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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

18
Mar17

Um cartão de visita diferente: sim ou não?

Carolina

Tenho a sorte de trabalhar num sítio super livre e aberto a novas ideias. Aliás, tem muito mais vantagens, estas são apenas duas delas, de um rol muito grande de coisas boas que podia apontar. A minha sorte aqui é indiscutível mas, como sempre, não há nada perfeito neste mundo e, para todos os efeitos, eu trabalho num jornal e aquilo que mais me custa fazer é o papel de jornalista (embora faça muito mais que isso). Eu sempre tive uma veia anti-social acentuada, acho que vou sempre ter, e falar com pessoas é algo que me sai das entranhas, custa-me mesmo muito; e já aprendi que embora tenda a melhorar, isto vai muito por fases e do meu estado de espírito e humor. Nos últimos tempos, em que fui abaixo, senti-me a regredir imenso: voltou a custar-me muito ligar para as pessoas, fazer perguntas, "chatear". Enfim, parvoíces minhas.

Mas vamos ao que interessa: antes de ir para as feiras, onde já sabia que ia fazer muitos contactos, pedi para fazer cartões que me identificassem, para poder trocar endereços de email, números de telemóvel e essas coisas todas. Na altura aquilo que me passou pela cabeça foi aquela coisa básica com o logótipo do jornal, o meu nome e os meus contactos, mas entretanto vieram-me com uma ideia fora da caixa e eu não consegui dizer que não. Então e o que é? Pôr uma foto minha, em criança, na frente do cartão. Para além de ficar giro - não sei quanto a agora, mas quando era miúda tinha uma cara muito fofa -, é um ice-breaker. E, meus amigos, tudo o que eu preciso neste mundo é de algo para começar a conversas!

E assim foi - os meus colegas todos fizeram os cartões clássicos e eu, a miúda lá do sítio, fiquei com cartões com a minha cara lá estampada. Sei que sou suspeita, porque até fui eu que escolhi a foto, mas adorei-os mal lhes pus a vista em cima. Achei-os diferentes e cativantes - e numa altura em que nós estamos com as cabeças sempre ocupadas, com mil e um emails por ler, com o telemóvel sempre a apitar e com a capacidade de concentração cada vez mais a assemelhar-se à de um peixe, tudo o que é preciso é algo que cative e que lembre às pessoas de quem somos. Se calhar não se vão lembrar do meu nome, mas vão-se lembrar da rapariga com o cartão fofo. 

Ou não, não sei. Tive várias reações, enquanto fui distribuindo cartões pelas feiras e mesmo aqui. A família adorou, claro, fez-lhes lembrar o tempo em que eu ainda era uma querida em vez de ser uma chata; relativamente a desconhecidos houve quem simplesmente ignorasse e metesse ao bolso e outros que me perguntaram se era eu, alguns acrescentando que a ideia era muito boa e que a foto era muito querida. É claro que não tenho como saber se é verdade, mas de um modo geral o feedback foi positivo. Curiosamente, da malta mais nova e conhecida, que devia ter uma mente mais aberta, é que às vezes recebi alguns comentários que roçaram a brincadeira mas que não sei até que ponto eram a sério - algumas pessoas disseram, inclusive, ser pouco "profissional".

Mais uma vez reafirmo: o jornal onde trabalho é super aberto e a imagem e o design são portos fortes, que prevalecem e nos distinguem. Falamos sobre moda e têxtil e queremos passar uma imagem renovada daquilo que é, hoje em dia, este setor: que já deixou de ser aquela coisa pesada e "monocromática" de há uns anos. Por isso, a meu ver (e para além de adorar o cartão), penso que é até é coerente com aquilo que somos. Mas fica a questão: divertido e cativante ou pouco profissional?

 

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25
Fev17

Uma semana de verão enganador

Carolina

Esta semana foi divinal no que à meteorologia diz respeito. Parecia verão. Tirei a barriga de misérias e, sempre que pude, pus-me a fazer a fotossíntese - e é quase impossível descrever por palavras o quão bem é que isto me soube e quão bem, efetivamente, me fez.

O mais engraçado é que esta semana de bom tempo fez com que, na minha cabeça, parecesse que o verão estava aí ao virar da esquina. A certa altura pensei para os meus botões "ah, o Senhor de Matosinhos deve estar mesmo aí à porta!". Só que não. O senhor de Matosinhos - uma das maiores festas populares aqui nas redondezas - é entre Maio e Junho... ou seja, ainda falta um par de meses para lá chegarmos. 

Num dos outros dias, depois de jantar, abri a porta para sacudir a toalha e cheirou-me a sardinhas assadas. Para mim, churrascos de sardinhas assadas e febras são o típico sinal de que o verão chegou - adoro receber gente aqui em casa, ir à lota buscar peixe ou ao Continente comprar carne, e ficarmos lá fora pela noite dentro, sem que o frio nos enregele a espinha. Mas enfim: também era psicológico. Ainda não há sardinhas para assar e o nosso barbecue já não se liga há mais de meio ano, por isso foi só uma mera ilusão olfativa.

Outro dos sintomas é que, pela primeira vez desde que trabalho, apeteceu-me ter férias. Pegar na tenda e ir para o Alentejo e para o Algarve. Já ando aqui a magicar para onde quero ir, o que vou ter de comprar, as coisas que tenho de marcar. Apetece-me muito o mar, o sol e a praia do sul. 

Acho que para a semana volta o Inverno, com a sua chuva típica. É a vida. Esta semaninha de verão enganador já foi suficiente para subir o espírito e dar fôlego para os tempos mais frios que ainda temos pela frente, mas já deixou água na boca para os meses quentes que hão-de vir. Pela primeira vez na vida não vou ter dois ou três meses de férias para gozar; a parte boa é que, tendo menos dias de férias, tenho a certeza que não vou desperdiçar nenhum deles e planeio-o vive-los ao máximo, aperta-los até ficarem sem sumo, tirar tudo o que me tiverem para dar. Até lá, vou trabalhando, que esta vida não se faz (só) de sonhos.

22
Fev17

Há um ano tive medo. Há um ano comecei a ser mais feliz.

Carolina

Faz hoje um ano que me iniciei no maravilhoso mundo do trabalho (na altura ainda em regime de estágio) - e digo "maravilhoso" num misto de ironia com realidade. Cresci (e acho que crescemos todos) a ouvir cobras e lagartos sobre o mundo do trabalho; todos nos dizem para aproveitarmos os tempos de escola e de faculdade, que o que vem a seguir é muito pior, e acho que temos tendência a acreditar. Depois de vários anos de escola dolorosos e uma licenciatura também não muito prazerosa, vi a minha vida a andar para trás: se o que vinha a seguir era pior, eu estava tramada literalmente para o resto da vida. No entanto, e apesar dos "saberes das gentes", sempre acreditei que era a trabalhar que sou o melhor de mim. E acho que não me enganei.

Acho que o melhor elogio que posso fazer a este ano de trabalho (quer dizer, 9 meses de trabalho, porque ainda tive direito a férias de verão) é que foram poucos - mesmo muito poucos, provavelmente menos que os dedos de uma mão - os dias em que saí triste de qualquer um dos escritórios onde estive. Tive dias difíceis - os primeiros, por exemplo, doem sempre - mas os seguintes eram sempre melhores. Foram igualmente raros os dias em que acordei e não quis trabalhar, os dias em que fiz o caminho contrariada, os dias em que achei que não tinha nada para dar às entidades com quem trabalho. Errei algumas vezes - chorei quando cheguei a casa após o primeiro raspanete, com razão, que levei - mas acho que nós nos definimos pela forma como lhes damos a volta e pela honestidade e humildade com que os admitimos.

Sinto-me uma privilegiada - por tudo, tudo, tudo o que me rodeia. Logo à partida por ter trabalho e logo a seguir por gostar do trabalho que faço; por trabalhar com pessoas de quem gosto, por gostar do projeto em que estou inserida, por acreditar nele; por conseguir escrever, viajar, falar de moda e têxtil todos os dias, por poder vir almoçar a casa sempre que quero, por poder trabalhar na minha secretária ou na secretária dos outros, por não ter nada "meu" e ser tudo "nosso"; por, em apenas um ano, ter feito amigos (por esta não esperavam, hã?) e, mais do que isso, não ter feito inimigos (é isso que é difícil no mercado de trabalho, não é o que dizem?); por estar rodeada de muito mais pessoas de que gosto do que de pessoas de quem não gosto; por ter liberdade para fazer diferente e por ter dias diferentes todos os dias.

Sou uma sortuda. Nasci com sorte, mas tenho vindo a aprender que isso não é só genético: a sorte cria-se, luta-se, conquista-se; como tudo na vida, é também fruto do trabalho que fazemos ao longo do passar dos dias. E eu tenho feito muito por ela. Na última feira em que estive, já depois de Munique, várias pessoas passaram por mim e cumprimentaram-me pelo nome. A situação era tão embaraçosa quanto gratificante: porque a verdade é que eu não sabia a maioria dos nomes de quem me cumprimentava, mas eles (já) sabiam o meu. E, só isso, já é a vitória que procurava: é precisamente aquilo que vim para aqui fazer, o início do plano de vida que tracei para mim. 

Sei que nem todos os anos vão ser assim, que nós andamos constantemente numa montanha russa puxada por alguém com um humor instável e, por vezes, dotado de um sadismo cruel. Ainda assim, é impossível não querer acordar todos os dias para saber o que o futuro me reserva. Se isto é o início de uma vida, então eu quero mais. Muito mais. Que ela venha.

 

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08
Fev17

Este post é sobre uma viagem, mas não é um diário de bordo

Carolina

Isto tem sido uma viagem e tanto - muito mais emocional do que propriamente de passeio. Tem sido duro e tão bom ao mesmo tempo. Por um lado é a prova de que já sou adulta, que não preciso de álcool para me sentir crescida (desculpem, foi uma private joke para o post anterior); por outro também foi a evidência de que embora já sobreviva sozinha, estou melhor no colo dos que me querem, porque é o único sítio do mundo onde me sinto querida e amada.

Esta viagem é pura e simplesmente uma daquelas experiências a que chamamos "crescer". Às vezes dói como o caraças, outras sabe a liberdade pura. Passei por estes dois extremos tantas vezes ao longo destes dias, em que lutava contra o cansaço, o medo, o desconhecido, que dei por mim a procurar muitas vezes o conforto na única coisa que aqui me era conhecida e confortável, porque vivo com ela há anos: a solidão. Nos momentos de aperto - e não só - escondia-me nos arrumos atrás do computador, com o trabalho como pano de fundo, e limitava-me a relaxar e a racionalizar.

Não devia e acho que esse é um dos meus grandes problemas - mas também uma das minhas virtudes, quando é feita no momento certo. Não consigo não racionalizar aquilo que sinto e que penso, o que por vezes torna as coisas mais confusas do que já são. No meio de tudo isto, foi o factor social que mais mexeu comigo: a quantidade de pessoas que tive de me relacionar, falar, privar, deu-me cabo do sistema. E, chegada ao fim da feira, mal pus os pés do metro já a caminho do hotel, dei por mim com uma necessidade imensa de escrever, com as lágrimas a quererem escorregar-me pela cara a abaixo e com uma vontade louca de ouvir as músicas que me aquecem a alma, porque só assim é que iria conseguir despir-me de tudo isto que me invadiu nos últimos dias. Adorava, a partir daquele momento, viver esta cidade, descobri-la e arquivar esta experiência e estuda-la mais tarde: mas há coisas que nos ultrapassam, que nos passam a ferro, que nos deixam sem folga para respirar. E, naquela carruagem, o que senti não era saudade, não era tristeza, não era medo: foi descompressão, foi aceitação, foi alívio e foi dor, por ter andado a remexer - ainda que de forma despropositada - em partes de mim que me doem particularmente. 

Um dia alguém me deixou aqui um comentário que me fez chorar as pedras da calçada. Não por ser um hater; pelo contrário, foi por ser alguém que, só por me ler, pareceu conhecer-me melhor do que eu própria e dizer coisas que eu não queria admitir. Um dos meus filmes preferidos é o "The perks of being a wallflower", que fala basicamente de alguém que não se integra por problemas interiores e acaba por se meter num grupo, que viria a ser o dos seus amigos, mas que aos olhos dos outros é completamente louco. Numa das frases do filme, proferida por Emma Watson, ela diz "we accept the love we think we deserve". E no fim desse segmento, eu chorei que me matei, porque isso foi como uma flecha que me atingiu no sítio certo. E doeu muito.

Digo muitas vezes que sou anti-social e muitos vêm dizer-me que não é verdade. Tudo bem, pode não ser: mas os problemas de socialização existem, de facto, em mim, e sempre foram o ponto fraco da minha vida. Sofri muito, com muita gente, e isso mantém-se até hoje. Sinto-me incapaz de confiar ou me entregar a alguém, mesmo que seja uma pessoa em que ache que deva investir. O medo de não sair de poços demasiado profundos como os que já caí fala demasiado alto e acabo sempre por perder quem gosto, de uma forma ou de outra.

Isto custa a escrever, mas já estou para o dizer há muito - e foi, aliás, aquilo que me deixaram um dia na minha caixa de comentários: sinto que não sei amar nem ser amada para além daqueles com quem já nasci. Num misto de falta de confiança em mim própria e também na confiança dos outros, acho sempre - e sempre, é sempre - que as pessoas não gostam de mim, não gostam da minha companhia ou de estar comigo. E sinto que aos 21 anos desisti de esperar outra coisa por parte delas; mas, de forma igualmente proporcional, faço o máximo para que gostem. É estranho, algo contraditório, mas que não consigo explicar na sua plenitude. E acima de tudo é triste.

Nesta semana que tive fora, esta realidade embateu contra mim como se de um camião se tratasse. O contacto com pessoas novas, as exigências, as diferentes formas de ser e, acima de tudo, a necessidade de me agarrar a alguém para não me sentir abandonada, fez-me perceber que tenho uma série de barreiras na minha vida que me causam imensa dor, mas que eu vivo com elas há tantos anos que já nem noto. Tenho pensado muito, colocado muitas das minhas teorias à prova e tantas outras coisas em perspetiva.

Esta não foi uma viagem de lazer, e por muitos mais dias que ficasse, nunca seria. E para além de ter sido de muito trabalho, muito cansaço e muitas olheiras, esta foi acima de tudo uma viagem de auto-descoberta, tão dolorosa como produtiva. Por um lado sei que foi valiosa, mas por outro só quero voltar ao ninho, e reorganizar todas estas gavetas dolorosas que abri e tornar a fecha-las a sete chaves durante tempo indeterminado. Porque este exercício, apesar de bom, cansa-me a alma.

06
Fev17

O álcool e a sua micro cultura do demónio

Carolina

Penso muitas vezes em como é engraçado algumas ruas terem quase uma cultura própria. Por exemplo, na minha cidade há uma mini avenida onde se tornou hábito toda a gente estacionar em segunda fila; mal passa um carro pelo meio, mas quase ninguém reclama, porque já faz parte. Aliás, chega ao ponto de muitos já nem estacionarem nos lugares assinalados mas sim em segunda fila, porque sabem que mais cedo ou mais tarde vai ficar entalados por outros iguais a eles. E podia dar este como outros exemplos, porque isto acontece em todo o lado: há hábitos que se criam por repetição e que ficam, mesmo que saiam da norma e toda a gente veja que está errado.
Isto é a prova de que tudo tem uma cultura própria, mesmo as coisas mais insignificantes. E uma das coisas que mais me irrita na cultura portuguesa é a do álcool: porque se tu não bebes álcool, não és adulta. E eu estou a sentir isso tanto na pele, agora que preciso - e tenho - de me integrar em grupos com pessoas mais velhas... quando almoçamos em qualquer lado, o vinho é um habitué. E, para mim...: água, por favor. E a resposta é sempre um olhar julgador, a maior parte das vezes acompanhados por comentários desnecessários - porque, para umas coisas, temos de ter tento na língua, noutras não. Um dos clássicos é a do "ah, ainda és miúda, isso passa-te!".
Desculpem-me, mas fodasse! Porquê que eu estou a ser julgada e muitas vezes menosprezada por não ter um hábito que comprovadamente faz mal, engorda, nos tira capacidades e nos coloca num estado fora do natural? Porquê que não é aceite que uma pessoa "crescida" não queira tocar em álcool, independentemente das suas razões?
E sim, eu tenho-as, mas não sou obrigada a partilha-las com o mundo. Na verdade são muitas, um conjunto de racionais com emocionais, mas as pessoas esquecem-se inclusivamente que o álcool pode ser uma doença, tratada com extremo tabu, e que pode haver traumas e razões associadas que nos levam a tomar certas posições. Há uma série de coisas que nunca se perguntam, que nunca se põem em causa, principalmente em assuntos relacionados com morte, doenças, sexo, sei lá... mas em relação ao álcool, tenho sempre que frisar nos meus primeiros encontros que não bebo. "Mas prefere branco a tinto?"; "uma cervejinha então?"; "e só vai beber mesmo água?!". Lá está, são estas micro-culturas que vivem dentro de nós sem sequer darmos conta.
Porque eu não bebo álcool, independentemente do tipo ou da ocasião. Nunca bebo, não gosto de ver os outros beber - e sim, vinho inclui-se - e ponho praticamente as minhas mãos no fogo em como não vou consumir álcool até ao fim da minha vida. Até porque acho que estou a ir no sentido contrário ao normal: em vez de amenizar a minha posição em relação a este tipo de tópicos, estou a tender a piorar. Por isso, a única coisa que peço é respeito. Porque se até as ruas têm as suas próprias manhas e culturas, nós temos muito mais - e não há que buzinar só por alguém fazer diferente e gostar de estar sempre na total posse das suas capacidades.

03
Fev17

Ser badass, um conceito

Carolina

Escrevo-vos do aeroporto de Madrid, onde espero pelo meu avião. Cheguei cá ontem, naquela que foi a minha primeira viagem de trabalho, e parto daqui a umas horas para Munique. Na verdade, a viagem de trabalho inclui-se num enorme lote de coisas que nas últimas 48 horas fiz pela primeira vez: a minha primeira viagem "sem rede" (já tinha viajado sozinha, mas sempre com pessoas à espera no destino), a primeira feira profissional, o meu primeiro contacto direto com as empresas e tudo o que isso envolve. É uma sensação um bocadinho avassaladora. 

Em conjunto com alguns problemas que Janeiro me trouxe, a expectativa e o medo destes dias fazia com que o meu estômago desse cambalhotas o dia inteiro e o meu sistema nervoso andasse todo escangalhado. Não tinha medo de estar sozinha, mas sim de não corresponder às expectativas ou de fazer um bom trabalho - defraudar as esperanças que os outros depositam em mim é algo com que lido sinceramente mal. E aqui não se trata de sair da minha zona de conforto: porque isso, por estes dias e com este trabalho, já é por onde habitualmente ando; esta aventura eleva-se a todo um outro nível. Se eu estava a uns metritos da minha zona de conforto, fora dela mas sem a perder de vista, agora fui catapultada para uma zona onde nem sei o que é isso de conforto, comodismo ou relaxamento. Tudo me é estranho, tudo é um desafio, tudo é novo. Sou a mais nova que aqui anda - consigo ser mais nova que as hospedeiras que distribuem panfletos, bolas! - e isto é um mundo tão grande, com tanta gente, com tantos metros quadrados, com tantas línguas, que uma estreante como eu se sente uma verdadeira formiga.

Por saber disto é que estava estava a morrer de medo. Mas a verdade é que, como noutro par de ocasiões, há um clique que se dá em mim (acho que é o botão do "desenrasca-te, mexe-te e faz acontecer") e tudo isto se evapora e eu simplesmente faço. Como dizem os antigos, a necessidade aguça o engenho, e eu que detesto o meu portunhol já o falava quase como língua materna. E o exemplo da língua aplica-se a tudo o resto: à minha espécie de jornalismo, ao meu medo de falar com pessoas. Faço-o inevitavelmente de forma inexperiente, por isso às vezes tenho de repetir; mas faço. Dei por mim a meter conversa com as pessoas, a perguntar coisas sobre os seus negócios e a saber a história de vida daquelas empresas; a aceitar jantar com pessoas que tinha acabado de conhecer (ou, na verdade, nem sequer conhecia) e no dia seguinte tomar o pequeno-almoço com elas. E depois chegar ao fim do dia, com umas olheiras estilo panda e o corpo dorido, deitar-me na cama com o meu livro (que me devolve o cheiro a casa) e aí pensar: calma aí, que extraterrestre é que eu encarnei hoje? Quem foi esta pessoa?

Vão ser dias tão difíceis como interessantes de analisar, estes. Passo por todas as sensações em apenas 24 horas: desespero num momento em que vejo que não vou conseguir, euforia quando percebo que afinal consegui, frustração quando afinal vejo que não resultou tão bem como queria, orgulho por mesmo assim ter tentado, saudades de um abraço que me apoie quando a moral está em baixo, entusiasmo por estar sozinha e independente e poder fazer o que quiser da minha vida.

Acho que sou muito racional e organizada, principalmente a nível mental, mas este é um daqueles embates com a realidade que nos abana os alicerces. Pode parecer só uma experiência, mas há muita coisa que daqui se vai perceber. Se eu seguir o plano que delineei para mim, isto vai fazer parte da minha vida de uma forma constante. E falo de tudo: de estar sozinha, independentemente de estar ou não só; de passar a vida metida em aviões e em hotéis; e no cansaço de estar em feiras, monta-las, desmonta-las, empacota-las... e depois repetir tudo de novo (aqui já na óptica de quem expõem e não de "jornalista" e de apoio logístico a quem expõem). 

Mas, acima de tudo, sinto orgulho. Não sou capaz de me meter numa montanha russa, não gosto de parques de diversões, tenho medo de ratos, detesto filmes de terror e sou incapaz de ir fechar a portada do meu quarto se ouvir um barulhinho. No entanto, na minha primeira oportunidade de trabalho, atirei-me de cabeça mesmo sem saber no que me estava a meter - e depois percebi que era afinal uma área que nunca quis, que não gostava e que me custava fazer; depois perguntam-me se quero ir a Madrid e a Munique, sem me dizerem datas, tarefas ou expectativas - e eu torno a dizer que sim. E vou. Vim. E faço. E vou fazer acontecer. Por isso, da próxima vez que me chamarem medricas por não me meter numa daquelas diversões numa qualquer romaria, eu sorrio e aceno, pensando interiormente que já fiz coisas muito mais badass e desafiantes que tudo isso. Mesmo que antes sofra, que no momento doa e que ache que não vou conseguir. Estou cá para provar o contrário.

 

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29
Jan17

O luxo que é ter tempo

Carolina

Eu acho que uma das maiores riquezas que há na vida é ter tempo. De que serve ter muito dinheiro se não há tempo para o despender? De que serve ter uma família grande se não temos tempo para ela? Eu acho que este equilíbrio é dos mais difíceis de conseguir e hoje em dia dou por mim sempre a correr, a sair de manhã para o trabalho e chegar já com a noite cerrada e perguntar-me: é isto a vida? É durante o tempo do pequeno-almoço e do jantar que se vive, sem fazer algo a que estamos obrigados por parte da sociedade? E isto para não falar de todas as outras obrigações que as pessoas normais e independentes têm: fazer a cama, arrumar a casa, preparar refeições. Que tempo sobra?

Ainda para mais eu tenho a mania dos planos, das listas, das tarefas. E adoro quando chego ao fim do dia com tudo preenchido e feito - aliás, só assim fico realizada e verdadeiramente sossegada. Mas a verdade é que me esqueço da liberdade e do sossego que é ter dias para não fazer nada. Sem planos, sem horas, sem bilhetes para isto e aquilo, sem jantares, sem ter de fazer uma sobremesa para levar não sei onde, sem viagens às 8 da manhã. E sem ter de escrever, de ler, de ver aquele filme, de estudar, de arrumar. Sem nada destinado - porque só deixando a minha agenda mental livre de tarefas é que consigo efetivamente desfrutar do tempo totalmente livre e não ficar a remoer em tudo o que devia ter feito e não fiz.

Sabendo que o mês que se aproxima vai ser caótico, que os fins-de-semana ricos em descanso não vão existir, que o trabalho vai estar a 200%, que nestas duas pernas vão estar muitos quilómetros e demasiadas horas em pé e que eu vou ter de beber muito café para aguentar a pedalada, decidi que este fim-de-semana ia ser para descansar. Sem planos, sem obrigações - só as refeições e a ida ao supermercado para ir buscar o pão. 

Já li, já vi séries, já vi um filme, já planeei a minha viagem, já escrevi. Sem check-lists, sem stresses, ao sabor do tempo que resta. Governada pelo sono ou falta dele, pela vontade de fazer coisas ou a falta dela. Que bem que soube e que pena estar a acabar. Sinto que vou passar de um passeio domingueiro para uma corrida de fórmula 1. E a única coisa que espero é chegar ao fim com os fusíveis todos. Até lá, vou só dormir mais um bocadinho para queimar os últimos cartuchos.

14
Jan17

E tu, que queres ser quando fores grande?

Carolina

Quando somos pequeninos perguntam-nos o que queremos ser quando formos grandes. Eu tenho para mim que a maioria das vezes respondemos aquilo que gostamos de fazer, os nossos hobbies. Não é por acaso que 90% dos rapazes respondem que querem ser jogadores de futebol e que muitas das meninas dizem querer ser princesas e outras tantas veterinárias - ora porque gostam das barbies e dos desenhos animados da Disney ora por adorarem animais. 

A ideia não está errada e acho que nós seguimos a nossa vida profissional também à base daquilo que gostamos de fazer (mal fora, não é?). Quem gosta muito de computadores vai para engenharia informática, quem adora animais vai para veterinária, quem gosta de tratar dos outros vai para médico e por aí fora. É claro que isto é uma ideia generalizada, uma vez que há outros fatores que mexem com as nossas decisões relativamente às nossas profissões (coisa que não acontece quando somos pequenos): muitas vezes seguimos as pisadas dos nossos pais, outras fazemos escolhas porque não temos escolha ou então seguimos outros argumentos como a empregabilidade ou o dinheiro. Ainda assim, acho que tentamos sempre conciliar tudo isto com os nossos gostos pessoais, porque ninguém quer ser pró em algo de que não gosta.

Eu claramente escolhi um hobbie como profissão. Ando a refletir nisto porque, primeiro, escolhi algo que tem muitas fases; a realidade é que eu nem sempre escrevo bem, nem sempre me sinto inspirada. Há dias em que eu fico a olhar para a página branca e nada sai - mas, bolas, tem de sair, porque é o meu trabalho! Só me dei conta disso um par de meses depois de ter começado, numa vaga de pura desinspiração - escolhi algo que não é "pão pão, queijo queijo", que não tem certo nem errado, que não é matemático, que depende imenso do meu estado de espírito. E isso é um risco, principalmente quando a boa execução do nosso trabalho depende disso.

E depois há outra questão: eu transformei o hobbie da minha vida no meu trabalho - e quando isso acontece, isso deixa de ser hobbie. Isto parece uma verdade parva de La Palice, mas tem que se lhe diga. Ainda há dias, enquanto ouvia a entrevista da Raquel Tavares para o Alta Definição, ela dizia algo como "o meu amor é o fado, mas a paixão da minha vida é a dança; eu amo cantar, mas as pessoas pagam-me para eu o fazer - já não sou livre de errar, de o fazer livremente, porque tenho expectativas para corresponder. Na dança não - posso dançar como quiser, porque sou livre e não tenho de dar justificações a ninguém" (não citado à letra). E eu só pensei - "é tão isto!". 

Nos últimos 5 meses escrevi mais do que nunca e apesar de em nenhum momento me ter arrependido da escolha que fiz, a verdade é que isso mudou o meu olhar sobre a escrita. Continua a ser aquilo que eu adoro fazer, aquilo que me preenche, mas agora há todo um lado que antes não tinha: o da responsabilidade, o de "liberdade aprisionada". Antes, escrever era a minha cena. Agora, escrever não só é a minha cena como é o meu trabalho. A sorte é que tenho a escrita "off-duty" e a escrita "on-dutty" que, em conjunto, me enchem as medidas e acabam por se compensar mutuamente, fazendo com que dificilmente o lado "hobbie" se extinga por completo.

E daqui se concluem duas coisas: que não tenho dúvidas de que escrever é mesmo um amor para a vida, a minha vida, a escolha certa; e, caraças!, que sou mesmo uma sortuda.

15
Dez16

Sobre deixar de estar encalhada numa fase da vida

Carolina

Nos tempos da faculdade a minha segunda casa passou a ser a baixa do Porto e eu, apesar de adorar a minha cidade, tinha muitas saudades do sítio da minha antiga escola e onde sempre fiz a minha vidinha. Na altura sentia que tudo estava perto - o supermercado, o restaurante, os correios, a papelaria, a escola de condução, o metro... enfim, mesmo que não tivesse tudo isto, aquele foi o sítio que me viu crescer e a minha segunda casa durante anos a fio, que já são razões suficientes para ter um lugar de estimação no meu coração. 

Nos meus três anos de faculdade o ginásio que frequentava era por ali e eu, apesar de não fazer ali a minha vida, ainda por lá ia andando - e de cada vez que passava em frente da minha escola suspirava, com saudades daqueles tempos. Dos recreios, dos meus colegas, dos meus professores. Tive fases muito más naquele espaço, sofri e chorei muito em algumas daquelas salas, mas a nossa memória encarrega-se de desvanecer as coisas menos positivas. Ainda para mais todos esses dramas foram vividos nos primeiros tempos naquele liceu e as coisas foram ficando melhores com o passar dos anos, culminando num 12º espetacular - e por isso, sempre que lá passava, reinavam as saudades e a nostalgia dos tempos que considerava terem sido os melhores da minha vida.

Agora já saí do ginásio onde estava mas, de vez em quando, vou passando por lá para fazer uns recados. E há dias, enquanto via aquele edifício azul e os grupinhos de mochilas às costas, chiclete na boca e uns risinhos aparvalhados, apercebi-me que sim, que ainda tenho saudades, mas não tantas como tinha antes. Já não olho para ali da mesma forma que olhava nos tempos da faculdade - que toda a gente sabe que foi, para mim, tudo menos um mar de rosas.

Não é que tenha deixado de gostar daquele espaço, dos meus professores ou dos meus colegas, mas aconteceu-me algo que nunca me tinha acontecido na vida: a fase (drástica) para a qual mudei é melhor do que a que conhecia anteriormente. Hoje em dia, pura e simplesmente, conheço uma realidade melhor, porque sou ainda mais feliz do que era naquele último ano de secundário. E no momento em que me apercebi disto, em que andava nas correrias habituais do meu dia-a-dia, só pude sorrir. É tão bom quando não ficamos encalhados em certos momentos da nossa vida e nos permitimos andar para a frente. Às vezes custa mais do que aqueles típicos vinte segundos de coragem... mas vale a pena. 

 

 

11
Dez16

Acabei um caderno, whowww!

Carolina

Há coisas nesta vida que são difíceis de acabar. As borrachas, por exemplo: quantas borrachas é que eu tive ao longo dos meus anos de escola e quantas é que eu substitui por, de facto, já estarem tão pequeninas que já não serviam para nada? Umas zero, mais coisa menos coisa. Entretanto perdia-as ou alguém brilhante decidia cortar-mas aos bocadinhos ou outra razão parva assim parecida. Eu lembro-me de já ser mais velha e olhar para uma borracha pequenina e encher-me de orgulho por todo o esforço (e trabalho implícito) que aquilo implicou, mas acho que mesmo essa teve uma morte precipitada.

Outra exemplo são os elásticos do cabelo. Nós não deixamos de os usar porque eles rebentam ou porque estão em fim de vida: é porque os perdemos. Os lápis a mesma coisa - sim, há aqueles casos raros em que os lápis parecem miniaturas, mas a maior parte das vezes ficam perdidos no fundo das mochilas ou em estojos antigos, ou simplesmente mudaram de dono à custa de um "empréstimo" inocente.

E depois há os cadernos. No meu caso em particular não se trata de os perder, é mais o facto de gostar tanto de ter sítios por onde escrevinhar que não resisto em saltitar de uns para os outros e nunca os acabo. No fundo, sou uma salta-pocinhas no que diz respeito aos blocos de notas. Não são só aqueles que compro (desculpem, não resisto...) ou os que vêm de oferta (que não são tão giros, claro), mas ainda por cima há imensa gente mos oferece, porque sabe que são coisas que me deixam SEMPRE feliz da vida. Isto resulta numa pilha de cadernos, caderninhos, cadernões, com folha lisa, quadriculada ou pautada, com e sem elástico, com papel reciclado ou normal. Há toda uma panóplia por onde escolher e a maioria deles têm meia-dúzia de páginas escritas e as outras estão deixadas ao abandono. Porque a verdade é que eu adoro cadernos e escrevo de facto muito... mas no computador. Pelo menos até agora. 

Felizmente o meu trabalho veio mudar esse panorama e eu agora escrevo, finalmente!, em blocos de notas. Dá-me jeito ter sempre sítio onde escrever, apontar respostas, números de telemóvel, coisas que me faltam fazer quando a agenda já não tem espaço. Enfim, em resumo: ESCREVO! E portanto estou a começar a dar vazão à minha pilha de blocos e hoje posso gritar ao mundo que, finalmente - e após tantos anos como acumuladora-compulsiva-de-cadernos - ... acabei oficialmente o meu primeiro caderno não-escolar!

Este, por acaso, é particularmente especial, porque imita uma claquete (daquelas dos filmes); comprei-o na altura do Fora da Caixa, porque achei que se adequava perfeitamente aquela fase e àquele propósito. Usei-o para esses meses do programa de televisão, depois ainda serviu como sebenta para os apontamentos do curso de fotografia e agora finalmente para estes meus primeiros quatro meses de trabalho. Todas as páginazinhas ocupadinhas, escritas, rabiscadas e com gatafunhos para dar e vender. Um regalo para a vista, é o que é.

E é isto. Consegui, oficialmente, acabar um caderno. Epá, não há como não estar orgulhosa.

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