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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

10
Dez17

Os filmes podem ser chatos, mas são uma cópia da vida

Carolina

Desde muito cedo que me recordo do meu pai de máquina na mão, a tirar fotografias ou a filmar todos os eventos importantes de família, ajuntamentos, ocasiões engraçadas ou simplesmente momentos do dia-a-dia. Sou uma privilegiada por ter fotografias e vídeos de todas as fases da minha vida - mesmo aquelas em que eu não gostava de ser fotografada! Mas de uma forma gradual acabei por ser eu a ficar com a câmara na mão: primeiro porque sempre gostei de fotografar, depois porque tirei um curso e me acho com competências suficientes para tirar boas fotos e porque, tenho de admitir, eu sou muito chata e passo a vida a dizer para o meu pai não tirar fotos com a câmara dele, para tirar com a minha que é melhor, e isto e aquilo - o que acaba, ainda que não propositadamente, por fazer com que a tarefa recaía sobre mim.

Mas, se repararem, eu referi-me sempre a fotos. Eu tiro fotos e adoro tirar fotos. Mas vídeos - outra das coisas que o meu pai fazia imenso - não é a minha praia. Sinto-me capaz de filmar alguma coisa de forma decente, se necessário, mas não é daí que retiro grande prazer. E nem é tanto por filmar, mas mais por depois por ver os filmes; porque a verdade é que eu acho sempre os filmes um tanto ao quanto entediantes - inclusivamente aqueles que eu faço! Acho que quando estamos com uma câmara na mão, e como somos incapazes de prever o futuro, vamos filmando e filmando até termos algo digno de aparecer no nosso filme; algum conteúdo bom, algo que pensemos "isto vai ser giro de ver daqui a uns anos" - mas, nisto, passaram-se minutos. Minutos de pessoas a fazer a mesma coisa, minutos de conversa fiada que não interessa a ninguém, minutos a ver as crianças a descer nos escorregas do parque aquático, minutos a observar o não-sei-quem a dar os primeiros passos, minutos a ver a muda da primeira fralda. E se somarmos todos estes minutos, em todas estas ocasiões... são mesmo muitos minutos. E quando pegamos em cassetes ou CD's antigos para ver, as primeiras filmagens passam-se bem, mas depois quase nunca resistimos em pegar no comando e clicar no forward, à procura de conteúdo que capte a nossa atenção.

E é por ter consciência disso - por perceber que a menos que exista um cuidado imenso da parte de quem filma e posteriormente na edição, os filmes são uma seca - que eu praticamente não faço filmes. Mas nas últimas semanas tenho-me apercebido que faço mal que, apesar da fotografia ser a minha real paixão, eu não devo deixar as filmagens de lado. Porque apesar de ter passado dezenas de horas embrenhada em filmes caseiros, da vida corriqueira da minha família onde muitas vezes nada de especial se passava, reconheço agora que tudo aquilo é um privilégio. Há coisas que as fotografias não captam e que só os filmes passam realisticamente. Os maneirismos, os tiques, o movimento, a forma de sorrir, a forma de sentar ou de cruzar a perna, o movimento das mãos de alguém. E a voz! Ouvir a voz de alguém que já faleceu, quase como se ainda estivessem cá... é quase irreal. Infelizmente os meus avós maternos morreram quando eu era pequena o suficiente para não me recordar e tudo o que eu sei sobre eles, em termos físicos, foi graças aos filmes que vi, muito mais do que as fotografias.

Continuo a achar que ver filmes pode ser entediante, mas cada vez mais percebo que as partes "chatas" destes vídeos são, na verdade, a parte realística da coisa. É a vida a passar, o dia-a-dia. O menino a brincar, a menina a dormir, a senhora a estender a roupa; os aniversários, os natais, as passagens de ano podem ser mais divertidas e bagunçadas que tudo isto, mas os momentos do banho, da sesta, os primeiros passos, as primeiras palavras ou um passeio no jardim não deixam de ser mais importantes. 

Vou passar a filmar mais para que um dia, se algum dos meus sobrinhos (ou eventualmente, ainda que pouco provavelmente, um filho meu) se lembrar de fazer algo parecido com o que eu estou a fazer por estes dias, se possa lembrar das nossas vozes, das nossas maluqueiras, mas também da calmia das nossas vidas.

03
Dez17

Um throwback aos anos 90

Carolina

Como vos disse no outro dia, estou embrenhada num projeto natalício que, embora me esteja a roubar todas as horas livres, fins-de-semana e até algum sono, me tem dado muito gozo. Estou a recolher todos os vídeos que tenho da família para depois fazer um apanhado geral do nosso "desenvolvimento" e a ideia é mostrar o resultado final na Véspera de Natal, quando estivermos todos (ou quase todos...) juntos, para rirmos e chorarmos em conjunto, como uma família deve fazer.

E isto tem-se revelado numa autêntica viagem ao passado, não só por passar horas e horas (só neste fim-de-semana prolongado foram pelo menos umas oito...) a ver vídeos de família antigos - quando os meus tios ainda tinham cabelo, quando os meus irmãos eram adolescentes e os da minha geração ainda usavam fraldas ou ainda não eram sequer um plano - mas também por ter de voltar a manusear materiais que, hoje em dia, já são quase uma relíquia. Tem sido muito engraçado voltar a trabalhar com cassetes e câmaras antigas e a reaprender coisas que já muitos nem sabem o que são. Neste momento, o meu quarto é quase um salão vintage: entre dois leitores de VHS e umas quantas cassetes, três (três!) máquinas de filmar em vídeo 8 e uma dezena de cassetes também neste formato e ainda uma câmara mais recente - também de cassete, embora mais pequena -, é só mesmo o freguês escolher.

Isto porque apesar de eu querer é ver os vídeos, muitos deles estavam ainda em formato analógico, portanto tive de ir um passo atrás no processo e antes de ver o que quer que seja, tinha de arranjar uma forma de passar o conteúdo para formato digital. Fui à procura, perguntei a quem de direito, e pus logo mãos à obra: tentei arranjar um leitor de VHS para ler as cassetes, pedi emprestada a máquina de filmar do meu pai para ler os Vídeo 8 e ainda arranjei, por pura acaso, os cabos e o software para gravar os conteúdos no computador. E isto seria fácil se tudo corresse bem - o que, como é lógico, não foi o caso!

Trabalhar com equipamentos com mais de 20 anos tem os seus problemas - a idade e os anos sem funcionar têm consequências. Primeiro fui buscar o leitor de VHS do meu irmão, que estava ligado e a funcionar cinco minutos antes de o ter metido no saco; quando o voltamos a ligar, pzzzzzzzzz. Foi-se. Morreu ali, nas nossas mãos, quando há pouco antes estava aparentemente de boa saúde. Felizmente tinha um plano B - a minha irmã - que me emprestou o dela. Depois foram as câmaras de vídeo; tinha duas cá em casa. Ligamos a primeira, ela acorda e, um segundo depois, dá um flash de luz e morre. Segundo óbito nessa semana. Tentei a outra máquina - funcionava, até filmava, mas com muitos problemas ao nível da leitura de cores e imagem... não servia. Com bastante esforço, o meu irmão conseguiu uma emprestada, que foi o que me safou.

Depois foram as cassetes. Logo na primeira que pus no leitor, a fita ficou presa. O pânico, o horror, a tragédia: era um vídeo muito importante, sem cópia, que não podia ficar estragado. Lá se resolveu, com muitos "ai mãe, ai mãe!" pelo meio. Na segunda capelinha em que fui bater à porta para obter mais relíquias, ponho a cassete dentro do leitor e nada - passava a vida a cuspi-la. Quando fui ver, a fita estava partida. Abriu-se a cassete, cortou-se um bocadinho da parte danificada e com mãos de cirurgião colaram-se as duas partes. Ficou funcional! Aconteceu o mesmo com outra - que era Vídeo 8 - mas, infelizmente, o resultado não foi o mesmo. E custou-me muito não saber o que estava ali dentro e andar a cortar fita - mesmo, com tesoura! - e saber que estava a cortar memórias, pessoas, momentos.

Ando muito cansada à custa desta brincadeira, porque a quantidade de horas passadas em frente a este ecrã têm sido claramente demasiadas, mas isto tem-me dado um gozo imenso e conteúdo para muitos posts e pensamentos. Mas hoje, enquanto destruía aquela cassete para tentar recuperar, tive um daqueles momentos profundos em que de facto me apercebi da passagem do tempo: hoje em dia não estamos habituados a cortar coisas, a fazer algo definitivo. Eu senti um pesar tão grande de cada vez que dava uma tesourada ou que a fita se rasgava, não sabendo o que estava ali, e pensei que se tudo isto tivesse no computador eu simplesmente fazia CTRL+Z e voltava atrás em qualquer erro, em qualquer nanosegundo que não quisesse cortar e que, mesmo se fizesse delete ao ficheiro desejado, tinha sempre a reciclagem onde o ir buscar. Antigamente as coisas eram mais difíceis, mais cruas, mais definitivas, mais limitadas - mas se calhar também mais saborosas. As dores deviam doer mais, mas as alegrias se calhar tinham mais ênfase. Hoje é tudo feito tão rápido que nem queremos saber. E estes dias, estas horas em que tenho passado entre vídeos, cassetes e a resolver problemas do século passado, fizeram-me dar ainda mais valor a estas pequenas coisas, que hoje achamos tão simples, mas que antes requiriam uma perícia e uma motricidade fina que não era para todos. Tem sido bom regressar ao passado.

31
Out17

Uma mensagem a todos os craftycóolicos* como eu

Carolina

Tenho rotinas muito fixas de manhã, logo depois de acordar. Uma delas é ficar durante um bocado na cama a jiboiar (e a acordar), ao mesmo tempo que pego no telemóvel e divago entre as mais variadas redes sociais, blogs e email. E enquanto estou a fazer scroll no feed do facebook, uma das coisa em que costumo parar são aqueles vídeos de três minutos ao estilo "5 utilizações da pasta de dentes que não fazia ideia", "ten hacks with bobby pins" ("dez truques com ganchos") ou temas do género, com clara importância universal.

Eu sei, eu sei: é quase vergonhoso admitir isto. Mas eu gosto! E tenho aquela reação típica de pensar "será que isto funciona mesmo?" e até guardo os vídeos para ocasiões futuras. E é claro que nunca, mas nunca os utilizo. Alguém acha que eu me vou lembrar de pôr Coca-Cola na parede para tirar manchas? Ou de lavar as mãos com pasta dos dentes para tirar o cheiro a cebola? Ou de abrir uma carica com o cinto de apertar as calças? Não acontece. Mas eu gosto de ver na mesma, acho todas aquelas ideias geniais (principalmente aqueles vídeos que dizem "10 dicas para sobreviver no campismo", que implicam o corte de latas de salsichas - e que provavelmente acabariam comigo numa maca de hospital com um corte grotesco algures no braço), mas depois nunca usufruo delas - até porque muitas implicam uma dose elevada de bricolage, algo que normalmente não me assiste.

Mas há uma semana fiquei deveras orgulhosa de mim porque finalmente tirei partido dos muitos minutos que perco a ver estes vídeos. Eles são pequeninos, é verdade: mas à quantidade que consumo, já lá vão algumas horas de vida. Tudo para culminar nisto: há uns meses comprei umas calças na Pull&Bear, das quais gosto muito, mas que me magoam um bocado na barriga. Elas têm o tamanho certo, mas apertam com botões, não têm o clássico fecho zipper: ou seja, quando me sento, as calças ficam dobradas para dentro e apertam-me o estômago. É daqueles defeitos que uma pessoa só dá conta depois de usar as peças, enquanto que nos provadores parece tudo maravilhoso e espetacular. 

Passei a usa-las pouco porque, infelizmente, passo muito tempo sentada e aquele aperto me deixava em agonia. Até que se fez luz! Lembrei-me de uma técnica que vi nesses vídeos - na altura, era para ser usada em grávidas, mas uma pessoa tem de ser prática e ver as potencialidades de cada solução - fui buscar um elástico, enfiei-o na casa do botão e fiquei com muito mais espaço para respirar com liberdade. (Explicar isto por palavras não é tarefa fácil, mais vale verem a imagem abaixo). 

Isto tudo para dizer que todos aqueles minutos matinais perdidos a ver vídeos em páginas do facebook de utilidade duvidosa podem, comprovadamente, dar frutos. A todos os membros da comunidade craftycóolica*, da qual obviamente faço parte, quero transmitir uma palavra de esperança. Acreditem: os nossos minutos não são em vão e um dia algo daquilo nos vai ser útil! Palavra de craftycóolica!

 

*palavra que deriva de crafty, uma das páginas populares do facebook dedicada a este tipo de vídeos

 

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24
Set17

O que penso sobre a casa dos youtubers e os vídeos dos seus moradores

Carolina

Eu acho que é impossível que quem tenha filhos, primos, sobrinhos ou irmãos com idades compreendidas entre os seis e os 14 anos nunca tenha ouvido falar do Wuant, do Windoh, do Ovelha Nigga, do Gato Galático ou, de uma forma geral, da casa dos youtubers. Eu aqui em casa - creio que como todos os adultos - recebi um tratamento de choque: berros, asneiras e muitas gargalhadas um tanto ao quanto irritantes vindos das colunas de computadores alheios. Entretanto a exposição mediática desses youtubers, em grande parte devido à casa onde passaram a viver, já fizeram o trabalho de os mostrar ao público em geral. Ou seja, suspeito que, de uma maneira ou de outra, já devem ter ouvido falar sobre eles.

Aliás: provavelmente já ouviram dizer mal deles, que é o que mais se faz por aí. Somos todos peritos a criticar, mas a fazer... nem por isso. Porque apesar de eu não achar graça ao conteúdo deles - e sim, falo com conhecimento de causa, porque tenho ouvido demasiadas vezes "COMO É QUE'É MEUS PUTOS, DAQUI É WINDOHHH" e coisas que tais, para poder escrever este post - sou capaz de apreciar o trabalho que está por detrás de toda aquela palhaçada ou "trollagem", como eles gostam de chamar.

Para mim há, naqueles vídeos, um conflito de valores. Primeiro os que estão à vista de todos, os preocupantes: que é fácil ter uma vida desafogada, que se compram facilmente sapatilhas de mil euros e carros de alta cilindrada, que é fácil sair de casa dos pais para ir viver com os amigos numa "mansão", que se podem ter ações inconsequentes sem pensar nos resultados finais (exemplo: pôr super cola na cara de alguém sem antes ter pesquisado como se tirava o produto da pele) e que é prudente deixar de se investir na formação para viver de um canal do youtube sem ter um plano B. E depois os valores subjacentes, esses sim com importância: que é o trabalho que lhes proporciona aquela vida, aquela fama, todas estas oportunidades. O problema é que o que está à vista de todos acaba por ser, para quem vê (crianças maioritariamente), o principal, porque não há maturidade suficiente para se perceber os valores implícitos. Para os putos, aquilo é o trabalho mais fixe de sempre! O meu sobrinho mais velho, por exemplo, queria ser experimentador de colchões (eu sei, eu sei...). Agora? Quer ser youtuber. Porquê? Primeiro porque acha que lhe vai dar tanto trabalho como andar a saltar para os sítios onde as pessoas dormem - erro crasso! -, segundo porque acha que mal crie um canal lhe vai logo sair um Audi XPTO na rifa. Nem ele nem a maioria sabem o trabalho e as horas que aqueles miúdos passam entre filmagens e edições - e também não fazem noção do tempo (os anos!) que eles passaram a fazer vídeos sem likes, comentários ou putos a berrarem-lhes à porta.

Se calhar estão a ler este texto de sobrolho levantado e pensar "esta miúda está mesmo a defender aqueles energúmenos?". Pois, eu sou assim, tento sempre ver o outro lado da moeda - e acho que, como em tudo na vida, isto não é uma questão linear. A única coisa que defendo nestes vídeos - e que absolutamente ninguém pode negar - é que aquilo dá trabalho. Lá por eles se estarem a divertir e a fazer asneiras de forma consecutiva, não quer dizer que depois não passem horas em frente ao computador para fazer aquilo resultar e passar os vídeos para algo "comestível" e visualizável, com todos aqueles pózinhos de perlimpimpim que aparentemente fazem daqueles canais um sucesso. As pessoas "normais" não sabem as horas de edição que estão por detrás daquilo - como não sabem o trabalho que dá escrever diariamente para um blog. São coisas camufladas como hobbies, como algo ligeiro para quem as faz, mas para além de já ser o trabalho para algumas pessoas em Portugal (caso deles), requer muitas horas de dedicação e empenho.

Mas isto não quer dizer que eu apoie aquilo que eles fazem e muito menos os valores que eles lá transmitem. No outro dia o meu queixo bateu no chão quando ouvi o Windoh, num vídeo filmado no seu quarto de hotel no Brasil, a dizer: "este quarto está mesmo muito desarrumado, tenho de chamar a senhora para o vir limpar". Mexeu-me com as entranhas. Elas já estavam remexidas ao ver o estado caótico daquele quarto, com lixo espalhado pelo chão, misturado com roupas sujas e lavadas - roupa interior incluída -, mas quando me apercebo que ele ia chamar uma criada para o limpar, toda eu fiquei revoltada. E preocupada. Porque percebo que é daqui que vêm algumas das mentalidades dos meus sobrinhos e de tantos outros miúdos. Coisas que já deviam ter ficado no século passado e que estão a ser alimentadas por miúdos com uma noção de respeito e educação muito diferente da minha. E isto sim, é alarmante. Mais do que os berros, mais do que as asneiras, mais do que as expressões horríveis como "bem poddddddre". Aquilo com que devíamos estar preocupados são os valores ali transmitidos que, infelizmente, ultrapassam os do trabalho e da dedicação. 

 

Foto: Visão

24
Set16

Mais um para a minha bucketlist

Carolina

Sempre soube que adorava viajar, mas este verão entendi verdadeiramente como me enchia a alma, me acrescentava enquanto pessoa, como me fazia feliz. Percebi que tenho de viajar enquanto posso, o mais que posso, para onde posso. Aliás, confesso que a partir de agora, uma parte do meu salário vai para um "vaquinha" que tem o intuito de me dar a possibilidade de viajar quando e para onde quiser.

Nos últimos tempos tenho-me dado com pessoas que viajam muito - em trabalho e em lazer - e esse meu lado de viajante e a curiosidade que tenho são cada vez mais aguçadas a cada história que ouço. Mas, honestamente, a parte que me custa em viajar é mesmo a dita viagem, do sítio Y para o sítio Z. Andar de avião custa-me cada vez mais, não por ter medo ou a comida ser sempre horrível, mas porque sinto que não somos tratados como pessoas mas sim como sardinhas em lata que, durante um determinado número de horas, não pode nem respirar fundo, com medo de sair fora daquele meio metro quadrado que temos para (sobre)viver. É desesperante. Tenho mesmo dado por mim com alguns sintomas de claustrofobia quando me meto num avião onde a viagem demora mais de duas horas. À vinda de Estocolmo, por exemplo, vi a minha vida a andar para trás quando vi que calhámos no último lugar do avião (ou seja, não podíamos recostar os bancos, enquanto que os da frente podiam, encolhendo ainda mais o nosso espaço) e à beira das casas de banho, onde as pessoas faziam filas de meia hora e se apoiavam na nossa fileira de bancos enquanto falavam das suas vidinhas e entravam (ainda) mais no nosso espaço pessoal. Foi das piores viagens que fiz até hoje.

Acho que foi ainda pior por, nos dias anteriores, me ter apercebido que há uma forma de viajar sem despender qualquer tipo de energia e de se poder fazer o que se quiser enquanto se anda - navegando, é claro. Num cruzeiro, uma pessoa pode ir ao teatro, ao cinema, ao restaurante, ler um livro, dormir ou ir à piscina enquanto vai de um sítio para o outro - e isso é só assim a melhor coisa deste mundo e do outro. Não tem de se conduzir, estar preocupado em não adormecer ao volante, estar atento à estrada e aos parvalhões que acham que são condutores de formula 1; não tem de se ir no lugar do pendura, a tentar não adormecer com o embalo do carro para tentar entreter o condutor que vai ao nosso lado, mantendo-o acordado; e, acima de tudo, não temos de ir duas horas mais cedo para o aeroporto e metermo-nos num bicho com asas onde não podes nem esticar uma perna. É maravilhoso.

E tudo isto é verdade a menos que tenhas a conta bancária recheada e possas viajar na Emirates, em particular em primeira classe. Uma das minhas viagens de sonho é a Austrália, por exemplo. São vôos com 30 horas, no mínimo (partindo de Lisboa), e normalmente com escalas pelo meio. É algo que quero e vou fazer, a menos que a vida me troque as voltas. Mas o meu sonho era faze-lo num avião a sério, com todas as regalias e confortos. Pode ser uma coisa de uma vez na vida, para nunca mais repetir, mas está seriamente na minha lista de sonhos e afazeres a médio e longo prazo.

Para terem uma ideia, vôos de ida e volta em primeira classe, Lisboa-Sidney, na Emirates ficam por cerca de 9 mil euros. Posto isto, vou só começar ali a amealhar e já volto.

 

Deixo-vos um vídeo do Casey Neistat, um dos melhores YouTuber's de há muito tempo (por ventura o melhor), que mostra os luxos de um vôo de longo curso da Emirates. Vale a pena ver, pois é de cair o queixo.

 

 

13
Set15

Miúda de 95 37#

Carolina

A Boneca Eva

 

Há uns dias fui ao Zoo da Maia matar saudades de tempos idos - já lá não ia há uns anos e achamos que era giro para um dia um bocadinho diferente. Acabou por ser, de facto, super diferente porque o carro avariou e foi todo um filme e sucessão de azares que deram cabo de mim quando finalmente cheguei a casa lá para as onze da noite. Foi precisamente antes de seguir para o Gerês com a minha família e por isso, no meio daquilo tudo, acabei por não escrever sobre esse episódio - e agora, duas semanas passadas, já não faz sequer sentido.

Aquilo que queria contar foi o tema de uma conversa que lá tive. Enquanto me sentava com a minha amiga a comer um gelado expliquei-lhe que antes, pelas redondezas do zoo, havia uma boneca gigante em que se podia entrar com o objetivo de se observar o corpo humano desde o interior; quase uma visita guiada, muito visual, de como as coisas funcionam cá por dentro. Na altura ainda tentei procurar, no telemóvel, algumas imagens para mostrar, mas como não me lembrava do nome da boneca a busca foi infrutífera.

Entretanto já tive tempo e encontrei! Chamava-se a Boneca Eva. Eu nunca lá fui, mas cresci a ouvir história macabras sobre aquilo, como era assustador e etc. Apesar de tudo, sempre quis ir lá - fazia-me lembrar um episódio da carrinha mágica, em que eles entravam para dentro do corpo de alguém para aprenderem como tudo funcionava. Ainda por cima a boneca estava grávida, por isso podia-se ver o feto a "desenvolver-se"! Acabei por nunca ter oportunidade de lá ir porque aquilo fechou e, segundo o que li, foi partido aos pedaços e vendido para ferro velho. É uma pena. Assustador ou não, devia ser uma experiência mesmo gira e diferente. Ficam as (poucas) imagens.

 

23
Ago15

Das coisas loucas que me passam pela cabeça

Carolina

Andar mais em baixo é, infelizmente, para mim, sinónimo de comer mais e pior à mesa (aliás, fora dela, que é onde se cometem os maiores pecados). Tinha aqui em casa quem me acompanhasse nas minhas aventuras gastronómicas e nos últimos dois meses experimentei uma dezena de novas gelados, uns quantos doces e outras coisas não tão boas para a dieta. 

Partilhei muitas das minhas receitas e comidas com a minha cunhada que também trocou algumas comigo (as dela mais saudáveis, glúten-free e outras coisas que adorei aprender e que me têm contagiado). Explicava tudo direitinho e acabava por fazer as iguarias, para desgraça das nossas barrigas mas alegria das nossas papilas gustativas. No meio disto eu brincava muito, explicava as receitas em modo youtube-style, provava as receitas dela e avaliava-as estilo júri do masterchef e passei as últimas semanas a apontar receitas e ideias - minhas e dela -, sempre a dizer que era para o meu canal de youtube culinário. Tudo na brincadeira.

Mas às vezes repetimos tantas vezes a mesma coisa que parece que ela se torna real. Não sei se já são as saudades dela - e do meu irmão e sobrinhos -, se são estas férias de treta ou este tempo desgraçado, se é o facto de agora andar muito virada para vlogs e vloggers ou mesmo a crise de sinusite grave que estou a ter que me está a enlouquecer, mas a verdade é que tudo está a fazer um assustador sentido na minha cabeça. Estou a um triz de pegar na minha nova máquina e começar a gravar as minhas receitas e partilha-las no youtube.

É a prova provada de que preciso urgentemente que as aulas comecem.

26
Mai15

Como vivi o Fora da Caixa (ou como fui muito feliz)

Carolina

Aquilo que escrevi no post abaixo foi a parte factual do programa - o que aconteceu e deixou de acontecer. Mas a verdade é que houve toda uma gestão emocional que teve muito mais impacto que o programa em si, todo um espírito que todos desenvolvemos sem nos apercebermos que tornou tudo único e mágico. Só no fim é que nos caiu a ficha. Bac. Acabou. Wow. 

Aconteceu uma coisa tão simples que é complicada: conhecemo-nos. E, estranhamente, resultamos juntos, até gostamos de "nós" como um grupo. As personalidades e as circustâncias da vida fizeram - como fazem sempre, em todos os meios - que se criassem grupos, distâncias, ódiozinhos de estimação, embirrações pessoais que acabam por ditar separações para a "vida", muitas vezes completamente infundadas. Coisas tão simples como grupos formados na praxe, grupos das pessoas que fumam e portanto se juntam no exterior, grupos das pessoas que almoçam na sala de convívio... enfim, todo um conjunto de razões que fazem com que se juntem uns e se separem outros. 

Apesar de estarmos todos divididos por equipas, tivemos de nos juntar várias vezes e fazer a ponte entre umas funções e outras. Todos fomos obrigados a contribuir e interagir de alguma forma - eu, então, nem se fala. Tive de deixar os preconceitos de lado e meter-me no carro com pessoas com quem não tinha trocado mais de meia-dúzia de palavras durante ano e meio de faculdade; tive de falar com todos, de explicar aquilo que queria, de me chatear quando achava que era preciso, de os organizar quando era necessário. Eu tive mesmo de sair da caixa.

E, sinceramente, é esse o sentimento que fica. Mais do que ter orgulho em ter conseguido realizar um programa fantástico - digo-o, sem pudores, que acho que foi dos melhores que CC já viu -, tenho orgulho em tudo o que fiz, em todos os esforços e, acima de tudo, de ter mostrado mais de mim. Consegui, finalmente, mostrar quem sou. Que não quero ser só mais uma. Que não sou só a chata, a que não vai aos jantares de curso ou à queima, que é anti-praxe, que é sossegada e não faz mal a uma mosca. Que há mais para além dessa Carolina sisuda que todos achavam que conheciam e por quem já não nutriam esperanças. Arrisco-me a dizer que as expectativas, quando me ofereci para realizadora, eram mesmo muito baixas. E, no meio disto tudo, acabei por surpreender os outros e, muito mais importante!, a mim mesma.

No dia seguinte ao programa inundamos o facebook com a nossa foto de turma, com textos bonitos de homenagem e já de saudade. Fiquei... assoberbada. Sem palavras, mesmo. Ainda nem sequer respondi a alguns dos comentários que me deixaram, quase com medo de não ser verdade. Não fiz nada disto para palavras de agradecimento - nem sequer tinha noção que as pessoas se aperceberam de que eu tinha dado (mais do que) o litro para que tudo isto corresse como correu. Fiz porque estava gostar, porque era a primeira coisa neste curso que era realmente desafiante e onde senti que me podia fazer realizada (porque já percebi que o trabalho é das coisas que me deixa mesmo completa e feliz). Chegar ao fim e ter toda uma maré de elogios, até de pessoas que antes não deviam acreditar nem gostar minimamente de mim, foi algo que me comoveu até aos ossos.

Chego ao fim e vejo mais do que os meros colegas que antes tinha. Vejo-os como pessoas, com qualidades e defeitos, que conheço melhor, para além de preconceitos de treta. Fomos uma equipa e eu tenho tanto orgulho nisso! Foram dias realmente felizes para mim, apesar de todo o nervosismo. Não tenho dúvidas que o programa foi um ponto de viragem na minha vida universitária e foi mais uma barreira que ultrapassei, a nível pessoal, no que ao relacionamento das pessoas diz respeito. Tenho o coração cheio. Obrigada é a única palavra que me parece plausível neste momento. Fui mesmo muito feliz.

 

Deixo-vos o making of (versão alargada), o vídeo que mais adoro à face da terra e que já vi umas cinquenta vezes. Podem ver parte do processo de montagem do cenário, dos ensaios, das conversas, da régie, do programa de um outro ângulo e, claro, do fim... Voltava a fazer tudo do início.

 

 

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