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Entre Parêntesis

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

23
Jan21

Revisão das resoluções de 2020

O ano que passou não foi fácil para ninguém. Pode até nem ter corrido mal para alguns (foi, felizmente, o meu caso), mas acho que dificilmente alguém o considerará "bom". O isolamento, o medo, as restrições, o novo "açaime" com que andamos todos os dias... é algo que não fazia parte dos planos de ninguém e que, sem querer, acabou por ser a realidade de todos nós.

Mas a vida não pára - pelo menos não na totalidade. Das 19 coisas a que me propus em 2020, foram mais as que falhei do que as que cumpri; ou seja: não se trata de uma maioria. No entanto, tendo em conta o contexto, não deixa de ser vitória. Sinto que tudo custou mais neste ano; todas as vitórias foram mais duras, puxadas, difíceis de conquistar. E, para todos os efeitos, foram várias as que falhei sem ter culpa ou sequer hipótese de tentar - e, como tal, é como se não tivessem existido. Por isso, tendo em conta tudo o que passamos, não deixou de ser um ano bom, dentro do mau que foi.

 

- Perder, pelo menos, 5 kgs;
Cumprida! Não foram cinco - foram quase oito. Aliás, como me disse a nutricionista, foram na verdade dez, uma vez que graças às bolas de berlim (que comi descontroladamente nas férias) perdi um bocadinho o controlo à dieta e voltei a ganhar perto de três quilos. Em Outubro, quando tive nova consulta, já tinha voltado de novo à linha e aumentado substancialmente a minha massa muscular. Muito feliz com isto!

- Ler, pelo menos, 12 livros - o equivalente a um por mês;
Falhada. Foram apenas dez, grande parte deles lidos em período de férias. Continuo a não conseguir coordenar a leitura com a minha rotina diária... Mas a luta continua!

- Fazer, pelo menos, seis escape rooms;
Falhada. Mas não por culpa minha ou por falta de vontade - é a primeira resolução cuja responsabilidade do falhanço vou depositar em cima da pandemia. Tenho imensaaaas saudades de pôr o cérebro a funcionar durante aquela hora em que estou fechada a sete chaves - ou, como quem diz, a 256 enigmas. No entanto, apesar de, no desconfinamento, estas empresas terem aberto novamente, não é das coisas que me sinta muito segura a fazer; é uma atividade onde, obrigatoriamente, temos de mexer e tocar em tudo e parece-me humanamente impossível desinfetar tudo, por muitos cuidados que os participantes ou os organizadores tenham. Vou esperar (ansiosamente) durante mais uns tempos...

- Continuar o trabalho de apagar más fotos que, nos meus arquivos de anos e anos, ocupam gigas de espaço no meu computador;
Falhada. A partir do momento em que não entrou na lista de prioridades (porque, de facto, não é), ficou para trás. Tendo em conta as novas rotinas e todas as tarefas domésticas que tenho a meu cargo, é algo que só tenho tempo para fazer durante o fim-de-semana - e nessas alturas, quando não estou a trabalhar, quero é fazer outras coisas (tipo dormir!) e não estar a queimar pestanas a ver 26458 más fotografias.

- Não só aprender novas músicas no piano mas também trabalhar as que já sei e que, por não treinar, me esqueci;
Falhada. Apesar de ser um hábito em que felizmente não houve uma rutura total (como aconteceu com a leitura), é algo que também ainda não consegui encaixar com sucesso na minha rotina. Tocar piano é algo exigente, tanto a nível mental como físico (tocar ao final da tarde é, muitas vezes, complicado para mim, devido às dores nas costas) - e no fim de uma dia de trabalho eu quero é papas e descanso. Para mim, este é um hábito que tem prioridade sobre a leitura; é por isso que continuo a ter aulas, para me obrigar a tocar, nem que seja uma vez por semana. Mesmo assim, não está fácil - e não são poucas as vezes em que desmarco aulas, normalmente porque o trabalho me ocupa o tempo que lhes tinha destinado. 

- Fazer um curso sobre malhas no estrangeiro;
Falhada. Mais uma culpa que recai sobre o Covid: tinha tudo marcado para ir para a Alemanha durante duas semanas - casa alugada, viagens compradas, tudo - e foi a primeira coisa que caiu por terra devido ao vírus. Foi o primeiro sinal de que a coisa ia ser séria e que estava a começar a afetar a Europa amplamente. Tive pena - porque na altura tive a coragem de marcar, o que foi notável, uma vez que é algo que sai muito da minha zona de conforto - mas não tive outra alternativa senão adiar. Não sei é se não é um adiamento ad eternum.

- Riscar, pelo menos, mais um país do meu mapa de locais visitados;
Falhada. O plano estava delineado e, mais uma vez, se não fosse o Covid, em 2020 teria feito mais um cruzeiro e riscado a Grécia dos meus países a visitar. Não foi desta. Na verdade não só não conheci mais nenhum país como nem sequer visitei nenhum neste ano que passou - algo que já não acontecia, provavelmente, desde os meus dez anos.

- Fazer com que a minha empresa volte, tantos anos depois, a ser representada em feiras;
Cumprida! Foi uma difícil, mas fiquei muito feliz com o resultado e o feedback que obtive. E, para além de tudo mais, foi uma conquista pessoal muito grande.

- Depois da missão de tentar manter a minha caixa de email limpa, este ano auto-proponho-me (e prometo tentar) deixar limpo o ambiente de trabalho, sem todos aqueles items que lá guardo "só porque naquele momento não tenho o tempo para os arrumar e que, mal tenha um tempinho, arrumo" e que se transformam em autênticos monos que habitam o meu ambiente de trabalho durante anos;
Falhada. Como diz o ditado, "old habits die hard". O pior é que foi uma falha dupla: não só não consegui fazer o que queria em relação ao ambiente de trabalho como deixei que o meu email voltasse a ser invadido por mensagens por ler e arquivar. Uma tragédia.

- Não quero voltar ao ginásio. Não sou feliz no ginásio, não gosto do ginásio e é irrealista pôr isso na minha lista. Mas este ano gostava de encontrar alguma coisa de que gostasse - ou, pelo menos, que não fosse um sacrifício de todos os tamanhos. Não tem de ser algo que me deixe como a Carolina Patrocínio - basta algo que me permita não virar lontra e, já agora, não ganhar os 5kgs que pretendo perder em 2020;
Cumprida - praticamente... Factualmente, houve uma vitória - segundo a máquina XPTO da nutricionista, a minha massa gorda diminuiu e o músculo aumentou. Ainda assim tenho a plena noção de que fui muito inconstante. Houve um par de meses em que fiz workouts em casa (e senti resultados, mesmo no meu dia-a-dia) mas a partir do momento em que facilitei um e dois dias, o hábito perdeu-se. Valeu-me o padel, que sempre vai queimando umas calorias e minorando o peso na minha consciência. 

- Escrever, pelo menos, dois posts por semana aqui no blog. Isto seria muito, muito, muito importante para mim, pois sinto uma pressão e um arrependimento enorme quando não escrevo. Duas vezes por semana é o mínimo dos mínimos para quem tinha o objetivo de escrever todos os dias;
Falhada. É talvez a falha que mais que custa nesta lista toda. Mais do que a leitura e mais do que o piano, a escrita é um hábito que preciso de tornar basilar na minha (nova) vida. Repito-me, eu sei: mas não está fácil. No entanto é das coisas que me habita o pensamento diariamente e cuja culpa me come por dentro. Eu posso não me lembrar que tenho um livro por ler durante dias a fio - mas todos os dias, sem falta, me lembro de novas coisas para escrever ou revejo mentalmente textos que já tenho desenhados, em que só falta passar da cabeça para o "papel". E é esse hiato que me falta preencher. Preciso de escrever mais e pensar menos. Preciso de agilizar este processo - parece-me sempre que é uma atividade "pesada", que adio eternamente para quando "tiver tempo e energia". Posso estar no sofá sem fazer nada e com o computador ao lado: mas não lhe pego. Não sei porquê. Sei é que tenho de contrariar isso - e, como tal, esta é uma das resoluções que vai transitar para 2021. 

- Alimentar o blog das receitas duas vezes por mês. Com a minha nova faceta de "dona de casa", cozinhar acabou por ser um escape; escrever novas receitas é sinónimo de que estou a inovar e de que estou na cozinha por gosto, o que é algo que quero que se mantenha;
Falhada. Se é por falta de receitas? Não. Se é por não me lembrar de lá ir? Não. É exatamente pela mesma razão de não escrever aqui: um misto de preguiça com um cansaço eterno. Mas é das coisas que me faz falta, porque não são poucas as vezes em que me dão brancas e não me lembro como fazer isto ou aquilo. E, como tal, é também outra das resoluções que vai transitar para 2021.

- Tornar a vida entre as minhas "duas casas" o mais suave possível, atenuando todas as lombas e solavancos que fui sentindo - e que tanto me martirizaram - ao longo do ano que passou;
Cumprida - mais ao menos... Aprendi que, provavelmente, nunca vai ser fácil. Nunca vai ser perfeito. Nunca vai existir o equilíbrio ideal. Fazer o melhor possível, diariamente, já tem de ser sinónimo de missão cumprida - mesmo que os resultados não sejam sempre aqueles que desejamos. 

- Fazer o álbum de fotos do best of de 2019 e acabar o da minha viagem do Japão;
Cumprida! O álbum do Japão foi feito logo no início do ano; já o resumo de 2019 esteve a ser cozinhado durante meseeeees e só no final do ano é que o acabei, acabando mesmo por o oferecer como prenda de Natal ao meu pai.

- Manter a minha lista de trackers atualizada - sou um bocadinho baldas no que toca à minha lista de "do's" e "do not's"  gostava de conseguir completar tudo durante um mês, sem dias de falha;
Falhada. Não dei uso recorrente à minha agenda (onde tenho os trackers) durante vários meses; no fundo usei-a quando os dias apertavam em termos de tarefas, mas como não haviam compromissos ou coisas marcadas (por causa da pandemia), toda esse lado prático da agenda acabou por ficar obsoleto. E se a agenda foi pouco usada... Os trackers foram completamente esquecidos.

- Assinar a revista Prima e não empilhar edições para as ler de rajada no Verão;
Falhada. Não assinei nem comprei todas as edições - só as que me apeteceu. Mas nenhuma ficou por ler!

- Voltar a fazer uma viagem a dois com o meu namorado, mesmo que seja só uma escapadinha de fim-de-semana;
Cumprida! Apesar de todo o panorama pandémico, eu e o Miguel conseguimos tirar alguns dias para namorar - e foram dos melhores dias do meu ano. <3️ Tenho muita pena de não ter escrito sobre os locais onde fui e, acima de tudo, os sítios onde fiquei (pergunto-me se será tarde demais ou se ainda será pertinente?) - pois eram lindos, românticos e constituíram um dos pontos altos do meu ano.

- Continuar a conhecer terras deste nosso maravilhoso e lindo Portugal;
Cumprida! O sul foi o mais privilegiado: primeiro no Alentejo, onde voltamos à Zambujeira do Mar, a Porto Côvo, Vila Nova de Milfontes e outras terras por aí e, mais tarde, uma estreia que já tardava: Évora! Que linda cidade. E voltei a outra que também adoro: Vila Viçosa! No Algarve voltei a uma zona onde já não ia há muito: Cacela Velha, Manta Rota e Tavira. Por aí estreei-me também na Praia Verde. Conheci também Vale do Lobo. Dos sítios do costume, voltamos a Portimão e ao Alvor. Falhou Albufeira - algo que acho que nunca me tinha acontecido na vida.

- E, mais uma vez, ser constantemente mais positiva. Tentar ser feliz todos os dias. Fazer um balanço diário do meu dia e perceber a sorte que tenho, mesmo nos dias piores. 
Cumprida! Muito por graças ao meu namorado, que mesmo sem dizer nada já me faz agradecer por aquele dia, simplesmente por se preocupar comigo, me perguntar como estou e me querer, genuinamente, ouvir e saber como estou. De cada vez que me deito na cama, ao fim de mais um dia, sinto-me grata por ter alguém ao meu lado como ele - e por ter, de uma forma geral, uma vida tão abençoada e uma família tão boa.

 

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18
Jan21

Uma história com princípio, meio e sim! #1

O pedido

Quem leu o post anterior até ao fim já sabe da boa nova: estou noiva! Apesar de no inicío a ideia ter custado um bocadinho a entrar - não por não querer, mas por estar a sofrer por antecipação com tudo aquilo que ia ter de enfrentar - agora que já caí em mim quis avançar com a preparação do casamento o quanto antes. E a verdade é que vamos a todo o vapor: apesar de todo este caos pandémico decidimos correr o risco e já marcamos o casamento para Junho. Sim, daqui a cinco meses. E não, não estamos loucos.

Para mim é ridícula a ideia de marcar um casamento para daqui a dois anos - ora é porque não há a data que queremos, ora porque é preciso muito tempo de preparação, ora porque a loja dos vestidos de noivas diz que só arranja "O" vestido nessa altura, ora porque os convidados têm de arranjar tempo na agenda, ora porque tudo tem de estar perfeito. Com todas as histórias que ouvimos acabamos por estar formatados para esta realidade - assim como já estamos prontos para aceitar os preços exorbitantes que nos pedem em relação a tudo o que diga "casamento".

Já eu entrei nesta ideia do casamento com um pensamento diferente: quero descontruir um bocadinho o protocolo e tudo aquilo que enraizamos ao longo de anos e anos de casórios. E isso começa aqui: se decidimos que era para casar, não é para daqui a dois anos. É para breve. E breve é Junho. No meio deste pouco tempo em que me vi envolvida no meio, já tive pelo menos dois casos de quintas que nos disseram que tinham uma data livre porque "os noivos desistiram de casar" - isto quando não nos dizem mesmo que se separaram. Eu não sei como vai ser a minha vida daqui a dois anos; sei como gostaria que fosse, mas desconheço efetivamente o seu destino. E, como tal, quero fazer as coisas que quero e que me deixam feliz o mais rapidamente possível. Dois anos pode ser muito tempo.

E apesar de, lá está!, não saber o que me espera, sei que gostava de só casar uma vez. E por isso sendo um acontecimento único, quero que fique registado para sempre. E, tal e qual como numa viagem, não é só o dia que conta; toda a preparação é, em si, uma aventura marcante, que eu quero muito que fique registada. Quero fintar a memória seletiva e, mais uma vez, fazer deste blog um registo público desta viagem que, como todas, terá um bocadinho de todos os ingredientes: partes boas e partes más, coisas emocionantes e outras chatas, decisões rápidas e entraves, cedências e escolhas bem firmes. Sei que, no futuro, posso vir a ser como a maioria dos casais que conheço, que perante a mais simples pergunta sobre o seu casamento responde: "já não me lembro". Mas, nessa altura, terei (como sempre) um bom auxiliar de memória, para me (re)contar como tudo aconteceu.

Passaram praticamente três semanas desde o pedido mas sinto que já tenho um mundo de coisas para contar, e sinto que esta é uma boa desculpa para voltar a escrever com frequência. Lembro-me do quanto gostava de ler o "Boletim da Noiva", d'A Pipoca Mais Doce, e espero que sintam aquilo que eu senti na altura: que fazia parte do processo, que afinal já sabia como era casar. 

Como eu ainda não sei - e na verdade tenho muito pouca gente à minha volta que sabe - fico à espera do vosso feedback, conselhos e comentários. Tudo menos: "mas isso é muito pouco tempo!". Isto vai lá, minha gente. E, acreditem, vai ser um dia de sonho.

Eis o primeiro texto da nova rúbrica "Uma história com princípio, meio e sim!"

 

O Pedido

 

Têm-me perguntado se desconfiava. Eu digo que não; eu simplesmente sabia. Sabia que ele me ia pedir em casamento.

Não me perguntem como nem porquê: era um feeling que já pairava em mim há alguns dias. Mas não se trata de desconfiar, pois ele não deixou nenhuma pista para que isso acontecesse. Não fazia a mínima ideia de que ele tinha comprado um anel ou orquestrado umas horas comigo para me fazer o pedido. Mas se antes sentia algo, na véspera de Natal (um dos meus dias favoritos do ano) acordei a saber que aquilo ia acontecer.

Foi tudo muito simbólico: primeiro almoçamos no restaurante onde fomos os dois jantar pela primeira vez, ainda em fase pré-namoro (e podem já dizer que isto era uma pista óbvia, mas não, pois o almoço foi combinado umas duas semanas antes e impulsionado até por mim, depois de ter visto uma publicação sobre o sítio e me ter dado a nostalgia e a saudade); depois fomos dar um passeio a uma praia onde, um dia, fomos os dois pensar na vida - ele a correr e eu sentada na areia, tentando meditar e relaxar, ponderando o que havia de fazer perante uma das decisões que mais me custou a tomar na vida: avançar, ou não, para uma relação. Naquele dia não tínhamos nada combinado mas já falávamos muito e eu sabia que aquele era o seu percurso habitual; pedi-lhe que, se me visse, continuasse. E ele viu-me. E eu vi-o. E ele continuou - respeitando, pela milionésima vez, a minha vontade. E pondo cada vez mais em causa, infinitamente, a minha convicção de ser solteira até ao fim dos meus dias.

Mentiria, por isso, se dissesse que foi uma surpresa. Não foi porque eu sabia que ia acontecer - e porque o casamento já era uma coisa muito falada, não só entre nós como também com a família. Foi, "apenas", um marco; o oficializar de algo que, para mim, podia ser simplesmente combinada - mas que, num ato de coragem e cavalheirismo, ele quis que fosse à moda antiga.

Também mentiria se dissesse que ansiava por aquele momento ou que foi um dos mais felizes da minha vida. A felicidade na sua plenitude senti-a nessa noite, quando me deitei no peito dele depois de um dia cheio, já mais calma e sem a alma em ebulição. Já o disse: não sou mulher de paixões - das borboletas na barriga, do nervoso miudinho, da ansiedade de algo novo - mas sim de amor - da calma, da estabilidade, das rotinas felizes. Naquele momento, em que o vi de joelho no chão, senti e pensei muita coisa - de tal forma que acho que estive perto de entrar em pânico.

Pensei imediatamente naquilo que os meus pais iam pensar e na dor que esta oficialização lhes iria causar - uma espécie de dor superlativa do ninho que já está vazio, mas que iria ficar ainda pior; pensei que dali a nada estaria em casa, de anel no dedo e que teria de lhes dar a notícia... embora não soubesse como. Pensei em tudo aquilo que tínhamos falado até há bem pouco tempo, altura em que o casamento não passava de um plano meio que abstrato - e, acima de tudo, em todos os problemas que já sabia que se iam levantar a partir daí. Pensei no facto dos homens se sentirem obrigados a vergar-se perante uma mulher para lhes pedir a mão - e o quão ridículo e injusto isso é, numa altura em que pedimos igualdade de géneros mas, nestes casos culturais, só tendemos a pensar para um lado. Pensei que não queria ter de lidar com o entusiasmo dos outros, que queria que aquilo fosse só meu e dele, talvez porque eu própria não estava a saber lidar com aquele misto de emoções. Foi um momento muito representativo daquilo que tem sido a minha relação até aqui: muitíssimo feliz, mas com a plea consciência de que dentro de toda essa felicidade vive também a dor.

Depois do "desconfiavas?", vem a o outra pergunta clichê: "choraste?" Mas acham que alguém que está mergulhada num poço de questões e sentimentos diversos como eu, consegue fazer alguma coisa para além de chorar?

"E disseste que sim?" Acham que é preciso? A pergunta não era mais que retórica.

Não sei se disse que sim (devo ter balbuciado algo do género), mas a minha prioridade foi arrancá-lo do chão (senti-me muito culpada por, eventualmente, tê-lo feito sentir que precisava de fazer aquilo para formalizar um pedido que eu ia aceitar de que forma fosse) e, mal o vi ao meu nível, agarrei-o com força, tal e qual como o quero agarrar para o resto da vida.

Mal entrei no carro, com a adrenalina a correr pelo corpo quase como se tivesse sido atropelada por um camião de amor - mas que não deixa de ser um atropelamento - construí imediatamente a minha defesa para lidar com tudo aquilo: com todos os problemas que antevi, com todas as perguntas para as quais não tinha resposta, com toda a dor que dali poderia surgir, embora este seja um acontecimento tão feliz. Disse a mim mesma (e ao Miguel) que aquilo não passava de uma oficialização e que não tinha de ser sinónimo de casar imediatamente. Que tínhamos de ir com calma. Que o pedido não era mais que o confirmar de um desejo comum: o de passarmos o resto da nossa vida juntos.

O resto do dia foi o continuar do turbilhão de sentimentos que tomaram conta de mim, dos meus nervos e do meu canal lacrimal. Primeiro fomos trocar o anel, que por causa dos meus dedos atipicamente finos não me servia (muito romântico, não é? Receber um anel de noivado e uma hora depois já o ir trocar...) e, depois, fomos espalhar a notícia. Optei por fazê-lo faseadamente: primeiro ao meu núcleo familiar, depois à restante família e, só uma semana depois, às outras pessoas. Assim fui dispersando as reações e perguntas para as quais não estava preparada, uma vez que estava a tentar lidar primeiro com os meus próprios demónios.

Diria que na Passagem de Ano o acontecimento já estava digerido, assim como muito dos meus medos. Anunciei meio que subtilmente nas redes sociais e todos os que não sabiam passaram a poder saber. Nessa semana troquei ideias com algumas pessoas mas, acima de tudo, falei muito com o Miguel; quis enfrentar logo os problemas que na minha cabeça iam ser entraves e, a partir do momento em que percebi que tinham uma solução fácil ou não eram tão graves como previa, deixei de me preocupar com eles. Não me cansei de lhe agradecer pelo gesto de coragem, pedi-lhe desculpa por de alguma forma o poder ter influenciado a fazer um pedido clássico (algo que eu não queria) e, acima de tudo, por não ter tido a reação radiante que se espera de uma mulher que é pedida em casamento pelo homem que ama.

No fundo, pedi-lhe desculpa por ser como sou - e agradeci-lhe por me aceitar e amar assim, mesmo tendo a racionalidade à flor da pele.

Disse-lhe, como sempre, que o amava.

E que, agora, há um casamento para preparar. 

 

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17
Jan21

2020

Em 2020 eu..

 

- Não saí do país, coisa que não acontecia há uns 15 anos;

- Perdi um amigo de quatro patas, o Tomé, que fomos obrigados a abater;

- Tornei-me a feliz proprietária da empresa da família, que contemplou uma carga tão grande de felicidade como de responsabilidade;

- Comecei a jogar padel (por culpa do meu namorado) e, surpreendentemente, não odeio;

- Perdi um colega de infância - uma estreia triste, que preferia que só tivesse acontecido daqui a muitos anos;

- Festejei pela primeira vez o meu aniversário sem os meus irmãos;

- Paseei, mais do que nunca, pelo Algarve e pelo Alentejo: desde Portimão a Manta Rota, passando por Cacela Velha e Vale do Lobo; no Alentejo voltei à Zambujeira do Mar e toda aquela costa maravilhosa e fui, pela primeira vez, a Évora;

- Fui à exposição do Harry Potter no último fim-de-semana em que esteve de portas abertas;

- Não comi um único pão com chouriço; 

- "Casei" a minha primeira amiga!;

- E ganhei um novo "sobrinho"!;

- Vi o Porto ser campeão ao lado do amor da minha vida;

- Levei pela primeira vez a minha empresa a feiras - e que bem que correu!;

- Fiz um teste à Covid... e foi negativo;

- Perdi sete kgs (na verdade foram 10, porque engordei três pelo caminho, que depois voltei a perder);

- Passei a ser a feliz "mãe" de umas quantas plantas em minha casa, com quem vibro de cada vez que me apercebo que há um novo rebento;

- Perdi a D. Joaquina;

- Passei o primeiro Natal sem os meus pais - e o primeiro Natal com a família do meu namorado;

- Comecei a jogar Pokemón Go e Animal Crossing - e recomecei a ver wrestiling... (no fundo, voltei aos tempos de criança, por más influências do Miguel);

- Voltei a andar de kayak;

- Li apenas 10 livros e voltei a falhar o meu objetivo;

- Escrevi muito, muito pouco;

- Fui ao Desconcerto, ainda em época pré-covid (numa altura em que ainda gozávamos com o que aí vinha) e subi a palco com a Rosinha;

- Vi vários documentários - Anne Frank - Vidas Paralelas, Inside Bill's Brain, The Last Dance, Jeffrey Epstein - Podre de Rico, Amercian Murder: The The Family Next Door e muitas séries: Bridgerton, The Crown, Sex Education, Supermães, Away, Self Made, Tiger King, Código do Crime, Gambito de Dama, La Casa de Papel, Unorthodox, The English Game e Normal People;

- Não fiz nenhum escape room;

- Praticamente não fui ao mar - ora porque estava gelado ou demasiado revolto;

- O que não comi em pães com chouriço vinguei em bolas de berlim;

- Fui à feira do livro (onde já não ia há alguns anos);

- Aprendi a jogar xadrez;

- Mudei-me para um escriório maior na fábrica;

- Vi, pela primeira vez, a minha malha difundida por todo o país, naquela que acho que foi a máscara reutilizável mais usada de todas (pelo menos na zona norte) - e que orgulho que isso foi!;

- Arrancamos com obras na fábrica para, finalmente, melhorar os nossos espaços sociais e dar melhores condições aos funcionários;

- Cozinhei muitos salgados e muito poucos doces;

- Comecei a fazer puzzles;

- Criei uns patinhos selvagens, apanhados na fábrica momentos antes de servirem de refeição a uma gaivota;

- Limpei e reorganizei, com a ajuda dos meus irmãos, o pomar lá de casa;

- Fui entrevistada pelo Pedro sobre os meus anos de blog;

- Fiz da máscara um extensão da minha própria cara - e habituei-me bem a ela;

e... fiquei noiva!

23
Dez20

Um Natal de primeiras vezes

As fotos da árvore 2020

Este Natal vai fazer jus a este ano: vai ser estranho, diferente e recheado de primeiras vezes. Acredito que, por força das circunstâncias e do momento em que vivemos, esta estranheza não recaia só sobre mim. Mas, por coincidência, este ano vai ser de outras estreias que nada têm que ver com consequências-covid.

Pela primeira vez não vou passar a consoada com os meus pais.

Isto porque, também pela primeira vez, passarei o Natal com os meus sogros. 

E assim passarei, pela primeira vez, o Natal em pleno com o meu namorado.

Como se isto não bastasse, por culpa do maldito vírus, não vou ter a casa cheia como tenho sempre; este ano vimo-nos obrigados a partir a família em núcleos, para prevenir grandes ajuntamentos. E assim, pela primeira vez na minha vida, não reunirei com a minha família materna - e a ausência de todos eles, da azáfama e do barulho, será muito sentida.

Sinto que este ano o Natal está envolto numa aura meia estranha, cheia de receios e regras. Até há bem pouco tempo não sabíamos se teríamos limite de pessoas à mesa ou se podíamos ir visitar os familiares à nossa cidade-natal. Há muita gente desmotivada, sem vontade para prendas e convívios. E de forma a contrariar isso, para me obrigar a imbuir no espírito (não que precisasse: eu adoro sempre o Natal!), fiz questão de montar a árvore mais cedo. Mais uma vez de forma atípica, não publiquei aqui fotos logo após a montagem: com as minhas novas rotinas e com o recolher obrigatório aos fins-de-semana nunca conseguia apanhar fins-de-tarde para tirar fotografias, com o tempo e a dedicação que empenho anualmente. No dia em que consegui fazê-lo, não houve tempo para escrever. E fui adiando até que achei que o melhor seria publicar neste dia especial: a véspera da véspera do Natal. É aquele limbo, em que ainda não chegamos ao dia a sério, mas os níveis de entusiasmo e de stress já estão lá no topo.

Serve por isso este post para desejar a todos vós um óptimo Natal, repleto de felicidade - mesmo que a mesa não esteja tão cheia como dantes, tal como a minha. Mesmo que seja diferente... como o meu.

A árvore deste ano é branca e cinza, para ir de encontro com os nossos desejos: acima de tudo, muita paz e saúde. Sentimos que as cores vibrantes e quentes não combinavam com os últimos tempos e, por isso, redecoramos com algumas coisas novas, de modo a ficar tudo em modo branco-prateado. Agora é só mais umas horas na cozinha e depois: família, comida e prendas! Whohoo!

Sejam felizes! Bom Natal!

 

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06
Dez20

As filosofias de vida baratas não resolvem problemas

Ou um pensamento sobre a morte precoce de Sara Carreira e como mexe com todos nós

Quando tomamos conhecimento de uma tragédia como aconteceu à da família Carreira todos sentimos que levamos um chapadão da vida. Não falo da família nem de amigos próximos: esses terão que aguentar com um terramoto, com demasiadas réplicas, que será muito difícil de ultrapassar; muitos - anónimos, aqueles cujas histórias não são dissiminadas pelos jornais nem pelas redes sociais - não se reerguem após uma perda destas (e eu espero que, dentro dos possíveis, todos os que orbitavam à volta da Sara possam voltar às suas vidas, dentro do novo normal, o mais rapidamente possível).

Falo de nós, os que assistimos à distância. Gostando ou não dos Carreira, não há forma de não nos identificarmos e projetarmos em nós e nos que nos rodeiam aquilo que lhes está a acontecer a eles. Alguns, como eu, têm uma idade próxima da da Sara. Outros terão filhos, netos, amigos, irmãos a quem poderia acontecer exatamente a mesma coisa. E no momento em que nos apercebemos disso cai-nos a ficha. Também a nós nos dói, pois percebemos que poderíamos ser nós, dentro do carro; que poderíamos ser nós a receber a notícia. Aliás: podemos. Basta estarmos vivos.

Depois de acontecerem coisas destas, as redes sociais enchem-se - para além dos merecidos votos de pesar - de filosofias baratas sobre a vida, cuja aplicação só é possível numa existência utópica. "Aproveitar cada dia. Não nos chatearmos. Não fazermos planos. Viver o momento."

Eu falo por mim: vivo absorvida pelo futuro, às vezes demasiado dedicada ao trabalho, muitas vezes preocupada com a gestão da agenda e do tempo, algumas vezes chateada pelas pedras no caminho e eternamente stressada com uma vida que gosto e que escolhi, mas que não me dá margem para muitos erros.

Este ano já não é a primira vez que levo estas chapadas de realidade - na verdade, foram mais que chapadas. Enterrar um antigo colega da primária mexe connosco; e ver no leito de morte alguém que nos criou, e cuja vida e a distância nos separou muito embora o vínculo estivesse lá, também dói muito. E, também por isso, há algo que aprendi e que não falho: todos os dias relembro as pessoas que amo do quanto eu gosto delas. E também evito deitar-me chateada com alguém.

Embora não tenha no meu dia-a-dia a ideia constantemente presente de que a vida é um fósforo (acho que isso faria com que endoidecesse), implementei essas duas regras já tendo em vista de que não sei o que o futuro nos reserva e que quero que todos tenham presente aquilo que sinto por eles. Sei pouco sobre a morte - e dispenso saber mais -, mas tenho a certeza que não levamos qualquer tipo de bens connosco quando morremos; confio, no entanto, que uma consciência tranquila e um coração cheio ajudem ao processo, tanto dos que ficam como dos que vão.

Implementei estas duas regras de forma preventiva, para estar bem comigo mesma e garantir que os que me rodeiam também ficam de consciência tranquila caso aconteça algo. Fora este tipo de ações (e outras momêntaneas, que surgem na hora), opto por descartar as frases bonitas e filosofias que surgem no facebook por estes dias. É irrealista para mim não me preocupar com o dia de amanhã, devendo apenas viver o momento - fazer isso é dizer-me para ir contra a minha própria natureza; é pôr mais um peso em cima de mim, porque não consigo não me preocupar, mas porque sei que não devo (e este ciclo vicioso acaba eventualmente por ser maligno); é ser egoísta, tendo em conta que estou numa posição em que as minhas decisões e ações têm consequências sobre os outros e sobre a sua qualidade de vida. Não me podem pedir para não me preocupar quando sei que a tesouraria vai má e eu tenho salários para pagar no final do mês; não me podem pedir para não me preocupar quando há reclamações para resolver. Também por isso não vale a pena dizerem-me para aproveitar o dia quando há dias em que eu sei que o tempo vai estar negro e há problemas graves para enfrentar. De que serve colocar uma pressão extra sobre nós mesmos quando nós já vivemos num ambiente de stress constante? A ideia, para mim, é exatamente o oposta: descomplicar e não empilhar filosofias que não podemos implementar. Dar ouvidos a este tipo de coisas quando temos plena noção de que não as conseguimos cumprir seria o mesmo que ir à igreja todos os domingos e não ser crente: é inútil e desnecessário.

Hoje em dia, penso que muito por culpa das redes sociais, temos uma tendência e uma necessidade de mostrar ao outros que está tudo bem. Apagamos os dias maus do histórico e fingimos que não aconteceu. Há quase vergonha em demonstrar que, às vezes, não se está bem. Ser infeliz ou mal sucedido não é fixe. Não mostramos quando vamos a um tasco em vez de um restaurante fancy, quando a comida sai torrada e não com um belíssimo aspeto, quando temos olheiras e o cabelo por lavar em vez de uma mela maquilhagem e um sorriso pepso-dente.

E, assim, esquecemo-nos de uma parte essencial da vida. Sim, vai haver dias maus. Sim, vai haver preocupações. E sim: no meu caso, não há forma de eu não estar sempre de olho no futuro - porque é assim que eu sou e não vale a pena contrariar. É aceitar e dar a volta ao texto.

Relativizar é uma alternativa - hoje, por exemplo, é fácil percebermos que temos uma vida óptima quando comparamos o sofrimento que aquela família está a enfrentar. Mas esta técnica nem sempre funciona, porque muitas vezes não nos lembramos realmente do quão poderosas podem ser outras dores (nomeadamente a dos outros). No dia-a-dia, as nossas dores são sempre as piores.

E por isso o que eu faço, tal como na minha vida, é dividir o tempo em slots diferenciados, quase como numa agenda. Há uns dias - num daqueles mesmo pesados e complicados - o meu namorado chegou aqui a casa com um ramo de flores, dizendo-me que um dia mau não tem de acabar mal. E esse é o segredo. É aceitar o que foi mau mas, num slot de tempo diferente, tentar virar a moeda. Fazer por ver o outro lado. No meu caso, é saber que por muito mau que o dia seja, de noite poderei deitar-me no peito do Miguel e senti-lo a meu lado; é saber que tenho o abraço da minha mãe pela manhã; é comer um chocolate, embrulhar uma prenda de Natal, sentar-me no sofá e olhar para a minha árvore, brincar com os meus cães, ir à feira. É tornar preciosos os momentos de que gosto, que me fazem feliz, e apreciá-los um de cada vez - tendo consciência do priviégio que é estar a vivê-los. Esse é mais um dos exercícios que, a par de expressar o meu amor pelos outros, ponho em prática diariamente.

O resto? Para mim, são balelas. O resto vem, resolve-se, trata-se, dá-se a volta. E que bom é poder fazê-lo: é sinónimo de que estamos vivos e prontos para a luta. O problema é mesmo o dia em que não estivermos.

22
Nov20

Olá? Está alguém desse lado?

Um desabafo sobre rotinas e reajustes

Alguns anos depois da minha irmã ter saído de casa dos meus pais eu ocupei o quarto dela. Não por ser maior, mas por ter mais luz. Pedi-lhe autorização e fui de móveis e bagagens para o quarto na outra ala da casa - e foi lá que fiquei até sair. Na altura da mudança achei que me ia enganar dezenas de vezes no caminho para o quarto; que ia continuar a virar à esquerda no corredor quando agora tinha de virar à direita. E desde o dia em que para lá fui que nunca me enganei. Nem uma vez. A mudança na minha cabeça foi automática e a rotina pareceu nunca ter sido alterada.

Mas nem todas as mudanças são assim. Saí de casa dos meus pais (vou chamar-lhe assim para vos facilitar a vida, pois para todos os efeitos continuo a considera-la a ser a "minha casa") há sensivelmente um ano e a minha cabeça ainda não se ambientou. Não é que me engane e vá para casa dos meus pais quando quero ir para a minha, ou vice-versa; trata-se mesmo de, mentalmente, ainda não estar totalmente situada. Acontece-me muito acordar de noite desnorteada, pensando estar no meu antigo quarto. Não me faz sentido estar a ver luz num determinado sítio, nem ouvir barulhos da rua... e por momentos tenho de me re-localizar. "Ah, espera. Não estou no meu quarto. A porta é ali. Tenho alguém a dormir ao meu lado".

Acho que isto acontece porque a minha saída de casa foi dos maiores desafios da minha vida, um ajuste constante, uma dor terrível. Não lhe chamo decisão (porque não foi), mas sim um acontecimento natural - fui ficando e ficando... até que um dia fiquei de vez. E se por um lado isso tornou as coisas mais soft, por outro não houve o romper de toda uma rotina que até aí tinha vindo a construir.

O que fiz foi adequar a minha rotina - e a minha vida - às minhas duas casas; às pessoas mais importantes para mim - os meus pais (e irmãos) e o meu namorado. E essa rotina, hoje, não é igual há de um ano quando tudo se transformou. Muda constantemente, num incessante equilíbrio de uma balança com muito mais de dois pratos. Isto porque também eu tenho de entrar na equação - preciso de ter tempo para mim, para as minhas coisas, para estar mentalmente sã. Porque também tem de entrar o meu trabalho, a minha nova vida doméstica e a parca vida social que me resta. E eu vou constantemente mudando, adequando, tentando, ajustando. Até acertar.

Houve uma altura em que tirava as pré-manhãs (o tempo que estou em casa entre acordar e ir trabalhar) para fazer coisas que gostava: tocava 15 minutos de piano, às vezes começava um texto ou acabava de editar outro... Mas era um tempo tão limitado que passava-o constantemente a olhar para o relógio, a saber que tinha de sair dali a cinco minutos. Entretanto, através da Rita Ferro Alvim, descobri o método da "fly lady" (trabalhado pela Secret Slob), que pretende optimizar e organizar a limpeza de uma casa; diria que a base deste método é nunca deixar as coisas em modo-caos, de forma a que em pouco tempo consigamos ter tudo minimamente organizado sem perdermos uma vida a arrumar a casa. Não me quero esticar sobre este assunto (no instagram da Rita há um destaque só dedicado a isto), até porque estou longe de ser especialista e não implementei o método na íntegra, tendo aproveitado apenas algumas coisas que achei que poderiam fazer diferença no meu dia-a-dia.

Alguns exemplos: deixar o lava-loiças limpo à noite e no dia seguinte arrumar logo de manhã toda a loiça que esteve a secar ou na máquina de lavar; fazer a cama antes de sair de casa (não fazia porque preferia deixar a arejar, mas a verdade é que chegava à hora de deitar e só puxava os lençóis para cima e não entrava numa cama feita, tal como gosto); tirar dois minutos do dia para arrumar o(s) hotspot(s) - locais onde temos tendência para acumular tralha (no meu caso é o banco da entrada e a cadeira que acumula roupa no quarto). O objetivo é não deixar acumular tudo para o final do dia, em que já temos de fazer jantares, estender, apanhar e dobrar roupas, entre tantas outras tarefas que fazem parte do dia-a-dia da maioria das famílias. 

Assim, no que diz respeito ao equilíbrio em termos de tempo que dedico às pessoas que amo, diria que o dia é dedicado à família (tomo o pequeno-almoço com a minha mãe e irmã, almoço com os meus pais e por vezes irmãos) e o fim do dia ao meu namorado. A premissa é simples: passar tempo de qualidade com cada um deles. E isso implica uma gestão de tempo muito bem calculada.

No meio disto tudo nem sempre sobra tempo de qualidade para passar comigo mesma, para os meus passatempos. Tocar piano. Tirar fotografias, editá-las. Escrever.

Apesar de às vezes até me sobrar tempo nas alturas em que é suposto - quando o jantar acabou, a cozinha está arrumada, o banho tomado e o sofá e a manta à minha espera -, hoje em dia não consigo ter a disponibilidade mental que tinha há dois anos para conseguir fazer certas coisas. Chego às 21h mentalmente exausta - do trabalho, do planeamento rígido da minha vida, do stress constante em que já me estou a habituar a viver. E talvez por isso (ou por influência do meu namorado) tenha de dormir mais do que antigamente, para no dia seguinte ter forças para fazer tudo de novo. Escrever e até ler exigem um tempo, uma concentração e uma dedicação que, neste momento, não consigo dispensar a essas horas. Preferia mil vezes escrever do que ter visto uma ou duas séries da Netflix - mas as séries não me cansam e, entre isso e jogar Candy Crush, prefiro algo cultural. 

Quando comecei a escrever num blog, fazia-o por necessidade de libertar a alma. Tinha 14 anos - e tinha tempo. Hoje tenho 25 - e aquilo que perdi em tempo ganhei em responsabilidades. Já passei por muitas fases em relação à escrita: já precisei de escrever de como quem precisa de pão para a boca; já me apeteceu não escrever; já me obriguei a escrever; houve alturas em que, em dois dias, escrevia textos para a semana inteira. Passei por fases de desleixo e por fases de um rigor imenso, quase digno de colégio militar. Já estive totalmente desinspirada e, outras vezes, inspiradíssima. Já estive cheia de motivação e ideias - mas também já estive desmotivada ao ponto de achar que não valia a pena continuar com esta página aberta.

Mas este blog é como a vida: ele continua. E por muito que me custe não o atualizar durante duas semanas, obrigo-me a aceitar esta realidade. Se ainda hoje acordo a meio da noite a pensar que estou no meu antigo quarto, completamente desnorteada, é sinal de que ainda não atingi o equilíbrio certo na minha vida - e não posso exigir de mim aquilo que exigia antes, como escrever todos os dias. A minha vida ficou virada do avesso e é natural que eu demore a encontrar as novas costuras. E, desenganem-se: o avesso não é uma coisa má - mas é uma coisa nova. E eu ainda estou a aprender como gerir tudo isto.

Não sei se vocês ainda estão desse lado - mas eu ainda estou aqui. E planeio ficar. 

Continuo a acreditar no ditado inglês que diz que "practice makes perfect" (a prática leva à perfeição). Continuo a desejar escrever todos os dias, porque sei que quanto mais escrever, melhor o vou fazer. Continuo a acreditar em sonhos - e que um dia vou escrever livros. E contínuo a achar que esta é a plataforma certa para ir treinando e ir ganhando uma base de leitores que, construtivamente, me fazem crescer e ser melhor a todos os níveis.

Sei que agora não escrevo todos os dias - mas gostava de o fazer e sei que um dia hei-de voltar a conseguir. E vocês? Ficam por aí?

01
Nov20

Uns são filhos (os supermercados) e outros são enteados (os feirantes)

Há uns dias vi o vídeo do Gustavo Carona (podem ver aqui) e não podia estar mais de acordo. O Covid é um problema sério, que não podemos ignorar - e não é nos hospitais que ele vai ser resolvido. É nas ruas, é nas nossas casas, é nas empresas. Está literalmente nas nossas mãos - essas, que carregam tanta coisa invisível, e que hoje tomam uma importância extrema no que diz respeito ao transporte do vírus ou à sua eliminação (se as lavarmos e desinfetarmos bem e corretamente).

Concordo também com ele no facto de isto não se poder tornar numa luta política - não interessa quem está no poder. De direita ou esquerda, uma coisa eu sei: não queria estar naqueles calcanhares. Não tendo qualquer empatia com as pessoas em questão (e não comungando com muitas das suas convicções políticas), eu não queria ser primeira-ministra, não queria ser ministra da saúde, não queria ser a diretora geral da Direção Geral de Saúde. E há que respeitar as posições que estão a tomar - porque nenhuma vai ser boa e nenhuma vai ser fácil e todas serão controversas.

Mas há aqui um erro generalizado que está a revoltar a população: chama-se falta de coerência. Não deixam as pessoas ir ver um jogo de futebol, ao ar livre, num estádio com espaço para mais de 50 mil indivíduos; mas deixam que exista público na fórmula 1. É para ricos, não é? Também deixam que se vá às touradas. É para chiques, não é? E o Avante? É para camaradas, pois claro.

A mim não me afetam as restrições - dou-me bem com regras e sou boa a respeitá-las. Não me importo de não sair do concelho, não me importo do dever cívico de um recolher obrigatório (embora não possa exercer o meu trabalho em casa, sendo obrigada a fazer a minha vida normal), não me importo de usar máscara na rua, não me importo de esperar na fila do supermercado para não sermos 5628 pessoas à volta da mesma peça de fruta.

Mas importo-me com os contra-censos que mencionei acima. Revoltam-me mais estas cedências estúpidas - em prol de favores, de dinheiro, de tudo o que não devia contar - do que as próprias pessoas envolvidas nestes atos, que apesar de inconscientes só estão lá porque à partida a cancela não estava fechada. E sei que não me revolta só a mim: revolta-nos a todos, porque não é preciso ser nenhum génio para perceber as incongruências que existem.

Sobre as medidas que saíram ontem para os concelhos com risco elevado (que incluem as cidades onde moro), mais uma vez, acato e respeito o que foi decidido - mas a última medida, que proíbe que se façam feiras e mercados, mexe comigo até aos ossos. O Covid afetou-nos a todos: psicologicamente, pelo medo e pelo tempo de confinamento; fisicamente, principalmente àqueles a quem o bicho já pegou e sofreram consequências físicas; e financeiramente, para quem perdeu o emprego, para quem viu os seus postos de trabalho ou empresas em lay-off, para quem perdeu inúmeras oportunidades de negócio num ano que se queria promissor. Serão muito poucos os que beneficiam disto - eu olho à minha volta e não vejo ninguém. Mas a mim ninguém me obrigou a deixar de trabalhar - mas aos feirantes, que vendem bens de primeira necessidade, acabaram-lhes com o negócio. O Continente pode operar, o Pingo Doce, o Mercadona e o Mini-Preço também; mas uma feira ao ar livre, sem ar-condicionados, sem carrinhos que são manipulados por milhares de pessoas e sem tapetes rolantes podem trabalhar. Aqueles que o estado segura e promove; as Sonae's e Jerónimo's Martins desta vida, que mais do que dinehiro, movem influências. Mas os feirantes - pessoas como nós, sem as contas cheias de zeros e sem amigos na assembleia -, que acordam todos os dias às tantas da madrugada para andarem com as tralhas às costas, de sítio para sítio, para se fazerem à vida e terem o seu ganha-pão, têm de ficar em casa.

Eu, podendo, deixava de ir a super-mercados - ia sempre à feira. Estar antes das oito da manhã a fazer compras ao ar livre é terapêutico para mim - e a qualidade daquilo que compro é infinitamente melhor. A minha sopa não é a mesma se não for feita com as coisas que compro vindas da terra, ainda sujas, ali da Póvoa do Varzim.

Mas a D. Carolina já não me pode vender batatas, alho-francês, courgete ou agrião.

A senhora das flores já não vai estar lá com aqueles raminhos bonitos que dou semanalmente à minha mãe.

Já não posso ir comprar a manga do Algarve à D. Carla, nem a uva sem grainha ou o melão doce que me deixa sempre experimentar antes de comprar.

Não posso ir comprar os fidalgos da minha mãe à senhora que me chama sempre "meu amor".

O senhor das árvores de fruto já não me vai dizer que trouxe, finalmente, os pêssegos-paraguaios carecas para eu plantar no quintal.

Por isso hoje, mais do que pelas multidões na Nazaré, concertos ou filas para o que quer que seja, estou triste - e revoltada! - pelas pessoas que todas as semanas me enchem os armários, o frigorífico e a alma. Pelas pessoas que me tratam com empatia, que me aconselham aquele fruto em vez daquele, que me deixam pagar na semana seguinte se se apercebem que não trouxe trocos suficientes. Tudo o que não acontece num supermercado, onde eu - como todos - sou tratada como um número e constantemente enganada por cupões e cartões e cadernetas autocolantes. 

É incoerente, triste e, acima de tudo, revoltante. 

28
Out20

A vitória não foi (só) de Ângela - foi da democracia

Fiquei mesmo, mesmo, mesmo contente por saber que foi aprovada por maioria, na Assembleia da República, a medida que permite a procriação medicamente assistida num caso post mortem.

Na altura em que a reportagem sobre a Ângela e o Hugo foi para o ar eu fiquei bastante sensibilizada. De um ponto de vista profissional achei a construção da peça jornalística incrível: storytelling no seu melhor. E fui de imediato assinar a petição que já corria o país fora - porque não é algo que afete ninguém negativamente, porque ninguém está livre de ser o próximo. Porque podia ser uma luta minha, de uma amiga ou de outra pessoal qualquer que só quer perpetuar o amor e os genes de alguém que já não o pode fazer em vida.

Mas, felizmente, esta não é uma dor minha. Assinei a petição, fiquei comovida com a história, mas não era algo que fizesse parte da minha lista de causas ou que estivesse no meu top of mind. Mas depois de ver que a medida tinha sido aprovada fiquei, acima de tudo, contente pelo feito de Ângela - muito mais do que a própria medida em si.

Fiquei feliz pelo fôlego e a esperança que um acontecimento destes dá à democracia. Num tempo em que crescem os radicalismos, no mesmo tempo em que as nossas liberdades individuais estão a ser postas em causa por um bem maior - a saúde de todos - devido a um mal gigante - a pandemia - é bom lembrar a essência de sermos livres, de podermos escolher. Acima de tudo, de termos palavra. De sermos ouvidos.

Ângela tinha um sonho - que calculo que para 99% das pessoas que estivessem na posição dela, teriam como inalcançável. A luta deve ter sido dura. Não deve ter sido fácil conseguir chamar à atenção de um jornalista, nem de se expor da forma que fez (sendo que a reportagem desceu quase à esfera intima do casal). Mas conseguiu. Trouxe a sua causa à ribalta, reuniu as assinaturas necessárias para que fosse ouvida no órgão máximo da nossa democracia. A sua causa, a sua voz, a sua vontade e a sua crença tiveram a capacidade de mudar uma lei. De fazer a diferença na sua vida e, quiçá, na vida de outras pessoas na mesma posição que ela.

Conseguiu.

Independentemente daquilo que queiramos, que sonhemos... quer concordemos ou não com esta medida em particular. Não há como negar que este feito é uma lufada de esperança, a prova de que vale a pena ir à luta mesmo que esta pareça perdida. Que nos faça pensar - e lutar se assim for preciso. Oupa!

25
Out20

Eu e o desporto: o que vai para além de uma má relação

É triste andar para trás nos arquivos desde blog - e já são nove anos de memórias -, selecionar as tags "desporto" e "educação física" e perceber que o elo comum em quase todos os posts é a desistência. Não se pode deixar de ver o lado da tentativa, claro - foram muitas as resoluções de ano novo (ou os números deprimentes na balança) que resultaram em inscrições em ginásios e outras experiências; mas saber que tudo isso culminou sempre num fracasso não é uma sensação feliz.

Gostava de estar num lugar de paz em relação a esse assunto, mas não estou. O meu namoro trouxe ao de cima muita coisa que estava escondida em mim, no que diz respeito à atividade física. Tenho a sorte de ter ao meu lado um homem multi-facetado e que, neste caso, é o oposto de mim: é ótimo em tudo o que é desporto e gosta de o praticar. Para meu bem tem-me tentado afastar da nuvem negra que me acompanha neste campo, incentivando-me, ensinando-me com uma paciência e um amor como nunca ninguém tinha feito até aqui; chega ao ponto de entender o meu sofrimento, mesmo não o percebendo.

E se por um lado este esforço tem tido alguns resultados, por outro faz vir ao de cima muita coisa que tinha guardada. Há memórias que surgem do nada, enquanto tento lidar com a frustração de não conseguir fazer um serviço de jeito no padel ou de não conseguir levantar um peso nos workouts que de vez em quando faço em casa.

Lembro-me de quando se sentavam em cima de mim, forçando os meus músculos e articulações a esticarem-se ao máximo de forma a fazer a espargata (devido a uma ideia infeliz da minha irmã - embora bem intencionada - de me inscrever na ginástica acrobática).

Lembro-me de uma professora de educação física me chamar para um teste prático de ginástica (se a memória não me falha) e, como introdução, dizer "lá vem aí o desastre".

Lembro-me de na primeira aula de educação física do sétimo ano, de forma a tentar não prejudicar a minha equipa com as minhas fracas capacidades físicas, me esforçar tanto para correr e dar a estafeta ao colega mais próximo que caí, de cara direta ao chão e de forma tão desamparada que fiquei com um olho negro.

Lembro-me do que senti - a humilhação, a sensação de que o tempo não passava - quando, também no sétimo ano, a minha professora de dança propôs apresentarmos o nosso nome em forma de dança - no centro do pavilhão, com todos os colegas a assistir. Foi talvez a única vez em que amaldiçoei o meu nome. Porque não me chamar "Ana", "Rita" ou "Eva"? Porquê que o meu nome tinha de ter oito letras e eu não saber "escrevê-lo" em modo de dança?

Lembro-me do vaticínio de ficar sempre em último quando os professores davam a liberdade dos colegas escolherem as equipas na aulas de educação física.

Lembro-me de não ter par - porque todos escolhiam outros - e de ter de fazer os exercícios com o professor.

Lembro-me de ser a última a completar o "mega quilómetro" - a prova em que tínhamos de fazer um quilómetro no menor tempo possível - e de ter os meus colegas, com ar de frete de quem já está à espera há muito tempo, a olhar para mim enquanto cruzava a meta. 

Lembro-me de não aguentar um minuto em prancha e, por minha causa (em modo "um por todos e todos por um"), sermos todos obrigados a repetir a sequência de exercícios que já tínhamos terminado até ali.

Lembro-me da minha primeira e última aula de step, num ginásio, em que numa "aula básica" dei um tombo tal no soalho flutuante, depois de tropeçar naquele degrau do demónio, que parecia que tinha acabado de cair um meteoro em plena sala.

Lembro-me do stress e do pânico de ir para as aulas com o PT - algo que ainda hoje não gosto sequer de recordar. Lembro-me de ele me dizer que tinha de aguentar com aquela barra nas costas, que era a mais leve, e que a única alternativa era fazer o exercício sem nada (e da vergonha que isso me fez sentir). Lembro-me de só querer chorar, de ter vontade de vomitar. E de desaparecer, de uma forma geral.

Há uns tempos, a propósito do padel, que de vez em quando "tento jogar" - e a propósito de uma frase em que, obviamente, me auto-criticava -, uma amiga minha perguntou-me, admirada, se eu ainda tinha esta panca em relação ao desporto. Eu disse que sim - e, em modo brincadeira, acrescentei que isto só ia lá com terapia. Não é algo que tenha vontade de fazer (nem ache pertinente nesta altura da minha vida) mas, como diz o ditado, a brincar é que se dizem as verdades. E eu sinto que, mesmo sem ser num especialista, a terapia está a ser feita.

Tem sido este esforço que tenho feito em conjunto com o meu namorado - e a aposta incrível que ele tem feito em mim, um trabalho muito mais psicológico do que físico. E, como tal, tem envolvido uma mistura de sentimentos difícil de gerir - e muito choro, muita frustração, muitas gavetas de memórias que surgem do nada e que eu não queria abrir. É por ele que este ainda não é um post de desistência. E é por ele que, de vez em quando, ainda vou tentando.

Nesta fase, mais do que bater na bola, os desafios são outros. Não consigo tolerar o peso de uma equipa nos meus ombros; jogar a pares, como é o caso do padel, é muito difícil para mim, porque tenho a perfeita noção de que a minha inaptidão prejudica o meu colega de equipa - e mesmo sendo ele família, é algo com que não consigo lidar bem. Não consigo jogar tendo plateia a olhar para mim - e, por plateia, entende-se inclusivamente o par que está do outro lado da rede (que também é família). Não consigo ser competitiva - porque, neste campo, a vida me ensinou a perder - mas também não gosto que me forcem a querer jogar mais, atiçando-me, porque isso não me dá vontade de contra-atacar, mas sim de desistir. Eu não entro em nenhum desporto com a ambição de ganhar. Tentar, só por si, é uma vitória. E dentro da vitória vivem-se dentro de mim batalhas muito duras, difíceis de descrever por palavras, que duvido que algum dia se dissipem na totalidade.

Sinto que na altura em que tentava frequentar ginásios e via as minhas desistências como simples desistências - e as pessoas iam sugerindo outras coisas, e dizendo que não era assim tão mau e mandando alguns bitaites - eu não via a questão com a abrangência e profundidade que ela merecia. Eu estava só no início da escavação do buraco, quando na verdade ali existe uma cratera.

Um dia, ao ler um post no facebook de uma pessoa conhecida que falava também das suas memórias tristes em educação física, da pressão e incompreensão dos professores, da sensação de ser deixada para trás e gozada pelos colegas, eu percebi que não era a única. Não sei se na altura lhe chamou trauma, mas eu subentendi-o. E, olhando para tudo o que escrevi - e para o que tenho meditado sobre o assunto nos últimos meses - acho que o partilho. 

Estou no caminho de aceitar as minhas desistências todas ao longo destes anos - e, lá está, de tentar olhar para elas como tentativas. Estou a tentar perceber que, de facto, aqueles pequenos atos e vergonhas que passei em miúda - que sempre tentei desvalorizar, assim como todos à minha volta - deixaram uma mossa que não achei possível. E estou, aos poucos e com alguém que me compreende, que puxa por mim mas não desmesuradamente, a curar as feridas profundas que hoje percebo que tenho. Quer consiga ou não, sei, por certo, que ficarão cicatrizes. E - longe da vitimização - não me permitirei mais desvalorizá-las.

09
Out20

Há um ano estava no Japão

Lembro-me de estar à entrada do prédio e pensar para mim: "tu estás completamente louca". Estava a subir, pela primeira vez, à casa daquele que viria a ser o meu namorado. As borboletas na barriga já existiam há muito, mas este seria apenas um jantar de amigos, com a irmã dele. Há dias fui pesquisar na memória do WhatsApp e descobri: foi dia 1 de Março.

Nesse jantar, enquanto me impediam de lavar a loiça ou ajudar a arrumar a mesa de jantar, eu decidi que ia fazer a inscrição para a minha viagem de grupo para a Islândia. Não demorou muito até perceber que estava esgotada. Fiquei triste - era "A" viagem que tinha destinada para 2019 - exteriorizei tudo aquilo, enquanto ouvia a água a correr e os pratos a tilintar. Entretanto fiz scroll nas restantes viagens disponíveis e saiu-me: "olha, acho que vou ao Japão".

Palavra que disse. Abri ali uma caixa de pandora - o que é estranho, tendo em conta que só nos conhecíamos há meio ano e, do nada, achamos perfeitamente normal ir para o outro lado do mundo juntos. 

Tive medo - fazer férias com amigos (principalmente que se conhecem há tão pouco tempo) é uma jogada arriscada. Falei com os meus pais, pensei no assunto, olhei para a conta bancária. Três semanas depois, acabada de me sentar na cadeira do anfiteatro que viu nascer a maior das paixões, disse ao ouvido do Miguel: vamos ao Japão. Daí a uma semana - ainda amigos! - estávamos a marcar a viagem.

Faz hoje um ano que aterrei no Japão - nessa altura já com um namorado e uma cunhada-wannabe: duas pessoas que se reafirmaram acima de tudo grandes amigas, antes de qualquer relação "familiar". E é difícil não dizer que foi perfeito. Porque foi! Sim: estivemos no meio de um dos piores tufões dos últimos anos no Japão e passamos um dia inteiro trancados num mínimo quarto de hotel. Sim: sentimos o prédio a oscilar de um lado para o outro. Sim: todos tivemos o nosso momento mais chato, mais frágil, mais impaciente. Mas foi nesses momentos que a cumplicidade veio ao de cima; a empatia, a compreensão, a compaixão. A amizade. O amor. 

Foi o cimentar dos alicerces de uma relação que queremos que seja para a vida. Foi um voto de confiança de todos para com todos, com a abertura necessária para fazer tanto cedências como exigências - e encontrar, no meio de tudo isso, um equilíbrio.

Tenho nas memórias do Japão o epíteto da felicidade. É difícil viver momentos contínuos com um sorriso no rosto - independentemente do cansaço, das saudades, do jet lag ou de algum mal estar. Mas lá tudo isso era ultrapassado - por me sentir tão grata por aquela oportunidade, tão fascinada por tudo o que me rodeava e tão contente por ter aquelas pessoas ao meu lado.

A viagem para o Japão estava destinada - tal como aquele jantar e a minha ideia estapafurdia de marcar naquele momento as minhas férias. O meu namoro estava destinado no momento em que toquei à porta. E a altura em viajamos também foi a perfeita, longe de saber que, se fosse hoje, provavelmente não a faríamos.

Tenho um feeling de que um dia voltarei ao Japão. Até lá, ficam as saudades. E as memórias de uma viagem inesquecível.

 

 

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