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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

15
Nov22

Chávena de Letras - "Pequenas Grandes Mentiras"

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Todas somos, de alguma (e diferente) forma, a Jane, a Madeline ou Celeste. "Pequenas Grandes Mentiras" é, na verdade, um bom exemplo da vida real: todos mentimos em algum momento (provavelmente sobre um ou outro acontecimento do nosso passado - nem que seja com um simples "está tudo bem") e todos gostamos de manter as aparências para o exterior. O problema é quando essas mentiras se tornam no centro da nossa vida; quando se transformam nos nossos alicerces e construímos um castelo em cima de vigas de areia. E todas as personagens deste livro têm telhados de vidro no que às mentiras diz respeito - como todos temos, na vida real.

Decidi ler Liane Moriarty depois de ter ouvido rasgados elogios à sua narrativa no podcast "Vale a Pena", da Mariana Alvim. Não foi este o livro mais visado da autora nos vários comentários feitos por alguns convidados, mas pareceu-me um bom ponto de partida, por ter sido uma obra bastante badalada devido à sua adaptação a série. E a verdade é que não desapontou: a capacidade de nos envolver no enredo, a dúvida constante e a empatia com as personagens não falha - e é o mix perfeito para nos agarrar ao livro, do princípio ao fim. Moriarty não se fica pela clássica dúvida de "quem será o assassino". Aqui, nem sequer sabemos o assassinado, deixando-nos numa ânsia louca para folhear as páginas finais do livro!

A forma como a obra está escrita e construída, sem libertar spoilers a não ser na altura pretendida, é muito boa; a ideia dos depoimentos no final de cada capítulo aguça ainda mais o apetite e engana em vez de ajudar a resolver o mistério - o que ainda torna tudo mais intrigante. Esta era a característica mais mencionada sobre a autora, no podcast: no final, o plot twist é sempre inesperado, por muito bem que já conheçamos a escrita de Moriarty. Eu não sou o estilo de leitora que se agarra a um livro até saber o desfecho nem ocupo a mente em tentar deslindar mistérios, mas gostei muito desta fórmula, que só vem confirmar tudo aquilo que ouvi sobre a autora nos últimos tempos. Como tal, não creio que esta seja a minha última leitura da escritora australiana.

Única nota negativa a apontar: achei a desconstrução da narrativa, no final, muito repentina. Passamos 400 páginas a aprender sobre a dinâmica de Pirwee e de quem a habita, desvendando segredos aos pouquinhos, mas plantando muito mais dúvidas à medida que vamos folheando - e, do nada, descobrimos tudo rapidamente. Muitas das maiores revelações são feitas até de forma "seca", rápida e crua, qual penso rápido. Parece que a autora estava em ânsias para escrever o livro, depois de todo o cuidado e suspense que teve até aquele ponto. Há uma parte de nós que fica feliz, pois satisfaz-nos a curiosidade mórbida de saber o morto e o assassino - mas não diria que a narrativa sai a ganhar.

05
Nov22

Santorini, a ilha instagram

Foi em grande parte por causa das ilhas gregas que escolhemos este cruzeiro. Na verdade, a ideia era já o termos feito: em 2020 tínhamos marcado, com a Celebrity Cruises, um cruzeiro com uma rota muito semelhante a esta, que iríamos fazer com os meus pais, mas que acabou por ser cancelado devido ao Covid. Dois anos depois decidimos apostar no mesmo cavalo - ainda que numa empresa diferente e numa viagem só a dois - e foi da maneira que tivemos uma experiência diferente.

A primeira de quatro paragens na Grécia seria Santorini - talvez a ilha com mais hype de todas. E eu, que não gosto de criar suspense, vou pôr já as cartas em cima da mesa: Santorini é uma ilha ao bom estilo das influencers de instagram. Porque vive da imagem e não do conteúdo; porque é bonita para a foto, mas fraca na vivência - e implica que se escolha bem o ângulo, para não vermos a realidade. Foi, para nós, a maior desilusão de toda a viagem.

O cais do porto de Santorini não é grande o suficiente para albergar um barco como o que viajamos, por isso o navio fica ao largo da ilha e as pessoas vão saindo em tranches, através de botes, para chegar até terra. Isto já não era novidade para mim - no cruzeiro anterior, quando parámos no Montenegro, já tinha acontecido o mesmo. A saída do navio é, por isso, mais demorada e complicada - mas muito pior é o que vem a seguir. Enquanto percorremos, de barquinho, as centenas de metros que nos separam de terra, vamos namorando aquela escarpa enorme, pintada de branco, que se estende à nossa frente. A questão é como chegar lá acima.

 

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A vista do navio para a ilha. Ligeiramente à esquerda pode ver-se o topo cheio de casas brancas - e, com zoom, percebem o caminho que pode ser feito na escarpa para chegar lá acima

 

Mal aportamos é difícil gerir o caos de pessoas que se forma num espaço tão pequeno. Mas rapidamente se percebe que para ir para o topo da ilha só há três soluções: ou se vai de teleférico, cuja fila de espera naquele momento rondava uma hora (para se ter uma noção, transporta cerca de 35 pessoas a cada 4 minutos - o nosso barco tinha 4 mil passageiros, por isso é só fazer a conta); ou se vai de burro, por uma escadaria íngreme; ou se sobe, a pé, através dessa mesma escadaria. Como queríamos aproveitar o tempo da melhor forma possível (e por isso não tencionávamos esperar na fila) e a subida de burro estava totalmente fora de questão, escolhemos a terceira opção. A penantes. E que mau que foi.

Primeiro porque é duro: tanto eu como o Miguel estamos em boa forma física, mas subir 600 degraus debaixo de mais de 30ºC, sem sombras e na hora de pico do calor, foi muito complicado. Segundo porque as condições da escadaria são más, tanto ao nível da infraestrutura (muito escorregadias) como de limpeza. O que nos leva ao terceiro ponto, porque é lógico que os pobres burros e cavalos defecam e urinam pelo caminho sendo que, com aquela temperatura, todos os cheiros ficam ainda mais intensos (outra coisa que não passa pela beleza do instagram), tornando-se nojento e intolerável passar em alguns locais com as narinas abertas. Já para não falar do quão degradante é ver aqueles animais a serem obrigados, de forma consecutiva, a subir e a descer aquela ravina - cansados, extenuados, a suarem do pêlo como se de gente escrava se tratasse. É degradante, triste e perigoso - até porque aqueles cascos gastos e maltratados, em conjunto com a pedra polida das escadas, faz com que os bichos escorreguem enquanto descem as escadas. Isto para além das vezes em que passam por nós desgovernados, obrigando toda a gente a desviar-se e encostar-se à parede se não se quer ser "passado a ferro". Evitei, sequer, olhar para eles - porque, honestamente, as lágrimas vinham-me aos olhos, e eu nada podia fazer a não ser boicotar aquele tipo de negócio, que devia mesmo ser proibído. Que se lixem as tradições: aqui em Portugal também achavam muita graça a pôr espetos em touros e agora vê-se cada vez menos este tipo de espetáculos. Era bom que as entidades competentes ganhassem tomates e acabassem com este tipo de negócios de uma vez por todas - e dotassem a ilha de serviços e estruturas competentes, não dependentes de animais, já que não estamos no século XIX.

E isto leva-me à primeira conclusão que tirei sobre esta ilha: Santorini não tem condições para receber barcos daquela dimensão. Não tem estrutura para escoar tanta gente. E, como cereja no topo do bolo... não tem razões para receber a quantidade de pessoas que recebe por ano. Se possui umas águas com um azul incrível? Sim. Se tem uma baía muito bonita que dá gosto apreciar? Também. Se reúne muito mais que isso? Não, de todo. Vale tanto como um photo stop numa qualquer cidade bonita: vale a pena a paragem para tirar a foto, mas depois segue-se viagem. Daí ser, para mim, a ilha instagram.

 

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Uma das primeiras imagens que se tem da ilha, e a mais triste: a exploração dos burros e dos cavalos para subir a escarpa

 

Aquela subida acabou por condicionar todo o tempo que passamos na ilha: serviu-me de muito pouco a boa forma física, porque como a grande maioria dos turistas, acabei a escadaria a parecer que estava em fase final de trabalho de parto, a respirar com dificuldade e a ver se conseguia um bocadinho de ar extra que me enchesse os pulmões, me baixasse o ritmo cardíaco e me fizesse parar de suar em bica. Não o sabia, mas entre o esforço e o sol em excesso, penso que apanhei uma insolação, que me deitou para a cama horas a fio no dia seguinte, como se um camião me tivesse passado por cima. 

A verdade é que chegamos rabugentos e com a mente pouco aberta para a "pobreza" que encontramos lá em cima. O final da escadaria é uma espécie de marina de Vilamoura em forma de ruelas estreitas: lojas de souvenirs e roupas, cafés e restaurantes. Denominador comum? Os preços e pouca simpatia. Foi o sítio mais caro onde estivemos: ímans a cinco euros, coca-colas a sete (das pequenas!), roupas e joias que nem valia a pena espreitar a etiqueta. Se quisessem parar para ganhar fôlego junto a um montra, vinham logo perguntar se estavam interessados em algo - se a resposta fosse negativa, pediam rapidamente que desimpedissem o caminho a outros que fossem potenciais compradores. Horrível.

Em todos os guias turísticos a cidade de Oia é a que tem mais destaque - mais do que a cidade, o seu pôr-do-sol (mais uma vez, tudo para o instagram). Mas de Fira, onde aportamos - que se situa mais ao menos a meio da ilha - até Oia, que fica no extremo, ainda é meia hora de carro - e as irrigações dos transportes públicos são muito fracas em Santorini. E se há coisa que é sagrada, num cruzeiro, são as horas: não pode haver derrapagens, sobressaltos ou problemas. Todos os (potenciais) problemas, atrasos ou sustos têm de ser antecipados; as coisas têm de ser obrigatoriamente feitas com tempo e temos de dar margem para que algo possa correr mal - e, ainda assim, chegarmos a tempo do "all aboard". Havia gente nos grupos de facebook do cruzeiro a ponderar ver o pôr-do-sol em Oia, mas para nós estava mais do que fora de questão (na verdade, acho que não foi sequer exequível, uma vez que o pôr-do-sol era ainda muito tardio na altura, mas não fui testemunha de alguém ter ficado fora do barco só para poder tirar a foto mais famosa de toda a Grécia). Podíamos ter feito uma visita guiada mas, para apenas uma tarde (só chegamos à ilha pelas 14h e tínhamos de sair antes das 21h), o conteúdo das tours e o seu preço elevado (como tudo naquela terra), preferimos abdicar da visita a esta parte da ilha e ficar por Fira, a capital.

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O nosso barco naquela baía que rodeia a ilha de Santorini

 

Dos vários guias que pesquisei nas semanas anteriores à nossa partida, nenhum tinha um roteiro definido ou prático do que visitar - mencionavam algumas igrejas (todas as que encontramos estavam fechadas, com excepção de uma), o vulcão (Nea Kameni, uma ilha vulcânica com baías de água quente, que não tínhamos tempo de visitar), a "rua dourada" (Ypapantis street) onde se encontram as lojas mais caras da região e pouco mais. Posto isto, optamos simplesmente por ir andando e nos perdermos nas ruelas da cidade, para tentarmos entender qual era a magia de tudo aquilo - e a razão pela qual tanta gente gostava daquela ilha.

A verdade é que não percebemos. É de facto bonito ver a escarpa pintada de branco, cheia de edifícios caiados, que contrastam com aqueles azuis, do céu e a água, cada um mais puro que o outro. Mas é isso - e praticamente "só isso". O outro lado da ilha - que erradamente, como todas as outras pessoas, não fotografei por sentir que não era "conteúdo fotografavel" - é árido e quase desértico, sem interesse ou beleza natural. A vertente cultural... é quase inexistente. O que é que se faz em Santorini? Come-se em restaurantes onde se paga a peso de ouro? Apanham-se banhos de sol em páteos de dez metros quadrados, onde depois teremos a oportunidade de nos refrescarmos num tanque a que chamam piscina, com quatro metros quadrados? É para isso que se paga milhares de euros por semana? É para podermos ter uma foto numa piscina infinita, em cima daquela escarpa, apanhando a água e um bom bocado da ilha - e se calhar fazê-lo ao pôr-do-sol, para termos a certeza que vai ser a foto com mais likes do ano? É um fenómeno que não entendo. 

 

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A cúpula de uma igreja - dos ex-libris da ilha por terem as suas cúpulas pintadas de azul

 

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E escarpa pintalgaa de branco, com os edifícios caiados, seus páteos e piscinas

 

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O interior de um hotel típico em Santorini: um páteo com cadeiras para apanhar sol e um tanque para tomar banho; havia outros maiores, com piscinas decentes, mas a maioria era deste género

 

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Gostamos de ver as igrejas com as cúpulas azuis, de tirar algumas fotos bonitas e de apreciar as vielas quase labirínticas de Fira, mas depressa nos cansamos - até porque o sol não deu tréguas e tornava muito difícil o passeio, numa cidade onde as sombras quase não existiam. Ainda parámos para beber uma coca-cola num restaurante e demos uma última volta na praça Theotokopouloue, onde visitamos a Catedral Ortodoxa, que é pequena mas bonita. Depois, sem grande vontade de continuar por ali perdidos e desta vez já sabendo ao que íamos, decidimos descer os 600 degraus, desta vez que de forma pausada, sem pressas e apreciando a vista e o caminho - desta vez bem mais calmo, dada a hora e o fluxo de turista que já havia diminuído drasticamente.

 

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O exterior da Catedral Ortódoxa, na praça Theotokopouloue

 

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No interior da Catedral Ortodoxa

 

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Detalhe da cúpula no interior da Catedral Ortodoxa

 

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Os burros só fazem cerca de 85% a 90% da escadaria - o restante tem mesmo de ser feito a pé, percorrendo todas as lojas e restaurantes. Aqui vê-se o topo da "fila", na parte de cima da escarpa, com os donos dos burros à espera de negócio

 

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A fila alonga-se durante muitos metros - e muitos degraus. São centenas de burros e cavalos que são explorados para este negócio. Na foto, atrás, consegue ver-se o teleférico

 

E assim terminou a nossa breve passagem por Santorini, que só me faz destacar aquilo que para mim é mais uma das melhores coisas dos cruzeiros: nos sítios que não gostamos de conhecer e visitar, há sempre a hipótese de ficar dentro do barco e de desfrutar de todas as atividades que eles lá oferecem (na verdade, pelos grupos do facebook, apercebemo-nos que esta é uma paragem que muita gente "dispensa" - e agora percebemos porquê). Para além disso, como Santorini é caro, é também um bom exemplo das muitas vantagens que se tem em fazer este estilo de viagem - conseguimos ter uma ideia do que a ilha tem para oferecer e não fomos obrigados a pagar um balúrdio pela estadia (e acreditem - os hotéis são caríssimos!), a pagar restaurantes (almoçámos e jantamos no barco) nem a ficar mais tempo em terra do que aquele que achamos necessário. Quando ficámos cansados, apanhamos o bote de volta ao barco e demos como finalizado este ponto de paragem. 

Acho que é perceptível que não ficamos fãs de Santorini, mas por tudo o que mencionamos acima, foi óptimo tê-la conhecido no âmbito de um cruzeiro - até porque, na verdade, era um destino que nos aguçava a curiosidade e que já tínhamos até posto em cima da mesa para passar umas férias mais longas. Foi da forma a que não viemos ao engano, ficando ao mesmo tempo a conhecer mais um destino - e, no final de linha, podendo riscá-lo da lista dos futuros planos de férias. Poder fazê-lo sem gastar nenhuma fortuna nem muito tempo foi como matar dois coelhos de uma só cajadada - algo que já me tinha acontecido com a Finlândia (que também não adorei...) e que se tornou, rapidamente, numa das coisas que mais gosto neste estilo de férias.  

 

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A descer todos os santos ajudam - mas, mesmo assim, custou bastante - os joelhos que o digam, de tanta tração que fizeram!

 

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No bote que nos levaria de regresso até ao barco. Até sempre, Santorini!

22
Out22

Roma, uma cidade com história em cada esquina

Quem me segue há alguns anos sabe que sou uma grande adepta de cruzeiros. Já tinha feito dois - podem ler tudo o que escrevi sobre eles na através das duas tags que criei na altura, "Cruzeiro no Báltico" e "Cruzeiro no Adriático" - e convenci o Miguel a fazer aquele que foi o meu terceiro (o primeiro dele). Não foi fácil inicialmente, pois este estilo de viagem tem sempre colada a ideia de que é para velhos e é tudo uma chatice - mas depois dos meus vastos relatos lá o convenci. Acho que a fase que atravessávamos jogou a meu favor: apesar de, algures em Abril, o fantasma do Covid já estar mais esbatido, o setor dos cruzeiros ainda atravessava uma fase muito crítica devido à pandemia; penso que todos nós nos lembrámos de ver nas notícias o terror que foi quando houve surtos em vários navios e isso marcou amplamente o ramo da navegação. Os barcos passaram mais de um ano parados e altamente condicionados nas suas rotas, tendo um prejuízo gigante. Isso fez com que, na altura em que os países começaram a levantar as barreiras, eles estivessem em ânsias para vender passagens - e, para isso, fizeram grandes promoções, nomeadamente para os cruzeiros de 2022, que já estavam ali ao virar da esquina e cuja incerteza ainda batia à porta. Ainda hoje há boas promoções - se querem fazer uma viagem destas, continua a ser uma boa altura para aproveitar - mas dada a altura em que marcámos, conseguimos fazer um óptimo negócio.

A parte difícil veio depois: escolher. Primeiro a rota, depois a companhia. Se já leram o texto sobre as Maldivas, devem ter percebido que o Miguel é extensivo nas pesquisas que faz, querendo sempre que tudo corra pelo melhor; para isso procura e retira tanta informação sobre as opções disponíveis que, a certa altura, nem sabe o que fazer com tudo o que recolheu. Eram vários fatores que queríamos conjugar: ele queria navegar num barco grande e recente, eu queria viajar numa companhia com a qual tivesse confiança. Para além disso, gostava que um de nós ficasse a conhecer, pelo menos, um sítio novo. Apontámos logo para o Mediterrâneo - o que, apesar de excluir logo uma série de hipóteses, não ajuda imenso, pois é dos locais mais navegados, com imensas opções de rota. Fomos atraídos pela ideia das ilhas gregas e, pouco depois, decidimos navegar no Escape, da Norweiggian Cruise Line, companhia da qual eu já tinha recebido boas referências. Eu já tinha navegado com a Royal Caribbean e a Celebrity, por isso achei que seria bom ter mais uma empresa no repertório - e a verdade é que gostamos muito. Como disse acima, usufruímos de uma série de boas promoções; todas as companhias tinham campanhas, com diferentes ofertas, mas quase todas interessantes e algo semelhantes. No nosso caso, com a marcação de um quarto com varanda a um preço mais simpático que o habitual, ainda conseguimos extras como 150 minutos de internet (que, no barco, é paga a preço de ouro), desconto de 50% em excursões para um dos viajantes, dois jantares em restaurantes temáticos (pago aparte), o pack mais barato de bebidas, que permitia que bebêssemos "à pala" qualquer bebida até um determinado valor (que felizmente incluía Coca-Cola, a única bebida que ingerimos para além da água durante todo o cruzeiro) e, não menos importante, as viagens de avião. Quanto à rota, partiríamos de Roma e zarparíamos logo para a Grécia, onde após um dia de navegação (e supostamente o único), visitaríamos Santorini, Atenas, Mykonos e Corfu - e eu faría o meu "check" na Grécia, país onde nunca tinha ido; depois pararíamos em Malta e, a seguir, partíamos para a parte italiana do cruzeiro, em que o plano era atracar em Messina, na Sicília, depois em Nápoles e por fim Livorno (para eventualmente visitar Florença). Como lerão nos textos seguintes, este roteiro sofreu alterações - e não foram para melhor. Mas "first things first".

A viagem começou de Roma, onde fomos com pouca coisa planeada - gosto sempre de ter roteiros feitos e prontos antes dos passeios, mas nenhum de nós conseguiu dedicar o tempo que queria a esta causa. Nas semanas anteriores eu tinha recolhido informação sobre os sítios onde íamos passar (o que visitar, onde comer, etc.) , mas nunca cheguei a tempo de fazer uma lista ou um top dos locais a visitar. Foi tudo muito em cima do joelho e isso stressou-me - assim como o facto de já não estar habituada à pressão temporal que um cruzeiro acarreta, pois são poucas horas em cada sítio e é preciso estabelecer prioridades e fazer escolhas. Na noite anterior a partirmos para Roma, sentamo-nos hora e meia no sofá e, com recurso aos guias que tinha recolhido, fizemos um roteiro onde tentamos optimizar o tempo e as pernas, vendo o maior número de monumentos que conseguíssemos e andando o menos possível (e, como tal, "perdendo" menos tempo entre locais de interesse). Quando nos fomos deitar, a cabeça não me deixou sossegar: porque devia ter marcado mais uma noite em Roma, porque o nosso roteiro era demasiado ambicioso tendo em conta o tempo que tínhamos, porque assim não íamos ter tempo para ver nada de forma decente e "ai que não sei quando é que vou voltar a ter oportunidade de visitar Roma, devia ter planeado isto com mais tempo, que negligente". Enfim, foi um desassossego. Isto aliado ao facto de estarmos a atravessar, à época, umas noites quentíssimas, de nos termos de levantar às 4h da manhã para ir para o aeroporto e - sejamos sinceros - por eu estar em ânsias por fazer finalmente mais uma grande viagem, só dormi um par de horas na noite que antecedeu a partida. Foi um pontapé de saída mais complicado, mas que nas horas seguintes não viria a ser facilitado.

Como os nossos vôos foram marcados pela companhia de cruzeiros não tínhamos em nossa posse as reservas completas, apenas os dados base que serviriam para fazer o check-in no aeroporto. Faríamos escala em Madrid, num vôo operado pela AirEuropa, e seguiríamos para Itália pela Alitalia - foi a nossa estreia em ambas as companhias. As escalas não eram generosas em termos de tempo, mas exequíveis. Pior foi quando chegámos ao aeroporto e se abateu um nevoeiro cerrado, que começava a atrasar vôos de forma sucessiva. Pior: por alguma razão que nos é alheia (e que, supostamente, também era ao funcionário que estava no balcão), não nos conseguiram fazer o check-in para Roma. Tentamos fazê-lo online, ligámos para o apoio telefónico da companhia, mas nada feito: ninguém conseguia dar a nossa entrada no avião. As indicações que nos deram foi para ir aos balcões das companhias, quando chegássemos à capital italiana, de forma a resolver o problema - mas, para isso, era necessário chegar a tempo e não perder o avião. 

E apesar de termos saído com uns 45 minutos de atraso no Porto, conseguimos: fomos dos primeiros a sair do avião e fomos a abrir até ao balcão da companhia mais próxima... que estava fechado. Interpelamos umas hospedeiras de bordo, que nos sugeriram ir para a porta de embarque e falar com as colegas que lá estivessem; pelo caminho ainda parámos num balcão de informações, onde nos disseram perentóriamente que tínhamos de sair da zona de embarque, fazer o check-in normalmente, passar de novo na segurança e embarcar - o que, no tempo que tínhamos, era digno de um filme Missão Impossível. Decidimos arriscar e esperar na fila para o vôo - e quando as hospedeiras chegaram, traziam dois bilhetes na mão. Eram os nossos. Não sei se foi o funcionário do guichê em Portugal que fez chegar a mensagem ou se foi pelo telefonema para a central, mas alguma coisa aconteceu ali para nos trazerem os bilhetes. Foi um alívio - e, pelos vistos, não é uma situação pouco comum, pois dizem que as plataformas da AirEuropa e da Alitalia não são compatíveis, apesar de terem uma parceria (e ambas deitam as culpas uma à outra pelo sucedido). Como de costume, quem fica a perder somos nós - e, se tivéssemos feito o que nos haviam sugerido, provavelmente teríamos perdido o avião. Não foi uma situação simpática e fez-me ficar com muito pouca vontade de voltar a voar nestas companhias.

Mas a verdade é que chegámos a Roma - e, connosco, a mala de porão (uff, um alívio!). Ainda no aeroporto comprámos bilhetes para o Leonardo Express, que faz sem paragens a ligação entre o aeroporto e o centro da cidade. No dia anterior, para além da rota apressada, tínhamos também tratado de comprar bilhetes para o comboio que, no dia embarque do cruzeiro, nos levaria do terminal central de Roma até Civitaveccia, onde estava atracado o nosso barco; no entanto, como não sabíamos ao certo as horas a que aterraríamos (entre atrasos e malas, nunca se sabe com o que contar), preferimos adquirir o bilhete na zona das chegadas do aeroporto. A compra foi rápida e prática, assim como a viagem, que foi muito tranquila e surpreendentemente silenciosa.

Chegados a Roma Termini, seguimos a pé para o nosso hotel. Marcamos um sítio próximo desta zona de forma propositada, para estarmos com boa acessibilidade ao metro e aos comboios - é uma prática que costumo ter, mas precavenho-me sempre, pesquisando sobre a zona em questão. Por alguma razão que desconheço, as redondezas de muitos terminais de comboios não são propriamente simpáticas, sendo locais muitas vezes "mal frequentados", onde prevalece um sentimento de insegurança. Daquilo que pesquisei, não é o caso de Roma - e como tal decidimos ficar num hotel que ficava a cerca de 15 minutos a pé (embora não aconselhe que o façam - os passeios e estradas ali à volta não estão preparadas para quem traz malas grandes - de tal forma que, à ida, preferimos ir de táxi), o The Radical Hotel. Ao contrário da maioria dos hotéis na capital italiana, não tem uma traça antiquada; embora eu ache graça ao estilo clássico, confesso que nem sempre me inspira confiança (vem-me sempre o cheiro a velho à memória, com a qual não simpatizo), pelo que preferimos um hotel atual e que nos pareceu prático e bem localizado. Fica num segundo andar de um prédio antigo, com direito a elevador de ferro e a um terraço comum com os outros moradores do edifício; o quarto era pequeno mas confortável, a casa de banho era grande tendo em conta o tamanho da habitação. O pequeno-almoço foi servido no quarto e o serviço foi muito amistoso. Gostámos.

Depois de pousarmos as malas demos início ao roteiro que havíamos traçado no dia anterior - fizemos apenas uma paragem antes de começarmos a caminhada, para recuperarmos energias de uma noite mal dormida e de uma viagem atribulada: estava na hora de comermos alguma coisa. Por sorte, percebemos que uma das pizzarias mais bem cotadas das redondezas era literalmente abaixo do nosso hotel. Era o sítio mais humilde e mais mal decorado da cidade, mas acreditamos que seria bom; eram 16h, o restaurante estava às moscas, mas aceitaram servir-nos, naquele que foi um maravilhoso lanche ajantarado, numa das melhores pizzas que comi na vida (também podia ser da fome... nunca saberemos!). Escolhemos um pouco às cegas, uma vez que o menu estava em italiano e a funcionária também não falava outra língua - mas, pelo que percebemos, comemos a verdadeira pizza romana - com uma massa estaladiça e salgadinha, sem tomate (adorei esta parte!), com um formato retangular e claramente maior do que o necessário para uma só barriga, com o fiambre frio colocado no topo.. e comida à mão. A verdade é que estava óptima - e nós saímos com as energias renovadas. O restaurante chamava-se Habemus Pinsa.

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O início do nosso roteiro era na Appian Line, o ponto mais próximo do nosso hotel. Esta foi a primeira auto-estrada do mundo, que ligava Roma ao porto de Brindisi. Não sei se fomos induzidos em erro pelo Google Maps, mas parámos numa rua normal - ou pelo menos assim nos pareceu. Supostamente há um parque arqueológico com alguns monumentos, mas passou-nos ao lado. Como não tínhamos tempo a perder com grandes pesquisas e este não era um dos pontos obrigatórios, seguimos caminho para a próxima paragem: a Basílica Santa Maria Maggiore. A entrada é gratuita. É uma igreja bonita (embora os assentos sejam horríveis, muito pouco consonantes com o ambiente de toda a igreja e estraguem um pouco a sua imagem) com uma capela particularmente vistosa e, acima de tudo, com uma cripta invulgar, que ainda por cima é visitável. É a maior das 26 igrejas em Roma dedicadas à Virgem Maria.

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Numa secção aparte da igreja principal, com uma cúpula muito bonita

 

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Dentro da cripta, onde se encontra uma enorme estátua de Pio IX em forma de túmulo

 

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Dentro da Igreja de Santa Maria Maggiore

 

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Fachada de Santa Maria Maggiore

 

Dali partimos para o grande marco de Roma: o Coliseu. Pelo caminho passamos pelo Monte Ópio - um grande parque público com aquilo que, à primeira vista, são fragmentos de monumentos antigos que, infelizmente, não estão assinalados nem bem tratados. E isto é Roma: história em toda a parte. Há locais no mundo em que tudo é aproveitado para o turismo, todas as tradições e vestígios de antepassados são transformados em marcos... já ali, havendo tanta coisa bonita e importante a que prestar atenção, tudo o resto se torna banal. Aquele parte albergava as Termas de Trajano e as ruínas do palácio de Nero - mas só o soube numa pesquisa posterior, pois não há indicações neste sentido. Pelo caminho, junto a um campo de basquetebol, tirámos as nossas primeiras fotos junto ao Coliseu - é um local com menos gente e com uma vista privilegiada para o monumento. O Coliseu é monumental, a obra-prima de Roma; o seu estado semi-degradado mas, simultaneamente, bem conservado (há partes da fachada onde já houve claramente grandes intervenções) tem uma mística particular. Como é que se construiu aquilo sem gruas, sem máquinas? Como é que aquele edifício chegou a ter uma espécie de teto, sendo uma área tão grande? É lindo e incrível e a sua visita, ainda que no exterior, é obviamente obrigatória. Diz o ditado, com um início completável à vontade do freguês, que "é como ir a Roma e não ver o Papa". Que me perdoe o pontífice, mas crime é ir a Roma e não ver o Coliseu (acabei de ganhar um passe grátis para o inferno, não foi?).

 

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À saída do Monte Ópio, junto ao campo de basquetebol, num local cheio de boas "abertas" entre árvores para tirar bonitas fotografias

 

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Como escrevi acima, fazer um cruzeiro implica fazer escolhas, pois o tempo em cada local é muito limitado. Doeu ter de tomar algumas decisões - e em Roma então, custou-me muito! - mas optamos por não entrar em nenhum dos grandes monumentos da cidade. Eu já tinha visitado o Coliseu, em 2017, numa visita anterior à capital italiana, também a propósito de um cruzeiro (ler aqui); na altura não conheci Roma, limitei-me a sair de um autocarro para visitar o Coliseu e voltar a entrar para ir à Basílica de São Pedro, no Vaticano. Fizemo-lo no âmbito de uma visita guiada, que aproveitava a manhã do dia do vôo para se conseguir conhecer alguma coisa da cidade onde o barco atracava no seu destino final, mas que não permitiu sequer que déssemos uma volta a pé pela cidade. Apesar do Miguel nunca ter visitado, decidimos que a entrada ficaria para outras núpcias, pois não dava tempo para fazer visitas e completar o roteiro que tínhamos definido. 

Demos a volta às imediações, o que contemplou a visita ao Arco de Constantino (mesmo junto ao Coliseu) e ao Fórum Romano - este último é um enorme complexo de edifícios, onde se podem passar umas belas horas a absorver história e a imaginar o que seria Roma Antiga. De fora não se vê grande coisa, mas é o suficiente para deixar o bichinho - e é um dos locais onde quero muito ir, quando voltar à capital italiana. Sinto que muitas vezes, quando visitamos ruínas, somos obrigados a puxar bastante pela imaginação para tentar projetar o que ali se passou (não é preciso ir muito longe, basta pensar em Conímbriga - num exercício que embora possa se interessante, não deixa de ser complexo, dado o nível de degradação dos espaços). Mas ali é diferente: a imponência e o bom estado de conservação de muitos edifícios permite-nos idealizar com facilidade como é que era ali a vida antigamente. Diria que é dos locais a visitar com tempo e, de preferência, com visita guiada. 

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Arco de Constantino

 

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Arco de Constantino

 

Os próximos pontos do roteiro indicavam paragens em Santa Maria em Cosmedin e San Nicola in Carcere - mas, por alguma razão, decidimos passá-los à frente. Mas, Roma sendo Roma, presenteou-nos com outras coisas bonitas - que, aparentemente, tem escondidas em cada esquina - que nos deixaram maravilhados. A primeira, logo à saída do Coliseu, foi o Foro di Nerva (o Fórum de Nerva), que foi o último dos fóruns imperiais de Roma. Apesar de ainda ter estruturas bem visíveis, o estado de degradação aqui já é considerável. Penso que parte deste fórum é, hoje em dia, usado em espetáculos; não é visitável, mas é visto a partir da rua, sendo por isso gratuito. Voltamos a alterar a nossa rota quando, a partir das ruínas, vemos um edifício imponente que não constava na nossa lista: tratava-se de Il Vittoriano, um monumento projetado no final do século XIX em homenagem a Vítor Emanuel II, o primeiro rei da Itália unificada. É um monumento muito grande, que cresce em altura à medida que nos vamos aproximando dele, e é impossível passar despercebido tendo em conta ser tão branco e imponente. Pelo que percebi, é um edifício mal amado - e até gozado, de tal forma que lhe chamam "bolo de casamento" devido à sua forma e cor. Só depois é que soube que tem um elevador panorâmico, que permite ver Roma de lá de cima (bilhete: 22€). Este é, mais uma vez, é um exemplo perfeito do que é a capital italiana (e, na verdade, Itália no geral): um monumento desta envergadura é quase completamente ignorado nos guias. E não é por ser feio - é por ser "só mais um", num universo gigante de infraestruturas históricas que Roma tem para oferecer. 

 

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Foro di Nerva

 

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Foro di Nerva

 

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Il Vittoriano

 

Rumamos ao Panteão, que foi o primeiro local onde encontramos mais gente. Este é um edifício pesadão, sem grandes linhas ornamentais que apeteça observar com atenção - mas com uma imponência que mete respeito. Também à posteriori vimos um documentário sobre a sua construção e é impressionante pensar como é que, antes de Cristo, tiveram a capacidade de construir uma cúpula daquele tamanho (a maior a ser construída antes dos tempos modernos). Este monumento já estava fechado quando lá passamos, mas é possível visitá-lo. Não foi, de todo, dos que mais me encantou.

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Panteão

 

Next stop, Piazza Navona. É uma praça que faz juz aquilo que nos vem à mente quando nos falam em Itália: um sítio grande e cheio de movimento, recheado de vendedores de rua, cafés e restaurantes, sempre com um cheirinho a cultura inconfundível - tem vários edifícios imponentes, entre eles o Palazzo Pamphilli e a Igreja de Santa Agnes, assim como duas fontes.  A que chama mais à vista é a Fontana dei Quattro Fiumi, com um obelisco ao centro, que fica em frente à igreja. É dos locais onde é bom passar um bocadinho de tempo, sentar a beber um café (sabendo que se vai lá deixar meio salário só por uma chávena de cafeína provavelmente mal tirada, mas tendo em mente que aquilo que se está verdadeiramente a pagar é a vista) e perceber a dinâmica da cidade - que foi o que eu não fiz, pois estava em modo contra-relógio. Ainda assim, é o sítio ideal para nos imaginarmos num filme do Woody Allen, com tantas vidas a acontecer por ali.

 

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Igreja de Santa Agnes

 

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Fontana dei Quattro Fiumi

 

Daqui saímos para a Praça de Espanha, que ainda hoje alberga a embaixada deste país. Mais do que a praça, aquilo que é reconhecido é a sua escadaria. Eu ainda não sabia, mas seria aqui que veria um pôr-do-sol para mais tarde recordar - dos mais bonitos que vi no contexto de uma cidade. Não fizemos de propósito para estar lá àquela hora, mas diria que é uma boa recomendação: ver o sol a descer sobre a cidade, com aquele laranja a casar com a cor dos edifícios, tornando a cidade ainda mais quente... é lindíssimo. Há momentos que guardamos mas que, enquanto os vivemos, não valorizamos ou achámos que seria algo digno de memória; outros, como foi este caso, são um autêntico rebuçadinho, que embrulhamos e guardamos diretamente no coração, sabendo de antemão o sabor doce que sentiremos quando um dia voltarmos atrás e abrirmos o papel de embrulho daquela recordação.

Se a vista da cidade era bonita àquela hora, diria que o local em si não saía favorecido, estando a envolvência um pouco escura e só o topo da igreja cheio de luz - a pouca que ainda restava do dia. A verdade é uma: a vista de baixo da escadaria, a própria Praça de Espanha, não me ficou na memória - com excepção da quantidade monumental de turistas que lá estavam, dependurados numa fonte sem grande interesse (que me perdoe a Fontana della Barcaccia, que à luz de tantas outras na cidade, sai ofuscada), mas guardada por duas mulheres polícia que apitavam mal alguém se empoleirava ou deitava alguma coisa na água. Que triste mundo este, em que temos de ter pessoas destacadas para supervisionar o comportamento de visitantes numa cidade estrangeira.

E este é, na verdade, um ponto crítico da cidade: Roma é suja. Muito suja. É lixo em tudo quanto é canto; copos de gelado, guardanapos sujos, garrafas de vidro e plástico, máscaras... enfim. Como é que uma capital desta envergadura deixa a situação chegar a este extremo (será que foi sempre assim?) ou como é que consegue reverter isto (será possível?), eu não sei - mas é mau. E triste. Já o seria em qualquer sítio, mas piora tendo em conta o contexto em que Roma se insere: uma cidade linda, com monumentos de cair o queixo ao virar de cada esquina, mas que peca nas pequenas coisas. De que vale termos os edifícios restaurados, as paredes pintadas e os mármores polidos se o chão parece sempre saído de um festival de verão?

 

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Pelas ruas de Roma

 

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Pelas ruas de Roma (se eu mostrasse esta foto sem contexto, não diriam logo que estava em Itália? Estas cores topam-se à distância e proporcionam à cidade uma mística própria e quente, que eu adoro)

 

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Em frente à escadaria espanhola

 

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A Praça de Espanha atolhada de gente. Na foto a Fontana della Barcaccia

 

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A Igreja da Santíssima Trindade dos Montes, no topo da escadaria

 

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O sol a esconder-se por detrás de Roma

 

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No topo da escadaria, a apreciar o mais bonito dos pôr-do-sol

 

Da praça de Espanha são poucos metros até ao ponto mais overrated da cidade: a Fontana di Trevi. Este foi, sem dúvida, o sítio mais lotado por onde passámos - e, se querem que vos diga, sem merecer. É só mais uma fonte bonita - "mais uma" porque estamos em Roma e não nos faltam fontes para apreciar - e o festival que montam à volta desta em particular faz com que perca qualquer magia que até possa ter. É impossível chegar sequer perto dela. As centenas de pessoas sentadas nos bancos à volta da fonte, com tantas outras a posar para a foto, em permanente destaque em frente àquelas águas, fez com que este fosse apenas um photo stop e um local de passagem. Não é agradável estar ali; não se consegue absorver a beleza das coisas quando há um barulho ensurdecedor à nossa volta, quando estamos constantemente a ser empurrados e abalroados. É demasiado. Por isso, escusam de me perguntar se pedi desejos ou atirei moedas; limitei-me a arranjar um buraco onde coubesse durante trinta segundos, a tirar uma fotografia e a desandar rapidamente para um local mais calmo e acolhedor. Se querem visitar a Fontana di Trevi, façam-no quando a noite já for longa ou bem cedo pela manhã - só assim poderão usufruir daquilo que vão ver.

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Fontana di Trevi

 

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Fontana di Trevi

 

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O caos instalado na Fontana di Trevi

 

No que diz respeito a monumentos, o nosso dia ficou por aqui. Depois de um banho bem merecido - suámos muito, muito, muito, o que seria um prenúncio para toda a viagem - fomos jantar a um restaurante chamado Signorvino, que também serve de enoteca; passámos à porta quando íamos para o hotel e gostamos do aspeto, mas não foi nada de brilhante. Será certamente uma melhor experiência para amantes de vinho - o que não é o nosso caso, tendo em conta que nenhum de nós bebe álcool. Aproveitamos o resto da noite para dar uma volta nas redondezas do nosso hotel e apreciar uma Roma menos turística, absorvendo a verdadeira energia da cidade. 

O plano era sair bem cedo no dia seguinte - a ideia era já estar na rua pelas 7h da manhã. Mas com um dia como o anterior, com stress entre aeroportos e muitos quilómetros nas pernas, não conseguimos sair tão cedo como planeado - até porque não era boa ideia ficar KO precisamente antes de entrarmos para o barco. Assim, mesmo tendo derrapado mais de uma hora, eram 8h e pouco e estávamos a sair para o Vaticano. Se tivéssemos ido cedo, faríamos o caminho a pé (50 minutos do nosso hotel) e era da forma que conhecíamos mais uma parte da cidade, a uma hora em que o movimento turístico ainda não é exagerado; como falhámos o plano, fomos de Uber, encurtando o caminho para pouco mais de 10 minutos. Os Uber e os táxis têm uma parceria em Roma - na aplicação, podem até escolher até o que preferem, sendo os táxis um bocadinho mais baratos, o que é muito fixe!

Eu queria ir cedo porque tinha a experiência da minha última visita, em que esperamos mais de uma hora para entrar na Basílica de São Pedro. Tendo em conta a temperatura do dia anterior e o nosso tempo limitado, não me pareceu boa ideia correr o risco de voltar a ficar na fila ad eternum. A igreja abre às 7h mas às 9h, hora a que entramos, não havia fila considerável - nem dez minutos demorámos, sendo o processo é mais longo devido à revista dos pertences que é feita à entrada. E, apesar de ser um "cromo repetido", mal entrei, soube a razão porque quis voltar e mostrar ao Miguel este local. Não é preciso ser religioso para o achar magnífico. É de uma grandiosidade estonteante, mas de uma minúcia incrível no mais pequeno detalhe - e este contraste torna-a numa das mais belas igrejas do mundo, pelo menos das que já visitei. Acho que há outras, em Itália, que eventualmente lhe fazem sombra (não quero dar muitos spoilers, mas a Catedral de Santa Maria del Fiore, em Florença é... wow!), mas esta terá sempre um lugar no topo das preferidas. Para quem é crente, todo o simbolismo religioso serve como um bónus a tudo aquilo que se vê - e acredito que, tal como Fátima, tenha uma mística especial. Ir ao Vaticano não é, para mim, turismo religioso - é só mais um ponto que temos de visitar se queremos conhecer alguns dos mais belos edifícios de Roma, em que a Basílica de São Pedro tem entrada direta. A Capela Sistina, supostamente, também - mas pela segunda vez consecutiva falhei a sua visita.

 

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À entrada, num local onde habitualmente as filas já são intermináveis. Nesta altura já com um lenço a fazer de saia - por uma questão de respeito, não se deve mostrar os ombros nem os joelhos dentro da igreja

 

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Este "lençol" de mármore no topo de uma porta é qualquer coisa de espetacular. Como é que se torna uma pedra numa estrutura aparentemente maleável? 

 

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A lista dos Papas sepultados na Basílica

 

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Na praça principal do Vaticano

 

O último sítio por onde passámos, no regresso ao hotel, foi o Castel Sant'Angelo - que também pode ser visitado, uma vez que é agora um museu (mas que também ficou de fora das nossas opções). É um edifício construído uma centena de anos antes de Cristo e serviu primeiramente como mausoléu e, depois, como fortaleza militar. Mesmo junto ao rio Tibre, dizem que tem uma vista muito bonita sobre a cidade.

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Castel Sant'Angelo

 

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Nesta fase as horas já apertavam e voltamos ao hotel, onde tínhamos pedido que nos guardassem as malas, em passo rápido. Desta vez, e como já sabíamos o caminho sinuoso que teríamos pela frente, decidimos apanhar um táxi para ir para a estação de Termini. Fomos cedo, com tempo para almoçar, e ainda bem - o cais onde estava o nosso comboio era o mais distante, a quase dez minutos de caminho; demoramos ainda mais tempo a chegar lá porque o fluxo de pessoas que chegou era tanto que formava uma corrente impossível de penetrar quando se ia no sentido contrário. Com uns encontrões pelo caminho e, certamente, um ou outro insulto, lá conseguimos chegar - e a viagem até Civitavecchia foi tranquila.

O pior veio a seguir. Quando comprámos o bilhete de comboio havia a possibilidade de adquirir um bilhete duplo, com uma viagem de autocarro incluída até ao terminal dos barcos. Mas, quando lá chegámos, havia centenas de pessoas perdidas e ninguém para ajudar. Os autocarros que lá estavam também eram muito poucos - e os que havia ou não eram da companhia correta ou recusavam-se a levar-nos, alegando que só podiam levar pessoas que viajassem num ou outro barco (que nunca era o nosso). Tínhamos uma hora de check-in definida para entrar no barco, mas estávamos com tempo - e eu dei a infeliz sugestão de irmos a pé até ao cais. Por isso, daqui vai a dica mais preciosa para todos aqueles que façam cruzeiros a partir de Roma: nunca se aventurem sozinhos pelo terminal de cruzeiros romano - demorem o tempo que precisem, apanhem um autocarro ou táxi, ou agilizem com a companhia de navegação. Mas nunca se aventurem sozinhos pelo porto! Nunca!

A sinalização é inexistente e a informação é nula, assim como a vontade de ajudar de quem lá passa; foram mais de duas horas até chegarmos ao barco (passou longamente a hora do check-in, como é lógico) e foi um caminho muito duro, confuso e enervante. Andámos quilómetros a pé com as malas atrás, sob um calor abrasador e um sol que não dava tréguas; íamo-nos juntando a outros passageiros perdidos - pessoal desesperado com a falta de informação e já com os nervos em franja, com um humor que não foi em nada ajudado pelas altas temperaturas que se sentiam, que nos tornava facilmente irritadiços e nos faziam parecer saídos de uma poça de água, encharcados da cabeça aos pés. Depois de muita espera, demasiados quilómetros, dois autocarros e de vagas tentativas de falar italiano, chegamos - literalmente! - a bom porto. Foi um alívio ver o barco e sabermos que, dali a pouco tempo, poderíamos finalmente deitar toda aquela roupa para lavar e tomar um merecido banho.

Para trás ficou Roma, que apesar de não deixar uma boa última impressão - alguém precisa de trabalhar a comunicação daquele porto, por favor! -, é simplesmente magnífica. Em retrospetiva, sinto que a capital italiana é bonita em todas as horas do dia - quer com o sol a brilhar, amarelecendo ainda mais todos aqueles edifícios de cores quentes e pastel, quer com o cair da noite, onde a iluminação ainda faz notar mais a tinta das paredes naturalmente queimada. Este tom meio outonal, conferido às cidades pela cor dos seus edifícios, é das coisas que mais gosto e me faz sentir quente, confortável, quase em casa. Isto, pintalgado com o bom gosto da decoração das lojas de rua - Roma está cheia de lojas de couros e mármores - e o cantar da língua italiana que ouvimos a cada passo... é apaixonante. E se de facto Roma tem coisas más que tem de trabalhar (o lixo, os muitos sem-abrigo que habitam as ruas), tem outras coisas muito boas - como é o caso da iluminação noturna dos monumentos e, por exemplo, os pontos de reabastecimento de água, grátis, espalhados pelo centro histórico da cidade.

Penso que apesar de todo o stress inicial de saber que não haveria tempo para ver e fazer tudo o que queríamos, aproveitamos bem o nosso tempo. E, como eu digo sempre, esta é mais uma das vantagens dos cruzeiros: o facto de não conseguirmos fazer tudo dá-nos uma boa razão para voltar. Desta vez fiquei a conhecer muito mais do que em 2017 - e espero que numa próxima consiga aprofundar tudo o que vi agora pela rama. No futuro quero muito levar o Miguel ao interior do Coliseu, quero ir ao Fórum Romano e ter a oportunidade de me sentar num café e sentir a vida da cidade; eventualmente visitar alguns locais que ficaram de fora do nosso roteiro, como a Villa Borghese, as Termas de Caracalla, o Theatro Marcello e a Ostia Antica. E, para além disso, tentar ter a mente suficientemente aberta para usufruir da verdade gastronomia italiana - porque apesar de gostar de pizzas e massas, eu sou muito "simplória" e não gosto de experimentar novas comidas, algo que devia mudar, para tentar ter uma experiência mais completa. E que melhor lugar que Itália para tentar abrir horizontes? 

Por isso... temos mesmo de voltar.

06
Out22

Chávena de Letras: os dois primeiros livros da série Bridgerton

As duas próximas reviews podem ter spoilers. Os livros foram lidos depois de ter visto a série.

 

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É difícil fazer a análise de um livro quando já temos na nossa posse todos os detalhes da história e conhecemos as personagens. E foi isso que me fez chegar a duas conclusões invulgares, que até podem parecer contraditórias:

1) A série é muito melhor que o livro.

2) O livro é bom (para o estilo) e difícil de "deslargar".

Aquilo que a série fez com o universo Bridgerton é só incrível; é um trabalho digno de aplauso, tendo em conta esta base de partida que, por comparação, é muito mais fraca e superficial. A série abre o espectro deste mundo criado por Julia Quinn, enquanto que o livro é extremamente focado no casal Daphne-Simon. O mais provável é que a série já tenha ido buscar detalhes dos livros futuros, de forma a construir personagens mais complexas e um universo coerente, que se adeque aquilo que vai acontecer a seguir; mas a verdade é que para além desse afunilamento da narrativa que existe no livro, na obra escrita nada mais nos puxa para além do romance. Por outro lado, a série cria todo um mistério à volta da Lady Whisteldown (que é pouco mencionada neste primeiro livro, excluindo as citações no início de cada capítulo), dá vida e conteúdo às personagens em redor dos protagonistas (Eloise, a Bridgerton com mais personalidade na série, não é mencionada no livro, por exemplo; a rainha não existe; mesmo o papel preponderante da Lady Danburry é muito desvanecido), já para não falar de todos os cenários incríveis e a música que a série apresenta.

A verdade é que, pelo menos lido à posteriori, este livro perde por comparação à série - se esta não existisse, eu provavelmente contentava-me com o que tinha lido e nem sequer questionava. Mas aqui entram de novo os contrassensos: será que eu compraria o livro se a série não existisse e se a capa não tivesse a cara das personagens? Definitivamente não. Este é o tipo de obra que faz check em todos os preconceitos de "chick lit" - desde a capa cor de rosa, passando pelo ar apaixonado da menina com as florzinhas no cabelo, culminando com cenas mais quentes que fazem as delícias de qualquer leitora ávida deste estilo de leitura.

Apesar de tudo isto, é muito provável que leia o segundo (e o terceiro, e quarto, sei lá!) - e esta é talvez esta a maior qualidade da escrita de Julia Quinn: deixar-nos presos, tanto enquanto lemos como quando pousamos o livro. Tem uma escrita fácil, fluída, empolgante. E nesta fase em que me encontro, com hábitos de leitura ainda instáveis, esta é a qualidade que mais aprecio e que mais me importa em qualquer obra que leia - mesmo que seja chick lit da mais pura.

 

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Mais uma vez, li o livro depois de ter visto a série. E, de novo, tiro o chapéu à série, por ter sido capaz de ver para além da escrita de Julia Quinn, do enredo demasiado focado só nos protagonistas e por ter conseguido diversificar o interesse noutras personagens, não desprezando ainda assim o desejo ardente entre os dois protagonistas. Tudo aquilo que enalteci na review do primeiro livro, poderia reescrever aqui.

A história central, desta vez, foge mais ao original, comparativamente ao primeiro; tudo o que a série modifica só vem acrescentar valor, por isso não me choca - como é o caso do enlace com Edwina, que no livro nunca chega a acontecer e o arrastar do envolvimento mais sério entre Kate e Anthony, que no livro é um tanto ao quanto repentino e na série demora mais a desenvolver-se. Lady Whistledown continua nas sombras, tendo um pequeno destaque nas páginas finais do livro, o que leva a crer que a cortina se vai abrir nos capítulos seguintes.

O próximo livro será o primeiro que lerei sem ter a série como base de comparação - e confesso-me muito curiosa, por só aí poderei fazer uma crítica mais ponderada, sem cair na tentação de comparar a escrita com a criação televisiva. De qualquer das formas, acho que gostei mais do primeiro livro de Queen e algo me diz que isto vai em decrescendo... Esperemos que esteja errada. O tempo o dirá - o terceiro livro da saga já está na estante à espera de ser lido.

29
Set22

Uma lua-de-mel nas Maldivas

Estou a preparar-me para fazer os diários de bordo do meu último cruzeiro e vinha lançada para escrever o primeiro texto quando me cai tudo: "eu ainda não publiquei o texto sobre as Maldivas". Eu sei, não sou digna de aqui estar: devia ser despedida dos blogs com efeito imediato, tal é o ultraje: como é que se passa mais de um ano depois de uma das viagens da minha vida e eu ainda não dediquei tempo para escrever sobre ela? Na verdade, metade do texto está nos rascunhos desde Março, mas os dias foram passando e ele foi ganhando pó. Mas hoje foi o dia. Quase um ano e meio depois - quando até já o hotel mudou de nome!!! - cá estou eu, a redimir-me, e a fazer o que tem de ser feito. Gosto sempre de escrever estes textos pouco tempo depois de viajar, para garantir que deposito todas as memórias o mais frescas e verdadeiras possível, mas mais vale tarde que nunca.

 

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Quem me conhece saberá que as Maldivas não eram o meu destino de sonho para ir de lua-de-mel. Ou, pelo menos, não é o primeiro sítio que me surgiria, até por ser meio clichê. Ter duas semanas inteiras de férias, numa altura escolhida por nós (e fora de épocas de pico), é um luxo que se tem de aproveitar bem e a minha primeira opção teria sido a Austrália, uma viagem que já está na minha lista há muito tempo. Eventualmente faria um mix entre cidade e praia, mas iria certamente conhecer o outro lado do mundo.

Mas... Covid. Perante a instabilidade que se vivia (fecha-abre-confina-desconfina) o plano inicial até era ficar por cá e ir para Porto Santo. Mas decidimos arriscar - e ainda bem! Não houve muito destinos em cima da mesa mas, à partida, tudo o que era visita cultural ficou de fora: os países fechavam e abriam as fronteiras constantemente, havia regras muito restritivas em muitos deles e muitos dos locais de interesse (museus, igrejas, parques e monumentos de uma forma geral) estavam fechados, por isso não valia a pena arriscar. Mas praia... praia há sempre. Há-de haver sempre mar e conchas e mergulhos, por isso decidimos que íamos ficar de papo para o ar quinze dias no destino-rei das luas-de-mel. As Maldivas.

Até decidir o hotel foi um ano de juízo. O Miguel pesquisa as coisas até à exaustão, com uma profundidade que eu jamais teria paciência, e por isso, a certa altura, eu já estava pronta para fazer o "um-dó-li-tá" e escolher um hotel qualquer que estivesse na nossa short list. Todos eram nas Maldivas, todos tinham mar, e praia, e peixes, e raias, e cabanas e tudo e tudo e tudo. Mas ele pesquisava, ele via vídeos, ele lia reviews. Quando finalmente me disse "acho que vai ser este", eu só lhe respondi: "M-A-R-C-A, por amor de todos os santinhos"! 

Não consigo precisar quais foram os hóteis entre os quais estávamos indecisos (devia ter tomado nota para posterior consulta, mas falhei), mas acho que nunca mais me vou esquecer do nome do sítio onde ficamos: Lti Maafushivaru (agora chama-se Outrigger Maafushivaru). Não sei se foi pela perseverança e paciência do Miguel, a quem tenho de tirar o chapéu, mas o hotel era de facto espetacular. Os outros provavelmente também seriam, mas aquele foi o ideal para nós naquele momento e hoje percebemos que fizemos um bom negócio, com uma relação-preço qualidade incrível, tendo em conta o hotel e as condições oferecidas. O hotel não era novo mas tinha sido todo renovado - apanhamo-lo aquando da reabertura, ainda fresquinho, com umas condições incríveis - e percebemos meses mais tarde que os preços estavam a disparar dada a qualidade do mesmo. Ficamos lá hospedados na altura certa e fomos muito felizes lá.  

Com hotel decidido, faltava a outra parte da odisseia: a viagem. O homem via vídeos dos aviões por dentro, comparava todas as escalas e companhias... enfim! Mas, mais uma vez, acertou em cheio. Era a nossa lua-de-mel e decidimos ir em bom, nem que fosse uma vez na vida - e por isso fomos pela Qatar, aquela que dizem ser a melhor companhia do mundo. Em classe executiva. Num Boieng 777-300, que faz uma classe executiva melhor do que muitas primeiras classes. E, meus amigos, fica um conselho de amiga: não façam isto. Porque depois não vão querer outra coisa e ora desgraçam as vossas carteiras ou ficam para sempre deprimidos por cada voo "normal" que decidam fazer. Optamos por fazer Porto-Madrid pela Transavia e depois Madrid-Qatar-Malé pela Qatar Airlines. E que maravilha que foi! Não há palavras para o serviço, para o avião, para a comida, para o carinho das pessoas. É, de facto, outro nível, outro conceito diferente de viajar; aqui, a própria viagem já integra a parte boa da experiência, não é somente um meio para atingir um fim. Só tenho elogios a tecer à Qatar e sonho um dia poder repetir esta experiência.

 

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A viver o sonho a bordo da classe executiva da Qatar

 

Chegados a Malé, tudo pareceu um pouco caótico. E é aqui que percebemos uma realidade que quase todos parecemos esquecer sobre as Maldivas: apesar das ilhas paradisíacas, aquilo é um país de terceiro mundo - e as estruturas e as pessoas não deixam que isso passe despercebido. Começamos logo mal: perderam-nos a mala. Prevenidos e com medo que isto acontecesse, já levávamos uma mala de mão com uma muda de roupa e tudo o resto essencial, por isso não foi o fim do mundo. Mas a experiência deu-nos logo a conhecer uma faceta do país que, até aí, também desconhecíamos: nas Maldivas mais de 90% da população é muçulmana e estão longe de serem brandos na implantação dos seus costumes. Há muita burka, muitas regras e restrições em relação às mulheres - que se fazem sentir na capital, Malé, o que só não acontece nas ilhas porque são privadas e os turistas podem andar como querem e bem lhes apetece. Enquanto esperávamos pela mala que não chegou, o Miguel foi chamado ao guichê para o notificarem do sucedido; eu fiquei junto ao tapete, caso a mala aparecesse, mas sempre de olho nele. Depois de perceber o que é que se passava, ele chama-me e eu vou ao seu encontro - mas sou rapidamente parada por uma mulher polícia, que me questiona de forma áspera de onde sou, quando cheguei e o que vou fazer às Maldivas... sozinha. Explico que não estou sozinha, que vou ter com o meu marido que está no balcão de informações, e só ouvir a palavra "husband" foi o suficiente para a sossegar. Afinal eu tinha dono, não estava lá sozinha - por isso pude seguir. Achava que a forma como eu tinha sido tratada (vulgo: ignorada) no aeroporto do Qatar era passado, mas na verdade era só uma amostra daquilo que seriam as nossas férias. Felizmente este foi o único episódio em que fui eu a visada, mas assistimos a vários - e foi, sem dúvida, a parte que menos gostei neste país.

Mas voltemos à nossa chegada: supostamente teríamos alguém à nossa espera quando saíssemos do avião, mas o vôo chegou atrasado e tivemos de nos desenrascar. Em vez de lojas (que há muito poucas), o aeroporto está repleto de pequenos "stands" que correspondem às ilhas/resorts, onde vos dão toda a informação e vos acompanham até ao sítio onde devem levar as malas, apanhar os transfers, etc. E a ajuda é de facto preciosa, pois a confusão está (aparentemente) sempre instalada. Do aeroporto seguimos para um lounge do nosso hotel, onde esperamos (umas duas horas?) para depois apanhar, finalmente, o hidroavião. Achei que esta viagem ia ser pior que todas as outras juntas - em termos de torbulência, arranque, aterragem... mas na verdade foi tranquila. Barulhenta e apertada (o avião é minusculo e muito baixo, com cerca de 15 lugares, mas vários são ocupados pelas bagagens que não cabem no mini-porão), mas segura e sem sobressaltos. E a vista? Tudo aquilo que vemos nos filmes, nos vídeos e nas fotos é verdade: aquelas águas azuis turquesa, as areias brancas e os atóis das mais diversas formas e feitios são das coisas mais bonitas do mundo.

 

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Prestes a subir para o hidroavião

 

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Tudo muito orgânico no hidroavião - com direito a pés descalços e papel higiénico, just in case

 

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Quando finalmente aterramos (foram só três solavancos na água e já passou!), fomos deixados numa pequena plataforma em pleno mar-alto (quando digo pequena, era pe-que-na: com uns seis metros quadrados, de madeira, que abanava de forma impressionante) e seguimos depois numa pequena viagem de barco até ao resort, pois o cais da nossa ilha estava inoperacional devido a uma tempestade que tinha acontecido uns dias antes. Não fizemos grande tempo entre escalas e, ao todo, demoramos cerca de 24 horas a chegar ao destino. E, meus amigos, vale cada minuto.

Quando chegamos, a primeira coisa que nos disseram foi "welcome home!". E não é que é mesmo? Sentimo-nos em casa ali. A segunda foi "you can take your masks off, everyone is tested" (podem tirar a máscara, toda a gente está testada). Se isto já era bom de ouvir em qualquer contexto, escutar estas palavras depois de termos passado um dia inteiro com o nariz e a boca cobertos (mesmo a dormir)... soou a qualquer coisa de mágico! A questão das máscaras e da segurança foi, na verdade, mais uma das razões pelas quais escolhemos as Maldivas e este hotel em particular - porque a praia ninguém nos tira, porque o controlo para a entrada no país era apertado (o que nos dava uma boa sensação de segurança) e porque, sendo a ilha pequena (dava-se a volta a pé, sem problemas, em cerca de quinze minutos), sabíamos que iríamos estar num ambiente muito limitado e controlado, para poder desfrutar das nossas férias sem grandes stresses. Só utilizávamos máscara para ir ao buffet - de resto, estávamos sempre a respirar ar puro. Era, an verdade, muito raro cruzarmo-nos com outros hóspedes no hotel, tirando a altura das refeições.

 

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Fomos nós que marcamos tudo: viagens e hotel. E ainda bem, porque para além de (à partida) termos poupado uns trocos, isto obrigou-nos a informarmo-nos ao detalhe sobre todas as burocracias que eram necessárias para seguir viagem. Tal como nós, muitos casais seguiam em lua-de-mel no primeiro vôo que fizemos, e vários foram os que tiveram problemas com papeladas, testes covid, e etc. Em relação ao hotel, optamos por fazer uma reserva com tudo incluído. E quando é tudo, é literalmente tudo: podíamos frequentar os quatro restaurantes do hotel, usufruir de todos os bares, consumir as bebidas que quiséssemos (nisso demos zero despesas, só a beber coca-cola e água...) e utilizar o vasto mini-bar que o nosso quarto dispunha. Havia apenas duas exceções: os vinhos que havia no quarto (nem sequer era no mini-bar, era um frigorífico só com vinhos) e alguns pratos nos restaurantes, devidamente assinalados, que por serem confecionados com produtos premium (lagosta, caviar, etc.) eram cobrados a um terço do preço de tabela. Se vale a pena ir com tudo incluído? CLARO! Por cada refeição, gastávamos o equivalente a 150 a 200 dólares. Nas Maldivas tudo é importado e tudo é caro, pelo que se não tivéssemos escolhido este plano, e mesmo não bebendo álcool, pagaríamos tanto ou mais que a própria estadia. Diria que mesmo indo em regime de meia-pensão pode ser arriscado - primeiro porque não há alternativas fora do hotel (só se formos a nado para outra ilha...) e segundo porque uma semana de snacks ao almoço, no final, revelar-se-ia provavelmente uma pequena fortuna. Por isso, se é para ir, ponham as fichas todas em cima da mesa e vão com tudo. 

O hotel dispõe de vários tipos de casinhas: umas em cima do mar, com e sem piscina; e outras à face da praia, também com e sem piscina. Nós escolhemos as primeiras - lá está, fizemos all in! E a partir do momento em que uma pessoa abre a porta... fica deslumbrada. Com a dimensão do quarto, com a decoração, com a piscina, com a vista... enfim, com tudo. Estávamos todos rotos, mas atiramo-nos logo à água (o hotel providencia colete, óculos, tubo e barbatanas para fazer snorkeling) e ainda bem que fomos, pois foi o dia em que esta estava mais clarinha. A época alta das Maldivas não corresponde à nossa, pelo que há grande possibilidade de apanhar tempestades e mau tempo; mas, para além disso, as águas ficam mais turvas e não têm aquela claridade que tanto idealizamos e que vemos nos screensavers - o que, devo dizer, não a faz menos incrível. ;)

 

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Sobre a água: não é quentíssima mas também não é fria. Diria que tem uma temperatura aproximada à do nosso corpo, o que faz com que seja fácil entrar e sair. Uma coisa que não esperava eram as correntes: pelo menos naquela zona e naquela altura, eram muito fortes. A primeira vez que fomos ao mar usamos colete, mas o Miguel deixou de o usar pouco depois... já eu só passado uns dias é que me atrevi (principalmente porque sentia que aquele equipamento me magoava e desajudava mais do que propriamente o contrário). No entanto, diria que é essencial termos noção das nossas capacidades: eu nado bastante bem, o Miguel melhor ainda. Ainda assim é preciso saber para o que se vai, marcar um objetivo e não ir simplesmente ao calhas; é necessário ter em atenção as marcações de perigo colocadas à volta do atol e nadar de forma estratégica - ou seja, numa primeira fase optar por nadar contra a corrente para depois, quando estivermos mais cansados, ter a "ajuda" para voltar à costa ou a casa. Ao contrário do que também pensava, o mar não é estilo lago: há ondas, acima de tudo provocadas pelo vento -  e uma coisa é certa, há SEMPRE vento. Não são ondas como as nossas, que movimentam quantidades grandes de água, mas combinadas com a corrente e tendo em conta que queremos estar à superfície com o tubinho para ver os peixes, a vida às vezes fica dificultada. Na verdade o vento era de tal forma que embora houvesse caiaques grátis à disposição (e eu adoro andar de caiaque!), nunca lhes pegamos, com receio de não termos força para regressar.

Ainda sobre o mar, não posso dizer que tenhamos ficado dececionados com a fauna que lá encontramos, mas diria que tivemos de restabelecer expectativas. Acho que todos idealizamos um fundo do mar colorido nestas zonas do mundo, mas os corais das Maldivas são cinzentos (não estão mortos, atenção) e o que dá colorido são os muitos peixinhos (e peixões) que lá habitam. Vimos muitos, de todas as cores e feitios, para além de raias, mantas e, claro, tubarões - a maioria pequeninos e totalmente inofensivos, os maiores com cerca de dois metros, o que já impõe um certo respeito embora nos digam que não constituem uma ameaça para os humanos. Curiosamente, diria que o mais perigoso naquelas águas são os corais - o nível médio das águas na zona do atol é muito baixa (pouco mais de 2,5 metros, provavelmente) e consoante as marés e as correntes por vezes torna-se difícil contornar aqueles "rochedos" gigantes que chegam quase à superfície. Os arranhões e rasgões são sérios, quando batemos com um pé num coral ou quando a barriga dá uma "varridela" num deles. Se não se acreditam, o meu pé pode servir de testemunha!

 

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Ora bem: e o que é que ao certo se faz nas Maldivas? Dorme-se muito, namora-se, conversa-se, nada-se e vê-se os peixinhos, lê-se, joga-se, tomam-se banhos de imersão, apanham-se banhos de sol, dão-se mergulhos e alguns passeios na praia, apanham-se conchas (embora seja proibido), vai-se ao spa e come-se. Come-se muito. E bem, pelo menos naquele hotel em particular. 

O meu primeiro destaque tem de ser, obrigatoriamente, para a oitava maravilha do mundo, que era o gelado de côco deles. A sério, não há palavras. Se compararmos, a Olá nem entra na escala, a Carte-D'or está com pontos negativos e até a Haggen-Dazns fica como um burro a olhar para um palácio. Aquilo era absolutamente divino e eu sei que não vou comer um igual em mais nenhuma parte do mundo. As Maldivas têm, para mim, sabor a côco - e eu fiquei eternamente agradecida ao empregado que me sugeriu este gelado, em conjunto com um outro maravilhoso, de chocolate com canela (acho eu), chamado Jafa. Foi esse mesmo funcionário que nos serviu os cocktails de boas-vindas quando chegamos (isso e aquelas toalhas fresquinhas e húmidas, para limpar as muitas horas de ar de avião de tínhamos na cara - ai que maravilha!) e eu, que nunca gostei de batidos de fruta, fiquei pasmada com o sabor daquilo. Passei a vida a pedir o "cocktail de boas-vindas", de tão bom que era.

 

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Um mix das comidas "maldivianas" - e, claro, o famoso gelado à direita

 

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A comida é na generalidade muito boa e há para todos os gostos: ao jantar há um buffet com pratos do mediterrânico ao indiano, passando também pelo italiano e japonês, assim como simples grelhados. Há um restaurante exclusivamente japonês (que achei fraco e com pouca oferta, porque apesar de ser só mar, o peixe nas Maldivas não é bom), outro de grelhados com uma inspiração meia indiana (que também não adoramos porque era tudo picante e muito rebuscado), um de tapas e ainda outro mais mediterrânico, com massas, bifes, pizzas e etc., que era onde normalmente almoçávamos. Isto para além do bar, onde há sempre gelados, doces e tostas ao dispor, em conjunto com um staff sempre atencioso, simpático, prestável e com um sorriso para dar.

Sobre o pequeno-almoço... queremos mesmo falar? Tínhamos uns dez tipos de pão, alguma pastelaria, panquecas e waffles feitos na hora, assim como uma estação de omeletes, fruta variada, uma secção de comida indiana (que parecia quase feijoada) e outra de sushi, bacon de vários tipos assim como outras carnes quentes, queijos e carnes frias, saladas, cereais, iogurtes e leites de todas as variedades. Basicamente... tudo. Era o paraíso na terra, não só tendo em conta a comida, mas também o sítio onde depois comíamos, em frente àquele mar maravilhoso e os mini-tubarões a passarem à nossa frente. Não sei quantos quilos engordamos, mas também não quero saber - valeu cada caloria! (Até fizemos um vídeo do pequeno-almoço, para ver abaixo:)

 

O hotel oferecia uma tour pelos corais nos atóis mais próximos, que fomos fazer em conjunto com mais uma meia dúzia de casais. Não tivemos muita sorte em nenhum aspeto: primeiro porque não vimos nada de extraordinário (é normal ver mantas e tartarugas nestes passeios, por exemplo) mas, acima de tudo, porque fomos apanhados por uma tempestade a meio da viagem que só me fez querer nadar para terra firme. Nunca tive problemas em andar de barco, mas desde o episódio infeliz que tive nos Açores quando fui ver os golfinhos - para quem ainda não me lia nessa altura, pode encontrar esse post aqui - que fiquei com medo de me voltar a sentir daquela forma. Tinha pedido, antes da viagem, comprimidos para o enjoo; tomei um antes de embarcar e, naqueles momentos em que o barco quase ficava a 90º, tomei outro - mas tive a plena noção de que foi por um triz que não vomitei tudo o que tinha no estômago. Ao nosso lado uma senhora já tinha dado de comer aos peixes e outra estava estatelada no chão tais os solavancos que o barco dava; nessa altura ainda só tínhamos mergulhado num só local e dirigíamo-nos a outro, mas foi por mútuo acordo que decidimos todos voltar a terra firme o mais rapidamente possível, pois cada vez mais gente se estava a sentir mal - eu incluída! O skipper disse que aquilo era uma pequena tempestade, que dentro de cinco minutos passaria, mas a verdade é que entretanto já tinham voado não sei quantos coletes para o mar, o topo do barco já tinha quase tocado na água e o ambiente que se vivia era de consternação. Não foi uma boa experiência - e eu, mais uma vez, só agradeço por o meu marido intervir por mim e ter proposto que aquele suplício acabasse o mais rapidamente possível. Quando pus os pés em terra firme nem queria acreditar. Fiquei tão cansada daquela adrenalina e sentimento geral de mal-estar que dormi a tarde inteira. Recomendo que façam estes passeios, até porque podem ver coisas muito diferentes daquelas que aparecem nas imediações do hotel - mas é preciso ter em conta que aventuras como a nossa não são raras e podem acontecer.

E o que fazer para ultrapassar situações de stress como esta? Uma massagem, pois claro. Não sou utilizadora de spa's e, até à época, só havia feito uma massagem na vida - sempre dispensei ter pessoas estranhas a tocarem-me no corpo - mas, mais uma vez, era uma experiência que eu achei pertinente ter naquele local. E que boa que foi! O hotel tem, de facto, uma infraestrutura incrível - a zona do spa tinha, para além das habituais saunas e banhos turcos, uma piscina infinita lindíssima. A parte boa é que combinam isto com um staff impecável - tanto ao nível da simpatia como de profissionalismo - e uma ótima capacidade de "pintalgar" estes momentos com coisas muito boas, como um chá mega aromatizado e espetadas de fruta divinais. A combinação dos sabores que consigo recordar, em simultâneo com aquela sensação ótima de relaxamento, são uma daquelas memórias que encapsulei para sempre e que eternizei no coração. Parece que ainda hoje consigo sentir o cheiro e a humidade tão típica daquele espaço. Ai, as saudades...

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Passamos lá nove noites incríveis, que não trocaríamos por nada. Foi inesquecível. Apesar de irmos em época baixa apanhámos muito bom tempo - só com uma ou outra chuvada, que ia embora tão depressa como vinha - por isso talvez valha a pena arriscar ir nesta altura do ano, uma vez que os preços são muito mais apetecíveis (foi também por isto que conseguimos ir em classe executiva e para este hotel, aliado ao facto de ainda termos marcado em época de grandes incertezas devido ao Covid, em que os preços estavam mais baixos de forma a atrair clientes). Houve coisas que não gostamos - mas, postas na balança, não são suficientes para deixarmos de ponderar irmos lá no futuro.

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Acima de tudo, aquilo que para mim é mais negativo nas Maldivas é mesmo a religião. Não é fácil "dizer" isto sem que soe mal, mas a verdade é que tenho sempre dificuldade em gerir os meus sentimentos quando estou em países muçulmanos, e é-me difícil não condenar determinados comportamentos. Como expliquei acima, nas ilhas não nos são impostas regras de conduta diferentes das do ocidente - mas a verdade é que há muitos casais e famílias muçulmanas a passar lá férias, e não podemos impedir-nos de olhar (ou ser olhados). Faz-me impressão que, com aquela humidade e calor, muitas mulheres andem totalmente cobertas - é que nem a cor dos olhos lhes vislumbramos. E embora tenham (obviamente!) todo o direito de ali estar, eu não consigo parar de me questionar: porquê vir para um destino destes se têm de andar sempre cobertas? Em toda uma ilha, o único sítio onde podem estar à vontade é provavelmente no quarto delas - e isso não será muito diferente de estar em casa. Não vão à água, não apanham sol, só caminham na praia - e calçadas. Dóia-me ver isto, mesmo sabendo que a realidade é assim em muitos países e que em muitos casos é escolha das próprias mulheres. Mas não consigo que me passe ao lado.

Também vimos várias famílias poligamicas - um homem com várias mulheres, todas elas tratadas abaixo de cão, mas havendo claramente uma hierarquia entre elas. A objetificação da mulher, o desrespeito e o desdém com que eram tratadas deram-me várias vezes cabo das refeições - e eu cheguei até a mudar de sítio enquanto tomava o pequeno-almoço, de tal forma me senti incomodada com os olhares que um deles me lançava ali de perto. Sempre ouvi dizer que "em Roma sê romano" e respeito profundamente este ditado - mas, naquele caso, estávamos em território "neutro", o que ainda trazia mais à superfície as disparidades entre as duas culturas: elas de burka e eu (e outras) com uma túnica de praia, pouco abaixo do rabo e com um decote generoso. Não há ninguém errado aqui - mas diria que há desconforto de ambas as partes e isso não é bom quando estamos de férias e queremos estar 100% descontraídos. 

Outro pontinho negativo vai para o rato (ou ratos?) que vi a cirandar o buffet num dos últimos jantares. Íamos a sentar-nos e, do nada, vejo uma movimentação rasteira ali ao nosso lado - era um rato, que teimava em não ir embora e de quem andei a fugir (e, inconscientemente, a procurar) o resto das férias. Não gostei da forma como os empregados encararam a situação: apesar de terem ficado alerta, acharam aquilo normal, o que a meu ver é problemático. Se ratos já é mau, ratos E comida é péssimo. Mas é uma ilha, quase todos os edifícios são abertos, e dá-se o desconto. E não era um ratito que me ia estragar as férias nas Maldivas, não é verdade?

A vinda foi triste - não é fácil deixar um paraíso. De qualquer das formas, dez dias é o ideal para um sítio destes, até porque chega-se a uma altura em que é só mais do mesmo: comida, mar, repouso, namoro... e repete. É bom, mas até a vida boa cansa, e era hora de voltar a casa. Dentro da chatice que é estar um dia inteiro entre aeroportos e aviões, voltamos a desfrutar da experiência de voar em classe executiva - mas no fim ficamos novamente sem mala. Quando a fui buscar, dois dias depois, ainda ma revistaram e confiscaram provisoriamente todas as conchas que trouxe - fui buscá-las passado um mês, por não constituírem um perigo nem uma violação das regras (uma vez que, por um lado, podiam trazer bichos que "contaminassem" o nosso ecossistema e, por outro, por ser proibido trazer corais e outras espécies marinhas que podiam estar ali em causa). Confesso que foi um alívio - perdemos uma boa porção de tempo a apanhar as conchas e os búzios que mais gostamos, tendo sempre o cuidado de nos certificarmos que não tinham habitantes - porque eu queria muito que as conchas fossem o nosso souvenir principal. E a verdade é que, depois de as ir buscar, fiz três molduras com elas: uma para nós e duas para oferecer, com tudo o que trouxemos da viagem. Assim, fica uma lembraça única, muito nossa e irreprodutível.

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Viemos embora com a certeza de que queremos voltar um dia. A paz que sentimos naquele lugar - ainda para mais depois de uma fase atarefada e louca como é a de organização de um casamento - ficará para sempre nos nossos imaginários. Quando vejo fotos de alguém naquele hotel dá-me um aperto no coração de tantas saudades que tenho dos dias que passámos lá - longe dos problemas e longe do resto do mundo. Só nós, com água à nossa volta, peixinhos e muita vegetação. As muitas fotos que tirámos - e o álbum que fiz e as molduras que espalhei pela casa -, o vídeo, as conchas, os souvenirs e até este texto não colmatam a nostalgia - às vezes, parece que só aumentam. Mas já diz o ditado: recordar é viver. E, enquanto não voltamos, vamos vivendo.

 

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22
Set22

Chávena de Letras: "Balada para Sophie"

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Foram precisos 27 anos para ler uma banda desenhada. E a verdade é que valeu a espera. Que livro! Que beleza. É poesia em forma de desenho, é música em versão papel.

Gostei muito da experiência de ler banda desenhada: na verdade achei uma óptima escolha para alguém que está a tentar restabelecer hábitos de leitura, uma vez que a história decorre rápido, sem grandes descrições e com base em diálogos, fazendo-nos avançar as páginas com vontade e sem demoras. Aprendi que não são precisas muitas palavras para descrever estados de espírito - nem sequer desenhos muito detalhados. A cor de fundo das páginas, o tamanho das letras, a profundidade das personagens... Incrível como tantas pequenas coisas - que nunca ninguém nos ensinou mas que interpretamos naturalmente - nos transmitem, às vezes, o essencial de uma história. E que bonita é está história, que bonita é esta balada (não só para Sophie, mas para todos).

20
Set22

O enraizar de um hábito

A primeira foto que tenho de um pós-treino no meu telefone foi tirada no dia 20 de Setembro de 2021 - faz por isso hoje, precisamente, um ano. Aqui há dias, enquanto suava a minha alma em cima da bicicleta, pensei que estaria a fazer um ano da primeira vez que tinha subido para cima daquele selim - e, quando fui vasculhar os arquivos, percebi que era hoje.

Foi o Miguel, claro está, que me instou a experimentar. Era Setembro, época de recomeços - e particularmente especial para nós, com o papo cheio das férias e de ressaca após meio ano de uma preparação de casamento particularmente stressante - e estávamos ambos algo desagradados com a nossa forma física. Ele já tinha arrancado no seu processo e eu morria um bocadinho de cada vez que o via em cima da bicicleta, a pingar como uma torneira, deixando ali todas as quilocalorias que queria matar. Eu sentia-me muito frustrada e triste porque não tinha força de vontade para aquilo, porque não queria voltar para o inferno de um ginásio mas não sabia o que havia de fazer; no passado tínhamos feito treinos estilo cardio em casa, mas passado uns meses os joelhos queixavam-se e os resultados não eram tão visíveis como o desejado, pelo que também não tinha o ímpeto necessário para começar. Continuávamos a jogar padel, já de forma mais consistente, mas muito longe de alcançar qualquer meta visível.

Ele ia insistindo comigo para subir para a bicicleta. Um dia, dois, três. Um sábado lá me deu a volta - emprestou-me uns calções de ciclismo velhinhos e cronometrou quinze minutos. Eu pedalei, sem peso e sem rumo e, com os bofes de fora, fiz o esforço de chegar até ao fim do tempo acordado. No fim, festejou comigo por eu ter pedalado durante aquele quarto de hora como se tivesse acabado de fazer um Iron Man (eu sei, tenho sorte no marido que escolhi). 

Apesar das dores no rabo, não achei que aquilo fosse assim tão mau. E segunda-feira - porque nós temos a mania que os inícios devem ser sempre às segundas - comecei a minha mudança. Nos primeiros dias fiz 20 minutos, depois 25 e fixei-me na meia hora dali em diante. Inicialmente ia mexendo no peso da bicicleta de forma mais ao menor arbitrária, gerindo as dores nas pernas e a respiração. Em Dezembro o Miguel - outra vez ele, claro - ofereceu-me um smartwatch que, honestamente, fez toda a diferença nesta fase da minha vida. Criou-me metas, deu-me métricas para me guiar. Ainda hoje saio derrotada de uma semana em que não faça cinco vezes algum tipo de exercício (nem que seja uma caminhada de quinze minutos); já sei que estive demasiado parada e sentada se não cumprir com a meta dos 10 mil passos diários e que um treino teve um rendimento mais baixinho se não atingir a média das 200 calorias. Foi, mesmo, o melhor investimento que ele podia ter feito por mim, pela minha saúde e pela minha motivação. Tenho lá a minha vida ativa registada e adoro a política do envio de notificações motivacionais ("só faltam mais dois dias de treino para atingir o seu objetivo!", "mais dois mil passos e chega à sua meta diária!", "ganhou o badge não-sei-quantos por ter subido mil degraus num só dia - as suas pernas são melhores que um elevador topo de gama!") que, por muito  parvo que pareça, funciona na perfeição.

No início do ano, creio eu, comecei a fazer treinos do Youtube (do canal do GCN) - assim não pedalo em vão, tenho uma sequência e um objetivo. Descobri que aquilo que melhor funciona comigo são treinos de intervalos e intensidade - e agora que já os sei quase de cor, alterno simplesmente o peso que ponho na bicicleta e aumento e diminuo a velocidade consoante aquilo que me sentir capaz naquele dia. Se no início utilizava só metade da roda do peso (180º), algures a meio deste ano passei a utilizar 270º - sempre sentada. Apesar de haver segmentos que se faziam em pé, não tinha pernas para aquilo. Até que há uns dois meses consegui - e agora já ultrapasso os 360º quando estou de pé e me obrigo a dar à perna. Estas evoluções foram vividas com muita alegria, ânimo e festejo - porque são realmente vitórias impressionantes para alguém que nunca gostou de fazer exercício e que tanto sofreu com isso ao longo dos anos. Na verdade, cada treino é tido como uma vitória - e em todos tiro uma foto para registo e mando para o Miguel, a pessoa que mais me motivou a conseguir e chegar até aqui.

Foi uma evolução feita com calma e passo a passo - não sou (nem nunca fui) de testar os limites do corpo. Se calhar até teria evoluído mais rápido se tivesse puxado a corda e provado a mim mesma que era capaz - mas também é provável que tivesse desistido rapidamente com as dores do dia seguinte e com o esforço mental que era necessário para me arrastar para a bicicleta todas as manhãs. Porque a verdade é que, nos primeiros tempos, não havia hormonas que me safassem - era penoso ir para a bicicleta, sair da bicicleta e, de uma forma geral, sobreviver ao resto do dia (e subir as escadas para o meu escritório? Parecia uma velhinha!). Continuei por pura teimosia e por querer consolidar um hábito e não por me sentir bem antes, durante ou depois do treino - acho que ainda hoje, um ano depois, as endorfinas não funcionam comigo. Agora, com o hábito enraizado, subo para a bicicleta por medo: por medo de engordar e por medo de perder um hábito que, de facto, só me trouxe saúde.

Os primeiros a notar as diferenças foram os outros - para mim, eu estava igual. Mas a minha capacidade de fazer arranques enquanto jogava padel e de conseguir chegar, finalmente!, às bolas mais perto da rede começaram a tornar mais óbvio que a minha forma física estava a melhorar - isso e umas pernas mais delgadinhas, como nunca antes tive. O emagrecimento só veio depois. Atingi o meu pico de peso em Novembro, quando já treinava - na altura estava a tentar emagrecer só com exercício e não sei até que ponto é que não fiquei mais pesada, precisamente, por estar a ganhar massa muscular. Como disse no último post, foi em pouco mais de três meses que perdi quase dez quilos - mas a verdade é que já andava a preparar o corpo e a mudar os meus hábitos nos seis meses anteriores, o que foi indispensável para aquele processo. 

Não sei muito sobre a criação de hábitos mas creio que um ano já é o suficiente para dizermos que um hábito está enraizado. Mas isto é como a confiança: demora-se anos a ganhar mas segundos a perder. Passei as minhas férias aterrorizada, com medo de não conseguir voltar à cadência de treinos que tinha conquistado. A rigidez com que vivi o segundo trimestre deste ano, com uma dieta muito restritiva e a treinar seis vezes por semana, era demasiada para uma vida social minimamente ativa e para um dia-a-dia relaxado, mas a verdade é que depois do impacto inicial (que foi duríssimo) o nosso corpo se habitua; difícil é depois encontrar um meio termo. A manutenção é o segredo de qualquer dieta bem sucedida, mas é também a parte mais difícil - porque mal começamos a dar ao corpo aquilo que ele gosta (nomeadamente calorias a mais e o rabo alapado no sofá), ele não quer outra coisa. Quanto mais comemos, mais queremos comer; quanto mais dormimos, mais queremos dormir. Às vezes temos a tendência de nos "fazermos as vontades", de ouvirmos o nosso corpo - aquilo que é tantas vezes necessário em inúmeros casos - mas caímos em erro, continuando determinados ciclos que deviam ser quebrados.

Mas apesar dos meus medos, consegui voltar ao meu regime de exercício com bastante facilidade. Já voltei a planear os meus treinos no início da semana (faço sempre um plano mental, à segunda-feira, para saber os dias em que faço bicicleta tendo em conta a minha disponibilidade matinal e os dias em que vamos jogar padel) e o resto dos hábitos continuam: ponho o treino do GCN no tablet, uma série no telemóvel, ativo o treino no relógio e pedalo - tudo de manhã, se possível ainda antes das 8h. Já cheguei a treinar ao final da tarde, mas só mesmo se for estritamente necessário - a minha força anímica esvai-se durante o dia com todo o stress e problemas do trabalho, pelo que dificilmente conseguiria enraizar um hábito destes ao final da tarde, entre a obrigação de fazer tarefas domésticas e as oscilações de humor e energia que dependem do decorrer do dia. Para além disso, desde há uns meses para cá que tento fazer um ou dois treinos de braços (musculação) por semana, para complementar o cycling (e o padel), uma vez que estou a dar muito mais atenção aos braços do que às pernas.

Duzentos e tal treinos depois, cá estamos - mais magra e mais saudável (noto menos cansaço no final de tarefas que puxam pelo corpo, por exemplo) mas, acima de tudo, muito orgulhosa de mim. Eu não sou só alguém que nunca gostou de fazer desporto - sou, ainda hoje, alguém com marcas profundas ganhas na escola e ginásios alheios, que me magoaram profundamente. São cicatrizes que, levianamente, tentamos pôr para trás das costas e deixar de dar importância, mas que não deixam de ser um peso só porque as escondemos e menosprezamos. Conseguir manter um hábito destes durante um ano é uma superação muito mais mental do que física. Ter encontrado um desporto que não me mata por dentro, sem ter olhos alheios postos em mim que sirvam de ponto de referência ou comparação foi uma lufada de ar fresco que nunca antes tinha sentido e a solução para um problema que achei que não era solúvel. Que dure muitos mais anos e que eu saiba equilibrá-lo com estilo de vida saudável - e que nunca, nunca mais tenha de pôr os pés num ginásio.

 

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21
Ago22

Cinco coisas que me ajudaram a readquirir hábitos de leitura

O ano ainda não acabou mas já teve duas conquistas muito grandes: a primeira foram os quase 10kg que perdi à custa de muito suor e lágrimas (felizmente o sangue não foi necessário!); foram três meses de dieta muito restrita (agora já aliviada, mas nunca totalmente posta de parte) e já lá vão quase nove meses de treinos praticamente diários, cinco a seis vezes por semana. A segunda conquista foi ter conseguido voltar a ler - que, na verdade, é o tema que me traz cá hoje.

Curiosamente, os dois feitos estão ligados entre si. Porque foi também por ter começado a treinar que consegui voltar a ler. E houve outras coisas que ajudaram - listei cinco, ao todo, e vou contar-vos a seguir:

 

- Um bom, e soft, pontapé de saída: comecei o ano a ler um livro mais técnico, sobre dietas (lá está, primeira conexão!) e alimentação. Na altura era "o" tema da minha vida, por isso queria muito chegar ao fim do livro para fazer uma gestão mais equilibrada da minha alimentação (embora ainda hoje esteja a ser seguida por uma nutricionista). Quando dei por mim já tinha chegado ao fim e já só precisava de continuar.

 

- Diversificar estilos: Quando cheguei ao fim do "XL ao S", divergi para um estilo completamente diferente e novo para mim: a banda desenhada. Li-o num fósforo! E para alguém que sempre se moveu a metas no que diz respeito a livros (embora saibamos todos que quantidade não é igual a qualidade), quase sem saber como, o número ia aumentado sem grande esforço. Só depois de "A Balada para Sophie" é que me voltei para a ficção, com um livro que me tinham oferecido e que tocou o meu coração, por todas as memórias boas que tenho do Japão - "Doce Tóquio".

 

- Definir tempos para ler - e para tudo o resto: uma das principais causas para o decaimento nos hábitos de leitura tem um nome simples e curto, que começa e acaba com a letra "s". Chamam-se séries. Não dão trabalho a ver, não temos de ter a luz do quarto ligada enquanto o nosso marido quer dormir, não temos de estar concentrados, despertos ou cheios de atenção - tudo (aparentes) vantagens. Mas aquilo que eu sempre senti é que ter a televisão ligada enquanto estou a adormecer me deixa agitada, enquanto que se ler fico logo muito mais relaxada; para além do stress, os livros exercitam-nos a mente, obrigando-nos à construção de cenários infinitos, enquanto que na televisão não podemos passar daquilo que escolheram mostrar-nos. No entanto, a verdade é que é difícil resistir a tanto facilitismo e ao hype que é construído em volta de várias séries, que nos deixam rapidamente com um bichinho que nos obriga a ficar colados ao ecrã durante dias seguidos. E se não podes vencê-los, junta-te a eles. Eu não deixei de ver séries - passei foi a vê-las em horários que não substituem a leitura. Que é quando? Na meia hora do demónio do meu dia, em que subo para cima da bicicleta e deixo lá os meus pulmões e, espero, umas quantas quilocalorias. Não consigo estar num aparelho de ginásio sem fazer nada: morro de tédio, começo a concentrar-me nas minhas dificuldades, a pensar em tudo o que podia estar a fazer em vez de estar ali a magoar o rabo - por isso preciso de um entretenimento. E qual é aquela coisa perfeita, que não precisa de muita concentração nem dá muito trabalho? Uma série. E as leituras ficam para a noite, com o seu slot de tempo vago, sem concorrência desleal.

 

- Ouvir o podcast "Vale a Pena": se há muito hype volta das séries, é preciso que o haja também em volta dos livros. E se não é bom comprarmos obras compulsivamente, até às estantes estarem cheias de livros nos quais nunca tocamos, também não nos faz mal ficarmos com aquela vontade de correr para uma livraria depois de termos ouvido rasgados elogios a uma determinada obra. E é por isso que o podcast da Mariana Alvim vale a pena (e passo o trocadilho ;) ) - é um programa com estrutura e feito com um profissionalismo que não é assim tão comum, uma vez que os podcasts são normalmente programas não lucrativos. A ideia é ter todas as terças-feiras um convidado que, normalmente, nada tem que ver com o mundo literário e saber quais os seus três livros favoritos - e perceber o porquê, claro. Dado o leque diverso das pessoas que vão ao programa, as respostas são muito diferentes e cobrem vários tipos de obras e estilos, por isso todas as semanas há uma nova surpresa para descobrir. E se por acaso estivermos numa daquelas fases chatas de um livro que não parece avançar, é uma boa forma de arranjarmos força para o acabar - para no final, claro, termos direito a um novo livro por bom comportamento ;)

 

- Arranjar livros que "colem" as leituras e nos deem vontade de continuar: desde há muitos anos que tenho esta técnica, mas infelizmente deixei de ter livros que servissem como cola e que me despertassem o interesse pela leitura. Para que é que servem? Para nos ajudar a ultrapassar livros que foram mais difíceis de terminar ou até obras cuja digestão não seja fácil. Uso-os, primeiro, por serem leves e fáceis de ler e segundo por, de alguma forma, nos entusiasmarem a continuar e não quebrar o ritmo. Durante muito tempo usei os livros do Tiago Rebelo para este efeito, pois tinham as características que considerava perfeitas: eram obras relativamente curtas, com histórias que agarravam facilmente e páginas que se viravam com facilidade, sem necessidade de pensar ou processar muito sobre o assunto. Li várias obras do autor mas considerei que vinham a perder qualidade, pelo que fiquei sem livros que cobrissem este propósito. Entretanto, com o sucesso da série Bridgerton - e por esta me dar aquele friozinho na espinha e vontade sempre de saber mais sobre o desenrolar da história - decidi começar a ler os livros, e percebi que tinham as características perfeitas para serem "livros cola". E por isso, de vez em quando, lá ando eu com uma obra de "chick lit" pura - mas que me vale umas belas gargalhadas e garante a continuidade das minhas leituras.

Dica extra! - Uma das coisas que fazia com que eu não lesse à noite era não querer incomodar o Miguel enquanto ele já descansava, por ter de estar com a luz ligada. E ao contar isto a uma amiga, ela deu a sugestão que mudou tudo: comprar uma luz estilo mineiro, daquelas que se colocam na cabeça e se compram por alguns euros na Decathlon. Se é um bocado ridículo? É. Se é um game changer? Também. É a solução que todos precisávamos para resolver os nossos problemas matrimoniais!

Em breve partilho as críticas aos livros que tenho lido!

E por aí, o que têm andado a ler neste verão? Há algum podcast sobre livros (e outros) que também gostem?

27
Jun22

Uma história com princípio, meio e sim: um ano depois

Hoje é dia de bodas de papel!

Um ano. 365 dias. Casei há um ano e tudo parece ainda tão fresco... Sinto que foi ontem, mas que se passaram um trilião de coisas pelo meio - coisas que, claro, nunca caberiam num espaço de vinte e quatro horas. Mas lá que parece, parece!

Este foi um tema muito batido no blog até ao final do ano passado - e penso que bastante maçador para alguns (desculpem!) -, ultrapassando qualquer recorde no que diz respeito às séries de textos já existentes aqui no blog (mesmo os das viagens). A rubrica "Uma história com princípio, meio e sim!" tem o equivalente a um pequeno livro de 45 páginas A4 - é muita letra sobre um só casamento, eu sei...

Tudo isto seria relativizado se os textos se tivessem diluído ao longo do tempo, mas a verdade é que eu agora pouco tenho escrito, pelo que basta recuar meia-dúzia de posts para se ter rápido acesso a tudo escrevi sobre este tema. Sei que este é mais um para o monte - mas sinto que é importante para mim fazê-lo. Passou um ano, caramba! Como é que estou, em comparação com há um ano? Quero refletir sobre esse contraste, do sítio onde me encontro agora versus o de onde estava (e não me refiro fisicamente); quero perceber a evolução da minha visão de um acontecimento que foi tão colossal e avassalador na minha vida; quero comparar o tamanho das feridas; quero olhar para trás e ver as diferenças - e, se calhar, o que tinha mudado no caminho para aquele dia.

Neste momento consigo comparar aquilo que sinto em relação ao bolo total do casamento (o dia e os seis meses de preparação) com a leitura de um livro já longínqua: fica a ideia geral - se gostei ou não da obra, dos sentimentos com que fiquei e as emoções por que passei enquanto folheava o livro, assim como uma visão muito genérica da história; mas os detalhes desvaneceram-se. Tenho um grande suporte com tudo o que escrevi aqui - coisas mais práticas sobre a organização de um casamento, que quis eternizar porque sei que a memória não dá para tudo -, mas os detalhes e meandros da história, tudo aquilo que foi central neste iceberg em que bati mas que só revelei a pontinha, foi desaparecendo - e ficam "apenas" os sentimentos de seis meses muito difíceis de gerir internamente, para além de uma série de temas-chave que ainda hoje me moem.

Tenho muito a tendência de rever mentalmente acontecimentos - não fosse eu uma overthinker clássica! -, de perceber o que podia ter feito diferente, de re-encenar discussões e chegar à conclusão de que devia ter dito isto e não aquilo. O casamento não é exceção - mas sei, neste caso em específico, que fiz o melhor que sabia e podia, tendo em conta as circunstâncias.

Ainda assim, por vezes, deixo-me cair nesta tentação de pensamentos com possibilidades infinítas e dou por mim a pensar: "fogo, se era para sofrer assim, mais valia ter partido a loiça toda e ter feito as coisas exatamente como queria! Que se lixassem os tradicionalistas - levava o Miguel comigo para decidir o vestido de noiva e ponto final. Se não queria a pessoa Y no casamento, não era convidado e ponto final. Se não queria fazer a primeira dança, não tinha sequer de dar explicações - e ponto final!". Mas no fundo sei que o "ponto final" é sempre mais um ponto na história - ou, se o quisermos ver de forma mais dramática, mais um prego num caixão que estava a ganhar forma caso eu não tivesse posto pés ao caminho. O sofrimento não tem uma escala: mas acho que podemos concordar que ele funciona como a Lei de Murphy - pode sempre piorar. E pioraria. Porque eu estava no limite do meu esforço: lutei as batalhas que consegui, venci algumas, mas sinto que perdi outras tantas. E essa mágoa, por se tratar do meu casamento (com aquilo que deviam ser as minhas decisões, as minhas vontades e as minhas expectativas), está ainda longe de ser ultrapassada. Tenho ainda um longo caminho pela frente, onde o principal fator é o tempo. Porque na verdade, ainda que hoje o meu pensamento predominante seja "já passou um ano", a minha cabeça sabe que na verdade deveria dizer: "calma, ainda só passou um ano...".

E enquanto o tempo passa - e, lentamente, cura... -, a vida acontece. E entre dias bons e maus, vem ao de cima a certeza daquilo que realmente importa: a de que tomei a decisão certa, independentemente de quaisquer pedras ou pedregulhos que me tenham atravessado o caminho. Que o Miguel foi a melhor prenda que a vida me deu, o acaso mais feliz que me aconteceu e a melhor escolha que eu podia ter feito. E que o correto era dar aquele passo, supostamente tão normal e inocente, mas que na verdade encapsula todo um conjunto de memórias, mágoas e dores que, hoje percebo, são normais em muitos casos - só não são é conhecidas nem expectáveis, uma vez que o mau tem sempre tendência para ser escondido e atirado para debaixo do tapete, ficando só as fotos com os sorrisos por cima da prateleira para toda a gente ver.

Eu optei por não esconder nada - até porque tornar-me visível foi uma parte muito importante para apaziguar a minha alma. E hoje, um ano depois, sinto muita coisa: mas, acima de tudo, muita felicidade por ter casado com o homem da minha vida. Sei, todos os dias, que fiz a escolha certa - e casar-me-ia de novo com ele, mesmo sabendo tudo o que sei hoje.

Há uns dias, ao passar numa montra de vestidos de noiva, demos por nós a comentar e a partilhar precisamente o mesmo pensamento, que a olho nu pode parecer um tanto ao quanto paradoxal mas que para nós faz todo o sentido: que o casamento é um dia bonito de viver e que voltaríamos a fazê-lo, um pelo outro; mas não o quereríamos reviver. A parte boa é agora, que já passou e virou memória. Porque o dia é uma experiência gira, mas o que vem a seguir é muito melhor. E nós ainda só vamos no início. 

 

26
Abr22

Algumas considerações sobre estes dois meses em que não escrevi

1. Na verdade, escrevi, mas ainda não publiquei: tenho o post sobre as Maldivas a marinar há semanas, mas há uma inércia qualquer que me impede de o terminar. Vou tentar dar a volta à questão o mais rápido que conseguir.

2. Apanhei Covid, na altura em que já não está na moda ter Covid - foi o meu marido que trouxe o bicho para casa (por isso, apesar de ter apanhado, sinto que estou isenta de culpas) mas passamos os dois muito bem. Na verdade, sinto que estava a precisar daquela pausa para parar com uma rotina que me estava a desgastar há uns longos meses. Foi bom para pôr a casa em ordem, fazer arrumações a fundo que iam sendo adiadas ad eternum e descansar. 

3. Foi também óptimo para cumprir escrupulosamente com a dieta, que comecei seriamente no início de Março. O Miguel alinhou comigo neste regime e tem sido muito mais fácil fazer isto com um parceiro do que a solo: primeiro porque as refeições estão sempre alinhadas e eu não tenho de resistir ao vê-lo comer batatas fritas ou coisas do género; segundo porque temos sempre uma vozinha que nos ajuda a não desistir, mesmo nos dias em que a tentação de pecar é muita; e terceiro porque quase entramos em espírito de competição, ao estilo "quem consegue chegar aos 60kg em primeiro". Do meu lado, tendo em conta o peso que atingi no final do ano passado, já consegui dizer adeus a cinco quilos. Para além da dieta, tenho feito exercício cinco vezes por semana, em média (o que, tendo em conta que estamos a falar de mim, é uma completa LOUCURA!). E não parei durante o Covid! Foi sempre a pedalar - o que resultou, provavelmente, na melhor semana de sempre na nossa dieta, apesar de estarmos fechados em casa.

4. Fiz 27 anos, o que me faz estar tão perto dos 30 como dos 25. Estou um bocadinho assustada.

5. Voltei a ler. Estou tão, tão, tão contente com isto! Li três livros nos últimos dois meses - um mais técnico, um romance e um de banda desenhada (o primeiro de toda a minha vida) - e agora só quero que isto pegue para conseguir voltar a agarrar este hábito. Mais tarde coloco aqui as minhas reviews e falarei de uma das táticas que me fez voltar a ler. Oxalá conseguisse alguma para voltar a escrever com regularidade...

6. Apareci na televisão, numa reportagem sobre a minha fábrica, cujo resultado final gostei mesmo muito! Se tiverem curiosidade em conhecer um pouco do processo de tecelagem e do local onde trabalho, podem ver o programa aqui. A reportagem começa no minuto 1 e tem uma segunda parte, que surge por volta dos 11:45min. 

7. Dois anos depois, voltei a tocar piano num recital. Foi tudo muito bonito até ao momento em que me sentei no piano de cauda do estúdio, para tocar o Canon in D do Pachabel; mas quando me deparo com o teclado, os meus dedos fizeram um bailado nunca antes visto. Tendo em conta tudo isto, e sabendo que o difícil naquela situação era acertar nas teclas, a coisa até nem correu muito mal - mas, na verdade, podia ter saído muito melhor. Toco muito menos do que tocava antes e perdi o hábito de atuar em público. Mais uma coisa a trabalhar nos tempos vindouros... Ate lá, vou ver se gravo uma versão decente e sem nervos para partilhar.

8. Já tenho férias marcadas - whowooooo! Foi uma decisão que demorou a ser tomada, mas já está - agora não dá para "des-decidir". Por muito que goste do nosso país, sinto uma "fome" enorme de mundo e quero muito colmatar estes dois anos de privação e aproveitar estes tempos com o Miguel. Mais uma vez a escolha recaiu sobre um cruzeiro que passará por Itália, Grécia e Malta. Nunca fui à Grécia, por isso será o "check" deste ano.

9. E custe o que custar, venha o que vier, eu sei que terei de voltar a escrever. Há dias, aquando da marcação do cruzeiro, tive uma dúvida sobre um dos sítios onde parámos numa das viagens anteriores e voltei atrás nos meus posts. E estava tudo lá, com detalhe e precisão, de tal forma que quase me permite viajar de novo, ainda que sentada no meu lugar. E nesse momento pensei, e soube, que tenho mesmo de continuar a fazer isto: não só roteiros e crónicas de viagem, mas escrever de uma forma geral. Tenho saudades - mas elas não compram horas extra no meu dia, não arrumam a casa nem fazem a sopa. Passaram-se três anos de namoro e ainda não consegui reorganizar a minha vida com todas as "novas" rotinas e hábitos - mas ainda não perdi a esperança. Tenho saudades - e, no fundo, espero que também tenham saudades minhas.

 

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