direito a relatos das auxiliares que separaram os dois meninos - eu sei, muito informativo... Lá pelo meio encontrei ainda o segundo jornal que desenvolvi, que teve mais de uma dezena de edições, chamado "Simple" - lembro-me bem de ir à reprografia e de fazer tabelas de custos, para pelo menos não ter prejuízo com a impressão. E enquanto folheava estes tesourinhos apercebi-me que a vida é um ciclo. É engraçado ver que nessa altura  estava a léguas de pensar em jornalismo - aliás, sempre fora uma aluna mediana a Português, não gostava nada de ler e os erros ortográficos eram uma constante - mas a verdade é que dois dos meus primeiros projetos "a sério" foram nessa área; mal eu sabia que uma década depois ia mesmo tirar esse curso e fazer parte de um jornal a sério!

Depois olhei para o presente e caí na real: então não é que hoje dou aulas de piano com regularidade? Que me chamam "professora" quando precisam de ajuda entre partituras e teclados? Que sou "a escritora da família"? E que estou, tal como o meu pai, no ramo têxtil? É verdade que não dei em decoradora nem em veterinária (embora, com seis cães , faça de veterinária quase todos os dias), mas a informática continua a ter um peso considerável na minha vida. Ah, já para não esquecer que corto a minha própria franja em casa, o que deve contar um bocadinho para a parte do "cabeleireira".

Agora fora de brincadeiras: a maioria dos emails que recebo na caixa do correio do blog prende-se muito com indecisões no campo profissional, ou ainda mesmo na fase dos estudos. Como tive um percurso um bocadinho atribulado penso que há muita gente que vê em mim alguém com alguma experiência para ajudar nestes campos. E se é verdade que ninguém deve ser infeliz a fazer um curso ou a trabalhar num determinado sítio, também o é que devemos ser resilientes e ter em mente o nosso objetivo final. É preciso pesar bem as coisas e tentar ter uma visão imparcial da nossa própria vida e situação emocional o que, obviamente, é tudo menos fácil. Aquilo que digo sempre é que os caminhos que percorremos não têm necessariamente de traçar o nosso futuro. Deviam ajudar, mas se não o fizerem, ninguém morre. A escola e a faculdade são um meio para atingir um fim. E o trabalho é algo que podemos mudar, desde que não nos falte a coragem e um meio de apoio qie nos ajude a sustentar essa decisão.

Lembro-me bem que, quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande, me diziam aquilo que os adultos dizem a todos: "mas não podes ser tudo! Tens de escolher! Umas coisas nem sequer têm que ver com as outras... É como dizeres que queres ser astronauta e florista, não funciona". E eu hoje venho dizer o contrário, que não é bem assim, e que a vida não tem de ser resumida a uma só coisa - até porque é um caminho, e todos nós sabemos que há muitas estradas diferentes que vão dar ao mesmo sítio.

Sim, é verdade: eu não vou viver a vida toda neste vai-não-vai. Eventualmente vou ter de fazer escolhas, deixar de me partir em muitas e de andar de um lado para o outro estilo barata-tonta. A gestão da minha agenda, entre dar e receber aulas de piano, as fábricas, o blog e a pós-graduação é coisa para, de vez em quando, me dar calores e muitas dores de cabeça. Mas ao menos posso dizer que fiz. Um dia quis ser jornalista? Já fui. Um dia quis ser professora de música? Já sou. Um dia quero ser como o meu pai e trabalhar na têxtil? Já trabalho. E cabeleireira? Não sou porque não quero, porque na verdade acho que nunca quis, e estou bem com isso. 

Sinto que a vida passou um lápis por cima de muitas das coisas que eu antes, em miúda, delineei a tracejado - quase como se faz naqueles livrinhos de crianças. Penso que tudo isto aconteceu por uma mistura de sorte, de disponibilidade e abertura da minha parte e por, de alguma forma, querer e fazer por isto. Ou então é mesmo o destino, sei lá. A verdade é que se calhar era tudo mais fácil se fôssemos seres coerentes, que tudo batesse certo e que fizesse tudo muito sentido na nossa vida, nos nossos gostos e nas nossas ambições. Mas as coisas não funcionam assim. E ainda bem, porque acaba por ser muito mais divertido desta forma ;)

03
Fev19

Uma carta à... #3 Primor

Carolina

Olá Primor,

 

Antes de mais, não tens de quê: estou prestes a revelar ao mundo que produzes a melhor manteiga que há no mercado, a Primor com Cristais de Sal. Não há palavras para descrever o quão bom é comer uma torrada, quentinha, e barrada com esta manteiga, até apanhares uma daquelas pepitas de sal que parecem deixar todo o sabor ainda mais intenso. Porque a verdade é mesmo essa: para quem gosta de manteigas salgadas (que é como quem diz, boas), não há cá President ou marca Continente que se safe. A tua é a melhor. Infelizmente é a melhor para o palato, mas não para o ambiente.

Acredita que eu percebo o conceito de produto premium - mal fora se não entendia, depois de já ter perdido a conta às aulas de marketing que já tive ao longo da vida. Percebo que queiras cobrar 1,39 euros por um pacote com 125 gramas de manteiga e tenhas de justificar o preço de alguma forma. Mas vender o produto dentro de caixas de plástico rígido, com a manteiga envolvida em papel de prata lá dentro, é só parvo. "Ah e tal, é para não ficar a saber a frigorífico - ninguém quer que uma manteiga desta altíssima qualidade perca o seu esplêndido sabor". Verdade - mas a pensar assim também todos os queijos, fiambres e coisas do género teriam de vir em caixinhas - e não vêm. Porquê? Porque 99% das pessoas têm uma coisa em casa chamada tupperwares que, veja-se só!, foram mesmo pensados para esse efeito: guardar coisas para que elas não se estraguem ou deteriorem.

Deves estar a pensar: "lá vem esta miúda com as teorias ecologistas da geração dela, que não percebe que precisamos de vender quer o mundo acabe ou não daqui a 200 anos". Não é verdade. Sou até bastante despreocupada em relação a este tópico, nada extremista (já me chega ser extremista em quase tudo o resto), mas acho que todos temos um cérebro e devemos pelo menos tentar rentabiliza-lo. Eu gosto de caixas, caixinhas e caixotas (basta entrar no meu quarto para se perceber isso), mas sou incapaz de dar utilidade às dezenas de caixas minúsculas que advém dessa embalagem. Já não tenho mais clips, totós, ganchos e molas para guardar; já nem sequer tenho mais espaço para empilhar caixinhas na eventualidade de vir a precisar delas no futuro. Sou obrigada a deita-las fora. E numa altura em que até querem abolir as palhinhas e os cotonetes, produzir uma caixa de bom plástico só por uma questão de vendas não é só parvo: é irresponsável.

Imaginemos que, de facto, as pessoas não têm tupperwares em casa (essas pessoas existem?!). Tudo bem, vende-se a manteiga com a caixinha. Mas para todos os outros que ou já têm sítio onde guardar ou que já compraram a vossa bela e durável embalagem com tampa dourada, a dizer orgulhosamente "Primor", a melhor ideia era vender a manteiga em separado. Até podiam baixar o preço por não terem de pedir tantas caixas ao vosso fornecedor, já viram? E, baixando o preço, mais pessoas provarão e ficarão viciadas na vossa maravilhosa manteiga. E mais vendas é sinónimo de mais dinheiro. E mais dinheiro é aquilo que a Primor quer, certo?

Apercebo-me agora que estou quase a dar um serviço de consultoria à distância e a custo zero, mas é para que se perceba o meu amor a este produto. Gostava muito de não o comprar com peso na consciência ou a pensar "e agora, onde é que vou utilizar mais uma caixa?!". Ou, pior, ver esta manteiga extinta do mercado porque é demasiado cara ou por não ter clientes que, ao contrário de mim, são mais radicais nestas coisas.

Pensem nisso. 

 

Obrigada,

Carolina, o meio ambiente e os arrumos de casa da Carolina que já não têm mais sítio para albergar caixas da Primor (as únicas que não agradecem são as minhas ancas, mas vamos optar por ignorar)

 

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01
Fev19

Um reencontro forçado - um texto do concurso de escrita criativa

Carolina

Dado o feedback sobre no último texto sobre o concurso de escrita criativa, aqui vai uma das minhas participações. O mote: um reencontro entre quatro amigos, 20 anos depois de se terem visto pela última vez.

 

A sua respiração estava pesada, depois de começar a subir a escadaria. Nestes momentos lembrava-se que já não tinha quinze anos e que a idade começava a pesar – nomeadamente nas suas pernas, que se faziam sentir depois de meia dúzia de degraus.

Ao cimo, um homem estava encostado ao corrimão, abatido. Quando chegou ao topo, viu-lhe a camisa apertada pela barriga, a cabeça calva e os olhos azuis, que naquele preciso momento deixaram de ser estranhos.

- João, não me reconheces? – disse, ainda a recuperar a respiração.

- Não posso crer! Joel, aos anos! – Encontraram-se num abraço ruidoso, por entre as palmadas características de quem não se vê há demasiado tempo. – Como estás?

- Pergunta mais “como estamos”. Velhos, pá. E gordos, olha só para ti… para nós! – respondeu, arrependendo-se logo do que dissera, esquecendo-se que já não estava a falar com o amigo de antigamente.

- É verdade… Enfim, pena encontrarmo-nos nesta situação. Como é que soubeste? – perguntou João.

- Li no jornal. Quis vir cá vê-lo. E tu?

- Também. É assim a vida… Está lá dentro o Manel, encontrei-o há pouco.

Entraram na sala escura e Joel sentiu um misto de sentimentos. Que bom era voltar a estar na mesma sala com quem partilhava as suas raízes; que triste ser esta a ocasião. Lá estavam os quatro, de novo, vinte anos depois. Os seus três melhores amigos da primária: João, o aventureiro; Manel, o dono da casa com o melhor quintal da vila; e o Carlos, o autor das histórias mais memoráveis. Que saudades tinha daqueles tempos, em que jogar à bola e saber quem seria a vítima das próximas tropelias era a maior das suas preocupações.

Hoje, arranjar flores foi o seu principal problema. Não podia deixar de se despedir do seu velho amigo.

31
Jan19

A minha experiência num concurso de escrita criativa

Carolina

A minha irmã diz que eu entro em tudo para ganhar - quem a ouvir, quase pensa que sou uma fera competitiva! Mas a verdade - aliás, a minha verdade -, é que gosto de dar o meu melhor em tudo o que faço. No entanto, entendo perfeitamente que se devem escolher as batalhas em que lutamos, porque ser-se bom a tudo é perfeitamente irrealista. Por exemplo: se eu, algures no secundário, ficasse chateada por perder todos os jogos que fazia em educação física, era hoje um pessoa em profundo estado de depressão.

Foi então com este espírito que me inscrevi, o ano passado, num concurso de escrita criativa. Nunca foi meu objetivo ganhar (até porque o prémio - publicar um livro - não me interessava, visto que não tenho nada escrito para publicar...), mas fi-lo pelo gozo da participação e para testar os meus próprios limites no que à escrita diz respeito. Isto porque, apesar de adorar escrever, sinto que não consigo sair muito deste meu registo pessoal e introspetivo, que resultam numa espécie de crónicas ou artigos de opinião, o que pode ser um grande entrave para um dos meus grandes sonhos, que é publicar um livro de ficção; sempre achei que a minha capacidade de imaginar histórias e narrativas que extravasassem a minha vida era muito limitada, e isso entristecia-me. E por isso atirei-me ao desafio, para ver se conseguia pensar fora da caixa.

Acho que nesse aspeto consegui superar-me, embora com algumas dificuldades. Eram-nos dados temas todas as semanas, que tinham depois de ser explorados em textos muito curtos, que de alguma forma tinham de contar uma história com princípio, meio e fim. Se adorei? Confesso que não, embora a culpa não seja tanto do conteúdo do concurso mas sim da sua forma. Vou elencar algumas das coisas que fui achando:

 

- Textos muito curtos, embora explorem a capacidade de síntese de quem escreve, são quase sempre redutores no desenvolvimento de uma narrativa. Se queremos contar a história toda, temos de cortar nos detalhes; se queremos dar detalhes, temos de sacrificar a história. É um meio termo muito difícil, ainda para mais quando a nossa escrita está a ser avaliada. Percebo que é importante para quem avalia impor uma medida pequena para que seja mais fácil a leitura, mas acaba por sacrificar um pouco o conceito do próprio concurso.

 

- Sinto que a avaliação não espelhava a qualidade dos textos e não os diferenciava entre si. Com isto não quero dizer que me tenha sentido injustiçada ou ache que os meus textos eram melhores que os dos outros; a questão é que todos eles - os meus e os dos outros - eram avaliados de forma praticamente igual. A escala de pontuações era de um a 20 - no entanto, era quase tudo despachado de 13 a 16. Faz lembrar aqueles professores que nunca dão 20, porque nunca ninguém chegará a atingir esse nível de genialidade. Acho que se há uma escala, é para ser usada em toda a sua dimensão, sendo que a partir do momento em que nos assumimos como avaliadores, não devemos ter medo de dar nem pontuações baixas, nem pontuações altas. Dar sempre 13, 14, 15 e 16, como dizia o outro, é "peanurs".

 

- Por fim, e ainda no campo da avaliação - e confesso que isto foi das coisas que mais me desmotivou -, o facto de me ter apercebido que ganhavam sempre as mesmas pessoas. Não vejam isto como mau perder da minha parte ou mesmo uma insinuação de qualquer espécie: mas eu acho estranho que, num concurso de escrita, ganhem quase sempre os mesmos. Escrever não é como na matemática, em que sabemos ou não sabemos; na escrita, há dias em que estamos menos inspirados, outros em que o tema não nos diz tanto, e ainda outros em que o estilo da narrativa que nos exigem não é a nossa praia. Acho difícil, num concurso com temas tão diversos, que as melhores pontuações sejam sempre para os mesmos. Percebo que se possa gostar mais de um estilo de escrita do que de outros, revelando aí já alguma tendência, mas que nesses casos deve ser atenuada com racionalidade extra e sensibilidade ao ponto de percebermos que um texto é bom e está bem escrito, ainda que não seja o nosso estilo de eleição.

 

E então o que é que retirei de tudo isto? Primeiro, que sou capaz de escrever outras coisas para além das que partilho aqui - embora sejam estas, sem dúvida, que me dão mais gozo (para além de serem as mais puras e as que mais me libertam a mente). Segundo, que me importo pouco se as pessoas gostam ou não daquilo que eu escrevo, a partir do momento em que me sinto confiante com aquilo que fiz.

A verdade é que produzia sempre aqueles textos sob pressão - de tempo e de número de palavras - por isso nunca pude mesmo dar vida a uma ideia, conforme teria gostado. Achei alguns dos temas interessantes e que teriam pano para mangas, se houvesse mais liberdade para os explorar - e com isto consegui perceber que até consigo desenvolver ideias e personagens, ainda que sempre um tanto ao quanto rebuscadas, o que me deixou mais descansada em relação ao futuro (embora a minha família tenha ficado um bocadinho preocupada em relação às minhas ideias mirabolantes, que eu por vezes partilhava à hora de almoço, para seu grande regozijo ou horror, dependendo dos casos). Não acho que vá voltar a participar em algo deste género, por me sentir demasiado restringida, mas acho uma ideia gira para quem quiser alargar os seus horizontes, criar hábitos de escrita ou até sair de uma crise de página branca. E, quem sabe, até pode ser o início de um bom livro.

(querem que publique aqui um dos textos que escrevi, só para terem uma ideia do que saiu dali?)

29
Jan19

Quem não quer um fotógrafo na sua vida?

Carolina

Rio-me muitas vezes com aquelas imagens que me aparecem inadvertidamente no Facebook a gozar com os maridos e namorados que passam as passas do Algarve para tirar uma foto decente à sua companheira (e, mais difícil que isso, uma fotografia passível da sua aprovação). É vê-los nas posições mais esquisitas, ora deitados ou a fazer o pino, ou até enfiados no mar (vestidos!), com água até à cintura, pela conquista do ângulo perfeito. E a verdade é que, de uma maneira ou de outra, com mais ou menos exageros, todos nós já assistimos a isto.

Eu acho que, principalmente as mulheres, sonham com a fotografia perfeita - aquela que espelha muitas vezes aquilo que elas não são -, sendo por isso irrealisticamente exigentes; mas ficam também legitimamente tristes por sentirem que os seus mais que tudo não conseguem (e alguns não se esforçam sequer para) captar a sua essência. A foto é uma transcrição da realidade - e se um namorado diz à rapariga que ela é linda, mas depois, quando precisa de captar uma prova disso, sai tudo mal e porcamente... Uma pessoa desconfia.

Depois de ter escrito o texto sobre o timing da escrita, lembrei-me de um post que tinha aqui há quase um ano, abandonado e inacabado algures nos rascunhos. Dizia a primeira frase: "Não tenho namorado - nem quero. Mas se um dia tiver, gostava que fosse fotógrafo". Escrevi-o depois de uma viagem a Lisboa, onde fui em trabalho para fazer uma entrevista, e onde testemunhei o trabalho de um fotógrafo incrível. A conversa decorreu num escritório normal, sem grandes decorações ou coisas bonitas - era apenas mais um escritório, com uma mesa e várias cadeiras, e respetivos copos de água para quando a sede apertasse. Mas depois, quando vi as fotos, fiquei de queixo caído. Não importava se o escritório não passava de um escritório, se a pessoa em causa era bonita ou feia - as foto falavam por si, e eram incríveis porque todos os ângulos foram escolhidos ao pormenor, porque eram visto pelos olhos de alguém especial. E a verdade é que isso já nasce com as pessoas - e embora os maridos de todo o mundo se possam esforçar muito, há quem não tenha esse dom. E nós, mulheres, temos de aceitar (o que não significa não pedir para nos tirarem fotografias).

"Os bons fotógrafos sabem tornar uma pessoa pouco bonita em alguém atrativo, conseguem dar vida ao que na realidade foi quase morto, sabem mostrar o importante, o impactante. E talvez isso se alargue à vida, na procura constante dos melhores ângulos para viver. E isso é incrível.", escrevi mais à frente. Porque, no fundo, quem não quereria ter uma visão constantemente mais bonita do mundo e de tudo aquilo que nos rodeia?

27
Jan19

Uma carta à... #2 TVI

Carolina

Querida TVI,

Temos de falar. O teu desprezo para com as crianças deste país é qualquer coisa de bradar aos céus. Para os adultos fazes novelas a torto e a direto, renovas as edições do Love on Top só para ver se passa mais sexo na TV e agora até já te adiantas nos preliminares com o novo First Dates (agora que penso, a tua desconsideração passa também por todos aqueles que não falam inglês e não conseguem perceber metade dos nomes de todos estes programas - mas enfim). 

Falemos então dos mais novos, esses que estão a levar com os mesmos programas matinais de fim-de-semana há mais de uma década. Por esta  altura, a Vila Rica do Banco dos Quatro já é "Conjunto de Freguesias das terras de não sei onde" e o bando já passou a ser uma associação contra o crime sem fins lucrativos; os jogadores do Campeões e Detectives já devem estar a chegar à idade da reforma; os miúdos do Detetive Maravilhas já desbotaram aquele diário mágico do avô depois de tanto procurar por soluções mágicas. E isto para não falar no Inspetor Max, um dos casos mais berrantes: vai-se a ver e o Tiago - filho do inspetor - daqui a nada já tem filhos (só eu sei como ficou este meu coração quando vi o rapagão em que ele se tornou) e a velha empregada de limpeza, a Justina, até já morreu...

Eu percebo a lógica por detrás disto: supostamente os miúdos deixam de ser miúdos, o que faz com que se fartem rapidamente de ver estas coisas, e a plateia vai-se renovando sem vocês fazerem nenhum, passando episódios em modo loop como quem não quer a coisa, à espera que ninguém repare. Pois eu, adulta que prefere assistir a estes programas a ver a missa de domingo (ou a deixá-los correr em pano de fundo enquanto tomo o pequeno-almoço), reparo - e estou aqui a dar o corpo às balas, depois de quase saber de cor os diálogos do Bando dos Quatro e companhia. Faço-o porque os miúdos, principais interessados nesta batalha, para além de não terem grandes meios para se expressar, escrevem quase todos com tantos erros ortográficos e de concordância que mal se perceberia o que quereriam dizer. E lembrem-se: nós somos jovens, temos a memória fresca, fica tudo cá dentro - não é como nos reality shows, em que repescam os concorrentes como quem recupera e fuma as beatas até ao fim, até não haver nada de útil que se aproveite.

A modos que é isto. Se querem continuar a repetir coisas, ao menos que troquem de programas e que deixem de nos tratar como se fossemos velhinhos com Alzheimer. Senão, daqui a nada, preferimos mesmo ver a missa - o discurso também é sempre o mesmo, mas ao menos temos mais probabilidades de ir para o céu.

Cumprimentos desta jovem,
Carolina

24
Jan19

A escrita tem um timing próprio

Carolina

Não deixa de ser irónica a história deste post. Lembro-me bem do dia em que o comecei a escrever: 15 de Novembro de 2018, rabo alapado no chão frio da copa da minha cozinha, enquanto esperava que a Molly tivesse os seus filhotes (agora tenho-a atrás de mim, a aturar um deles enquanto este lhe morde as orelhas por diversão).

Dizia eu, nessa altura, que me tinha apercebido que a escrita tem o seu tempo próprio e muitas vezes não funciona fora dele. Tenho a agenda cheia de temas para desenvolver aqui - coisas que aponto quando me lembro, mas que na altura não tenho tempo para escrever ou cuja ideia sinto não estar suficientemente madura para eu me debruçar totalmente sobre ela. E lá vai, mais uma, apontada a caneta azul turquesa ou rosa choque, ter com tantas outras que se ajuntam tristemente à espera da sua vez.

Quando finalmente tenho uma hora para estar em frente a uma página em branco, mesmo olhando para aquela página colorida com todos os tópicos quase a gritar "escreve-me!", nada sai. Já passou. Porque quando tive essa ideia estava num determinado local, com um diferente mind set, num enquadramento temporal distinto - e é impossível reproduzir de forma fidedigna essas circunstâncias, de forma a pôr alma e sentimento no texto. A oportunidade foi perdida.

E por isso cada vez percebo mais que, quando uma ideia surge, é agarra-la, sem desculpas. O meu conceito de liberdade e de qualidade de vida passa também por aqui: poder parar para pensar e escrever. Ter um trabalho que me permita faze-lo e, depois, arranjar a força de vontade para usufruir de tal - sim, porque nem só de falta de tempo se fazem as desculpas para não escrever durante dias a fio. 

Voltei a lembrar-me deste texto que tinha nos rascunhos quando, há dois dias, escrevi o último post, "Ainda há blogs com gente dentro". Gostei muito do resultado final - e, pelo feedback, vocês também - e isso deve-se em grande parte por não ter deixado a escrita para depois. Nunca aquele texto teria saído assim se eu não pudesse, na hora, descrever tudo aquilo que senti e me passou pela cabeça naqueles instantes. É a transmissão mais pura e sem filtros daquilo que vai dentro de mim, algo que acaba por não acontecer quando as ideias estão muito tempo em banho-maria. Há vantagens em pensar sobre as coisas (principalmente críticas e coisas mais sérias, que possam pôr em causa o nome de outros), mas não há dúvida que muito do que se ganha em construção de texto e maturação de ideias ao não escrever um texto na hora, perde-se muitas vezes em espontaneidade.

Isto para não falar das ideias que morrem no momento em que não são escritas. Porque como em tudo, há coisas que não sobrevivem fora do seu meio natural - e toda a gente sabe que as palavras são para viver no papel (ainda que papel virtual, como este aqui).

 

Serve portanto este post como uma espécie de walk of shame. Um texto sobre espontaneidade e a volatilidade das ideias, escrito dois meses depois da data em que devia ter sido publicado - que moral, hun?! Isto para não falar do facto de ter dado três vezes mais trabalho do que daria se tivesse sido escrito na íntegra na altura, ao invés de estar a fazer corta-cose entre as partes recentes e mais antigas do texto. Ouviste, Carolina?

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