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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

19
Set17

Há mesmo tempo para tudo?

Carolina

Lembro-me de há uns bons anos ler um post num blog de alguém que se queixava de falta de tempo. Eu ainda estudava - provavelmente ainda no secundário - e sei que pensei "pfff, ou isto é falta de organização ou falta de vontade; se fosse eu a querer mesmo fazer algo até roubava umas horas de sono se fosse preciso!". E a verdade é que, na grande maioria dos casos, isso continua a ser verdade: na minha opinião, muitos dos que se queixam de falta de tempo ou são mal organizados ou preguiçosos. Curiosamente, aqueles que aparentemente têm menos falta de tempo são os que mais fazem!

Acho que muitas vezes estas questões são até uma bola de neve: alguém que faz muito pouco, tende a fazer muito pouco. Alguém que faz muito, tem tendência a querer fazer ainda mais. E eu sei-o porque sou o perfeito exemplo disso: nas minhas terríveis fases letárgicas, o problema agrava-se com o tempo porque me vou sentindo gradualmente inútil, cansada e desmotivada; quando estou espevitada para a vida, preencho a agenda, deito-me feliz e contente, faço trinta por uma linha e ainda quero fazer mais no dia seguinte.

Mas há dias em que realmente falta tempo? Há. Principalmente para pessoas como eu, que têm uma terrível tendência para deixar alguns trabalhos para a última e, quando chega à deadline, têm todos os segundinhos preenchidos e estão prestes a ter um esgotamento nervoso. Mas essa falta de tempo é algo constante? De todo. Porque a questão "falta de tempo" baseia-se em dois conceitos básicos: organização e prioridades.

Dei por mim a pensar naquilo que há uns anos tinha dito a mim mesma sobre essa pessoa que se queixava que as 24 horas do dia não eram suficientes para si e concluí que talvez tenha sido um bocadinho dura (como sou muitas vezes, bem sei). Porque, de facto, eu acho que há tempo para tudo: mas antes disso é preciso fazer uma análise a toda a nossa vida, aos nossos gostos, às nossas prioridades, aos nossos hábitos e saúde - e há fases em que não conseguimos fazer essa leitura de nós próprios, porque já estamos demasiado enterrados em nós mesmos. Hoje sei que há coisas que, embora gostemos de fazer, acabam por cair por terra - porque há outras coisas de que gostamos mais (aka prioridades). Agora dificilmente diria que "se fosse eu, até roubava umas horas de sono se fosse preciso!", porque eu preciso mesmo muito de dormir. Gosto de dormir, de me deitar cedo e acordar com as galinhas, de forma a aproveitar o dia e não andar a rastejar pelos cantos durante o dia. A minha vida mudou - na altura em que pensei isto deitava-me facilmente às duas da manhã, acordava às 7:30h e dormia um par de horas durante a tarde -, assim como tudo o resto.

Estou numa fase de reajustamento. Durante um ano dediquei-me inteiramente ao trabalho e, apesar dos primeiros meses terem sido realmente preenchidos e sem tempo para dramas - para além de estarem recheados de novidades -, os restantes não foram assim tão bons. E eu senti que agora tinha de me dedicar a mim. Inscrevi-me nas aulas de piano, troquei de ginásio, montei a minha própria agenda, fiz um plano de posts aqui para o blog. E agora ando aos apalpões, a ver o que resulta ou não para mim, o tempo que sobra - e, acima de tudo, o que fazer com ele. Ou seja: organizando-me. E apercebo-me que, para além de ter deixado de fazer algumas coisas de que gostava - por gostar mais de outras -, há também atividades que são substituíveis.

Neste momento, por exemplo, estou empenhada em terminar a série Game of Thrones. Durante o dia não tenho muito tempo, por isso, regra geral, vejo um episódio antes de ir dormir. Isto rouba-me, para além de cerca de meia hora de sono, o meu período de leitura. E sim, há demasiado tempo que eu não leio um livro: e isso entristece-me, é uma coisa que eu quero retomar, mas percebo que só quando terminar a minha maratona de GoT é que vou voltar a ter este hábito. São duas atividades que ocupam o mesmo espaço na minha vida - o lazer e a hora pré-sono. E eu, para usufruir de uma, tenho de abdicar de outra. É claro que podia ver a série e depois ler um par de páginas - mas a concentração já não é a mesma e o tempo que roubo ao sono continua a contar. Lá está: as famosas prioridades.

Acho que ser adulto é isto, este paradoxo estranho: perceber que temos tempo para tudo mas que esse "tudo" é relativo. Porque, na realidade, não é tudo. Não é "o tudo" que cabia na nossa vida quando andávamos no básico e tínhamos meia hora de recreio, três meses de férias e três dias de gazeta no Carnaval. Quando crescemos, o "tudo" é aquilo que é essencial e um bocadinho mais para além disso. O "tudo" são as escolhas que fazemos mas que, na maioria dos casos, completa um leque suficientemente grande para ser capaz de nos satisfazer, de nos cansar e fazer felizes. Porque continuo a achar que todas aquelas pessoas que se queixam cronicamente de falta de tempo, se tivessem três meses de férias, continuariam a queixar-se do mesmo. Porque é crónico. Tal como o tempo, que é igual para todos - só resta saber vive-lo (e preenche-lo) da melhor forma.

06
Set17

Há dias

Carolina

Há dias em que gostava de ser igual a todos os outros, em que queria despir esta pele de diferença que sinto que vesti desde que me conheço. Há dias em que queria seguir a carneirada e não ter opinião própria, não ter personalidade, não ter de me impor perante os outros.

Há dias em que gostava de gostar de crianças, em que me apetecia já ter meia-dúzia de namorados na lista, que queria ter planos para casar e ter filhos – em vez de todos os dias perceber, cada vez mais, que não consigo estar com crianças durante muito tempo e que não há nenhum casamento ou relação que veja que me encha as medidas e eu diga “é isto que quero para mim”.

Há dias em que eu queria saber fingir que adoro shots de tequila, em que gostava de ter um grupo de amigos sólido, passar a gostar de dançar em frente a uma pequena multidão e de drum&base a altos berros – em vez de optar e não gostar de beber álcool, de ficar sozinha em noites que me apetece ir sair ou de não conseguir esquecer o trauma que tenho desde as aulas de dança que tive no básico.

Há dias em que preferia adorar falar ao telemóvel, ter paleio para os mais e menos simpáticos, de dizer que sou jornalista com toda a pujança e força de vontade – mas continuo a rever as minhas conversas internamente antes de clicar no botão verde e a torcer para que a pessoa do lado de lá da linha esteja a ter um bom dia e não decida descarregar as suas frustrações para cima de mim.

Há dias em que queria deixar de ter medo de fazer tudo e arriscar, de deixar de ser uma control freak, de escrever tudo na agenda, de relembrar tudo para escrever neste blog, de deixar de ser chata, mandona, nariz empinado, de deixar o espírito de liderança na gaveta, de me deixar ir e fazer o que os outros mandam sem sequer pestanejar.

Há dias em que eu gostava de deixar de ser anti-droga, anti-erva, anti-marijuana ou lá o que lhe queiram chamar, deixar de ser anti-praxe, deixar de ser defensora dos gays, dos bis e dos desiguais.

Há dias em que me sinto na Lua, numa realidade e com uma forma de vida completamente fora do normal, que ninguém entende. E há dias em que eu gostava muito de vir à terra, nem que fosse por uns momentos, porque na Lua está-se bem, a vida é boa, a vista é bonita e o silêncio apaziguador – mas há dias que, de tão sozinha, até o próprio silêncio se torna ensurdecedor.

05
Set17

Movida, ou travada, a medos

Carolina

Quando era pequena caía muito e, a partir de uma certa idade, passei a precaver-me e a olhar sempre para o chão. Tenho muito cuidado por onde ando e com os caminhos que faço, para tentar ao máximo evitar cair, porque tenho medo de me magoar (como tantas vezes fiz em miúda). E isto aplica-se na vida real mas também metafóricamente. Eu tenho medo, muito medo de tudo e coíbo-me de fazer (precisamente) quase tudo por causa disso. Sou a miúda menos arriscada história: e quando o faço, é de coração nas mãos, sempre com todas (e mais algumas) consequências em mente. E não, nunca são positivas.

Tenho medo de fazer, tenho medo de arriscar, tenho medo de me arrepender, tenho medo de me candidatar, tenho medo de ligar, tenho medo de falar, tenho medo de mandar mensagem, tenho medo de gastar dinheiro indevidamente, tenho medo de me queimar, tenho medo não me integrar, tenho medo de fazer figura de parva, tenho medo de não saber sair das situações, tenho medo de não gostar, tenho medo que não gostem de mim, tenho medo de falhar, tenho medo de desiludir, tenho medo de não ser bem sucedida, tenho medo de não ser lembrada, tenho medo de médicos, tenho medo de ratos, tenho medo que os meus morram, tenho medo de morrer. E só eu sei como cada vez tenho mais medo de não estar a viver.

Só há muito pouco tempo é que me apercebi disto, deste medo generalizado. Sim, há muitos anos que olho para o chão quando ando na rua e sim, desde sempre que me lembro de ser muito ponderada e precavida em todas as decisões que tomo na minha vida. Mas só quando olhei de cima e para o discurso que tinha no meu dia a dia, quando falava de assuntos corriqueiros e as minhas frases começavam sempre por "sim, mas eu tenho medo de..." é que percebi a dimensão do medo na minha vida. 

Eu tenho uma vontade gigante de fazer pelo menos uma coisa boa - e grande - na minha vida. Gostava que as minhas futuras empresas fossem um sucesso ou gostava de escrever um livro bom e que vendesse aqui em Portugal. Sempre achei que a minha vida profissional seria melhor que todas as outras dimensões da minha vida, e pensei que era isso que me movia. Mas apercebo-me que talvez não. Em vez de me mover, talvez eu esteja constantemente a ser travada por algo ainda mais central na minha vida: estes medos encastelados que parecem não ter fim. 

11
Ago17

Os filhos são só dos pais?

Carolina

A maior parte dos textos aqui do blog surgem por causa de situações que vivenciei e sobre as quais relato coisas ou pensamentos que me surgiram depois ou na altura, que por vezes nem sequer têm muito que ver com o assunto em si. Às vezes, por uma razão ou por outra, não os publico - mas normalmente deixo-os no rascunho até ganharem bolor e eu me fartar deles. Raramente faço o que estou a fazer aqui: publicar um desses textos. Este foi escrito há mais de um ano e na altura não o publiquei para não ferir suscetibilidades. Mas a vida não se faz só de consensos ou paninhos quentes e, por estes dias, lembrei-me muitas vezes daquilo que escrevi.

E onde é que eu vou meter o nariz desta vez? Nos nascimentos e na maternidade. Uhhh, já sinto a minha pele quase a ser esfolada e ainda nem pus a boca no trombone. Na minha opinião, hoje em dia fala-se tanto da liberdade de escolha que tem de ser dada à mãe (do tipo de parto, de amamentar, de trabalhar ou não, de dividir a licença com o pai) que só esconde a enorme pressão que se está a construir à volta destes assuntos. Vejamos a amamentação: toda a gente diz que cada mãe é como é, que podem escolher ("embora o vosso leite seja melhor para o vosso filho!!!"), mas se alguém não amamenta por escolha cai o carmo e a trindade. Para mim essa liberdade é tão grande como aquela que eu tive quando me tentaram praxar, fechada num anfiteatro que não conhecia, às escuras, e com gente a gritar-me por todos os lados. Podemos dizer não, mas estamos sempre condicionadas e com uma clara pressão para dizer "sim". Ou seja: não é liberdade.

Eu sou pouco sensível a todas estas questões porque a cada dia que passa tenho mais a ideia de que não quero ter filhos e que todos esses dramas me vão, felizmente, passar ao lado. Mas há coisas que me tocam (também tenho sentimentos, sim?) e há dias estava a ver uns vídeos antigos, enviados por uma das minhas tias, do nascimento de um dos seus filhos. São coisas filmadas há 25 anos, numa altura em que acho que não havia esta moda de "não visitar pais nem criança mal ela nasce", mas de qualquer das formas a minha família sempre foi (ou costumava ser...) unida o suficiente para querer partilhar estes momentos uns com os outros. E, enquanto via aqueles vídeos passados na maternidade, com a minha tia a olhar enternecida para o seu bebé acabado de nascer, com a cama cheia de gente à volta a soltar "oh"'s, tornei a lembrar-me deste texto que escrevi. Não chorei enquanto via os vídeos, mas a minha garganta estava num aperto sem fim; emocionou-me ver a alegria de todos, num momento partilhado e claramente tão feliz para quem lá estava. Adorava-se o menino, cuidava-se da mãe, mimavam-se ambos e nos corações, ainda que não se vissem a olho nu, transbordava amor por todo o lado. O nascimento é, de facto, um momento incrivelmente feliz para a família do novo rebento. E talvez esteja aqui a questão, no vocábulo "família". Para mim, família, não são só os meus pais e irmãos; são os irmãos dos meus pais, os filhos dos meus pais, os filhos deles, os filhos dos meus irmãos, os respetivos conjuges e, se quiserem, a família que escolhemos: os amigos.

Para mim é inconcebível pensar ter um filho e não o mostrar a todos aqueles que me amaram ao longo da vida, que me aturaram em todos os momentos maus e bons, que partilharam momentos das suas vidas comigo. Não significa que todos tenham que o ver no primeiro, segundo ou terceiro dia ou que encher o quarto de visitas - mas estar um mês sem mostrar a criança ao mundo?! Sei que isso está na moda mas, quando me deparei com uma situação semelhante, fiquei honestamente magoada. Aprendi a lição, respeito, mas não compreendo. E escrevi este texto:

 

"Lembro-me de ter lido num blog qualquer, há uns anos, que depois de uma família ter tido o primeiro filho, decidiu que só um mês depois iria ter a visita dos amigos e familiares e dar a conhecer a nova cria (calculo que avós e pessoas mais próximas tenham sido excepção à regra, "but you never know"). Fiquei parva com o que li - e o sentimento mantém-se até hoje, porque sei que me sentiria magoada se mo fizessem. Sentir-me-ia posta de parte por aqueles pais, que se calhar conheço há uma vida e com quem partilhei tantas coisas, se me privassem de partilhar aquele que seria um dos maiores momentos das suas vidas.

Eu sei que os pais ficam super cansados com a história do parto, sei que habituarem-se aos horários da criança é extenuante, sei que querem ter tempo para "namorar" a sua nova cria - mas, no fim de contas, o que não falta é tempo para isso. Não são as visitas que dão de mamar, não são as visitas que ficam a adorar a criança pela noite dentro, não são as visitas que dão o primeiro banho. Os pais têm uma vida inteira pela frente com aquela criança, vão mima-la e conhece-la melhor que ninguém - enquanto que a família e os amigos, numa fase inicial, só querem dar as boas-vindas do bebé ao mundo e partilhar um momento de felicidade com alguém de quem gostam. Porque, para mim, os bebés não são só dos pais, mas também daqueles que já o amavam enquanto ele estava dentro da barriga - e, antes disso, aqueles que já amavam os pais antes mesmo de eles se juntarem ou decidirem ter um filho em conjunto.

Porque a verdade, pura e dura, é que família e os amigos já lá estavam antes do bebé - e, muitas vezes, antes do companheiro. Estiverem lá nos momentos bons, nos maus, nos fantásticos, nos péssimos e nos menos bons - e, no entanto, naquele que será o momento mais feliz da vida daquela pessoa, são impedidos de o partilhar com ela. É uma escolha e, sendo eles os pais, não há outra opção a não ser respeitar. Mas quem está do outro lado da barricada também tem o direito de não se sentir respeitado, por não ver o seu "amor" correspondido; por se sentir privado de felicitar e conhecer alguém que, automaticamente, já é um bocadinho amado, por ser filho de quem gostamos - de alguém que é sangue do nosso sangue ou, simplesmente, faz parte da "família que escolhemos". 

Não percebo o medo de partilhar um bocadinho da felicidade com os outros; de mostrar o bebé, de terem receio de não ter tempo para estarem sozinhos com a criança, quando têm uma vida juntos pela frente. Não se trata de pôr uma mensagem no facebook, mandar um email estilo "circular" com o tamanho e peso da criança. Trata-se só de a partilhar um bocadinho para quem esteve lá sempre, para quem - quer se goste ou não - já faz parte e quer partilhar a felicidade. Para mim, tudo o que disse acima não são medos. É uma forma pura de egoísmo."

03
Ago17

Às vezes não sabemos bem quem somos

Carolina

No dia do meet&greet do Jamie Cullum éramos uns oito, numa proporção ligeiramente desequilibrada entre homens e mulheres. Quando nos mandaram entrar para o backstage informaram-nos de que ele ainda estava atrasado e íamos ter de esperar. Só havia uma forma de ir matando tempo: conversando.
Não fui eu que lancei a conversa - não tenho grande à vontade para isso. Mas a partir do momento em que a "bola" saltou entre todos, tenho para mim que fui a que mais falou - tinha ido ao concerto anterior, era do Porto, já era o quinto espetáculo que via do Jamie... acabou por ser tópico de conversa. E fluiu tudo tão bem, as pessoas eram (no seu geral) tão simpáticas e eu - apesar de estar prestes a fazer algo que até podia ser potencialmente stressante - estava na boa, como se fizesse aquilo todos os dias. Estive a falar com várias pessoas sobre a minha cidade, a trocar impressões sobre música e foi sinceramente bom.

E depois de sair de lá, de ter falado tão bem com tanta gente diferente, pensei: "como é que eu me tornei nisto, como é que eu vim parar a este ponto?". Acabo por não saber quem é que eu sou realmente - aquela que fala tão bem com toda a gente, de conversa fácil e sorriso ligeiro, ou aquela que não tem ninguém para ir com ela a um concerto ou ao cinema numa noite qualquer. Aquela que, de cada vez que diz que é anti-social, toda a gente revira os olhos por achar que é impossível ou aquela que faz scroll down no facebook e só vê gente cujas relações falharam. Aquela que às vezes sente saudades de companhia ou aquela que já se resignou a ficar sozinha. Aquela que tanta gente diz que é tão simpática no primeiro contacto, de conversa fiada e fácil, ou aquela que é intransigente, que não aceita as diferenças, menina do seu nariz, que acha que tem sempre razão, ocasionalmente rude e demasiadas vezes mal-disposta.

Não sei quem mostro ser, mas na minha cabeça sou quase sempre "aquela" miúda da segunda opção. Quando debato este assunto com quem me é próximo, e tendo em conta a que não se chega a nenhuma conclusão, só uma coisa é certa: ou eu tenho uma ideia muito errada de mim ou os outros não me vêem como realmente sou. Porque não me parece que as duas versões possam ser compatíveis.

Ainda assim, há algo indiscutível: acho que cada vez estou mais sozinha. Sim, conheci mais pessoas desde que fui trabalhar, mas perdi outras tantas de antigos círculos de amigos que tinha. Não creio que o balanço seja positivo. E, para além disso, sinto-me preenchida por uma avalanche de críticas, "dicas" e indiretas que não sei digerir - e não sei se sou eu que, num período mais sensível, tenho mais aptência para as ouvir ou se estão simplesmente a acontecer com cada vez mais frequência. Porque eu mudei ou porque eu tenho de mudar, porque trato mal as pessoas, porque não ligo, porque não respondo, porque não vou, porque não faço, porque não avanço, porque não saio da zona de conforto, porque sou chata, porque sou quadrada, porque sou mentalmente velha, porque quero tratar de tudo, porque sou pouco democrática, porque sou uma control freak.

E, no final do dia, quando tudo mói cá dentro, só há espaço para perguntar: sou assim tão má pessoa?

31
Jul17

O dia em que conheci o Jamie Cullum (ou o fim-de-semana em que vi dois concertos dele)

Carolina

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Eu sei o que estão a pensar: "lá vai esta maluca começar a falar do Jamie Cullum - como se nós já não soubéssemos tudoooo o que ela pensa sobre ele". Têm razão, eu sei que sou uma chata. Mas este fim-de-semana foi especial: não só porque foi em dose dupla, como teve a cereja em cima do bolo - tive, basicamente, um encontro de 37 segundos com ele. 

Mas voltemos atrás, porque eu não quero que pensem - levianamente - que eu fui a dois concertos dele, em dois dias seguidos, assim do nada. Eu comprei os bilhetes para o EDP Cool Jazz mal eles foram postos à venda, porque tento sempre nunca faltar aos concertos que ele dá cá em Portugal e não se sabia que ele viria cá ao Porto. Quando anunciaram o concerto nos Jardins de Serralves eu pensei "não posso faltar a um concerto do Jamie aqui tão perto de casa!" - e, por isso, comprei bilhetes. Confesso: a partir do momento em que me vi com dois bilhetes na mão a minha intenção era, e sempre foi, ir aos dois. Eu sei que é amalucado, mas o dinheiro já me tinha saído da conta e, para mim, não existe a expressão "demasiado Jamie". De qualquer das formas, depois de ouvir tanta gente a chatear-me o juízo por ir a dois concertos, supostamente iguais, em dois dias seguidos (e ainda por cima ter de comportar os custos da ida e estada em Lisboa) comecei mesmo a ponderar vender os bilhetes do CoolJazz.

No entanto, e como no fundo sempre quis ir aos dois, fui adiando e adiando a questão, até que na quarta-feira vi no instagram da Rádio Comercial que iam oferecer a entrada para um Meet&Greet. Dizia qualquer coisa como "esteja atento à emissão" e, meus amigos, o meu coração parou. Depois de ter andado a navegar na emissão, de ter ouvido durante todos os segundos possíveis a rádio e de não ter passado nada... fui obrigada a desistir. Mas no dia seguinte vi um instastorie dizendo que dali a nada iriam oferecer as entradas para o conhecer! Para se ganhar tinha de se ligar para lá e eu percebi que as minhas hipóteses eram poucas: as linhas estão sempre, sempre cheias. Mas eu fui teimosa, liguei e tornei a ligar. Aquilo nem chamava, era só ir clicando e desligando - já quase o fazia automaticamente. Até que, do outro lado, dizem "bom dia". E, como era algo demasiado bom para ser verdade, eu já só esperava um "desculpe, já oferecemos os meet&greets todos". Mas não. A última entrada era para mim. WHAT? Nem me queria acreditar que tinha conseguido! Sou uma azarenta neste tipo de coisas e há muito que me deixei de jogos de sorte, mas o Jamie estava em jogo e tinha, pelo menos, de tentar.

E é só essa a razão pela qual fiz isto. Quem me conhece sabe que sou a miúda mais tímida para falar com alguém conhecido, que sou praticamente incapaz de pedir um autógrafo e muito menos uma fotografia. Sinto sempre que estou a perturbar as pessoas, nunca me sinto à vontade para as abordar. E, por outro lado, acho que quando conhecemos alguém que admiramos lhes passamos a dar uma componente humana que antes, na nossa cabeça, não existia; isso implica que as pessoas possam estar a ter um dia mau e serem antipáticas connosco (ou simplesmente serem assim no resto dos dias), que transmitam uma energia negativa em vez de algo bom. Sei lá! Há tanta coisa que não conhecemos sobre os famosos e que nos podem desiludir que, quando nos chegamos perto deles, temos de ter em conta esse risco. Mas, independentemente de tudo isso, era o Jamie. O meu Jamie, que já ouvi centenas de horas e sobre o qual já tanto escrevi. Que me acompanha desde o básico, passando pelo secundário, pela faculdade até aos dias de hoje, enquanto escrevo para o jornal; aquele que, sem saber, me dá a mão em momentos tão felizes e tão tristes. E esta era uma oportunidade que eu não podia perder.

O concerto no Porto foi fenomenal e, arrisco a dizer, melhor do que o de Lisboa. Foi giro poder comparar os dois públicos e os dois concertos porque há uma ideia pré-concebida de que o público no Porto é mais caloroso que o lisboeta - e, para além do mais, sei que ele não faz dois concertos iguais, mas não sabia o quão diferentes poderiam ser. Quanto à primeira afirmação, penso que se confirma: acho que aqui no Porto há uma entrega maior e, pareceu-me, o público era ligeiramente mais jovem, o que ajudava à festa. Ele parecia mesmo comovido - as pessoas foram incríveis, sempre muito entregues, a mãe dele fazia anos e estava lá, e cantamos-lhe todos os parabéns; ele fez dois encores, cantou a Blackbird dos Beatles (que lhe estavam a pedir, no público) e ainda inventou uma canção estilo "Porto, I love you", que fez com que saíssemos dos jardins todos derretidos. Uma pessoa nunca sabe se aquilo que eles transparecem é real ou não, se é só um docinho para nos adoçar a boca e pensarmos "ai que ele estava tão emocionado" -  porque, tal como os encores, muito daquilo que vemos hoje (as piadas e os "improvisos") é muitas vezes planeado. O alinhamento foi muito semelhante, com excepção das músicas finais. Em Lisboa ele terminou com o Grand Torino - um pedido de um fã, que levava um cartaz a dizer "If you play Grand Torino, I'll buy a beer to everyone". E é esta uma das coisas que eu adoro nele: ele repara, ouve e toca as músicas que lhe pedem. Fala com os fãs, tira fotos a meio do concerto, está atento. Vive aquilo, fá-lo com gosto e não vê isto só como "mais um chaché", como muitos. Cada concerto do Jamie é único - e por isso eu não me importo de ir a vários seguidos, porque sei que o alinhamento pode ser semelhante mas terá sempre as suas nuances.

Em ambos os concertos aconteceu algo engraçado: a meio do espétaculo ele salta do palco, vai até à plateia em pé (em frente estavam lugares sentados) e abre as barreiras de proteção, deixando as pessoas ir para a frente do palco. Confesso que aquilo mexeu com o meu sentido de justiça - eu estava na segunda fila, paguei uma pipa de massa para lá estar e, no entanto, quem pagou menos estava agora ali, à minha frente, impedindo-me até de ver o concerto sentada. Isto sou eu a fazer advogada do diabo, porque eu não tenho problema nenhum em ir para a frente do palco e saltar como uma louca - se há momento em que me sinto feliz e disponível para dançar e cantar como nunca faço, é quando o Jamie canta. Mas, ainda assim, fiquei retraída. Aqui no Porto não me levantei logo, fiquei a ver até onde é que aquilo ia - mas quando percebi que o pessoal não ia arredar pé e que estava a curtir muito mais do que eu, fui para o meio da confusão divertir-me como eles; já em Lisboa, mal ele saltou do palco, já estava eu a ir para a frente, pelo que acabei por ficar mesmo encostada às colunas e ver o resto do espetáculo em primeiro plano. Acho que isto também acontece porque muito do pessoal que está à frente é uma verdadeira seca - são pessoas mais velhas, que muitas vezes nem conhecem as músicas e que dão pouca dinâmica ao concerto, enquanto que o pessoal lá atrás está a divertir-se à grande. Foi uma forma que ele arranjou de trazer a festa até ele e divertir-se tanto ou mais do que as pessoas que estão lá aos pinchos e aos berros enquanto desfrutam.

Mas foi antes do concerto (em Lisboa) que eu estive com ele. Não estava stressada nem preocupada - contei a muito pouca gente que o ia conhecer, para não criarem expectativas por mim e sabia ao que ia, não esperava muita coisa. Éramos um grupo de oito pessoas, mais mulheres que homens, e elas em particular estavam todas super bem arranjadas, maquilhadas, algumas com vestidinho e salto alto. E depois havia eu: acaba de chegar do Porto, meio desgrenhada devido aos ventos quase ciclónicos do Parque dos Poetas, sem qualquer maquilhagem porque sabia que me ia borratar toda e que a humidade não ia ajudar à festa e com o meu uniforme de festival: as sapatilhas-brancas-sujas, calças de ganga, t-shirt e um enorme blusão para quando o frio chegasse. Sabia que ele não se ia apaixonar por mim de uma maneira ou outra, por isso optei pela via confortável. Só foi pena ter sido apanhada nas rédeas da Rádio Comercial para fazer uma entrevista e ter sido apanhada naquele estado meio caótico - mas enfim, ao menos estava feliz! (E fiquei com o momento registado para a posteridade <3)

Nestes meet&greets há um ponto assente: aquela não é uma situação confortável para nenhum dos lados. É estranho para nós conhecermos alguém que tanto admiramos mas também é estranho para ele ver mais de meia dúzia de pessoas que nunca viu mais gordas a entrar num sítio só para o cumprimentar - e ter de ser simpático, sorrir para as fotos, ter de fazer conversa. Toda a situação é muito pouco natural. E, na minha visão, muito fútil. 

É lógico que eu gostava de ter uma foto com ele - acho que a vou imprimir e pôr algures, porque é uma recordação importante. Mas eu queria mais do que isso - e se me dessem a oportunidade de escolher, eu preferia mais um minuto de conversa. Porque eu gosto dele como um todo, não o vejo como um trunfo para as minhas redes sociais; acho-o intelectualmente interessante e gostava de o ouvir dizer algo que ficasse para além do "thank you". E, acima de tudo, queria poder agradecer; poder dizer-lhe que o conheço há oito anos, que me lembro como se fosse ontem da primeira vez que o ouvi, que ele é a banda sonora da minha vida; que, apesar de ele não saber, esteve comigo em todos os momentos importantes ao longo dos anos. E isto pode parecer cheesy, mas eu acho que a música é isto e muitas vezes - no meio do reboliço que é a vida deles, a correria, as entrevistas, estes encontros impostos - eles se esquecem de que tocam mesmo a vida de alguém. E lembrar isso, acho eu, nunca é demais.

Claro que, no nosso encontro de sensivelmente 37 segundos, não consegui fazer nada disso. Fomos postos em fila, em frente ao placard das entrevistas, e fomos, um a um, tirar uma foto com ele. Percebi que aquilo era muito pior que um pitch - não era sequer um minuto! O esperado era que o cumprimentássemos, tirássemos uma foto e déssemos o lugar ao próximo - e se falássemos mais do que o suposto sentiamos que já estavam a olhar para nós como quem diz "demoras muito? Há todooooo um line-up que precisa de ser cumprido, amiga!". Se calhar fui eu que, no stress do momento, senti isto tudo - mas foi, de facto, a sensação com que fiquei. Só tive tempo de lhe dizer que tinha ido ver o concerto dele no dia anterior e que tinha sido incrível - e ele agradeceu (daquilo que me lembro... sinto que tudo foi tão rápido e poderoso que se eclipsou da minha memória). Sorrimos para a foto, click, click, adeus. Foi isto.

Se saí um bocadinho desiludida? Sim. Se voltava a repetir? CLARO! Não se pode ter tudo nesta vida e acho que este tipo de contactos com celebridades, principalmente quando são "forçados", nunca dão em muito mais do que isto. Disse-lhe um thank you rápido, entalei-me toda quando lhe disse "it's such a pleasure" e calculo que, para ele, tenha sido uma situação igual a tantas outras. A diferença é que para ele foi igual, para mim foi especial. Aqueles treze segundos de conversa (o que restou entre o cumprimento e a pose para a foto) foram mais do que alguma vez sonhei.

Sei que nos veremos em breve. Muito provavelmente sem o beijinho e os segundinhos de conversa, mas num palco aí algures. Desde que o conheço que tento não faltar a nenhum concerto. E, porque me conheço, sei que vai continuar a ser assim. Espero que por muitos e bons anos. 

 

17
Jul17

Calças, calças everywhere (ou #contraextinçãodasmumjeans)

Carolina

Passo a minha vida a passear-me entre rádios em busca de alguma música que goste, por isso já nem sei bem dizer em qual delas é que ouvi uma das animadoras a dizer que uma fashion advisor fez uma lista com uma série de coisas que todos tínhamos imediatamente de parar de usar. Liguei tanto àquilo que só me lembro de duas delas: a primeira eram leggings, a segunda eram mum jeans.

Não me vou meter na discussão das leggings – muito poderia ser dito aqui sobre esse tópico, mas nem sequer sou grande pessoa para opinar porque só as uso para ir ao ginásio (e como não vou ao ginásio, não as uso…). Mas falar nas mum jeans é tocar-me na ferida! Isto das opiniões relativamente à moda tem muito que se lhe diga e estas listas dos “must-have da estação” ou do “livre já o seu armário destas peças” fazem-me um bocado de espécie.

Primeiro porque só quem tem um poder económico alto e uma paciência de santo é que renova o roupeiro segundo cada estação e segundo porque há milhões de formas de conjugar as coisas e até de fazer com que as peças mais horrendas resultem em coisas visualmente aceitáveis. É tudo uma questão de gostos e estas medidas “restritas”, a mim, tiram-me do sério e não deviam ser levadas a peito só porque é uma fashion advisor que as diz. Se fosse eu, diria para se abulir o roxo de todas as roupa; ou tirar as culotes do mercado. Mas são gostos e tenho de admitir que há quem goste e que até existem pessoas a quem aquilo fique bem.

Mas voltando às mum jeans: foram as minhas salva-vidas. Já escrevi aqui que detesto comprar calças, é um verdadeiro suplício. Eu sou a receita perfeita para grande parte das calças me ficarem pessimamente: pernas e coxas gordinhas, anca larga e, para ajudar à festa, um tornozelo inchado (o que é importante, principalmente hoje em dia, em que falta um palmo em quase todas as calças existentes no mercado). Por isso, sempre que eu começava a ver que precisava de comprar esta peça de roupa, até tinha suores frios.

Até virem à baila às mum jeans. Para quem não está dentro da nomenclatura, estas são calças de cinta bastante subida e com a perna mais larga, afunilando um bocadinho em baixo (mas não exageradamente, como as skinny jeans). E para mim, esta moda foi a descida do céu à terra. Só eu sei como sofri durante todos aqueles anos em que apenas se vendiam skinny jeans e calças de cintura baixa. Eu posso usa-las (e usei-as, que remédio), mas tenho a perfeita noção de que não me ficavam bem. E uma das coisas que mais me irrita na moda é isto: criar as coisas, massifica-las e esquecerem-se de que a grande maioria das mulheres não têm aquele típico corpo de modelo em que tudo parece assentar na perfeição. Portanto a diversidade que existe hoje nas lojas – e falo ao nível dos jeans – é o que devia existir sempre.

Mas eu sei que na realidade não é assim, que a moda é imprevisível e que daqui a um par de anos ora só se usam calças à boca de sino ou se volta outra vez para as ultra skinny jeans. Por isso, para me precaver, tenho-me abastecido de jeans para os próximos anos. Se encontrar umas que gosto, que vestem bem e com uma lavagem que não tenho, nem sequer penso muito: trago para casa e está o negócio fechado.

O objectivo é funcionar quase como a Arca de Noé: quando, no mundo, já só existirem calças que só me servem nas orelhas ou e ficam para lá de mal, ainda posso contar com o meu baú pessoal de jeans, salvas no tempo em que as havia em bom e em abundância. #contraextinçãodasmumjeans

02
Jul17

A arte de não saber criticar

Carolina

Nos últimos dias tenho andado embrenhada em críticas a parques de campismo. Ando atrás de mais um sítio para ir acampar com a minha família, com todas as exigências que isso implica - que fique, no máximo dos máximos, a duas horas do Porto, que caibamos lá todos e de preferência em forma de clã, que tenha água - mar ou rio - e boas condições de higiene (os mínimos, vá) - e por isso dou grande importância às avaliações e críticas de quem já lá esteve.

É claro que nem tudo é para levar a sério - já aprendi isso pelo tripadvisor no que aos restaurantes diz respeito. A verdade é que cada um tem os seus gostos mas, acima de tudo, referenciais diferentes. Um restaurante pode ser mediano, mas para alguém que normalmente come em restaurantes fracos, tascos, com diárias e coisas que tais... este é acima da sua média e, por isso, muito bom; já para alguém que frequenta sítios de luxo, um restaurante mediano é abaixo da sua média e por isso é normal que as críticas sejam menos positivas. Podia dizer-se que "há coisas factuais" mas, de facto, tudo depende daquilo que temos como referência. "As casas de banho são muito limpas" - se as pessoas, nas suas próprias casas, só lavam as casas de banho de quinze em quinze dias, é natural que casas de banho que, para mim, são horríveis, sejam para essas pessoas limpas. A questão aqui é que quanto mais limpas são, melhor - e agradam desde os menos exigentes até aos nazis da limpeza. Na comida também se vive o mesmo drama, embora aí entrem também os gostos, o que ainda vem piorar as coisas: "a sopa estava salgada". Se calhar para mim não, porque uso bastante sal em casa... mas para outros talvez sim. Por isso há muita coisa que, de facto, é difícil avaliar... e um restaurante ou um hotel bom é que aquele que de facto - e quase milagrosamente - consegue agradar a gregos e a troianos.

Mas uma pessoa tem de saber ultrapassar estas discrepâncias e encontrar um meio termo no meio de todas as críticas que lê. Mesmo que não se concorde com algumas coisas, o essencial é aceitar. Mas isto aplica-se quando as pessoas criticam, de facto, alguma coisa - quer seja de forma positiva ou negativa. Porque a verdade é que na minha exploração por parques de campismo, cruzo-me com inúmeras "críticas" perfeitamente inúteis tipo "dou cinco estrelas porque é aqui que passo sempre as férias com a minha família e amigos". Ah, muito obrigada, caro comentador! Ajudou-me imenso a perceber as condições do parque com o seu comentário hiper enriquecedor. Ou outros que pretendem deixar o suspense: "nunca ponham os pés nesta espelunca!". E explicar porquê, não dá? Esgotou o máximo de caracteres que o twitter permite? E já nem falo dos "monopalávricos" (acabei de inventar uma nova palavra, sim) - "bom", "gostei", "mau", "adoro" e coisas que tais - porque comparados com os comentários super argumentativos e explicativos que eu mostrei em cima, ao menos têm uma opinião geral, ainda que não fundamentada e igualmente passível de ser ignorada.

Eu posso ser suspeita porque escrevo com facilidade e gosto muito de escrever críticas - a rubrica "review da semana" é, para mim, uma das mais fáceis de fazer e dentro daquilo que é (ou não) o meu jeito de escrever, penso que até tenho bastante aptidão para criticar tudo e mais alguma coisa. Mas quer se escreva mal ou bem acho que a partir do momento em que uma pessoa se predispõem para criticar algo... devia saber o que criticar. Dizer o bom e o mau, o que gostou ou deixou de gostar, argumentar a escolha, falar das expectativas que foram ou não superadas. No caso das críticas do Google (leio muitas), são feitas sem qualquer pressão sobre as pessoas (ao contrário do booking, por exemplo, que nos manda emails a pedir para deixar reviews) e portanto acho sempre estranho que existam tantos comentários despropositados quando foram feitos, literalmente, de livre e espontânea vontade.

Ninguém diz "olha, fui para aquele parque de campismo por recomendação daquele senhor desconhecido que disse que vai lá todos os anos com a família e com os amigos e que por isso é muito feliz". Ou então sim e eu é que sou muito estranha e não percebo nada de críticas e poder de argumentação. 

06
Jun17

Que mundo estranho este [sobre os pseudo-famosos desta vida]

Carolina

Há dois fins-de-semana deu-me na realgana ir ao Summer Market Stylista, que acontecia no Estoril. Já tinha pensado ir, não por uma questão de compras, mas para conhecer novas lojas - algo que me é útil também por questões de trabalho. Mas entre o vai-não-vai, o fim-de-semana que passa a correr e dá tanto jeito para se fazer tudo o que não se fez ao longo da semana e uma preguiça do demónio que se apodera sobre nós... no sábado acabei por andar a arrumar umas tralhas e dar metade do roupeiro e no domingo tencionava jiboiar por aí (mais especificamente no meu sofá, sejamos sinceros). 

Mas mudei de ideias, levantei o rabo e já era quase domingo quando comprei os bilhetes de comboio para baixo - e lá fui eu, às nove da matina, no intercidades para Lisboa. Estive com o pessoal do costume e, à tarde, lá fomos à feirinha. Tivemos algum azar, porque a chuva decidiu dar de si e em alguns momentos foi mais do que uma "molha tolos" - aliás, no final, foi mais "molha todos", porque saí de lá encharcadinha. Não esperava que a feira fosse tão grande, que tivesse tantas marcas e espaço (embora achasse as barracas em si um bocado apertadas). Não comprei nada, fui só ver e fazer "sourcing", para depois espreitar as marcas que posso potencialmente "atacar" no futuro.

Mas não era sobre isso que vinha falar aqui. Como alguns de vós devem saber, aquele evento é organizado por uma blogger conhecida da praça e, naturalmente, há muitos outros que por lá andam - ora a expor, ora a visitar. Eu vi muitos e, talvez porque sou do Porto e não estou habituada a ver famosos (ou, neste caso, pseudo-famosos - não sei bem qual é a linha que separa uma coisa de outra), fez-me pensar muito sobre o assunto. Vi bloggers e vloggers e, naquele voyerismo um bocado estúpido mas praticamente impossível de evitar, pus-me a ver as diferenças entre as fotos e a realidade e a partilhar as minhas conclusões. E depois pensei: eu sei o nome dos filhos desta, o nome dos cães daquela, lembro-me de quando esta casou, "olha esta teve uma filha há pouco tempo, está em óptima forma", "ah, mas não sabia que o namorado dela fumava", "será que o marido dela veio para ajudar?". No fundo, estava dentro daquelas vidas sem estar, na realidade, dentro delas. E isso foi estranho.

Nós estamos habituados a estar a par da vida dos famosos - que são, normalmente, pessoas da televisão, do cinema ou da música, que se expõem devido a uma profissão artística (em alguns casos) que escolheram. Mas estas pessoas - lá está, "pseudo-famosas" - escolheram expor-se, estar naquela situação. E talvez a mim me faça mais confusão porque eu acho que deve ser horrível ser famoso, ter os media em cima de nós e ter toda a gente a exigir-nos simpatia constante - mas por outro lado também percebo que faz parte de algumas profissões, que umas coisas não são independentes de outras e que temos de as aceitar se queremos levar avante certos projetos. Tenho pensado muito nisso até por causa do Salvador Sobral - a minha crush do momento, não sei se já deu para entender. Percebe-se que ele quer fazer música, que quer sucesso - mas que lida muito mal com todas as suas implicações, selfies e explorações dos media.

E transito isso para mim própria, porque acho que seria igual. O meu derradeiro sonho é escrever - e embora um escritor não tenha de ter metade da exposição de um ator ou de um cantor, nos dias de hoje tem de se saber mostrar para a máquina funcionar (porque ser só o menino dos olhos da crítica não basta - e, a meu ver, até vale pouco). E isso assusta-me - assim como me assusta este blog, que apesar de eu gostar que seja lido, comentado e partilhado, também gosto que seja tímido, sem grandes alvoroços. Assusta-me a fama, que hoje em dia aparece tão depressa como desaparece, por razões que às vezes nem sequer controlamos.  

Enquanto via ali alguns dos blogger e vloggers que sigo, pensei nisto tudo. Pensei que, tal como eu sabia o nome dos cães de uma rapariga que por lá passava, vocês também podem saber o nome dos meus - assim como quantos irmãos eu tenho, as cidades que visito e o tipo de trabalho que faço. Simplesmente, como não sou conhecida, não tenho de me confrontar com esse tipo de situações. Ainda assim, na viagem para casa, vim sempre a divagar em como estou e não estou dentro da vida daquelas pessoas, que gosto mas não sei quem são, que sinto que conheço mas nunca vi. No fundo, em como este mundo que vivemos é estranho.

01
Jun17

As ambiguidades das estratégias de vendas

Carolina

Há uns dias recebi uma newsletter da Salsa que tinha umas calças que eu achei graça. Fui ao site e acabei por explorar mais um bocadinho – é uma marca portuguesa e, podendo, acho bem que compremos aquilo que é nosso. Nunca fiz muitas compras na Salsa e só uma vez fiz uma compra online, sobre a qual escrevi aqui, uma vez que fiquei tão surpreendida – pela positiva – pelo serviço que prestaram.

Mas bom, andava eu a ver as calças e as camisas e reparei que eles (como outros, provavelmente) têm lá uma indicação de “top seller”. E eu pus-me a pensar naquilo e em como essa indicação, que tem de certeza como objectivo vender mais (não há nada nos sites que seja feito para "não comprar"), a mim não me atrai minimamente: se há coisa que eu detesto é ver pessoas com roupas iguais às minhas - e se um artigo é dos mais vendidos, a probabilidade de ver alguém na rua com uma peça igualzinha à minha é maior, certo?

Gosto de pensar como, muitas vezes, as coisas são tão ambíguas – e a parte do marketing e de vendas é algo que, honestamente, me desperta interesse e acarreta muitos riscos, porque a mensagem pode ser interpretada de mil e uma maneiras. Suponho que quem pensou nesta medida a fez com o objectivo dos consumidores perceberem que esta é uma peça que, por exemplo, veste bem, ou tem bons materiais ou é gira e está na moda – por isso as pessoas têm ainda mais razões para a comprar. Mas, em mim, tem o efeito contrário. Não é que eu seja a amostra mais fidedigna, mas enfim. A verdade é que as estratégias de comunicação e de vendas estão por todo o lado – mesmo onde nós achamos que são coisas “naturais” e frutos do acaso – por isso é sempre interessante pensar no efeito que este tipo de técnicas surte em nós. No fundo, virar o feitiço contra o feiticeiro.

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