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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

28
Nov17

Dezembro, podemos pôr um bocadinho o pé no travão?

Carolina

Ainda só passei uma vez pela época natalícia enquanto trabalhadora - esta vai ser a segunda - mas já percebi que o ano passado não foi uma excepção, mas sim a regra: Novembro e Dezembro são caóticos, os piores meses do ano no que diz respeito ao volume de trabalho, volume de stress, volume de problemas e volume de correrias. Não sei se é assim em todos os tipos de trabalho, mas fazer um jornal mensal nesta altura - e devido à época festiva, que faz com que os últimos quinze dias de Dezembro sejam praticamente inutilizáveis - significa fechar dois jornais num só mês, o que não é propriamente fácil.

Para além disso, algumas coisas estão a mudar no jornal e eu estou a acumular (e a aprender) funções, o que me vai passar a roubar mais tempo; por o Natal estar a chegar também começam os jantares e os almoços, os amigos-secretos e a decisão e a compra das prendas de Natal; como se isso não bastasse, ainda me meti num "projeto de Natal" pessoal, em que estou a recolher gravações da família inteira dos últimos 20 anos - e a passa-las das cassetes para o computador - para depois fazer um best of em plena véspera natalícia. Não quero revelar demasiado, porque tenho muitos cuscos na minha família a ler este blog que estão ávidos de informação, mas depois do grade dia conto um bocadinho desta aventura que me tem ocupado muitas horas nas últimas semanas (nomeadamente para pôr a trabalhar equipamentos que não viam a luz do dia há uns 15 anos).

É claro que isto tudo ainda se conjuga com a vida familiar, o blog, o piano e o ginásio - e mais algumas coisas que vão surgindo pelo meio -, pelo que a gestão não tem sido fácil. Eu bem que tento escrever ao fim-de-semana, mas nem isso tem sido simples - e, confesso, a vontade de passar ainda mais horas em frente ao computador durante as minhas "horas livres" também não é muita. 

Com isto quero dizer duas coisas: a primeira é desculpem pela ausência - eu prezo muito a constância de publicações em qualquer blog e gosto e tento escrever todos os dias aqui, mas há alturas em que, por uma razão ou por outra, não consigo; a segunda é que isto não é, de todo, uma questão de preguiça - porque, quando for, eu admito e passarei aqui para vos dizer "não estou com pachorra para escrever" em vez de perder tempo em explicações como esta. Chateia-me cada vez mais que as pessoas achem que eu não faço nada só porque tenho um trabalho que me permite uma grande flexibilidade de horários; não deixo as coisas por fazer e, até hoje, não tive qualquer razão de queixa por parte das pessoas com quem trabalho ou que me chefiam. Tenho prioridades e o trabalho vem sempre primeiro: mas organizo-me da melhor forma, todos os dias, e de maneiras diferentes com o objetivo final de ter ter tudo pronto e bem feito no menor tempo possível - e, para isso, não me arrasto, não faço fretes, tento ser objetiva e riscar tarefas do caderno. E isto faz com que consiga ter aulas de piano, consiga ir ao ginásio, consiga escrever aqui e que consiga meter-me em projetos natalícios que se calhar só eu é que vou achar piada. E isso, que eu saiba, são coisas suficientes para deixar alguém ocupado até aos dentes. 

(Farei o meu melhor para escrever todos os dias - caso não consiga, já sabem: ando metida entre jornais e cassetes :))

09
Out17

A questão: como acabar com o molenguice durante a tarde?

Carolina

Sou uma pessoa muito mais dinâmica e produtiva de manhã do que de tarde. Juro: a diferença é abismal. De manhã sou capaz de fazer tudo, às vezes nem me lembro de comer, trabalho desde que me sento no escritório até à hora de almoço. À tarde é todo um drama: fico cansada, tenho sono, a minha produtividade cai a pique.

Tenho a sorte de ter um horário muito liberal e por isso, apercebendo-me disto, comecei a ir trabalhar mais cedo, de forma a fazer mais coisas no período da manhã do que de tarde. Mas eu olho para todas as pessoas normais à minha volta e não me parece que sejam todos assim. O que será que eu faço mal para ter tanto sono durante a tarde? Será que é o facto de vir almoçar a casa que me quebra a rotina de trabalho e me faz facilmente arrastar para o sofá e me dar a preguiça? Será que já é mesmo o meu metabolismo que está habituado a descansar à tarde? Só quando estou em pleno stress e a mil a hora é que isto não acontece - caso contrário, se o meu cérebro se aperceber que tem tempo para fazer as tarefas, vai-se arrastando e levando-me com ele.

E a questão é ainda mais grave se acrescentarmos o facto de eu até dormir bastante. É verdade que acordo cedo, mas também me deito cedo: normalmente, antes das 23h já estou na cama. Porque para além de sentir que não sou produtiva à tarde, durante a noite a coisa também não melhora e tenho cada vez mais tendência para me deitar cedo e descansar.

Sinto que, a este nível, já passei por várias fases. Lembro-me que durante o secundário estudava muito bem de noite, deitava-me às tantas da manhã para estudar e no dia seguinte recuperava à tarde, mas sempre de uma forma equilibrada e sempre produtiva o suficiente para ter bons resultados. Já tive outras alturas em que estudar de manhã era missão impossível e que só de tarde é que conseguia mesmo abrir a pestana. E agora é isto.

Consigo ajustar o meu tempo e a minha energia ao trabalho que tenho – ainda que, na prática, faça horários um bocado estranhos – mas chateia-me muito não conseguir ser produtiva durante a tarde, altura em que toda a gente está a trabalhar, responde a emails e torna todo o processo muito mais fácil para também eu trabalhar de forma eficaz. Para os mais preocupados com a saúde: sim, já fiz análises e está tudo nos conformes. Por isso a questão põe-se: como é que se contorna este cansaço do demónio, como é que se regula os nossos tempos com os “normais” e se tem energia o dia todo? Estou aberta a dicas! Obrigada!

 

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29
Ago17

Meu querido mês de Agosto

Carolina

Este Agosto foi estranho e muito atípico para mim que, pela primeira vez na vida, tive de fazer alguma coisa durante um mês onde sempre tive férias. Foi estranho, confuso, mas bom, até porque percebi as maravilhas de trabalhar enquanto tudo está de férias.

Trabalhar em Agosto é não apanhar trânsito na comum hora de ponta, mesmo nas piores estradas; é ter lugar à porta do prédio onde trabalhas e ainda escolher qual a melhor sombra; é não receber vinte emails por hora, mas receber de volta muitas mensagens com o assunto “Férias / Vacations / Vacances”; é teres silêncio no escritório porque está tudo de férias; é ter metade das coisas para fazer e deixar a vida correr.

Mas trabalhar em Agosto, principalmente quando tens 22 anos e os teus amigos ainda estudam, é ver o pessoal todo de papo para o ar enquanto tu tens de ir para o escritório; é ter muito sono quando vamos tomar café a um dia da semana e começar a olhar para o relógio quando batem as 23h; é ver as agendas deles vazias, prontas para umas férias improvisadas, e tu teres de fazer contas à vida; é acordar para ir trabalhar, ver os instastories, e perceber que a maioria das pessoas que segues está, àquela mesma hora, a sair do Lick ou do Bliss, algures em Vilamoura. Mas tudo isto só seria mau se eu fizesse muitas destas coisas nos meus tempos de estudante – e não fazia.

Tudo o que queria fazer este mês, fiz – com mais ou menos stress, adiantando mais ou menos trabalho, a correr ou devagarinho, com mais ou menos tempo do que queria… fiz tudo. Provei o sabor a férias enquanto trabalhava, num mês de Agosto sossegado – e descobri que a cidade é maravilhosa de se viver nestes meses onde todos se retiram para outros pontos do país e do mundo.

Ontem, quando cheguei ao trabalho, já não tinha os lugares de estacionamento todos só para mim e soube que, apesar de Agosto ainda não ter chegado ao fim no calendário, já se finou. Acabou a calma, começa a vida, a agitação, a correria do costume. E a mim está a custar-me a acordar desta calmia, desta desorganização organizada, deste arrastar bom, deste misto de trabalho com cheiro a férias – ainda que mais dos outros do que minhas.

Meu querido mês de Agosto… não sabia o quanto eras bom. Até para o ano.

 

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(Gerês, Agosto 2017)

23
Ago17

Este trabalho não é para mim

Carolina

Durante este ano de trabalho nunca acordei e pensei "este é o trabalho perfeito para mim". Apesar disso, considero que foi um ano do caraças, onde aprendi até à ponta dos cabelos - e, confiem, eles estão enormes! - e em que foram muitos raros os dias em que não me apetecia ir trabalhar, conviver com os meus colegas e fazer as tarefas que, com o tempo e o hábito, me foram sendo destinadas. No meio dos dias atarefados, de todas as novidades - o salário, o IRS, os recibos, o médico do trabalho, as viagens, o chefe, os colegas, o patrão, as quezílias, as histórias, as férias, as folgas e as faltas -, sempre tive dias de recaídas, em que me perguntava "porquê que aceitei isto?" ou ia mais a fundo e questionava o raio do curso que tirei. Comunicação. Eu, de facto, precisava de um curso intensivo de comunicação com os outros: mas não era para o exercer exaustivamente para o resto da vida!

Este trabalho não é para mim. Eu não nasci para ser jornalista, porque isso implica ir muitas vezes contra aquilo que eu sou. E isso faz-me sofrer. Sofro porque não quero falar com as pessoas, ligar às pessoas, chatear as pessoas. Mas depois também sofro porque tenho prazos de entrega, porque tenho de mostrar trabalho, porque as coisas têm de sair feitas - e bem feitas - independentemente dos dramas pessoais de cada um. E eu não sou de falar, mas também não sou de falhar. E dentro de mim vive-se constantemente este confronto de titãs, entre o não-quero-fazer e o tens-de-fazer

E sim, na vida vamos ter eventualmente de ultrapassar estas questões - quer em termos profissionais como pessoais. Mas eu estou a faze-lo todos os dias, e isso desgasta-me. Todos os dias estas metades de mim lutam, de espadachim em punho, até o tens-de-fazer ganhar, já com a ponta afiada apontada à garganta do não-quero-fazer. Ele, já sem ar, com as lágrimas nos olhos, o nó na garganta e o desespero no âmago lá faz o que tem a fazer, a muito custo. E quem vê de fora diz que os resultados são bons, que as conversas fluem, que eu sou simpática e natural - nem desconfiando que parte de mim está com uma lâmina encostada à jugular.

Quando alguém me diz "tem de falar com", o meu coração pára por um milissegundo. Lá vamos nós: mais uma moedinha, mais uma voltinha. Principalmente nas férias o "ter de falar com" é ainda pior: eu sei que estou a ligar para pessoas que estão de férias sobre matérias relacionadas com o seu trabalho - e isso chateia-me, porque eu não quero falar de trabalho quando tenho os meus dias de descanso. Eu tenho esta mente "antiquada": não gosto de ligar para ninguém depois das 22h a menos que seja uma emergência, evito ligar à hora das refeições porque para mim são horas sagradas, assim como tento não ligar fora das horas de expediente. Sei que hoje em dia isso significa muito pouco, mas eu tenho esses valores enraizados em mim e de cada vez que clico no botão verde para ligar a alguém, sabendo que essa pessoa está no seu tempo de folga, para mim é matar-me um bocadinho. É ir contra aquilo que acredito. É fazer aos outros aquilo que não gosto que me façam a mim - e eu sempre levei este ditado muito a sério.

Este trabalho não é para mim. Eu não tenho língua de perguntador, eu tenho pânico de falar com os outros ao telemóvel, eu detesto a sensação de estar a chatear alguém, eu evito contactos físicos a todo o custo. Lutei durante muitos meses com o termo "jornalista"; no meu cartão não tem qualquer identificação do meu trabalho, quando me apresentava era simplesmente como colaboradora do jornal. Mas o bloco na mão, os meus textos e as perguntas tiram a dúvida à maioria. Começaram a apresentar-me como jornalista, a identificar-me como jornalista e eu, há um par de meses, tive de me render. "Olá, o meu nome é Carolina Guimarães e sou jornalista", digo, enquanto me dói a alma. Faço-o porque facilita a vida aos outros, não porque sinta que seja verdade. Eu, na realidade, sou tudo menos jornalista. Sou apenas uma miúda que gosta de escrever e que tem pânico de não cumprir com a sua palavra e com aquilo que é para ela mais sagrado: o trabalho. Ainda que este não seja para ela. Porque o tempo é um pau de dois bicos: habitua-nos a fazer coisas que inicialmente tínhamos mais dificuldades (e eu já melhorei muito!), mas também nos dá mais certezas sobre aquilo para o qual fomos ou não feitos para fazer ou ser. E eu sei que este trabalho não é para mim - embora o continue a fazer, eu própria de espada na mão, lutando contra as minhas duas metades. 

29
Mai17

O medo de me tornar numa pessoa desinteressante

Carolina

O "Up in the Air" (não é o da Disney, mas sim o do George Clooney e da Anna Kendrick) estreou quando eu tinha 14 anos e marcou-me muito. Lembro-me de o ter ido ver ao cinema, de vir para casa e chorar - e depois de escrever um post estilo este, naqueles que foram os meus primeiros tempos de escrita. Tinha só 14 anos, mas revi-me totalmente no que ali via - e na altura disse-o, sem vergonhas: "acho que isto vou ser eu no futuro". Não me referia ao trabalho horrível que a personagem principal tinha - que era, no fundo, despedir pessoas (era contratado por empresas para fazer despedimentos coletivos em todo o mundo e por isso passava a vida a viajar, nunca estava em casa, não tinha amigos, mulher ou filhos - apenas uma família que ignorava); falava - já nessa altura! - de de viver para o trabalho, ser "casado" com ele (embora, ao contrário do filme, a minha família vá estar sempre em primeiro lugar).

Ou seja, o facto de eu achar que nunca me vou casar ou ter filhos não é de todo uma ideia nova para mim - simplesmente sinto que esteve sempre comigo. Não quer dizer que não mude, não quer dizer que seja uma opinião para a vida ou muito menos uma decisão: é apenas um feeling, algo que tenho há muitos anos e que acho que não me reduz enquanto pessoa ou mulher - simplesmente sou como sou e posso ter outros milhões de gostos e afazeres para além da vida de casada e de mãe. Mas, em contraposiçãom tenho o trabalho, algo recente para mim mas que sempre soube que ia ser a minha praia, o meu porto seguro (independentemente de até poder não ser seguro, de eu ter dúvidas ou de existirem dias maus - é simplesmente terreno onde eu sempre soube que me ia conseguir levar avante, porque é o que sei fazer bem) - e que, para o bem e para o mal, ocupa uma grande fatia da minha vida.

Mas ultimamente, nos poucos encontros que tenho com pessoas amigas ou família, dou por mim a falar de trabalho. Das minhas viagens de trabalho, dos meus colegas de trabalho, das minhas tarefas no trabalho, nas minhas complicações no trabalho, nas peripécias do trabalho. E tenho medo de me estar a tornar só nisto, quando - apesar de todos os defeitos que sei que tenho -sempre me achei uma pessoa interessante, que tem uma resposta minimamente correta e coerente para tudo, que não sabe muito de nada mas que com aquilo que vai ouvindo, lendo e falando consegue ter uma opinião sobre algo e manter uma conversa interessante. E agora: trabalho. A muleta de sempre: o meu porto seguro quando todos os outros portos parecem despovoados e inseguros, mas que é provavelmente uma seca para quem está à minha volta. E quando rebobino mentalmente as conversas que tive, e se a minha percepção for a correta, quase tenho vergonha de mim própria por aquilo que hoje em dia faço.

Tenho medo de só me tornar nisto, quando acho que sou muito mais que isto. Tenho medo de ser aquela pessoa chata num grupo de amigos que (já) mal conhece que só fala do escritório, do patrão e dos dramas da vida laborar. Tenho medo de estar a crescer e de, ao mesmo tempo, estar a ficar mais pequenina.

15
Mai17

Se calhar, ter as perguntas certas não é tudo

Carolina

Eu tenho um medo terrível de falhar nas coisas que faço bem - e eu acho que faço pouca coisa bem. O campo "trabalho" sempre foi o meu porto seguro - mesmo quando estudava já era assim: tinha boas notas, os professores gostavam de mim, sentia que correspondia bem às minhas expectativas e às responsabilidades e portanto, mesmo sabendo que era uma treta em tantos outros campos, aquele cantinho da minha vida reconfortava-me. Quando comecei trabalhar tive a mesma sensação - acho que sempre fiz bem o meu trabalho, cumprindo com tudo o que me propus e me propuseram e isso concretizava-me muito, ao mesmo tempo que me descansava: ufa, eu era boa em alguma coisa!

Inicialmente, o meu trabalho no jornal tinha uma componente informática muito grande - e eu estava a delirar por estar a trabalhar em informática, a escrever aqui e ali e a lidar com têxtil. Era a receita perfeita para todas as áreas que eu amo. Mas ao longo dos meses acabei por ir escrevendo mais, e mais, e mais. Por um lado é uma coisa boa: é a consagração daquilo que eu acho fazer de melhor, que é escrever; por outro, implica um jornalismo "puro", que eu acho que não faço bem e por isso sinto-me indubitavelmente mais frágil. A quantidade de coisas que tenho aprendido nos últimos meses é imensurável mas uma das coisas que me dá mais gozo é ver como se desenrola uma entrevista ou uma conversa; sempre que ouço ou acompanho os meus colegas numa entrevista, fico quase hipnotizada pela capacidade que eles têm de "arrancar" informações às pessoas, de faze-las dizer certas coisas com perguntas que por vezes não têm nada que ver, de fazer rolar uma conversa normal, descontraída, mas recheada de conteúdo informativo - e ainda assim ser uma troca de diálogos que se ouve com gosto. E também é nesses momentos, em que os vejo fazer essa arte, que percebo (ou acho) que de facto não fui feita para fazer perguntas. Se calhar fui feita para escrever respostas, pensamentos, críticas - mas perguntar não parece ser a minha praia (e isso, confesso, entristece-me).

De qualquer das formas, continuo a tentar - até porque tenho trabalho para fazer e, apesar das perguntas não estarem na ponta da língua, eu esforço-me sempre por fazer o melhor possível. Já percebi que me custa mais falar ao telefone do que pessoalmente, por exemplo; o primeiro contacto com outras pessoas é sempre um drama para mim, mas depois (em muitos casos) acaba por ser gratificante - e tenho passeado por aí, conhecendo fábricas e pessoas que, sinceramente, me acrescentam e me aquecem a alma. Olho para trás e percebo imediatamente que aquilo que vi e ouvi me acrescentou algo, que aprendi alguma coisa e isso é a melhor sensação que se pode ter.

Hoje, por exemplo, fui falar com uma estilista. Como sempre ia um bocadinho apreensiva, mas positiva de que ia correr bem (por aquilo que já conhecia dela). Normalmente, para o artigo que ia lá escrever, despacho uma conversa em quinze minutos, vinte no máximo - e hoje a conversa fluiu tão bem que demorou mais de uma hora. Antes do alinhamento de perguntas que tinha planeado acabei por falar um bocadinho sobre o jornal, os nossos planos para o futuro e até sobre mim. No meio daquilo tudo, e enquanto lhe dizia o que queríamos fazer, os nossos novos projetos e até algumas reportagens que eu tinha curiosidade em fazer, ela diz-me - não em forma de pergunta, mas sim numa afirmação: "nota-se mesmo que gosta do que faz". E eu, nesse momento, respirei de alívio e fiquei tão feliz. Foi a primeira vez que alguém me disse isso - e eu, naquele momento, estava mesmo a adorar o que estava a fazer.

Se calhar, ter língua de perguntador não é tudo. Se calhar, uma pinga de antissociabilidade, a falta de à vontade para falar com pessoas e um não-amor pelo jornalismo conseguem ser ultrapassados por algo maior. Se calhar a paixão que tenho por este mundo basta. 

18
Abr17

O fim da paz nas estradas portuguesas

Carolina

Eu sei que esta época de férias é diabólica para os pais, que por sua vez acaba por ser diabólica para os avós (que eventualmente têm que ficar com os netos) ou até para os tios (que, quando é preciso, tomam o lugar dos avós). Eu agora não me posso queixar, porque este ano houve uma série de fatores que fizeram com que os meus sobrinhos não fossem lá parar a casa on a daily basis - e, de qualquer das formas, eu agora trabalho, portanto já não passaria o dia com as crianças de um lado para o outro.

Mas como trabalhadora que sou, sofro o drama diário de quem vai e vem para o trabalho todos os dias, inevitavelmente naquela hora terrível chamada "hora de ponta" - que é incrivelmente adensada por todas as crianças que vão para a escola com os pais. E nisto, desculpem-me os progenitores desesperados por não saberem onde deixar as crianças, mães que meteram férias e já estão por esta hora a arrancar cabelos, avós que já perderam a paciência há vinte anos atrás ou tias que simplesmente não nasceram para isso (sim, estou aqui a rever-me...) mas, para quem trabalha, estas duas semaninhas (e todas as outras que ainda hão de vir no verão) são assim o paraíso na terra. Não há filas, não há confusão, é sempre abrir até estacionar. Uma pequena maravilha.

Mas pronto, acho que hoje é oficialmente o fim da paz. Adeus estradas desimpedidas, adeus ruas de escolas sem trinta carros estacionados em segunda e terceira fila, adeus aos cinco minutinhos extra na cama! You will be missed! 

07
Abr17

Eu, fazedora de coisas terríveis de última hora, me confesso

Carolina

Sempre fui uma miúda certinha mas nunca gostei de fazer os trabalhos de casa. É verdade e está na altura de confessar aqui os meus pecados. Às vezes, ainda na primária, dizia que me tinha esquecido do caderno nos TPC's quando, na verdade, tinha-me esquecido era da vontade de os fazer. Já mais tarde, adiavaaaaa a todo o custo faze-los até que dava por mim, arrependidíssima a altas horas da noite, a fazer os trabalhos de casa na cama. Chegou até a uma fase em que, consciente do mal que não fazer os trabalhos de casa me fazia, fiz um pacto com a minha colega de carteira: se eu não fizesse os trabalhos de casa de Português (na altura, uma das minhas piores disciplina - e sim, a vida dá muitas voltas) tinha de lhe comprar e dar um chocolate. Ora isto era mau porque 1) sempre fui forreta e não queria comprar chocolates para os outros e 2) porque eu queria mesmo muito comer os chocolates que comprava (achavam que isto da #lontra era de agora? Nã!). E admito: mesmo assim, cheguei a comprar chocolates para lhe dar em forma de consequência.

Isto para dizer que eu tenho a tendência terrível de deixar as coisas que mais me custam fazer para o fim. Como eu detestatava os TPS's adiava-os ad eternum, até não os fazer ou faze-los em cima do joelho. Hoje em dia, ao contrário do que acontecia por vezes nesses tempos, faço sempre as coisas - às vezes tenho crises terríveis antes de as fazer, choro e berro e arrependo-me de me ter comprometido - mas faço sempre. Faltar com a minha palavra é algo que não tolero. Mas lembro-me vivamente do meu irmão e da minha cunhada me tentarem evangelizar para o lado do bem ("faz primeiro os trabalhos de casa e depois vai brincar") e de eu, embora soubesse que era o correto, nunca levar esse lema de vida avante. 

Hoje percebo que faz parte do meu ADN - e não gosto, este stress ainda me mata um dia destes. Já na faculdade era a mesma coisa (embora o problema fosse ainda pior, porque era generalizado: eu não gostava de nada!). Tudo para o fim, um sufuco, privação de sono, ai-meu-deus que isto não vai dar, que vou fazer da minha vida, lá vou eu reprovar, faltam três minutos para o prazo de entrega e uff... entreguei. E depois tenho boa nota, porque trabalhar sobre pressão é claramente a minha cena. 

E agora no trabalho o filme repete-se. Todos os meses lançamos um jornal em papel, a cada mês eu tenho mais coisas para tratar, mais entrevistas para fazer, mais pessoas para ligar e... o caldo está entornado. Trato de tudo o que posso por email, tento sempre fazer a primeira abordagem por escrito... mas as pessoas não respondem e eu aí tenho mesmo de passar para essa arte antiga e terrível que é falar com os outros. Escrevo o que posso, mas fazer contactos é coisa para me custar tanto como ir à depilação - então se for com gente conhecida, que eu estou sempre à espera que me peça um chachet (que eu não tenho) em troca de umas meras palavras ou meia-dúzia de linhas, aí é que eu fico desesperada. E, claro está, deixo sempre para a última. 

A maioria das mulheres têm, durante o mês, aquela semana do demónio que é quando lhes vem o período (eu, por acaso, não sou exemplo); já eu também tenho uma semana de demónio que é quando estamos a fechar o jornal. Por outras palavras, é aquela semana em que eu me apercebo que quer queira, quer não, vou ter mesmooo de ligar a dezenas de pessoas para conseguir entregar o meu trabalho. Enfim. Agora percebo que devia ter dado ouvidos ao meu irmão e à minha cunhada. 

03
Abr17

Posso continuar a viver ou preciso de dormir mais um bocadinho?

Carolina

Não me lembro de escrever tão pouco como tenho escrito na última temporada e isso entristece-me . Há uns anos provavelmente estaria a agoniar, a dizer que isto seria o fim deste projeto que me é tão querido, mas ao menos nisso estou relaxada: sei que é uma fase. Mais do que isso, sei que é em parte o embate da vida adulta. Acabaram-se as abébias, os recursos, as férias de natal, da Páscoa, os dias do Carnaval e as férias grandes, os intervalos, as responsabilidades para cima dos professores, as três faltas por semestre a cada disciplina. E isso, para mim que não gostei da faculdade, é bom: mas, como em todas as mudanças, custa. 

E eu dei muito de mim nos primeiros meses desta aventura. Atirei-me a tudo, defini planos e objetivos; trabalhei aos fins-de-semana, fiz-me escrever aqui todo os dias, planeei limpezas e arrumações no quarto todo, inscrevi-me num PT (a pior ideia do ano), quis ir para o ginásio antes das oito da manhã. Não descansava, nem queria. Tudo era trabalho e tudo eram objetivos porque eu sou feliz a fazer "checks" na minha agenda. Mas esqueci-me que depois não tinha férias, que a vida era diferente, que os ciclos de stress são agora muito mais pequenos, maiores e repetitivos. E as coisas foram caíndo, uma a uma. Primeiro o ginásio, depois a escrita à noite (passei a escrever tudo aos fins-de-semana), a seguir as arrumações. Nesta fase final, cheguei a achar que não conseguia fazer o meu trabalho direito, atormentada pelas coisas que sempre me atormentam (falar com pessoas, ligar para pessoas e essas coisas "maléficas") e, por fim, a escrita. 

Pelo meio aconteceram coisas, claro. As viagens - uma turbulência imensa ao nível emocional e um cansaço enorme ao nível físico - e alguns stresses na família, ao nível da minha saúde e da dos meus. Quando são os outros, a vida pesa-nos nos ombros, mas fazemo-nos de fortes porque há outros que têm de recuperar; quando somos nós a história é outra e, no meu caso, a pintura é ainda pior devido à minha fobia de médicos. Mais do que qualquer complicação de saúde (mínima) que possa ter, o sofrimento emocional supera normalmente qualquer dor física e o stress e o pânico que vivo diariamente tiram-me o fôlego de viver.

Mas no fundo, é acima de tudo cansaço. Tenho dormido muito nos últimos meses. Coisas tão simples como deitar-me no sofá para dormir uma sesta e acabar por lá ficar quatro horas sem dar por isso; ou trocar uma tarde de sol por uma tarde de sofá, ronha e sonos prolongados. Não consigo ver séries ou filmes porque adormeço a meio, o livro continua praticamente intacto na mesinha de cabeceira porque a vontade de ler antes de dormir é inferior ao sono que já tenho quando chego à cama. Mas, para mim, isto não é vida. Acho que escrevi aqui há uns meses algo parecido com "agora que sei o que é isto da felicidade, não quero outra coisa" - e eu quero muito passar ao próximo nível. Dizer "pronto, já está, já caíste, já choraste, já descansaste, agora oupa!". O Verão está aí ao virar da esquina, eu quero ir perder uns quilos ao ginásio, quero estar pronta para desfrutar do momento em que meter as minhas merecidas férias, quero ir acampar, quero ler, quero escrever. E, até lá, quero trabalhar - que é a única coisa que tenho feito, porque é onde canalizo todas as minhas energias e atenções quando as coisas à minha volta não estão tão bem como queria.

Tenho aqui um post que nunca chegou a ir para o ar que se intitula "only work can save us". Para mim - e pelo menos neste emprego, que apesar de não estar dentro da minha zona de conforto me faz feliz, e onde trabalho com pessoas que adoro - é mesmo verdade. Há uns meses alguém comentou aqui dizendo que eu, tão nova!, já tinha uma relação pouco saudável com o trabalho - e eu acho que isto depende muito dos pontos de vista, porque todos somos diferentes e nos movimentamos com diferentes combustíveis, mas eu diria que trabalhar é das coisas que me faz sentir mais viva e realizada nesta vida. Acima de tudo, porque é a área em que sinto que sou boa e onde me consigo superar. Porque em tudo o resto... bom, relativamente a tudo o resto... o melhor é nem olhar com muita atenção. É caso para me dizer que tudo o resto me afunda, enquanto o trabalho me mantém (bem) à tona da água.

Pouco a pouco espero ir reavendo a minha vida, repescando os objetivos que foram caindo ao longo dos meses e deixar este cansaço do demónio nestes primeiros três meses do ano. Com os dias a crescer a cada entardecer, com o relógio a bater cada vez mais perto dos dias quentes de verão... quero a vida boa de volta e quero saborear cada momento como fiz no ano que passou. Estou cansada de estar cansada. Quero continuar.

18
Mar17

Um cartão de visita diferente: sim ou não?

Carolina

Tenho a sorte de trabalhar num sítio super livre e aberto a novas ideias. Aliás, tem muito mais vantagens, estas são apenas duas delas, de um rol muito grande de coisas boas que podia apontar. A minha sorte aqui é indiscutível mas, como sempre, não há nada perfeito neste mundo e, para todos os efeitos, eu trabalho num jornal e aquilo que mais me custa fazer é o papel de jornalista (embora faça muito mais que isso). Eu sempre tive uma veia anti-social acentuada, acho que vou sempre ter, e falar com pessoas é algo que me sai das entranhas, custa-me mesmo muito; e já aprendi que embora tenda a melhorar, isto vai muito por fases e do meu estado de espírito e humor. Nos últimos tempos, em que fui abaixo, senti-me a regredir imenso: voltou a custar-me muito ligar para as pessoas, fazer perguntas, "chatear". Enfim, parvoíces minhas.

Mas vamos ao que interessa: antes de ir para as feiras, onde já sabia que ia fazer muitos contactos, pedi para fazer cartões que me identificassem, para poder trocar endereços de email, números de telemóvel e essas coisas todas. Na altura aquilo que me passou pela cabeça foi aquela coisa básica com o logótipo do jornal, o meu nome e os meus contactos, mas entretanto vieram-me com uma ideia fora da caixa e eu não consegui dizer que não. Então e o que é? Pôr uma foto minha, em criança, na frente do cartão. Para além de ficar giro - não sei quanto a agora, mas quando era miúda tinha uma cara muito fofa -, é um ice-breaker. E, meus amigos, tudo o que eu preciso neste mundo é de algo para começar a conversas!

E assim foi - os meus colegas todos fizeram os cartões clássicos e eu, a miúda lá do sítio, fiquei com cartões com a minha cara lá estampada. Sei que sou suspeita, porque até fui eu que escolhi a foto, mas adorei-os mal lhes pus a vista em cima. Achei-os diferentes e cativantes - e numa altura em que nós estamos com as cabeças sempre ocupadas, com mil e um emails por ler, com o telemóvel sempre a apitar e com a capacidade de concentração cada vez mais a assemelhar-se à de um peixe, tudo o que é preciso é algo que cative e que lembre às pessoas de quem somos. Se calhar não se vão lembrar do meu nome, mas vão-se lembrar da rapariga com o cartão fofo. 

Ou não, não sei. Tive várias reações, enquanto fui distribuindo cartões pelas feiras e mesmo aqui. A família adorou, claro, fez-lhes lembrar o tempo em que eu ainda era uma querida em vez de ser uma chata; relativamente a desconhecidos houve quem simplesmente ignorasse e metesse ao bolso e outros que me perguntaram se era eu, alguns acrescentando que a ideia era muito boa e que a foto era muito querida. É claro que não tenho como saber se é verdade, mas de um modo geral o feedback foi positivo. Curiosamente, da malta mais nova e conhecida, que devia ter uma mente mais aberta, é que às vezes recebi alguns comentários que roçaram a brincadeira mas que não sei até que ponto eram a sério - algumas pessoas disseram, inclusive, ser pouco "profissional".

Mais uma vez reafirmo: o jornal onde trabalho é super aberto e a imagem e o design são portos fortes, que prevalecem e nos distinguem. Falamos sobre moda e têxtil e queremos passar uma imagem renovada daquilo que é, hoje em dia, este setor: que já deixou de ser aquela coisa pesada e "monocromática" de há uns anos. Por isso, a meu ver (e para além de adorar o cartão), penso que é até é coerente com aquilo que somos. Mas fica a questão: divertido e cativante ou pouco profissional?

 

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