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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

21
Fev15

Paz de espírito

Carolina

Desde miúda que vou a cemitérios sem qualquer tipo de medos ou receios. Ia com a minha mãe, pôr flores no jazigo dos meus avós, que nunca me lembro de conhecer, embora ambos me tenham dado colo, sensivelmente, no meu primeiro ano de vida. No fundo, apesar de ter pisado já vários cemitérios, nunca fui visitar ninguém que me dissesse algo. Até hoje.

Quase dois meses depois da sua morte, fui visitar a minha avó. Queria relembrar o sítio onde ela está, a par dos seus pais, e deixar-lhe umas flores, para que soubesse que me lembro dela. Todos os dias - talvez mais do que me lembrava quando ainda cá estava em vida.

Não tendo eu nenhuma crença específica no que diz respeito à morte, deixo-me ficar pelas possibilidades; não sei o espírito de quem parte fica em terra, se olham por nós, se sabem do que se passa... Não sei nada. Nem quero saber, porque se não descobrimos até agora é porque talvez não devamos saber o que se passa depois de morrermos. Eu quero apenas certificar-me que, se houver alguma coisa do outro lado, ela possa saber que está presente em mim. E no meu quarto, onde coloquei a foto dela de que mais gosto, onde parece uma modelo, na flor dos seus vinte anos. E também na minha memória e, claro, no meu coração.

Os cemitérios são capazes de ser dos poucos sítios da terra que, embora sempre com gente, se mantêm constantemente calmos - e essa calma contagia-se, pelo menos a mim. Ar livre, árvores imponentes, arranjos bonitos por toda a parte, sem telemóveis e redes sociais à mistura. Apenas uma paz palpável, a par da paz de espírito que nos deixa cá dentro. 

01
Fev15

As substituições da vida

Carolina

Não sou religiosa, a não ser quando me convém. Não acredito em nada de específico, a não ser em coincidências.

No dia 28 de Janeiro fez precisamente um mês de que a minha avó morreu. Passou num abrir e piscar de olhos, como quem não quer a coisa, em dias de estudo ideais para quem quer esquecer coisas tristes. Os exames são péssimos, mas têm essa coisa boa: distraem-nos, dão-nos um objetivo. Assim foi até à passada sexta-feira, quando os exames acabaram - e aí lembrei-me, de tudo e mais alguma coisa. Já me lembrava da minha avó todas as noites, quando fechava os olhos e ela passava da minha memória para os meus olhos. Agora, sem exames, lembro-me muito mais, e tenho saudades. E alguns remorços. E lembro-me de coisas, pormenores escondidos lá atrás na memória.

Por outro lado...

No dia 28 de Janeiro nasceu o meu sobrinho mais novo. O primeiro que me nasce quando tenho de facto alguma idade de ser tia, quando já sou maior de idade e um bocadinho mais de consciência daquilo que é ser tia de alguém. Quando o fui pela primeira vez, tinha apenas 10 anos. Agora, 9 anos depois (quase 10, como raio é que é possível?), vejo tudo de forma diferente. E gosto mais de bebés do que antes - e sinto-me mais confortável em pegar-lhes, vesti-los, vira-los, mima-los como gosto tanto de fazer.

O mesmo dia: apenas um mês separa a morte e a vida. Começo a acreditar que, de alguma forma, as pessoas se substituem. Todos sabemos que uns vão e outros vêm, mas se calhar a vida encarrega-se de nos dar e tirar de forma mais ao menos equitativa e justa (nas vezes em que o faz, que há sempre tragédias). Já não é a primeira vez que acontece, e eu sentia que, de alguma forma, a minha avó ia dar o seu lugar no mundo a este pequerrucho. Ou então não, e é apenas mais uma das milhentas coincidências de que a vida é feita. E eu nessas acredito perfeitamente. 

29
Dez14

Para fechar este triste capítulo

Carolina

Foi a primeira pessoa próxima que me morreu. Uma situação que se arrastava desde Agosto, numa degradação galopante e aflitiva, que nos desgastou a todos como nunca pensei. Como uma borracha que, de tanto afagar o papel, chega ao fim. A diferença é que a borracha não sofre, não chora, não se chateia, não se irrita, não fica impaciente, não tem de lidar com a dor. A borracha, por ser precisamente uma borracha, não sabe que o fim se aproxima. Mas nós sabíamos. 

Penso simplesmente no alívio que sinto e que partilho com aqueles que estavam a sofrer o mesmo que eu. E aqui inclui-se a minha avó. Não sou uma pessoa religiosa, não sei se a sua alma está no céu ou se há mais para além disto. Mas sei uma coisa: é difícil estar pior do que estava em terra. E talvez em breve estas últimas imagens terríveis se esvaiam da minha memória e o sentimento de culpa se apodere de mim, devido ao alívio que senti quando soube que partiu - porque sou uma novata disto das mortes e tudo mexe comigo de formas que não sei descrever. Mas a única solução para isto é ir vivendo, lidando e respirando. Porque tudo passa. E porque sei que nada fiz de errado e que a vontade de não ver sofrer quem amamos se sobrepõem, às vezes, à própria vida.

Foram 90 anos de uma vida muito bem vivida, muito viajada e, daquilo que conheço, muito feliz. A mim deu-me 19 anos de carinho, com muitos mimos para a sua neta caçula. Guardo no coração aqueles momentos em que me passava pequenas prendas por debaixo da mesa para o meu avô não ver e quando me estendia a mão para a apertar, mesmo já no fim de vida. Do seu sorriso, do seu cabelo sempre tão bem arranjado e do hábito de pintar os lábios sempre depois das refeições, de uma cor bem viva, algo que herdei. E da preocupação constante, ora com os meus exames, ora com os tubarões que andavam no mar algarvio e que, andando lá eu, me poderiam morder. 

Acaba-se assim mais um ciclo. Penso que a minha avó teria gostado de ver a sua família junta, tanto na capela como no seu funeral, a que tantas pessoas assistiram. Pessoas que, conhecendo-a mal ou bem, só queriam o melhor para ela e sabiam da garra de que era feita. Serviu esta ocasião para eu conhecer primos que mal sabia que existiam e trocar palavras com todas as pessoas e conhecer um bocadinho melhor uma família que nem sabia que tinha, mas que gostei muito de conhecer.

Resta-me agradecer a todos os que, por aqui, via facebook ou mensagem me enviaram as condolências e se preocuparam em me dizer algumas palavras de conforto. E à minha família (à que conheço, tão bem!), que apareceu em peso para me dar abraços tão apertados, e que mesmo nestes dois dias super gelados me aqueceram - literalmente - como nunca.

Acabo estes dois dias de perda com o coração cheio, de consciência limpa e com a certeza de que, mesmo não presente fisicamente, a minha avó me influenciará até ao resto dos meus dias, por tudo aquilo que tão bem implantou em mim.

05
Set14

De besta a bestial

Carolina

Costuma-se dizer que num instante se passa de bestial a besta. Basta um comentário mais infeliz, uma fotografia menos positiva, que aquele que era o génio, o XPTO, o especial, aos olhos da opinião pública, deixa logo de o ser. Assim, fácil, como um estalar de dedos. Mais difícil é o contrário: passar de bestas a bestiais. Mas há uma forma deveras eficaz para o fazer: morrendo. 

Joan Rivers era, na minha opinião, uma mulher detestável, que ganhava a vida a gozar com os trapos dos outros (e, para mim, com as próprias pessoas), a ser má língua. E não, não era uma coisa esporádica. Não segui o início de carreira dela, pelo que não a posso julgar; para ser sincera, também mal vi o fim: pelo menos o "Fashion Police" estava na minha categoria de lixo televisivo. Daquilo que vi e li - porque lia sempre todas as calinadas que metia (uma das últimas sobre o holocausto), todas as pessoas que ela insultava e que acabavam por ripostar -  não merecia qualquer tipo de apreço. Piadas sem piada e gozo a um nível que já ultrapassava o saudável.

Mas não, agora que a senhora morreu não há que dizer dela. Era uma pioneira no humorismo, era espetacular, uma mulher sem fronteiras, e isto, e aquilo - e ou a minha opinião sobre ela é quase única no mundo, ou toda a gente mudou radicalmente perante a sua nova condição. A morte tem este efeito em nós: esquecemos tudo o que é mau, até a nossa própria opinião, talvez com uma esperança inconsciente de que façam o mesmo connosco no futuro. Esquecemo-nos é que não vamos estar cá para ouvir. 

24
Ago14

Sobre a morte

Carolina

Sempre disse, sem grandes problemas, que me considerava uma pessoa fria: muitos outros o confirmaram, ou em tema de conversa ou atirando-me à cara como se esse fosse o defeito mais grave à face da terra. A verdade é que concordo - sempre concordei, mas a minha frieza não é só dirigida aos outros, mas também a mim.

Isto pode chocar muita gente, mas há uns anos atrás costumava dizer que lá para os 70 anos me suicidaria e acabaria a vida quando eu queria, como eu queria, quando ainda estivesse lúcida o suficiente para isso. Ao contrário de muita gente, não desejo uma vida assim tão longa; não faço disto uma corrida, como se ser o mais velho do mundo constituísse uma grande vitória. Quero ir quando achar que é a minha hora, assim de um suspiro para o outro, sem grande dor, sem grandes trabalhos, sem grandes dramas. Mais do que a morte, magoa-me a aflige-me a dependência, a degradação, a demência. E, por tudo isto, e desde sempre (o que é curioso porque desde nova que o meu pensamento se mantém assim), que pus em questão a evolução da medicina, a esperança média de vida, como se tudo isto fosse um mar de rosas. Pode ficar bem nas estatísticas, mas morrer de velho não é assim tão fácil, e é tudo menos bonito.

A minha frieza volta à ordem do dia. Hoje desejei que, um dia que morra, seja rápido e que não seja demasiado tarde. E que esteja sozinha, à espera de ninguém, para que ninguém sorria para mim como se tudo estivesse bem e que, ao virar da esquina, não derrame lágrimas pela perda que se avizinha.

31
Mar14

Noites menos felizes

Carolina

Desde miúda que a morte me aterroriza. Aliás, ia para além da morte: pensava quando o mundo acabasse e na possibilidade de não existir mais vida em lado nenhum e aquilo que ficaria... que era nada. Mas não é "nada" como pensamos vulgarmente: é nada, mesmo nada, nada, zero, nada. Um nada impressionante e demasiado grande para uma miúda daquela idade conseguir digerir, e portanto acabava frequentemente a chorar quando pensava nestas coisas. Porque eu sempre soube que, em principio, quando morrer, tantos outros ficam na Terra - o problema é quando houver uma catástrofe qualquer e tudo desaparecer e... nada. Nada. Tudo nada. 

Confesso que ainda hoje esse pensamento me consome, embora muito menos vezes e sem choro à mistura. Esta última vaga de "pensamentos" surgiu nestes dias, à noite, e tem-me roubado muita paz: não penso propriamente no fim do mundo, mas no fim do meu mundo. Tenho medo de morrer, basicamente - ou que um dos meus morra. Um pensamento parvo, eu sei, que ninguém deve ter em mente - e que eu não tenho, normalmente, mas que à noite me invade, não sei bem porquê (suponho que seja do stress, de tudo o que me anda a moer por dentro e dos livros que ando a ler). Tenho medo de morrer sem ter sido feliz, de não ter feito toda uma série de coisas que acho que marcam uma vida, sem olhar para trás e sorrir, sem deixar uma marquinha - por pequena que seja - no mundo (um livro, um livro bastava). E, acima de tudo - mais do que não saber o que está do lado de lá - tenho medo de ter sido eu a provocar essa minha infelicidade, de me sentir culpada por ela.

Enfim, têm sido noites pouco produtivas, pouco felizes e pouco fáceis de digerir. Espero que passe rápido, tal como os meus pesadelos vão e voltam sem avisar. Que hoje caia redonda na cama e que tudo isto tenha sido de ontem e que fique lá, sem me perturbar novamente.

12
Fev12

Da morte dos artistas

Carolina

A história repete-se várias vezes por ano, porque a vida é mesmo assim. Uns nascem, outros morrem. Mas uns são comuns, e outros são famosos.

Morreu o Angélico e foi um alarido de todo o tamanho, e a venda dos discos foi para primeiro na tabela nacional e mesmo aqueles que diziam que ele era um azeiteiro e não gostavam nada dele passaram a gostar. Depois foi a Amy Winehouse. O facebook fica empestado de vídeos e "RIP"'s e coisas que tais, e as vendas sobem a pique e já todos a adoram. E agora e Witney Houston. Mesmo aqueles que ouviram uma ou duas músicas dela chamam-lhe diva. Ontem à noite, numa questão de poucos minutos, já toda a gente sabia e a informação passou de pessoa em pessoa, qual peste negra. Agora toda a gente tem saudades, agora toda a gente gosta dela. Pena que se tenham de esquecido dela durante todos estes anos em que ela esteve ausente porque, tal como muitos outros, se estragou com o consumo de drogas.

 

Nunca fui fã dela, apesar de gostar de uma ou duas músicas. Deixo aqui a única música que conhecia verdadeiramente (e que muito cantei no singstar):

 

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