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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

10
Out17

Há um equilíbrio possível entre o turismo e as gentes da cidade?

Carolina

O meu facebook está inundado com uma notícia sobre um alfarrabista portuense que foi despejado do local onde estava há quase duas décadas, na Rua das Flores, aqui no Porto. A razão? O prédio foi vendido e querem pô-lo fora para fazer render o peixe. Para quem não conhece, a Rua das Flores é atualmente uma das mais movimentadas da cidade, cheia de lojas, restaurantes, bares e tasquinhas - a maioria vocacionadas para turistas, como é óbvio. É uma rua pedonal que, como quase todas as ruas, estava deserta há pouco mais de cinco anos. Hoje em dia desenvolveu-se de tal forma que, por vezes, não se consegue andar normalmente sem atropelarmos meio mundo e a calcarmos outro meio.

Há duas posições que quero deixar aqui claras: a primeira é a minha "admiração" perante um feed de facebook tão culto e intelectual. Eu não conheço o alfarrabista em questão, mas aparentemente toda a gente o conhece - ou, pelo menos, finge que conhece (esse e muitos outros...)! A verdade é que eu, que adoro livros, raramente entro em lojas deste género - não sei bem explicar porquê, mas sinto que há um maior sentimento de pertença por parte dos donos e por isso sinto-me um pouco "vigiada", não sei explicar. Por outro lado também sinto que está tudo mais apertado, é mais difícil encontrar o que quer que seja, por isso desisto com facilidade de encontrar algo que me agrade. Ou seja, surpreende-me que eu, que gosto de ler, não conheça estes sítios mas metade do facebook sim. Mas ainda bem, é sinal de que somos todos muito cultos e que queremos que a cidade continue super intelectual (cof cof cof).

A segunda questão que quero deixar evidente é que, como é óbvio, não apoio este tipo de atos. Tenho muita, muita pena que o comércio local esteja a desaparecer e a dar a vez a lojas de souvernirs, Nut's e coisas do género - porque eram essas lojas que também faziam do Porto, o Porto e o seu desaparecimento é também o esquecimento de uma identidade muito própria e muito nossa, com a qual me identifico quando digo que sou "uma mulher do norte". Mas a hipocrisia que se vive nas redes sociais é coisa para me irritar. Porque a verdade é esta: se o alfarrabista em questão fosse um sucesso, se vendesse imensos livros, não tinha de sair, porque provavelmente conseguiria pagar a renda pedida pelos novos donos - ainda que seja provavelmente absurda, dado os preços impossíveis que se praticam hoje em dia na cidade.

Mas não vende. Porque nós queremos as lojas lá, porque são bonitas, porque fazem parte da nossa identidade, mas não as apoiamos, não compramos lá coisas - e eu contra mim falo, como se leu acima. Porque nós somos práticos e preferimos mandar vir os livros da net, onde muitas vezes podemos ler o primeiro capítulo do livro que nos interessa sem estarmos a ocupar o corredor de uma loja e ter a obra em mãos em dois dias úteis sem termos levantado o rabo da cadeira. Porque nós adoramos as lojas de ferragens ali na zona de Ceuta, mas quando precisamos de uns parafusos vamos ao Leroy Merlin, onde até aproveitamos para comprar o tapete da casa de banho que fazia falta. Porque nós achamos imensa graça aos joelheiros na baixa do Porto, mas quando precisamos de um anel para oferecer às nossas mães vamos ao NorteShopping porque há mais variedade. Porque nós gostamos imenso daquele tasco na Rua dos Caldeireiros, mas arranjar estacionamento lá é uma loucura e por isso preferimos ir ao Madureira's que oferece o bilhete do parque lá ao lado. Porque nós simpatizamos com a senhora da frutaria ali ao pé do trabalho, mas esta semana o Continente está com 15% na secção de fruta fresca por isso temos de ir aproveitar. Porque aquelas lojas de artigos em segunda mão na Rua do Almada também têm boas pechinchas... mas para quê comprar um armário que ainda vamos ter de lixar, limpar, pintar e envernizar quando podemos comprar um no IKEA pelo mesmo preço? 

É muito fácil criticar o estado, o governo e as políticas quando somos incapazes de olhar para o nosso próprio umbigo. As coisas não acontecem por acaso e a evolução que estamos a assistir não aconteceu só graças aos estrangeiros, mas também por nossa causa. As gerações mudaram, as necessidades e os hábitos são outros. Nas redes sociais e nos blogs pede-se mudança, uma política que proteja os habitantes das cidades - e, meus amigos, eu compreendo e concordo! Principalmente quando demoro meia hora a percorrer um quilómetro de carro na baixa, só porque a afluência de turistas a passar nas passadeiras é de tal forma que não dá folga para os veículos circularem. Mas não se pode ter tudo. E eu acho que, neste caso em particular, não há um equilíbrio - havemos de ter passado por ele no meio de todo este processo, mas há muito que a balança se desequilibrou. Porque isto é um ciclo vicioso difícil de quebrar: o turismo gera emprego, algo que nós precisamos de como pão para a boca; o crescimento do emprego faz dinamizar a economia, que por si só atrai investimento e por aí fora. E o dinheiro, como quase sempre, está primeiro que as pessoas. É "apenas" o mal estar de alguns, enquanto muitos outros esfregam a barriga de contentes. E enquanto forem mais os que estão contentes do que aqueles que são despejados, que são obrigados a ir viver nos suburbios ou os que não conseguem dinheiro para uma renda, as coisas vão continuar assim. 

Eu amo a minha cidade e adoro vê-la dinamizada - já disse aqui várias vezes que me lembro de ver o Porto morto, deserto e de ficar triste ao ver aquele cenário. Mas sabem: mesmo aí, as coisas estavam prestes a fechar. Porque nessa altura, nem nós comprávamos no comércio de rua, nem os turistas - porque eles simplesmente não existiam. E por isso é ainda mais difícil comparar esses tempos com os atuais, decidir o que é melhor para nós enquanto habitantes.

O ideal era ter o melhor de dois mundos: sermos o melhor destino Europeu, mas impedir grandes franchisings de vir para cá ganhar dinheiro; aumentarmos a qualidade de vida, mas não sermos confrontados com rendas e preços impraticáveis dentro da nossa própria cidade; mantermos vivo o tradicional, mas preferindo usufruir das novas tecnologias e do conforto. Mas, para já, os milagres ainda não existem. E uma coisa é certa: todo este problema não se vai resolver enquanto olharmos para ele com olhos hipócritas, como todos nós não estivessemos também a usufruir ou a contribuir - um bocadinho que seja! - para este fenómeno.

29
Set17

Blogs do Ano: vamos lá pôr a boca no trombone

Carolina

Confesso que esperei ansiosamente pelas nomeações dos blogs do ano. E porquê, perguntais vós? Para me rir um bocadinho! Porque, avaliando pela edição do ano passado, quase punha o mindinho no fogo apostando que nesta edição ia virar o disco e tocar o mesmo. E não é que não me enganei?! O "best of" da blogosfera está todo lá... pena é esse mesmo "best of" não ter modificado de um ano para o outro. Pelo meio há ainda umas boas pérolas, quase para disfarçar que este é um concurso decente. Ora vejamos.

Precisamos primeiro de esmiuçar o conceito de blog. Um blog é uma página de facebook? Um blog é um sítio virtual com um domínio próprio - e bem estabelecido, que nunca teve como sufixo "sapo" ou "blogspot" à partida - e com não sei quantas pessoas envolvidas por detrás, incluindo programadores e gestores de conteúdo para fazer a coisa acontecer? O conceito é de facto abrangente mas, para mim, um blog é (era?) um sinónimo de autenticidade - um espaço para quem não tem espaço na opinião pública mas que, ainda assim, se quer fazer ouvir ou mostrar algo sobre assuntos do seu interesse. Para mim é impensável que alguém que não o próprio dono do blog lá escreva ou o gira; para mim, um blog é algo com uma estrutura relativamente simples, sem grandes floreados e ramificações, porque - lá está - parte de alguém sem grandes condições para fazer tudo isso e que só quer carimbar o seu nome em algo. A meu ver, há diferenças entre um blog e um site - um sendo muito mais complexo que o anterior. E nem vale a pena mencionar o facebook - acho que já sabem o que eu acho.

É por isso necessário perguntarmo-nos o quê que a Bumba na Fofinha está a fazer na categoria de "Entretenimento" quando, na verdade, ela não tem um blog: tem uma página no facebook, onde publica vídeos - bem engraçados, mas isso já não é para aqui chamado - que por acaso também estão no YouTube. (Engraçado, ia jurar que há uma categoria precisamente sobre vídeos de entretenimento... mas devo ter visto mal). 

Depois chamam-se ao caso todos os "blogs" de figuras públicas. Cláudio Ramos, Júlia Pinheiro (a sério que o "Júlia" é o um blog? ah ah ah), Ana Rita Clara, Leonor Poeiras, Pedro Teixeira, Raquel Strada ou Jéssica Athayde são alguns dos nomes que me surgem. Penso que já aqui escrevi sobre esta questão, sobre a necessidade de todas as figuras públicas agora terem um espaço e chamarem-lhe de "blog" e como acho isso ridículo - e estou pacientemente à espera que tal passe de moda. Isto para mim não são blogs por várias razões, muitas das quais já enumerei acima: primeiro porque são assinados por alguém que já tem exposição e espaço na opinião pública; segundo porque são raros (existentes?) aqueles que são genuínos, totalmente geridos pelos supostos autores; terceiro porque já têm todo um trabalho de agência envolvido, tanto na parte de produção de conteúdos, como de gestão de redes sociais, que têm só um propósito: vender, fazer publicidade e parcerias. A parte do "genuíno" e da "partilha de ideias" é posta num saco e mandada ao fundo do rio com pedregulhos bem grandes. Quase tudo o que fazem é vender-nos coisas: se não são produtos, são muitas vezes estilos de vida que não podemos alcançar. Ou seja: há toda uma máquina por detrás de todos estes "blogs" que, para mim, lhes tira logo esse estatuto. E ainda podemos ir mais longe: muitos destes sites são "apadrinhados" pela TVI - entidade que, coincidentemente, promove o concurso...

Depois há um par de questões que me apoquentam. A primeira chama-se "Nêspera no cu". Até gosto do conteúdo, mas primeiro o facto de estar inserido na categoria "Vlog Entretenimento" (ah, afinal sempre existe!) irrita-me um bocadinho, tendo em conta que aquilo não é bem um vlog - é só um podcast com umas figurinhas dos intervenientes a mexerem a boca de forma muito pouco natural. Para além disso, tendo em conta que o concurso é anual, parece-me lógico que se nomeiem (e premeiem) canais/blogs que estiveram ativos nesse mesmo período - o que não é o caso da Nêspera. Dei-me ao trabalho de ir ver e o último vídeo publicado neste canal foi no dia 25 de Maio do ano passado. Ou seja, temo que exista aqui um erro e os senhores do júri se tenham confundido um pouco, trazendo do ano passado um candidato esquecido. Uma chatice. A segunda questão também se insere no capítulo "porquê que este site está nesta categoria?", onde temos a La Dolce Rita - uma das minhas favoritas, toda a gente sabe - que está incluída nos "Vlogs de Lifestyle". Ora bem, se for um "lifestyle" para pessoas como eu, lontras, que gostam é de comer, de fazer bolos e aprender sobre como fazer doçaria conventual... até concordo. Fora isso, acho só um bocadinho descabido. Mas enfim, eu percebo: não há dinheiro para tudo, e não se pode criar uma categoria para culinária, porque o troféu ainda fica caro e a vida está difícil.

Mas enfim, isto tudo são "pormenores", que apenas distraem da questão global de tudo isto. Para mim, era lógico e expectável que os concorrentes iriam ser em todo semelhantes aos do ano passado. Porquê? Porque estamos em Portugal, uma país pequeno, onde não emergem propriamente blogs populares todas as semanas. Aqueles que eram líderes o ano passado, continuam a sê-lo agora. E por isso, a continuar neste formato, os mesmos blogs e as mesmas pessoas vão continuar a arrumar troféus nas suas prateleiras - ainda por cima quando o voto final é feito pelo público, o que vai fazer com que os mais lidos sejam também os mais votados. A continuar assim, mais vale fazerem o concurso de cinco em cinco anos, na esperança de que algo mude no panorama da blogosfera nacional. 

Eu sei que a maioria das pessoas acha que existe uma correlação entre o sucesso de um blog e a sua qualidade - ou seja, se um blog é bem sucedido é porque é bom naquilo que faz. Mas eu não concordo, ainda para mais com a quantidade de sites de figuras públicas aqui envolvidos, com autênticas máquinas de publicidade por detrás deles. Aliás, desconfio até que a maioria das coisas lá escritas tenham sequer um dedo dos supostos envolvidos, mas enfim, essa é toda uma outra luta. Hoje em dia, o sucesso de um blog depende muito da gestão das redes sociais, da publicidade, do passa a palavra - e pouco da informação que realmente lá é veiculada. Mas neste sentido, o que eu acho que era bom - eventualmente até se mantendo este formato de "líderes dos blogs" (porque é isso que este concurso é) - era mostrar ao mundo blogs mais pequenos, com muito menos exposição, muito menos contaminação por marcas/publicidade/mentiras, muito mais genuínos e reais (e não, não estou a puxar a brasa à minha sardinha, porque não quero nem preciso de ter milhares de pessoas a lerem-me, a criticarem-me e a mandarem-me postas de pescada de cada vez que troco um "a" por um "o"). Mas enfim, como isso não vende, arruma-se a ideia para debaixo do tapete e organiza-se, ao invés, uma gala de arromba com pseudo-figuras-públicas - algo que dá pano para mangas nas revistas, sites e redes sociais, rendendo mais cliques, dando mais dinheiro de publicidade e, no fim de toda esta cadeia, enchendo os cofres de alguém. Nada a que já não estejamos habituados, portanto.

Como nota final, resta-me contar-vos que a minha mãe me perguntou porquê que não me inscrevi neste concurso. A resposta é simples e divida em três partes: a primeira é porque não tenho exposição mediática para ganhar o que quer que seja deste género. A segunda é porque escrevo posts destes, porque ponho a boca no trombone, porque digo as verdades que ninguém quer dizer e isso não é propriamente bem-vindo nestes meios. E a terceira é porque eu, de facto, tenho um blog: genuíno, pobrezinho às vezes, nem sempre com conteúdo e muito menos com conteúdo interessante - e, claramente, não é de blogs que trata este concurso.

26
Set17

Dizendo adeus ao melhor verniz do século

Carolina

Sabes que estás a fazer um post demasiado tarde quando o produto que ias elogiar já foi retirado do mercado. Eu sei que não tenho desculpa e quase devia ser açoitada por isto - fiz-vos perder, provavelmente, o melhor verniz da história dos vernizes. Mas isto levanta uma questão muito pertinente: porquê que no mundo dos cosméticos e de materiais de beleza, os melhores produtos e muitas vezes os mais vendidos são descontinuados? Não faz sentido! Não é que eu perceba do assunto - pouco utilizo produtos de maquilhagem e derivados - mas estou a começar a perceber que é uma prática comum.

O produto sobre o qual eu há meses vos queria falar era a dupla de vernizes "Shine&Color" da Flormar - que, segundo eles, dava um toque de gel às unhas sem precisarem de ir à luz ultra-violeta. Experimentei-o por acaso numa ida à manicura e aquilo durou-me tanto tempo, de forma tão espetacular e heroica, que voltei lá de propósito comprar o verniz. E há cerca de duas semanas, quando lá fui, pedi para levar outra cor... quando me disseram que praticamente já não tinham, porque a linha tinha sido descontinuada. Como assim?! Como é que se acaba com o melhor verniz do mercado? Disseram-me que era por ser realmente tão bom: os outros produtos deixavam de se escoar e por isso acabava-se com estes, que eram quase "canibais" de toda a marca. Não sei se a explicação é verdade, mas faz de facto algum sentido... mas não deixa de ser uma pena.

O último caso que me lembro assim do género, ainda mais berrante - e soube isto através das notícias - foi a da paleta da Urban Decay, a Naked Smoky, que era das mais vendidas da marca. No artigo que li, a explicação era semelhante à que me foi dada no cabeleireiro: diz um representante da Urban Decay que "Estamos sempre à procura de maneiras para que os nossos produtos fiquem melhores. Cada vez que criamos um novo produto, partimos de um ponto de vista novo e procuramos ser tecnologicamente inovadores. Lamentavelmente, por vezes, isto significa que temos de deixar de fabricar produtos que todos gostam, para lançar produtos que gostem ainda mais". Ou seja: tretas. Ninguém deixa de vender um dos seus best-sellers a menos que tenha uma boa razão para o fazer. 

Por isso, minhas boas amigas, serve este post para pedir desculpas e para, se quiserem, ainda tentarem encontrar estes produtos numa loja perto de vós. Para vos dar o exemplo, posso dizer-vos que pintei as unhas numa terça-feira e que só no domingo da semana seguinte (doze dias depois) é que ele escamou um pouquinho - e eu não sou minimamente cuidadosa com as mãos, passo a vida a lavar coisas e a roer as peles e etc. Não diria que tinha um toque tipo gel, mas era magífico - mantinha o brilho e, quando se tira, não mancha minimamente as unhas como os de outras marcas mais baratas. Era de facto um achado... Se virem uma destas preciosidades à venda ou souberem de notícias, gritem: eu estou disponível para fazer um stock que dure, pelo menos, para o próximo par de anos!

 

24
Set17

O que penso sobre a casa dos youtubers e os vídeos dos seus moradores

Carolina

Eu acho que é impossível que quem tenha filhos, primos, sobrinhos ou irmãos com idades compreendidas entre os seis e os 14 anos nunca tenha ouvido falar do Wuant, do Windoh, do Ovelha Nigga, do Gato Galático ou, de uma forma geral, da casa dos youtubers. Eu aqui em casa - creio que como todos os adultos - recebi um tratamento de choque: berros, asneiras e muitas gargalhadas um tanto ao quanto irritantes vindos das colunas de computadores alheios. Entretanto a exposição mediática desses youtubers, em grande parte devido à casa onde passaram a viver, já fizeram o trabalho de os mostrar ao público em geral. Ou seja, suspeito que, de uma maneira ou de outra, já devem ter ouvido falar sobre eles.

Aliás: provavelmente já ouviram dizer mal deles, que é o que mais se faz por aí. Somos todos peritos a criticar, mas a fazer... nem por isso. Porque apesar de eu não achar graça ao conteúdo deles - e sim, falo com conhecimento de causa, porque tenho ouvido demasiadas vezes "COMO É QUE'É MEUS PUTOS, DAQUI É WINDOHHH" e coisas que tais, para poder escrever este post - sou capaz de apreciar o trabalho que está por detrás de toda aquela palhaçada ou "trollagem", como eles gostam de chamar.

Para mim há, naqueles vídeos, um conflito de valores. Primeiro os que estão à vista de todos, os preocupantes: que é fácil ter uma vida desafogada, que se compram facilmente sapatilhas de mil euros e carros de alta cilindrada, que é fácil sair de casa dos pais para ir viver com os amigos numa "mansão", que se podem ter ações inconsequentes sem pensar nos resultados finais (exemplo: pôr super cola na cara de alguém sem antes ter pesquisado como se tirava o produto da pele) e que é prudente deixar de se investir na formação para viver de um canal do youtube sem ter um plano B. E depois os valores subjacentes, esses sim com importância: que é o trabalho que lhes proporciona aquela vida, aquela fama, todas estas oportunidades. O problema é que o que está à vista de todos acaba por ser, para quem vê (crianças maioritariamente), o principal, porque não há maturidade suficiente para se perceber os valores implícitos. Para os putos, aquilo é o trabalho mais fixe de sempre! O meu sobrinho mais velho, por exemplo, queria ser experimentador de colchões (eu sei, eu sei...). Agora? Quer ser youtuber. Porquê? Primeiro porque acha que lhe vai dar tanto trabalho como andar a saltar para os sítios onde as pessoas dormem - erro crasso! -, segundo porque acha que mal crie um canal lhe vai logo sair um Audi XPTO na rifa. Nem ele nem a maioria sabem o trabalho e as horas que aqueles miúdos passam entre filmagens e edições - e também não fazem noção do tempo (os anos!) que eles passaram a fazer vídeos sem likes, comentários ou putos a berrarem-lhes à porta.

Se calhar estão a ler este texto de sobrolho levantado e pensar "esta miúda está mesmo a defender aqueles energúmenos?". Pois, eu sou assim, tento sempre ver o outro lado da moeda - e acho que, como em tudo na vida, isto não é uma questão linear. A única coisa que defendo nestes vídeos - e que absolutamente ninguém pode negar - é que aquilo dá trabalho. Lá por eles se estarem a divertir e a fazer asneiras de forma consecutiva, não quer dizer que depois não passem horas em frente ao computador para fazer aquilo resultar e passar os vídeos para algo "comestível" e visualizável, com todos aqueles pózinhos de perlimpimpim que aparentemente fazem daqueles canais um sucesso. As pessoas "normais" não sabem as horas de edição que estão por detrás daquilo - como não sabem o trabalho que dá escrever diariamente para um blog. São coisas camufladas como hobbies, como algo ligeiro para quem as faz, mas para além de já ser o trabalho para algumas pessoas em Portugal (caso deles), requer muitas horas de dedicação e empenho.

Mas isto não quer dizer que eu apoie aquilo que eles fazem e muito menos os valores que eles lá transmitem. No outro dia o meu queixo bateu no chão quando ouvi o Windoh, num vídeo filmado no seu quarto de hotel no Brasil, a dizer: "este quarto está mesmo muito desarrumado, tenho de chamar a senhora para o vir limpar". Mexeu-me com as entranhas. Elas já estavam remexidas ao ver o estado caótico daquele quarto, com lixo espalhado pelo chão, misturado com roupas sujas e lavadas - roupa interior incluída -, mas quando me apercebo que ele ia chamar uma criada para o limpar, toda eu fiquei revoltada. E preocupada. Porque percebo que é daqui que vêm algumas das mentalidades dos meus sobrinhos e de tantos outros miúdos. Coisas que já deviam ter ficado no século passado e que estão a ser alimentadas por miúdos com uma noção de respeito e educação muito diferente da minha. E isto sim, é alarmante. Mais do que os berros, mais do que as asneiras, mais do que as expressões horríveis como "bem poddddddre". Aquilo com que devíamos estar preocupados são os valores ali transmitidos que, infelizmente, ultrapassam os do trabalho e da dedicação. 

 

Foto: Visão

17
Jul17

Calças, calças everywhere (ou #contraextinçãodasmumjeans)

Carolina

Passo a minha vida a passear-me entre rádios em busca de alguma música que goste, por isso já nem sei bem dizer em qual delas é que ouvi uma das animadoras a dizer que uma fashion advisor fez uma lista com uma série de coisas que todos tínhamos imediatamente de parar de usar. Liguei tanto àquilo que só me lembro de duas delas: a primeira eram leggings, a segunda eram mum jeans.

Não me vou meter na discussão das leggings – muito poderia ser dito aqui sobre esse tópico, mas nem sequer sou grande pessoa para opinar porque só as uso para ir ao ginásio (e como não vou ao ginásio, não as uso…). Mas falar nas mum jeans é tocar-me na ferida! Isto das opiniões relativamente à moda tem muito que se lhe diga e estas listas dos “must-have da estação” ou do “livre já o seu armário destas peças” fazem-me um bocado de espécie.

Primeiro porque só quem tem um poder económico alto e uma paciência de santo é que renova o roupeiro segundo cada estação e segundo porque há milhões de formas de conjugar as coisas e até de fazer com que as peças mais horrendas resultem em coisas visualmente aceitáveis. É tudo uma questão de gostos e estas medidas “restritas”, a mim, tiram-me do sério e não deviam ser levadas a peito só porque é uma fashion advisor que as diz. Se fosse eu, diria para se abulir o roxo de todas as roupa; ou tirar as culotes do mercado. Mas são gostos e tenho de admitir que há quem goste e que até existem pessoas a quem aquilo fique bem.

Mas voltando às mum jeans: foram as minhas salva-vidas. Já escrevi aqui que detesto comprar calças, é um verdadeiro suplício. Eu sou a receita perfeita para grande parte das calças me ficarem pessimamente: pernas e coxas gordinhas, anca larga e, para ajudar à festa, um tornozelo inchado (o que é importante, principalmente hoje em dia, em que falta um palmo em quase todas as calças existentes no mercado). Por isso, sempre que eu começava a ver que precisava de comprar esta peça de roupa, até tinha suores frios.

Até virem à baila às mum jeans. Para quem não está dentro da nomenclatura, estas são calças de cinta bastante subida e com a perna mais larga, afunilando um bocadinho em baixo (mas não exageradamente, como as skinny jeans). E para mim, esta moda foi a descida do céu à terra. Só eu sei como sofri durante todos aqueles anos em que apenas se vendiam skinny jeans e calças de cintura baixa. Eu posso usa-las (e usei-as, que remédio), mas tenho a perfeita noção de que não me ficavam bem. E uma das coisas que mais me irrita na moda é isto: criar as coisas, massifica-las e esquecerem-se de que a grande maioria das mulheres não têm aquele típico corpo de modelo em que tudo parece assentar na perfeição. Portanto a diversidade que existe hoje nas lojas – e falo ao nível dos jeans – é o que devia existir sempre.

Mas eu sei que na realidade não é assim, que a moda é imprevisível e que daqui a um par de anos ora só se usam calças à boca de sino ou se volta outra vez para as ultra skinny jeans. Por isso, para me precaver, tenho-me abastecido de jeans para os próximos anos. Se encontrar umas que gosto, que vestem bem e com uma lavagem que não tenho, nem sequer penso muito: trago para casa e está o negócio fechado.

O objectivo é funcionar quase como a Arca de Noé: quando, no mundo, já só existirem calças que só me servem nas orelhas ou e ficam para lá de mal, ainda posso contar com o meu baú pessoal de jeans, salvas no tempo em que as havia em bom e em abundância. #contraextinçãodasmumjeans

06
Jul17

Salvador Sobral: quando a música não vem só da alma, mas do corpo todo

Carolina

Passei aí uma fase em que estava maluquinha com o Salvador Sobral. Para dizer a verdade, essa fase ainda não passou - e não sei se passará tão cedo. Tenho para mim que ele é o meu Jamie Cullum português - aliás, há uns tempos comprei o Expresso só para ler uma entrevista que ele deu e ele lá dizia que também passou uma fase em que adorava o Jamie. E eu pensei "ah, eu sabia, somos almas gémeas!". Só que não. Acho que não conseguia aturar o Salvador durante muito tempo - eu, uma control freak assumida, dava em louca com tanta coisa aleatória que vai naquela cabeça. Mas isso não faz com que goste menos dele, que não adore a sua música ou que não me desse uma alegria enorme conhecê-lo.

Ontem fui ao primeiro concerto dele na Casa da Música e saí de lá rendida, de coração muito cheio, super inspirada - a sentir que podia conquistar o mundo, escrever livros e aquilo que mais sonho - e feliz por ter testemunhado este momento. Passei aquelas duas horas de música acompanhada por uma dor de cabeça sem fim, que se ia expandindo à medida que os minutos passavam, graças a um dia demasiado longo e cansativo - mas era impossível aquilo não compensar. Aguentei estoicamente - e aguentaria mais duas horas iguais, se ele assim as cantasse. 

Não é um concerto para todos. E o tempo, quase como a teoria da evolução das espécies, vai-se encarregar de deixar aqueles que gostam mesmo do estilo do Salvador - incluindo as caralhadas que ele vai dizendo - nos seus concertos e os outros vão acabar por ir à vida deles. E porquê que não é para todos? Porque é um concerto de jazz, com a liberdade que lhe é característica. Diria mesmo que essa é a grande diferença entre ele e o (meu) Jamie: há uma grande componente criativa em todos os concertos, as músicas nunca saem iguais, a comunicação entre público e artista é incrível, nunca se sabe o que vem a seguir... mas o Jamie tem uma componente muito mais pop nas suas músicas, enquanto que o Salvador gosta mesmo daquela onda jazz - de ouvir os seus músicos, de lhes dar a luz da ribalta, de lhes proporcionar momentos a solo que eles tão bem merecem, de ele próprio gritar quando quer ou sussurrar longe do microfone quando assim acha apropriado. Aquilo vem-lhe das estranhas, da alma. Na verdade, vem do corpo todo - e é por isso que ele parece um boneco estranho a cantar. E a verdade é que muitas vezes corre bem; outras, nem tanto - ontem, numa das músicas em que ele decidiu improvisar, passou o tempo da entrada e ele disse, ainda que rapidinho: "ups, já fiz merda". E isso, meus amigos, tem o seu encanto - como tudo o que é puro e verdadeiro.

No meio das músicas mais conhecidas dele, cantou outras que eu nunca tinha ouvido: uma a que ele chama "Loucura" e outra intitulada "Benjamim", composta por ele e por André Rosinha (que toca contrabaixo). Para além disso tocou pela primeira vez uma música dos Alexander Search, que ele deu a entender que não estava no alinhamento e que surgiu de forma espontânea que se chama "Justice" - e da qual gostei mesmo muito. Antes do encore houve um momento um tanto ao quanto tétrico, com um poema que ele próprio escreveu (talvez com o título "180 dias"), que retratava um homem que estava em coma, entre o limbo e a dúvida entre acordar ou morrer - aqui, houve uma pequena participação de Júlio Machado Vaz, que entrou em palco para ler um poema de Sophia de Mello Breyner, que também estava na onda da letra do Salvador. Por fim, ele sentou-se ao piano e fez o meu coração derreter. Eu sou, provavelmente, a pessoa mais difícil de se apaixonar na história da humanidade: mas acreditem que um homem ao piano é meio caminho andado para me deixar rendida. Tocou uma cover da música "Ninguém escreve Alice", escrita por Rui Veloso e Carlos Tê, e também uma música do segundo álbum da irmã. Terminou com a "Case of You", de Joni Mitchell - talvez, para mim, a melhor interpretação dele (ainda estou a decidir se gosto mais desta ou do "Presságio", que ele tocou no início do concerto) e que, claro, me levou às lágrimas - e, mesmo para acabar, uns pequenos acordes da "Amar pelos Dois", que já havíamos todos cantado em conjunto e que foi quase um agradecimento mais silencioso e profundo daquilo que ele está a viver.

Acima de tudo, no que diz respeito ao Salvador, acho que podem acontecer três coisas distintas: não gostar nem dele nem do seu estilo de música e portanto risca-lo por completo; gostar da música mas não da pessoa; ou então, diria que a mais improvável, gostar dele e dispensar a música que ele faz e canta. Em qualquer uma delas, penso que é essencial admitir uma coisa: ele é um grande músico, com um poder vocal incrível. É quase como o Ronaldo: eu não gosto dele, não gosto da equipa que ele representa - mas não tenho outra hipótese senão admitir que ele é um jogador do caraças. Como em tudo na vida temos de olhar para as coisas e desfocar aquelas que gostamos menos; eu também não gostei daquilo que aconteceu no concerto solidário, mas optei por não escrever sobre isso. E, honestamente, nem foi para não ofuscar a causa: foi para não ofuscar o talento dele com uma saída despropositada e desmedida, de alguém que claramente quer muito fazer música mas não está a saber lidar com tudo o que ter sucesso implica. Eu, como muitos, não achei piada: mas em todo o panorama que é, para mim, o Salvador... optei por desfocar esse momento, em detrimento de tantos outros incríveis que ele já nos proporcionou (e que, no meu caso, sei que continuará a proporcionar - porque não me ficarei por este concerto).

A "Amar pelos Dois" não é a minha música preferida dele - mas será sempre especial, por aquilo que representa para todos nós. E ontem, enquanto o via e ouvia ali à minha frente a cantar essa música - um rapaz magrinho, com uma camisa super larga que engana os menos observadores, com umas perninhas super fininhas, quase que representando a sua fragilidade - apercebi-me do privilégio que estava a viver. Arrepiei-me e lacrimejei porque, de facto, os dias da Eurovisão foram mesmo felizes e nem ele próprio se apercebeu de tudo o que deu a Portugal. Está, neste momento, a recolher os louros e as consequências disso - até porque, como ele disse ontem, ele não consegue arcar com a felicidade toda de um país. Mas eu estou em crer que o tempo, os meses e os anos lhe vão dar a clarividência do que ele fez em Kiev, das asneiras que fez a seguir, e perceber um pouco da nuvem em que está neste momento a viver. E de, eventualmente, ter orgulho naquilo que conquistou.

A minha sorte é que tenho paciência - e (espero eu) tempo. Tempo para ver o Salvador crescer, tempo para ouvir mais concertos, tempo para esperar por mais álbuns e tempo para viver a minha vida ao som da música dele. Ah, e memória: porque por mais anos que viva, penso que nunca mais me vou esquecer do momento em que ele nos ganhou a Eurovisão. Ainda ontem ele prometeu dar uns segundos onde toda a gente podia tirar fotos, "o momento em que somos todos do nosso século"; é claro que muita gente sacou dos telemóveis momentos antes, para filmar algumas músicas e captar fotografias, como se fosse aquilo que ficasse marcado no cérebro... Naqueles 20 segundos toda a gente sacou dos smartphones e os virou para os músicos. E eu fiquei ali, a olhar para o palco, com as mãos no bolso e um olhar embevecido. Não quero uma foto deles para nada, não preciso de mais entulho nos meus arquivos. Quero, sim, que aquela imagem fique guardada na melhor memória RAM de todas, um "disco D" sem igual: mais do que no meu cérebro, quero estes momentos no meu coração.

30
Jun17

Chávena de letras "O Falcão de Malta"

Carolina

O-Falcao-de-Malta.jpg

Sinopse aqui

 

Este é um policial clássico, com tudo o que tem direito: um detetive privado que acha que sabe tudo e que tira ilacões incríveis, mulherengo e galã, imprevisível, um filho da mãe mas também respeitador de uma moral que rege as suas ações e forma de atuar; uma cliente mentirosa e enganadora mas ao mesmo tempo coquete e irresistível; os polícias lerdos que nunca conseguem levar a deles avante; os rufias, um como sempre bonacheirão, e toda a envolvência deste tipo de obras dos inícios do século XX, onde não faltavam os cigarros em todos os sítios, o whiskey, a penumbra e etc.

Para quem gosta de policiais, esta é sem dúvida uma boa forma de passar um par de dias entretido e sem ter vontade de pousar o livro.
Nota para esta edição de bolso da Livros do Brasil, versão da Porto Editora, que é pequena, leve mas com uma letra boa para se ler, fazendo destas edições os livros perfeitos para se andar de um lado para o outro sempre com companhia sem estar a carregar um autêntico pedregulho na carteira.

29
Jun17

Desmistificar a ideia de um cruzeiro

Carolina

Estava a passear pelo facebook e dei de caras com um post de um humorista que disse que fez férias à velho: foi viajar num cruzeiro. Nos comentários diziam-se coisas horríveis tipo "cruzeiros nunca, jamais!" e onde, lendo o post na diagonal (já tenho pouco tempo recreativo, não me apetecia gasta-lo a ler bacoradas), só se viam coisas do género "é só velhos e gordos a comer durante o dia todo". E até podem desvalorizar este meu post por eu ter uma alma velha, alegando que penso tal e qual as pessoas que frequentam este tipo de viagens, mas acreditem que eu adoro viajar e o faço de todas as formas e feitios, sem problemas de criticar o bom e o mau de cada sítio e de cada meio para lá chegar.

Uma coisa é absolutamente indiscutível: fazer um cruzeiro é a forma mais cómoda de viajar. Queixam-se dos velhos, queixam-se dos gordos, queixam-se das crianças - mas passar dez horas enfiados num avião em classe económica, com uma pessoa obesa a ocupar metade do vosso lugar, um velho com ar bafiento a adormecer em cima do vosso ombro e uma criança a testar o limite dos vossos tímpanos no lugar da frente é muito bom, não é? Vou contar-vos um segredo: no barco, podem quase correr uma meia-maratona lá dentro. Se não quiserem estar parados, não estão. E se quiserem dormir, têm um quarto e uma cama só vossos, sem barulhos, pessoas ou crianças aos guinchos. É uma opção vossa se querem socializar ou querem estar sozinhos, assim como se querem sair ou ficar dentro do barco.

Esquecem-se que a idade traz sabedoria; os mais velhos escolhem este meio porque já experimentaram todos os outros e sabem qual é o melhor. E vocês dizem: "não é nada, é porque andar de barco não cansa!". Ai não? Haviam de se ter levantado às cinco da manhã para estar no autocarro às sete, tal como eu fiz na Rússia, para ver se não chegavam à noite com soninho. Em média, na semana que fiz no Báltico, andei dez quilómetros por dia. E se isso não cansa, não sei o que fazem nas vossas viagens. É claro que podem ficar no barco, não fazer nenhum e comer cachorros e cheeseburgers o dia inteiro - mas, mais uma vez, a opção é vossa.

Outra coisa espetacular: não pagam para comer, não pagam para ir a espetáculos, não pagam para ir ao cinema, não pagam jogar nos trivia, não pagam para ir ao ginásio, não pagam para ir à piscina. E sabem aqueles momentos em que temos de nos meter num avião, para viajar de um sítio para o outro, e lá estamos à espera do check-in, depois à espera que o avião levante, e as horas de viagem sufocantes em que só nos podemos mexer cerca de trinta e sete centímetros e saímos com formigueiros nas pernas e costas suadas e coisas que tais? No barco não existe. Fazem o que querem, vivem a vida, fazem as atividades que mais gostam, dormem confortavelmente - e, sem dar por isso, já estão no sítio seguinte. E se gostarem de ver as vistas, aviso já que em pleno mar se vêem coisas incríveis e pores do sol de cortar a respiração.

Se passam pouco tempo nos sítios? Passam. Se isso é mau? Nem sempre, há sítios de treta. Para mim, a magia de um cruzeiro é esta: fico a conhecer várias cidades em pouco tempo, passo a ter uma ideia geral do que aquilo é, se faz ou não o meu estilo. E depois, mais tarde - ensardinhada num avião, lá terá de ser - volto para divagar com todo o tempo do mundo na cidade. Dou um exemplo: quero muito voltar à Suécia, voltar a percorrer Estocolmo e não só; já ir à Finlândia, penso que só irei se se proporcionar ir em trabalho ou me oferecerem a viagem, porque simplesmente não ficou o bichinho. Foi fixe, risquei um país da lista, mas não tenciono voltar.

Agora tudo depende do cruzeiro que fazem, da companhia onde vão e do tipo de quarto que escolherem. Há cruzeiros fracos, companhias más e quartos horríveis sem sequer uma janelinha para ver o céu. Entre ir num cruzeiro fraco e bafiento e ir para um só destino, mesmo que seja num low-cost e ficar num hotel com melhores condições... se calhar prefiro a segunda opção. O cruzeiro que fiz no Báltico foi com a Royal Caribbean e agora o próximo é com a Celebrity - vamos ver o que vai sair dali - e fiquei em quartos com varanda. São companhias boas e os quartos também são de nível superior - mas sei que há quartos com janela, sem varanda, que também são perfeitamente aceitáveis (e os quartos sem janela, ainda que um bocado claustrofóbicos, quando inseridos num cruzeiro bom devem valer a pena). É, como em tudo, uma questão de dinheiro. Mas vale a pena fazer as contas: se virem todos os sítios onde param, se incluírem comida e bebida, mais dormidas e se se atreverem a juntar todos os extras ao nível de comodidades (ginásio, piscina, sauna, solário...) e de entretenimento (espetáculos, cinema, jogos, etc.) acho que a questão nem se coloca.

No entanto, é como vos digo: fazer um cruzeiro é como ir ao sushi - se começarem num mau, nunca mais põem lá os pés; se começarem num bom, no início estranham e depois não querem outra coisa. A minha experiência foi tão boa que eu vou repetir - e sou uma miúda de 22 anos! Conheci pessoas muito simpáticas, sítios diferentes, falei línguas, convivi e diverti-me imenso enquanto viajava. Fiz um post grande depois do meu primeiro cruzeiro que podem ler aqui, assim como diários de bordo dos sítios onde parei que podem ver aqui.

E, a sério, tendo possibilidades... deixem-se de preconceitos e experimentem.

 

Cruzeiro_Tlm-41.jpg

 

28
Jun17

Chávena de letras - "O Livreiro de Paris"

Carolina

o livreiro de pari.jpg

Sinopse e primeiras páginas aqui

 

A maior crítica que posso fazer a este livro é o facto de ser enganador. Quando me falam em Paris e livros já é meio caminho andado para ler o que quer que seja - mas eu espero que o livro seja, de facto, passado em Paris e fale de livros. O que, neste livro, só acontece parcialmente. É aquilo que dá o mote à história, mas não passa disso.
A ideia da farmácia literária é muito boa, mas muito mal explorada - e a autora, apercebendo-se disso, dá um "docinho" ao leitor no final da obra para ver se ele se esquece que, durante o livro, pouco se desenvolve esta ideia, que é sem dúvida a melhor que a obra tem. Há partes que são absolutamente dispensáveis, incluindo o diário de Manon - confesso até que passei alguns trechos à frente. A escrita não é má, mas nada de excepcional - há partes do diálogo em que nem sempre se percebe quem é que fala e há falhas ao nível do descodificar das emoções (e consequentes reações); por vezes, parecia que as coisas aconteciam do nada, um ataque de choro ou de raiva caído do céu, meio descontextualizado.
Para mim, este é um livro sobre perda e sobre reencontro connosco próprios - de um ponto de vista, claro, muito romanceado. Estas três estrelas não são sinónimo do livro ser mau - simplesmente não era o livro que eu queria ler e que eu acreditava ser.

23
Jun17

Chávena de letras - "A educação de Eleanor"

Carolina

eleanor.jpg

 Sinopse e primeiras páginas aqui.

 

É injusto julgar um livro por um final que nos desiludiu quando, até aí, achamos o livro fenomenal. E, na verdade, eu nem sequer fiquei desiludida com o fim: sabia que era algo que ia ter de acontecer, percebi que a bolha em que vivia Eleanor ia ter de rebentar… mas o início do livro é tão genial que tive pena que acabasse.

Eleanor é uma verdadeira anti-social em todos os sentidos da palavra. Não se trata só de não se dar com os outros, mas sim de um total desconhecimento das convenções sociais que todos nós já interiorizamos e já nem questionamos. O livro é por ela narrado e por isso temos acesso aos seus pensamentos que são extremamente racionais, o que os torna hilariantes (mesmo não sendo “intenção” de Eleonor – e sendo, obviamente, o objectivo da autora, que o faz de forma exímia). Como ela não percebe as coisas, questiona-as, como uma criança; vê-as de forma simples, sem floreados, e expõem-nas de forma crua, mostrando o ridículo de muitas da convenções que nós próprios criamos.

“Estava num restaurante de fast food pela primeira vez na minha vida adulta (…). Inexplicável e incompreensivelmente, o restaurante estava a rebentar pelas costuras. Custava-me a perceber porque motivo os humanos estariam dispostos a fazer fila em frente de um balcão para comprar comida processada, que depois levavam para a uma mesa que nem sequer estava posta e comiam directamente do papel de embrulho. E a seguir, apesar de terem pagado, os próprios clientes são responsáveis por levantar os restos. Muito estranho.”

Outras situações semelhantes: estranhar o facto de um empregado de bar lhe colocar a garrafa da bebida que pediu e um copo com gelo em cima da mesa, em vez de lhe servir directamente (“esse não é o seu trabalho?”) ou questionar o porquê das pessoas chegarem atrasadas a um festa ou levarem presentes quando o anfitrião anunciou uma hora ou disse expressamente para não levarem nada. É uma visão inocente e hilariante da vida.

Para além disso, há, inicialmente, uma relação explícita de causa-efeito nas acções de Eleanor, ainda mais berrantes pela escolha cuidada das palavras usadas pela autora. Dão à personagem um ar geek e extremamente racional, com imensa graça, mas revelador de muito o que é Eleanor.

“Fiz as minhas abluções e instalei-me com um livro sobre ananases. Era surpreendentemente interessante. Gosto de ler sobre uma ampla variedade de temas por muitas razões, uma das quais é ampliar o meu vocabulário para ajudar a resolver palavras-cruzadas.”

Chamar a este livro um romance é um erro crasso. Ele fala, sim, da auto-descoberta de alguém – nas suas fases mais vivas e mais negras – com o apoio de algo que a personagem principal, até aí, desconhecia: um amigo. É uma viagem pela vida complicada de Eleanor, pelos seus fantasmas, mas que tem pouco de negro pela forma incrível como é contada.

É lógico que, não tendo um décimo da antissociabilidade de Eleanor, me relacionei com esta obra; com a personagem, com o vocabulário dela, com a sua visão “quadrada” de muitas coisas. E é muito giro ver a evolução da personagem, vê-la “arredondar-se”. Confesso que achei o livro um pouco enfadonho nas primeira páginas, mas depressa descobri que tinha uma pequena pérola em mãos. A forma como a história é contada e a escrita de Gail Honeyman merecem estas cinco estrelas, independentemente do fim. Gostei mesmo muito.

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