Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

18
Ago18

Life is what happens to you while you're busy making other plans

Carolina

Tenho uma plaquinha aqui no quarto, que comprei numa altura em que fiz algumas remodelações, que diz "life is what happens to you while you're busy making other plans". Comprei-a porque a achei gira, não por ter pensado a fundo naquilo que dizia - até porque dizer-me para não fazer planos é quase como me pedir para não mudar de roupa todos os dias. É impossível.

Mas é inegável que enquanto fazemos planos para a nossa vida inteira, a própria vida se vai encarregando de dar as suas própria voltas. E eu voltei a ser "vítima" de mais uma volta da vida.

Decidi sair do meu anterior trabalho para poder ter um ano mais sossegado, dedicado à minha pós-graduação e à minha introdução no negócio de família. Queria, pelo meio, não ter de pensar nos 22 dias úteis de férias e poder meter-me num avião sem grandes complicações e compromissos (quase) sempre que me apetecesse e viver sem grandes amarradas ou responsabilidades. Como não sei como será a pós-graduação, como tenho medo da minha re-adaptação ao mundo universitário e ao estudo (do qual tenho zero saudades!) e como não tinha necessidade de estar a trabalhar de dia e a estudar de noite (o que, apesar de ser exequível, é cansativo), na altura decidi que era melhor assim. Teria tempo para mim, para os meus pais, para viajar...

Até que me ofereceram trabalho, numa área completamente diferente, e eu disse que sim - embora tivesse pensado muito em dizer que não, em ficar agarrada ao meu plano e à ideia que tinha concebido de um ano de "liberdade". Acho que a minha geração sofre de um grave problema chamado “juventude eterna” - estamos presos a um certo estilo de vida e não o queremos largar, tendo ainda por cima a desculpa de que hoje em dia não é fácil arranjar trabalho e ter condições financeiras para a vida andar para a frente e seguir o seu curso normal (estudar, trabalhar, sair de casa, ter filhos, etc.). Vejo muita gente da minha idade que ainda não terminou o curso - ou está a acumula-lo com mestrados, pós-graduações e especializações, de forma a eternizar a sua passagem pela universidade - ou que simplesmente está estagnada num estilo de vida-loka, porque não sabe admitir o fim de um momento. Ou porque não querem dar o corpo ao manifesto. Ou porque não querem responsabilidades de maior.

E eu não quero ser assim - mas admito que quando pensei neste "ano de liberdade" me agarrei às poucas boas lembranças que tinha da faculdade, que se prendem com a questão da liberdade de horários, a liberdade de faltar sem ter grandes consequências. E pus tudo na balança. Vou deixar de viver uma experiência completamente diferente, que provavelmente nunca mais terei oportunidade de fazer, só por estar agarrada a essa ideia? Por querer ter mais tempo (mesmo sem saber se, de facto, o teria)? Ou vou sacrificar, digamos, um ano da minha vida, que será concerteza mais atarefado mas também diferente?

Escolhi a segunda hipótese. A tremer como varas verdes, cheia de medo, mas escolhi. Não tendo, em dia algum, a certeza de que tomei a decisão certa. Tendo receio de falhar, de não ser boa naquilo a que a partir de agora me propus. De me chatear ou de roubar-me a mim mesma uma das coisas que ultimamente mais gosto, porque a tornei em trabalho em vez de lazer. Medo de andar eternamente cansada, medo de estar a tentar agradar a todos e a mim mesma, medo de estar a tentar engolir uma fatia demasiado grande de mundo e não a conseguir digerir.

Não sou boa a deixar planos nas mãos dos outros, mesmo que por “outros” se entenda o destino. Mas tenho orgulho em conseguir aceita-los, mesmo ficando paranóica com tudo o que pode correr mal; em dizer que “sim”, mesmo que as pernas tremam. A verdade é que apesar destas fintas que a vida dá, eu acho-lhes graça; as chapadas de luva branca podem doer, mas não lhes podemos tirar o mérito e a ironia. Trabalhei dois anos num jornal, depois de ter rogado pragas a tudo e todos que tivessem que ver com jornalismo; agora vou ensinar crianças (e não só) a dar os primeiros passos no piano, depois de sempre ter dito que crianças-cruzes-credo-nem-pensar-só-longe-de-mim.

Não sei como é que tudo isto vai correr, não sei onde vou encaixar a minha vida – a escrita, o ginásio, a minha família – no meio de dois trabalhos e uma pós-graduação. Mas se não conseguir, ao menos posso dizer que tentei.

02
Ago18

Tudo sobre a minha incrível viagem aos Açores (parte 2)

Carolina

Eu acho que há razões para tudo. Hoje, perguntando-me porque é que demorei tanto tempo a lançar este post - quando ele estava quase todo escrito há mais de uma semana - acho que cheguei a uma conclusão: este é o meu último post sobre São Miguel e eu não me quero despedir da ilha. Depois de descrever a sensação de viajar sozinha, o drama da natação com os golfinhos, de partilhar um vídeo, de mandar fazer um álbum com as fotos e de ter partilhado parte desta experiência, resta-me fechar este capítulo. Perdoem-me: encostar este capítulo. A porta só fica encostada, não a fecho. Voltarei aos Açores, conhecerei as outras ilhas. Por agora, o fim da descrição da minha viagem:

 

Fui ainda a mais duas lagoas. O processo de seleção dos sítios onde fui passou, primeiro, por uma pesquisa à priori - onde vi desde blogs às recomendações do TripAdvisor - e depois por, já in loco, olhar para o mapa e pensar "se eu quero ir para ali, pelo caminho passo por aqui e acolá e talvez seja interessante parar". Para além disso, houve algumas vezes em que parei porque vi uma placa algures e me apeteceu sair do carro e respirar ou fotografar a vista. Ora, a Lagoa do Congro já ia planeada; a Lagoa de São Brás foi decidida quando cheguei a São Miguel e foi a minha primeira paragem de todas, mal peguei no carro - e dei logo de caras com centenas de hidrângeas (também conhecidas por hortênsias), vaquinhas e paisagens magníficas, por isso foi um bom início.

 

Açores_cam (2).jpg

Lagoa de S. Brás

Açores_cam (59).jpg

Lagoa do Congro

Açores_cam (65).jpg

Lagoa do Congro

 

A Lagoa de S. Brás não é um espanto, mas é de um sossego incrível - fica bem alta mas toda a sua envolvência é relativamente plana (dando para ver toda a sua pequena extensão) e o caminho dá acesso direto à água (sendo possível contornar a lagoa quase na totalidade, se não me engano), sendo o sítio perfeito para um pic-nic sossegado enquanto se vigia de longe os patinhos e se vê a água a baloiçar com o vento. Não tem o espanto de outras lagoas, mas ainda me parece pouco explorada, por isso tem o seu encanto.

A Lagoa do Congro também ainda é muito "pura" e o caminho até lá chegar também ajuda a que fiquemos encantados pela natureza. Só se ouvem os passarinhos. Do sítio até onde se pode ir de carro até à lagoa é, talvez, um quilómetro de caminho. Não há muito a temer: o trilho está bem definido e não tem praticamente perigo nenhum, apenas um ou dois troncos de árvores caídos e umas descidas (quase com "escadas") que se tornam fáceis com o apoio de uma das mãos. Se eu consegui ir, ainda para mais sozinha, acreditem que toda a gente consegue! Aquando da chegada à lagoa o ângulo de visão não é perfeito (a menos que sejamos exploradores e aventureiros); o sítio mais popular, que tem acesso direto à água, dá apenas para ver parte da lagoa (devido ao seu recorte) que, ao contrário da de S. Brás, fica envolta em árvores e rochas, dando um ar muito mais "fechado". Não há muitos sítios para se estar sentado e sossegado, é quase um "photo-stop", para apreciar e ir embora - até porque o espaço para se estar é pequeno e a afluência de pessoas acaba por ser alguma, portanto são raros os momentos de silêncio que temos aqui. Para mim, parte da beleza deste sítio deve-se também ao caminho que percorremos até lá.

 

Açores_tlm (37 de 71).jpg

Vista das Sete Cidades do Monte Palace

 

Ainda voltei às Sete Cidades, noutro dia maravilhoso em que se conseguia ver a lagoa por completo. O guia da primeira tour, vendo-me interessada por fotografia e completamente apaixonada pela ilha, disse-me que eu tinha de ir ao Monte Palace porque era de lá que ia ter a melhor vista. Eu já tinha ouvido falar e feito as minhas pesquisas antes de ir, claro, mas entrar num sítio que diz "Perigo! Não entrar!" é coisa para me dar calafrios. Fi-lo pela conjugação de dois motivos: primeiro porque ele me garantiu que a vista era imperdível e segundo porque eu sei que em breve aquilo irá voltar ao ativo - as obras já estão a começar - e não haveriam muitas mais oportunidades para visitar o edifício. Então, contra tudo aquilo que seria meu costume, entrei. Filmei tudo com a GoPro - parte aparece no vídeo - e percebe-se perfeitamente que eu não estou minimamente confortável com tudo aquilo. Não sabia o que havia de esperar. Um edifício destes aqui no Porto, abandonado há não sei quantos anos, cheio de recantos e cantinhos, é meio caminho andado para albergar coisas que nem sempre são boas de ver. Mas acho que por se encontrar numa zona meio distante de tudo e por ser tão visitado por turistas, o edifício acabou por se tornar mais numa atração turística do que propriamente num sítio estilo albergue de sem-abrigo, consumo de estupefacientes e coisas do género. Não vi seringas nem esse tipo de objetos que espero encontrar num espaço destes - só umas garrafas de cerveja, que uns preguiçosos se "esqueceram" de levar para o lixo. Fora isso, não sobra nada do que era o hotel, com excepção de alguma alcatifa - nem um bocadinho da mármore das paredes, nem uma sanita... nada! O guia do dia anterior brincava dizendo que todas as casas de São Miguel tem alguma coisa do hotel, tal foi a dimensão da pilhagem. "Até os elevadores levaram!", contaram-me.

Isto quer dizer que todos deviam visitar o Monte Palace? Não. Levar crianças para lá é perigoso: não há proteções nenhumas, as escadas em caracol não têm corrimões ou apoios, o fosso do elevador está lá pronto para qualquer um fazer queda livre; um tombo em qualquer um daqueles lugares pode ser dramático. Neste aspeto, ir sozinha até foi bom: levei o meu tempo, avaliei o estado das coisas e todos os sítios onde fui e que pisei. Não me sentiria confortável em ir lá com "amigos-engraçadó-parvos", como vi alguns, que faziam barulhinhos "fantasmagóricos" e pregavam sustos uns aos outros. 

Mas vamos ao que interessa: a vista. Sim, é incrível. Eu não subi ao telhado, onde dizem que se vê melhor (não descobri o sítio), vi apenas de um dos quartos. É uma vista que eu gostava de ter desfrutado durante mais tempo mas eu não estava confortável naquele sítio nem com a sensação de estar a cometer uma infração. Vi, fotografei, dei meia volta e vim-me embora. Não sou, definitivamente, uma pessoa rebelde.

 

Açores_cam (71).jpg

A entrada do hotel

 

Açores_tlm (39 de 71).jpg

 O estado de degradação do hotel

 

Depois de ter ultrapassado este stress (passar aquela placa e aquelas fitas agitou-me!) fiz a melhor coisa que podia ter feito: fui andar de paddle. Era algo que já queria fazer há cerca de dois anos e nunca tinha tido coragem - e que melhor altura para me aventurar do que esta? Mais uma vez, devo a dica ao meu primeiro guia, que me disse, ao pararmos na ponte que divide a Lagoa Verde, que se alugavam kayaks ali, depois de lhe ter dito que adorava esse tipo de desportos. Não sabia muito bem onde ficava a entrada da lagoa, segui o meu instinto e sentido de orientação e acabei por chegar lá - claro, sempre prevenida com o meu fato de banho e restantes coisas na mala do carro. Foi aí que vi que, para além dos kayaks, também haviam pranchas de paddle. "Nunca fiz isto na vida. Acha que me aguento?", foi a única coisa que perguntei à menina antes de me atirar ao lago. Ela disse que sim. E fui logo de pé! Fiquei tão orgulhosa. Atrapalhei-me toda com a pagaia no início, com as trocas de braços e coisa e tal, mas quando me habituei, foi uma experiência inesquecível. Fiquei por lá pouco menos de uma hora: primeiro com medo de apanhar um escaldão (esqueci-me do protetor) e de, no dia seguinte, não me mexer com dores nos braços. Foi pouco, mas bom - e quase de borla! Dez euros numa prancha de paddle, aqui no Continente, daria para para uns quinze minutos... e com sorte. Continuo a dizer que não há silêncio igual àquele que se sente quando se está no meio da água, num sítio sossegado e lindo como este. E nunca ter caído subiu-me o ego. Ter feito isto sozinha, sem me preocupar se o outros viam ou avaliavam, foi outra das razões que me fizeram adorar ter feito esta viagem a solo.

 

Açores_GoPro (11).JPG

A fazer paddle na lagoa

 

Por falar em água, voltemo-nos para as praias. Visitei duas, ambas de passagem - mas ficou o bichinho para fazer lá praia, quando um dia for com mais tempo. A primeira foi a praia dos Moinhos e a segunda foi a dos Mosteiros - adorei a areia preta e é incrível como a tonalidade muda de sítio para sítio. Ah, e os brilhantes que a areia pode ter... parecem cristais nos nossos pés! Quando na água, dá um efeito lindo. De realçar que as estruturas adjacentes são incríveis - na primeira a que fui, os quartos de banho (com duches) eram bonitos e cuidados, havia lava-pés e um bar muito completo; na outra existiam cinzeiros disponíveis para quem quisesse, também um bar, e sempre nadadores salvadores a postos para qualquer eventualidade. Fiquei tão fã deste pack completo ao nível de praias! É verdade que são pequeninas e o tempo é instável, mas como nunca há muita gente e o tempo tanto muda para sol como chuva, vale a pena o risco :)

 

Açores_cam (8).jpg

Praia dos Moinhos

Açores_tlm (7 de 71).jpg

Praia dos Moinhos

Açores_cam (85).jpg

Praia dos Mosteiros

 

Ainda sobre o capítulo "água", tenho de falar da Ferraria - talvez o sítio que menos gostei, por ser aquele que vi com mais gente (de todos os que visitei na ilha). Naquela altura do campeonato eu já não estava habituada a locais com mais de dez pessoas, por isso fugi daquela pequena "baía" mal vi o cenário que me esperava. Não fui à água - era muita gente por centímetro quadrado -, que dizem ser espetacular, e nem sequer me sentei a ver as vista: o sítio que envolve a piscina natural pareceu-me muito desconfortável, com todas aquelas rochas vulcânicas que parecem legos quando as pisamos. Fui à hora certa, muito perto da maré vaza, mas percebi que este se tornou num dos sítios mais populares de São Miguel e preferi procurar outras belezas mais desconhecidas - se calhar "perdi" uma grande coisa, mas enfim. Outra das guias disse-me que havia um outro sítio onde havia um fenómeno semelhante, com águas do mar aquecidas, mas num sítio mais remoto e de difícil acesso - mas, estupidamente, não apontei o nome (se alguém souber, diga-me!).

 

Açores_tlm (44 de 71).jpg

A Ferraria cheia de gente

Açores_cam (79).jpg

O outro lado da Ferraria

 

Para fechar o tema, tenho de mencionar o Parque Terra Nostra. Sei que aquela água não cai no goto de todos, mas eu não tive problema nenhum em lá entrar - não sei se se nota muito, mas água e banhos é comigo. Infelizmente, pouco tempo depois de ter entrado, começou a chover torrencialmente - e o problema não está em estar dentro de água a chover (até sabe bem, o contraste), mas sim nas coisas que tinha ali perto e que iriam ficar encharcadas. Vi-me obrigada a sair da piscina maior e, pouco depois, quando a chuva abrandou, ainda dei um saltinho aos jacuzis, ainda mais quentes que a piscina. O ideal é ir em dias não muito quentes, senão a probabilidade de cairmos para o lado é maior. Falo por mim, mas acho que se aplica à generalidade das pessoas, quando digo que aquilo é óptimo, mas não pode ser por muito tempo: as tensões têm tendência para baixar e é fácil cairmos para o lado depois de uma banhoca que era suposto ser só relaxante. Eu enfiei-me quase mesmo até ao pescoço, para poder afogar os meus trapézios e suas queridas contraturas, e soube-me pela vida. E o sono que nos dá depois disto? Se houvessem espreguiçadeiras ali ao lado, para umas sestas depois do banho, era ouro sobre azul ;)

Sobre o Parque Terra Nostra, é obrigatório falar dos jardins, que são lindíssimos e super bem cuidados. Existem lá muitas espécies de plantas que eu nunca tinha visto na vida e ter um guia (ou alguém que nos dê uma contextualização da história do parque e de algumas espécies de flora lá presentes) é, sem dúvida, muito mais enriquecedor. Este correspondeu a um dos pontos de paragem da minha segunda tour, que fiz com a Picos de Aventura. Achei a guia simpátiquíssima (chamava-se Liane, gostei tanto do nome!), mas a tour anterior foi bem mais dinâmica. O facto de estar numa carrinha (em comparação com a outra, que foi de jipe) talvez não tenha ajudado. De qualquer das formas, é das empresas mais bem apresentadas e de confiança em São Miguel para inúmeras atividades.

Em suma: acho que esta é uma das paragens obrigatórias na ilha, tanto pelos banhos como pelos jardins.

 

Açores_cam (101).jpg

Os jardins à entrada do Terra Nostra - adorei aquelas plantas no lago, que parecem umas autênticas "bóias"

Açores_cam (106).jpg

A grande piscina quente 

 

 Açores_GoPro (21).JPG

De molho

Açores_cam (110).jpg

... e mais jardins

 

Açores_GoPro (24).JPG

... e mais molho (desta vez nos "jacuzzi's", ainda mais quentes que a piscina)

 

Nesse dia ainda parei nas Furnas (zona onde depois almocei o cozido) e nas plantações de chá Gorreana. Confesso que estava com medo das Furnas. Eu sou uma cheirinhas de primeira classe, todos os odores me incomodam (nem sequer consigo usar perfume) e imaginei que o cheiro a enxofre me agoniasse até aos ossos. A verdade é que sobrevivi sem problemas de maior. Só era dramático quando o vento levava aquele vapor cheiroso na nossa direção, mas de resto fez-se bem. Nunca fui louca por geologia (no 10º e 11º sempre fui mais fã de biologia), mas é incrível ver a terra a fazer a sua magia - e todo aquele ritual dos montinhos, com os tachos lá dentro, também é muito giro de se ver. 

Acho que a lagoa das Furnas é um bocadinho ofuscada por todo este fenómeno que se passa lá ao lado mas eu achei-a lindíssima e de uma paz tremenda. No dia em que fui o tempo estava mais fechado, mas mesmo assim a lagoa estava incrível. Também lá há gaivotas para alugar e se dar uma passeio pelas águas (não sei preços).

 

Açores_cam (91).jpg

Furnas

Açores_cam (96).jpg

Com o cozido que viria a comer ali atrás

Açores_cam (100).jpg

Lagoa das Furnas

  

Quanto às plantações de chá também acho essencial levar alguém que nos explique o processo, uma vez que se pode visitar livremente a fábrica e os campos (estes últimos dão fotos incríveis se tivermos a ajuda de alguém minimamente prendado e paciente) mas que não há visitas guiadas feitas pela própria fábrica. Se não levarmos ninguém ou se não formos com conhecimento prévio, nos campos só vemos arbustos aparentemente normais e na fábrica só máquinas cujo funcionamento não percebemos (até porque não há grandes informações em lado nenhum, apenas um vídeo explicativo numa das salas do edifício, que as pessoas podem assistir caso não estejam acompanhadas por alguém que conheça o processo). Confesso que estranhei este conceito de visita (no fundo, focam-se simplesmente em vender o produto, não ganhando dinheiro extra noutro tipo de serviços adjacentes) mas depois percebi que noutros países é bastante comum e que acontece também noutros pontos da ilha, como a Fábrica de Cerâmicas Vieira (onde também fui, no último dia, porque estava a chover). 

Infelizmente, no dia em que visitei a Gorreana, as máquinas não estava a funcionar portanto tive de usar a minha imaginação enquanto ouvia as explicações da guia. Vimos as senhoras a fazer a triagem das folhinhas (com um ar muito chateado e um tanto ao quanto ralado por estarem a ser observadas por tantas pessoas) e no fim devo ter trazido mais de quilo e meio de chá para a família inteira. Compensou a visita!

 

Açores_cam (117).jpg

Nas plantações de chá

Açores_cam (118).jpg

 Fábrica do Chá Gorreana

 

Açores_tlm (68 de 71).jpg

 Na fábrica de cerâmicas Vieira

 

Só no último dia é que fui dar uma volta pela cidade, aproveitando que o tempo não estava com ar de muitos amigos. Confesso que, com tanta beleza natural, a cidade em si - e eu posso visitar tantas! - passou para segundo plano. Acho que é paragem obrigatória a igreja principal e as portas da cidade. Já contei isto no meu instagram (quem é que ainda não me segue?! @carolinagongui) mas, no dia em que cheguei, o senhor que me levou do aeroporto para o hotel contou-me uma "lenda" que diz que se passarmos por debaixo das portas da cidade uma vez, voltamos a São Miguel; se passarmos três, casamos com um açoriano. Pouco depois, perguntei-lhe de onde ele era, pois não lhe notava o sotaque característico. Disse-me que era do Alentejo mas que vivia ali há trinta anos; não sabia da tal história, passou debaixo das portas três vezes, e casou-se com uma açoriana que o fez mudar para a ilha ;)

Eu, por via das dúvidas e para não desafiar o destino, passei duas: por um lado para garantir que voltaria a São Miguel, por outro para ver se nenhum açoriano me roubava o coração.

Açores_cam (120).jpg

As portas da cidade

Açores_tlm (55 de 71).jpg

A igreja matriz

 

Acho que Ponta Delgada ainda tem muito por crescer e isso nota-se nos pequenos pormenores - principalmente no que diz respeito ao turismo, não tanto para os açorianos. Queria trazer uns souvenirs para casa e só encontrei uma loja com coisas diferentes (uns peluches em forma de baleias, uns postais mais fora do comum e outras coisas giras) - de resto, tudo muito clássico e com um ar quase "velho". Por um lado é bom, sinto que não venderam a alma ao diabo e que não fazem de tudo para vender, mas por outro é curioso percebemos que há uma margem de crescimento grande. No centro há uns cafés e esplanadas agradáveis para se ficar e há sempre uma banquinha que vende gelados perto de nós, óptimo para nos saciar de alguma gulodice.

Ainda fui ao mercado (sofri com o cheiro no Rei dos Queijos, mas fui para que a minha família pudesse comer queijos da ilha - é amor!) e adorei a simpatia de todos. Ainda trouxe um ananás (nunca tinha comido ananás dos Açores, por muito estranho que pareça) e comprei uns pézinhos de maracujá amarelo, ananás e uma flor qualquer para a minha mãe plantar aqui no jardim - depois de uma conversa longa com o vendedor, que me explicou como plantar cada uma das espécies de forma detalhada. Ainda houve tempo de passar na peixaria e de ver as maiores lulas que alguma vez me passaram à frente. Incrível a variedade do mar dos Açores! Vale muito a pena passar lá.

 

Açores_tlm (57 de 71).jpg

Há muita (e boa) arte urbana nos Açores. Vale a pena estar atento às paredes!

 

 

Sobre a comida

Falar nos Açores é falar no cozido das furnas... mas também não podemos esquecer-nos do peixe grelhado e das lapas! Nunca repeti um sítio enquanto lá estive e nunca comi mal. As duas tours que fiz tinham almoço incluído e eu, que já levo alguma experiência em excursões, achei mesmo que a comida não ia ser nada especial - mas enganei-me. Até nesses sítios comi sempre bem e sem aquele drama de não podermos pedir uma bebida diferente sem termos de pagar à parte e outras situações clássicas. Adorei!

Sobre o cozido: não sou a maior apreciadora deste prato, só costumo comer algumas carnes "selecionadas", mas gostei. Pena não ter as minhas partes favoritas: orelheira, patas e coisas assim do género. Achei que, mal arrefeceu, as carnes ficaram muito mais duras, o que não foi bom. Tentei comer o inhame mas não consegui passar a fase do "tentar", achei a textura estranha. Não senti o sabor a enxofre (dizem que sabe muito mais se a comida for reaquecida) e achei-o, de uma forma geral, mais "light" e menos gorduroso que o que como em casa.

Fui ao Alcides, que dizem ter o melhor bife de Ponta Delgada, e de facto fui bem servida (e é incrível ver a quantidade de gente que eles "manda embora" porque não têm mesas para albergar mais gente). Para quem não gosta de alho, as comidas na ilha podem não ter muita graça - é claramente um dos temperos favoritos dos açorianos!

De resto, comi peixe e lapas, sempre deliciosos! Como não sou esquisita e não conhecia a maioria dos peixes disponíveis, dizia simplesmente ao empregado para me trazer o peixe mais fresco ou que pessoalmente gostasse mais. Acabei por comer Boca Negra, Bicuda e Veja (este último foi o meu favorito), todos aprovados! Também comi um arroz de tamboril que, como dizem os meus sobrinhos, estava "bem gostoso". Foi tudo de bom! 

(Ah, e também experimentei a famosa Kima. Gostei!)

 

Açores_tlm (53 de 71).jpg

O cozido das Furnas

 

Açores_tlm (1 de 1).jpg

A Veja (esquerda) e a Bicuda (direita)

Açores_tlm (24 de 71).jpg

O bife do Alcides

Açores_tlm (64 de 71).jpg

 As lapas

 

Onde fiquei hospedada?

Como comprei o pack da Abreu não escolhi propriamente o hotel onde fiquei - o que, às vezes, até pode ser uma alívio dada a imensa oferta que existe em muitos sítios que muitas vezes ainda nos baralha mais. Calhou-me o Vip Executive Azores (que, pelo que vi depois, fica por cerca de 120 euros por dia) e eu não adorei nem detestei. Não sou muito exigente: quero um quarto limpo e sem baratas, de preferência com ar condicionado, e um quarto de banho privativo. Não sou de me queixar das camas ou dos quartos, por isso não sou a pessoa certa para esse tipo de avaliações exigentes.

A dizer: o quarto tinha uma dimensão bastante agradável, andava-se de um lado para o outro de forma folgada e eu dormi sempre bem; os espaços comuns do hotel eram limpos (não fui à piscina, mas disseram-me que era bem pequenina), os funcionários simpáticos e o pequeno-almoço entre o razoável e o pouco-razoável - o café era daquelas máquinas automáticas, que sabia a café de dissolver (blhec), os croissants (um must nos pequenos-almoços de hotel) eram maus e não havia uma variedade por aí além e os bolos eram pré-fabricados. Eu limitava-me a comer pão com manteiga, a beber água e ocasionalmente a comer um iogurte (para além de ter provado uma coisa ou outra, que não repeti por não ter gostado). Achei o pequeno-almoço o ponto mais negativo. De positivo, realçar a localização do hotel (pertíssimo do eixo norte-sul, dos acessos principais e do centro da cidade) e o facto de ter parque de estacionamento gratuito para estacionar o carro em segurança.

 

"Achas que eu devia ir aos Açores?"

Não, meus amigos. Fiquem em casa a ver passar os passarinhos. Ou vão para as Seychelles, passem umas dez horas dentro de aviões e outras tantas nos aeroportos, quando têm só um paraíso para explorar aqui perto e que, ainda por cima, é nosso. 

Quanto a mim, já não se trata de ir, trata-se de voltar. E já estou a fazer planos para que tal aconteça em breve. Um bocadinho do meu coração ficou nos Açores e eu não tenciono resgata-lo de lá - apenas tratar de o visitar de vez em quando. 

 

Leiam todos os posts sobre a minha viagem aos Açores clicando aqui.

Houve alguma questão que não respondi? Deixem nos comentários ;)

23
Jul18

Tudo sobre a minha incrível viagem aos Açores (parte 1)

Carolina

Decidi fazer este post em duas partes, para não arriscar que nenhuma alma o leia por preguiça ou falta de vontade perante tanto texto. Isto porque eu não quero que este seja só um mero post mete-nojo ou descritivo. Pesquei várias informações super úteis em blogs, que me ajudaram bastante nesta viagem, e quero que fiquem aqui todas as dicas de que eu usufrui e que agora já posso acrescentar, para que este seja um relato e uma memória para a posteridade, mas também algo rico e informativo para outros que queiram viajar ou simplesmente sentir-se inspirados. Todos os posts sobre os Açores podem ser lidos aqui.

 

Açores_GoPro (1).JPG

 

Às vezes perguntam-me se gostei dos Açores ou quanto é que gostei de São Miguel. A resposta é sucinta e explícita: o suficiente para ir querer ir viver para lá. E não brinco! Não é algo que possa fazer agora - porque tenho os meus pais, uma pós-graduação para fazer e tudo aqui - mas acho que quando for mais velha seria muito feliz nos Açores. Aquela calmia combina comigo. São Miguel é uma ilha limpa - exclui-se o cocó de vaca nas vielas rurais -, com muito pouco trânsito e que transpira tranquilidade; em que não há buzinadelas a torto e a direito nem estacionamentos em segunda fila. Em que as pessoas se cumprimentam frequentemente e onde se apresentam, quase todas, com um aperto de mão convicto e um sorriso nos lábios. Em que a comida é óptima e existem peixes que aqui no continente nunca ouvimos falar. Em que, não deixando de ser uma ilha onde, em alguns pontos, conseguimos ver de um lado ao outro, tem todas as infraestruturas necessárias para se ter uma vida confortável e cosmopolita o suficiente. Em que muitos dos ex-libris ainda só têm meia-dúzia de pessoas, o que permite desfrutar de tudo com outra qualidade. De modos que, depois da pergunta, as pessoas normalmente olham para mim com um ar trocista e dizem "saíste de lá apaixonada!". E eu digo que sim, que é verdade, sem vergonhas. Não foi por um açoriano. Foi pela ilha inteira.

Depois de sair de lá pensei num plano altamente maquiavélico, que foi dizer mal da ilha a toda a gente, só para ficar com ela "só para mim". Isto porque tenho PÂNICO que os Açores virem atração turística de primeira classe e todo aquele sossego vá pelos ares. É tudo ótimo e muito bonito para a economia e a publicidade do país, mas eu sinto na pele o que o turismo faz a uma cidade. No Porto, eu própria me sinto uma turista! Os restaurantes são caros e maus; o trânsito é caótico, com autocarros e tuk-tuks a atrasarem o movimento e pessoas a atravessarem-se no meio da estrada; há ruas em que uma pessoa não consegue atravessar em linha reta de uma ponta à outra, parecendo um caminho de obstáculos. É incrível o movimento, mas é altamente cansativo - até porque, claramente, estão a faltar estruturas para dar vazão a isto. E eu penso que se os Açores começarem a ficar na boca do mundo, vai ser o fim de parte da sua magia. E eu não quero. Até porque aquele estilo de beleza natural não aguenta com autocarros e centenas e centenas de pessoas a passar por lá diariamente.

Por isso, meus amigos, mantenhamos isto em segredo. Um segredo só nosso, está bem? Até porque se me estão a ler devem ser portugueses... e se são portugueses têm quase o dever moral de lá passar. Relativamente aos estrangeiros... vamos fingir que Portugal é só o Continente e guardar os Açores só para nós, está bem?

 

Como planeei a minha viagem?

Eu fui até aos Açores comprando um pack de cinco dias (de segunda a sexta) da Agência Abreu. Fi-lo porque me pareceu ser um preço competitivo para tudo o que incluía (voos, hotel e visitas guiadas) e, apesar de não me ter arrependido, não voltava a repetir. Porquê? Porque já não faço parte de uma geração que gosta de ter a papinha toda feita e porque estes programas implicam alguma falta de liberdade. Ter transfer à hora x, ter de estar num sítio à hora y, sem grande possibilidade de mudanças... é tudo muito intrincado, extra-planeado (até para mim, miúda de planos). O pack incluía uma viagem de jipe à Lagoa do Fogo e das Sete Cidades (com almoço incluído), com paragem na Caldeira Velha para um banho; um passeio pelas Furnas (também com o cozido incluído) e pelo Parque Terra Nostra, com tempo para banhos; e um passeio de barco para ver os cetáceos (que eu não fiz, depois da minha experiência traumática depois de ter tentado nadar com os golfinhos). Todos estes serviços eram feitos por empresas exteriores, o único contacto que tive com pessoas da Abreu foi mesmo nos transferes.

Uma das coisas importantes a ter em conta nos Açores é que o tempo muda de um minuto para o outro. Sabem aquela história que todos já ouvimos e que pensamos "pfffff!", de que nesta terra existem as quatro estações do ano num só dia? É verdade, é impressionante. Num minuto está um sol que faz a pele estalar e no outro já chove torrencialmente, com aquelas pingas gordas que não deixam uma parte do nosso corpo impune. Por isso é que ter tudo planeado ao milímetro não é boa ideia: há que ser flexível e adequar os nossos passeios às condições meteorológicas. Uma das melhores formas de fazer isso é instalando a aplicação SpotAzores (não sei se há outras), que vos dá acesso a câmaras nos vários pontos da ilha, para perceberem onde é melhor ir naquela altura em particular. Principalmente no que diz respeito às lagoas, que estão muitas vezes submersas em nuvens, dá um jeitaço inacreditável.

 

"Carolina, alugaste carro?"

Uma das perguntas que mais me fizeram foi se aluguei um carro. Sim, aluguei. Acho que é um erro não alugar, mesmo tendo já excursões marcadas. Não há nada como ter o nosso tempo e a nossa liberdade para conhecer a ilha de forma despreocupada. Não há muito a temer relativamente à condução ou às estradas açorianas: é tudo tão calmo que a adaptação é facílima, principalmente para quem vive em grandes cidades, estando habituado a sentir-se na selva em plena hora de ponta. Pelas minhas contas, teria dois dias e meio livres para fazer o que quisesse (acabei por ter três dias inteiros, por não ter ido ver as baleias), e ter um carro compensou sempre. Eu adoro andar a vaguear e ir parando consoante as placas que me aparecem; se vejo que existe um miradouro no caminho (algo que está sempre a acontecer) e me apetece parar, gosto de ter essa liberdade e esse tempo para ver, fotografar e aproveitar o momento. Quanto ao estacionamento, também é relaxado: há quase sempre lugares de rua mas, nos sítios mais movimentados, há parques (e não, não cobram pequenas fortunas, mesmo que fiquemos lá algumas horas).

Comparei preços, serviços e carros e acabei por escolher a Magic Islands. Deixaram-me o carro no hotel, precisamente à hora marcada. Melhor era impossível! Era um Ford SUV, deste ano, super confortável e com uma condução incrivelmente fácil - e um GPS incrível, o melhor que vi até hoje a nível de GPS's integrados. Fiz seguro contra todos os riscos (que fica mais caro do que o próprio carro), porque mais vale prevenir que remediar, mas felizmente não precisei de o ativar. É preciso ter em atenção um "pormaior" nestes seguros: eles excluem os problemas mais prováveis a ter nos Açores - furos nos pneus, jantes e estragos por debaixo do carro. 

De reparar que, por existirem imensos carros alugados, São Miguel é uma ilha cheia de carros coloridos - muito melhor que os brancos-cinza-preto que só se vêem por cá. O meu era azul elétrico. Pow!

Para quem é do Continente, ver uma ilha em que tudo parece perto e em que há sítios que se consegue ver de um lado ao outro pode dar uma ideia enganosa. De uma ponta à outra São Miguel tem 250kms - pouco menos que o caminho Porto-Lisboa - mas lembrem-se que para aceder a alguns sítios têm de percorrer estradas aos "s", que implicam andar mais devagar (aliás, andar devagar é sempre bom, porque conseguimos ver melhor a vista). Isso faz com que não seja assim tão rápido ir de um sítio ao outro, por isso convém não andar apertado nos horários... até porque nunca se sabe quando vamos ter umas vaquinhas simpáticas a impedir-nos de passar a rua.

 

Açores_cam (44).jpg

 

O que levar na mala?

Uma das coisas que me preocupava nesta viagem era o que levar vestido - não por uma questão de estilo, mas sim porque tenho sempre medo de ter frio e não sabia como estabelecer um equilíbrio num sítio onde num dia tanto chove como faz sol. Tenho a dizer que até aqui a viagem foi um sucesso: não levei nada a mais nem nada a menos. Foi no ponto!

Dicas que podem ser úteis:

1) Andem sempre com um kispo fino ou um impermeável convosco, porque a chuva e o vento (algo não muito falado, mas que está lá e em boa quantidade) vêm sem avisar; 2) Nas minhas tours e nos passeios de carro andei sempre com um saco à parte com a minha toalha e o meu biquini-feio (já sabem que não vale a pena levar o vosso swimwear preferido para os Açores, certo? Aquelas águas ferrugentas ameaçam a boa saúde de qualquer pano...), pronta para um banho sempre que fosse possível. 3) Só usei chinelos para ir tomar banho - fora isso, sempre sapatilhas, nunca sandálias! Tive medo de levar as minhas Merell de verão, porque se chove ficam todas molhadas, mas arrisquei e compensou (apesar de ter chovido). Foi o equilíbrio perfeito e tanto dava para cidade como para andar na montanha. 4) Apesar de ter levado calções, nunca os usei - andei sempre de calças, de ganga ou tecido, porque senti que a média de 21ºC que apanhei não era suficiente para andar com as pernas à mostra. 5) Acima de tudo, levem muitas t-shirts e roupa interior (eu levei um montão de meias, com medo de as molhar com a potencial chuva), porque ao caminhar sua-se bastante e é bom ter essas peças sempre que nos queremos trocar, que já nos dão uma sensação "fresca" sem ocupar muito espaço na mala. Cheguei inclusivamente a andar com meias na mochila, para estar pronta para qualquer molha.

 

"Que sítios visitaste?"

Eu tive uma sorte descomunal. Na primeira metade da semana - em que fui ver as lagoas - apanhei um tempo incrível; a segunda metade, que tinha destinado para explorar Ponta Delgada e outras coisas mais "mundanas", o tempo foi quase sempre de chuva. As duas lagoas principais - a Lagoa do Fogo e a das Sete Cidades - vi logo no segundo dia, de jipe, com a GreenZone Açores. Comecei com chave de ouro, portanto. Aconselho o serviço deles a 100%! O guia que foi connosco - chamava-se Paulo - era incrível e prestável, super cuidadoso porque uma das pessoas que ia no carro enjoava com facilidade. E tirava fotos sempre que lhe pedia - e sabia focar e tudo!!! Devo-lhe grande parte das boas fotos que tenho nesta viagem. Fizemos vários caminhos de terra, até passamos um riacho (uhuh, adrenalina!) e percebia-se o entusiasmo da parte do guia em nos mostrar as coisas bonitas da terra dele - e ele podia ter-se limitado a fazer as lagoas, como estava no plano, mas foi parando várias vezes para nos mostrar vários pontos de vistas e até outras atrações. A GreenZone já tinha surgido nas minhas pesquisas, foi uma sorte a Abreu ter-lhe subcontratado esse serviço, e voltaria a repetir. Ir de jipe é uma mais valia, porque vamos a sítios em que de carro é difícil ou arriscado aventurarmo-nos. E eles já sabem os caminhos e têm experiência, por isso é ouro sobre azul. Ficou por fazer, com eles, uma visita ao Nordeste. Fica já "marcada" para quando voltar. Diria que o único senão nestas visitas pode ser para quem enjoa ou tem problemas de costas ou de rins, uma vez que pode haver alguma "torbulência". Fora isso, é dinheiro bem aplicado!

Açores_cam (15).jpg

Lagoa do Fogo

 

Açores_cam (26).jpg

Num miradouro onde parámos, não sei o nome 

Açores_cam (10).jpg

A Lagoa do Fogo na primeira paragem que fizemos

Açores_cam (50)-1.jpg

Lagoa das Sete Cidades

Açores_cam (53).jpg

 Lagoa das Sete Cidades

 

Não me façam aquela pergunta típica de "qual foi a tua lagoa favorita?", por favor. É cruel. Todas são lindas. Uma das sensações com que me debati nos momentos em que via aquelas paisagens de fazer cair o queixo foi "como é que eu vou guardar isto para o resto da minha vida?". Estava um bocadinho numa corrida contra o tempo, ainda por cima estando numa tour os timings não são controlados por nós, e eu só queria que aquela calma e aquela beleza ficassem agarradas a mim para o resto da vida, que aquilo não se apagasse. Como é que isso se faz? Tiram-se fotos com a máquina, o telemóvel, a GoPro e tudo o que de mais há? Simplesmente sentamo-nos, respiramos e tentamos tentar uma fotografia mental daquilo que estamos a ver e a sentir? É uma gestão difícil. Por minha vontade eu tinha ficado largos minutos em cada um dos sítios onde estive, com o rabo alapado no chão, só a dar-me tempo para absorver - algo que fiz noutros momentos desta viagem, sendo outra das incontáveis vantagens de estarmos sozinhos. Nas lagoas não houve tempo para isso, mas planeio faze-lo da próxima vez.

Essa primeira tour ainda incluiu, para além do almoço, paragens em alguns outros sítios. Vou destacar dois: o primeiro foi a Caldeira Velha, onde se podem tomar banhos com aquelas águas maravilhosas. Foi o meu primeiro banho deste género e, apesar de não ser o meu sítio favorito a este nível, ficará com um lugar especial no meu coração por isso. Tem três "poços", o primeiro em que a temperatura da água é natural e não controlada (quando fui estava fria e só entrei quase para a foto), os outros dois já são maravilhosamente bons. A água, apesar de ter partículas de ferro, não é nada comparada à do Terra Nostra, por exemplo. E o bem que isto fez às minhas contraturas?! Ah! E não esquecer os jardins lindos que envolvem os poços - parece que estamos a entrar numa floresta tropical ;)

O segundo sítio que quero destacar, e que simplesmente ADOREI, foi a Lagoa das Empadadas. Este é um dos tais que só de jipe é que se chega lá, mas é de uma beleza incrível. É pequena (principalmente quando comparada com as outras), mas de uma pureza inacreditável, toda protegida com uma "parede" de árvores. Não há palavras para aquilo. Como é que a natureza tem sítios como estes, tão naturalmente bonitos e arranjados? Foi dos meus sítios favoritos de toda a ilha.

 

Açores_cam (17).jpg

Na Caldeira Velha

 

Açores_tlm (13 de 71).jpg

Caldeira Velha

 

Açores_cam (32).jpg

Lagoa das Empadadas

 

Açores_cam (31).jpg

 Lagoa das Empadadas

Açores_cam (46).jpg

Igreja de São Nicolau, perto da Lagoa das Sete Cidades

 

 (to be continued)

16
Jul18

Açores: o vídeo

Carolina

Antes de ir para os Açores encontrei uma promoção brutal de uma GoPro, na Fnac. Tinha uma de "marca branca", que em nada se comparava com a qualidade que já tinha visto nas originais, e soube que tinha de a comprar para registar todos os momentos que ia viver em breve. Não foram todos, todos, todos... mas foram muitos. Não é um vídeo pro, é muito ao modo "shaky camera" como se quer nas GoPro's, mas regista bem os momentos.

 

 

14
Jul18

Como é a experiência de viajar sozinha?

Carolina

IMG_2954.JPG

 

Já há muito, muito tempo que eu queria fazer uma viagem sozinha. Com todas as condições reunidas, achei que este era o momento ideal – e, acima de tudo, o momento em que eu precisava. Precisava de sair para respirar, precisava de estar sozinha, precisava de sair da minha zona de conforto, precisava de mudar de ambiente e entrar em rotura com os últimos dois anos. Precisava de paz.

E porquê os Açores? Porque, apesar de ser fora de Portugal continental, ainda é Portugal. Porque partilhamos a mesma cultura e a mesma língua (embora às vezes não pareça) e porque, dentro do choque que é estarmos sozinhos num sítio que desconhecemos, este era o que teria menos impacto. Se eu fosse para o Vietname, aí sim, seria uma aventura e tanto! Agora os Açores foi jogar pelo seguro (até literalmente, visto que é um sítio onde os problemas de segurança são residuais, o que também pesou na escolha) e fazer com que esta viagem fosse ouro sobre azul, porque este era um destino que queria muito conhecer.

Viajar sozinha foi, sinceramente, um exercício de liberdade. Ao contrário do que se possa pensar, é muito mais fácil viajar sozinho do que acompanhado – pela mesma razão que é mais fácil viver sozinho do que com alguém. Só temos de corresponder às nossas vontades, aos nossos planos, aos nossos gostos; não temos de fazer fretes, esforços, coisas que gostamos menos só para agradar aos outros; comemos as refeições que quisermos, às horas que quisermos; deitamo-nos e acordamos à hora que nos apetece; gastamos o dinheiro que temos e que queremos gastar e nunca temos pressões exteriores para o que quer que seja. Não temos de estar preocupados com os outros, gerir horários, emoções ou personalidades. E isso para mim, criatura egoísta e pouco dada à sociabilidade, é maravilhoso.

A questão é: não me senti sozinha? A resposta pode ser inesperada. Não, não senti. Em alguns momentos pensei em como gostava de estar com alguém - em particular os meus pais -, mais por saber que eles gostariam do que eu estava a ver do que propriamente por eu precisar de uma pessoa ao meu lado. A verdade é que fui mantendo um contacto permanente com eles e com os meus irmãos (criei um grupo no whatsapp para lhes mandar fotos e fazer inveja de tudo o que via e comia) e isso é essencial: é saber que estamos sozinhos mas que a nossa base está lá, que não estamos desamparados ainda que sem gente ao lado. 

Acho que sou uma pessoa atípica em termos sociais (uhuh, como se ninguém desconfiasse!). Eu não sinto necessidade de estar sempre a falar com alguém ou a partilhar decisões. Aquilo que conversava com os meus pais era o suficiente para satisfazer as minhas necessidades de interação (ainda que tenha falado mais, uma vez que me “juntei” a uma mãe e uma filha que fizeram tours comigo) e o facto de poder ser eu a decidir tudo o que queria em relação ao meu dia foi um autêntico alívio. No fundo, cumpri um dos meus objetivos para esta viagem, que era confirmar se de facto eu me dava tão bem sozinha como eu achei que daria. Sei que a vida muda, nós mudamos, os nossos planos e perspetivas mudam: mas perante a amostra destes meus 23 anos de vida, eu já percebi que não será fácil arranjar pessoas que partilhem vida comigo, e é uma preocupação minha certificar-me que, mais do que sobreviver, também consigo ser feliz sozinha (dentro dos limites do razoável - e por “razoável” quero dizer “não me tornar numa eremita”). Por muito que me custe, devo até admitir uma coisa: esta foi, talvez, a viagem da minha vida em que tive menos saudades (e eu sou uma saudosista nata). Acho que estive sempre tão entretida nos meus planos, sem tempos mortos, que a minha vida foi correndo da forma mais natural de sempre. Não fiz coisas que não quisesse ou que não gostasse, não sentia necessidade de estar sempre com o telemóvel, e a minha cabeça estava sempre centrada naquilo que eu estava a viver e não a passear por coisas tristes, preocupações ou saudades. 

Há apenas uma grande exceção: as refeições. Eu não me importo de comer sozinha, mas também não gosto. Estou habituada a almoçar e jantar sempre com a minha família e é-me estranho não ter ninguém para falar enquanto como - e confesso que também não gosto de estar agarrada ao telemóvel ou a um livro enquanto como. Neste caso não há muito a fazer: é aguentar. Mais uma vez, tive sorte: juntei-me em várias refeições às duas pessoas com quem fiz as tours é essa questão desvaneceu-se. De qualquer das formas, é de notar que quando as pessoas veem uma mulher/rapariga a almoçar sozinha, estranham sempre um pouco e têm tendência a ser mais atenciosas. E nisto incluem-se os parceiros da mesa ao lado, que frequentemente fazem conversa a partir de algo tão corriqueiro como pedir para utilizar o nosso saleiro.

A verdade é que quando não temos ninguém que nos "prenda", falamos com as outras pessoas com muito mais facilidade. É a mesma história de ir para uma escola nova com ou sem um amigo: se formos com um amigo, juntamo-nos a ele e formamos uma redoma onde é muito mais difícil alguém entrar; se formos sozinhos, é mais fácil (e somos quase obrigados a) integrarmo-nos.

 

QUESTÕES PRÁTICAS

Segurança

Há coisas más em viajar sozinha? Claro que há. Logo à partida a questão da segurança em todos os campos: se cairmos para o lado no quarto ninguém dá pela nossa falta, por exemplo; se tropeçarmos na banheira ninguém nos vai levantar de lá. Andar na rua acompanhado é sempre mais seguro, mesmo num sítio onde não existam problemas de segurança - e nisto, o facto de ser mulher também tem um certo peso. Tanto nos Açores como em qualquer outra parte do mundo há inevitavelmente homens que olham para nós como se fossemos um naco de carne - é algo que temos de aceitar e ignorar, tendo só a certeza e o cuidado (estando alerta) de que não passam mesmo de olhares. No caso desta viagem em particular eu não fiz trilhos pedestres precisamente por estar sozinha: apesar de gostar muito de andar no meio da natureza, sei que sou uma naba e que caio com facilidade, e fazer caminhos com obstáculos pela frente, em que possa cair e me magoar, não me pareceu uma boa opção - até porque muitos destes lugares têm pouca rede e não são assim tantas as pessoas que passam por ali todos os dias. Acima de tudo, acho essencial que tenhamos noção das nossas próprias limitações, que nos conheçamos minimamente e que antecipemos os problemas. E ter bom senso, claro! 

Eu deixei com os meus pais todas as informações de onde ia estar e partilhava frequentemente os meus planos para o dia, para saberem minimamente o sítio onde eu estava, caso acontecesse algo ou eu ficasse incontactável. Tive também uma série de outros cuidados que, se quiserem, posso listar, caso estejam a pensar ir numa aventura e precisem de "inspiração" neste campo.

(ainda sobre os trilhos, falarei depois sobre isso, mas fiz apenas uma única caminhada mais "selvagem", de cerca de 1km. E até aí adorei estar sozinha, a absorver o silêncio e a ir ao meu ritmo. Neste tipo de coisas, como sou mais lenta e cuidadosa a caminhar, sinto sempre que as pessoas ficam à minha espera ou que se obrigam a ir mais devagar por minha causa, algo que não gosto)

 

Fotografias

Houve quem também me perguntasse sobre a questão das fotografias: como é que se tiram boas fotografias enquanto estamos sozinhos (e já considerando que a selfie não é uma ótima opção)? Se forem malucos como eu, podem andar com o tripé atrás. Sim, eu levei o tripé na mala! Como fiz muitos dos passeios de carro, mantinha-o na mala e, quando precisava, tirava-o. Atenção: certifiquem-se que, quando fazem isto, já têm experiência e à vontade em trabalhar com o tripé. Isto aplica-se à máquina fotográfica e ao telemóvel: para a máquina o tripé grande e para o smartphone aqueles tripés que parecem polvos, pequeninos e moldáveis, que se compram por tuta e meia e se agarram a quase todo o lado e ajudam a tirar fotos bem melhores. À falta destes instrumentos, improvisem tripés (também o fiz) pousando as máquinas em sítios estratégicos e seguros. Ter um comando que tira fotos à distância também ajuda muito (em caso de ter tripé ou não), para não ter de se andar sempre com o temporizador e a correr para trás e para a frente. Mas a verdade é que a forma mais fácil de resolver este problema é pedir a alguém que nos tire a fotografia, sempre com dois riscos: que nos roubem a máquina e que a foto saia uma treta. A primeira opção parece-me sempre bem improvável, embora saiba que às vezes acontece; a segunda é muito comum, mas não há muito a fazer. Eu tive a sorte (e a falta de lata) de nunca ter de o pedir a “desconhecidos”: ou pedia aos guias que me fizeram as tours ou às duas pessoas que fizeram grande parte das visitas comigo. Em suma: pode ser chato, pode demorar mais, mas não é um problema irresoluto e há muitas alternativas.

 

Dinheiro

Viajar sozinho fica mais caro do que viajar acompanhado. É lógico que se virmos o valor acumulado gasto por quatro pessoas, este é muito maior do que se for só uma. Mas se dividirmos por cada cabeça rapidamente percebemos que é mais económico ter companhia. O carro é um óptimo exemplo. Eu aluguei um automóvel nos Açores e andei sozinha com ele, quando havia mais quatro lugares vagos - ou seja, se fossemos cinco, o valor era a dividir. Mesmo nos restaurantes isso é notório: um cesto de pão é igual para mim ou para uma mesa de três; uma dose de lapas tem sempre 20 lapas (por exemplo), quer eu seja só uma ou quer sejamos quatro. A verdade é que há muito mais coisas divisíveis do que individuais, por isso o dinheiro gasto por pessoa é inferior numa viagem em grupo do que numa feita a solo.

 

Este é o feedback de uma primeira experiência que foi recheada de momentos incríveis mas que, como contei no post anterior, também teve as suas peripécias e dificuldades. Não foi um mar de rosas, mas esteve a quilómetros de ser um mar de espinhos. Adorei viajar sozinha, mas isso permitiu-me perceber que há também muitas vantagens em fazer viagens com outros. Esse momento crítico no barco foi um daqueles em que eu desejei ter o colo da mãe ou alguém que me fosse buscar um chá quando eu achei que não podia fazer nem mais um metro a pé. Mas a verdade é que o que não nos mata torna-nos mais fortes e eu saio desta viagem, mais do que revitalizada, muito mais segura de mim mesma. Fui capaz. Sou capaz. Fui racional nesse momento de agonia; fui prática e rápida quando tive de comprar outra viagem de avião e cancelar tranfers e entregar o carro mais cedo; e fui descontraída em tudo o resto. Fui tudo o que era preciso porque, quando é preciso, nós somos tudo e mais alguma coisa. E relembrarmos isso de vez em quando é a melhor coisa que podemos fazer.

Mas é importante ressalvar que isto se aplica a mim e está longe de ser uma fórmula universal. Sempre gostei de estar sozinha e sempre me dei bem assim; gosto do silêncio e gosto do poder de decisão; gosto de estar sem ninguém no carro com o rádio em altos berros e gosto de me sentar a ler um livro num jardim bonito. Nem todos são assim - há muita gente que não sabe e não gosta de estar sozinha, e isso é justo e tão bom como qualquer outra forma de estar na vida. Ver o que quer que seja com alguém ao lado dá-nos sempre uma perspetiva diferente das coisas, porque não há duas pessoas iguais. Mas para a minha forma de ser e de estar (que é, de uma forma geral, solitária) viajar sozinha foi das melhores coisas que fiz até hoje.

Foram apenas cinco dias, quase nada comparado com tantas aventuras que vejo por aí e muito pouco para sequer me cansar de mim mesma. Resta-me dizer que, para grande preocupação dos meus pais, isto foi só o início. E isso resume bem o balanço que faço sobre aquilo que é viajar a solo. In-crí-vel.

 

(Sobre os Açores e a viagem em si, escrevo muito em breve!)

11
Jul18

Um dia difícil, um mote de vida, uma experiência inesquecível e alimento para os peixes e para a alma

Carolina

Tinham razão: vim para os Açores! Às seis da manhã de ontem estava a entrar para o avião que me traria a São Miguel enquanto fechava o livro que estou a ler no momento, "The Subtle Art of Not Giving a Fuck", de Mark Manson. Parei de ler numa altura em que ele falava da aceitação das experiências negativas, que nos traziam muito mais coisas melhores do que o desejo de coisas positivas. Não sabia que isso ia ser uma aprendizagem para aplicar no próprio dia.

Decidi há uns dias que ia nadar com golfinhos. Marquei, paguei, ouvi tudo com muita atenção e enfiei-me no barco com a convicção de que ia ter um dos momentos da minha vida. Achei que um dos melhores. Enganei-me só neste "pormenor". Mal o barco começou a andar eu soube que aquilo ia ser das coisas mais aventureiras que eu alguma vez tinha feito - e eu não sou aventureira nem gosto de aventuras. Não gosto de coisas em que não detenha o controlo da situação e eu soube que ali não ia poder controlar as coisas - mal sabia que nem o meu próprio corpo. A viagem até ao local onde estavam os golfinhos (talvez a vinte minutos) foi tenebrosa e dolorosa. Os salpicos e os tombos que tinham graça nos primeiros minutos, rapidamente se tornaram em algo horrível que eu só queria que acabasse. Eu já via golfinhos em todo o lado, só pedia a algo ou alguém que eles aparecem rapidamente para aquilo poder parar - até que eventualmente parou.

No início da viagem, o biólogo disse-nos, na brincadeira, "If you get seasick, don't feed the boat, feed the fishes". Todos nos rimos, eu também - eu, que me sentei no primeiro lugar do barquito, porque queria ter vista priviligiada para aquele momento inesquecível. "No topo do barco é mais bumpy", avisaram-me. Eu anuí. Já fiz dois cruzeiros, já andei em iates, em barcos de pesca, em barcarolas e barcos salva-vidas - não ia haver problema. Fi-lo de forma ingénua e quase inconsciente. É importante saber que eu adoro água, adoro mar e tenho medo de muito pouco neste âmbito e nunca pensei que aquilo fosse correr de outra forma que não maravilhosamente bem.

Mas o barco parou e eu passei a saber que aquilo não ia correr bem. Vomitei tantas vezes quantas a embarcação parou para nos deixar sair; vomitei o pouco que tinha no estômago e aquilo que não tinha. Talvez nunca na vida me tenha sentido tão indisposta. Saltei uma vez para a água, muito agitada, e não vi bicho algum. Saltei a segunda, já com menos conteúdo no estômago do que na vez anterior e lá os vi nadar por debaixo de mim e voltei ao barco, afirmando-me derrotada. Não conseguia saltar mais, tinha medo de desmaiar na água. Ia vendo os golfinhos passar, ia ouvindo os relatos de quem chegava ao barco, os "uau"'s, as vozes de quem tinha tido a experiência de uma vida. E eu a lutar ativamente para não cair para o lado. Só queria ir para terra.

Feliz e infelizmente, os meus colegas de atividade não se deixaram perturbar pelo que me estava a acontecer. Apesar de altamente desapoiada, o meu infortunio não os impediu de se divertirem - embora, calculo, nunca seja agradável ver alguém a vomitar de cinco em cinco minutos. Percebi rapidamente algumas das vantagens e desvantagens de viajar sozinho: por um lado, não preocupei ninguém; por outro, estava sozinha ali, a sentir-me nas posições mais vulneráveis da minha vida, e ninguém quis saber. Levei a GoPro mas não consegui tirar uma só foto. Cheguei a um ponto em que duvidei da minha capacidade de me levantar. Fiz a viagem de regresso toda de olhos fechados, sem energia para pestanejar, e com a minha cabeça com dois pensamentos em loop: a música do Boss AC "tu és mais forte e sei que no fim vais vencer" e a frase "TU NÃO PODES DESMAIAR". Só me ocorria aquilo que aconteceria se eu quinasse, que iria de certeza envolver ambulâncias, chamadas de urgência para os meus pais que ficariam em pânico e todo um caos que eu não queria provocar. Soube que desmaiar não era opção.

Não sei como, mas aguentei-me. Saí do barco com o meu próprio pé, a tremer como se estivesse dentro de mim um terramoto de magnitude 10 na Escala de Richter. Ativei o instinto racional, prático e de sobrevivência e sobrevivi.

Não sei o que provocou tudo isto. A velocidade do barco não ajudou, a maré agitada muito menos, assim como o lugar que escolhi na embarcação. Foi uma sucessão de coisas más. Não foi um mal estar médio, foi algo quase totalmente incapacitante. Eu não queria saber dos golfinhos para nada e, quando umas horas depois consegui recuperar, senti uma tristeza horrível: queria tanto aquilo e, no fim de contas, tudo o que desejava era ir embora. Não se trata só de ser um dos piores momentos de que tenho memória da minha vida, mas também da frustração de não ter tido dos melhores momentos da minha vida.

 

"The desire fore more positive experience is itself a negative experience. And, paradoxically, the acceptance of one's negative experience is itself a positive experience".

The Subtle Art of Not Giving a Fuck

 

Comecei nos Açores com o pé esquerdo. Tenho a prova nas costas, no rabo e nas pernas, onde tudo está pisado; no estômago, que ainda não normalizou; e na memória, que ainda treme só de pensar no que aconteceu. Mas que se "fuckem" os golfinhos, o barco e quem não me ligou nenhum. Caraças, o dia de hoje foi brilhante, esta ilha é incrível e eu estou feliz e bem de saúde. Não consigo não deixar de desejar experiências positivas, mas aprendi com a negativa. Já levo bagagem desta viagem, e não estou a falar da do porão. Ontem alimentei os peixes, hoje alimentei a alma e tudo valeu a pena.

04
Jul18

Cinco razões por que todos os amantes de livros devem ter uma conta no Goodreads

Carolina

goodreads.jpg

 

Já aqui escrevi muito sobre o Goodreads. Se tivesse que classificar a minha relação com esta rede social dos livros diria, à boa moda do facebook, que "é difícil". Tenho fases em que vou lá todos os dias, outras em que não ponho lá os pés durante meses. Isto reflete a inconstância dos meus hábitos de leitura, também eles cheios de altos e baixos, em que não leio nada durante demasiado tempo e depois, numa semana, vão logo três livros de um só trago. 

Agora que estou de "férias alargadas", com mais tempo, e depois de uma semana e meia de praia-com-água-fria (que implica não passar tempo nenhum no mar, tendo que me entreter sempre na areia), voltei aos livros. E, se voltei aos livros, voltei ao Goodreads. E sempre que volto gosto sempre: acho que é um site bem construído, que preenche totalmente os objetivos a que se propõe e com inúmeras vantagens. Fiz por isso uma lista (quem é que adora listas como eu?!) com cinco boas razões para que todos aqueles que gostam de livros criem lá uma conta. Vamos a isto:

 

1 - É a melhor forma de ter uma ideia geral de um livro e da sua qualidade 

Não me julguem se me virem a vaguear na Fnac com o telemóvel numa mão e um livro na outra. Não se trata de ter de ter sempre o telemóvel a postos para qualquer mensagem que caia, mas sim de ter o Goodreads aberto. Raramente faço compras por impulso no que toca a livros: se vejo algo que me interessa, vou à aplicação e dou uma vista de olhos nas críticas e na pontuação, só para perceber se vale a pena. É quase como se fosse o IMDB para os livros: neste caso, se a pontuação não passar das três estrelas, é melhor deixar o dito na prateleira.



2 - Poder ler e partilhar reviews 

Ao contrário de todas as outras redes sociais, aqui não sou selectiva em relação aos meus "amigos". Aceito toda a gente, porque isso significa ter mais diversidade quando vou ver a minha "dashboard". Tenho uma série de livrólicos lá - alguns que também partilham espaço aqui no Sapo - a quem presto mais atenção e de quem gosto de ler as críticas. Sim, porque apesar da pontuação já dizer algo sobre a opinião de cada um, as reviews são essenciais para mim: gosto de ler o que os outros acharam de determinadas obras e gosto de comentar, se também for caso. A minha mãe diz sempre que um livro é potencialmente milhões de livros - um por cada pessoa que o lê - e, nessa medida, é incrível como todos temos visões diferentes sobre precisamente a mesma obra, o mesmo conjunto de palavras e frases. E, ao contrário da maioria dos assuntos, a literatura é das coisas em que, às vezes, conseguimos mudar de perspetiva, ideias e interpretações, consoante aquilo que os outros nos dizem. E o Goodreads tem essa magia.



3 - Ajuda-nos a ler mais, estabelecendo metas

Não sei quanto a vós, mas eu gosto sempre de ter objetivos em relação a quase tudo na vida. Os livros não são exceção. Todos os inícios de ano o Goodreads convida-nos a determinar uma meta para o número de livros que lemos durante esse ano. Depois vai-nos dizendo se estamos atrasados ou adiantados, consoante o objetivo. Eu falho miseravelmente há dois anos consecutivos e estou a tentar não repetir a façanha este ano, mas essa "pressão" obriga-me a ler mais. É uma espécie de incentivo extra: quando estou a meio de um livro mais chato, que não me puxa tanto, há uma vozinha no meu cérebro que me diz "vá lá, senão nunca mais lês os 12 livros a que te propuseste! E olha que para alguém que gosta tanto de ler, um livro por mês já é uma miséria, Maria Carolina". E pronto, lá se vão mais umas páginas.



4 - Conhecer novas obras, estar a par das novidas, das tendências e dos lançamentos

No Goodreads uma coisa é certa: vamos todos os dias ver um novo livro que até ali desconhecíamos - ora porque os nossos "amigos" o lêem, ora porque "amigos dos amigos" o leram, ou deram like ou outra coisa qualquer. E esse poderá ser mais um dos nossos livros favoritos, quem sabe! Podemos também seguir muitos autores que, despertados para esta nova realidade, também têm lá conta e nos vão presenteando com novos lançamentos e novidades. Dizer também que esta é a plataforma ideal para perceber o quê que está a dar no mundo dos livros: quando há um fenómeno qualquer na literatura mundial (como o Fifty Shades of Grey ou A Rapariga do Comboio) é fácil de perceber, porque todaaa a gente está a ler a mesma coisa no mesmo período de tempo.

Para descobrir novos (e bons) livros há anualmente um concurso interno (os Goodreads Choice Awards), em que cada um dos utilizadores pode votar no que, para si, é o melhor livro do ano nas diferentes categorias (ficção, romance, humor, fantástico, infanto-juvenil, entre tantas outras). Mais do que os vencedores, eu dou sempre uma vista de olhos nos nomeados, de onde normalmente resulta uma compra de dois ou três livros que me chamaram particularmente à atenção - e que leio em inglês, por nessa altura ainda não existir tradução, mas que meio ano depois já estão espalhados nas livrarias em língua portuguesa. 


5 - É o auxiliar de memória perfeito

Esta é a razão pela qual estou seeeeempre a dizer à minha mãe para criar uma conta. A verdade é que passado uns tantos anos de se ler livros em modo non-stop nos vamos esquecendo das coisas. Nem sequer tem que ver com a idade: a nossa memória não tem espaço para tudo e só o que é mesmo bom é que nos fica marcado. E, mesmo assim, não são poucas as vezes em que digo "adorei esse livro" e, quando me perguntam do que trata, eu já não sei responder. Uma pessoa fica com uma ideia vaga do que leu e passa ao próximo. E por isso é que o Goodreads é espetacular, principalmente se nos dermos ao trabalho de escrever sobre cada um dos livros que lemos. Eu posso não me lembrar se li o livro Y ou Z e muito menos aquilo que achei dele mas, se o li, ele está lá. É uma espécie de biblioteca virtual, em que podemos arrumar os livros conforme queremos (e em várias prateleiras, que ainda por cima não ocupam espaço!), e que nos permite deixar uma marca e uma opinião sobre cada uma das obras que nos passaram pelas mãos. No fundo, é um registo aberto de uma das atividades melhores que há na vida.

 

Estão à espera de quê? E não se esqueçam de me amigar, aqui.

27
Jun18

Call Me by Your Name - o livro, a opinião e uma leitura simultânea

Carolina

IMG_2526.JPG

 

É preciso, antes da crítica, fazer um disclaimer importante: quando comprei este livro já tinha visto o filme, sabendo por isso de antemão a linha da história e que eventualmente o final me ia deixar com o coração partido. O filme, apesar de espetacular, não supera o livro, que (para mim) é soberbo.

Esta obra, mais do que uma história de amor, é um conjunto complexo (e muito fidedigno) de pensamentos quase infindáveis, que nos faz mergulhar dentro da cabeça de um adolescente que claramente se está a apaixonar mas que está em negação. E isto tem muito de bom, mas algo de mau: é incrível testemunharmos a evolução da personagem, perceber como o livro está bem construído e é fiel à complexa mente humana, mas esta constante torrente de pensamentos não necessariamente linear e incoerente pode ser cansativa, até porque o livro tem muito poucas pausas (sem capítulos, apenas quatro partes distintas). Mas enfim, até isso é real: às vezes o pensamento e as dúvidas constantes que assombram a nossa cabeça também são cansativas. Talvez tenha sido esse o objetivo do autor.

Acho que este é provavelmente o livro que li que melhor relata a complexidade que as relações humanas acarretam, ainda para mais quando são de teor amoroso. O querer e não quer, o medo de avançar, de estragar o que já existe, de atingir situações sem ponto de retorno. A eterna duvida se aquela pessoa vale a pena. Isto é algo constante na obra, nunca cessa; não é como na maioria dos romances, em que depois da duvida inicial as personagens se mudam de malas e bagagens e se atiram de cabeça para uma relação. Identifiquei-me muito em muitas passagens porque toda eu sou dúvidas nisto das relações. Aquela coisa de nos negarmos a nós próprios algo que emocionalmente sabemos que queremos mas que racionalmente não temos a certeza ser a escolha certa; de chegarmos ao ponto de querer que algo de mal aconteça só para não termos o poder de decisão, para que a culpa não seja nossa por aquilo não ter acontecido, arranjando na vida ou no destino um bode expiatório para a nossa própria cobardia. O vai-não-vai de Elio, as interpretações que faz das ações de Oliver e tudo o que vem a perceber depois é algo que faz jus à realidade e tiro o chapéu ao autor por conseguir descrever todo esse processo mental para o papel.

Aqui se prova que não há amores gay ou hetero, simplesmente há histórias de amor. E que bela história de amor, esta (ainda que triste, por isso preparem os lenços). Prova-se também que não é preciso descrever tudo ao pormenor (sim, estou a falar de ti, 50 Shades of Grey) para um livro ser extremamente sexy e erótico. Acho que toda a obra transmite, desde o inicio ao fim, um clima de romance e de uma tensão sexual difícil de encontrar.

Tudo para dizer que gostei muito, muito do livro - e que penso que será daqueles em que posso pegar daqui a uma dúzia de anos, dar-lhe novos significados, identificar-me com outras coisas, encontrar novos detalhes, e voltar a adorar.

Se vale a pena ler depois de ter visto o livro? Vale sempre a pena ler as histórias originais e, apesar da interpretação muito fidedigna, este não é excepção.

 

Curiosamente, li este livro ao mesmo tempo que a Beatriz, do "Procrastinar Também é Viver". Entre trocas de instastories - ferramenta através da qual nos apercebemos que estávamos a ler a mesma obra, na mesma altura - achamos que seria giro publicar as nossas reviews ao mesmo tempo, quase como uma comparação em tempo real. Porque, como a minha mãe diz, cada livro pode ser um milhão de livros, consoante o número de pessoas que o lê :) Sendo eu uma grande fã da Beatriz e levando muito a sério todas as suas críticas e conselhos literários, acho que este nosso timing não podia ser melhor. Passem pelo "estaminé" dela e digam de vossa justiça! 

26
Jun18

Salvem os golfinhos das pranchas de esferovite!

Carolina

Não, meus amigos: eu ainda não ultrapassei o facto de ninguém me ter dado os créditos por, o ano passado, terem surgido todo o tipo de insufláveis (eram flamingos, fatias de pizza, ananases e melancias e até uns gelados ocasionais), após eu ter escrito, no ano anterior, sobre a falta de originalidade nas boias, que andavam sempre entre o golfinho desequilibrado, a orca assassina e o crocodilo-fofo. Tudo coincidências, dizem! Mas eu cá não acredito nessas falinhas mansas. Mas enfim, a vida continua.

Hoje estava outra vez na valiosa - e subvalorizada - atividade de observação quando me apercebo de uma menina a carregar uma daquelas pranchas de esferovite, que devem custar uns 32 cêntimos na China, que têm coisas estampadas de um lado e uma espécie de saco de ráfia preto no outro. Ainda sem ver nada, apostei comigo mesma que por detrás da parte negra estaria um golfinho. E bingo, acertei!

Porque a falta de criatividade ao nível dos produtos aquáticos aqui no Algarve não abrange (ou abrangia) somente os insufláveis. As braçadeiras para criança continuam a ser cor de laranja e as pranchas têm, 90% das vezes, imagens de golfinhos assustadoro-pirósos no seu verso mais colorido. O que é de louvar, tendo em conta que é difícil tornar um animal tão querido como o golfinho em algo quase aterrador. Mas eles conseguem!

As restantes 10% das pranchas são para os pais das crianças - na sua maioria rapazes - que não deixam que os filhos andem com essas coisas “amaricadas”. Há que comprar coisas com um ar de macho. Um tubarão e os seus 357 dentes, porque não? Ou então labaredas bem laranja, que fazem o olho de qualquer pirómano brilhar de alegria. Tudo coisas bonitas, portanto. E é incrível ver como, ano após ano, esses artigos de tecnologia altamente avançada se continuam a vender quais pãezinhos quentes! São gerações e gerações de golfinhos maltratados!

Venho, por isso, pedir que libertem os bichos dessa praga que os assombra desde que eu tenho idade para me lembrar. Mas, ao contrário do que fiz com as boias, não vou deixar sugestões de novos designs que poderão potenciar a venda deste objeto tão resistente, que perante as enormíssimas ondas de 40 centímetros fazem “crack”, deixando os filhos em lágrimas e os pais a chorar os 7,5€ que deixaram na papelaria ao lado do hotel. Ainda é com alguma dor que recordo que, embora me tenham roubado o projeto golfinhos-e-orcas-nunca-mais, nunca chegaram a concretizar a minha ideia de fazer uma bóia-Andorinha, que faria certamente furor por essas praias fora. Posto isso, que pensem sozinhos em novos padrões para libertas os pobres golfinhos das pranchas de esferovite, seus empreendedores de meia tigela! Não têm de quê!

 

pranchas9.jpg

 

20
Jun18

Apaixonada pelos meus vestido de verão

Carolina

Há uns dias a minha mãe, ainda que sem maldade, disse que eu era insossa a vestir-me. A questão é que a insossisse é, para mim, das piores coisas que há. Pessoas insossas, desenxabidas, sensaboronas, amorfas ou qualquer sinónimo de tudo isto dão-me um bocadinho a volta ao estômago. Pessoas que nem sim nem sopas, onde está sempre tudo bem, que não têm uma opinião definida para nada e que têm medo de falar o que quer que seja, são difíceis de lidar. Para mim é mais fácil estar com alguém que tem personalidade, ainda que bata de frente comigo, do que alguém que se esconde por detrás do seu escudo imaginário e não diz nada.

Por isso, quando ela me disse que eu era insossa, eu não achei graça. Porque, de facto, eu sou uma pessoa simples a vestir-me - mas, caraças, insossa não! Acima de tudo, gosto de passar despercebida... e é difícil vestir um corpo onde queremos esconder mil e uma coisas e ainda assim ficarmos bem e, talvez por isso, ao longo do tempo, a minha tendência foi vestir básicos, cores sólidas e não arriscar demasiado. No inverno com malhas e calças de ganga ou pretas e no verão usando t-shirts ou camisas - sempre tudo adornado com algumas peças que, achava eu, sempre iam dando uma graça aos looks.  

A verdade é que eu vejo as coisas nas lojas e nas passarelas e até as acho engraçadas. Sou uma privilegiada porque tenho acesso a novas ideias, novos conceitos de como vestir ou, como se costuma dizer, "sei o que está na moda" (na realidade não sei, quando me perguntam isto fico toda encavacada, acho que é uma pergunta sem resposta certa - mas percebem o que quero dizer). Mas depois penso que não quero mostrar muita perna, ou a peça não tem costas e eu não gosto de dispensar o soutien, ou são calças muito curtas e eu não quero mostrar o meu tornozelo inchado, ou é cai-cai e eu sinto-me sempre sufocada com aqueles soutiens, ou as camisolas têm mangas de morcego e não dá para usar casacos, ou as calças têm cinta baixa e sinto-me com a carne toda de fora, ou as peças são muito apertadas e as minhas formas não são assim tão boas para estarem todas à vista. Enfim! Sim, sou difícil de vestir. Mas já há algum tempo que queria pôr os básicos de lado (ou pelo menos não abusar deles) e tentar coisas mais arrojadas - e a boca da minha mãe foi o rastilho para que isso acontecesse.

A primeira fase da minha investida - aquela que ainda estou neste momento - incidiu nos vestidos. A moda dos vestidos e das calças, neste momento, combina com os requisitos que tenho para o meu corpo: uns são cintados e mais compridos, outros têm a cinta alta, tal como gosto. Já aqui disse: a minha vontade é fazer uma espécie de Arca de Noé com roupas para os próximos cinco a sete anos, porque sei que um dia destes a moda muda e voltam as skinny jeans e os calções e vestidos que deixam ver a prega do rabo e eu vou ficar outra vez sem roupa para comprar. Mas bom, agora tenho é de aproveitar. E se o meu roupeiro já está recheado de calças, como não tinha desde a altura em que era miúda, o mesmo não se podia dizer dos vestidos. Acho que o ano passado vesti os que tinha meia-dúzia de vezes, já demasiado preocupada com a horribilidade das minhas pernas, e portanto é a grande mudança desta estação. Comprei uns quatro, todos abaixo do joelho mas apertados na cinta, e pode dizer-se que foi uma autêntica paixão de verão. Todos têm cores vivas, todos têm padrões e personalidade e, por isso, acho que combinam um bocadinho mais comigo. Eu, honestamente, sinto-me muito feliz com eles. Ando há dois anos a trabalhar diretamente com quem vê, faz e produz moda e a ver imagens de streetstyle e de gente gira, com um estilo que eu às vezes pensava que poderia facilmente ser o meu, só me faltava coragem e "um bocadinho assim". E é fixe conseguirmos estar mais próximos do ideal que desejamos para nós mesmos. 

 

IMG_2473.JPG

 

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Deixem like no facebook:


E sigam o instagram em @carolinagongui

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Leituras

A ler:



goodreads.com


2018 Reading Challenge

2018 Reading Challenge
Carolina has read 5 books toward her goal of 12 books.
hide

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D

Ranking