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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

12
Jun17

E assim foi mais um Primavera

Carolina

Dizem que nunca devemos voltar ao sítio onde fomos felizes - e talvez isso tenha alguma razão de ser, porque o termo de comparação é sempre alto e difícil de superar. Mas eu voltei: dois anos depois, lá fui eu para três dias de Primavera Sound. Em 2015 foi mágico por tudo: pela fase maravilhosa que eu estava a viver, por ter estado ali juntinho dos artistas e da ação em pleno fosso, por conhecer imensa gente que por lá andava e sentir uma mística incrível durante todo aquele tempo. E depois do ano passado ter ficado tristíssima por não ter ido - dizia mal da minha vida de cada vez que via uma foto nas redes sociais - prometi a mim mesma que não voltava a falhar e corri o risco de voltar. E voltei. E a verdade é que o tempo não anda para trás e as condições nunca são as mesmas - e, por isso, não foi igual. Nunca poderia ter sido. Mas, dentro dos possíveis, foi bom. 

Foram três dias que passaram a correr. Para mim, foi em crescendo - cada dia melhor que o anterior, em todos os aspetos. Confesso que na quinta-feira vim para casa a pensar que não voltava a comprar bilhetes para o festival - a música da noite era pesada, estava ali com amigos e não queria fazer a "desfeita" de ir embora cedo quase por capricho (ou, por outras palavras, por não gostar da música) mas, acima de tudo, foi a droga que me fez chatear a sério. Eu sentia o cheiro a erva por todo o lado, toda eu tinha aquele odor pestilento empestado na roupa e no cabelo, já estava com os olhos espelhados de tanto fumo e tanto canábis e, no meio de tudo aquilo, levantou-se a questão de eu não beber, nem fumar nem o diabo a quatro. Tenho, em rascunho, um texto escrito em cima do acontecimento - e muito a quente - sobre o assunto, que ainda vou pensar se publico. Esta é uma questão sobre a qual eu deixei de falar com as outras pessoas; sei que não vou mudar o mundo e sabia perfeitamente ao que ia. Mas se eu quase não posso questionar os outros por se drogarem, como é que os outros ousam sequer questionar-me pelo facto de eu não o fazer ou querer beber uma água, num sítio onde - pelos vistos - só fica bem beber álcool? É algo que me tira do sério e, por um triz, me estragou o dia. (De qualquer das formas, vale a pena anotar de que este acaba por ser um festival descontraído, onde é raro ver pessoas a cair de bêbadas ou em estados completamente fora de si - pelo menos até horas razoáveis da noite, daí a presença de tantas crianças). Mas os dias seguintes foram mais calmos e melhores, até porque me mentalizei de que paguei o bilhete e, como tal, estava de consciência tranquila sobre as horas a que entrava ou saía do festival e de tudo o que lá consumia (e sim, bebi água). Era uma escolha minha. E assim foi.

Fui sempre cedo - de forma a apanhar os primeiros concertos da tarde, que começavam às 17h - e voltei, no máximo, à uma da manhã. Ficaram muitos concertos por ouvir, é um facto, mas a verdade é que muitos deles não eram a minha onda. Este ano o cartaz era mais pesado, mais eletrónico e eu não sou propriamente fã de "barulho". Isso fez com que se acentuasse uma característica que eu acho que já era visível antes: o Primavera muda, literalmente, do dia para a noite. E eu adoro o festival de dia - da descontração, do sol, da calma, da música alternativa mas descontraída, de estar sentada na relva enquanto ouço algo que aprecio - e não gosto assim tanto à noite, onde já está tudo de pé, numa envolvência mais normal de "festival" e onde as drogas começam a ganhar terreno, o álcool começa a fazer efeito e, acima de tudo, onde a música é muito mais violenta. 

Por falar em música, confesso que só conhecia Bon Iver. Comprei o bilhete muito antes de sair o cartaz e a verdade é que fui à descoberta. Ouvi algumas coisas antes de ir, só para ter uma ideia, e o padrão manteve-se: tarde muito fixe, noite nem sempre. A assinalar: Cigarrettes after sex, Rodrigo Leão&Scott Mathew, Whitney, Frst Breath After Comma, Sampha, Nuria Graham e, para mim, o melhor concerto (principalmente ao nível dos cabeças de cartaz) Metronomy. E perguntam vocês: e então Bon Iver? Não gostei. Não sou fã acérrima, conheço algumas músicas e às vezes ouço-as enquanto escrevo e trabalho - mas aquilo que aconteceu no concerto, ou pelo menos em grande parte dele, não era aquilo que eu conhecia dele: uma voz incrível, músicas calmas e bonitas. Foi uma cena algo conceptual, onde a voz dele estava irreconhecível e totalmente alterada e onde ele estava tipo DJ, com os seus phones nos ouvidos, quase a viver aquilo só para si próprio. Nem sequer percebi se o concerto tinha uma linha, uma história qualquer, mas para mim acabou por ser entediante. Para além do mais, era um concerto óptimo para ver sentado, porque aquilo não era dançável - mas, como muitos estavam de pé, todos o outros se levantaram e acabou por ser uma multidão de cabeças. Para quem acompanha os trabalhos recentes dele e gosta da sua veia mais eletrónica, acredito que não tenha saído desiludido - mas não foi, de todo, o meu caso.

Há muitas queixas, este ano, em relação à organização e eu também tenho algumas, mas não vos vou maçar com as coisas más. O festival tem crescido mas, infelizmente, não tem sabido muito bem acompanhar esse crescimento e, em alguns "pormaiores", isso notava-se. Só a título de exemplo posso dizer-vos que estive duas horas para ter a minha coroa de flores. Sim, leram bem, duas horas. E porquê que fiquei? Bom, já estava na fila e não me apetecia desistir a meio do caminho; o pensamento era sempre aquele de "isto vai andar" e, no fim, o ponteiro pequenino já tinha dado duas voltas certas.

Para mim, o melhor do Primavera é mesmo ter uma desculpa para sair de casa, ir ao Parque da Cidade (sítio que nunca frequento), estar com amigos e ouvir boa música de fundo. A verdade é que acaba por ser muito mais para além da música - e há muita gente que critica isso ("é só hipsters, nem sequer conhecem as músicas, é só para ver e serem vistos"), mas a verdade é que o Primavera é especial por tudo o resto que o caracteriza - as coroas de flores, a irreverência nas roupas, a presença de famílias, as mochilas com toalhas de pic-nic, a gigante praça da alimentação. Porque música todos têm, é isso que o diferencia. E, como está mesmo aqui à mão de semear, é uma óptima razão para sair de casa, descontrair e conviver - o que, convenhamos, é algo que faço muito pouco.

Este ano teve uma particularidade interessante: para a TVI, eu parecia ter mel. Na segunda noite, já estava meia KO e pronta para ir para a cama quando vejo o Pedro Teixeira - que, para quem não sabe, sempre foi a minha celebrity crush - perto de mim. Mando mensagem a uma amiga a dizer uma parvoíce qualquer sobre ele e, ainda não tinha eu acabado de a enviar, quando o vejo a vir na nossa direção de microfone em punho para nos fazer umas perguntas. Como não respondi aquilo que claramente era suposto ("O concerto do Bon Iver era aquilo que esperavas?", "Não..."), achei que a entrevista não ia passar - mas enganei-me, porque aproveitaram um bocadinho e tive, vá, uns cinco segundos de fama. Mas no dia seguinte, enquanto esperava pela minha coroa de flores, uma jornalista veio ter comigo, em pleno direto, para fazer umas perguntas sobre o festival. Logo depois recebi uma mensagem a dizer que tinha aparecido na "tebê" - o que tem sempre graça e foi motivo de galhofa até ao último minuto de festival.

Quando acedi a fazer um inquérito de satisfação sobre o festival, perguntaram-me que palavra usaria para o descrever. Sou uma rapariga de palavras e, das muitas que me surgiram, escolhi "especial". Porque este é, de facto, um festival diferente dos restantes. Tinha tudo para não o ser - por causa da música eletrónica em demasia, por me sentir tão "normal" ali no meio que até me sinto "anormal" - mas acaba por ser mesmo o meu festival preferido. E, apesar da neura de quinta-feira e de todas as razões que tenho para não ir, acho que não resisto a voltar.

 

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E, como remate final... (o meu olhar embevecido fala por si #shameonme)

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14
Mai17

Que noite feliz!

Carolina

Não sou pessoa de acreditar. Sou pessimista, não sou nada patriota, vejo defeitos em tudo. Mas amo música e acho que, a par da escrita, é a coisa na vida que mais me conforta e mais me acompanha em todos os momentos. Sou uma entusiasta desta nova leva da música portuguesa e, independentemente de tudo o que disse no início deste texto, acreditei que o Salvador ia ganhar desde aqueles cinco segundos de música que ouvi na promo do nosso Festival da Canção.

Falei da música no dia seguinte ao Festival, tornei a fazer um post sobre ela aqui há dias e agora é impossível não o fazer outra vez, porque - acima de tudo - esta é uma vitória tão, tão justa! E não é justa porque Portugal andava a penar há cinquenta e tal anos - andávamos assim porque queríamos, porque tínhamos canções de merda quando cá fazemos coisas incríveis. É justa porque a música é fantástica, a letra é tocante - e tão nua, tão crua, tão verdadeira que pode doer -, porque o intérprete é autêntico e doesn't give a shit e porque reflete aquilo que há tantos anos se faz bem em Portugal. Nós não somos o "quero ser tua" ou os "Homens da Luta". Quem enche trinta coliseus são cantores nesta mesma linha de música - pura, simples, calma e linda - e não cantores de meia tigela que têm de ir vestidos com transparências para ganhar meia-dúzia de votos dos países vizinhos. Nós somos isto. E nós, quando somos nós, limpamos com tudo.

É difícil explicar (até porque eu nunca vi a Eurovisão), mas vibrei com isto como - se calhar - não vibrei com o Euro que ganhámos o ano passado. Implorei ao meu irmão emigrante para votar e festejei cada vez que tínhamos 12 pontos como se o Salvador fosse o meu clube do coração que estivesse a disputar pénaltis. Tenho uma paixão assolapada por música em geral, por música portuguesa em particular e pelos Sobral ao pormenor - a Luísa faz parte da minha playlist há vários anos e foi com ela, na Casa da Música, que ouvi o concerto mais simples e intimista da minha vida - e estou imensamente feliz por isto. Não por termos ganho - mas finalmente por mostrarmos o que somos, o que temos e por finalmente nos darem valor. E por acreditarmos que somos capazes e nos deixarmos daquele complexo de inferioridade que há séculos nos assola em vários campos. Por investirmos. E por termos conseguido.

Deito-me com o coração a transbordar de alegria e isso não tem pagamento possível. Obrigada Salvador. Vemo-nos na Casa da Música. Quero tanto bater-te palmas!

 

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09
Mai17

Hoje o palco é do Salvador, mas o Salvador é todo nosso

Carolina

As melhores chapadas são aquelas dadas com luva branca. Aquelas que não se vêem, em que não se ouve o “plash”, mas que doem para caraças na cara daqueles que a apanharam. E hoje, independentemente do resultado, Salvador Sobral vai dar um chapada de luva branca a todos aqueles que diziam que a sua música não era “música de festival”. Porquê? Porque conseguiu aquilo que há muitos anos ninguém conseguia em Portugal: pôr os portugueses a ver a Eurovisão, a acreditar que é possível e – acima de tudo – fazer com que não tenhamos vergonha daquilo que levamos lá fora.

Sim, porque “sucessos” como  “Quero ser tua” podem ter sido hits do YouTube, mas toda a gente sabe que não foi por boas causas. Não estou a dizer que a música pimba não tem fãs e que não mereça um respeito generalizado, mas é pimba. E isso nota-se – mesmo para quem não percebe português. Há toda uma aura ali envolta, o timbre daquelas vozes e a própria música “barata” que faz com que o género seja quase internacional – e mau. As pessoas da minha geração não se identificam com aquilo, a menos que seja para gozar, para servir de gifs, memes e gozo eterno – e assim, ao longo dos anos, toda aquela magia da Eurovisão que os nossos pais e os nossos avós viveram e hoje nos contam (o país parava, segundo dizem) perdeu-se. A minha geração já não se identifica e as gerações mais velhas também não, porque aquilo é malta jovem, a maioria a cantar inglês com um estilo um tanto ao quanto alternativo que não agrada nem a gregos nem a troianos – ou, neste caso, nem aos velhos nem aos novos.

Acima de tudo, a sensação de não ter vergonha daquilo que vamos mostrar é a melhor de todas. E depois são todos os “pormaiores” restantes: o facto de sermos os únicos a cantar na nossa língua, num gesto tão simples como poderoso; de ser uma música nua e crua, sem aquele espalhafato que muitos acham ser característica das “músicas de festival” (que, na verdade, é uma característica pimba); e por ser uma boa música, uma letra linda e mostrar aquilo que de bom se faz em Portugal, numa altura em que a música Portuguesa está a renascer pelas mãos de tão bons músicos, que com muito custo conseguiram conquistar o público e deixar para trás aquele terrível estigma sobre a nossa música (também alimentado por este festival).

Por tudo isto e muito mais, eu admito que, pela primeira vez, estou curiosa para ver o que aí vem. Admito que é bem provável que veja a Eurovisão pela primeira vez na minha vida. Admito que vou torcer com muita força para que o Salvador ganhe – e, se não ganhar, não importa. Porque nós já ganhamos. Ganhamos todos. Ganhamos o Salvador e isso já é prémio suficiente.

 

P.S. Caso não queiram ouvir o resto do pessoal a cantar coisas que a, nós, nada nos dizem, podem sempre trocar a Eurovisão por este concerto do Salvador, passado há dias na RTP. Eu já ouvi, re-ouvi e vou voltar a ouvir – quanto mais não seja na Casa da Música, quando ele cá vier atuar.

 

24
Fev17

A canção da semana, para o resto das semanas da vida

Carolina

Acho que o pessoal da minha geração não vê a Eurovisão. Não temos aquelas histórias que se ouvem da boca dos nossos pais e avôs, de que meia vila se juntava à volta de uma televisão só para ouvir a Simone, o António Calvário ou, mais tarde, as Doce a cantar e representar Portugal por essa Europa fora. Acho que há muitas razões para isso acontecer: primeiro, não vibramos com uma Europa que para nós já é "velha" e é um dado adquirido; segundo, porque as musicas normalmente são uma treta e quase nos escondemos de vergonha só de pensar que algo como a "Quero ser tua", da Suzy, nos representou no estrangeiro; e, terceiro, porque já sabemos que nunca vamos ganhar aquela treta e há demasiadas séries boas para ver enquanto passam vinte músicas maioritariamente terríveis, algumas em línguas em que não se percebe sequer um "ai". 

Por tudo isto, acho que nunca vi um Eurovisão. Nem o espétaculo principal nem aquelas eliminatórias anteriores. Conheço mais ao menos todas as músicas que levamos, mas vi sempre posteriormente a terem sido escolhidas ou apresentadas no festival. E no domingo não foi excepção - por acaso estava na sala a ver um filme enquanto o programa decorria e, por sorte, acabei por fazer zapping, apanhando a fase final das eliminatórias do Festival da Canção. Vi a última música (quer dizer, talvez seja melhor dizer "sobrevivi à última música") e esperei pelo apanhado de todas elas, naquelas promos que fazem para as pessoas verem os números de telefone, gastarem dinheiro e votarem.

E foi aí, nesses cinco segundos, que eu ouvi o Salvador Sobral.. Eu nunca vi o Ídolos, nunca o tinha visto mais gordo, mas fiquei instantaneamente apaixonada por aquela voz e por aquela letra, que não é nada mais, nada menos, que genial. Topa-se a léguas que ele é irmão da Luísa Sobral, a voz é muito semelhante, e a letra também tem a genialidade que lhe é típica - sou uma fã acérrima da Luísa, já fui a um concerto dela na Casa da Música, e foi das coisas mais simples e bonitas que ouvi (e vi) até hoje. 

Pelos vistos o dom corre na família. A presença dele no palco foi um bocadinho estranha mas, pelo que sei, ele estava doente e podia estar um pouco alterado nesse sentido; ele meio que dançava e "tocava" instrumentos imaginários, enquanto fazia expressões sui generis, mas acho que também era por estar totalmente absorvido pelo momento. 

Mas bom, a verdade é esta: desde domingo que não ouço outra coisa senão uma música apresentada no Festival da Canção. E o "pior" é que a música é linda, a letra incrível e a voz do rapaz de fazer arrepiar a espinha. Por isso, ao que parece, até há coisas fixes no Festival da Canção. Ainda não está decidido quem é que vai à Eurovisão, até acredito que ele não vá (os melhores ficam sempre pelo caminho...) e, mesmo que fosse, não ganhava na certa (já há muito que se percebeu que aquilo não é uma questão de músicas). De qualquer das formas acho que foi uma lufada de ar fresco: há coisas boas a acontecer e a serem feitas neste país, inclusivamente a serem apresentadas num concurso que está mal visto pela grande maioria do público e onde antes já foram apresentadas obras-primas como "Quero ser tua". 

Esta foi a música que reinou a minha semana, que me enche o coração e me preenche as medidas. É muito mais do que uma "música de Festival da Canção" e muito mais do que o hit da semana. É uma obra prima.

 

26
Jan17

Carolina, a dar concertos grátis no Smart desde 2014

Carolina

Continuo a dizer que o Smart é o melhor carro do mundo para ouvir música. Eu adoro ouvir rádio enquanto estou dentro do carro - aliás, para dizer a verdade, adoro ouvir música em todos os lugares. Estou sempre a cantarolar e adoro estar a ouvir canções enquanto cozinho, escrevo, penso, adormeço e, claro, conduzo.

E a verdade é que o facto do Smart ser pequenino faz com que a sonoridade daquilo seja fabulosa. É assim uma espécie de coluna 360º, tudo pertinho de ti, e com uma qualidade de som espetacular. Lembro-me que foi das primeiras coisas que gostei nele e que ainda hoje me cativa - ao ponto de continuar a cantar aos altos berros enquanto vou e venho para o trabalho e nos afazeres do dia-a-dia. Esta é até uma boa forma de atestar o meu humor: se eu não estou a cantar, alguma coisa está mal e o melhor é fugirem para bem longe de mim. De qualquer das formas, e é com muito agrado que o digo, são poucos os dias em que não estou dada a cantorias.

Mas bom, ontem estava eu em pleno trânsito portuense e passava na rádio a "Dangerosly", do Charlie Puth. Nem sequer adoro a música, mas gosto do refrão. Estava parada e, como de costume, dei literalmente voz aos meus dotes vocais e pus-me a cantar que nem uma maluca. Mas eu não só canto como faço gestos - e enquanto dizia "cus' I loved you dangerously yyyyy yyyyyyyyyyyy", movia os braços em movimentos poderosos, com os punhos cerrados e uma cara um bocado sofrida, como quem acredita plenamente naquilo que estava a cantar. A fila ia andando e, como se fosse uma cena em câmara lenta, passa um carro do meu lado esquerdo, que se apercebe do meu espetáculo - e vai continuando a andar até me ultrapassar e perder de vista enquanto, ao mesmo tempo, o rapaz que estava no lugar do pendura do dito carro ia rodando a cabeça até não poder mais, num movimento coordenado com a velocidade do carro, qual cena de filme. Ao mesmo tempo a expressão dele ia ficando um bocadinho mais "wtf?"" e, perante tudo aquilo, confesso que decidi parar.

Mas só até ao refrão seguinte. Nenhuma desculpa é boa o suficiente para pararmos de cantar uma música de que gostamos. "Cus' I loved you dangerously yyyyy yyyyyyyyyyyy". 

 

13
Dez16

Prenda de Natal antecipada

Carolina

A 12 dias de Natal recebi uma prenda antecipada mas não menos deliciosa: o "meu" Jamie Cullum volta ao EDP Cool Jazz no próximo verão. Como podem imaginar só não dei saltinhos de alegria porque estava no trabalho e uma pessoa tem de fingir que é séria e não vibra com estas coisas.

É claro que, no meio do faz e não faz, nem me apercebi que os bilhetes já estavam à venda. Só agora ao fim da tarde é que li uma notícia dos pés à cabeça e, quando fui ver, os bilhetes da primeira fila já tinham ido todinhos. Uma tragédia. E eu sei que falta mais de meio ano para o concerto: não sei onde vou estar, o que vou estar a fazer, se tenho férias ou sequer se estou viva. Mas faz parte da minha condição não perder um concerto do Jamie - já perdi alguns e só eu sei o que me doeu - por isso, e assim na loucura, comprei dois bilhetes (um para mim e outro para quem o apanhar) na plateia VIP, logo na segunda fila, que é para o ver bem pertinho. 

É caro, é imprevisível, é daqui a muito tempo - eu sei de tudo isso. Mas bolas, se ando a poupar os meus salários é para estas coisas maravilhosas da vida. E não há nada mais maravilhoso do que ouvir o Jamie Cullum a meia dúzia de passos de distância, não é verdade? Já conto os dias.

  

 

20
Ago16

History repeats itself

Carolina

E aqui estou eu, numa noite de Agosto, a ouvir Jamie Cullum. Deitada numa cama que ainda é a mesma, outra vez com um portátil no regaço, mas com mais seis anos em cima do lombo. Num quarto diferente, mas igualmente sozinha - literalmente e em espírito, sentindo-me melhor do que nunca em relação a essa solidão crónica que me acompanha desde sempre (e que nessa altura me consumia seriamente).

Desta vez tenho cortinas no quarto, mas faltam-me as bolachas madrilenas que na altura me adoçavam a boca. Ainda assim, mesmo sem hoje ter bolachas ao lado, sinto a vida bem mais doce do que há seis anos atrás. 

Não me perguntem porquê que me lembro tão bem daquele fim de tarde de 2010 em que descobri o Jamie Cullum e em que ouvi a "If I Rulled the World" pela noite dentro. Nunca duvidem quando digo que tenho na minha memória os mais ínfimos pormenores de coisas aparentemente insignificantes - ainda que, neste caso, esse dia tenha pouco de insignificante; descobri aí a minha paixão musical, a maior de todas, que creio que vai durar até ao fim dos meus dias.

Hoje, que o (meu) Jamie faz anos, ouço-o com o mesmo arrepio na espinha com que ouvi há seis anos pela primeira vez. O mundo inteiro pode ter mudado; eu posso ter mudado. Mas esta paixão continua igual.

 

 

08
Jun16

Um ano sem Primavera Sound (ou o fim dos voluntários nos festivais?)

Carolina

Queremos sempre voltar aos sítios onde fomos felizes. Sendo assim, este ano queria mesmo muito repetir a experiência do ano passado e ir ao NOS Primavera Sound. Esses dias são como um nevoeiro para mim, quase como se andasse nas nuvens na altura em que os vivi. Estava mesmo muito feliz.

Há uns tempos, quando disse a uma das minhas cunhadas que ia tentar ir de novo, ela advertiu-me: "nunca vai ser tão bom". E eu acredito que seja verdade - os momentos fazem-se não só daquilo que eles são mas também pelas circunstâncias em que os vivemos (e com quem os vivemos). O ano passado eu ainda estava em êxtase com o melhor ano de faculdade da minha vida, depois de uma semana de adrenalina com entregas de trabalhos e, acima de tudo, partilhei aqueles três dias com as duas pessoas mais importantes que encontrei na vida académica. Não podia ter sido melhor - e sei que este ano qualquer coisa ia falhar; mesmo que os concertos fossem melhores, mesmo que a companhia tivesse sido a mesma (o que seria difícil). Porque as circunstâncias não se repetem e a vida é mesmo assim.

De qualquer das formas, e mesmo sabendo que, relativamente ao ano passado, tinha a fasquia muito alta, queria muito voltar - só para viver a experiência de novo. Mas, ao que parece, este ano não há voluntários nos festivais. Já no Rock in Rio, que normalmente conta com uma base de voluntários gigante, não houve - causou alguma polémica e indignação por entre os "habituais", mas contra ordens não há nada que se possa fazer. Não esperava que a medida se alargasse mas, aparentemente, é um "mal" geral. 

Da pouca informação que há sobre assunto - e que não sei se se aplica só ao Rock in Rio ou também aos outros festivais -, esta decisão prende-se com a taxa de desemprego jovem e as leis relacionadas com esse assunto. De facto, não faz sentido entidades gigantes como estas não pagarem às pessoas para fazer este tipo de serviços - porque não pagar para apanhar copos do chão, tirar fotografias, fazer vídeos, controlar os fotógrafos, ajudar na zona VIP ou no backstage? A premissa está correta: se não se permitir ter voluntários, os festivais contratam para esses serviços. Mas será que contratam mesmo, ou reduzem-se aos "serviços mínimos", só porque são uns agarrados e são incapazes de pagar por um serviço que antes tinham de borla? Eu aposto mais na segunda hipótese.

No fundo, mesmo que paguem, a verdade é que o valor total não chegaria para pagar um bilhete do festival. E, infelizmente, nós (os jovens) não nos importamos de trabalhar para ouvir boa música e estarmos integrados num bom ambiente. É triste, é errado, mas é assim que funciona. E eu, honestamente, adorei o trabalho que fiz - por isso faria tudo de novo, de olhos fechados.

A vontade e as saudades são tantas que, depois de perceber que este ano não havia voluntários para ninguém, até ponderei comprar um bilhete. Mas a verdade é que não faz sentido absolutamente nenhum, porque - apesar de tudo - este é um festival de música e, de todos os artistas que vão (e são muitos), eu conheço uns 3. E eu iria apenas para os ouvir como música de fundo e viver acima de tudo todo aquele ambiente fantástico outra vez, o que, pensando com todos os neurónios, não faz lá muito sentido.

Este ano fico-me então apenas pelas saudades e resta-me fazer figas para que para o ano o panorama mude e eu possa viver mais um festival sem pagar nada.

 

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(descobri esta foto há um par de semanas no "repositório" de fotos dos voluntários do festival - não sei quem a tirou, nem quando tirou, mas adorei-a mal a vi. é a prova de que uma boa foto não tem necessariamente de ser espetacular tecnicamente (uma vez que está desfocada) para passar a mensagem - o sorriso e as olheiras nos meus olhos dizem tudo o que aqui há para dizer)

23
Mai16

Adele [ou o concerto de uma vida]

Carolina

É difícil descrever o concerto da Adele ontem no MEO Arena. Eu chorei como uma madalena perdida, porque a música é algo que mexe realmente comigo. Ouço música todos os dias, principalmente enquanto trabalho e escrevo - aliás, os primeiros dias de trabalho custaram-me bastante por passar tantas horas sem música como barulho de fundo (depois percebi que não havia problemas em usar auriculares e tudo melhorou). A Adele tem músicas particularmente deprimentes, o que, como sabem, coincide muitas vezes (e infelizmente) com o meu estado de espírito - por isso eu já perdi a conta às vezes que já chorei, deprimi e escrevi ao som de todas as músicas dela. Tenho fases em que ponho o spotify em repeat mode nos álbuns dela e posso passar dias a ouvir aquela voz incrível .
Ao todo foram mais de 150€ gastos só para a ouvir - e, meus amigos, valeu cada cêntimo! Não sei quando é que ela volta a fazer uma tour e não podia mesmo perder esta oportunidade - acho que ela própria não sabe se repete a aventura e tratou de não fazer a coisa menos que perfeita. Porque foi, de facto, perfeito.
Na minha cabeça, Adele fez um concerto à semelhança de um concerto que gostaria ela própria de ver - e semelhante aos que antes fazia, em espaços pequenos e intimistas. Porque nós éramos milhares ali dentro, mas ela parecia olhar e interagir com cada um de nós, como pessoas individuais. E eu adoro artistas que se esforçam por isso, que interagem com o público, que não os deixam sentir que são só mais uns - e ela faz essa gestão na perfeição. Falou imenso, chamou pessoas ao palco, tirou selfies, assinou cd's; reparou que os fãs que estavam na primeira fila eram os mesmos do dia anterior e, a meio de uma música, avisou os seguranças de que uma pessoa estava a desmaiar (e não, a pessoa não estava à frente dela - estava longe, numa lateral e no meio da multidão). Mostrou-se a artista mais humana que vi até hoje. Mais sincera.
Falou sobre a criação das suas músicas, do namorado que originou isto tudo, da comida portuguesa, do filho, de ter ido ao oceanário e à praia . Disse que estes tinham sido as maiores e melhores plateias para quem já tinha cantado - e embora eu já tenha ouvido tanto elogio à plateia portuguesa que já acho que é tudo planeado, perante toda aquela sinceridade, acreditei.
O espetáculo é aparentemente simples, sem grandes produções, mas o estilo minimalista torna-o gigante. A voz dela é simplesmente mágica (e a clareza com que se ouvia tornou-a ainda melhor). As imagens que passaram em plano de fundo eram incríveis e não pude deixar de me arrepiar quando vi Lisboa em "Hometown Glory" e de chorar perdidamente quando passaram fotos dela em pequena e adolescente em "When We Were Young" - principalmente depois da explicação que ela deu antes de a cantar.
Adele é uma artista completa e, para mim, uma das melhores de sempre. As músicas podem ser deprimentes mas ela tem um sentido de humor genial, acompanhado de uma humildade e respeito pelo público como poucos artistas têm (basta começar pelo "pormenor" de ter começado o concerto a horas). Ouvia tudo aquilo vezes sem conta - e juro que acho que não me cansava. Saí do MEO Arena tão emocionada e inspirada por ter podido testemunhar aquele momento épico que me apetecia chorar de felicidade e descarregar todas as emoções que acumulei naquelas duas horas.
O ano ainda não vai a meio, mas eu desconfio que este concerto já ganhou o troféu do melhor de 2016. E entra certamente para a lista dos mais marcantes da minha vida.

 

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 (fotos Getty Images&DN, respetivamente - eu não saquei do telemóvel durante o concerto inteiro)

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