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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

06
Jun17

Que mundo estranho este [sobre os pseudo-famosos desta vida]

Carolina

Há dois fins-de-semana deu-me na realgana ir ao Summer Market Stylista, que acontecia no Estoril. Já tinha pensado ir, não por uma questão de compras, mas para conhecer novas lojas - algo que me é útil também por questões de trabalho. Mas entre o vai-não-vai, o fim-de-semana que passa a correr e dá tanto jeito para se fazer tudo o que não se fez ao longo da semana e uma preguiça do demónio que se apodera sobre nós... no sábado acabei por andar a arrumar umas tralhas e dar metade do roupeiro e no domingo tencionava jiboiar por aí (mais especificamente no meu sofá, sejamos sinceros). 

Mas mudei de ideias, levantei o rabo e já era quase domingo quando comprei os bilhetes de comboio para baixo - e lá fui eu, às nove da matina, no intercidades para Lisboa. Estive com o pessoal do costume e, à tarde, lá fomos à feirinha. Tivemos algum azar, porque a chuva decidiu dar de si e em alguns momentos foi mais do que uma "molha tolos" - aliás, no final, foi mais "molha todos", porque saí de lá encharcadinha. Não esperava que a feira fosse tão grande, que tivesse tantas marcas e espaço (embora achasse as barracas em si um bocado apertadas). Não comprei nada, fui só ver e fazer "sourcing", para depois espreitar as marcas que posso potencialmente "atacar" no futuro.

Mas não era sobre isso que vinha falar aqui. Como alguns de vós devem saber, aquele evento é organizado por uma blogger conhecida da praça e, naturalmente, há muitos outros que por lá andam - ora a expor, ora a visitar. Eu vi muitos e, talvez porque sou do Porto e não estou habituada a ver famosos (ou, neste caso, pseudo-famosos - não sei bem qual é a linha que separa uma coisa de outra), fez-me pensar muito sobre o assunto. Vi bloggers e vloggers e, naquele voyerismo um bocado estúpido mas praticamente impossível de evitar, pus-me a ver as diferenças entre as fotos e a realidade e a partilhar as minhas conclusões. E depois pensei: eu sei o nome dos filhos desta, o nome dos cães daquela, lembro-me de quando esta casou, "olha esta teve uma filha há pouco tempo, está em óptima forma", "ah, mas não sabia que o namorado dela fumava", "será que o marido dela veio para ajudar?". No fundo, estava dentro daquelas vidas sem estar, na realidade, dentro delas. E isso foi estranho.

Nós estamos habituados a estar a par da vida dos famosos - que são, normalmente, pessoas da televisão, do cinema ou da música, que se expõem devido a uma profissão artística (em alguns casos) que escolheram. Mas estas pessoas - lá está, "pseudo-famosas" - escolheram expor-se, estar naquela situação. E talvez a mim me faça mais confusão porque eu acho que deve ser horrível ser famoso, ter os media em cima de nós e ter toda a gente a exigir-nos simpatia constante - mas por outro lado também percebo que faz parte de algumas profissões, que umas coisas não são independentes de outras e que temos de as aceitar se queremos levar avante certos projetos. Tenho pensado muito nisso até por causa do Salvador Sobral - a minha crush do momento, não sei se já deu para entender. Percebe-se que ele quer fazer música, que quer sucesso - mas que lida muito mal com todas as suas implicações, selfies e explorações dos media.

E transito isso para mim própria, porque acho que seria igual. O meu derradeiro sonho é escrever - e embora um escritor não tenha de ter metade da exposição de um ator ou de um cantor, nos dias de hoje tem de se saber mostrar para a máquina funcionar (porque ser só o menino dos olhos da crítica não basta - e, a meu ver, até vale pouco). E isso assusta-me - assim como me assusta este blog, que apesar de eu gostar que seja lido, comentado e partilhado, também gosto que seja tímido, sem grandes alvoroços. Assusta-me a fama, que hoje em dia aparece tão depressa como desaparece, por razões que às vezes nem sequer controlamos.  

Enquanto via ali alguns dos blogger e vloggers que sigo, pensei nisto tudo. Pensei que, tal como eu sabia o nome dos cães de uma rapariga que por lá passava, vocês também podem saber o nome dos meus - assim como quantos irmãos eu tenho, as cidades que visito e o tipo de trabalho que faço. Simplesmente, como não sou conhecida, não tenho de me confrontar com esse tipo de situações. Ainda assim, na viagem para casa, vim sempre a divagar em como estou e não estou dentro da vida daquelas pessoas, que gosto mas não sei quem são, que sinto que conheço mas nunca vi. No fundo, em como este mundo que vivemos é estranho.

01
Jun17

As ambiguidades das estratégias de vendas

Carolina

Há uns dias recebi uma newsletter da Salsa que tinha umas calças que eu achei graça. Fui ao site e acabei por explorar mais um bocadinho – é uma marca portuguesa e, podendo, acho bem que compremos aquilo que é nosso. Nunca fiz muitas compras na Salsa e só uma vez fiz uma compra online, sobre a qual escrevi aqui, uma vez que fiquei tão surpreendida – pela positiva – pelo serviço que prestaram.

Mas bom, andava eu a ver as calças e as camisas e reparei que eles (como outros, provavelmente) têm lá uma indicação de “top seller”. E eu pus-me a pensar naquilo e em como essa indicação, que tem de certeza como objectivo vender mais (não há nada nos sites que seja feito para "não comprar"), a mim não me atrai minimamente: se há coisa que eu detesto é ver pessoas com roupas iguais às minhas - e se um artigo é dos mais vendidos, a probabilidade de ver alguém na rua com uma peça igualzinha à minha é maior, certo?

Gosto de pensar como, muitas vezes, as coisas são tão ambíguas – e a parte do marketing e de vendas é algo que, honestamente, me desperta interesse e acarreta muitos riscos, porque a mensagem pode ser interpretada de mil e uma maneiras. Suponho que quem pensou nesta medida a fez com o objectivo dos consumidores perceberem que esta é uma peça que, por exemplo, veste bem, ou tem bons materiais ou é gira e está na moda – por isso as pessoas têm ainda mais razões para a comprar. Mas, em mim, tem o efeito contrário. Não é que eu seja a amostra mais fidedigna, mas enfim. A verdade é que as estratégias de comunicação e de vendas estão por todo o lado – mesmo onde nós achamos que são coisas “naturais” e frutos do acaso – por isso é sempre interessante pensar no efeito que este tipo de técnicas surte em nós. No fundo, virar o feitiço contra o feiticeiro.

25
Mai17

As lágrimas têm um peso incalculável

Carolina

Quando somos pequeninos os nossos pais e avós fazem-nos uma pergunta com rasteira, só para nos mostrarem que nem tudo o que parece óbvio assim o é. "O que pesa mais: um quilo de ferro ou um quilo de algodão?", questionam, com ar despercebido. E nós, a achar que somos muito entendidos na matéria e como, com sorte, já apanhamos com um pedaço de ferro num pé e sabemos o que dói (principalmente comparado com a suavidade do algodão) respondemos, sabidolas: "o ferro, é claro!".

E aí vem toda a risota e a explicação, dizendo que um quilo de ferro e um quilo de algodão pesam exatamente a mesma coisa... porque têm precisamente um quilo. Mas eu acho que há coisas que são muito mais pesadas do que aparentemente parecem e independentemente do seu peso real. Comecei a escrever este post quando me sentei aqui no computador, pensei "preciso de escrever" e, ao descomprimir e ao ver-me sozinha, chorei durante trinta segundos - o que equivale, talvez, a um trio de lágrimas. Apesar de não encher nem um bocadinho de um frasco, de provavelmente terem um peso impercetível para as balanças mais comuns, foi um peso que me saiu de cima. Podiam ser só três, mas "pesavam pra' burro".

Acontece-me muito recolher mágoas durante o dia... coisas que me pesam. São momentos, a maior parte das vezes impercetíveis aos outros, em que se dá um clique na minha cabeça e eu passo a perceber alguma coisa sobre mim, sobre os outros, sobre a minha vida ou forma de ser que, até àquele momento, ainda não tinha descodificado; em que me lembro de algo que me dói ou magoa; em que, instintivamente e sem eu dar ordem, se abrem gavetas que não queria abrir. E eu fico a remoer aquilo o dia inteiro, a pôr mais pedrinhas no saco (e na gaveta - como se algumas já não estivessem cheias de entulho) e a carregar aquilo às costas o dia inteiro. 

E, no entanto, quando há pouco me sentei, metade desse peso foi-se embora. Foram aí umas três lágrimas, capazes de me livrar - em parte - daquele sentimento de solidão que andou agarrado a mim o dia todo depois de uma conversa ligeira mas uma série de pensamentos pesados. Foram três - e bastaram. Porque as dores, para o bem e para o mal, não se põem na balança - assim como as lágrimas que as movem, rosto abaixo, enquanto esvaziam a alma.

21
Mai17

Pensamentos dispersos na charcutaria de um supermercado

Carolina

Eu gosto muito de ir ao supermercado - eu sei que isto é estranho, a maioria das pessoas detesta, mas é coisa para me relaxar; gosto de ver produtos novos, as informações nutricionais e, por isso, não gosto de ir à pressa (até porque nesses dias é quando apanhamos mais filas).

Mas é precisamente de filas que eu quero falar: não são as das caixas que mais me incomodam, mas sim a da charcutaria. Por aqui se vê o quanto os portugueses comem queijos, fiambres, chourições, salpicões e mortadelas - com e sem azeitona - aos molhos. Para além de serem muitas vezes quantidades alucinantes (meio quilo de queijo, por amor de Deus!), parece que muitas vezes têm um gosto particular em levar todo o tipo de produtos existentes nesta secção do supermercado. É que nem precisam de sair daqui para irem com o cesto cheio, carregado com coisas suficientes para fazer francesinhas para um batalhão!

Eu, que já sei que para ir à charcutaria é preciso uma vida, já tenho as minhas técnicas: mal chego ao super vou logo tirar senha e vou deitando um olho, de quando em vez, à tabuleta com os números para não perder a lugar - o que, no fundo, são esperanças infundadas porque eu posso praticamente correr a meia maratona por entre os corredores da loja e, quando acabar, ainda faltam três senhas para me atenderem. Mas enfim, uma pessoa pode sonhar.

Como sou organizada, faço um plano de ataque ao supermercado antes de começar a fazer as compras, de forma a demorar o menos tempo possível e não passar vinte vezes no mesmo corredor - e isto faz com que seja sempre (sempre!) mais rápida nas minhas compras (mesmo que sejam muitas) do que a velocidade com que se despacham senhas na charcutaria. Tudo isto piora quando há clientes que exigem que as máquinas sejam limpas porque antes do fiambre de peru que exigiram estava um de porco que pode ter contaminado a dita máquina com carne vermelha; ou que pedem uma fatia para entreter o filho, enquanto encomendam quase um quilo de queijo para a família inteira.

E sim, eu sei disto tudo porque depois de ter o carro cheio, de ter verificado a lista mais de uma dúzia de vezes e de ter pensado em qualquer coisa que me falte na dispensa ou no frigorífico, não tenho outra hipótese senão ficar pacífica e pacientemente à espera que gritem "quarenta-e-dois!", enquanto olho para uma variedade espantosa de enchidos, queijos e coisas que tais é penso na quantidade infindável deste tipo de coisas que invadem diariamente (ou horariamente?) os estômagos dos portugueses. 

Entretanto já está no 41 (yupiiiiiii!). Vou parar de escrever e esperar que gritem por mim. Obrigada pela companhia.


[escrito no supermercado, à espera de 250 gramas de fiambre]

27
Abr17

Os irmãos não se medem às metades

Carolina

Apesar de eu me achar uma pessoa minimamente interessante, com gostos bastante diversos e com alguma cultura geral, não tenho muita facilidade em falar com os outros num primeiro contacto. Aliás, púnhamos isto em pratos limpos: eu acho que não tenho jeito para lidar com pessoas o que, numa profissão como a minha, pode ser um bocado complicado. Mas normalmente há uma série de tópicos em que eu me sinto extremamente à vontade, que são aqueles que eu ataco quando preciso de encetar uma conversa com alguém ou que preciso de usar quando há um silêncio constrangedor. Falo de viagens, de animais, de fotografia e, acima de tudo, da família. Às vezes pode ser um tópico sensível, mas normalmente é algo que as pessoas falam com alguma tranquilidade.

Eu falo logo dos meus irmãos, porque a nossa diferença de idades é sempre um tópico engraçado, que as pessoas gostam de saber mais e onde acaba por fluir o diálogo. E o fluxo natural da conversa é a outra pessoa contar-me se também tem irmãos. E muitas vezes dizem-me "eu também tenho dois meios irmãos". E eu aí apanho um safanão, acordo para a vida e respondo "ah, pois, os meus irmãos também são meios irmãos...".

Porque a verdade é que eu nunca me lembro disso a não ser que esteja a falar especificamente no assunto ou, como acontece recorrentemente neste tipo de casos, me lembrem que essa coisa dos "meios irmãos" existe. Porque, sinceramente, eu tenho uma teoria: toda a gente que enfatiza que tem "meios irmãos" é porque não os sente realmente como irmãos. Há mesmo quem diferencie os "100% irmãos" e os outros e eu acho isso terrível. Acima de tudo porque não percebo como é que isso é possível. Nenhum dos meus irmãos é "totalmente meu irmão" e eu nunca os senti menos irmãos por não termos ADN's mais semelhantes. 

Eles são, para mim, as melhores prendas da minha vida, os meus segundos pais, a minha inspiração, a minha companhia. Não concordo sempre com eles, às vezes chateio-me, mas acima de tudo, hoje em dia, tenho saudades de os ter sempre por perto e do mimo e do colo que me davam há uns anos atrás. Tenho a sorte de ter uns irmãos incríveis, que são também eles pessoas incríveis - e acredito que, como tudo nesta vida, existem maus irmãos e pessoas não tão boas. Mas a verdade é que isso depende de muita coisa (da educação, do ambiente, da personalidade), mas pouco da carga genética que carregam nas veias.

Da mesma forma que há boas e más pessoas, deve haver bons e maus irmãos - se calhar há irmãos que até podemos querer esquecer (embora eu tenha dificuldade em sequer pensar nisso). Mas esses não contam. Porque a palavra irmão, tal como a palavra "mãe" e "pai", representa muitooo mais do que aquilo que vai no dicionário. Naquelas cinco letras cabe o mundo - mas não cabem metades. Porque os irmãos medem-se por inteiro. 

 

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15
Abr17

"Só faz falta quem cá está"

Carolina

Mentimos todos os dias. Não quer dizer que sejam mentiras grandes ou que seja por mal. Às vezes é simplesmente mais prático. O clássico é a resposta "está tudo bem". A verdade é que quem nos conhece não precisa de perguntar esse tipo de coisas: simplesmente sabe. Quem nos pergunta, no meio da rua, "'tá tudo?" são pessoas que nós já não vemos há uma série de anos, colegas de trabalho com quem só almoçamos na mesma mesa enquanto se esvazia a marmita ou, no geral... o resto das pessoas. E ninguém diz "não, não estou bem": porque não há tempo, porque não há abertura ou proximidade para isso. Eu acho que o "está tudo bem" já quase se tornou numa expressão idiomática, de tanto ser dita e tão pouco verdadeira.

Mas não é a única. Eu adoro expressões, ditados e esse tipo de coisas e todos os valores subliminares que têm por detrás. Ainda há pouco lia um comentário que dizia "deixa lá, só importa quem cá está!" e só consegui pensar que aquilo soava a uma gigante mentira, por um lado com um tom motivacional e por outro com um toque profundamente magoado e chateado. Refleti seriamente nas vezes em que ouvi isto - e aquelas em que eu própria o disse - e percebi que é uma daquelas expressões que só sai quando há uma ferida por sarar. 

Se "só importa quem cá está" não haveria desgostos de amor profundos, não haveria lutos que duram uma vida, não haveria as dores de alma que existem devido a zangas, desencontros e mal entendidos. Nós somos feitos de todos os contactos que fazemos ao longo da vida - porque, como diz um dos meus filmes favoritos de sempre, "our fingertips don't fade from the life we touch". E há pouco, quando li o tal "só importa quem cá está", quase que ouvi uma vozinha irritada a dizer "somos melhores sem eles, não precisamos deles para nada, não fazem cá falta, eles que vão, que continuem as vidinhas miseráveis deles enquanto nós aqui continuamos a sambar na cara das inimigas - magoadas, doídas, doridas, mas sempre em cima, que mostrar que eles fazem falta só por cima do nosso cadáver!".

Mas a verdade é esta: as pessoas fazem-nos falta. E se dizemos que "só importa quem cá está", é porque ainda mais falta fazem. É porque ainda dói, é porque a ferida ainda não sarou. E normalmente só é uma expressão que usamos quando as pessoas saem pelo próprio pé, quando há um "abandono", quando existe um fim causado por alguém - o que, na verdade, ainda pode custar mais do que uma perda involuntária (como a morte).

Acho que já toda a gente esteve nesta situação - em que perdeu alguém de quem gostava mas, para não dar mais importância ao assunto, disse para si mesmo que "só importa quem cá está". Eu já o fiz, tantas e tantas vezes. Aliás, diria que vivo quase sobre essa máxima: há várias pessoas que considerava valiosas e que saíram da minha vida tão rápido como entraram, às vezes sem um acenar de adeus. E dói. Eu, nesse aspeto, sou uma pessoa muito dorida (e pouco disponível para aceitar mais pessoas só pensando na eventualidade delas depois irem embora). Mas o "mais engraçado" no meio disto tudo é que, no caso em específico em que surgiu este comentário, eu faço parte dos que já lá não estão. Estou do outro lado da barricada. Ou seja, pondo-me no meu devido lugar, a interpretação correta e literal é "já não fazes falta". Mas a mim, quem lá está, faz-me falta. Eu tenho saudades. "Saí" por questões práticas da vida, porque o meu dia-a-dia assim o ditou, mas não quer dizer que tenha deixado de gostar das pessoas lá envolvidas.

E ao ler aquilo pensei em todas as vezes que me senti abandonada por pessoas. E em como elas também podem ter razões práticas da vida para terem feito o que fizeram, para terem saído da minha vida conforme saíram. Mas a verdade é, que no fim de contas, as nossas dores são sempre as que doem mais: mesmo relativizando, mesmo quando nos colocamos nos calcanhares alheios. E um adeus é sempre um adeus. E toda a gente sabe como as despedidas são uma valente merda.

30
Mar17

Um balde a transbordar de água

Carolina

Estava a tentar escrever um post sobre a minha vida (como está, porque está e essas coisas do costume) e apercebi-me de que aquilo que saiu é precisamente um espelho do meu estado: escrevi um texto que mais parecia uma mixórdia, com mais de oito mil carateres (traduzindo: três páginas de word), onde falava sobre a mesma coisa sensivelmente trinta vezes e que nunca, mas nunca mais conseguia terminar. Ideias isoladas, pescadinhas-sem-rabo-na-boca, raciocínios pouco lógicos que tentava tornar lógicos quando eram à partida ilógicos. Em resumo: uma tragédia. 

Sabem quando enchem um balde de água tão até cima que ele começa a transbordar? E que ele nunca vai parar de transbordar enquanto a torneira não se desligar? Portanto, das duas uma: ou esvaziam o balde ou desligam a torneira. O ato de esvaziar o balde, para mim, é a escrita; o de desligar a torneira é morrer (e isso, só quando for velhinha). Como não tenho escrito, estou a transbordar por tudo quanto é lado - e desconfio que a pressão é tanta que já estou a fazer furos no balde.

É muito raro eu ter dificuldade em escrever, organizar as ideias para um texto, saber aquilo que devo utilizar e aquilo que devo deitar fora. Mas ali, naquele texto, pus tudo - e ainda faltava tanta coisa! Ando simplesmente cansada, com preguiça de pôr as coisas "no papel" - precisamente por ter tanto para dizer. Há tanta coisa dentro daquele balde que até eu, perita em auto-analisar-me, estou com dificuldades em desembaraçar tudo, analisar e arrumar nos devidos sítios.

Sabem uma coisa? Há dias em que apetece trocar de balde. Dava jeito ter um Continente para este tipo de coisas. [Quero tanto voltar ao normal. Estou tão cansada desta fase de merda que só quero um choque bom para acordar para a vida.]

 

23
Fev17

O rídicúlo dos diretos (ou coisas que não percebo nas redes sociais 1#)

Carolina

Gosto muito do instagram mas não achei grande graça quando quis imitar aquelas funções do snapchat (que, por sua vez, não acho piada) criando o instastories. Mas enfim, como tudo na vida, primeiro estranha-se e depois entranha-se e eu agora até vou fazendo uns vídeos - nomeadamente quando estou entretida a cozinhar - para essa nova função do instagram. O que nunca fiz foi um direto, tanto no instagram como no facebook; não é algo que me parece que vá fazer tão cedo, porque não me apetece falar para o boneco, mas ainda assim é disto que quero falar.

De vez em quando, enquanto estou a passear pelas redes sociais a ver as horas passar e me aparece uma notificação de que alguém que eu sigo está a começar um direto, vou lá espreitar. Normalmente são sempre figuras públicas, não há muita gente anónima a fazer os chamados lives, e acho que quem utiliza mais estas ferramentas é malta mais jovem (e muitas vezes com um target ainda mais jovem), o que também afeta aquilo de que vou falar. Nestes casos, refiro-me por exemplo aos diretos da Maria Vaidora e da SofiaBBeauty - que, para quem não sabem, são duas vloggers de moda, beleza e lifestyle, de quem eu por acaso gosto muito e acompanho nas várias redes sociais.

Mas voltando à vaca fria: eu presumia que, quando se fazia um direto, é porque se tinha algo interessante para dizer ou mostrar; algo que está a acontecer no momento ou que tenha valor por ser transmitido, ali e agora. Mas não. Em primeiro lugar, muitos lives são marcados com antecedência - tudo bem, têm um pressuposto diferente, não é para transmitir nada de especial mas para marcar um "encontro vrtual" com os seus seguidores. Até aqui até é aceitável. O pior são os eventos em si, em que 95% são os protagonistas a mandar beijinhos, dizer "parabéns" a alguém que faz anos daqui a dois dias ou a tentar ver os comentários que pedem para mandar beijinhos mas já estão escondidos pela própria plataforma. Os restantes 5% são divididos entre os momentos iniciais (2%), em que os bloggers/vloggers/famosos tentam perceber se aquilo está de facto a funcionar, e a dizer qualquer coisa de novo, útil ou minimamente interessante (3%).

Ou seja, a questão que se coloca é: para quê que eu vou ver um vídeo onde só ouço coisas como "beijinhos Xana, também gosto muito de ti!", ou "parabéns Rita, um dia muito feliz!" e ainda "a Sónia diz "mil beijinhos!"; também para ti, Sónia!". E eu não culpo propriamente quem faz os diretos por isto: está "escrito" que, neste tipo de coisas, é essencial ter interação com o público, para criar o tão falado "engagement" e fazer com que as pessoas se sintam mais próximas de quem admiram. Por outro lado, eu percebo que seja difícil ter alguma interação minimamente interessante quando só te pedem para mandar beijinhos para as amigas e não te fazem qualquer tipo de questão pertinente - não condeno, por isso, os papéis de pessoas que até acho interessantes e inteligentes (como os dois exemplos que dei acima), só acho que é preciso dar a volta ao texto. 

Há que perceber que esta nova moda é completa e totalmente desprovida de conteúdo e que o feitiço se vira contra o feiticeiro: porque se no início uma pessoa até quer ver, no fim já só quer desligar, por se sentir "beijada" até às pontas do cabelo. No fundo, só lá fica quem está na fila de espera para os beijinhos para a tia, para o namorado e para a melhor amiga. Todos os outros, os não beijoqueiros, já se foram embora há muito.

19
Fev17

O meu jeito de fotografar

Carolina

Há cerca de um ano escrevi aqui um texto - que nunca cheguei a publicar - sobre a forma como gostava de fotografar e os meus problemas enquanto tirava fotos. Tinha acabado o curso de fotografia e aproveitei para, nesse mesmo post, fazer também um balanço de como é que aquilo tinha sido e portanto, como eu não o publiquei, acabou por ficar datado e esquecido nos meus rascunhos.

Lembrei-me dele antes das minhas viagens, quando disse aqui que uma das coisas que mais me chateava em viajar sozinha era não ter quem me fotografasse. Depois fiquei a pensar no assunto e achei que podia ter soado um bocado fútil, como quem diz "olha-me esta, só precisa de alguém para fazer de fotografo ambulante para escarrapachar as fotos no instagram!" - e isso não é de todo verdade. A fotografia é, para mim, uma parte essencial de qualquer viagem - e ao contrário de muita gente, eu depois vejo, revejo, escolho, trato e arquivo as imagens de forma hiper cuidada, para depois passar a vida a ir lá cuscar. Quem me conhece sabe que sou menina para passar a vida a ir ao baú, em busca de recordações, memórias e detalhes. Não diria que vou todos os dias à minha pasta de fotos - mas umas três vezes por semana é mais que possível. Porque para além de gostar de tirar fotos, gosto de as ver e reviver os momentos bons da minha vida. 

É muito mais que um simples capricho de facebook ou de "toma lá que a minha viagem foi melhor que a tua". Gosto de ter fotos nos sítios que gostei e onde fui feliz - e, por isso, essa continua a ser uma das coisas que me chateia em viajar sozinha. Porque, tal como calculei, acabei por tirar muito poucas fotos - as que tirei a mim mesma foram selfies, com o telemóvel, e as outras são paisagens, acabando por morrer um pouco e por não terem uma âncora que nos fixe àquela fotografia (é claro que isto é um ponto de vista pessoal, eu adoro foto de paisagem, mas têm de ser extremamente bem tiradas, o que não é a minha especialidade).

E isto leva-me ao tema do post que tinha escrito há um ano atrás, em que eu falava das dificuldades que tinha ao fotografar. Um dos exemplos que dava - e que se mantém - é que embora goste de fotografar um bocadinho de tudo, tenho um especial gostinho em fotografar pessoas, principalmente se estas me dizem algo. No entanto, gostava também de fotografar algumas pessoas que vejo na rua - e isto já me dava a alma que procuro nas fotos, de que falava acima, e que de certa forma "me" poderia substituir quando eu estivesse sozinha - mas não tenho nem lata para lhes apontar a objetiva à revelia nem coragem para ir ter com elas e pedir para tirar uma foto; é algo que não faz parte de mim, porque sempre tive muita dificuldade em falar com os outros, principalmente quando sinto que os vou "chatear". Por outro lado, mesmo que tivesse a lata de ir falar com as pessoas, tenho a sensação de que, por cá (os portuenses), são sempre um bocadinho impulsivos, com uma certa tendência para a agressividade espontânea, pelo que tenho - para além de vergonha - medo das potenciais reações que possam ter após lhes pedir para tirar uma fotografia. 

Adoro fotos de rua, muitas vezes a preto e branco, de casais num café, um velhinho a ler um livro num banco ou uma criança num escorrega - mas sou incapaz de ser eu a faze-la e disparar nas alturas devidas. De certa forma, sinto-me a invadir a privacidade das pessoas, e eu não consigo ver-me livre desse sentido "moral" que não me deixa tirar fotos livremente. Na altura, quando acabei o curso, isso mexia muito comigo - o facto de me sentir impedida de tirar um tipo de foto que gosto; hoje em dia, que também já não tenho tanto tempo para fotografar, essa questão já me passa um pouco ao lado e acho que se calhar nem tenho assim tanto jeito para a coisa. Limito-me praticamente a fotografar quem gosto, em ocasiões mais ou menos especiais. Acho que também me safaria em tudo o que é foto de ocasião - casamentos, aniversários e essas coisas assim, com pessoas efetivamente predispostas a serem fotografadas. Porque se, por um lado se perde um pouco de magia e autenticidade, por outro há o gosto de conseguir tirar fotos efetivamente boas. Não sei, talvez um dia.

Por agora, guardo a lente para os meus, para as minhas viagens e para mim - quando estou acompanhada. Para o bem e para o mal, é aquilo que tenho.

 

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(David no escorrega, 19.02.17)

18
Fev17

A fórmula da felicidade pode ter dor pelo meio

Carolina

Não acho que tenha sido uma adolescente difícil, com aqueles dramas todos do costume. Simplesmente não fui uma adolescente feliz. Não que não tivesse condições para isso, mas simplesmente não me conseguia ver livre dos meus fantasmas, que tomavam conta de mim de forma permanente. De qualquer das formas, acho que esta é das épocas da vida em que é difícil ser-se feliz, a menos que se seja muito parvo e ninguém tenha uma rédea sobre nós. Eu estava a passar por aquilo, sabia os "sintomas", mas não me identificava com eles: via os meus colegas a passarem por todas as fases a que tinham direito, a fazerem asneiras sem olho em qualquer consequência, e eu abanava a cabeça, num "não" constante.

Foi só mais uma fase em que não me integrei com nada nem ninguém e que embora não andasse enrolada com 3 gajos na mesma semana, a fumar um cigarro na parte de trás da escola e já de olho no dealer de erva ou a mentir aos meus pais, vivia com os meus próprios dramas e cocktail de sentimentos que não sabia gerir. E acho que isso só resultou num isolamento total e numa tristeza que morou em mim até, provavelmente, ao 11º ano - ano em que me senti mais no fundo do poço e já com anti-depressivos na carteira mas onde também decidi tomar as rédeas da minha vida e deixar-me de merdas.

Por outro lado também culpo a genética. Acho que tenho propensão para estar triste, ver o copo meio vazio, estar de olho no lado negro da vida, optar pelo ponto de vista negativo em detrimento do positivo. Esta é a minha forma natural de estar, mas também é aquela em que não quero viver - por isso todos os dias faço o exercício de gostar das coisas, sorrir para as pessoas, fazer listas de coisas boas se assim for necessário, ser simpática e esperar que o universo retribua com positivismo. E quem está a ler isto e não me conhece deve estar a pensar que eu sou o Gustavo Santos em modo feminino, a tentar inspirar o mundo para uma auto-ajuda generalizada, mas não é verdade: primeiro porque não acho que seja exemplo para ninguém e, segundo, acima de tudo, porque o que eu estou a dizer é a mais pura das verdades, no meu caso em particular. A mudança foi radical e sei que no exterior também se notou: sou hoje uma pessoa mais feliz e muito mais fácil de conviver e privar. Porque a verdade é que viver ou estar com alguém que está sempre triste, deprimida e chateada com a vida é um castigo: castigo esse que eu não queria dar nem aos que amo - porque são quem me atura diariamente - nem a mim própria. Eu já não me aguentava, estava farta de mim. E isso era uma bola de neve que ia piorando gradualmente porque não conseguia sair deste ciclo. 

Esta mudança aconteceu porque cresci mas, acima de tudo, porque quis. Ai de quem me tire os louros nisto e os ponha em cima dos anos que passaram por mim. Porque embora eu duvide seriamente que conseguisse voltar ao que era - a não ser que um acontecimento avassalador tomasse conta da minha vida e eu perdesse totalmente o controlo -, não tenho dúvidas que aquela Carolina ainda continua ali. E ela aparece todos os dias e eu não consigo deixar de ser eu. Costumo dizer "deram-me os 5 minutos, mas já passou"; ou então, já antevendo a coisa: "estou prestes a ter os 5 minutos, mas já passa". Esses cinco minutos são de choro compulsivo e música deprimente; são fonte de inspiração para escrita, são dores de alma. Mas são só cinco minutos - e depois pára. Porque eu não sufoco aquilo que sou, mas preciso de ser outra coisa. Estabeleço-me limites para gozar e viver as tristezas, as deprimências, as ânsias e os sofrimentos - podem não ser cinco minutos, podem ser dez, um dia, uma semana. Depende do que for, depende dos quê's da questão, de uma previsão para eu ver a coisa resolvida. Mas tem de terminar ali.

E isto pode parecer estranho e irreal porque, de facto, as dores e os desgostos não têm prazo de validade; só o tempo é que os cura. A questão é que, a menos que sejam autênticos elefantes na sala que não consigamos controlar - que acontecem -, podemos prioriza-las. O truque é deixar de lhes dar prioridade. Primeiro há uma vida para viver, passeios para dar, viagens, trabalho, pessoas - e depois podemos resolver tudo isso. Mas a verdade é que, bem vivida, a vida é demasiado cheia de coisas (boas e más) para termos muito tempo para estarmos ocupados a resolver coisas antigas e a carpir como se não houvesse amanhã.

Às vezes dizem-me, ferverosamente, para parar de racionalizar. Deixar de pensar em hipóteses, de parar de descodificar aquilo que sinto, que os outros sentem. O que essas pessoas não sabem é que o ato de racionalizar, tanto me mata, como me salva diariamente. É como as enzimas dentro do nosso corpo, que partem partículas maiores noutras mais pequenas, de forma a serem digeridas: pode doer à primeira, mas é a única forma de elas serem absorvidas e serem uma parte integrante de nós. E eu preciso de desconstruir tudo, ordenar as ideias, dar-me tempos para arrumar tudo direito e seguir em frente. É assim que consigo ser feliz. (Literalmente) Estranhamente feliz.

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