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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

05
Set17

Movida, ou travada, a medos

Carolina

Quando era pequena caía muito e, a partir de uma certa idade, passei a precaver-me e a olhar sempre para o chão. Tenho muito cuidado por onde ando e com os caminhos que faço, para tentar ao máximo evitar cair, porque tenho medo de me magoar (como tantas vezes fiz em miúda). E isto aplica-se na vida real mas também metafóricamente. Eu tenho medo, muito medo de tudo e coíbo-me de fazer (precisamente) quase tudo por causa disso. Sou a miúda menos arriscada história: e quando o faço, é de coração nas mãos, sempre com todas (e mais algumas) consequências em mente. E não, nunca são positivas.

Tenho medo de fazer, tenho medo de arriscar, tenho medo de me arrepender, tenho medo de me candidatar, tenho medo de ligar, tenho medo de falar, tenho medo de mandar mensagem, tenho medo de gastar dinheiro indevidamente, tenho medo de me queimar, tenho medo não me integrar, tenho medo de fazer figura de parva, tenho medo de não saber sair das situações, tenho medo de não gostar, tenho medo que não gostem de mim, tenho medo de falhar, tenho medo de desiludir, tenho medo de não ser bem sucedida, tenho medo de não ser lembrada, tenho medo de médicos, tenho medo de ratos, tenho medo que os meus morram, tenho medo de morrer. E só eu sei como cada vez tenho mais medo de não estar a viver.

Só há muito pouco tempo é que me apercebi disto, deste medo generalizado. Sim, há muitos anos que olho para o chão quando ando na rua e sim, desde sempre que me lembro de ser muito ponderada e precavida em todas as decisões que tomo na minha vida. Mas só quando olhei de cima e para o discurso que tinha no meu dia a dia, quando falava de assuntos corriqueiros e as minhas frases começavam sempre por "sim, mas eu tenho medo de..." é que percebi a dimensão do medo na minha vida. 

Eu tenho uma vontade gigante de fazer pelo menos uma coisa boa - e grande - na minha vida. Gostava que as minhas futuras empresas fossem um sucesso ou gostava de escrever um livro bom e que vendesse aqui em Portugal. Sempre achei que a minha vida profissional seria melhor que todas as outras dimensões da minha vida, e pensei que era isso que me movia. Mas apercebo-me que talvez não. Em vez de me mover, talvez eu esteja constantemente a ser travada por algo ainda mais central na minha vida: estes medos encastelados que parecem não ter fim. 

29
Mai17

O medo de me tornar numa pessoa desinteressante

Carolina

O "Up in the Air" (não é o da Disney, mas sim o do George Clooney e da Anna Kendrick) estreou quando eu tinha 14 anos e marcou-me muito. Lembro-me de o ter ido ver ao cinema, de vir para casa e chorar - e depois de escrever um post estilo este, naqueles que foram os meus primeiros tempos de escrita. Tinha só 14 anos, mas revi-me totalmente no que ali via - e na altura disse-o, sem vergonhas: "acho que isto vou ser eu no futuro". Não me referia ao trabalho horrível que a personagem principal tinha - que era, no fundo, despedir pessoas (era contratado por empresas para fazer despedimentos coletivos em todo o mundo e por isso passava a vida a viajar, nunca estava em casa, não tinha amigos, mulher ou filhos - apenas uma família que ignorava); falava - já nessa altura! - de de viver para o trabalho, ser "casado" com ele (embora, ao contrário do filme, a minha família vá estar sempre em primeiro lugar).

Ou seja, o facto de eu achar que nunca me vou casar ou ter filhos não é de todo uma ideia nova para mim - simplesmente sinto que esteve sempre comigo. Não quer dizer que não mude, não quer dizer que seja uma opinião para a vida ou muito menos uma decisão: é apenas um feeling, algo que tenho há muitos anos e que acho que não me reduz enquanto pessoa ou mulher - simplesmente sou como sou e posso ter outros milhões de gostos e afazeres para além da vida de casada e de mãe. Mas, em contraposiçãom tenho o trabalho, algo recente para mim mas que sempre soube que ia ser a minha praia, o meu porto seguro (independentemente de até poder não ser seguro, de eu ter dúvidas ou de existirem dias maus - é simplesmente terreno onde eu sempre soube que me ia conseguir levar avante, porque é o que sei fazer bem) - e que, para o bem e para o mal, ocupa uma grande fatia da minha vida.

Mas ultimamente, nos poucos encontros que tenho com pessoas amigas ou família, dou por mim a falar de trabalho. Das minhas viagens de trabalho, dos meus colegas de trabalho, das minhas tarefas no trabalho, nas minhas complicações no trabalho, nas peripécias do trabalho. E tenho medo de me estar a tornar só nisto, quando - apesar de todos os defeitos que sei que tenho -sempre me achei uma pessoa interessante, que tem uma resposta minimamente correta e coerente para tudo, que não sabe muito de nada mas que com aquilo que vai ouvindo, lendo e falando consegue ter uma opinião sobre algo e manter uma conversa interessante. E agora: trabalho. A muleta de sempre: o meu porto seguro quando todos os outros portos parecem despovoados e inseguros, mas que é provavelmente uma seca para quem está à minha volta. E quando rebobino mentalmente as conversas que tive, e se a minha percepção for a correta, quase tenho vergonha de mim própria por aquilo que hoje em dia faço.

Tenho medo de só me tornar nisto, quando acho que sou muito mais que isto. Tenho medo de ser aquela pessoa chata num grupo de amigos que (já) mal conhece que só fala do escritório, do patrão e dos dramas da vida laborar. Tenho medo de estar a crescer e de, ao mesmo tempo, estar a ficar mais pequenina.

27
Jul13

O ovo estrelado

Carolina

Soube pouco depois de tirar a carta que, antigamente, se usava o chamado "ovo estrelado" nos condutores que tinha até um ano de carta. Era um autocolante, suponho, que se colocava no vidro do carro e que informava os outros condutores que nós éramos uns novatos na estrada.

Eu achei imediatamente a ideia brilhante. O meu pai dizia-me que, para ele, era para lá de humilhante ter de de andar com algo que dizia que ele era um novato, tendo em conta que ele se fazia de condutor de formúla-1 em plenas estradas (um perigo, portanto). Mas, para mim, é óptimo: eu fico sempre toda preocupada quando deixo ir o carro abaixo ou o carro descai um pouco quando não era suposto. Eu bem que falo para eles, dentro do meu carro, mas bem sei que eles não me ouvem: "amigo, vamos com calma, que eu tirei a carta há nem uma semana", "upsss, desculpem, sou nova nisto" entre outras coisas um tanto ao quanto embaraçosas.

A verdade é que, na condução, ensinam-nos as coisas básicas e a circular correctamente na estrada. Mas a aprendizagem aprofundada é feita por nós mesmos: quando estamos na rua, só nós e o nosso carro, sem ninguém com pedais ao lado. O pior é que as estradas são uma selva e, a partir do momento em que largamos o carro da condução com todas aquelas sinaléticas próprias, passamos a ser uns "selvagens" como todos os outros. Já não há abébias nem tolerância, quando passamos a ser um "deles"; já não há cedências ou ajudas como havia quando estávamos a aprender. Para eles, já temos a carta há uma eternidade e sabemos andar tão bem como o resto do mundo - mas nós não nos sentimos assim. E por isso eu ando um pouco a medo, a tentar acompanhar o ritmo, mas sempre com extremo cuidado e a tentar não fazer asneiras. Para já, não me posso queixar: de todas as vezes que deixei ir o carro abaixo, nunca me buzinaram. Mas já mandaram vir comigo sem razão - e eu estremeço, mas ando, que isto é só o começo. Isto com o tempo vai lá - sem abébias, porque agora não há o tal "ovo estrelado" para ninguém...

21
Mai13

Homens só de longe (ou depende, mas pronto, vocês percebem)

Carolina

Infelizmente, já não sou da época dos meus irmãos - nunca brinquei na rua com os meus amigos, nunca fui para casa somente ao cair da noite, nunca andei livremente pela rua aos 7, 8 anos de idade. Eu sou da época das televisões - da Madeleine McCann, da Natacha Kampusch, das três mulheres presas num sótão em Cleveland... Sou da altura das Mentes Criminosas e do CSI, tudo óptimo para dar ideias para quem precisa delas. E isso, quer queiramos quer não, influencia-nos.

Não que antes não houvesse loucos, sádicos e assassinos - simplesmente não havia a projecção que há agora. E isso deve ter criado um medo inconsciente em mim de que só dou conta em algumas situações. Da mesma forma que tenho fobia de médicos sem ter tido um episódio dramático,  tenho uma desconfiança imensa (em alguns casos mesmo medo) nos homens em geral. Eu sou mesmo menina para não entrar numa loja quando vejo que só há um lojista e este é homem; odeio quando entram homens no elevador quando eu estou lá dentro; e sempre me fez aflição pensar em ter um homem como instrutor. Basicamente, estar sozinha com pessoas do sexo masculino em sítios fechados e preferencialmente pequenos deixa-me tudo menos confortável.

O pior é que, estas duas semanas, a minha instrutora vai de férias. E, lamento, há uma verdade quase indiscutível: as mulheres são umas cabras umas para as outras, más como as cobras... mas entre isso e estar num habitáculo com um homem que não conheço de lado nenhum, prefiro estar com as da minha espécie. A questão é que, à falta dela, não tenho escolha e vou mesmo ter meia dúzia de aulas com um instrutor, o que me tem andado a apoquentar, tenho de admitir. No fim, até devo gostar, mas até lá sofro por antecipação, especialidade aqui da casa.

(E sim, já sei, sou uma pessoa estranha... mas que raio querem que eu faça?!).

30
Jan13

Sabem

Carolina

Ter um medo crónico é uma merda. É senti-lo na pele que se arrepia, no coração que bate mais depressa, na garganta que dói de tão tensa e nos olhos que se contêm para não inundarem de lágrimas. Mas maior merda que o medo crónico é a merda que somos por não o conseguirmos ultrapassar. E aí dói o corpo, a alma, a parte racional da mente e o nosso orgulho. Tanto.

10
Abr12

Na recta final

Carolina

E chegou a recta final; a terceira fatia do bolo e a mais amarguinha.

Tenho a vida ligeiramente facilitada neste terceiro período... menos aulas, mais tempo para estudar. O que nem sempre é bom, no entanto. É muito difícil regermo-nos por nós próprios e criarmos o nosso próprio método e horário; todos nos queixamos das nossas rotinas e dos horários que nos empoem, mas sem eles poucos de nós funcionaríamos como deve ser. É por isso que vou criar o meu próprio horário de trabalho, em casa e na escola, de forma a não me perder nos tempos livres. Tenho muita matéria por estudar, coisas que não pego nem vejo desde o meu nono ano.

E admito: estou com medo. Tenho medo dos exames que se aproximam e de falhar. Já foram algumas as noites em que sonhei que a escolha não tinha sido a correcta, que afinal não queria nada disto e queria voltar atrás; que tinha reprovado nos exames por falta de estudo e dedicação. Estou temerosa que depois de um esforço tão grande para que esta mudança acontecesse, eu falhe.

Mas vou fazer para que tal não aconteça. Fica prometido.

18
Jan12

Hoje, quem ganha, sou eu

Carolina

E pronto, lá estamos nós. Meio que desesperados, quase sempre - preocupados, com uma ideia constante a batalhar na nossa cabeça, com algum medo sobre o que a senhora nos vais dizer. Lá subimos as escadas, quase sempre de uma tijoleira com cor desensabida, e às vezes lá agarramo-nos ao corrimão - precisamos de forças.

E já está. Lanço de escadas subido. Já chegamos. Um "tlin-tlont" anúncia a nossa entrada num sítio onde reina a cor branca, e estão umas cadeirinhas com alguém com cara de desespero/preocupação/não-relaxação/pensativo-sobre-os-problemas-da-vida. Vamos ao balcão - também a maioria das vezes branco, vá-se lá saber porquê - e dizemos (ou, no meu caso): "Olá, bom dia. Tenho uma consulta para as 16.00h.", "Como se chama?", "Carolina Guimarães", "Pode sentar-se que a doutora já a vem chamar". Sentamo-nos, medrosos, a pensar no que vai acontecer naquela sala, que para mim é como sala de turtura.

Lá entramos nós, sentamo-nos na cadeirona - quase sempre azul, curiosamente - e eles baixam aquilo e mandam-nos abrir a boca. Não, esperem aí: antes ainda falamos um bocadito; coisas como "então o que o trouxe aqui?", "onde lhe dói?", "qual o tipo de dor?". E agora sim, abrimos a boca. E fechamos os olhos. E pomos Lady Gaga num dos ouvidos, para dar força. Ainda assim, ouvimos as brocas a mexer, sentimos a anestesía no nervo (foda-s* que aquilo dói!), ouvimos as dicas da médica "abra um bocadinho mais", "vire mais para aqui", e sentimos coisas estranhas na boca. 

Quando acaba, depois de todo aquele sofrimento, depois de nos babarmos todos ao tentar bochechar a boca com água (mas, ups, estarmos anestesiados), depois de termos aquele sabor horrível mesmo típico a dentista e depois do nosso ritmo cardíaco estabilizar, levantamo-nos.

Agradecemos, damos um apertinho de mão e um sorrisinho à médica, pagamos, e pomo-nos dali para fora.

 

Hoje - mesmo que tenha sido só por hoje, porque o medo continua aqui - enfrentei a minha fobia. E sim, mereço um gelado como uma criança. Mereço um beijo e um abraço, e até um "parabéns" - que foi o que o meu irmão me ligou a dizer, e a quem eu só posso agradecer, porque são pessoas assim que me dão força para continuar. Hoje fui com um bromalex em cima, mas fui. Hoje curei aquilo que precisava de ser curado. Hoje fui grande, porque enfrentei o meu maior medo, e apesar da ligeira dor que ainda possa sentir e da estranha sensação de ter algo estranho na boca (vá, não façam filmes), hoje fui vencedora, e estou muito orgulhosa de mim mesma.

17
Jan12

Um dos meus (muitos) medos

Carolina

Quando o meu irmãos mais velho teve o primeiro filho, tive muito medo que ele, de alguma forma, se esquecesse de mim. E hoje sei que no coração há lugar para muitos. Ainda assim, um dos meus maiores medos é de ser esquecida ou trocada. Tenho muito, muito medo. E sei que, pela parte dos meus irmãos, tal não vai acontecer. O meu medo são os outros.

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