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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

08
Jun17

Review da semana #20

Carolina

A review da semana costuma sair à quarta-feira mas, com a falta de tempo, não consegui escrever. Vamos, por isso, fingir que ainda estamos a meio da semana e que este post é publicado no dia certo.

 

Porto Exit Games / Escape Games

 

Eu já queria fazer isto há muito, muito tempo! Mas a falta de oportunidade, conjugada com a preguiça de combinar com as pessoas e todas as logísticas que envolvem juntar grupos, gastar dinheiro e coisas que tais... fui sempre deixando para depois. Mas há coisa de um mês uma das minhas primas decidiu lançar o desafio à família e, finalmente, lá fui eu fazer um escape game!

Cá no Porto há vários, mas nós decidimo-nos pelo Porto Exit Games - em primeiro lugar porque é a mais conhecida, em segundo porque tem versões alargadas para grupos maiores. A adesão da família foi maior do que o esperado - dos que foram, nunca ninguém tinha feito, alguns já tinham ouvido falar e outros iam completamente às cegas. No total fomos 16, por isso tivemos de nos dividir por duas salas e tiramos à sorte quem ficava em qual. O primeiro grupo ficou na Porto Wine Sabotag" (com dificuldade de 60%) e o segundo (onde eu me incluía) ficou no "The Sacrifice" (com uma dificuldade de 80%). Quando me saiu o papelzinho com um 2 - ou seja, indicando que ia para a segunda sala - fiquei logo com o rabinho entre as pernas; não gosto nada de coisas que metem muito suspense ou terror e, pela descrição que eu tinha lido, esta sala era baseada nisso. Aliás, não fui só eu que, quando nos trancaram naquela sala praticamente às escuras, fiquei um bocado apreensiva. Mas correu tudo hiper bem!

Sobre a sala mais fácil não posso dizer muito, porque não sei - neste caso, o segredo está literalmente na alma do negócio e eles têm de confiar na boa fé das pessoas para não estragarem toda a piada e os enigmas do jogo. Nesse aspeto, é um negócio volátil e arriscado - mas eu acho que as pessoas se divertem tanto que tentam não matar a sua essência. Mas enfim, na minha família toda a gente se portou muito bem e não contou nada às pessoas do outro grupo - embora nos apetecesse muito falar sobre as charadas, os enigmas e tudo o que passamos naquela hora (que voou!!), nunca abrimos o bico, até porque um dia destes queremos trocar de salas e ver quem sai mais depressa.

Sobre a sala que eu fiz, posso dizer que adorei. Como éramos oito fizemos a versão extended, que eu depreendo que seja mais longa e difícil ainda, mas a verdade é que conseguimos sair a 14 segundos do fim!!! (Ai a adrenalina!!) Os outros conseguiram sair com um quarto de hora de avanço, mas a sala deles também era mais fácil. A organização aconselha a que se comece precisamente pelo nível mais baixo mas, no nosso caso, como éramos um grupo grande, tivemos de dividir. A senhora que nos recebeu e guiou durante todo o jogo foi muito simpática e divertida e confessou-nos, no fim, que achava que nós não íamos sair - porque a verdade é que para se conseguir sair é preciso desvendar um número de charadas muito elevado, não é mesmo fácil. Quando eu achava que já estavávamos no fim, pumba, mais uma nova surpresa - era sempre assim, parecia que nunca mais acabava!

Apesar do tema ser sombrio e de haver uns barulhos um bocado sinistros, assim como alguns objetos mais creepy, não há que ter dramas em fazer esta sala. Não mete medo nem há nada muito assustador, vive-se perfeitamente. E se vos estiver a dar um fanico têm sempre o botão de pânico, que abre a porta imediatamente. 

Os desafios são de todos os tipos: sensoriais, lógicos, de equipa... enfim, é óptimo para dinâmica de grupo e passa-se uma hora num abrir e piscar de olhos! Eu adorei e voltava a repetir sem dizer um "ai" e gostava mesmo muito de, num futuro próximo, fazer as outras duas salas - a mais fácil e a mais difícil, que dizem que é mesmo tramada. Aconselho vivamente a que experimentem esses escape rooms pelo país fora!

27
Abr17

Os irmãos não se medem às metades

Carolina

Apesar de eu me achar uma pessoa minimamente interessante, com gostos bastante diversos e com alguma cultura geral, não tenho muita facilidade em falar com os outros num primeiro contacto. Aliás, púnhamos isto em pratos limpos: eu acho que não tenho jeito para lidar com pessoas o que, numa profissão como a minha, pode ser um bocado complicado. Mas normalmente há uma série de tópicos em que eu me sinto extremamente à vontade, que são aqueles que eu ataco quando preciso de encetar uma conversa com alguém ou que preciso de usar quando há um silêncio constrangedor. Falo de viagens, de animais, de fotografia e, acima de tudo, da família. Às vezes pode ser um tópico sensível, mas normalmente é algo que as pessoas falam com alguma tranquilidade.

Eu falo logo dos meus irmãos, porque a nossa diferença de idades é sempre um tópico engraçado, que as pessoas gostam de saber mais e onde acaba por fluir o diálogo. E o fluxo natural da conversa é a outra pessoa contar-me se também tem irmãos. E muitas vezes dizem-me "eu também tenho dois meios irmãos". E eu aí apanho um safanão, acordo para a vida e respondo "ah, pois, os meus irmãos também são meios irmãos...".

Porque a verdade é que eu nunca me lembro disso a não ser que esteja a falar especificamente no assunto ou, como acontece recorrentemente neste tipo de casos, me lembrem que essa coisa dos "meios irmãos" existe. Porque, sinceramente, eu tenho uma teoria: toda a gente que enfatiza que tem "meios irmãos" é porque não os sente realmente como irmãos. Há mesmo quem diferencie os "100% irmãos" e os outros e eu acho isso terrível. Acima de tudo porque não percebo como é que isso é possível. Nenhum dos meus irmãos é "totalmente meu irmão" e eu nunca os senti menos irmãos por não termos ADN's mais semelhantes. 

Eles são, para mim, as melhores prendas da minha vida, os meus segundos pais, a minha inspiração, a minha companhia. Não concordo sempre com eles, às vezes chateio-me, mas acima de tudo, hoje em dia, tenho saudades de os ter sempre por perto e do mimo e do colo que me davam há uns anos atrás. Tenho a sorte de ter uns irmãos incríveis, que são também eles pessoas incríveis - e acredito que, como tudo nesta vida, existem maus irmãos e pessoas não tão boas. Mas a verdade é que isso depende de muita coisa (da educação, do ambiente, da personalidade), mas pouco da carga genética que carregam nas veias.

Da mesma forma que há boas e más pessoas, deve haver bons e maus irmãos - se calhar há irmãos que até podemos querer esquecer (embora eu tenha dificuldade em sequer pensar nisso). Mas esses não contam. Porque a palavra irmão, tal como a palavra "mãe" e "pai", representa muitooo mais do que aquilo que vai no dicionário. Naquelas cinco letras cabe o mundo - mas não cabem metades. Porque os irmãos medem-se por inteiro. 

 

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23
Out16

Mudam-se os tempos, mas as vontades nem por isso

Carolina

Ontem levei o meu sobrinho mais velho ao Estádio do Dragão. Ele nunca tinha ido e estava em pulgas, eufórico com a novidade. Leva-lo ao estádio era algo que já há muito que gostava de fazer com ele; foi um momento marcante para mim, lembro-me do quão encantada fiquei quando pisei aquele sítio pela primeira vez e queria muito poder proporcionar-lhe uma experiência semelhante. Como ele começou há tempos a interessar-se por futebol, jogadores e etc., achei que seria a altura ideal.

E adorou, pois claro. Eu fiz questão de ir ver um jogo mais "fácil" (embora, nos dias de hoje e no estado em que o FCPorto se encontra, todos os jogos são uma incógnita), para termos mais probabilidades de ganhar - e vencemos por três, o que já deu para tirar a barriga de misérias e para ele saltar de emoção vezes suficientes. Para além disso, à saída, ainda apanhamos o Helton, que é um querido e estava a tirar fotos com a malta toda - e tirou uma também com ele, por isso o batismo não podia ter sido melhor. A pior parte foi mesmo no fim, porque como em qualquer batismo... apanhamos com água. Muita água. O rapaz até ficou atarantado de tão encharcado que ficou - eu, tia, mais velha e experiente, já estou mais habituada a estas coisas, mas devo confessar que já não apanhava com uma carga de água tão grande há uns anos largos. 

Mas enfim, o mais giro disto tudo eram as coisas que ele me ia dizendo no decorrer do jogo - que eram exatamente as coisas que eu dizia e pensava quando era mais nova! Primeiro disse-me que gostava de ser um daqueles meninos que estão atrás dos painéis publicitários, a apanhar e mandar bolas (eu também dizia que queria ser menino e ir para as escolinhas só para ir para lá); depois ainda se lembrou dos outros meninos que entram com os jogadores em campo, porque também gostava de ir de mão dada a eles - principalmente com o Herrera e o André Silva, os seus preferidos (eu era igual, mas a minha crush era mais o Vitor Baía, o Derlei ou o Benny McCarthy); durante o intervalo começou a dizer que fixe, fixe era estar nos lugares mais baixos para poder falar com os jogadores - e no fim do jogo, quando saímos para a zona das comidas onde existem televisões, viu o André Silva a entregar a camisola a uma miúda e enfatizou ainda mais este pensamento, acrescentando que o melhor lugar era mesmo ao ladinho do túnel (e eu era tal e qual: pedia encarecidamente ao meu pai para ir para os lugares de baixo para os ver mais de perto, algo que ele sempre me negou por se ver muito pior o jogo).

Senti-me um bocadinho velha quando o ouvi repetir tudo aquilo que em tempos ia na minha cabeça e, pior, quando achei que fazia sentido responder as mesmas coisas que o meu pai me respondia a mim. Ok, talvez não tão pragmática (não lhe disse "mas para quê que tu queres uma camisola mal-cheirosa de um jogador de futebol de 20 anos!?"), mas disse-lhe que, de facto, ver os jogos nos lugares de baixo era muito pior e outras coisas que tais. A parte boa é que continuo a ser uma criança como ele em certas coisas: continuo a querer ser pequenina e andar nas escolinhas de futebol para ser apanha bolas e, na verdade, também gostava de ter uma camisola de um jogador qualquer. Também ainda não cheguei à fase de preferir ver os jogos em casa do que no estádio mas devo admitir que aquelas correntes de ar não são boas para ninguém (e sim, passei a minha vida a perguntar-lhe "não tens frio?", "aperta lá o casaco"...) e que, quando cheguei ao carro estilo pingo, só queria um sofá onde me esticar e uma mantinha quente sobre o corpo.

Afinal de contas estou velha, mas só um bocadinho.

 

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06
Out16

A minha rica hora de almoço

Carolina

Se há coisa que prezo nesta vida é almoçar com a minha família. Tenho plena noção de que os almoços em família foram das coisas que mais me moldaram a personalidade e forma de ser - mas, acima de tudo, sempre foram as horas de maior aprendizagem do meu dia. Sempre tive a sorte de ter uma mesa cheia (agora nem tanto, que os meus irmãos não estão cá em casa - mas fazem um esforço para cá vir de vez em quando), onde as opiniões sempre foram várias e muitas vezes divergentes. 

Sempre se falou de sociedade, política e economia - aliás, com as notícias como barulho de fundo, muitas vezes comentava-se e trocavam-se opiniões. Fala-se de carros, de pessoas, de doenças, de computadores, da escola, do trabalho. No fundo, da vida e de tudo um pouco. É uma coisa que parece básica e simples e que, na minha cabeça, é "tão natural como a sua sede", mas a verdade é que a maioria das pessoas não tem a sorte de poder reunir com a família ao almoço e de ter esta troca de interações que, para mim, foi fundamental. Aliás, não foi - é. Continua a ser das melhores e mais importantes partes do meu dia - aquela em que converso calmamente com os meus pais, lhes peço opiniões e posso simplesmente desfrutar da sua companhia durante aquela horinha sagrada.

É por isso que a minha hora de almoço é sagrada e faço todos os possíveis para vir todos os dias almoçar a casa. Posso não ter horários de entrada nem de saída, mas uma coisa é certa: um pouco antes da uma da tarde estou a meter-me no carro para vir para casa. Só em situações limite ou em dias que tenho almoços de trabalho é que esta regra é quebrada. 

Só tenho saudades de ter a mesa cheia, de ter os meus irmãos aqui comigo diariamente ou até os meus sobrinhos - que até ao ano passado me faziam ir às lágrimas de tanto rir, de tanta piada que tinham. Agora as horas de almoço são mais sérias, mas nem por isso menos perfeitas. Tirem-me todas as restantes horas do dia, mas a minha rica horinha de almoço é que não.

02
Set16

Segundo campismo de família em Penacova

Carolina

A primeira vez que fiz campismo foi o ano passado, com toda a minha família, numa maluqueira que quis que se tornasse num ritual anual. Fomos para o Lima Escape durante dois dias - apenas uma noite - e a experiência correu super bem. Foi muito cansativo, foi uma logística muito complicada, mas valeu super a pena - soube apenas a pouco, ficamos quase com a sensação de que montamos e desmontamos as tendas ao mesmo tempo.

Por isso, este ano, decidi propor um alargamento dos dias do campismo de família - em vez de dois dias, ficaríamos três, e tínhamos um dia inteiro para desfrutar da companhia uns dos outros. Era algo que já estava a ser estudado há vários meses, pensamos em vários lugares, e acabamos por optar ir para o Parque de Campismo Municipal de Penacova. Primeiro porque era a pouco mais de um hora de carro e segundo porque tinha uma praia fluvial a um quilómetro; foi um golpe arriscado, porque não há praticamente informação nenhuma no Google sobre este parque. Pior: o Google só dá a informação de um parque quando, na verdade, há dois - ou seja, as fotos e os comentários de utilizadores centram-se só num parque (o da Federação e não o Municipal), pelo que nunca se sabe bem de que parque estamos a ver fotos ou reviews.

A ideia era ir sem expectativas e esperar ter sorte. Quando lá chegamos deparamo-nos com um parque muito pequenino e vazio e a reação não foi a melhor. Este não é um parque de campismo como o Lima Escape, cheio de vegetação e que transpira "natura". No entanto, acabou por se revelar óptimo para nós - pudemos ocupar o espaço que quisemos, fazer barulho à noite (tenho músicos na família, é inevitável haver baile e concertos pela noite dentro) e, a parte melhor, tínhamos um salão (que devia ser um antigo café) com cozinha, onde pudemos comer todos juntos, sentados e fazer toda a comida com maior conforto. Era uma das nossas maiores preocupações: levamos campingaz suficientes para tudo, mas não ia ser tarefa fácil fazer comida para trinta pessoas em pequenas bocas de gás e tachos gigantes. O facto de ter cozinha, frigorífico e arca congeladora (algo que não costuma haver em parques de campismo) foi uma ajuda incrível.

Os tempos livres e fora das refeições foram passados na praia do Reconquinho, como todos queríamos. Apesar de ter uma areia pedras terrível, fazia um calor abrasador e os serviços disponibilizados na praia eram de fazer cair o queixo. Aliás, foi assim que todos ficamos quando percebemos que todas as atividades que lá tinham eram grátis. Podia-se atravessar o rio por um slide, andar de kayak, utilizar uma série de bóias e insufláveis que estavam sobre a água, usar guarda-sóis e cadeiras de sol: tudo completamente grátis! Até uma papelaria/livraria tinha, para se "alugar" o jornal do dia. Ficamos incrédulos e quase que desconfiados. Passamos a vida a dizer que "ninguém dá nada a ninguém" e a verdade é que já nem estamos habituados a não pagar por um bem ou serviço, por mais simples que seja. Podia ir-se a banhos, mas a água do Mondego é absolutamente gelada. Eu, que já fui de certeza peixe noutra vida, fui na mesma e a temperatura não impediu que eu passasse a vida a atirar-me à água, de uma ponte que lá havia. O choque térmico era tão grande que o corpo parava e os pulmões ardiam e gritavam por ar - mas depois a sensação era avassaladora. Nadar no rio é maravilhoso.

De resto, o convívio foi incrível. Não é fácil juntar uma família de mais de 30 pessoas e faze-las estar em consonância; não é fácil juntar 13 tendas num sítio, alinhavar jantares e multas, meter toda a gente dentro de carros e arranjar boleias, conseguir meter todas as tralhas dentro das bagagens sem nos esquecermos de nada. É preciso organização, é preciso ser muito chata, é preciso as pessoas quererem e alinharem. Aliás, sinto que depois disto já tenho uma espécie de pós-graduação em gestão de eventos! Mas com uma carga valente de paciência e boa vontade tudo se faz - e acho que ter uma família unida compensa todo o trabalho. Conheço muito poucas famílias como a minha, em que os laços vão para além da grande diversidade de opiniões e estilos de vida que existem entre nós. Já há muitos anos que alguns velhos do restelo vêm dizendo que estes encontros vão eventualmente acabar, que com o aumento da família começa a tornar-se insustentável. Talvez sim. Mas não será antes de eu me cansar de tentar. 

 

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Rio Mondego (a ponte atrás)

 

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Algumas das bóias que havia na praia. [Foto da minha prima]

 

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A minha sobrinha a fazer bolas de sabão. A minha foto preferida. 

 

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Não tenho por hábito partilhar aqui fotos com outras pessoas, mas penso que neste caso faz todo o sentido e acho que a minha família não se importa. Aqui, somos 32 - faltam 7 para a família estar completa mas que, por vários motivos, não puderam vir. Acreditem ou não, olho para esta foto e penso "não somos assim tantos...".

Por também ser a fotografa de serviço, esta é a única foto que tenho no campismo em si. 

 

12
Ago16

Acho que devia atualizar o meu currículo

Carolina

Estou neste momento a organizar o segundo campismo anual da minha família (se bem se lembram, falei do primeiro aqui). Nestas coisas, o que custa é começar - e depois de no ano passado termos sobrevivido e as coisas terem corrido tão bem, este ano não é preciso um esforço tão grande para levar as coisas avante.

Ainda assim, são 30 pessoas. E provavelmente um cão. E mais de dez tendas. Com um aniversário pelo meio. Como um extra, na loucura, decidi propor que acrescentássemos mais um dia ao campismo: de sexta a domingo, em vez de ser só no fim-de-semana. Neste parque há possibilidade de marcação, pelo que preciso de saber ao certo as pessoas, as tendas, os carros e etc. (o ano passado fomos à maluca, sem saber se tínhamos ou não lugar e a ver quem é que encaixava na tenda de quem). 

Tenho para mim que há organizações de eventos menos complexas que esta. Acho que o meu campismo anual de família merecia um lugar de destaque no meu currículo.

06
Jun16

Sobre o amor que não morre

Carolina

Gosto de cemitérios - mais de uns do que outros, mas não me custa visitar nenhum. Gosto mais daqueles grandes, com árvores e espaço entre campas - no fundo, cemitérios a sério, onde as pessoas podem estar em paz e em comunhão com a natureza e com aqueles que perderam. Por sorte, foi num desses que a minha avó ficou e só lá não vou mais porque fica-me fora de mão e é numa zona onde não costumo passar - porque gosto imenso daquela paz que lá se sente, de ouvir o silêncio ou simplesmente o vento a passar nas árvores centenárias. 

Nunca fui muito de espiritualidades, mas desde que a minha avó faleceu essa veio acentuou-se um pouco em mim. Não sei - e acho que não quero saber - o que há ou deixa de haver "do outro lado", mas de alguma forma sinto-a presente. Esse sentimento pode ser uma coisa real ou simplesmente algo que a minha cabeça criou para que a perda não fosse total - ainda assim está lá, e eu deixo-me ser confortada por ele vezes sem conta. É estranho e mau dizer isto, mas a verdade é que agora lembro-me e sinto-me mais vezes com ela do que quando estava viva.

A última vez que fui ao cemitério foi na semana anterior a começar o estágio. Fui almoçar naquela zona e, já de barriga cheia, decidi parar no cemitério e fazer uma visita. Gastei todos os cêntimos que tinha na carteira e comprei um ramo de flores para lá lhe pôr. Já lá, depois de fazer o melhor arranjinho possível (que não é algo em que eu seja muito prendada, mas ao menos tento), contei-lhe - ainda que interiormente - que ia começar o estágio dali a dias e que precisava de uma força extra. Sei que ficaria orgulhosa - sempre quis que continuasse no ramo e com os negócios da família; ficaria ainda mais feliz por saber para quem vou trabalhar e já a imagino a contar-me todas as fofocas que tinha lido nas revistas e a dar-me a sua opinião sobre tudo o que tinha direito.

Independentemente daquilo em que acredito - que é mesmo muito pouco -, importa-me mais aquilo que sinto. E quando tive a minha proposta de emprego (e quando depois respondi que sim), lembrei-me logo desse dia em que lhe "contei" sobre o estágio. É uma sensação estranha de presença e de acompanhamento; também por saber que era uma coisa que ela queria muito e de que ficaria orgulhosa, apetece quase pensar que ela teve um "dedinho divino" em tudo isto.

Faria hoje 92 anos. E tudo isto para dizer que, mesmo não estando aqui em corpo presente, é como se estivesse: sinto-a nos dias bons e nos maus, dos momentos mais felizes aos mais tristes; ouço interiormente a sua opinião, aquilo que diria ou deixaria por dizer e sinto aquilo que sei que sentiria ao ver-me hoje, como sou e como estou. As pessoas perdem-se, mas enquanto o amor delas viver em nós (e todas as palavras e gestos de carinho que tiveram para connosco) é como se continuassem vivas.

 

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26
Mai16

Começo a sentir as rugas

Carolina

Há uns dias estava deitada no sofá, à hora do almoço, à espera que os meus sobrinhos chegassem da escola. Estava a fazer zapping e tropeço num episódio dos Morangos com Açúcar, bem antiguinho, num dos canais que andam a repetir a série. Decidi matar saudades e deixei-me ficar a ver, nos 5 minutos que tinha até ao almoço ser servido. Entretanto chegam os meus sobrinhos. O mais velho, com dez anos, diz-me, com um ar surpreendido:

- Vês Morangos com Açúcar?! 

- Não, mas já vi.

- Ah, eu agora vejo! - responde-me ele, entusiasmado.

No breve momento em que eu respondi "mas já vi" e ele falou, ocorreu-me um pensamento terrífico. Caiu-me tudo e disse-lhe:

- Vi quando tu ainda nem sequer tinhas nascido.

 

É oficial: estou velha e acabada.

12
Abr16

Os anos passam, o aperto é o mesmo

Carolina

Esta manhã não me apeteceu ir trabalhar, mas fui. Acordei desanimada e triste, a par de um sono terrível provocado por uma noite de tempestade que não me deixou dormir. Abusei tanto da história do "só mais cinco minutos" que tive de tomar banho, vestir-me e secar o cabelo no tempo recorde de 15 minutos para conseguir cumprir, minimamente, com os meus horários normais.

Olhos doridos, nó na garganta, aperto no peito, cansaço geral. Um daqueles dias em que o projeto mais divertido parece ser o mais chato, em que o pequeno pormenor vira tragédia, em que toda a comida do mundo não é a suficiente para nos matar o desconforto e a fome de algo que não sabemos o que é. 

A diferença é que eu sabia.

Esta manhã não me apetecia ir trabalhar e podia ter dado uma desculpa. Se não me tivesse contrariado, teria ligado e dito "hoje não posso ir". E quando me perguntassem porquê, eu diria a verdade: "pré-saudades agudas de uma parte de mim". 

 

O meu irmão voltou hoje a Inglaterra.

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