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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

01
Mar17

Review da semana 17#

Carolina

Here WeGo

 

Quando estive em Madrid, na altura de jantar, o pessoal que estava comigo decidiu o restaurante onde íamos e ligou o que me pareceu o GPS do telemóvel para saber o caminho certo, desde o hotel ao restaurante. Pelo caminho trocavam bitaites, porque o telemóvel de uns dizia para ir por um lado, o de outros dizia para ir por outro. E só pelo andar da conversa é que percebi que aquilo que eles estavam a utilizar não era o GPS mas sim várias aplicações que utilizavam o GPS, mas não gastavam internet (como eu, mente brilhante, fazia até então).

Perguntei a um deles como se chamava a aplicação: é a Here WeGo. O que aquilo faz é descarregar os mapas do sítio onde o utilizador está (em viagem pode descarregar-se com o wi-fi do hotel, por exempo) e depois pode-se utilizar aquilo em offline, sendo que o telemóvel só necessita da vossa posição geográfica para vos dar direções (utilizando o GPS e não a internet, algo necessário quando se utiliza, por exemplo, o Google Maps).

Quando fui para Munique e andei sozinha, foi o que me safou. Pus um "pin" em cima do meu hotel e depois, sempre que estava noutro qualquer ponto da cidade e queria voltar a pé, era só pedir o caminho de volta. Aquilo, à partida, não é a coisa mais intuitiva do mundo - funciona com "vire a norte" e "vire a oeste" (o que para pessoas normais e meias desgovernadas, pode ser um pouco confuso), mas depois de se perceber a lógica é sempre a virar frangos. Para mim foi particularmente útil porque, a certa altura, já não tinha sequer net para gastar, esqueci-me do papel com as informações do hotel e estava desesperada por voltar (para ir buscar o dinheiro e o passaporte que tinha deixado no cofre), por isso só tenho a agradecer ao meu sentido de orientação e ao Here WeGo por ter chegado a todos os sítios, sã e salva e sem qualquer registo de perdas pelo caminho.

A aplicação é gratuita e está disponível em iOS e Android.

26
Fev17

Viajário

Carolina

Sempre adorei ver, nos filmes, aqueles supostos diários que algumas personagens fazem cheios de fotos, colagens, recortes, bilhetes e todo o tipo de coisas. Tenho para mim que isso é uma moda um pouco americana, mas que sempre gostei. Aliás, na verdade, sempre invejei esses diários: nunca consegui manter um simples diário de escrita, quanto mais um diário onde punha tudo e mais alguma coisa, em modo artístico e bonito. 

Apesar de nunca ter conseguido manter diários em papel, quando comecei a escrever no blog, isso mudou: aprendi a escrever todos os dias e sempre tive gosto em fazer algo contínuo (embora sejam coisas diferentes: há muitos anos que não vejo o blog como um diário íntimo - no máximo é um diário de bordo da minha vida, das minhas opiniões e estados de espírito). Hoje cá ando, a chatear-vos todos os dias, mas fiquei sempre com aquele bichinho daqueles diários coloridos, cheios de recordações e movimento, muito mais que os dramas do dia-a-dia, de amores e desamores e coisas do género. Para mim, on a daily basis, continua a não ser exequível: quanto mais não seja porque não tenho paciência para escrever muito em papel. Hoje em dia escrevo com muito mais facilidade aqui no computador no que à mão, salvo raras exceções, que gosto de manter à moda antiga.

Mas bom, no início do ano recebi uma prenda incrível, que adorei, e que cabe perfeitamente nessa categoria de coisas que ainda gosto de fazer como antigamente. E o que foi? Um viajário. No fundo, é um caderno já preparado para servir de diário de bordo de várias viagens - já tem uma série de páginas para se fazer o planeamento da viagem, outras para fazer o relato das mesmas, o antes e depois, sítios para fotos, apontamentos, etc. É uma ideia gira. Não está organizado da forma que eu acho mais lógica, mas a verdade é que pouco importa: podemos fazer daquilo o que quisermos. Para além do mais está decorado de uma forma deliciosa, repleto de frases sobre viagens que nos enchem a alma e que no dão ganas de fazer a mala e partir para a descoberta.

Recebi isto antes de ir para Munique e fiz logo lá o meu plano de viagem. Só hoje é que consegui completar a parte do "pós", mas juntei o útil ao agradável e fiz do meu viajário um bocadinho daqueles diários que via nos filmes e que sempre me fizeram delirar. Normalmente guardo tudo o que tem que ver com viagens na minha caixa de recordações (que agora, devido ao tamanho, é mais um caixote), mas a verdade é que não há ali qualquer tipo de organização e só eu é que consigo dar valor às coisas que estão lá dentro, porque me vou lembrando das minhas aventuras e peripécias à medida que vejo bilhetes disto e daquilo.

Quando decidi fazer este apanhado no viajário, pensei: "mas então... não vou poder guardar as coisas na caixa onde sempre guardei tudo" - e é verdade. Mas a mudança nem sempre é uma coisa má e acho que, neste aspeto, é sinceramente para melhor: assim há uma história com início, meio e fim, as coisas não andam perdidas no meio de envelopes sem vida, está tudo junto e com mais significado - com o bónus de ser um diário de bordo como aqueles que eu via quando era pequena e que sempre me fizeram inveja até hoje. E sei que, um dia que estiver cheio, há-de ir parar também à caixa das memórias, onde eventualmente vai parar tudo o que me leve a viajar pelo tempo.

Já há vários anos que faço diários de bordo (publico-os aqui, sempre que faço), mas esta é uma versão menos "massadora" e complexa das minhas viagens. Não pus fotos: só bilhetes e pequenas recordações que trouxe de lá, que é aquilo que normalmente guardo na tal "caixinha". Pelo meio pus umas notas e umas peripécias e, voilà, estava feita a minha primeira entrada no viajário. Deixo abaixo algumas fotos para ficarem com uma ideia.

 

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 (obrigada A. pela prenda que, como sabes, me assenta como uma luva!)

12
Fev17

Um guia turístico diferente

Carolina

Antes de fazer as viagens, emprestaram-me um molho enorme de guias para eu fazer uma seleção dos sítios onde queria ir. É óbvio que não tinha grande tempo para fazer muita coisa, mas foi uma boa hipótese para fazer ver aquilo que achava ou não que valia a pena visitar.

No meio de tudo isso veio um livro enorme e pesado, chamado "36 hours - Europe", em que o conceito é basicamente "o que fazer num fim-de-semana num destino europeu?". Começa a meio da tarde de sexta feira, passa por sábado e pela manhã de domingo - no fundo, um tipo de viagens muito instituída pelas companhias low-cost, em que se tem de ver tudo em modo Speedy Gonzalez e pensar "é melhor que nada".

Mas bom, a ideia era eu ver o que o livro trazia sobre Madrid e Munique, mas a verdade é que gostei tanto do conceito que dei por mim a folhear o livro por inteiro - principalmente nas cidades que já conhecia, para perceber se os sítios que eles sugeriam iam de encontro aos que eu tinha ido e gostado. E a verdade é que há muitos sítios de que gostei muito, mais ao menos comerciais, e que o livro sugere. No fundo, tem um bocadinho de tudo: primeiro uma breve contextualização da cidade, depois um sítio para passear, outro para jantar, outro para tomar um copo, um museu, uma loja ou outra coisa que os autores acharem relevante. Acho que isto é uma compilação de textos publicados no The New York Times e, para além da edição sobre a Europa, há sobre os USA&Canadá, Nova Iorque, Londres e América Latina.

Para além do formato giro e pouco usual de apresentar as coisas, o livro é lindo, muito bem desenhado, com fotos e ilustrações incríveis, que fazem com que não apeteça parar de se folhear. Encontrei-o no The Book Depository a 23 euros (agora está a 24) e achei uma autêntica pechincha. Os guias turísticos são caríssimos, um só livro sobre uma cidade pode chegar a custar mais do que isto, e pagar pouco mais de vinte euros por um livro com quase 700 páginas, que pode servir até de decoração de centro de mesa (por exemplo) e que tem informação sobre todas as cidades principais da Europa, é quase de borla. Fiquei rendida ao formato e à beleza da obra, por isso não podia deixar de a partilhar convosco. E, se gostam de viajar, este é capaz de ser um bom investimento.

 

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Para terem uma ideia, no Porto aconselham o Restaurante DOP, o Mercado do Bolhão, o Hard Club, o Centro Comercial Bombarda, as Galerias de Paris, a Fundação Serralves, as caves Sandeman, entre outros.

 

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 Em Lisboa aconselham a visita ao LX Factory, à Casa da Comida (não conheço), ao MUDE, ao Museu Nacional de Arte Antiga e ao Le Chat (que também não conheço), entre outros.

 

11
Fev17

Uma semana de viagem: o resumo

Carolina

É engraçado pensar que apenas viajei durante uma semana. Enquanto a vivi, a azáfama foi tão grande que o tempo pareceu passar a correr (pelo menos a maior parte, fora aquelas em que eu me ia abaixo, escondida nos arrumos, e contava quase os micro-segundos a passar). Agora que quero fazer um resumo das minhas peripécias, começando por Madrid, parece que passou tanto tempo que já nem as lembro de uma forma muito viva. Por um lado é mau, porque a veracidade das coisas já não vai ser espetacular; mas por outro, quer dizer que sorvi cada segundo daquela experiência, o que não podia ter sido melhor. Vamos lá por partes.

 

   1) Passei apenas uma noite em Madrid, mas viajei com três malas de porão, com 24 quilos cada uma. E não, não foi culpa minha - era material que tinha de ir para a feira e que não chegou a tempo para seguir por uma transportadora, por isso não houve volta senão ir comigo no avião. O que me valeu é que conhecia pessoas que - não tendo viajado lado a lado comigo - me ajudaram depois a transportar a carga.

   2) Mal cheguei fui logo trabalhar, não houve tempo para passagens pelo hotel. Quando lá cheguei, à noite mesmo antes do jantar, percebi que era um quarto habilitado para pessoas portadoras de deficiência. Nada contra, mas a casa de banho era terrível: para poder albergar uma cadeira de rodas, o chuveiro não tinha limites ou paredes, pelo que de cada vez que tomei banho alaguei a casa de banho in-tei-ra. Não foi bonito.

   3) Jantei com pessoas que não conhecia de lado nenhum. É engraçado como em situações que nos são estranhas acabamos por nos adaptar - já de tarde tinha falado espanhol (ou portunhol) como nunca tinha feito na vida (sempre tive imensa vergonha) - e depois ali estava eu, com três pessoas estranhas, a partilhar mesa e um jantar. Foram, por acaso, muito simpáticas e acabei também por estar com elas no pequeno-almoço. A verdade é que foi muito mais estranho o momento antes do jantar e o pós (como agora, em que estou a pensar nisso) do que o momento em si. Na altura limitei-me a ligar os meus instintos não-anti-sociais e tentar parecer alguém normal.

   4) O vôo Madrid-Porto foi o pior da minha vida. Foi sexta-feira à noite e, pelo que sei, houve um vendaval por todo o país (e também em Espanha, onde foram adiados jogos de futebol e etc.). Só tivemos uns 20 minutos de sossego - os outros 40, entre descolagem e aterragem, foram do pior. Vi a minha vida a andar para trás, à medida em que ia sentido o avião a balançar da esquerda para a direita de forma incessante, as malas acima da minha cabeça a baterem umas contra as outras e os compartimentos do avião onde os hospedeiros guardam as comidas e todas aquelas tralhas a remexerem-se todas. Chegou uma altura em que tive de me agarrar ao banco da frente para me estabilizar e procurei o saquinho de papel, caso precisasse. Vim depois a saber que houve pessoas que tiveram mesmo de o utilizar. Eu só queria chegar a terra - e rezava para que dali a umas horas o temporal já tivesse passado.

   5) Tinha vôo para Munique apenas seis horas depois de chegar de Madrid, pelo que estava no aeroporto apenas 4 horas depois de lá ter saído. O plano era tratar da mala mal chegasse à noite, mas dado o meu estado de oura, preferi dormir duas horas primeiro e depois trocar as tralhas essenciais de uma mala para a outra (que já tinha deixado pronta). Estava a tratar disso quando percebo que havia umas bolsas que estavam abertas e não deviam. Fui roubada no aeroporto de Madrid. Felizmente não tinha objetos de valor, mas roubaram-me dois colares (ambos Parfois, mas estavam bem tratados, devem ter achado que roubaram grande coisa) e os meus cartões de memória da máquina fotográfica, que estavam naquele saquinho que vos tinha mostrado aqui - também estavam vazios. Deixaram o colar mais valioso, tanto na nível monetário como emocional, pois era da minha avó. Ao menos isso. Ainda assim, chateou-me o facto de terem andado a remexer nas minhas coisas.

   6) A primeira noite em Munique foi de festa, num bar português, onde vimos o Porto ganhar ao Sporting. Vim a saber que aquele era o poiso dos jogadores do Bayern de Munique e o meu sobrinho mais velho quase me trucidou quando lhe disse que estava lá um tal de Rafinha (quem?) e eu não lhe tinha pedido um autógrafo.

   7) Aprendi que o schinitzel - o panado - é a minha salvação numa terra onde só se comem salsichas, algumas com um aspeto definitivamente horrível. Não como salsichas de uma forma geral, é algo que me faz aflição, e estar numa feira onde só se serviam snacks com salsichas pelo meio foi algo medonho.

   8) A feira onde fui tinha 19 pavilhões. Andei uma média de 10 quilómetros por dia, só dentro da feira. Saía do hotel pelas 7.30 locais (6.30 daqui) e houve dias em que cheguei depois da meia-noite. Fiquei morta. A certa altura tinha pessoas a gozar comigo, sem eu me aperceber porquê - só quando me olhei no espelho do elevador é que entendi que, embora tentasse estar bem-disposta, a minha cara me denunciava. Olhos raiados de sangue e olheiras até ao chão não perdoam. Passei essa semana a levantar-me às 5 da manhã de Portugal e aprendi que sei dormir em qualquer lado.

   9) Apercebi-me disso no dia em que fiquei sozinha, porque relaxei do frenesim da feira. No caminho de volta de Dachau adormeci sentada no metro, algo que nunca na vida me tinha acontecido. Depois à ida para o aeroporto aconteceu-me o mesmo, agarrada à mala (tenho a certeza que o gajo que estava à minha frente me tirou fotos). E tornei a adormecer enquanto esperei para fazermos o embarque.

   10) É engraçado ver a reação das pessoas quando se apercebem que uma miúda nova está sozinha. Ao jantar, certificaram-se que tinha dito que a mesa era só para um. Depois, quando veio o meu pernil, o empregado desfê-lo por mim (tinha ido ao mesmo restaurante no dia anterior, com pessoas, e isso não aconteceu) e sempre que passava sorria-me e perguntava-me se estava tudo bem. No dia seguinte, no aeroporto, uma senhora alemã ajudou-me a pôr as alças da mochila direitas quando se apercebeu que as tinha deixado tortas quando a coloquei nas costas. Achei o gesto enternecedor.

   11) Relativamente a estar sozinha, o meu maior receio era andar de noite - ali em redor do hotel havia muitos bares de strip e algumas prostitutas, sendo que havia também alguns magotes de homens que eventualmente podiam tentar algo. Meti os pensamentos maus atrás das costas e fiz-me à rua, e ainda andei uns dois quilómetros, desde o restaurante ao hotel. Certifiquei-me apenas que jantava cedo e voltava cedo para o ninho, para evitar andar sozinha a altas horas da noite. Achei a cidade muito morta, passei por sítios onde não passava vivalma e onde não havia animação, nem mesmo em montras. 

   12) No dia seguinte, o dia S (de "sozinha"), a vida não estava a colaborar. Fiz o check-out logo depois do pequeno-almoço, deixei as malas no hotel e fiz-me ao caminho para Dachau. Lá no campo comecei a enregelar seriamente mas, entre tirar telemóvel para tirar fotos e etc., perdi os phones e uma luva. Fiquei fula. Os phones eram a minha companhia e a luva, naquele momento, parecia essencial para a minha sobrevivência. Mal punha a mão de fora parecia perder a atividade, de tanto frio que fazia.

   13) Dirigi-me depois a Marienplatz, a praça mais antiga e principal da cidade, onde sabia que havia umas lojas pelas redondezas. Fui a uma H&M e comprei umas luvas. Quando ia a pagar, olhei para a carteira e apercebi-me que me faltava dinheiro - tinha-o deixado no cofre do hotel! Não tinha os documentos do hotel comigo, não tinha internet no telemóvel para saber sequer o número para ligar para lá. Meti-me no metro e fui a correr de volta, com o coração nas mãos. Quando cheguei, fiquei a saber que não só tinha deixado o dinheiro como o passaporte, que deixei lá por segurança, caso me roubassem o cartão de cidadão. Foi uma sorte e ficarei eternamente agradecida às senhoras da limpeza por terem guardado e entregue tudo. Nesse momento, para além de estar esgotada e a bater o dente de frio, senti-me derrotada. Já não queria passear, já não queria saber: só queria dormir, ir para o aeroporto e vir para casa. Mas fiz um esforço, voltei a abandonar o hotel e fiz-me à estrada.

   14) Comprei uns phones, já tinha outra vez companhia. Comprei também uns ímans para o frigorífico, para a minha mãe, e uns croiassaints e uma água para quando a fome apertasse. Dei mais umas voltas no centro histórico, sem grande plano definido, porque percebi que a vida não estava para essas coisas. Nas minhas pesquisas pré-viagem tinha visto que se podia subir a uma torre, mas quando lá passei não vi ninguém e parecia estar tudo fechado. Voltei a tentar, empurrei portas e lá acabei por encontrar a entrada. Estava cheia de frio e achei que aquela era uma boa forma de aquecer. Subi. Subi. Subi. Subi. Olhava para cima e as escadas não terminavam. Estava a deitar os bofes pela boca e só pensava "ainda bem que comprei uma água, quando chegar lá acima vai-me saber pela vida". Cheguei, mais viva que morta, e abri a água. Vi bolhinhas. Tinha comprado água com gás, algo que sou perfeitamente incapaz de beber. Roguei-me pragas.

   15) Tirei fotos, respirei, e voltei a descer, dando graças por aquilo não ter começado a arder quando eu estava lá em cima. As escadas eram todas de madeira e se algum dia algum louco passa por ali, está tudo condenado a uma morte certa. Quando cheguei cá abaixo, lembrei-me de ler o letreiro: 91 metros de altura, 306 degraus. Entre subida e descida, 612. As minhas pernas pareciam piores que gelatina, quase como se tivesse saído de um treino de PT. Roguei-me pragas mais uma vez, por não ter lido o letreiro antes de subir.

   16) Dei mais umas voltas, bebi um chocolate quente e voltei para o hotel. Peguei nas malas e fui para o metro, em direção ao aeroporto. Aparato policial, a porta para a linha da estação de metro que precisava estava fechada. Perguntei ao polícia uma alternativa, não percebi o que me disse, dei duas voltas à estação gigante para perceber se havia outra porta e nada. Como já dominava o metro, entrei noutra linha e depois troquei para a que queria - uma volta maior, mas não tinha outra alternativa. Tinha uma mochila carregada de coisas, entre computador, carregadores,máquina fotográfica, objetiva, porta-moedas, carteira de medicamentos, bloco de notas. Enfim, pesava chumbo - mais a mala grande. Ainda tive de subir escadas pelo caminho, decifrar as linhas de metros e estava esgotada.

   17) Quando cheguei ao aeroporto, depois de despachar a mala, ainda esperei uma meia hora para entrar na segurança, que é caótica em Munique graças a umas máquinas de raio-x que demoram o dobro do tempo. As minhas costas gritavam por descanso e tenho noção de que o meu caminho até à porta de embarque foi penoso - ia a passo de caracol, já com um olho meio aberto e outro fechado. Quando cheguei, atirei-me para uma cadeira e, com os phones nos ouvidos, fui dormindo. Depois entrei no avião e, bem... missão cumprida. Consegui, caraças.

 

A verdade é que no meio disto tudo, destas peripécias que agora aqui escritas parecem pequenas coisas, ninharias de nada, eu senti-me exausta. E quis desistir, ir direta ao aeroporto num táxi e arrumar aquilo. Dizer à vida: "porra, ganhaste". Mas optei pela escolha difícil. Saí do hotel depois de achar que tinha perdido o dinheiro e o passaporte; fui de metro mesmo tendo de andar o dobro para ir para o aeroporto. Algo tão pequeno como a falta de música nos meus ouvidos ou a falta da água no topo da torre fizeram-me repensar em tudo, em dizer que se calhar esta ideia de viajar sozinha não é assim tão boa e que a vida estava só a tornar isso tão claro como a água.

E eu digo-vos uma coisa: eu levo estes feelings e estas mensagens muito a sério, costumo ouvi-las. Mas há momentos em que temos de lhes fazer frente, porque temos algo a provar - e que queremos muito que se concretize. Portanto, segundos depois de quase lhe dizer "porra, ganhaste", dizia-lhe "bate mais, bate! Eu hoje chego ao aeroporto, nem que seja a arrastar-me". E cheguei. Viajei sozinha e sobrevivi. Vi todas as barreiras à minha frente e não só as ultrapassei como nunca escolhi o caminho mais fácil. E isto sozinha, como estou sempre. Como sempre estive e como acho que vou sempre estar.

É isto, vida. Estamos quites. Se fazia outra vez? Com todo o gosto. Não só para me bateres mais um bocadinho, mas também para te dizer que sou capaz. 

 

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10
Fev17

Campo de concentração de Dachau

Carolina

Ir a um campo de concentração não era uma questão, a única pergunta que se colocava era quando. Quando comecei a ver coisas para visitar em Munique, apercebi-me de que o Campo de Concentração de Dachau ficava a mais ao menos 45 minutos do centro, por isso era uma oportunidade que não podia perder.

Eu sempre tive imensa curiosidade no que diz respeito ao período fascista na Europa, em particular o regime Nazi - e, mais do que gostar de saber as factos, sempre tive imensa curiosidade em perceber como é que os alemães lidam com esse período da sua história neste momento. Nunca me dei bem suficiente com um alemão para lhe fazer uma pergunta dessas, que pode ser algo íntima, mas foi algo que sempre me questionei. 

E, por incrível que pareça. foi esta vertente (a de ver os outros) que mais me impressionou quando visitei Dachau - mas já vos explico. O caminho para lá, desde o centro da cidade, é feito de metro e autocarro; é fácil, não tem muito que saber. A entrada é livre, paga-se apenas pelas visitas guiadas ou pelos audio-guides (3,50€ para adultos) - eu optei pela segunda opção, que a meu ver foi errada, porque não usufrui de metade. Aquilo funciona com números e mapas e eu não estava particularmente inspirada para perceber o esquema, pelo que cheguei a um ponto em que desisti e só mais tarde voltei a pegar naquilo. Penso que numa visita guiada uma pessoa tem uma visão mais abrangente e detalhada de tudo, até porque há partes realmente chatas no museu; há demasiada informação, quadros demasiado grandes. Uma pessoa ouve muito melhor do que lê e eu posso ter perdido partes cruciais do campo por não me aperceber da sua importância (espero que não, mas nunca fiando).

Em Dachau não há um grande choque com aquela realidade que conhecemos nos livros. É um sítio especial e com uma aura pesada, porque todos sabemos aquilo que lá se passou: senão, podia ser só mais um conjunto de edifícios. Não há, como em Auschwitz, cabelo dos judeus, dentes, óculos e objetos pessoais. Há somente alguns objetos, mas nada que seja chocante ao ponto de nos deixar aterrados com o que paira à frente dos nossos olhos. Na parte do museu há muita informação, muitas fotos, mas é algo muito massudo e eu duvido seriamente que alguém leia aquilo de uma ponta à outra. Para além do mais, e ao contrário do que estava à espera, grande parte dos edifícios foram reconstruidos - a maioria nem sequer se reergueu, na verdade - e muito pouco do que lá havia era da época, são quase tudo réplicas. Neste sentido, fiquei muito dececionada.

O frio que se fazia sentir também não ajudou. A temperatura era de -1º, mas a sensação térmica era de -6º e, também por isto, não aguentei muito tempo por lá. Por ser um descampado, o frio ainda parecia sentir-se mais e eu cheguei a um ponto em que mal conseguia respirar. Ainda assim, o frio foi útil, porque pensei o que seria sentir isto apenas com uma peça de roupa no corpo, magra como um cão maltratado, doente (muita gente morreu em Dachau com tifo), como a maioria das pessoas que lá passaram. Em jeito de breve contextualização, Dachau foi o primeiro campo de concentração alemão, e há registo oficial de cerca de 32 mil mortes, embora a contagem não oficial passe por muito mais de centenas de milhar. Os 34 pavilhões que lá havia para além do edifício principal, construídos pelos prisioneiros, serviam de muita coisa, incluindo para as tão faladas experiências médicas, salas de tortura, celas minúsculas, salas de execução e etc.

Há também um crematório, cujo o edifício está intacto - aliás, há dois, o mais antigo e o mais recente. Cada forno dava para cremar três pessoas de uma vez. Apesar de ter lido algures que não havia câmaras de gás em Dachau, elas estão lá também, portanto essa realidade está presente e latente. Para além disso, há também vários monumentos e memoriais no campo, representativos das diferentes religiões. No museu dá-se particular destaque às diferentes religiões, raças e culturas que estavam no campo, mostrando fotos e exemplos de pessoas que contam o seu testemunho.

Há também um filme, que não vi, porque estava uma turma prestes a entrar e eu não estive para me chatear. Aliás, esta foi a pior parte da minha visita a Dachau, aquilo que me realmente chocou. Apesar de ter ido cedo e o campo estar deserto (no exterior, aquilo é enorme), havia muitas visitas de grupo e visitas de estudo, de alunos alemães entre os 15 e os 17 anos, diria. Numa primeira fase chateou-me, porque não conseguia ler as placas informativas, por os guias se colocarem sempre em frente delas e por ter de andar a fugir por entre os grupos; depois, chateou-me pela leviandade com que eles levavam aquilo. Riam-se, chamavam-se uns aos outros para ver alguns objetos pessoais dos prisioneiros, como se de um macaquinho a fazer graçolas de tratasse; andavam por lá com a menor das preocupações e consternações e eu só pensava que, provavelmente, os avôs e bisavôs deles tinham andado por aquelas bandas a chacinar pessoas e eles não estão nem ali.

Percebo que sejam novos, que estejam na idade da parvalheira, mas isto em grande parte respondeu àquela minha pergunta que há tantos anos me perseguia: como é que eles, enquanto povo, lidam com aquilo. Para uma faixa etária próxima da minha, aquilo é claramente uma fase posta atrás das costas; percebi pela maioria das reações que eles não têm qualquer tipo de ligação com aquilo, não lhes diz simplesmente nada. Estão livres de responsabilidades, peso na consciência ou qualquer tipo de legados. Estão a marimbar-se. Aquilo foi só mais uma saída da escola e bora' lá gozar o tempo livre. E isso chocou-me imensamente, mais do que qualquer outra coisa que ali tenha visto, porque eu sabia ao que ia. Aqueles putos, se aparecesse outro Hitler, faziam igual. Numa parede central do campo, está uma inscrição em várias línguas que diz: "Que o exemplo daqueles que aqui foram exterminados entre os anos 1933 - 1945, porque eles resistiram ao nazismo, ajude a unir os vivos pela defesa da paz e liberdade e respeito por todos os outros homens". E eu sinto que isto, estar ou não estar lá escrito, é igual. Infelizmente, talvez seja uma questão de tempo, uma questão de vontade, uma questão de aparecer um louco e tantos outros que lhe sigam as ordens. E isto faz-me estremecer.

Optei por não tirar muitas fotos, a não ser para registar e partilhar convosco. Aquele não é propriamente um local para selfies. Para mim, acima de tudo, foi um sítio de contemplação e reflexão, importante nos tempos em que vivemos agora. Acho que o campo em si, por ter pouco de chocante, não mexe suficiente com as pessoas; não está tão trabalhado como de Auschwitz, por exemplo (nunca lá fui, mas já vi muitas reportagens, sei mais ao menos o que tem e não tem), e faltou-me também ouvir alguém que me tangibilizasse aquilo que lá se passou, mais ao pormenor. Era capaz de voltar, só para fazer uma visita guiada em termos e sorver a totalidade do que ali está patente, embora pouco visível.

Ainda assim, aquilo que trouxe comigo foi um frio, não só no corpo, mas também na alma. É um sítio com um silêncio aterrador, apesar das pessoas e dos estudantes parvinhos que lá passavam. Enquanto me arrastava de frio por aquele descampado, onde sei que morreram milhares de pessoas, pensava na minha sorte e, embora não saiba sequer rezar, sinto que me aproximei algo que espiritualmente daquela realidade e daquelas pessoas que lá ficaram. Não me perguntem porquê, mas ao contrário daqueles estudantes, eu sinto que tenho uma responsabilidade - senão no passado, pelo menos no futuro, para não deixar acontecer igual. 

 

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 A típica frase "o trabalho liberta", que abre sempre os campos de concentração. Em Dachau não tem grande destaque, mas também está presente.

 

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O campo - como se nota, algo de perder de vista. Os retângulos com pedras eram pavilhões, os tais construídos pelos prisioneiros que tinham diferentes funções.

 

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Uma casa de banho, replicada.

 

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Os fornos.

 

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 Réplicas das camas, que tinham três níveis de altura. 

 

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Edifício principal, agora com um memorial.

 

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 Vista geral e central. Neste caminho faziam-se execuções e caminhadas dolorosas para uma morte certa.

08
Fev17

Este post é sobre uma viagem, mas não é um diário de bordo

Carolina

Isto tem sido uma viagem e tanto - muito mais emocional do que propriamente de passeio. Tem sido duro e tão bom ao mesmo tempo. Por um lado é a prova de que já sou adulta, que não preciso de álcool para me sentir crescida (desculpem, foi uma private joke para o post anterior); por outro também foi a evidência de que embora já sobreviva sozinha, estou melhor no colo dos que me querem, porque é o único sítio do mundo onde me sinto querida e amada.

Esta viagem é pura e simplesmente uma daquelas experiências a que chamamos "crescer". Às vezes dói como o caraças, outras sabe a liberdade pura. Passei por estes dois extremos tantas vezes ao longo destes dias, em que lutava contra o cansaço, o medo, o desconhecido, que dei por mim a procurar muitas vezes o conforto na única coisa que aqui me era conhecida e confortável, porque vivo com ela há anos: a solidão. Nos momentos de aperto - e não só - escondia-me nos arrumos atrás do computador, com o trabalho como pano de fundo, e limitava-me a relaxar e a racionalizar.

Não devia e acho que esse é um dos meus grandes problemas - mas também uma das minhas virtudes, quando é feita no momento certo. Não consigo não racionalizar aquilo que sinto e que penso, o que por vezes torna as coisas mais confusas do que já são. No meio de tudo isto, foi o factor social que mais mexeu comigo: a quantidade de pessoas que tive de me relacionar, falar, privar, deu-me cabo do sistema. E, chegada ao fim da feira, mal pus os pés do metro já a caminho do hotel, dei por mim com uma necessidade imensa de escrever, com as lágrimas a quererem escorregar-me pela cara a abaixo e com uma vontade louca de ouvir as músicas que me aquecem a alma, porque só assim é que iria conseguir despir-me de tudo isto que me invadiu nos últimos dias. Adorava, a partir daquele momento, viver esta cidade, descobri-la e arquivar esta experiência e estuda-la mais tarde: mas há coisas que nos ultrapassam, que nos passam a ferro, que nos deixam sem folga para respirar. E, naquela carruagem, o que senti não era saudade, não era tristeza, não era medo: foi descompressão, foi aceitação, foi alívio e foi dor, por ter andado a remexer - ainda que de forma despropositada - em partes de mim que me doem particularmente. 

Um dia alguém me deixou aqui um comentário que me fez chorar as pedras da calçada. Não por ser um hater; pelo contrário, foi por ser alguém que, só por me ler, pareceu conhecer-me melhor do que eu própria e dizer coisas que eu não queria admitir. Um dos meus filmes preferidos é o "The perks of being a wallflower", que fala basicamente de alguém que não se integra por problemas interiores e acaba por se meter num grupo, que viria a ser o dos seus amigos, mas que aos olhos dos outros é completamente louco. Numa das frases do filme, proferida por Emma Watson, ela diz "we accept the love we think we deserve". E no fim desse segmento, eu chorei que me matei, porque isso foi como uma flecha que me atingiu no sítio certo. E doeu muito.

Digo muitas vezes que sou anti-social e muitos vêm dizer-me que não é verdade. Tudo bem, pode não ser: mas os problemas de socialização existem, de facto, em mim, e sempre foram o ponto fraco da minha vida. Sofri muito, com muita gente, e isso mantém-se até hoje. Sinto-me incapaz de confiar ou me entregar a alguém, mesmo que seja uma pessoa em que ache que deva investir. O medo de não sair de poços demasiado profundos como os que já caí fala demasiado alto e acabo sempre por perder quem gosto, de uma forma ou de outra.

Isto custa a escrever, mas já estou para o dizer há muito - e foi, aliás, aquilo que me deixaram um dia na minha caixa de comentários: sinto que não sei amar nem ser amada para além daqueles com quem já nasci. Num misto de falta de confiança em mim própria e também na confiança dos outros, acho sempre - e sempre, é sempre - que as pessoas não gostam de mim, não gostam da minha companhia ou de estar comigo. E sinto que aos 21 anos desisti de esperar outra coisa por parte delas; mas, de forma igualmente proporcional, faço o máximo para que gostem. É estranho, algo contraditório, mas que não consigo explicar na sua plenitude. E acima de tudo é triste.

Nesta semana que tive fora, esta realidade embateu contra mim como se de um camião se tratasse. O contacto com pessoas novas, as exigências, as diferentes formas de ser e, acima de tudo, a necessidade de me agarrar a alguém para não me sentir abandonada, fez-me perceber que tenho uma série de barreiras na minha vida que me causam imensa dor, mas que eu vivo com elas há tantos anos que já nem noto. Tenho pensado muito, colocado muitas das minhas teorias à prova e tantas outras coisas em perspetiva.

Esta não foi uma viagem de lazer, e por muitos mais dias que ficasse, nunca seria. E para além de ter sido de muito trabalho, muito cansaço e muitas olheiras, esta foi acima de tudo uma viagem de auto-descoberta, tão dolorosa como produtiva. Por um lado sei que foi valiosa, mas por outro só quero voltar ao ninho, e reorganizar todas estas gavetas dolorosas que abri e tornar a fecha-las a sete chaves durante tempo indeterminado. Porque este exercício, apesar de bom, cansa-me a alma.

03
Fev17

Ser badass, um conceito

Carolina

Escrevo-vos do aeroporto de Madrid, onde espero pelo meu avião. Cheguei cá ontem, naquela que foi a minha primeira viagem de trabalho, e parto daqui a umas horas para Munique. Na verdade, a viagem de trabalho inclui-se num enorme lote de coisas que nas últimas 48 horas fiz pela primeira vez: a minha primeira viagem "sem rede" (já tinha viajado sozinha, mas sempre com pessoas à espera no destino), a primeira feira profissional, o meu primeiro contacto direto com as empresas e tudo o que isso envolve. É uma sensação um bocadinho avassaladora. 

Em conjunto com alguns problemas que Janeiro me trouxe, a expectativa e o medo destes dias fazia com que o meu estômago desse cambalhotas o dia inteiro e o meu sistema nervoso andasse todo escangalhado. Não tinha medo de estar sozinha, mas sim de não corresponder às expectativas ou de fazer um bom trabalho - defraudar as esperanças que os outros depositam em mim é algo com que lido sinceramente mal. E aqui não se trata de sair da minha zona de conforto: porque isso, por estes dias e com este trabalho, já é por onde habitualmente ando; esta aventura eleva-se a todo um outro nível. Se eu estava a uns metritos da minha zona de conforto, fora dela mas sem a perder de vista, agora fui catapultada para uma zona onde nem sei o que é isso de conforto, comodismo ou relaxamento. Tudo me é estranho, tudo é um desafio, tudo é novo. Sou a mais nova que aqui anda - consigo ser mais nova que as hospedeiras que distribuem panfletos, bolas! - e isto é um mundo tão grande, com tanta gente, com tantos metros quadrados, com tantas línguas, que uma estreante como eu se sente uma verdadeira formiga.

Por saber disto é que estava estava a morrer de medo. Mas a verdade é que, como noutro par de ocasiões, há um clique que se dá em mim (acho que é o botão do "desenrasca-te, mexe-te e faz acontecer") e tudo isto se evapora e eu simplesmente faço. Como dizem os antigos, a necessidade aguça o engenho, e eu que detesto o meu portunhol já o falava quase como língua materna. E o exemplo da língua aplica-se a tudo o resto: à minha espécie de jornalismo, ao meu medo de falar com pessoas. Faço-o inevitavelmente de forma inexperiente, por isso às vezes tenho de repetir; mas faço. Dei por mim a meter conversa com as pessoas, a perguntar coisas sobre os seus negócios e a saber a história de vida daquelas empresas; a aceitar jantar com pessoas que tinha acabado de conhecer (ou, na verdade, nem sequer conhecia) e no dia seguinte tomar o pequeno-almoço com elas. E depois chegar ao fim do dia, com umas olheiras estilo panda e o corpo dorido, deitar-me na cama com o meu livro (que me devolve o cheiro a casa) e aí pensar: calma aí, que extraterrestre é que eu encarnei hoje? Quem foi esta pessoa?

Vão ser dias tão difíceis como interessantes de analisar, estes. Passo por todas as sensações em apenas 24 horas: desespero num momento em que vejo que não vou conseguir, euforia quando percebo que afinal consegui, frustração quando afinal vejo que não resultou tão bem como queria, orgulho por mesmo assim ter tentado, saudades de um abraço que me apoie quando a moral está em baixo, entusiasmo por estar sozinha e independente e poder fazer o que quiser da minha vida.

Acho que sou muito racional e organizada, principalmente a nível mental, mas este é um daqueles embates com a realidade que nos abana os alicerces. Pode parecer só uma experiência, mas há muita coisa que daqui se vai perceber. Se eu seguir o plano que delineei para mim, isto vai fazer parte da minha vida de uma forma constante. E falo de tudo: de estar sozinha, independentemente de estar ou não só; de passar a vida metida em aviões e em hotéis; e no cansaço de estar em feiras, monta-las, desmonta-las, empacota-las... e depois repetir tudo de novo (aqui já na óptica de quem expõem e não de "jornalista" e de apoio logístico a quem expõem). 

Mas, acima de tudo, sinto orgulho. Não sou capaz de me meter numa montanha russa, não gosto de parques de diversões, tenho medo de ratos, detesto filmes de terror e sou incapaz de ir fechar a portada do meu quarto se ouvir um barulhinho. No entanto, na minha primeira oportunidade de trabalho, atirei-me de cabeça mesmo sem saber no que me estava a meter - e depois percebi que era afinal uma área que nunca quis, que não gostava e que me custava fazer; depois perguntam-me se quero ir a Madrid e a Munique, sem me dizerem datas, tarefas ou expectativas - e eu torno a dizer que sim. E vou. Vim. E faço. E vou fazer acontecer. Por isso, da próxima vez que me chamarem medricas por não me meter numa daquelas diversões numa qualquer romaria, eu sorrio e aceno, pensando interiormente que já fiz coisas muito mais badass e desafiantes que tudo isso. Mesmo que antes sofra, que no momento doa e que ache que não vou conseguir. Estou cá para provar o contrário.

 

vai-e-se-der-medo.jpg

10
Jan17

Porque não viajar sozinha se a própria vida é uma viagem solitária?

Carolina

Nós nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos sozinhos. Somente através do amor e das amizades é que podemos criar a ilusão, durante um momento, de que não estamos sozinhos.

Orson Welles

 

No próximo mês vou fazer duas viagens em trabalho, uma delas a um sítio onde nunca fui. Vão ser mesmo seguidinhas e, no total, vou estar uma semana fora - não vou com ninguém do meu escritório mas sim com pessoas com quem já trabalhei e com quem agora não privo diariamente. Vai ser uma experiência nova para mim mas como, de alguma forma, tenho o amparo de gente que conheço, não tenho qualquer tipo de receio - pior vai ser mesmo o trabalho lá, que não sei como vai ser; aliás, sei uma coisa: vai ser MUITO cansativo. Sei que vou chegar à noite e cair invariavelmente redonda na cama do hotel, o que me vai impedir de desfrutar dos sítios onde vou estar.

Pus por isso em cima da mesa ficar mais um ou dois, por minha conta e risco, para conhecer um dos sítios onde vou ficar - aí já não teria nenhuma das pessoas que ia viajar comigo para me acompanhar. Lancei a ideia para o ar aqui em casa e senti que ficou alguma apreensão no ar - eu, sozinha, numa cidade estrangeira... não é propriamente a mistura de palavras que agrade aos ouvidos dos meus pais. Mas a verdade é que eu sempre quis ter a experiência de viajar sozinha - e acho que se não o fizer nos próximos tempos, eventualmente vou-me conformar com a ideia típica de que viajar recreativamente só acompanhada o que, creio, me tirará muitas oportunidades no futuro.

A questão vai muito para além da experiência - acho que chega à necessidade. Ao longo da minha vida aprendi a fazer muita coisa sozinha - não só porque quis e gosto da minha companhia, mas também porque não tinha ninguém com quem as partilhar e nunca quis deixar que isso fosse um entrave às minhas vivências. Eu sempre joguei monopólio sozinha, vou ao cinema sozinha, aos saldos sozinha e almoço sozinha sem grandes problemas. Desde cedo que me limitei a aceitar que sou assim e não quero nunca que esta característica minha me impeça de viver - sendo que viajar, para mim, é uma parte essencial da vida.

O que eu quero dizer é que não só quero ter esta experiência porque acho que vou gostar mas também porque acho que é só uma amostra do meu futuro - não porque não goste de viajar com pessoas, mas porque já sei o que esta vida gasta: é difícil encontrar alguém de quem eu goste, que goste de mim, que tenha um poder económico semelhante ao meu, férias nos mesmos timings e que tenha gostos semelhantes aos meus - e eu simplesmente não estou para esperar por uma coisa que não sei se vai acontecer. Sei que isto choca muitos, porque estamos formatados desde cedo que a vida tem de ser partilhada com alguém - mas essa ideia, para mim, é tão estereotipada como tantas outras. Eu não me imagino casada, não me imagino com filhos. Não quer dizer que isso não venha a acontecer, não nego à partida uma ciência que desconheço - mas posso garantir que não é algo que tenho como um objetivo para a minha vida. Eu sei que este é um assunto pesado, que normalmente as pessoas mais velhas contrariam veementemente: dizem logo que não é assim, que as coisas mudam - e eu não digo que não. Mas o que é facto é que há muitas pessoas sem filhos e sem alianças nos dedo que são igualmente felizes. E porque não? Para mim, é uma forma de viver tão legitima como todas as outras, com os prós e contras que existem como em todas as outras coisas da vida.

Eu sei que sou nova, mas também sei que a vida não pára. Aliás, acontece-nos: e sim, se tudo correr bem tenho muitos anos pela frente, mas tenho de os fazer valer e agarrar cada oportunidade não como se fosse mais uma, mas como se fosse A oportunidade. Custa-me desperdiçar uma viagem - sim, porque quem é que gosta de andar enfiada naquelas bichos com asas a que chamamos aviões? - sem tirar o menor proveito dela, só pela carga de ir sozinha, quando ainda por cima acredito que este vai ser sempre o estado primário da minha vida.

Se em miúda aprendi a ser feliz sozinha enquanto brincava no quarto, sei que serei feliz também em qualquer recanto do mundo. E quanto às fotos... bom, eu sabia que aquele selfie-stick me ia dar jeito um dia destes. ;)

27
Nov16

Índia na minha mira

Carolina

Acho que só este ano, depois do cruzeiro, é que percebi o quão gratificante é que para mim é viajar. 2016 foi um ano de crescimento brutal, em todos os sentidos, e sinto que aqueles oito dias no Báltico fizeram parte desta evolução, tão e simplesmente porque me apercebi de como tudo aquilo me fazia feliz. 2016 foi, de facto, o ano em que aprendi a ser feliz - uma aprendizagem que veio já desde o ano anterior mas que estou segura de que se consolidou até hoje.

Aliado às viagens tenho a fotografia, que ganha um peso cada vez maior na minha vida, ainda que bem devagarinho e sem se dar muito conta. Há dias via as minhas fotos de Istambul, onde fui há quatro anos, e pensei na quantidade de coisas lindas que vi e das "photo opportunities" que desperdicei. As fotografias que tenho dessa altura são tão más, tão más que dá vontade de chorar. E eu não quero, nunca mais!, que tal aconteça. Viajo para conhecer, viajo para ser feliz, mas hoje em dia também viajo para captar - e partilhar - as melhores imagens possíveis. É com muito orgulho que tenho algumas, tiradas no cruzeiro, que adoro de paixão e que considero francamente boas (se calhar, daqui a uns anos, vou detesta-las como detesto as da Turquia - a evolução tem destas coisas).

Neste momento todo o dinheiro que poupo é para viajar. Para acampar ou ficar num hotel de 5 estrelas, para o Gerês ou para a Austrália, para ir de avião ou barco, para andar com roupa chique ou biquini. Viajar com uma câmara na mão é tudo o que quero - e eu sei que tenho muito tempo para o fazer, mas sinto que o mundo é demasiado grande para eu esperar. Há muita coisa que está na minha agenda, algumas bem mais fáceis e acessíveis que outras, todas por razões diferentes. Uma delas, que tem vindo a ganhar cada vez mais dimensão, é ir à Índia. 

Isto é curioso porque, há dois anos para cá, eu não queria pôr um pé naquela terra. Ainda hoje não me atraem todas aquelas razões espirituais e o embate cultural - aliás, é mesmo das coisas que me afugenta - mas não estou a conseguir resistir àquelas cores, àqueles sítios, àquelas pessoas. Nunca iria sozinha e acho que dificilmente faria esta viagem sem um mentor, mas desde que fiz o curso de fotografia e conheci o meu professor, sinto que surgiu a oportunidade perfeita. Ele faz viagens guiadas, com um grande enfoque na fotografia, e isto tem tudo para ser a viagem perfeita. A viagem de uma vida.

Custa-me deixar passar as oportunidades, sempre com medo de confiar na vida e de deixar para o ano seguinte, nunca sabendo se tal vai de facto acontecer. Deixei este ano e, infelizmente, em 2017 também deverá ser uma oportunidade que me vai passar por entre os dedos. Primeiro porque são duas semanas, sendo que agora sou uma adulta e tenho dias de férias contados e segundo porque o pé de meia ainda não está assim tão recheado para me atirar de cabeça à "terra de Vasco da Gama".

Vou contentar-me com projetos mais pequenos e, esperemos, com um bombom no próximo verão. Mas a Índia não está esquecida, até porque a minha máquina fotográfica não me deixa esquecer. Preciso de captar aquela cor. E não demorará assim tanto como isso.

03
Out16

Uma mochila "pequenina" às bolinhas azuis*

Carolina

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Não sei se repararam que em todas as fotos que partilhei sobre o cruzeiro havia sempre dois denominadores comuns: primeiro as sapatilhas, sobre as quais já falei aqui e segundo, a minha mochila das bolinhas. Muitas vezes não se nota muito bem, só mesmo ao nível dos ombros, até porque não tenho nenhuma foto absolutamente espetacular onde ela se veja mesmo bem, mas a verdade é que merece a menção honrosa: foi uma companheira incondicional em todas as viagens que fiz nos últimos meses e valeu cada cêntimo que paguei por ela. É a prova de que os amores à primeira vista também podem ser bons investimentos.

Comprei-a no aeroporto de Londres, da segunda vez que tentei apanhar o avião (se bem se lembram, perdi o primeiro - e a correria foi tanta que nem tive tempo para deitar o olho a nada). Dessa vez fomos com tamanha antecedência que deu para correr as lojas todas - e dei de caras com uma que nunca tinha entrado ou ouvido falar, chamada Cath Kidston. Tudo o que posso dizer é que é a loja mais gira, amorosa e fofa de todo o sempre. Trazia-a toda comigo. Malas, carteiras, bolsinhas, porta-moedas, coisinhas de bebé - tudo lindo, amoroso e de aparente boa qualidade (e, para Londres, até bastante em conta).

Tinha acabado de correr Londres com uma mini-carteira de um só ombro, o que não se tinha revelado nada prático - gosto sempre de andar prevenida com uma peça de fruta, um casaco e a máquina fotográfica (e, normalmente, uma objetiva extra), para além de todas as coisas do costume como o porta-moedas, pelo que tinha sempre de abdicar de alguma coisa para conseguir meter tudo na mala. Quando, no aeroporto, dei de caras com esta mochila, o meu coração ficou logo ali. Adoro bolinhas, adoro azul, adoro o corte da mochila. Por a caso estava a precisar de uma, até tinha andado a namorar umas Fjallraven Kanken (uma mochilas finlandesas, que conheci pela minha cunhada, que tem duas) em Oxford, mas achei-as demasiado caras e adiei a compra para outras núpcias. Esta tem um formato até semelhante, com o fecho na borda, virado para a frente (exatamente como queria!) mas com a vantagem de ser mais feminina, arredondada e de ter umas alças com mais suporte. Por outras palavras, é perfeita.

Tem um acabamento impermeável, óptima para todos os tipos de tempo, e uma divisória na parte de trás, onde dá para colocar o computador ou documentos. Tem imenso espaço para todas as tralhas com que gosto de andar e assim adquiriu o estatuto de companheira de viagem mais-que-perfeita, para qualquer lado que vá - para o outro lado do mundo, para o Gerês, para um hotel de 5 estrelas ou para o campismo. 

Vale a pena conhecer a Cath Kidston. Não tem loja em Portugal, mas tem loja online. Dêem uma espreitadela e fiquem a babar. Eu posso garantir que da próxima vez que puser os pés em terras de sua majestade vou diretamente a uma destas lojas desgraçar parte do meu recém adquirido salário.

 

*trocadilho fracassado com a música "Bikini pequenino às bolinhas amarelas"...

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