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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

26
Jun17

Harry Potter: 20 anos a espalhar magia

Carolina

Mentia se dissesse que foi o Harry Potter que me iniciou na leitura - esse galardão vai para o Triângulo Jota, que me ensinou a gostar de ler. Também não estaria a ser correta se afirmasse que essa série foi o maior amor literário da minha vida: nunca, nada nem ninguém, vai alguma vez destronar aquilo que o Twilight representou para mim. Mas a verdade é que essa saga teve muito que ver com a fase da vida em que eu estava, porque a apanhei no início e vivi quase de uma ponta à outra com os sentimentos à flor da pele.

Mas quando, algures em 2010 - já os livros estavam cá fora, assim como metade dos filmes -, li o Harry Potter, soube que era para a vida, um amor diferente. Não é uma história de amor para corações eternamente românticos, não é um policial que se devore e se esqueça no dia seguinte. É uma lição de vida sobre a diferença, sobre a coragem, sobre a amizade, sobre a força, sobre a união mas também sobre a solidão. E, acima de tudo, sobre a magia - e o poder da imaginação. O Harry Potter mora em nós a partir do momento em que o conhecemos, os corredores de Hogwarts passam a ser os nossos corredores, a Hermione e o Ron os nossos confidentes. 

Para mim, todos os livros que tenham a capacidade de tele-transportar os seus leitores para outros mundos merecem ser lidos - sejam maus ou bons aos olhos da crítica. Já o escrevi aqui e repito quantas vezes forem necessárias: qualquer obra que inicie alguém na literatura já fez o seu papel; aquele livro passou a valer a pena, mesmo que seja uma desgraça. E, mesmo que o Harry Potter não tivesse tantas - tantas! - outras qualidades, teve a capacidade de mostrar a milhões de crianças, jovens e adultos que temos todos a possibilidade de viver num mundo paralelo, com ou sem magia, durante muito ou pouco tempo: basta abrir um livro. 

Acho que não há maior prova disso do que aquilo que se viu hoje nas redes sociais. Ao invés de uma desgraça, de um vídeo parvo e viral ou de discussões políticas, o meu feed encheu-se de magia, de saudade, de agradecimentos profundos; de óculos arredondados, de raios na testa e de trechos inesquecíveis. A minha geração - a "inculta", a "geração à rasca", "aqueles que estão a deixar o papel morrer" - parou, pensou, partilhou e escreveu massivamente sobre uma saga que toldou os seus tempos, que lançou um dos seus maiores ídolos e inspirações. Sei que a maioria das pessoas que leu estes livros se sente agradecido à J. K. Rowling por aquelas horas passadas a ler, num mundo tão mágico e tão especial como é Hogwarts, como é a Londres dos Muggles ou Privet Drive. 

Faz hoje 20 anos que foi publicado o Harry Potter e a Pedra Filosofal. Só há uns sete é que eu entrei, tal e qual na plataforma 9 3/4, neste mundo - mas a entrada foi tão rápida e tão drástica que sei que, por muito que faça, nunca mais vou de lá sair. Harry Potter, para mim, são momentos muito especiais (como o da foto em baixo, o ano passado, na livraria Lello); é Natal, é conforto, é um porto seguro. É o sinónimo de que a magia acontece, dentro e fora de páginas. E representou um dos grandes alentos que me fez ler mais e, acima de tudo, tentar escrever ainda melhor. Saber que alguém que aqui viveu teve a capacidade e a inspiração para construiu todo este mundo, torna tudo muito mais real, quase como se a possibilidade de isto acontecer a algum de nós - ou a mim - possa estar ao virar da esquina. E por isso, para além de tudo o resto, a J. K. deu-me - e dá-me - também esperança. Porque a magia acontece. E tal como nos provou o Harry Potter... ela sozinha não basta, mas com força de vontade... até o impossível se consegue.

 

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15
Nov16

Nós, os fãs insaciáveis

Carolina

Eu acho que nós, fãs acérrimos de alguma coisa, somos quase como uns viciados em droga - chegamos a um ponto em que, se nos derem mais um bocadinho só para matar as saudades, e mesmo que saibamos que não nos vai fazer bem, consumimos porque é mais forte que nós. 

É isso que sinto em relação ao Twilight e ao Harry Potter. É claro que eu sei que nada vai ser como dantes, que nada vai ter o mesmo sabor, que nada bate aqueles anos completamente aéreos que vivi. Também sei que a idade é diferente, assim como a minha maturidade e forma de olhar as coisas - opá, cresci, essa coisa inevitável da vida. Mas mesmo sabendo de tudo isto, não consigo deixar de voltar a estes dois mundos que, numa altura em que sentia que o mundo real não me percebia - ou, aliás, me rejeitava - me receberam de braços abertos, sem "porquês" ou contestações. 

Abro os livros para lhes sentir o cheiro e ver as suas páginas tocadas e amareladas. Revejo os filmes, penso coisas como "esta cena é mesmo muito parva" e páro tudo nos segundos precisamente antes das minhas cenas favoritas. Digo em voz baixinha as falas todas que sei de cor, canto as músicas e elogio pela milionésima vez as bandas sonoras. E depois, no fim, ignoro o nó na garganta que teima em ficar, não importa os anos que passem. 

E depois, de vez em quando e no meio desta nostalgia, tanto a Stephenie como a J.K. Rowling lembram-se de lançar mais uma coisas para o mercado e fazer dourar a pílula para todos aqueles que, como eu, têm esta doença incurável de se apaixonarem por livros e filmes. E eu sei, racionalmente, que isto são truques de marketing para rechear aquelas contas que já estão a rebentar pelas costuras; sei que cresci e que por ter crescido as coisas já não soam tão bem, tão mágicas, tão especiais; sei que vou chegar ao fim dos filmes, dos livros ou o que quer que seja e que aquele bichinho que achávamos que íamos amainar por termos "alimentado" continua ali, voraz como sempre, e a gritar aos teus ouvidos que "não é a mesma coisa, não é isto que eu quero, não era assim que isto devia saber!". Lá está, quase como uma droga que nunca nos sacia, que nunca sabe bem o suficiente - e da qual queremos sempre, sempre mais e de que saímos sempre, sempre insatisfeitos.

É por isto que li aquela reedição do Twilight com as personagens trocadas, que comprei os outros livros da J.K., que tenho todos os DVD's e outras 21 mil tralhas. E mesmo sabendo que nunca é suficiente, também é por isso que em breve vou ter o novo livro da Stephanie na estante e que estarei sentada num cinema a ver o "Fantastic Beasts And Where to Find Them" - que, até aqui, tinha dito veemente que não ia ver porque, na realidade, ainda não me tinha despertado interesse. Mas hoje dei por mim a ver a premiere do filme, em direto e em livestream, tal como nos bons velhos tempos - e veio tudo de volta a mim, incluindo aquela vontade incrível de desfrutar, nem que seja por um pequeno segundo, destes mundos.

É simplesmente mais forte que eu. No fundo, acho que não passa de uma simples utopia humana: queremos voltar sempre aos sítios onde fomos felizes - mesmo que esses sítios sejam meros cenários imaginados por alguém, com personagens tão ricas e tão boas que, na verdade, nunca poderiam ser reais.

09
Ago16

Chávena de letras - "Harry Potter and the Cursed Child"

Carolina

Harry_Potter_and_the_Cursed_Child_Special_Rehearsa

 É difícil escrever uma review a um livro de Harry Potter passado tantos anos; depois de tantas saudades, dos filmes, do fim. 

Penso que a maior crítica que posso fazer - que, no fundo, não é crítica, é uma característica do livro que temos simplesmente de aceitar - é o facto de ser escrito em forma de teatro. Esta não é a forma a que estamos habituados a ler Harry Potter e muita da magia perde-se pelo caminho. Faltam descrições, falta desenvolvimento, faltam os detalhes de toda a história. No fundo, falta a escrita de J. K. Rowling.
A história original podia perfeitamente ser um livro como os outros, mas o facto de ser uma peça retira-lhe muitos dos elementos que eu adorava ler na saga do HP. Acredito que, vendo ao vivo, muitas destas falhas sejam colmatadas, mas o livro fica a saber a pouco.
É um sentimento agridoce: por um lado dá para matar saudades, mas por outro fica a evidência de que nada poderá ser como dantes, por muito que todos nós queiramos reviver a magia de outrora.

31
Jul16

Uma noite mágica na livraria Lello (e a aposta em todo um verão épico)

Carolina

Acho que este verão bateu em mim o facto de este ser o meu último período de férias grandes. Em Setembro começo a trabalhar e inicio oficialmente o meu período de vida adulta, com dias de férias contados e todo o drama que é trabalhar. Ao meu lado só vejo pessoas ainda a acabar a licenciatura, a seguir para mestrado, a tirar um gap year ou a ir fazer voluntariado no estrangeiro e eu aqui, prestes a perder a liberdade que tive até agora mas que até aqui não tinha dado grande importância.

Por isso fiz um compromisso comigo própria em aproveitar este verão da melhor forma que conseguir, apostando todas as fichas nestes meses de calor e respondendo "sim" a coisas a que normalmente diria não ou arranjaria uma desculpa para me esquivar. É para ir a um concerto antes de seguir para Estocolmo e dormir só uma hora? Bora. É para entrar num castelo com encenações assustadoras a meio da noite mesmo sendo medricas para xuxu? Bora. É para ir para a Régua? Bora.

E foi neste espírito de "bora, não há nada a perder e este é o teu último verão a sério" que também enviei email para a Lello, candidatando-me para ser voluntária no evento do lançamento do novo livro do Harry Potter. Estava na Rússia, a pagar net a preço de ouro, e passei por um post no facebook que dizia que eles estavam a aceitar candidaturas para voluntários nesse dia. Escrevi uma coisa muito rápida e simples e, para minha surpresa, poucos dias depois recebi um email a dizer que fui selecionada.

Não me vou debruçar aqui sobre o trabalho de "voluntariado" que fizemos nem discutir essa questão tão sensível (fica para breve). Eu estou numa de me meter em coisas que me ocupem tempo, que me tirem de casa e me façam conhecer pessoas novas - e foi isso que fiz, independentemente do que ia (ou não) receber, do trabalho que ia ter e ia fazer. O que me importava era ir, fazer parte. E assim foi.

Durante dois dias esfalfei-me. Carimbei, ensaquei e alarmei centenas de livros (sim, aquela preciosidade passou-me pelas mãos dois dias antes do lançamento oficial - e confesso, dei uma olhadela antes do tempo). Carreguei com eles escadas a cima, uma vez e outra. Levei com centenas deles em cima, que caíram em cima de mim estilo dominó quando retiramos uma caixa que não devia ter saído do sítio. Fiz de porteira durante horas a fio, andei pelas filas a dizer a mesma coisa cerca de quarenta e duas mil vezes e dei por mim a ter uma fila de pessoas só para falar comigo para me fazerem perguntas a que já tinha respondido cerca de cinquenta e oito mil vezes essa noite. Nunca falei com tanta gente na vida. Sei que para a grande maioria das pessoas o evento foi um flop (basta ver as publicações e comentários na página do evento no facebook) e isso também foi perceptível para nós, que tentamos proporcionar a melhor experiência possível mas não conseguimos fazer milagres. Ainda assim, penso que enquanto voluntários foi uma experiência brutal.

Já depois da meia noite, enquanto carimbava talões e entregava o tão esperado livro, via na cara das pessoas a emoção total. As músicas da banda sonora do Harry Potter estavam a passar na loja e, honestamente, houve um momento em que me arrepiei - quando entregávamos o livro, parecia que estávamos a passar a tocha olímpica ou algo de uma importância incrível, tal a comoção das pessoas que estavam à nossa frente. Foi incrível e valeu todas as horas de trabalho duro que todos nós, voluntários, passamos ali. Penso que é algo que nunca esquecerei.

Outra coisa incrível foi a interação com as pessoas - não só as centenas com quem falei na porta ou nas filas, enquanto distribuía comida, inquéritos ou simplesmente respondendo a questões - mas também com os outros voluntários. Senti a mesma coisa no barco: estamos num sítio onde ninguém nos conhece e podemos fazer reset em nós próprios, sem ter de gerir as expectativas dos outros ou de quem já espera e pensa certas coisas de nós. No fundo, perante pessoas e todo um mundo novo, podemos ser quem quisermos, reinventarmo-nos e "escolhermos" que pessoa somos e quem queremos ser, sem nada que nos prenda a tudo o resto. E essa sensação é espetacular. Posso ser a Carolina incrivelmente simpática que acho que normalmente não sou; posso ser a Carolina que está sempre a sorrir que não sou de certeza no dia-a-dia; posso ser uma versão light de mim, porque sei que aqueles tempos vão ser ligeiros e felizes e que os problemas só vêm depois, e aí já posso ser quem sou habitualmente. 

Apesar da confusão e dos milhares de pessoas, do trabalho quase abusivo e de alguma ingratidão que possamos ter sentido, acho que é uma noite que nunca esquecerei e que sei que não poderia ter vivido de outra forma (porque não iria lá apenas como "espectadora" normal). Foi mágico, tal e qual como o (nosso) Harry Potter.

 

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