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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

29
Jan17

O luxo que é ter tempo

Carolina

Eu acho que uma das maiores riquezas que há na vida é ter tempo. De que serve ter muito dinheiro se não há tempo para o despender? De que serve ter uma família grande se não temos tempo para ela? Eu acho que este equilíbrio é dos mais difíceis de conseguir e hoje em dia dou por mim sempre a correr, a sair de manhã para o trabalho e chegar já com a noite cerrada e perguntar-me: é isto a vida? É durante o tempo do pequeno-almoço e do jantar que se vive, sem fazer algo a que estamos obrigados por parte da sociedade? E isto para não falar de todas as outras obrigações que as pessoas normais e independentes têm: fazer a cama, arrumar a casa, preparar refeições. Que tempo sobra?

Ainda para mais eu tenho a mania dos planos, das listas, das tarefas. E adoro quando chego ao fim do dia com tudo preenchido e feito - aliás, só assim fico realizada e verdadeiramente sossegada. Mas a verdade é que me esqueço da liberdade e do sossego que é ter dias para não fazer nada. Sem planos, sem horas, sem bilhetes para isto e aquilo, sem jantares, sem ter de fazer uma sobremesa para levar não sei onde, sem viagens às 8 da manhã. E sem ter de escrever, de ler, de ver aquele filme, de estudar, de arrumar. Sem nada destinado - porque só deixando a minha agenda mental livre de tarefas é que consigo efetivamente desfrutar do tempo totalmente livre e não ficar a remoer em tudo o que devia ter feito e não fiz.

Sabendo que o mês que se aproxima vai ser caótico, que os fins-de-semana ricos em descanso não vão existir, que o trabalho vai estar a 200%, que nestas duas pernas vão estar muitos quilómetros e demasiadas horas em pé e que eu vou ter de beber muito café para aguentar a pedalada, decidi que este fim-de-semana ia ser para descansar. Sem planos, sem obrigações - só as refeições e a ida ao supermercado para ir buscar o pão. 

Já li, já vi séries, já vi um filme, já planeei a minha viagem, já escrevi. Sem check-lists, sem stresses, ao sabor do tempo que resta. Governada pelo sono ou falta dele, pela vontade de fazer coisas ou a falta dela. Que bem que soube e que pena estar a acabar. Sinto que vou passar de um passeio domingueiro para uma corrida de fórmula 1. E a única coisa que espero é chegar ao fim com os fusíveis todos. Até lá, vou só dormir mais um bocadinho para queimar os últimos cartuchos.

05
Jan17

Relativizar

Carolina

Fez na terça-feira um ano que fui operada. Acho que, mal abri a pestana, foi a primeira coisa de que me lembrei. Não há dúvidas que o tempo cura tudo, mas as dores físicas vão-se muito mais rápido da nossa memória do que as dores da alma. Estas últimas custam mesmo a passar - e um ano está longe de ser o suficiente para curar tudo o que há para curar em relação a esses quinze dias da minha vida, que pareceram meses enquanto os vivia. Comparado com outras coisas é simplesmente irrelevante, mas para mim aquela terça-feira foi das mais críticas da minha vida - acho que ainda choro de cada vez que falo do facto de ter entrado num bloco operatório.

Na terça-feira, tal como os restantes dias desta semana - e talvez da anterior e a antes dessa - eu estava em baixo, num daqueles ciclos viciosos em que entro e de que depois é difícil sair. Começa com uma dorzinha de alma, que se espelha logo na minha cara - tem graça como as minhas olheiras advém muito mais do meu estado de espírito do que do meu cansaço (e sim, às vezes é imediato - se recebo uma notícia negativa, poucos minutos depois estou com um semblante muito mais escuro) - e depois vai avançando para outros problemas, menores ou maiores, recolhendo dores aqui e ali. Acabo estes dias com a minha auto-estima em níveis negativos: sinto-me feia e gorda e todas essas coisas terríveis que as mulheres pensam e de que eu não sou excepção. Pelo contrário, passo a minha vida emersa neste pensamentos auto-críticos e destrutivos de que nunca consegui fugir.

Quando acordei, já cabisbaixa, lembrei-me de que há um ano estava eu a ir para o hospital, supostamente de livre e espontânea vontade, num pânico total e completo; de como não falava, de como num movimento involuntário e completamente inesperado fui todo o caminho para o bloco com as mãos juntas em posição de reza, de como deram conta que eu estava toda às manchas devido a uma urticária nervosa e de como, horas mais tarde, acordei no recobro a chorar - num misto de medo, alívio, vergonha e de tudo um pouco. E ali estava eu, um ano depois, - ainda que supostamente feia e gorda - a andar perfeitamente, a conseguir-me sentar, sem qualquer problema de saúde; com os meus pais e a minha família bem, eu com trabalho e um dia calmo e previsivelmente feliz pela frente. E ainda assim triste, com uma dar de alma no peito e o estômago pequenino, de como quem tem um problema grave pela frente.

Acho que de nada serve quando nos pedem para relativizar e pensar em todos os problemas do mundo e compara-lo com os nossos. As nossas dores serão sempre as nossas dores. Ponto. E, quer queiram quer não, vão sempre doer mais do que as dos outros - lá está, porque são nossas. Ponto. Mas, se calhar, se compararmos as nossas próprias dores, numa estratégia racional, talvez tudo seja mais realista. É claro que a memória e o tempo nos pregam partidas, tornam as coisas mais leves do que realmente foram, mas ainda assim é na nossa ferida que tocamos - e essas doem sempre mais.

É assim que eu combato as minhas crises: racionalmente. Não funciona sempre: ainda estou triste, o nó na garganta está cá, as olheiras também. Mas neste momento, para além de um âmago dorido, eu sinto-me chateada por estar assim - primeiro porque sei que há dores muito piores, porque eu própria já as experienciei, segundo porque são dias que desperdiço a não ser feliz e terceiro porque estou farta de não viver a vida como eu a sei viver. As tristezas não se podem simplesmente atirar para o lixo, não se esquecem. Mas superam-se - e, no meu caso, relativizar ajuda. Se há um ano eu mal me mexia com dores, hoje estou mais que bem. E amanhã a única coisa que quero é estar um bocadinho ainda melhor que isso.

 

15
Dez16

Sobre deixar de estar encalhada numa fase da vida

Carolina

Nos tempos da faculdade a minha segunda casa passou a ser a baixa do Porto e eu, apesar de adorar a minha cidade, tinha muitas saudades do sítio da minha antiga escola e onde sempre fiz a minha vidinha. Na altura sentia que tudo estava perto - o supermercado, o restaurante, os correios, a papelaria, a escola de condução, o metro... enfim, mesmo que não tivesse tudo isto, aquele foi o sítio que me viu crescer e a minha segunda casa durante anos a fio, que já são razões suficientes para ter um lugar de estimação no meu coração. 

Nos meus três anos de faculdade o ginásio que frequentava era por ali e eu, apesar de não fazer ali a minha vida, ainda por lá ia andando - e de cada vez que passava em frente da minha escola suspirava, com saudades daqueles tempos. Dos recreios, dos meus colegas, dos meus professores. Tive fases muito más naquele espaço, sofri e chorei muito em algumas daquelas salas, mas a nossa memória encarrega-se de desvanecer as coisas menos positivas. Ainda para mais todos esses dramas foram vividos nos primeiros tempos naquele liceu e as coisas foram ficando melhores com o passar dos anos, culminando num 12º espetacular - e por isso, sempre que lá passava, reinavam as saudades e a nostalgia dos tempos que considerava terem sido os melhores da minha vida.

Agora já saí do ginásio onde estava mas, de vez em quando, vou passando por lá para fazer uns recados. E há dias, enquanto via aquele edifício azul e os grupinhos de mochilas às costas, chiclete na boca e uns risinhos aparvalhados, apercebi-me que sim, que ainda tenho saudades, mas não tantas como tinha antes. Já não olho para ali da mesma forma que olhava nos tempos da faculdade - que toda a gente sabe que foi, para mim, tudo menos um mar de rosas.

Não é que tenha deixado de gostar daquele espaço, dos meus professores ou dos meus colegas, mas aconteceu-me algo que nunca me tinha acontecido na vida: a fase (drástica) para a qual mudei é melhor do que a que conhecia anteriormente. Hoje em dia, pura e simplesmente, conheço uma realidade melhor, porque sou ainda mais feliz do que era naquele último ano de secundário. E no momento em que me apercebi disto, em que andava nas correrias habituais do meu dia-a-dia, só pude sorrir. É tão bom quando não ficamos encalhados em certos momentos da nossa vida e nos permitimos andar para a frente. Às vezes custa mais do que aqueles típicos vinte segundos de coragem... mas vale a pena. 

 

 

08
Dez16

Quando vira o prego

Carolina

Acho 2016 foi o melhor ano da minha curta vida. Foi porque aconteceram-me coisas boas, porque tive umas férias absolutamente espetaculares, porque saí da faculdade, concluí a licenciatura e comecei a trabalhar numa área que me apaixona. Mas, acima de tudo, porque mudei o meu chip; porque decidi que queria ser feliz. Isto pode parecer parvo, mas é a realidade: eu nasci com o chip errado, o meu estado de espírito natural era - é - estar triste. E é óbvio que isto não se faz de um dia para o outro, qual ficha que se liga e desliga quando bem se quer: funciona mais como um dual sim, em que um dos cartões nunca sai - o original. Temos é a oportunidade de acrescentar um cartão extra, quando estivermos preparados e dispostos a tal.

O nosso material de fundo permanece sempre o mesmo, podemos é acrescentar-lhes uns bónus que tornem toda a "embalagem" melhor. E eu este ano quis fazer isso: atirei-me para fora da minha zona de conforto, fiz coisas incríveis e livrei-me de outras que nunca me fizeram bem. Isto ajudou a construir o meu novo chip, que consiste num trabalho diário que, creio, vai durar para o resto da minha vida. Não há qualquer tipo de dúvidas que é algo que vale a pena mas também é óbvio que o facto das coisas me terem corrido bem também ajuda a um estado de espírito positivo. No meio destes vários meses em que andei nas nuvens, às vezes parava para pensar e perguntava-me: "e quando o prego virar, como vai ser?". Tinha medo de não conseguir enfrentar as coisas com o positivismo e esperança necessários para continuar neste caminho que tem sido tão bom para mim mas que constitui sempre uma luta.

E chegou o dia. O prego virou. Não todo, não drasticamente, não por causas fortíssimas que me atirem ao fundo do poço (como costumo dizer). Mas que o ângulo que ele tinha mudou, disso não há dúvidas. Esta semana, pela primeira vez desde que estagiei, não me apetecia ir trabalhar; não me apetece tratar das compras de Natal e nem me lembro que o ginásio existe, porque só quero aqueles minutos extra durante a manhã, enrolada no quente da minha cama, que parece ser das poucas coisas que me aquecem a alma nestes dias frios, tanto lá fora como cá dentro. A maioria das coisas desta vida não matam, mas moem.

Tenho sido a pessoa que quero ser em vários dos papéis da minha vida: como trabalhadora, como filha, como mulher. Noutros sei que sou um fracasso (como amiga, por exemplo). Mas nem sempre é fácil manter a simpatia constante, a educação exemplar, o sorriso na cara - principalmente quando vemos os nossos sofrer, quando o trabalho não corre assim tão bem ou a nossa própria alma dói. 

É nestes dias que custa mais pensar que o meu sistema é dual sim. Que há um chip que nunca vou conseguir desencaixar mas que, felizmente, há um outro que eu sei criar e que torna a minha vida muito mais fácil e feliz. Há dias em que parece que o perco, outros onde sinto que nunca o cheguei a construir. E esses são os dias mais difíceis. Vale-me a memória dos dias bons, do meu ano fantástico e exemplar para me relembrar que é possível. 

Vou varrer o pó debaixo da alma e encontrar o maldito chip que andará lá perdido. Já é sabido que ninguém gosta de limpezas, mas nenhum dia é bom para se desperdiçar. E eu tenho um feriado pela frente para desfrutar.

19
Out16

Hoje escrevo

Carolina

Em 2011 deu-me na real gana que queria escrever. Foi uma coisa um bocadinho inesperada, porque toda a minha vida tinha dito que queria ir para áreas ligadas às ciências e aos números; até ali, sempre tinha gozado com os "letrinhas" e menosprezado um pouco o trabalho deles, nunca pensando que aquilo que dizia me iria um dia pesar na consciência. 

E depois, ao que pareceu ser (aos olhos dos outros) uma coisa que mudou do dia para a noite, decidi que não queria nada do que tinha apregoado até ali e que o que queria da vida era mesmo escrever. Claro que, para mim, essa mudança foi mais gradual, ainda que de facto repentina - relaciono-a com um período pior da minha vida, em que me fui abaixo e não estava a conseguir lidar com vários fracassos sucessivos, nomeadamente ao nível das matemáticas. Na altura ninguém me apoiou nesta mudança - em grande parte porque essa relação fracasso/desistência estava muito explícita e, aos olhos dos outros, eu estava a desistir à mínima dificuldade. E eu não posso negar que  essas dificuldades também impulsionaram a mudança - mas hoje percebo que eu estava com uma sede enorme de mudar, o que só ficou provado no ano seguinte, naquele que foi o melhor ano que tive na escola secundária.

Nessa altura coloquei o jornalismo em cima da mesa porque era uma alternativa que me permitia escrever sobre os mais variados assuntos, inclusive as ciências, fazendo com que eu não perdesse essa ligação aos números que eu sempre apreciei. Mas cedo me apercebi que o jornalismo não era para mim e que "escrever" e "jornalismo", ainda que sejam coisas indissociáveis, estão longe de ser a mesma coisa e de satisfazer alguém que gosta mesmo de escrevinhar.

Por ter percebido isso e por, ainda mais para a frente, ter visto que o contacto humano era extremamente necessário, pensei muitas vezes em desistir. No primeiro ano, era algo diário - todos os dias eram bons para dizer "chega". Por alguma força de vontade divina, decidi ficar no mesmo curso e traçar o meu caminho. Defini objetivos, fiz-me perceber que um curso era só mais uma valência e que não perdia nada em saber mais numa determinada área, mesmo que alguns dos trabalhos e atividades me fizessem doer o âmago de cada vez que as fazia. 

E, não sei como, a vida acabou por se arranjar e dar as voltas do costume. Primeiro queria números e fui para letras. Depois a ideia passou levemente pelo jornalismo e fui para a assessoria, fugindo a sete pés dos jornais. A seguir estagiei em assessoria e ofereceram-me um trabalho em jornalismo. Como se isto já não bastasse, tudo acabou por se compor na grande área da minha vida, onde cresci e pela qual nutro uma paixão profunda - de forma a estar a desenhar o meu futuro nesta área -, que é a têxtil e a moda. Algo que no início não fazia sentido e que me causou, muitas vezes, imenso sofrimento, acabou por ser um complô incrível, uma surpresa e uma autêntica prenda da vida.

Porque a vida é um conjunto de escolhas. Das mais pequenas ("o que vou comer ao jantar?" ou "que sapatos calço?) até às gigantes ("caso-me?", "despeço-me?"), todos os dias a fazemos - e eu acho que, muitas vezes, mesmo as pequeninas decisões que tomamos têm repercussões no nosso futuro, quase como o efeito borboleta. Uma coisa é certa: a vida acontece-nos. A partir do momento em que estamos vivos, estamos à mercê do que nos aparecerá à frente. Coisas más e coisas boas, no fim o que interessa é o que fazemos com elas - ou, por outras palavras, as decisões que tomamos e a forma como nos mantemos firmes perante elas. A resiliência, a luta, a paciência e aquela pitada de sorte fazem a diferença.

Em 2011 decidi que queria escrever. E hoje escrevo - e que bom pensar que isto é só o início. [Caraças, os sonhos realizam-se mesmo!]

 

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 (hoje saiu o meu primeiro texto assinado em algo sério, oficial e com uma tiragem minimamente significativa. estou feliz.)

 

29
Set16

Carolina, hoje é dia de seres feliz

Carolina

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Isto pode parecer piroso, estúpido e terrível mas esta é a imagem que tenho como pano de fundo do meu telemóvel. Quando acordo e pego no telemóvel em busca das primeiras novidades do dia, esta é a primeira coisa que vejo. Quando pego no telemóvel para me distrair ou desviar as atenções no meio de uma situação que me deixa desconfortável, isto é o que vejo. Quando me esqueço que tenho relógio e clico no botão do telemóvel, mais por vício do que por necessidade, esta imagem que me aparece à frente. E quando me deito e pego no telemóvel uma última vez para ligar o despertador para o dia seguinte, esta também é a imagem que vejo.

E vocês dizem: "oh, passado dois dias já nem lês o que aí está". Não é verdade. Posso nem ler, mas como gosto da imagem e olho para ela todos os dias, a missão fica logo cumprida - e há uma campainha no meu subconsciente que se acende e que sabe a importância por detrás desta mensagem.

Pode soar a cliché, mas isto é mesmo muito importante para mim. Entrei agora numa fase nova da minha vida e por muito bem que as coisas corram há sempre embates fortes que tendem a derrubar-nos. Há dias piores, em que tudo nos irrita - e a culpa tanto pode ser nossa como do outro que trabalha connosco, mas a impertinência e o mau estar estão lá. Para mim, o maior desafio de todos os dias de trabalho é pôr-me fora da minha zona de conforto: fazer telefonemas, falar com pessoas, estar com pessoas, almoçar com pessoas. É uma overdose de pessoas para alguém que nunca gostou de (lidar com) pessoas, e não é fácil enfrentar o mesmo "bicho" todos os dias. O truque tem sido pensar dia-a-dia, hora a hora. Por cada chamada que tenho de fazer ou pessoa com quem tenho de falar, faço uma série de coisas que gosto - e isso compensa-me tudo o resto.

Quando o saco enche, a coragem se vai e a noite não foi tão bem dormida, eventualmente as coisas rebentam. E eu deixo que elas rebentem, mas não sem antes processar bem a informação e estabelecer um limite de segurança. Preciso de chorar durante 10 minutos? Choro durante 10 minutos. Mas depois vou à minha vida, fazer uma das milhentas coisas que gosto. Isto, no fundo, tem uma comparação simples. Há uma escolha a fazer nestes momentos cruciais e meio depressivos: enquanto os estamos a viver, ouvimos músicas tristes ou alegres? Eu era a pessoa que ouvia músicas tristes e chorava cada vez mais - chegava ao fim com a cara irreconhecível e a já não saber porque razão chorava; hoje tento ser a que põem música alegre e tenta cantar, mesmo que aquele nó da garganta ainda não tenha desaparecido. E penso que isto explica tudo.

Isto pode parecer conversa de chacha, mas eu contextualizo. Admito, sem muitos pudores, que ainda não tinha 18 anos e já andava a tomar anti-depressivos. Tomei-os durante uns meses, até me senti melhor, e depois parei, porque achei que aquela leveza que sentia não era verdadeira nem conquistada por mim mas devido aos químicos que estava a tomar. Passada essa fase turbulenta, tentei mudar e ficar feliz pelos meus próprios meios. Tenho vindo a conseguir, com fases melhores e piores pelo caminho - há acontecimentos na vida de cada um de nós que são suficientemente arrebatadores para destruir este tipo de "construções de nós próprios", mas penso que estou incomparavelmente melhor do que estava há alguns anos.

Mas preciso de me lembrar, todos os santos dias, que há uma alternativa à pessoa que eu sou naturalmente. É uma coisa de ADN, que me é intrínseca - eu tenho tendência a ser depressiva e não me posso deixar enterrar em ciclos viciosos onde depois não vejo saída. Aprendo todos os dias a contrariar-me e faço um esforço muito grande (e consciente) nesse sentido.

Por isso, sim, hoje é dia de eu ser feliz. Hoje, amanhã e todos os dias da minha vida - mesmo aqueles em que não sou e não vou ser, porque há momentos que ultrapassam a nossa vontade e força. Mas nos dias em que eu puder tentar - que felizmente são a maioria - é essa a minha missão. Perdoem-me, por isso, a imagem pirosa na foto de capa do telemóvel, ok? É só um lembrete para a vida.

12
Set16

We'll always have pão com chouriço (e ovos moles)

Carolina

Acabou ontem a última feira medieval aqui das proximidades e, com ela, os pães com chouriço de 2016. Foi óptimo enquanto durou, enchi o bucho muito mais do que devia, mas está na altura de dizer adeus. Estou desde o Senhor de Matosinhos (ou seja, inícios de Junho) a enfardar esta iguaria tão portuguesa - passei pelas romarias e feiras todas, parei sempre nas barracas de pão artesanal e tirei a barriga de misérias. Uns souberam-me pela vida e outros nem tanto, mas de arrependimentos não se faz esta vida e não há nada tão bom como um palato feliz e uma barriguinha cheia.

Mas bom, posto isto, é altura de entrar nos eixos. Ontem foi a minha data limite de gordices-ilimitadas-sem-peso-na-consciência-e-definitivamente-mais-peso-na-balança. Terminei em bom, numa visita relâmpago a Aveiro onde comi um sushi da melhor espécie e terminei com um gelado de ovos moles que era só assim de bradar aos céus. 

Agora, com o novo trabalho, quero criar rotinas e voltar a uma vida minimamente equilibrada. Não é que seja fácil, porque já percebi que, para o bem e para o mal, o meu trabalho não tem horários rígidos - tanto posso passar uma manhã em casa como um dia inteiro no escritório (e por "dia" pode entender-se sábado ou domingo). É algo que gosto, mas que obriga a uma responsabilidade e organização acrescida, não facilitando a vida a quem gosta de rotinas, como é o meu caso. Ainda assim, quero voltar para o ginásio, quero os meus quinze minutinhos para o pequeno-almoço, quero comer em casa sempre que possível, quero as minhas séries depois do jantar e um livro e um chá ao fim-de-semana. Posso não conseguir tudo, mas vou ao menos tentar.

O ginásio é parte integrante e essencial em tudo isto, não só porque esta história das "gordices ilimitadas" é óptima para o palato mas péssima para a auto-estima, mas também porque preciso de um escape do trabalho e de um momento só meu, livre de agendas, sites, notícias, telemóveis e emails sempre a piscar. Este ano estou outra vez com a mesma dúvida: mudo de ginásio, para um mais perto de minha casa ou do trabalho, ou fico onde estou, que me fica longe de tudo mas que tem um professor que adoro de coração? Sinto que o facto de ser longe me está a prejudicar e já ando há demasiados anos a adiar a resolução de ser fiel ao ginásio (e com isso um relacionamento estável com o meu corpo e a minha auto-estima).

Enfim, até tomar uma decisão definitiva vou andando e habituando-me a esta nova vida, que ainda há muita coisa para afinar. Quanto ao pão com chouriço, para o ano há mais. Para já, e com imensaaaaa pena minha, vou ter de acabar com aquela caixa de ovos moles. Prometo ser rápida que é para começar isto da vida saudável rapidinho, ok?

 

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05
Set16

Tenho em mim todos os sonhos do mundo

Carolina

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Comecei hoje uma nova fase da minha vida. Depois do verão incrível que tive, sentia-me mais que preparada. Fiz tudo o que queria, que me apeteceu, que desejei; mais do que alguma vez sonhei. Estou pronta para mais uns meses de rotina: quero voltar ao ginásio, ver as minhas séries antes de deitar, organizar a agenda no domingo à noite, ir ao cinema de vez em quando, comprar as prendas de natal, ler livros com a manta pela pernas. Nunca me tinha acontecido tal, mas sinto que vivi tanto e tão bem estes últimos meses da minha vida que estou pronta para os guardar nas minhas memórias favoritas e esperar pelo futuro, de forma a arquivar mais e mais. Não deixei "se's" para trás e essa é a melhor sensação do mundo.

Hoje foi o meu primeiro dia de trabalho - e acho que, como todos os primeiros dias de trabalho, não foi fácil. Percebi que, pelo menos nesta primeira fase, vou ter de fazer coisas que não gosto particularmente e fui logo posta à prova em situações fora da minha zona de conforto. Sei que, agora, não vão ser só precisos 20 segundos de coragem, como quando me atirei do slide abaixo. Aqui vão ser minutos de coragem, horas de coragem, dias de coragem. Vai ser fazer arvorismo sem linha de vida, correr com uma venda nos olhos, fazer escalada só com as mãos. Vai custar, porque ganhar calo custa. 

Mas eu quis isto. Quero isto. Tenho em mim todos os sonhos do mundo e sinto que o início é aqui. Posso fazer esta caminhada às escuras, mas sei que a luz vai aparecendo com a experiência e que todos os passos que vou dando me vão ensinar a caminhar direito e me serão úteis para o futuro. Tenho planos para mim, objetivos à séria - nunca fui de pensar em pequeno. E quero cumprir, quero ter, quero ser o que quiser. Tenho há vários anos uma linha mental definida para mim, aberta para aquilo que a vida me quiser oferecer e forte o suficiente para os trambolhões que possa vir a dar - mas é a ela que me agarro: nos dias felizes para seguir em frente e nos dias mais difíceis para me segurar e olhar bem para o caminho [hoje, por exemplo, dói-me a alma mas vejo a linha bem nítida à minha frente]. E nesse caminho, de todas as vezes que cair, que chorar e pensar em desistir, só me quero lembrar do quão fui feliz nestes dias e em toda a esperança que tenho em mim, porque essa é a única chave que tenho para não entrar em estados que já entrei no passado e de onde nem sempre é fácil sair.

Hoje deram-me as chaves do meu novo escritório, mas é como se me tivessem dado as chaves para o resto da minha vida. Pode doer, custar, estranhar. Mas eu sei que é por aqui. E, dos mil e um planos que tenho para mim, ser [estar, continuar] feliz é o meu maior objetivo de todos. Provei essa coisa da felicidade e agora não quero outra coisa.

01
Fev16

Offline is the new luxury

Carolina

Ando desligada, é a verdade. Tenho mensagens no telemóvel por responder, emails por ver e enviar, conversas no facebook inacabadas, muitos posts por escrever. Por um lado, tenho noção que isto só aumenta o isolamento que sempre senti e de que me auto-critico; mas, por outro, ando tão cansada de tudo, que o que me apetece é desligar a ficha e deixar ficar. Porque só nos últimos meses é que percebi a quantidade de cansaço que toda esta tecnologia que nos envolve me provoca.

Tudo começou em Março ou Abril do ano passado, altura de preparações do Fora da Caixa. Nunca fui tão concorrida na vida e até já tinha vergonha de cada vez que o telemóvel tocava e as pessoas ficavam a olhar para mim. Eram mensagens, telefonemas, emails, whatapps, mensagens no slack (uma aplicação para trabalhar em equipa, vale a pena), conversas no facebook. Não tinha descanso para almoço, jantar ou dormir - o telemóvel tocava. Tocava sempre, até as pessoas me arregalarem os olhos e eu clicar no botão desligar ou o ir pôr a uns metros de distância. Foram dois meses intensos, muito cansativos, mas que passaram - e, com toda a avalanche que aconteceu naquele período de tempo, não tive tempo para analisar o que me estava a deixar arrasada, física e psicologicamente, até porque haviam mais vinte e sete mil coisas para pensar e tratar.

Só agora, neste semestre, é que percebi a mossa que isto estava a criar em mim. Já é um clássico criar grupos no facebook para cada grupo de trabalho da faculdade que se tem; a isso, vêm aliadas também as conversas de grupo. É por essas duas vias que colocamos as nossas partes dos trabalhos, dúvidas, troca de ideias e galhardetes - e as notificações vão caindo, a luz do telemóvel acende-se, o "ping" e a vibração fazem-se ouvir. Isto a juntar àquilo que originalmente já tínhamos: os telefonemas, as mensagens, o resto do facebook, o whatapp e outras coisas que tais. No fundo, não temos descanso - e foi aí que comecei o meu blackout. Ia vendo, mas pouco ia respondendo - estava exausta, farta até às pontas do cabelo de tanta vibração, de tanto "ping", de tanta dependência. Comecei por pôr o telemóvel em silêncio (só vibrava, o que também já me tirava do sério), depois tirei as notificações do facebook e, por fim, acabei por descobrir o botão de "descanso" do iPhone, que me tira todos os sons, vibrações e luz do telemóvel. Escusado será dizer que o utilizava bem mais do que nas alturas em que "descansava" e que aproveitava, melhor que nunca, aquele silêncio quase ensurdecedor que a falta do telemóvel me provocava.

Foi nesse "modo" que passei praticamente toda a recuperação da cirurgia, porque estava farta de acordar às custas da vibração de uma mensagem de uma conversa de grupo no facebook que nem sequer era para mim. Clicava no botãozinho milagroso, dormia e, quando acordava e me apetecia, tratava dos assuntos que apareciam nas notificações do ecrã: respondia às mensagens, devolvia chamadas, falava nos grupos caso fosse caso disso. Ainda assim, dizer que andei parca em palavras, é ser simpático.

Apesar dessa fase pior já ter passado, ainda não voltei à normalidade - e, sinceramente, não quero. Pretendo responder a tudo o que tenho pendente, voltar ao normal com algumas conversas e pessoas, mas, no que diz respeito a tudo o resto, vou pôr um travão. Isto de estar disponível durante vinte e quatro horas por dia é mau. Mesmo mau. Para além de criar dependência (da qual, neste momento, me sinto mais livre), aumenta o stress de forma exponencial. Nunca podemos estar sozinhos connosco próprios - já quase que nem o sabemos fazer. Nunca podemos deixar o telemóvel em casa sem entrar em pânico. Nunca podemos ter paz.

2016 vai ser, por grande vontade minha, um ano em que vou tentar equilibrar as coisas neste sentido. Não vou deixar coisas sem resposta (como tem acontecido), mas também não esperem que ande sempre com o telemóvel na mão. Está na altura de viver (também) fora dos ecrãs, para bem da minha sanidade mental. 

 

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30
Dez15

A primeira percepção de 2015 & a realidade

Carolina

Se não pensar muito, acabo este ano com a perceção de que correu mal; na minha mente assombram-me momentos maus, de dor, de preocupação e cansaço profundo. Acho que, como nas casas, há algumas fases na vida de algumas famílias em que parece que tudo avaria; a diferença é que, no caso das casas, podemos mudar-nos ou resolver os problemas com relativa facilidade - o mesmo não acontece com a vida das pessoas. E eu sinto que, um bocadinho por toda a parte, os problemas se disseminaram. E, claro, como as nossas dores são as piores, a memória mais fresca que tenho deste ano foi da minha lancetação e destes últimos dias sem me conseguir sentar - e tudo o que me consigo lembrar sobre o ano que aí vem é que vou ser operada, o que já me estraga todos os prognósticos que possa fazer. Estar a morrer de medo do que aí vem é pouco.

Mas a verdade é que isto é a prova dura e crua de que a memória é extremamente seletiva - e se, a longo prazo, tendemos a lembrar-nos das coisas positivas (eu, pelo menos, sou assim), a curto prazo só nos lembramos de tudo o que de mau aconteceu. E talvez por isso - por as coisas más terem acontecido mais no fim do ano - a minha percepção deste ano que está mesmo a acabar seja muito negativa. Mas a verdade é que não foi.

Enquanto elaborei a lista de coisas que fiz em 2015 percebi que foi um grande ano - pelo menos a primeira metade! Nunca fui a tantos concertos na vida, nunca li tantos livros! Viajei, fui três vezes ao meu paraíso de descanso (o meu Algarve), a minha família aumentou e tive o meu irmão e sobrinhos imenso tempo aqui comigo. E tive experiências super, super, super enriquecedoras! Não vou esquecer o silêncio mágico do rio enquanto andava no caiaque nem nunca mais vou esquecer a loucura que foram os meses de preparação para o Fora da Caixa - esse que foi, sem sombra de dúvidas, o acontecimento mais marcante deste 2015 (acho que todos foram capazes de perceber isso).

O ano não acabou da melhor forma, mas sei que tenho o dever de puxar pela memória e não me deixar levar pelos seus truques manhosos; tenho de me lembrar de tudo de bom que aconteceu e, acima de tudo, agradecer. Pela sorte de ter o que tenho, de poder ter vivido o que vivi e pelas pessoas que me rodeiam (que, embora não sejam muitas, são das boas). Portanto, se me permitem, quero reformular: com excepção de uns meses finais e uns episódios mais duros, este ano foi um ano feliz - incrivelmente feliz.

 

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Quanto a 2016... que seja tão bom ou, se possível, melhor! E, claro, com muitos (e bons) posts à mistura! 

Vemo-nos para o ano, sim? Boas entradas!

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