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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

15
Mai17

Se calhar, ter as perguntas certas não é tudo

Carolina

Eu tenho um medo terrível de falhar nas coisas que faço bem - e eu acho que faço pouca coisa bem. O campo "trabalho" sempre foi o meu porto seguro - mesmo quando estudava já era assim: tinha boas notas, os professores gostavam de mim, sentia que correspondia bem às minhas expectativas e às responsabilidades e portanto, mesmo sabendo que era uma treta em tantos outros campos, aquele cantinho da minha vida reconfortava-me. Quando comecei trabalhar tive a mesma sensação - acho que sempre fiz bem o meu trabalho, cumprindo com tudo o que me propus e me propuseram e isso concretizava-me muito, ao mesmo tempo que me descansava: ufa, eu era boa em alguma coisa!

Inicialmente, o meu trabalho no jornal tinha uma componente informática muito grande - e eu estava a delirar por estar a trabalhar em informática, a escrever aqui e ali e a lidar com têxtil. Era a receita perfeita para todas as áreas que eu amo. Mas ao longo dos meses acabei por ir escrevendo mais, e mais, e mais. Por um lado é uma coisa boa: é a consagração daquilo que eu acho fazer de melhor, que é escrever; por outro, implica um jornalismo "puro", que eu acho que não faço bem e por isso sinto-me indubitavelmente mais frágil. A quantidade de coisas que tenho aprendido nos últimos meses é imensurável mas uma das coisas que me dá mais gozo é ver como se desenrola uma entrevista ou uma conversa; sempre que ouço ou acompanho os meus colegas numa entrevista, fico quase hipnotizada pela capacidade que eles têm de "arrancar" informações às pessoas, de faze-las dizer certas coisas com perguntas que por vezes não têm nada que ver, de fazer rolar uma conversa normal, descontraída, mas recheada de conteúdo informativo - e ainda assim ser uma troca de diálogos que se ouve com gosto. E também é nesses momentos, em que os vejo fazer essa arte, que percebo (ou acho) que de facto não fui feita para fazer perguntas. Se calhar fui feita para escrever respostas, pensamentos, críticas - mas perguntar não parece ser a minha praia (e isso, confesso, entristece-me).

De qualquer das formas, continuo a tentar - até porque tenho trabalho para fazer e, apesar das perguntas não estarem na ponta da língua, eu esforço-me sempre por fazer o melhor possível. Já percebi que me custa mais falar ao telefone do que pessoalmente, por exemplo; o primeiro contacto com outras pessoas é sempre um drama para mim, mas depois (em muitos casos) acaba por ser gratificante - e tenho passeado por aí, conhecendo fábricas e pessoas que, sinceramente, me acrescentam e me aquecem a alma. Olho para trás e percebo imediatamente que aquilo que vi e ouvi me acrescentou algo, que aprendi alguma coisa e isso é a melhor sensação que se pode ter.

Hoje, por exemplo, fui falar com uma estilista. Como sempre ia um bocadinho apreensiva, mas positiva de que ia correr bem (por aquilo que já conhecia dela). Normalmente, para o artigo que ia lá escrever, despacho uma conversa em quinze minutos, vinte no máximo - e hoje a conversa fluiu tão bem que demorou mais de uma hora. Antes do alinhamento de perguntas que tinha planeado acabei por falar um bocadinho sobre o jornal, os nossos planos para o futuro e até sobre mim. No meio daquilo tudo, e enquanto lhe dizia o que queríamos fazer, os nossos novos projetos e até algumas reportagens que eu tinha curiosidade em fazer, ela diz-me - não em forma de pergunta, mas sim numa afirmação: "nota-se mesmo que gosta do que faz". E eu, nesse momento, respirei de alívio e fiquei tão feliz. Foi a primeira vez que alguém me disse isso - e eu, naquele momento, estava mesmo a adorar o que estava a fazer.

Se calhar, ter língua de perguntador não é tudo. Se calhar, uma pinga de antissociabilidade, a falta de à vontade para falar com pessoas e um não-amor pelo jornalismo conseguem ser ultrapassados por algo maior. Se calhar a paixão que tenho por este mundo basta. 

18
Abr17

O fim da paz nas estradas portuguesas

Carolina

Eu sei que esta época de férias é diabólica para os pais, que por sua vez acaba por ser diabólica para os avós (que eventualmente têm que ficar com os netos) ou até para os tios (que, quando é preciso, tomam o lugar dos avós). Eu agora não me posso queixar, porque este ano houve uma série de fatores que fizeram com que os meus sobrinhos não fossem lá parar a casa on a daily basis - e, de qualquer das formas, eu agora trabalho, portanto já não passaria o dia com as crianças de um lado para o outro.

Mas como trabalhadora que sou, sofro o drama diário de quem vai e vem para o trabalho todos os dias, inevitavelmente naquela hora terrível chamada "hora de ponta" - que é incrivelmente adensada por todas as crianças que vão para a escola com os pais. E nisto, desculpem-me os progenitores desesperados por não saberem onde deixar as crianças, mães que meteram férias e já estão por esta hora a arrancar cabelos, avós que já perderam a paciência há vinte anos atrás ou tias que simplesmente não nasceram para isso (sim, estou aqui a rever-me...) mas, para quem trabalha, estas duas semaninhas (e todas as outras que ainda hão de vir no verão) são assim o paraíso na terra. Não há filas, não há confusão, é sempre abrir até estacionar. Uma pequena maravilha.

Mas pronto, acho que hoje é oficialmente o fim da paz. Adeus estradas desimpedidas, adeus ruas de escolas sem trinta carros estacionados em segunda e terceira fila, adeus aos cinco minutinhos extra na cama! You will be missed! 

07
Abr17

Eu, fazedora de coisas terríveis de última hora, me confesso

Carolina

Sempre fui uma miúda certinha mas nunca gostei de fazer os trabalhos de casa. É verdade e está na altura de confessar aqui os meus pecados. Às vezes, ainda na primária, dizia que me tinha esquecido do caderno nos TPC's quando, na verdade, tinha-me esquecido era da vontade de os fazer. Já mais tarde, adiavaaaaa a todo o custo faze-los até que dava por mim, arrependidíssima a altas horas da noite, a fazer os trabalhos de casa na cama. Chegou até a uma fase em que, consciente do mal que não fazer os trabalhos de casa me fazia, fiz um pacto com a minha colega de carteira: se eu não fizesse os trabalhos de casa de Português (na altura, uma das minhas piores disciplina - e sim, a vida dá muitas voltas) tinha de lhe comprar e dar um chocolate. Ora isto era mau porque 1) sempre fui forreta e não queria comprar chocolates para os outros e 2) porque eu queria mesmo muito comer os chocolates que comprava (achavam que isto da #lontra era de agora? Nã!). E admito: mesmo assim, cheguei a comprar chocolates para lhe dar em forma de consequência.

Isto para dizer que eu tenho a tendência terrível de deixar as coisas que mais me custam fazer para o fim. Como eu detestatava os TPS's adiava-os ad eternum, até não os fazer ou faze-los em cima do joelho. Hoje em dia, ao contrário do que acontecia por vezes nesses tempos, faço sempre as coisas - às vezes tenho crises terríveis antes de as fazer, choro e berro e arrependo-me de me ter comprometido - mas faço sempre. Faltar com a minha palavra é algo que não tolero. Mas lembro-me vivamente do meu irmão e da minha cunhada me tentarem evangelizar para o lado do bem ("faz primeiro os trabalhos de casa e depois vai brincar") e de eu, embora soubesse que era o correto, nunca levar esse lema de vida avante. 

Hoje percebo que faz parte do meu ADN - e não gosto, este stress ainda me mata um dia destes. Já na faculdade era a mesma coisa (embora o problema fosse ainda pior, porque era generalizado: eu não gostava de nada!). Tudo para o fim, um sufuco, privação de sono, ai-meu-deus que isto não vai dar, que vou fazer da minha vida, lá vou eu reprovar, faltam três minutos para o prazo de entrega e uff... entreguei. E depois tenho boa nota, porque trabalhar sobre pressão é claramente a minha cena. 

E agora no trabalho o filme repete-se. Todos os meses lançamos um jornal em papel, a cada mês eu tenho mais coisas para tratar, mais entrevistas para fazer, mais pessoas para ligar e... o caldo está entornado. Trato de tudo o que posso por email, tento sempre fazer a primeira abordagem por escrito... mas as pessoas não respondem e eu aí tenho mesmo de passar para essa arte antiga e terrível que é falar com os outros. Escrevo o que posso, mas fazer contactos é coisa para me custar tanto como ir à depilação - então se for com gente conhecida, que eu estou sempre à espera que me peça um chachet (que eu não tenho) em troca de umas meras palavras ou meia-dúzia de linhas, aí é que eu fico desesperada. E, claro está, deixo sempre para a última. 

A maioria das mulheres têm, durante o mês, aquela semana do demónio que é quando lhes vem o período (eu, por acaso, não sou exemplo); já eu também tenho uma semana de demónio que é quando estamos a fechar o jornal. Por outras palavras, é aquela semana em que eu me apercebo que quer queira, quer não, vou ter mesmooo de ligar a dezenas de pessoas para conseguir entregar o meu trabalho. Enfim. Agora percebo que devia ter dado ouvidos ao meu irmão e à minha cunhada. 

03
Abr17

Posso continuar a viver ou preciso de dormir mais um bocadinho?

Carolina

Não me lembro de escrever tão pouco como tenho escrito na última temporada e isso entristece-me . Há uns anos provavelmente estaria a agoniar, a dizer que isto seria o fim deste projeto que me é tão querido, mas ao menos nisso estou relaxada: sei que é uma fase. Mais do que isso, sei que é em parte o embate da vida adulta. Acabaram-se as abébias, os recursos, as férias de natal, da Páscoa, os dias do Carnaval e as férias grandes, os intervalos, as responsabilidades para cima dos professores, as três faltas por semestre a cada disciplina. E isso, para mim que não gostei da faculdade, é bom: mas, como em todas as mudanças, custa. 

E eu dei muito de mim nos primeiros meses desta aventura. Atirei-me a tudo, defini planos e objetivos; trabalhei aos fins-de-semana, fiz-me escrever aqui todo os dias, planeei limpezas e arrumações no quarto todo, inscrevi-me num PT (a pior ideia do ano), quis ir para o ginásio antes das oito da manhã. Não descansava, nem queria. Tudo era trabalho e tudo eram objetivos porque eu sou feliz a fazer "checks" na minha agenda. Mas esqueci-me que depois não tinha férias, que a vida era diferente, que os ciclos de stress são agora muito mais pequenos, maiores e repetitivos. E as coisas foram caíndo, uma a uma. Primeiro o ginásio, depois a escrita à noite (passei a escrever tudo aos fins-de-semana), a seguir as arrumações. Nesta fase final, cheguei a achar que não conseguia fazer o meu trabalho direito, atormentada pelas coisas que sempre me atormentam (falar com pessoas, ligar para pessoas e essas coisas "maléficas") e, por fim, a escrita. 

Pelo meio aconteceram coisas, claro. As viagens - uma turbulência imensa ao nível emocional e um cansaço enorme ao nível físico - e alguns stresses na família, ao nível da minha saúde e da dos meus. Quando são os outros, a vida pesa-nos nos ombros, mas fazemo-nos de fortes porque há outros que têm de recuperar; quando somos nós a história é outra e, no meu caso, a pintura é ainda pior devido à minha fobia de médicos. Mais do que qualquer complicação de saúde (mínima) que possa ter, o sofrimento emocional supera normalmente qualquer dor física e o stress e o pânico que vivo diariamente tiram-me o fôlego de viver.

Mas no fundo, é acima de tudo cansaço. Tenho dormido muito nos últimos meses. Coisas tão simples como deitar-me no sofá para dormir uma sesta e acabar por lá ficar quatro horas sem dar por isso; ou trocar uma tarde de sol por uma tarde de sofá, ronha e sonos prolongados. Não consigo ver séries ou filmes porque adormeço a meio, o livro continua praticamente intacto na mesinha de cabeceira porque a vontade de ler antes de dormir é inferior ao sono que já tenho quando chego à cama. Mas, para mim, isto não é vida. Acho que escrevi aqui há uns meses algo parecido com "agora que sei o que é isto da felicidade, não quero outra coisa" - e eu quero muito passar ao próximo nível. Dizer "pronto, já está, já caíste, já choraste, já descansaste, agora oupa!". O Verão está aí ao virar da esquina, eu quero ir perder uns quilos ao ginásio, quero estar pronta para desfrutar do momento em que meter as minhas merecidas férias, quero ir acampar, quero ler, quero escrever. E, até lá, quero trabalhar - que é a única coisa que tenho feito, porque é onde canalizo todas as minhas energias e atenções quando as coisas à minha volta não estão tão bem como queria.

Tenho aqui um post que nunca chegou a ir para o ar que se intitula "only work can save us". Para mim - e pelo menos neste emprego, que apesar de não estar dentro da minha zona de conforto me faz feliz, e onde trabalho com pessoas que adoro - é mesmo verdade. Há uns meses alguém comentou aqui dizendo que eu, tão nova!, já tinha uma relação pouco saudável com o trabalho - e eu acho que isto depende muito dos pontos de vista, porque todos somos diferentes e nos movimentamos com diferentes combustíveis, mas eu diria que trabalhar é das coisas que me faz sentir mais viva e realizada nesta vida. Acima de tudo, porque é a área em que sinto que sou boa e onde me consigo superar. Porque em tudo o resto... bom, relativamente a tudo o resto... o melhor é nem olhar com muita atenção. É caso para me dizer que tudo o resto me afunda, enquanto o trabalho me mantém (bem) à tona da água.

Pouco a pouco espero ir reavendo a minha vida, repescando os objetivos que foram caindo ao longo dos meses e deixar este cansaço do demónio nestes primeiros três meses do ano. Com os dias a crescer a cada entardecer, com o relógio a bater cada vez mais perto dos dias quentes de verão... quero a vida boa de volta e quero saborear cada momento como fiz no ano que passou. Estou cansada de estar cansada. Quero continuar.

18
Mar17

Um cartão de visita diferente: sim ou não?

Carolina

Tenho a sorte de trabalhar num sítio super livre e aberto a novas ideias. Aliás, tem muito mais vantagens, estas são apenas duas delas, de um rol muito grande de coisas boas que podia apontar. A minha sorte aqui é indiscutível mas, como sempre, não há nada perfeito neste mundo e, para todos os efeitos, eu trabalho num jornal e aquilo que mais me custa fazer é o papel de jornalista (embora faça muito mais que isso). Eu sempre tive uma veia anti-social acentuada, acho que vou sempre ter, e falar com pessoas é algo que me sai das entranhas, custa-me mesmo muito; e já aprendi que embora tenda a melhorar, isto vai muito por fases e do meu estado de espírito e humor. Nos últimos tempos, em que fui abaixo, senti-me a regredir imenso: voltou a custar-me muito ligar para as pessoas, fazer perguntas, "chatear". Enfim, parvoíces minhas.

Mas vamos ao que interessa: antes de ir para as feiras, onde já sabia que ia fazer muitos contactos, pedi para fazer cartões que me identificassem, para poder trocar endereços de email, números de telemóvel e essas coisas todas. Na altura aquilo que me passou pela cabeça foi aquela coisa básica com o logótipo do jornal, o meu nome e os meus contactos, mas entretanto vieram-me com uma ideia fora da caixa e eu não consegui dizer que não. Então e o que é? Pôr uma foto minha, em criança, na frente do cartão. Para além de ficar giro - não sei quanto a agora, mas quando era miúda tinha uma cara muito fofa -, é um ice-breaker. E, meus amigos, tudo o que eu preciso neste mundo é de algo para começar a conversas!

E assim foi - os meus colegas todos fizeram os cartões clássicos e eu, a miúda lá do sítio, fiquei com cartões com a minha cara lá estampada. Sei que sou suspeita, porque até fui eu que escolhi a foto, mas adorei-os mal lhes pus a vista em cima. Achei-os diferentes e cativantes - e numa altura em que nós estamos com as cabeças sempre ocupadas, com mil e um emails por ler, com o telemóvel sempre a apitar e com a capacidade de concentração cada vez mais a assemelhar-se à de um peixe, tudo o que é preciso é algo que cative e que lembre às pessoas de quem somos. Se calhar não se vão lembrar do meu nome, mas vão-se lembrar da rapariga com o cartão fofo. 

Ou não, não sei. Tive várias reações, enquanto fui distribuindo cartões pelas feiras e mesmo aqui. A família adorou, claro, fez-lhes lembrar o tempo em que eu ainda era uma querida em vez de ser uma chata; relativamente a desconhecidos houve quem simplesmente ignorasse e metesse ao bolso e outros que me perguntaram se era eu, alguns acrescentando que a ideia era muito boa e que a foto era muito querida. É claro que não tenho como saber se é verdade, mas de um modo geral o feedback foi positivo. Curiosamente, da malta mais nova e conhecida, que devia ter uma mente mais aberta, é que às vezes recebi alguns comentários que roçaram a brincadeira mas que não sei até que ponto eram a sério - algumas pessoas disseram, inclusive, ser pouco "profissional".

Mais uma vez reafirmo: o jornal onde trabalho é super aberto e a imagem e o design são portos fortes, que prevalecem e nos distinguem. Falamos sobre moda e têxtil e queremos passar uma imagem renovada daquilo que é, hoje em dia, este setor: que já deixou de ser aquela coisa pesada e "monocromática" de há uns anos. Por isso, a meu ver (e para além de adorar o cartão), penso que é até é coerente com aquilo que somos. Mas fica a questão: divertido e cativante ou pouco profissional?

 

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25
Fev17

Uma semana de verão enganador

Carolina

Esta semana foi divinal no que à meteorologia diz respeito. Parecia verão. Tirei a barriga de misérias e, sempre que pude, pus-me a fazer a fotossíntese - e é quase impossível descrever por palavras o quão bem é que isto me soube e quão bem, efetivamente, me fez.

O mais engraçado é que esta semana de bom tempo fez com que, na minha cabeça, parecesse que o verão estava aí ao virar da esquina. A certa altura pensei para os meus botões "ah, o Senhor de Matosinhos deve estar mesmo aí à porta!". Só que não. O senhor de Matosinhos - uma das maiores festas populares aqui nas redondezas - é entre Maio e Junho... ou seja, ainda falta um par de meses para lá chegarmos. 

Num dos outros dias, depois de jantar, abri a porta para sacudir a toalha e cheirou-me a sardinhas assadas. Para mim, churrascos de sardinhas assadas e febras são o típico sinal de que o verão chegou - adoro receber gente aqui em casa, ir à lota buscar peixe ou ao Continente comprar carne, e ficarmos lá fora pela noite dentro, sem que o frio nos enregele a espinha. Mas enfim: também era psicológico. Ainda não há sardinhas para assar e o nosso barbecue já não se liga há mais de meio ano, por isso foi só uma mera ilusão olfativa.

Outro dos sintomas é que, pela primeira vez desde que trabalho, apeteceu-me ter férias. Pegar na tenda e ir para o Alentejo e para o Algarve. Já ando aqui a magicar para onde quero ir, o que vou ter de comprar, as coisas que tenho de marcar. Apetece-me muito o mar, o sol e a praia do sul. 

Acho que para a semana volta o Inverno, com a sua chuva típica. É a vida. Esta semaninha de verão enganador já foi suficiente para subir o espírito e dar fôlego para os tempos mais frios que ainda temos pela frente, mas já deixou água na boca para os meses quentes que hão-de vir. Pela primeira vez na vida não vou ter dois ou três meses de férias para gozar; a parte boa é que, tendo menos dias de férias, tenho a certeza que não vou desperdiçar nenhum deles e planeio-o vive-los ao máximo, aperta-los até ficarem sem sumo, tirar tudo o que me tiverem para dar. Até lá, vou trabalhando, que esta vida não se faz (só) de sonhos.

22
Fev17

Há um ano tive medo. Há um ano comecei a ser mais feliz.

Carolina

Faz hoje um ano que me iniciei no maravilhoso mundo do trabalho (na altura ainda em regime de estágio) - e digo "maravilhoso" num misto de ironia com realidade. Cresci (e acho que crescemos todos) a ouvir cobras e lagartos sobre o mundo do trabalho; todos nos dizem para aproveitarmos os tempos de escola e de faculdade, que o que vem a seguir é muito pior, e acho que temos tendência a acreditar. Depois de vários anos de escola dolorosos e uma licenciatura também não muito prazerosa, vi a minha vida a andar para trás: se o que vinha a seguir era pior, eu estava tramada literalmente para o resto da vida. No entanto, e apesar dos "saberes das gentes", sempre acreditei que era a trabalhar que sou o melhor de mim. E acho que não me enganei.

Acho que o melhor elogio que posso fazer a este ano de trabalho (quer dizer, 9 meses de trabalho, porque ainda tive direito a férias de verão) é que foram poucos - mesmo muito poucos, provavelmente menos que os dedos de uma mão - os dias em que saí triste de qualquer um dos escritórios onde estive. Tive dias difíceis - os primeiros, por exemplo, doem sempre - mas os seguintes eram sempre melhores. Foram igualmente raros os dias em que acordei e não quis trabalhar, os dias em que fiz o caminho contrariada, os dias em que achei que não tinha nada para dar às entidades com quem trabalho. Errei algumas vezes - chorei quando cheguei a casa após o primeiro raspanete, com razão, que levei - mas acho que nós nos definimos pela forma como lhes damos a volta e pela honestidade e humildade com que os admitimos.

Sinto-me uma privilegiada - por tudo, tudo, tudo o que me rodeia. Logo à partida por ter trabalho e logo a seguir por gostar do trabalho que faço; por trabalhar com pessoas de quem gosto, por gostar do projeto em que estou inserida, por acreditar nele; por conseguir escrever, viajar, falar de moda e têxtil todos os dias, por poder vir almoçar a casa sempre que quero, por poder trabalhar na minha secretária ou na secretária dos outros, por não ter nada "meu" e ser tudo "nosso"; por, em apenas um ano, ter feito amigos (por esta não esperavam, hã?) e, mais do que isso, não ter feito inimigos (é isso que é difícil no mercado de trabalho, não é o que dizem?); por estar rodeada de muito mais pessoas de que gosto do que de pessoas de quem não gosto; por ter liberdade para fazer diferente e por ter dias diferentes todos os dias.

Sou uma sortuda. Nasci com sorte, mas tenho vindo a aprender que isso não é só genético: a sorte cria-se, luta-se, conquista-se; como tudo na vida, é também fruto do trabalho que fazemos ao longo do passar dos dias. E eu tenho feito muito por ela. Na última feira em que estive, já depois de Munique, várias pessoas passaram por mim e cumprimentaram-me pelo nome. A situação era tão embaraçosa quanto gratificante: porque a verdade é que eu não sabia a maioria dos nomes de quem me cumprimentava, mas eles (já) sabiam o meu. E, só isso, já é a vitória que procurava: é precisamente aquilo que vim para aqui fazer, o início do plano de vida que tracei para mim. 

Sei que nem todos os anos vão ser assim, que nós andamos constantemente numa montanha russa puxada por alguém com um humor instável e, por vezes, dotado de um sadismo cruel. Ainda assim, é impossível não querer acordar todos os dias para saber o que o futuro me reserva. Se isto é o início de uma vida, então eu quero mais. Muito mais. Que ela venha.

 

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08
Fev17

Este post é sobre uma viagem, mas não é um diário de bordo

Carolina

Isto tem sido uma viagem e tanto - muito mais emocional do que propriamente de passeio. Tem sido duro e tão bom ao mesmo tempo. Por um lado é a prova de que já sou adulta, que não preciso de álcool para me sentir crescida (desculpem, foi uma private joke para o post anterior); por outro também foi a evidência de que embora já sobreviva sozinha, estou melhor no colo dos que me querem, porque é o único sítio do mundo onde me sinto querida e amada.

Esta viagem é pura e simplesmente uma daquelas experiências a que chamamos "crescer". Às vezes dói como o caraças, outras sabe a liberdade pura. Passei por estes dois extremos tantas vezes ao longo destes dias, em que lutava contra o cansaço, o medo, o desconhecido, que dei por mim a procurar muitas vezes o conforto na única coisa que aqui me era conhecida e confortável, porque vivo com ela há anos: a solidão. Nos momentos de aperto - e não só - escondia-me nos arrumos atrás do computador, com o trabalho como pano de fundo, e limitava-me a relaxar e a racionalizar.

Não devia e acho que esse é um dos meus grandes problemas - mas também uma das minhas virtudes, quando é feita no momento certo. Não consigo não racionalizar aquilo que sinto e que penso, o que por vezes torna as coisas mais confusas do que já são. No meio de tudo isto, foi o factor social que mais mexeu comigo: a quantidade de pessoas que tive de me relacionar, falar, privar, deu-me cabo do sistema. E, chegada ao fim da feira, mal pus os pés do metro já a caminho do hotel, dei por mim com uma necessidade imensa de escrever, com as lágrimas a quererem escorregar-me pela cara a abaixo e com uma vontade louca de ouvir as músicas que me aquecem a alma, porque só assim é que iria conseguir despir-me de tudo isto que me invadiu nos últimos dias. Adorava, a partir daquele momento, viver esta cidade, descobri-la e arquivar esta experiência e estuda-la mais tarde: mas há coisas que nos ultrapassam, que nos passam a ferro, que nos deixam sem folga para respirar. E, naquela carruagem, o que senti não era saudade, não era tristeza, não era medo: foi descompressão, foi aceitação, foi alívio e foi dor, por ter andado a remexer - ainda que de forma despropositada - em partes de mim que me doem particularmente. 

Um dia alguém me deixou aqui um comentário que me fez chorar as pedras da calçada. Não por ser um hater; pelo contrário, foi por ser alguém que, só por me ler, pareceu conhecer-me melhor do que eu própria e dizer coisas que eu não queria admitir. Um dos meus filmes preferidos é o "The perks of being a wallflower", que fala basicamente de alguém que não se integra por problemas interiores e acaba por se meter num grupo, que viria a ser o dos seus amigos, mas que aos olhos dos outros é completamente louco. Numa das frases do filme, proferida por Emma Watson, ela diz "we accept the love we think we deserve". E no fim desse segmento, eu chorei que me matei, porque isso foi como uma flecha que me atingiu no sítio certo. E doeu muito.

Digo muitas vezes que sou anti-social e muitos vêm dizer-me que não é verdade. Tudo bem, pode não ser: mas os problemas de socialização existem, de facto, em mim, e sempre foram o ponto fraco da minha vida. Sofri muito, com muita gente, e isso mantém-se até hoje. Sinto-me incapaz de confiar ou me entregar a alguém, mesmo que seja uma pessoa em que ache que deva investir. O medo de não sair de poços demasiado profundos como os que já caí fala demasiado alto e acabo sempre por perder quem gosto, de uma forma ou de outra.

Isto custa a escrever, mas já estou para o dizer há muito - e foi, aliás, aquilo que me deixaram um dia na minha caixa de comentários: sinto que não sei amar nem ser amada para além daqueles com quem já nasci. Num misto de falta de confiança em mim própria e também na confiança dos outros, acho sempre - e sempre, é sempre - que as pessoas não gostam de mim, não gostam da minha companhia ou de estar comigo. E sinto que aos 21 anos desisti de esperar outra coisa por parte delas; mas, de forma igualmente proporcional, faço o máximo para que gostem. É estranho, algo contraditório, mas que não consigo explicar na sua plenitude. E acima de tudo é triste.

Nesta semana que tive fora, esta realidade embateu contra mim como se de um camião se tratasse. O contacto com pessoas novas, as exigências, as diferentes formas de ser e, acima de tudo, a necessidade de me agarrar a alguém para não me sentir abandonada, fez-me perceber que tenho uma série de barreiras na minha vida que me causam imensa dor, mas que eu vivo com elas há tantos anos que já nem noto. Tenho pensado muito, colocado muitas das minhas teorias à prova e tantas outras coisas em perspetiva.

Esta não foi uma viagem de lazer, e por muitos mais dias que ficasse, nunca seria. E para além de ter sido de muito trabalho, muito cansaço e muitas olheiras, esta foi acima de tudo uma viagem de auto-descoberta, tão dolorosa como produtiva. Por um lado sei que foi valiosa, mas por outro só quero voltar ao ninho, e reorganizar todas estas gavetas dolorosas que abri e tornar a fecha-las a sete chaves durante tempo indeterminado. Porque este exercício, apesar de bom, cansa-me a alma.

06
Fev17

O álcool e a sua micro cultura do demónio

Carolina

Penso muitas vezes em como é engraçado algumas ruas terem quase uma cultura própria. Por exemplo, na minha cidade há uma mini avenida onde se tornou hábito toda a gente estacionar em segunda fila; mal passa um carro pelo meio, mas quase ninguém reclama, porque já faz parte. Aliás, chega ao ponto de muitos já nem estacionarem nos lugares assinalados mas sim em segunda fila, porque sabem que mais cedo ou mais tarde vai ficar entalados por outros iguais a eles. E podia dar este como outros exemplos, porque isto acontece em todo o lado: há hábitos que se criam por repetição e que ficam, mesmo que saiam da norma e toda a gente veja que está errado.
Isto é a prova de que tudo tem uma cultura própria, mesmo as coisas mais insignificantes. E uma das coisas que mais me irrita na cultura portuguesa é a do álcool: porque se tu não bebes álcool, não és adulta. E eu estou a sentir isso tanto na pele, agora que preciso - e tenho - de me integrar em grupos com pessoas mais velhas... quando almoçamos em qualquer lado, o vinho é um habitué. E, para mim...: água, por favor. E a resposta é sempre um olhar julgador, a maior parte das vezes acompanhados por comentários desnecessários - porque, para umas coisas, temos de ter tento na língua, noutras não. Um dos clássicos é a do "ah, ainda és miúda, isso passa-te!".
Desculpem-me, mas fodasse! Porquê que eu estou a ser julgada e muitas vezes menosprezada por não ter um hábito que comprovadamente faz mal, engorda, nos tira capacidades e nos coloca num estado fora do natural? Porquê que não é aceite que uma pessoa "crescida" não queira tocar em álcool, independentemente das suas razões?
E sim, eu tenho-as, mas não sou obrigada a partilha-las com o mundo. Na verdade são muitas, um conjunto de racionais com emocionais, mas as pessoas esquecem-se inclusivamente que o álcool pode ser uma doença, tratada com extremo tabu, e que pode haver traumas e razões associadas que nos levam a tomar certas posições. Há uma série de coisas que nunca se perguntam, que nunca se põem em causa, principalmente em assuntos relacionados com morte, doenças, sexo, sei lá... mas em relação ao álcool, tenho sempre que frisar nos meus primeiros encontros que não bebo. "Mas prefere branco a tinto?"; "uma cervejinha então?"; "e só vai beber mesmo água?!". Lá está, são estas micro-culturas que vivem dentro de nós sem sequer darmos conta.
Porque eu não bebo álcool, independentemente do tipo ou da ocasião. Nunca bebo, não gosto de ver os outros beber - e sim, vinho inclui-se - e ponho praticamente as minhas mãos no fogo em como não vou consumir álcool até ao fim da minha vida. Até porque acho que estou a ir no sentido contrário ao normal: em vez de amenizar a minha posição em relação a este tipo de tópicos, estou a tender a piorar. Por isso, a única coisa que peço é respeito. Porque se até as ruas têm as suas próprias manhas e culturas, nós temos muito mais - e não há que buzinar só por alguém fazer diferente e gostar de estar sempre na total posse das suas capacidades.

03
Fev17

Ser badass, um conceito

Carolina

Escrevo-vos do aeroporto de Madrid, onde espero pelo meu avião. Cheguei cá ontem, naquela que foi a minha primeira viagem de trabalho, e parto daqui a umas horas para Munique. Na verdade, a viagem de trabalho inclui-se num enorme lote de coisas que nas últimas 48 horas fiz pela primeira vez: a minha primeira viagem "sem rede" (já tinha viajado sozinha, mas sempre com pessoas à espera no destino), a primeira feira profissional, o meu primeiro contacto direto com as empresas e tudo o que isso envolve. É uma sensação um bocadinho avassaladora. 

Em conjunto com alguns problemas que Janeiro me trouxe, a expectativa e o medo destes dias fazia com que o meu estômago desse cambalhotas o dia inteiro e o meu sistema nervoso andasse todo escangalhado. Não tinha medo de estar sozinha, mas sim de não corresponder às expectativas ou de fazer um bom trabalho - defraudar as esperanças que os outros depositam em mim é algo com que lido sinceramente mal. E aqui não se trata de sair da minha zona de conforto: porque isso, por estes dias e com este trabalho, já é por onde habitualmente ando; esta aventura eleva-se a todo um outro nível. Se eu estava a uns metritos da minha zona de conforto, fora dela mas sem a perder de vista, agora fui catapultada para uma zona onde nem sei o que é isso de conforto, comodismo ou relaxamento. Tudo me é estranho, tudo é um desafio, tudo é novo. Sou a mais nova que aqui anda - consigo ser mais nova que as hospedeiras que distribuem panfletos, bolas! - e isto é um mundo tão grande, com tanta gente, com tantos metros quadrados, com tantas línguas, que uma estreante como eu se sente uma verdadeira formiga.

Por saber disto é que estava estava a morrer de medo. Mas a verdade é que, como noutro par de ocasiões, há um clique que se dá em mim (acho que é o botão do "desenrasca-te, mexe-te e faz acontecer") e tudo isto se evapora e eu simplesmente faço. Como dizem os antigos, a necessidade aguça o engenho, e eu que detesto o meu portunhol já o falava quase como língua materna. E o exemplo da língua aplica-se a tudo o resto: à minha espécie de jornalismo, ao meu medo de falar com pessoas. Faço-o inevitavelmente de forma inexperiente, por isso às vezes tenho de repetir; mas faço. Dei por mim a meter conversa com as pessoas, a perguntar coisas sobre os seus negócios e a saber a história de vida daquelas empresas; a aceitar jantar com pessoas que tinha acabado de conhecer (ou, na verdade, nem sequer conhecia) e no dia seguinte tomar o pequeno-almoço com elas. E depois chegar ao fim do dia, com umas olheiras estilo panda e o corpo dorido, deitar-me na cama com o meu livro (que me devolve o cheiro a casa) e aí pensar: calma aí, que extraterrestre é que eu encarnei hoje? Quem foi esta pessoa?

Vão ser dias tão difíceis como interessantes de analisar, estes. Passo por todas as sensações em apenas 24 horas: desespero num momento em que vejo que não vou conseguir, euforia quando percebo que afinal consegui, frustração quando afinal vejo que não resultou tão bem como queria, orgulho por mesmo assim ter tentado, saudades de um abraço que me apoie quando a moral está em baixo, entusiasmo por estar sozinha e independente e poder fazer o que quiser da minha vida.

Acho que sou muito racional e organizada, principalmente a nível mental, mas este é um daqueles embates com a realidade que nos abana os alicerces. Pode parecer só uma experiência, mas há muita coisa que daqui se vai perceber. Se eu seguir o plano que delineei para mim, isto vai fazer parte da minha vida de uma forma constante. E falo de tudo: de estar sozinha, independentemente de estar ou não só; de passar a vida metida em aviões e em hotéis; e no cansaço de estar em feiras, monta-las, desmonta-las, empacota-las... e depois repetir tudo de novo (aqui já na óptica de quem expõem e não de "jornalista" e de apoio logístico a quem expõem). 

Mas, acima de tudo, sinto orgulho. Não sou capaz de me meter numa montanha russa, não gosto de parques de diversões, tenho medo de ratos, detesto filmes de terror e sou incapaz de ir fechar a portada do meu quarto se ouvir um barulhinho. No entanto, na minha primeira oportunidade de trabalho, atirei-me de cabeça mesmo sem saber no que me estava a meter - e depois percebi que era afinal uma área que nunca quis, que não gostava e que me custava fazer; depois perguntam-me se quero ir a Madrid e a Munique, sem me dizerem datas, tarefas ou expectativas - e eu torno a dizer que sim. E vou. Vim. E faço. E vou fazer acontecer. Por isso, da próxima vez que me chamarem medricas por não me meter numa daquelas diversões numa qualquer romaria, eu sorrio e aceno, pensando interiormente que já fiz coisas muito mais badass e desafiantes que tudo isso. Mesmo que antes sofra, que no momento doa e que ache que não vou conseguir. Estou cá para provar o contrário.

 

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