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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

14
Mai17

Que noite feliz!

Carolina

Não sou pessoa de acreditar. Sou pessimista, não sou nada patriota, vejo defeitos em tudo. Mas amo música e acho que, a par da escrita, é a coisa na vida que mais me conforta e mais me acompanha em todos os momentos. Sou uma entusiasta desta nova leva da música portuguesa e, independentemente de tudo o que disse no início deste texto, acreditei que o Salvador ia ganhar desde aqueles cinco segundos de música que ouvi na promo do nosso Festival da Canção.

Falei da música no dia seguinte ao Festival, tornei a fazer um post sobre ela aqui há dias e agora é impossível não o fazer outra vez, porque - acima de tudo - esta é uma vitória tão, tão justa! E não é justa porque Portugal andava a penar há cinquenta e tal anos - andávamos assim porque queríamos, porque tínhamos canções de merda quando cá fazemos coisas incríveis. É justa porque a música é fantástica, a letra é tocante - e tão nua, tão crua, tão verdadeira que pode doer -, porque o intérprete é autêntico e doesn't give a shit e porque reflete aquilo que há tantos anos se faz bem em Portugal. Nós não somos o "quero ser tua" ou os "Homens da Luta". Quem enche trinta coliseus são cantores nesta mesma linha de música - pura, simples, calma e linda - e não cantores de meia tigela que têm de ir vestidos com transparências para ganhar meia-dúzia de votos dos países vizinhos. Nós somos isto. E nós, quando somos nós, limpamos com tudo.

É difícil explicar (até porque eu nunca vi a Eurovisão), mas vibrei com isto como - se calhar - não vibrei com o Euro que ganhámos o ano passado. Implorei ao meu irmão emigrante para votar e festejei cada vez que tínhamos 12 pontos como se o Salvador fosse o meu clube do coração que estivesse a disputar pénaltis. Tenho uma paixão assolapada por música em geral, por música portuguesa em particular e pelos Sobral ao pormenor - a Luísa faz parte da minha playlist há vários anos e foi com ela, na Casa da Música, que ouvi o concerto mais simples e intimista da minha vida - e estou imensamente feliz por isto. Não por termos ganho - mas finalmente por mostrarmos o que somos, o que temos e por finalmente nos darem valor. E por acreditarmos que somos capazes e nos deixarmos daquele complexo de inferioridade que há séculos nos assola em vários campos. Por investirmos. E por termos conseguido.

Deito-me com o coração a transbordar de alegria e isso não tem pagamento possível. Obrigada Salvador. Vemo-nos na Casa da Música. Quero tanto bater-te palmas!

 

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09
Mai17

Hoje o palco é do Salvador, mas o Salvador é todo nosso

Carolina

As melhores chapadas são aquelas dadas com luva branca. Aquelas que não se vêem, em que não se ouve o “plash”, mas que doem para caraças na cara daqueles que a apanharam. E hoje, independentemente do resultado, Salvador Sobral vai dar um chapada de luva branca a todos aqueles que diziam que a sua música não era “música de festival”. Porquê? Porque conseguiu aquilo que há muitos anos ninguém conseguia em Portugal: pôr os portugueses a ver a Eurovisão, a acreditar que é possível e – acima de tudo – fazer com que não tenhamos vergonha daquilo que levamos lá fora.

Sim, porque “sucessos” como  “Quero ser tua” podem ter sido hits do YouTube, mas toda a gente sabe que não foi por boas causas. Não estou a dizer que a música pimba não tem fãs e que não mereça um respeito generalizado, mas é pimba. E isso nota-se – mesmo para quem não percebe português. Há toda uma aura ali envolta, o timbre daquelas vozes e a própria música “barata” que faz com que o género seja quase internacional – e mau. As pessoas da minha geração não se identificam com aquilo, a menos que seja para gozar, para servir de gifs, memes e gozo eterno – e assim, ao longo dos anos, toda aquela magia da Eurovisão que os nossos pais e os nossos avós viveram e hoje nos contam (o país parava, segundo dizem) perdeu-se. A minha geração já não se identifica e as gerações mais velhas também não, porque aquilo é malta jovem, a maioria a cantar inglês com um estilo um tanto ao quanto alternativo que não agrada nem a gregos nem a troianos – ou, neste caso, nem aos velhos nem aos novos.

Acima de tudo, a sensação de não ter vergonha daquilo que vamos mostrar é a melhor de todas. E depois são todos os “pormaiores” restantes: o facto de sermos os únicos a cantar na nossa língua, num gesto tão simples como poderoso; de ser uma música nua e crua, sem aquele espalhafato que muitos acham ser característica das “músicas de festival” (que, na verdade, é uma característica pimba); e por ser uma boa música, uma letra linda e mostrar aquilo que de bom se faz em Portugal, numa altura em que a música Portuguesa está a renascer pelas mãos de tão bons músicos, que com muito custo conseguiram conquistar o público e deixar para trás aquele terrível estigma sobre a nossa música (também alimentado por este festival).

Por tudo isto e muito mais, eu admito que, pela primeira vez, estou curiosa para ver o que aí vem. Admito que é bem provável que veja a Eurovisão pela primeira vez na minha vida. Admito que vou torcer com muita força para que o Salvador ganhe – e, se não ganhar, não importa. Porque nós já ganhamos. Ganhamos todos. Ganhamos o Salvador e isso já é prémio suficiente.

 

P.S. Caso não queiram ouvir o resto do pessoal a cantar coisas que a, nós, nada nos dizem, podem sempre trocar a Eurovisão por este concerto do Salvador, passado há dias na RTP. Eu já ouvi, re-ouvi e vou voltar a ouvir – quanto mais não seja na Casa da Música, quando ele cá vier atuar.

 

24
Fev17

A canção da semana, para o resto das semanas da vida

Carolina

Acho que o pessoal da minha geração não vê a Eurovisão. Não temos aquelas histórias que se ouvem da boca dos nossos pais e avôs, de que meia vila se juntava à volta de uma televisão só para ouvir a Simone, o António Calvário ou, mais tarde, as Doce a cantar e representar Portugal por essa Europa fora. Acho que há muitas razões para isso acontecer: primeiro, não vibramos com uma Europa que para nós já é "velha" e é um dado adquirido; segundo, porque as musicas normalmente são uma treta e quase nos escondemos de vergonha só de pensar que algo como a "Quero ser tua", da Suzy, nos representou no estrangeiro; e, terceiro, porque já sabemos que nunca vamos ganhar aquela treta e há demasiadas séries boas para ver enquanto passam vinte músicas maioritariamente terríveis, algumas em línguas em que não se percebe sequer um "ai". 

Por tudo isto, acho que nunca vi um Eurovisão. Nem o espétaculo principal nem aquelas eliminatórias anteriores. Conheço mais ao menos todas as músicas que levamos, mas vi sempre posteriormente a terem sido escolhidas ou apresentadas no festival. E no domingo não foi excepção - por acaso estava na sala a ver um filme enquanto o programa decorria e, por sorte, acabei por fazer zapping, apanhando a fase final das eliminatórias do Festival da Canção. Vi a última música (quer dizer, talvez seja melhor dizer "sobrevivi à última música") e esperei pelo apanhado de todas elas, naquelas promos que fazem para as pessoas verem os números de telefone, gastarem dinheiro e votarem.

E foi aí, nesses cinco segundos, que eu ouvi o Salvador Sobral.. Eu nunca vi o Ídolos, nunca o tinha visto mais gordo, mas fiquei instantaneamente apaixonada por aquela voz e por aquela letra, que não é nada mais, nada menos, que genial. Topa-se a léguas que ele é irmão da Luísa Sobral, a voz é muito semelhante, e a letra também tem a genialidade que lhe é típica - sou uma fã acérrima da Luísa, já fui a um concerto dela na Casa da Música, e foi das coisas mais simples e bonitas que ouvi (e vi) até hoje. 

Pelos vistos o dom corre na família. A presença dele no palco foi um bocadinho estranha mas, pelo que sei, ele estava doente e podia estar um pouco alterado nesse sentido; ele meio que dançava e "tocava" instrumentos imaginários, enquanto fazia expressões sui generis, mas acho que também era por estar totalmente absorvido pelo momento. 

Mas bom, a verdade é esta: desde domingo que não ouço outra coisa senão uma música apresentada no Festival da Canção. E o "pior" é que a música é linda, a letra incrível e a voz do rapaz de fazer arrepiar a espinha. Por isso, ao que parece, até há coisas fixes no Festival da Canção. Ainda não está decidido quem é que vai à Eurovisão, até acredito que ele não vá (os melhores ficam sempre pelo caminho...) e, mesmo que fosse, não ganhava na certa (já há muito que se percebeu que aquilo não é uma questão de músicas). De qualquer das formas acho que foi uma lufada de ar fresco: há coisas boas a acontecer e a serem feitas neste país, inclusivamente a serem apresentadas num concurso que está mal visto pela grande maioria do público e onde antes já foram apresentadas obras-primas como "Quero ser tua". 

Esta foi a música que reinou a minha semana, que me enche o coração e me preenche as medidas. É muito mais do que uma "música de Festival da Canção" e muito mais do que o hit da semana. É uma obra prima.

 

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