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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

28
Nov16

O sonho que era passado e virou futuro

Carolina

A têxtil é quase uma mãe para mim. Viu-me crescer, fez-me crescer, ajudou-me a crescer. Desde que me conheço que percorria aqueles corredores compridos e alcatifados e fazia corridas imaginárias contra alguém, enquanto me sentava numa cadeira com rodinhas e deslizava por lá fora a uma velocidade que me parecia alucinante. Passeava-me por aquele piso verde sujo, por entre a fumarada típica de uma fábrica têxtil e de todo aquele barulho muitas vezes ensurdecedor que se fazia sentir nos armazéns e ia acenando aos funcionários que sabia pelo nome. Clicava nos botões das máquinas de embalar, arquivava as faturas por ordem alfabética, tingia as minhas missangas de madeira nos laboratórios, cortava as minhas amostras para fazer sacas e lanchava no refeitório um daqueles pastéis cheios de açúcar e porcarias, que pagava com os trocos que levava na minha carteirinha.

Nessa altura a crise começava a invadir o setor mas eu não o sentia: continuava feliz e contente naqueles corredores, fazendo a minha vidinha atarefada, por entre os tempos da escola e dos trabalhos de casa. Ouvia as discussões, as preocupações, os dramas, as reclamações, mas aquele universo fumarento nunca deixou de ser o meu paraíso. Quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande, e embora tenha passado por curtas (e loucas) fases onde a minha resposta era "professora de música" e "cabeleireira", dizia sempre o mesmo: quero vir para as fábricas. Até que um dia cresci e, por entre os tempos da escola e dos trabalhos de casa, já não dava para encaixar a minha pequenina vida de "industrial".

E crescer implicou perceber as coisas: ouvir todos os dias na televisão que empresas do ramo que me viu crescer fechavam, ver milhares de pessoas no olho da rua porque o trabalho fugiu para o outro lado do mundo, escutar as reflexões amarguradas do meu pai à mesa enquanto refletia naquilo que sempre foi a vida dele. E, no fim, ver deixar ir esse edifício que me viu crescer: esses corredores, os escritórios, o laboratório. Porque também nós não saímos impunes do fatalismo da têxtil. Eu, tal como a maior parte do país, fiz o funeral à área que me viu crescer e pousei o sonho na prateleira - para me poupar a dores, mais perdas e a um futuro sem futuro. Mas nunca deixei de sonhar.

Hoje a têxtil renasce aos pouquinhos, os números levantam de trimestre a trimestre. Eu (ainda) me encontro do outro lado da barricada: não a estou fazer crescer mas estou a fazer saber que ela está a crescer. Nos últimos meses tenho falado todos os dias com pessoas do setor, tenho dado e lido notícias sobre o que se melhor se faz em Portugal - e aquela flor que nasceu comigo e que tinha morrido há uns anos, embora eu a continuasse a regar, agora renasce. 

Há dias visitei uma fábrica que não conhecia e tenho a plena noção de que os meus olhos não olham para tudo aquilo como a maioria dos outros olhos. Naqueles carreirinhos de costureiras, que das suas mãos fazem nascer camisolas, casacos, vestidos e calças, eu só conseguia ver beleza. Em todo este processo que transforma pequenos tufinhos de algodão em fio, e do fio malha, e da malha roupa... eu só consigo ver magia.

Não sei explicar isto. Suspeito que seja o que um físico sente em relação à teoria da relatividade, que um pianista sente quando ouve Bach, que um arqueologista sente quando descobre um túmulo novo, que um investigador sente quando vê ao microscópio aquela partícula ínfima que não estava lá antes de ele pôr na plaquinha uma mistura qualquer. É um fascínio que cada um sente na sua área em específico mas que, aos outros, parece algo completamente irrelevante e incompreensível. Talvez seja um amor específico; o destino, o meu destino. Ou um sonho. Mas não há dúvidas que, depois de tudo isto, não há outro sítio onde eu deva estar. E aquilo que há uns anos achava ser passado, hoje tenho quase a certeza que vai ser o meu futuro. Estou em casa.

 

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05
Jan15

Sobre um espetáculo de magia e a realização dos sonhos

Carolina

Ontem fui ver o Helder Guimarães à Tertúlia Castelense. Para quem não sabe, o Helder é um mágico de cartas (uma vez campeão do mundo e duas vezes considerado o mágico do ano - Parlour Magician of the Year) que é aqui do Porto e emigrou para os EUA em busca do seu sonho: ser mágico. E - como se vê - conseguiu! Woody Allen, Ryan Gosling, Steve Martin, Jimmy Kimmel, entre outros já viram o seu espectáculo em Hollywood. Ainda assim, Helder diz que o melhor palco de todos foi onde atuou ontem... bem mais pequeno e minimalista que os de Hollywood... mas que cheira a casa.

Foi a primeira vez na vida que vi um espetáculo de magia ao vivo, embora sempre tenha apreciado esta arte, e visto vídeos na televisão e na internet. Devo admitir que a aprecio de forma diferente da maioria: gosto muito de ver os truques, mas gosto ainda mais de perceber como se fazem (já sei que vão dizer que isso estraga a magia do espetáculo, mas são gostos e curiosidades). Ontem, no entanto, dediquei-me exclusivamente a apreciar o espetáculo e sentir-me verdadeiramente privilegiada por estar ali, naquele grupo tão restrito de pessoas e a ver algo que nunca mais seria repetido. O Helder é um mágico divinal, que mexe nas cartas de uma forma verdadeiramente mágica, com um sentido de humor apuradíssimo e que não deixa ninguém indiferente por ser tão igual a todos nós mas, ao mesmo tempo, tão peculiar.

Ontem saí daquela sala muito inspirada e cheia de vontade de escrever - mas o computador já estava desligado e o sono era demasiado para dar uso à caneta, ainda para mais com uma gripe em cima. O que tinha para dizer era que aquela noite se tinha resumido a muito mais do que cartas, truques e magia, mas tinha sido sim uma fonte de inspiração imensa. O Helder é a personificação de um sonho tornado realidade. A prova de que o trabalho e o esforço compensam e que, com uma ajuda da sorte e de um grande talento, podes chegar onde queres. Mesmo sendo português e tendo de emigrar para a América, onde acham que Portugal é um país do terceiro mundo onde não há, por exemplo!, eletricidade (uma das várias peripécias e calinadas que ele foi partilhando ao longo do espetáculo).

Fez-me pensar em mim e na minha escrita; nesta coisa dos sonhos, de que tanto falamos, mas que tão poucas vezes pomos em prática. Porque dá trabalho, dá dores de cabeça, às vezes traz consequências dolorosas: meios para atingir um bem maior. Traz expectativas atreladas: as nossas e as dos outros (qual delas a pior?).

O meu pai, por exemplo, diz que para mim exige pouco. Posso fazer o que quiser da minha vida, só tenho é que, um dia, ganhar o Nobel da Literatura (coisa pouca, hun?). Rio-me sempre quando me diz tal coisa - embora o repita vezes sem fim, talvez para me ajudar a acreditar. E depois de uma noite como a de ontem, às vezes, numa réstia de esperança bem lá no fundo de horizonte, até penso que possa ser verdade. Um Nobel até que era giro.

 

helder.JPG

 (Foto: http://www.tertuliacastelense.com/magia-helder-guimaraes-tertulia2015/)

03
Jan14

Enganada pelo meu próprio cérebro

Carolina

Tinha planeado levantar-me às nove da manhã, para seguir para a biblioteca. Tinha o despertador às 8:45h, já para prevenir. Ele tocou, eu desliguei-o e, pelos vistos, adormeci! 

É meu hábito desligar o despertador mas programar para cinco minutos mais tarde, ou algo do género. E foi isso que eu fiz. Supostamente. Só quando acordei às onze e tal da manhã é que percebi claramente que tinha sonhado que tinha reprogramado o despertador e, por essa razão, ele nunca chegara a tocar.

Valeu-me uma manhã na cama, que mal não me fez, tendo em conta que ainda devia lá estar: está a descer em mim uma gripe nada subtil. Ainda assim, trabalho espera-me, e embora me queira deitar sossegadinha num dos meus cantos, tenho é de me pôr a mexer, que há muita coisa para acabar.

10
Mai13

Quando queria ser geek

Carolina

Quando era nova, não tinha como sonho levar a minha vida a escrever. Muito pelo contrário. Eu queria ser uma Abby como a do NCIS ou uma Garcia como a das Mentes Crimosas. Computadores, ciência e um pequeno géniozinho à mistura era aquilo que queria fazer de mim.

Queria saber hackear PC's mas também servir de antivírus; queria escrever super rápido sem sequer olhar para as teclas (a única coisa que consegui cumprir); ter bases de dados gigantes e universais que me dessem toda a informação do mundo; saber escrever aqueles hieróglifos estranhos, cheios de pontuação ilegível, num qualquer programa de fundo preto e perceber todos os resultados que lá me eram apresentados. Uma geek, basicamente.

E a verdade é que ainda hoje são essas personagens-tipo que me apaixonam e que me prendem. Apesar da volta de 180º que a minha vida deu, dos objectivos e dos sonhos terem mudado e ter deixado para trás tudo num banho-maria que tende a arrefecer ao longos dos anos, o bichinho ainda está lá. E há dias em que o sinto a mexer dentro de mim, quase que a querer ser reanimado.

17
Fev13

Nadar com golfinhos

Carolina

Um dos meus sonhos desde criança é nadar com golfinhos. Não me perguntem porquê, porque não tenho nenhum razão específica para este desejo de longa data - sempre adorei golfinhos e sempre quis tocar-lhes, brincar com eles. Já fui várias vezes ao ZooMarine e ao Zoo de Lisboa e vi todos aqueles espectáculos, aumentando este bichinho que tenho aqui dentro. O contra sempre foi o preço que achei exorbitante - 165€ para, na prática, só estarmos meia hora com os animais.

Mas enfim, o preço só terá tendência a subir e eu quero mesmo ver este sonho realizado. E, por isso, deverá ser a minha prenda de aniversário de 18 anos - de mim para mim. O voucher tem a duração de um ano e espero poder utiliza-lo no verão, numa das minhas idas do costume ao Algarve. Vai ser tããão bom!

20
Ago12

Pesadelos

Carolina

Não sei muito bem o que se anda a passar, mas todas as noites tenho tido pesadelos. Desde há uns tempos para cá que isto tem sido recorrente - teve uma breve pausa, nos entretantos -, e no inicio tendiam a ser mais violentos. Horríveis, mesmo - lembro-me de um em particular em que estava num centro comercial aqui perto, onde em tempo de aulas almoço regularmente, e o centro foi fechado pois estava um assassino lá dentro; a questão é que ele não era um assassino normal - ele infectava as pessoas com sida, que naquele caso era um vírus bebível e que se podia deitar nas bebidas, comida e etc., pelo que o pânico era geral e ninguém comia, bebia ou se movimentava em exagero pois tinha medo de ser contaminado.

Sei que há uns dias o meu pai entrou pelo meu quarto a dentro, pregando-me um susto de morte, pensando que estava gente no quarto - não estava, como é óbvio; eu é que falava (ou gritava) de tal maneira alto que ele, do corredor e mesmo com a porta fechada, me conseguia ouvir. Como se o pesadelo já não fosse suficiente, acordo com o coração a mil, completa e totalmente atarantada quando ele chamou pelo meu nome, numa tentativa infrutífera de saber o que se estava a passar.

Quando acordo, nestes últimos dias, acabo por só conseguir ter ideias vagas sobre aquilo com que sonhei (ao contrário do pesadelo que descrevi acima, que continuo a projectar em perfeição, na minha mente), mas não deixa de ser perturbante. Dormir deixa de saber bem.

Estou à espera que isto passe e que eu volte a ter a minha paz de volta.

27
Jun12

Cabeça: pára já!

Carolina

Sou daquele tipo de pessoas que odeia sonhar (à noite, durante o sono). Adoro uma bela noite de sono sem me lembrar de nada do que sonhei, e passei anos a dormir nestas condições. Acho o sono mais sólido, mais pesado, quando assim é.

Mas, infelizmente, tenho-me lembrado de tudo o que passa por esta minha cabeça durante a noite: e digo-vos, é assustador. Para além dos sonhos com o Robert Pattinson (calma, só lhe peço autógrafos e fotos e coisas assim) - que me põem doida porque acho que estou oficialmente maluca - sonho com tudo o que é irreal e parvo.

Só espero que isto mude rapidamente, que já tenho saudades de um sono descansado.

17
Mai11

As vontades da mente

Carolina

Podemos enganar-nos, mentir-nos e convencer-nos a nós próprios de algo, esforçando-nos minuto a minuto, todas as horas do dia. Mas esquecemo-nos da noite, onde o controlo da mente se esvai e os pensamentos andam por ramos longínquos - incontroláveis. 


 


A minha mente, enjaulada durante o dia, decidiu vaguear esta noite e fazer com que eu me lembrasse de todas as suas vontades - que no fundo, e apesar de acorrentadas a toda a força, são as minhas também.

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