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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

16
Out17

Pedrogão Grande all over again? (E sobre quando agradecer não chega)

Carolina

Este ano o meu campismo de família foi em Oleiros. Na altura era minha intenção escrever sobre o assunto, contar como foi, como correu, como era o sítio... mas, tal como tantos outros assuntos, ficou por dissecar. Mas há algo essencial neste nosso último acampamento - para além das peripécias e do convívio: os fogos.

Estivemos para não ir. No dia anterior à nossa partida, Oleiros estava todo a arder e nós não nos queríamos meter na boca do lobo. Fiz muitas pesquisas, passei a vida no site da proteção civil a ver a situação, o número de homens no terreno, as estradas cortadas, os quilómetros que separavam o parque de campismo do epicentro do fogo. Depois de muito ponderarmos, fomos. 

Pelo caminho passamos por Pedrogão Grande, na estrada paralela àquela onde morreram tantas pessoas. Só mais tarde, relaxados no parque de campismo, é que falamos sobre o assunto, mas enquanto nos fazíamos à estrada, todos pensamos o mesmo: "ainda bem que não vamos passar pela EN236". Foi curioso termos todos partilhado, individualmente, este sentimento. Nem era pelo medo que nos acontecesse o mesmo a nós - era improvável que no espaço de um mês acontecesse a mesma tragédia, no mesmo local - mas sim pelo espírito que, inevitavelmente, está colado àquela estrada. As vidas que roubou. O desespero com que ficou marcado. A tragédia que estará escrita na história. Naqueles largos minutos em que atravessamos Pedrogão, que em vez de verde estava negro (não só na alma), enquanto os pelos se eriçavam na pele perante uma nuvem de fumo tal que parecia uma montanha escura, nenhum de nós disse nada: mas todos pensamos o mesmo.

Quanto chegamos ao parque de campismo, estávamos sozinhos: foi o meu irmão, que já lá estava desde a noite anterior, que nos recebeu e que tinha a chave do portão. Desde de manhã que o parque estava "abandonado". Estranhamos, rímo-nos, gozamos com a situação - e só mais tarde, já quando estava a cair o dia e elas apareceram (ainda fardadas), é que percebemos porquê. As raparigas que tomavam conta do parque eram também bombeiras voluntárias - e passaram o dia inteiro a trabalhar nos incêndios que nos rodeavam. 

Nós estávamos seguros, o parque tinha um plano de evacuação e tínhamos o rio a dois minutos a pé, assim como a vila a uma curta distância de carro, mas na primeira manhã acordamos com o coração nas mãos - e a pele a gelar. É seguro dizer que passamos, provavelmente, o maior frio das nossas vidas - vi as minhas tias de lábios roxos, a tremer como varas verdes e com os dentes a ranger por todo o lado; tentávamos aquecer-nos como podíamos, entre banhos quentes, muitos sacos-cama (os que tínhamos), ligar a luz que usamos à noite para aquecer as mãos. De dia estiveram 30 graus, à noite penso que os termómetros chegaram aos três. E ninguém - ninguém! - conseguiu dormir perante aquele gelo. Essa manhã foi a única em que sentimos o fumo e as faúlhas - e penso que foram os incêndios, a par de um fenómeno meteorológico qualquer - que provocaram aquele frio. A nuvem era tão alta, tão espessa, tão grande que o sol simplesmente não passava: eram dez da manhã e continuava o mesmo gelo que estava às sete, porque o sol simplesmente não chegava até nós.

Depois de passado este episódio, as raparigas foram-nos sempre mantendo ao correntes do estado dos incêndios (na altura eram três e, ao todo, contavam com cerca de 1500 homens). Sempre que íamos à vila passávamos por dezenas de carros de bombeiros, vindos claramente de todos os pontos do país, e interiormente só queríamos que aquilo passasse. Não queríamos que a história de Pedrogão Grande se repetisse. Até as pessoas mais velhas (normalmente sempre a dizer aos mais novos para largar os telemóveis) estavam sempre a confirmar nos sites de fogos se as coisas já tinham aliviado. Foi um aperto. Vivemos em áreas urbanas, felizmente não sabemos o que é o desespero de quem está prestes a perder tudo, mas estar ali ao lado dá-nos outra dimensão daquele fenómeno aterrador.

Quando soube que a rapariga que nos atendia era bombeira, disse-lhe: "obrigada pelo seu serviço". Ela ficou a olhar para mim, muito confusa, porque este não é claramente um costume português. Mas o que fazer perante aquela situação, de alguém que está à nossa frente e disponibiliza o seu tempo, saúde e eventualmente vida para salvar os outros? Só me ocorreu agradecer, mesmo sabendo que um "obrigado" não é o suficiente para explicar o que estes homens e mulheres fazem pelas vidas dos outros.

 

("Não queríamos que a história de Pedrogão Grande se repetisse", escrevi eu. À altura deste post, já onze mortos confirmados - não só numa região, mas em vários pontos do país. Revolta é a palavra certa).

18
Jun17

Quando as tragédias batem na porta ao lado

Carolina

Não sei o que distingue os momentos que nos ficam a memória e aqueles que se esvaem como que água por entre os dedos, mas gostava muito de saber. Às vezes penso "quero lembrar-me disto até ao resto dos meus dias" e, no dia seguinte, já nem sei do que se trata; em tantas outra coisas normais, do dia a dia, a memória não pára de trabalhar e lembro-me dos pormenores mais insignificantes que possam existir. E depois há certos momentos que passam e que eu sei imediatamente que, bons ou maus, me vão ficar registados para sempre.

Lembro-me de um dia estar a ir para qualquer lado com o meu pai e passar em frente ao Hospital de São João, onde há um corrupio de ambulâncias constantes, onde o estacionamento é caótico e se vêem pessoas por todo o lado. Na altura, o meu pai disse-me que não gostava de passar ali. Lá íamos nós, na nossa vida, provavelmente a caminho de um restaurante ou simplesmente a passear; e ali, a meia dúzia de metros, estavam pessoas no mais puro dos sofrimentos - quer físico quer emocional, ora por serem elas próprias a estar na cama ou os que desesperam na sala de espera. Quando ele me disse isto eu soube que era uma das coisas que eu, mesmo que quisesse, não ia esquecer. Por ser tão real, tão duro, tão inevitável; por não podermos fazer nada para o alterar. Um dia somos nós, outro dia são os outros. E não podemos deixar de aproveitar os nossos momentos bons por outros, que não conhecemos, estarem a viver momentos maus - porque assim viveríamos numa infelicidade cíclica e viciosa que não tornaria o mundo melhor.

Agora, enquanto estou estendida numa espreguiçadeira a apanhar sol e a escrever isto, sei que está um país de luto e uma cidade devastada pelas chamas e por uma das maiores tragédias que todos já testemunhamos em Portugal. Ainda ontem, enquanto vinha para o Algarve, parei em Leiria para comer algo, mal sabendo que o pior estava por acontecer por aqueles lados. Mais uma vez passamos ao lado do mal, do inferno, do desespero e da infelicidade enquanto caminhávamos para algo de bom - tal e qual no hospital. E hoje, aqui deitada enquanto muitos lutam contra as chamas, outros perderam casas e familiares e 62 (até ao momento) perderam a vida, só me resta esperar o melhor. Vejo posts de lamento e consternação no facebook e penso "mais um", porque para nada servem as palavras quando o sofrimento mora ao lado e nada podemos fazer para o diminuir. Mas tal como todas essas pessoas, também eu sinto necessidade de dedicar uma palavra de pesar; ainda que ninguém leia, ainda que seja só mais um no meio de tantos outros que nem sonham o sofrimento que se deve estar a viver naquela terra. Ainda que sejam só palavras que não devolvem terra, casas ou vida e que, ao contrário do que quem lá está, venham de quem está hoje de bem com a vida.

Porque ela é mesmo assim. Umas vezes toca aos outros, outras vezes toca-nos a nós. E tudo o que podemos fazer - não estando no local, não conhecendo ninguém e estando só a ver de longe, ainda com a preocupação de quem se sente - é esperar o melhor e rezar que a vida seja branda até nas horas mais difíceis.

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