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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

27
Jul17

À atenção de todos os que não sabem o que fazer da vida, aos que querem escrever e aos que querem ser jornalistas ou assessores #2

Carolina

Chega a esta altura do ano e começo a receber emails, mensagens e comentários relativamente ao curso que tirei (na verdade, recebo-os durante todo o ano, mas nesta época de candidaturas é naturalmente mais intenso). Há uns anos escrevi um post onde falava sobre tudo o que achei pertinente sobre a licenciatura de Ciências de Comunicação da Universidade do Porto e sei que muita gente vem cá parar graças a isso. É notória a falta de informação que há sobre os cursos e as pessoas querem, logicamente, saber experiências e ter o feedback de quem lá andou para saber o que lhes pode cair na rifa. Mas na altura tinha acabado de completar o primeiro ano, algumas das minhas opiniões mudaram e agora que já trabalho e tenho algum distanciamento penso que consigo ser mais justa e realista em tudo o que vou escrever. Para além de que já posso falar de todo o curso, porque já o acabei (yeyyy!).

As perguntas rondam sempre o mesmo: que vertente tirei, se gostei, se tenho trabalho, o que acho do curso e etc. Tentei sempre responder a todos os que, descontextualizados com a minha vida e caídos aqui de paraquedas, me fizeram perguntas - mas acho que está na altura de escrever um post com tudo, para que possa dar resposta de forma mais rápida e completa a todos as que a procuram. Para quem é leitor habitual, vou fazer uma revisão daqueles três anos (um bocadinho penosos) da minha vida, pelo que é mais do mesmo. Aos outros: sintam-se livres de fazer questões sobre aquilo que eu não mencionar - estou disponível para ajudar. Sei que aqueles dias em que temos de pôr, por ordem de preferência, os cursos que em princípio definirão o futuro da nossa vida, são sempre difíceis.

 

Antes de mais, gostava de começar falando sobre esta referência que fiz no final do último parágrafo. Quando queremos escolher um curso pensamos que tem de ser algo para a vida e que vai obrigatoriamente definir o nosso caminho. A verdade é que é uma decisão pesada e que queremos que seja a melhor possível, mas que 1) podem sempre mudar de curso e 2) a vida dá muitas voltas e não é linear, pelo que podem até tirar o curso numa área e arranjar trabalho noutra (ou até querer tirar outro curso, por exemplo). Acho importante ter isto em mente porque às vezes pomos tanto peso em cima dos nossos ombros e desta decisão que, quando corre mal, desabamos e perdemos o norte. Isto não quer dizer que não devamos ter capacidade de resiliência, paciência e ir à luta - desistir à primeira dificuldade é o maior erro que podemos fazer quando vamos para a faculdade. Eu pensei muitas vezes - mesmo muitas! - em mudar de curso, porque, em particular no primeiro ano, não fui nada feliz. Mas continuei e hoje em dia não me arrependo dessa decisão.

Para quem não me conhece é importante saberem um facto sobre esta minha passagem universitária: eu não gostei de andar na faculdade, não vivi aquele espírito universitário de que tanto se fala e não participei em quaisquer atividades relacionadas com o curso ou a própria o universidade (incluindo praxes, uma vez que sou anti-praxe já desde a altura do secundário). É importante também saberem que este ano letivo (a começar em 2017) o curso vai sofrer alterações, nomeadamente nas suas instalações, e eu não estou totalmente inteirada sobre o assunto. Mas já lá vamos.

 

Os ramos e a escolha de assessoria

Eu comecei a tirar o meu curso em 2013 e acabei-o três anos depois, com uma média de 16 valores. Este curso tem a particularidade de, no terceiro ano, se escolher uma vertente: jornalismo, assessoria ou multimédia (os dois primeiros anos são comuns para todas as vertentes). Eu escolhi assessoria - que, para quem não sabe, é a comunicação por parte das empresas ou entidades; pode ser, em alguns casos, comparado com o jornalismo - a diferença é que a comunicação é feita para o proveito de uma entidade e não do bem público, algo que define sempre (ou devia) o jornalismo. A assessoria envolve muitas coisas, entre elas a gestão das redes sociais, gestão de crise (quando algo corre mal), a conversa com jornalistas, o planeamento de atividades... enfim, depende muito do ramo onde trabalhamos e do nosso empregador. E porquê que escolhi assessoria? Porque, na altura, me pareceu muito mais dinâmico do que o jornalismo.

Nos dois primeiros anos comuns damos um bocadinho de tudo: cadeiras práticas de jornalismo (rádio, televisão, imprensa), outras de multimédia (onde se inclui fotografia, vídeo, programação de html e javascript) e também de assessoria (relações públicas, marketing e etc.). Para além disso há também disciplinas transversais, opcionais ou não, que são tidas como essenciais para uma base de cultura geral que qualquer profissional de comunicação devia ter - como história, economia, metodologias de investigação ou ética. E é aqui que temos de começar a perceber aquilo que gostamos mais ou menos para, no terceiro ano, fazer uma escolha minimamente consciente.

Uma das coisas que disse no post que escrevi há três anos é que é uma falácia ir para jornalismo só porque se gosta de escrever. Pelo menos numa primeira fase, a criatividade que podemos ter é muito curta - e a visão que nos dão desta profissão enquanto andamos na faculdade é muito cinzenta, monótona, cheia de regras... uma autêntica seca, que eu detestei. A nível jornalístico a vossa criatividade só se vai poder soltar se estiverem num meio de comunicação atípico, se mandarem no jornal ou fizerem crónicas e artigos de opinião - o que, para principiantes, me parece altamente improvável. Multimédia, para quem gosta, também pode ser uma hipótese - sempre foi o meu caso mas, na minha opinião, há outros cursos só dirigidos para esta vertente que acabam por estar mais preparados do que nós e ter vantagem competitiva quando se fala em arranjar trabalho. Por isso a minha escolha recaiu sobre assessoria.

 

O local

Como disse anteriormente, o curso vai ser parcialmente movido para a FLUP. Isto causou grande barafunda nos últimos meses, com direito a manifestações e tudo mais, mas penso que a mudança vai mesmo acontecer. A parte teórica do curso vai passar a ser dada no pólo de letras, enquanto que as cadeiras práticas continuarão em Coronel Pacheco (na baixa, por detrás da Faculdade de Direito). Pelo que percebi, os alunos passarão uns dias na FLUP e outros no pólo - e eu não tenho dúvidas de que isto dificultará a vida a quem lá anda. Isto porque é na baixa que estão todos os materiais necessários para a componente prática (que não se faz em aula, mas sim nos tempos livres). Alugar materiais de fotografia, vídeos e gravadores; ir às ilhas de rádio gravar peças; estar no estúdio de televisão. Quem fez esta nova divisão não percebe que os alunos andam sempre cá-e-lá atrás dos materiais, que há momentos de correria e desespero profundo em que há vinte alunos para um só gravador, e por isso não tenho dúvidas de que daqui para a frente vai ser ainda mais confuso.

Não sei se os mini-serviços administrativos continuarão em Coronel Pacheco. De qualquer das formas, tudo o que tem que ver com inscrições em melhorias e assim, sempre foi na FLUP (o que não faz sentido nenhum). 

Esta mudança faz ainda menos sentido porque agora, finalmente, fez-se um bar no pólo! Enquanto lá andei tínhamos sempre de ir aos cafés lá perto caso nos desse a fome e, pelo que sei, agora há um bar (bem giro) para todos. Reprografia, cantina e outros serviços de faculdade a sério continuam a ser tratados ora em Direito, ora na FLUP.

 

 A minha opinião sobre o curso

Há muita coisa que podia dizer sobre o curso mas, lá está, não passa da minha opinião e não é transversal a todos os que o frequentam. Eu acho que o curso tem muitas coisas boas, mas onde assentam também as suas falhas. É um curso prático - a dificuldade dele não está propriamente nas matérias em si mas sim na gestão de tempo que tem de ser (muito) bem feita; vão ter de sair à rua, vão ter de fazer entrevistas, de escrever, de fazer vídeos, de fazer sites de raiz - e eu até fiz um programa de televisão! Mas isso não quer dizer que vos prepare muito bem para o mercado de trabalho: diria que em jornalismo o problema se coloca menos, uma vez que é a área que mais trabalhamos ao longo da licenciatura; mas ao nível da assessoria é tudo muito teórico - quando nos põem os problemas, nós só nos lembramos de princípios teóricos que na prática pouco nos valem.

Outras das coisas preocupantes no curso são os professores. Sempre disse que nós estávamos, naquele pólo, "longe da vista, longe do coração" e os professores, sediados ali, acham-se reis e senhores e fazem aquilo que querem e bem lhes apetece. Vi muitos, muitos exemplos de mau profissionalismo e má educação naquelas aulas. Mas o pior é que a qualidade de ensino de muitos é altamente duvidosa. Para mim, ter ido a algumas cadeiras é, hoje em dia, igual a zero. Acreditam que não me lembro de absolutamente nada? É incrível, mas é verdade. 

E depois há todo o comodismo à volta do pólo que não nos deixa evoluir, fazer mais, crescer. Dou o exemplo do programa de televisão que fiz no segundo ano: grande parte do grupo queria continuar e fazer mais programas. Mas não foi possível porque tinha de estar sempre um professor presente nos estúdios quando se gravasse alguma coisa e se mexesse no equipamento. Resultado? Milhares e milhares de euros em câmaras, televisões e máquinas, outros tantos em obras, e aquilo só é usado para uma cadeira, uma vez por ano. Cabe na cabeça de alguém? E rádio - faz sentido que um curso destes não tenha uma rádio, quando até a FEUP tem uma? Só nos deixam fazer podcasts (alguns com qualidade), mas sem transmissão em direto. E porquê? Porque dá trabalho, é preciso autorizações e burocracias. As iniciativas dos alunos acabam por ser escassas quando o atrito da "máquina" é enorme... e quem fica a perder somos nós.

 

Os estágios

No final do curso há sempre um estágio curricular que tem de ser feito - e há sempre uma lista, em todas as vertentes, disponível toda a gente escolher. Na vertente de assessoria até costumam sobrar porque há gente - como foi o meu caso - que se auto-propõe para locais fora da lista. Normalmente, entre eles, os alunos decidem e falam entre si para onde vão, para não haver grandes confusões - é claro que é preciso ter alguma noção da posição no "ranking" que ocupam - o aluno com melhor média tem todos os sítios à sua disposição, enquanto que o que está em 20º lugar não. É uma questão de bom senso e de discussão entre todos. Penso que no meu ano não houve grandes confusões e todos ficaram, mais ao menos, nos sítios onde desejavam. 

São 4 meses de estágio com um relatório final, que inclui não só a parte prática mas também a teórica (uma seca). Em jornalismo não funciona assim: passam dois meses no JPN (o jornal universitário) e outros dois meses no exterior, noutro meio de comunicação social. Mais detalhes sobre este ramo e multimédia não vos sei dizer.

 

A minha situação atual

Eu estagiei durante quatro meses num local relacionado com feiras de moda e gostei muito. Não estava à espera de ficar - e não fiquei - mas no seguimento desse estágio surgiu uma proposta de emprego, que eu imediatamente aceitei. E o que era essa proposta? Trabalhar num jornal (na área têxtil e de moda). Ou seja: eu, que andei anos a repudiar o jornalismo, estou há um ano a trabalhar como jornalista. Lembram-se de vos ter dito, em cima, que a vida dá muitas voltas? Era disto que estava a falar. Ou seja, para mim, ainda que de forma um tanto ao quanto retorcida, a coisa correu bem.

E, do que me parece, aos meus colegas também. Conheço muita gente que está empregada - curiosamente as que mais me vêem à memória são jornalistas, algo contrário ao que todos estávamos à espera. Diz-se sempre que jornalismo está às portas da morte e que não há emprego, razão pela qual muita gente foge para assessoria mesmo durante o curso, mas conheço mesmo muitas pessoas que acabaram por ficar ora nos sítios de estágio ou noutros locais. E falo tanto em rádios, como televisões e imprensa. Talvez isto aconteça porque se estão a substituir os da velha guarda, que ganham melhor, por novatos, mão-de-obra barata. Não sei... mas, daquilo que vejo, as coisas não têm corrido mal para os jornalistas da minha fornada - se calhar até melhor do que muitos assessores.

 

O que disse naquele primeiro post em relação à praxe, aos professores, aos acessos, às rádios e jornais universitários... continua tudo igual. De qualquer das formas, se acharem que falta algo neste post, sintam-se livres de perguntar. E boa sorte para essas candidaturas! Que a faculdade seja, para vós, uma aventura melhor que a minha =)

03
Nov16

Os portugueses e os canudos

Carolina

Hoje, enquanto analisavam uma ficha que tinha preenchido previamente sobre mim, repararam na minha idade e depois na minha ocupação profissional, que já não diz "estudante" mas sim uma profissão "a sério". Perguntaram-me: "tão nova e já a trabalhar? Não devias estar a estudar?". 

Eu fiquei um bocadinho incrédula e pensei que, de facto, isto é o reflexo da nova mentalidade que se espalha por aí como um vírus e não tem tendência a parar: toda a gente tem de ter um curso, toda a gente tem de ser mestre, toda a gente tem de ser doutor. Há um esquecimento geral de que a partir dos 16 anos qualquer pessoa normal tem capacidades para trabalhar - e isso não lhe retira qualquer tipo de valor, só acrescenta.

Perante aquilo, eu estava segura na minha resposta ("já acabei o curso"), mas podia não estar; podia não ter condições financeiras para frequentar uma faculdade, podia não ter condições familiares ou então podia simplesmente não querer tirar um curso. Porque, por incrível que pareça, as pessoas continuam a ser pessoas mesmo que não tenham um canudo guardado no armário, quer isso seja por imposições externas ou vontade própria!

Eu acho que há pessoas que não nasceram para estudar e, nesses casos, não vejo o porquê de se terem de martirizar durante anos a fio atrás de algo que não as faz feliz. Há inúmeras profissões que não precisam de licenciaturas, mestrados e doutoramentos e são tão importantes como aquelas em que tais requisitos são necessários. Um lixeiro não precisa disso e nós precisamos dele, todos os santos dias; uma costureira não precisa disso e nós passamos a vida a precisar dela; e o mesmo acontece com um carpinteiro, um mecânico, um canalizador, um jardineiro, um sapateiro e, sinceramente, um pouco com todas as profissões - porque há todo um mar de coisas que não se aprende na faculdade e se, por um lado, pode ajudar tem um apoio teórico, por outro o mercado de trabalho, as pessoas e a experiência da vida é que nos ensina tudo o que precisamos de aprender para sermos bons profissionais.

Sim, eu estou a trabalhar a tempo inteiro aos 21 anos, e daí? Foi uma escolha minha e uma oportunidade que não quis deixar escapar, mas isso não quer dizer que no futuro não volte a estudar. Estou feliz, num trabalho que nem sempre me facilita a vida mas que me realiza e que, tenho a certeza, será uma rampa de lançamento para aquilo que quero fazer no futuro. Foi uma decisão estratégica e bem pensada; felizmente não tinha a necessidade de seguir logo para o mercado de trabalho e, se quisesse, podia ter seguido para um mestrado sem pensar duas vezes. Mas tenho quase a certeza absoluta que o mestrado não me iria ensinar tudo o que tenho aprendido nos últimos meses e que, se um dia o fizer (um mestrado ou pós-graduação, estou mais tentada para a segunda hipótese) será muito mais valorizado, porque finalmente sei o que estou a fazer e terei a minha própria experiência como exemplo.

Por isso, em jeito de remate, quero só dizer que a vida não se faz de canudos ou certificados. E a competência e a dedicação das pessoas também não.

19
Out16

Hoje escrevo

Carolina

Em 2011 deu-me na real gana que queria escrever. Foi uma coisa um bocadinho inesperada, porque toda a minha vida tinha dito que queria ir para áreas ligadas às ciências e aos números; até ali, sempre tinha gozado com os "letrinhas" e menosprezado um pouco o trabalho deles, nunca pensando que aquilo que dizia me iria um dia pesar na consciência. 

E depois, ao que pareceu ser (aos olhos dos outros) uma coisa que mudou do dia para a noite, decidi que não queria nada do que tinha apregoado até ali e que o que queria da vida era mesmo escrever. Claro que, para mim, essa mudança foi mais gradual, ainda que de facto repentina - relaciono-a com um período pior da minha vida, em que me fui abaixo e não estava a conseguir lidar com vários fracassos sucessivos, nomeadamente ao nível das matemáticas. Na altura ninguém me apoiou nesta mudança - em grande parte porque essa relação fracasso/desistência estava muito explícita e, aos olhos dos outros, eu estava a desistir à mínima dificuldade. E eu não posso negar que  essas dificuldades também impulsionaram a mudança - mas hoje percebo que eu estava com uma sede enorme de mudar, o que só ficou provado no ano seguinte, naquele que foi o melhor ano que tive na escola secundária.

Nessa altura coloquei o jornalismo em cima da mesa porque era uma alternativa que me permitia escrever sobre os mais variados assuntos, inclusive as ciências, fazendo com que eu não perdesse essa ligação aos números que eu sempre apreciei. Mas cedo me apercebi que o jornalismo não era para mim e que "escrever" e "jornalismo", ainda que sejam coisas indissociáveis, estão longe de ser a mesma coisa e de satisfazer alguém que gosta mesmo de escrevinhar.

Por ter percebido isso e por, ainda mais para a frente, ter visto que o contacto humano era extremamente necessário, pensei muitas vezes em desistir. No primeiro ano, era algo diário - todos os dias eram bons para dizer "chega". Por alguma força de vontade divina, decidi ficar no mesmo curso e traçar o meu caminho. Defini objetivos, fiz-me perceber que um curso era só mais uma valência e que não perdia nada em saber mais numa determinada área, mesmo que alguns dos trabalhos e atividades me fizessem doer o âmago de cada vez que as fazia. 

E, não sei como, a vida acabou por se arranjar e dar as voltas do costume. Primeiro queria números e fui para letras. Depois a ideia passou levemente pelo jornalismo e fui para a assessoria, fugindo a sete pés dos jornais. A seguir estagiei em assessoria e ofereceram-me um trabalho em jornalismo. Como se isto já não bastasse, tudo acabou por se compor na grande área da minha vida, onde cresci e pela qual nutro uma paixão profunda - de forma a estar a desenhar o meu futuro nesta área -, que é a têxtil e a moda. Algo que no início não fazia sentido e que me causou, muitas vezes, imenso sofrimento, acabou por ser um complô incrível, uma surpresa e uma autêntica prenda da vida.

Porque a vida é um conjunto de escolhas. Das mais pequenas ("o que vou comer ao jantar?" ou "que sapatos calço?) até às gigantes ("caso-me?", "despeço-me?"), todos os dias a fazemos - e eu acho que, muitas vezes, mesmo as pequeninas decisões que tomamos têm repercussões no nosso futuro, quase como o efeito borboleta. Uma coisa é certa: a vida acontece-nos. A partir do momento em que estamos vivos, estamos à mercê do que nos aparecerá à frente. Coisas más e coisas boas, no fim o que interessa é o que fazemos com elas - ou, por outras palavras, as decisões que tomamos e a forma como nos mantemos firmes perante elas. A resiliência, a luta, a paciência e aquela pitada de sorte fazem a diferença.

Em 2011 decidi que queria escrever. E hoje escrevo - e que bom pensar que isto é só o início. [Caraças, os sonhos realizam-se mesmo!]

 

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 (hoje saiu o meu primeiro texto assinado em algo sério, oficial e com uma tiragem minimamente significativa. estou feliz.)

 

17
Set16

Habemus licenciada!

Carolina

A semana passada comecei a trabalhar. Esta semana acabei a minha licenciatura.

Em Janeiro, por causa da minha operação, não consegui fazer o trabalho nem ir a nenhuma das fases de exame de uma as cadeiras que tinha para fazer. Muito contrariada - até porque não gostei nada da cadeira - vi-me obrigada a deixa-la para Setembro. Na altura não imaginava que, para além da chatice de ter e fazer um exame fora de época, ainda iria ter de faltar a parte do meu segundo dia de trabalho - que foi o que, efetivamente, aconteceu.

Fiz o trabalho em três dias, sob a pressão do costume e uma falta de vontade e inspiração de bradar aos céus. Achei que tinha ficado terrível - aliás, admiti-o na conclusão do trabalho (ainda que não por estas palavras, porque dava-me jeito uma nota decente). Talvez tenha sido esta capacidade crítica e humildade que me safaram, a par de um exame que me correu aparentemente bem, embora eu tenha saído de lá com medo do que me iria sair na rifa. Nunca reprovei a nenhuma cadeira ou disciplina em 15 anos de escola/faculdade e era muito azar que acontecesse na última que iria fazer - mas nunca fiando!

Acabei por tirar 16, não sei bem como. Quando vi a pauta, foi como se três elefantes tivessem saltado subitamente das minhas costas e senti um alívio incrível. E orgulho. Talvez fique mal admiti-lo, mas fiquei orgulhosa de mim por ter acabado esta jornada. Não foi fácil e sinto que estive a debater-me com este caminho que decidi para mim desde o 11º ano - e até há bem pouco tempo perguntei-me se teria sido a decisão certa. Chorei que me fartei, quis desistir, houve dias em que detestei a faculdade, aquele pólo, quem me rodeava. Mas, caraças, consegui deitar isso para trás das costas e seguir caminho - e ainda acabar o curso com média de 15.91! 

Hoje tenho trabalho na minha área - a comunicação -, dentro de uma área que, desde que nasci, é a minha vida - a têxtil. Vejo o "fio" da minha vida e, olhando para trás, fico feliz por ter tido a coragem de abrir portas a uma ideia e uma vida que nunca tinha imaginado para mim até então; e olho para a frente e vejo... enfim, vejo o mundo. Vejo muitas pedras no caminho (mais aquelas que sei que são invisíveis), mas sei que estou na rua certa para tudo aquilo que quero para mim e para a minha vida. Tudo por mérito próprio. E por isso acho que não há como não estar orgulhosa e seriamente feliz.

 

"Achei muitas vezes que não ia acontecer. Perguntei-me porque raio é que a pessoa menos comunicadora do mundo tinha ido para um curso de comunicação; porquê que passando uma vida a idolatrar quem gostava dos números e das engenharias, me iria meter num curso de letras; porquê que sendo uma apaixonada pela têxtil me meti no meio das palavras e não no meio dos fios.
Podem não ter sido os anos que toda a gente descreve, de loucura e felicidade constante. Talvez pelo contrário. Mas foram três anos de uma riqueza intangível e de um crescimento inexplicável para mim, que compensam todos os contratempos, todas as lutas, possíveis arrependimentos e momentos menos felizes.
Levo comigo tudo isso, a par de todos aqueles momentos de felicidade pura, em que entreguei um trabalho a 3 minutos do fim do prazo ou em que tive um notão quando achava que ia reprovar. Levo o Fora da Caixa - os meses mais felizes da faculdade e por ventura da minha vida - e, acima de tudo, algumas pessoas, que me ajudaram a sobreviver nos momentos de aperto e a saber viver em todos os outros. 
Hoje fecho esta jornada e penso que apesar de todos os "se's" e "porquês", tudo isto foi porque tinha de ser. Porque a vida é aquilo que fazemos dela e nada é permanente e estático, e esta é só uma porta para todo um universo de janelas que ainda há por abrir. E, a sério!, eu quero muito espreitar."

 

[parte de um texto que escrevi no meu facebook]

 

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07
Jul16

Por falar em vitórias...

Carolina

Estamos nas finais! E eu em dupla final: enquanto portuguesa, nas finais do euro; enquanto estudante, na final do curso. E estou mesmo muito feliz pelas duas razões. Sobre Portugal falo depois (respirem fundo, que não vou dizer mal do Ronaldo), mas sobre a final do curso quero falar agora.

A verdade é que ainda me falta um exame, que faltei graças à operação que fiz em Janeiro. Mas é uma cadeira fácil e tudo menos importante, pelo que quase que sinto que a tenho meio feita; fazer e entregar o relatório soube-me ao golpe final destes três anos de licenciatura, o culminar de tudo isto. Se o estágio foi maravilhoso, fazer o relatório foi doloroso. Todas as palavrinhas que lá estão saíram a ferros, num fim-de-semana prolongado que, por um lado, teimava em não passar e, por outro, passava depressa demais para aquilo que eu precisava.

Hoje dou por mim a pensar, de vez em quando: "será que escrevi aquilo no relatório? era importante". Porque a verdade é que o meu cérebro parecia estar a entrar em colapso: já não sei o que fiz, o que disse, o que escrevi ou devia ter escrito. Sei que acabei com um alívio enorme por ter entregue e, ao mesmo, uma irritação colossal por ter deixado aquilo para a última, em algo que era tão importante e que devia espelhar o melhor possível aqueles três meses tão maravilhosos para mim. Senti que devia ter feito mais, que devia estar melhor - e agora, já relaxada, penso nas várias coisas que ficaram por escrever. Talvez por isso, não esperava grande nota - por eu própria ter ficado desiludida comigo mesma.

Mas no início desta semana soube o resultado, naquela que é a cadeira mais importante de todo o curso. 18. Acabo o curso com um 18 e não podia estar mais feliz.

 

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14
Jun16

O tempo certo para tudo

Carolina

Tenho o meu cérebro em curto-circuito. Tudo o que consigo pensar é no meu relatório de estágio e tudo o que eu não quero pensar é no meu relatório de estágio (percebem?). Não me consigo concentrar, não consigo estruturar as coisas na minha cabeça, não consigo escrever sobre aqueles três meses que foram tão bons para mim mas que parecem péssimos aquando passados para o papel. E a teoria? Ter de escrever sobre tudo o que já escrevi vinte e seis mil vezes e ter de o relacionar com tudo, outra vez!, está a endoidecer-me.

Lembro-me que no secundário e no início da faculdade, apesar de nunca ter gostado de marrar e de ter de trabalhar em teoria, o fazia com alguma facilidade. Sinto que estes anos me têm desgastado e que a minha capacidade de estudar e trabalhar profundamente tem diminuído a olhos vistos, acho que muito por culpa do cansaço e do remoer de matérias. Já nada é novo, já nada é interessante e estou sinceramente feliz por esta parte da minha vida estar na reta final. Sinto que, neste momento, estou a gastar os últimos cartuchos - e já estou a suar tanto para os tirar que o meu cérebro só não fumega porque não pode.

Estou morta por acabar isto e por entregar o relatório na próxima segunda-feira; quero aproveitar também para fazer um trabalho que tenho de entregar em Setembro, a par de um exame que ficou por fazer no semestre anterior. No fundo, fechar este capítulo e começar um novo, que sei que vai ter as seus obstáculos mas que me vai preencher e dar outra visão da vida. Mais tarde, daqui a um par de anos, planeio voltar à faculdade - e nessa altura, como as saudades já vão apertar e tudo este cansaço já vai estar superado, tenho a certeza que vai saber muito melhor.

Agora é dar corda aos dedos e tentar pensar direito. Segunda tenho de entregar isto. #respiraenãopira

 

Me studying for quarterly exams ~

21
Mai16

366 dias depois... (ou uma viagem no tempo até ao Fora da Caixa)

Carolina

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Há cerca de um mês atrás tinha planeado escrever um post a propósito de fazer um ano desde que filmamos a primeira reportagem para o Fora da Caixa. Quem acompanha o blog diariamente deve ter-se apercebido que esse post não foi para o ar - porque nunca o consegui acabar de escrever. Há experiências tão complexas e indescritíveis na nossa vida que se torna difícil falar sobre elas - pelo menos de uma forma justa; é difícil dar a entender aos outros aquilo que essas experiências foram para nós, porque por serem tão "grandes" e terem tomado determinadas dimensões na nossa vida parece que, por mais que digamos e escrevamos, tudo fica aquém da realidade.

Isto serve para o bem e para o mau - há coisas indescritivelmente felizes e outras indescritivelmente tristes. Já tive das duas e todas me marcaram de tal forma que sinto que chegaram mesmo a mudar o rumo da minha vida. O Fora da Caixa foi a última experiência desse género que tive - e pode não ter mudado a minha vida completamente, mas foi definitivamente um ponto de viragem, tanto a nível pessoal como universitário.

Faz hoje um ano em que o programa foi para o ar, o culminar de vários meses de trabalho e de vivências intensas que não consigo esquecer. E por muito que não faça jus a tudo isto, hoje não podia deixar de escrever sobre o programa que marcou a minha vida, o meu "bebé". Faço, por isso, um post um bocadinho diferente do normal - quase que como uma "viagem", entre texto e fotografias, algumas que ainda não tinha mostrado a quase ninguém.

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Porque eu posso, de facto, escrever os quilómetros que quiser sobre esta experiência - mas nunca vou deixar de sentir que não estou a transmitir de forma digna e fidedigna o suficiente aquela experiência, de forma a explicar o efeito colossal que aqueles três meses de stress, pressão e trabalho brutais surtiram na minha vida. Talvez só as pessoas mais próximas consigam entender, até por verem o "antes do Fora da Caixa" e o "depois do Fora da Caixa" da Carolina. Acho que a minha família e amigos mais próximos nunca duvidaram das minhas capacidades, e todo o orgulho que sentiram em mim foi para além daquilo que foi para o ar e do trabalho que fiz - foi por perceberem que os outros também perceberam um bocadinho de quem eu era, algo que em todos os anos de escola e faculdade eu nunca tinha sido capaz de fazer.

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 A frase que mais ouvi depois do programa é que quem tinha saído fora da caixa tinha sido eu - e não posso nega-lo. A minha relação com a universidade mudou assim como a minha relação com os meus colegas - que deixaram de ser só caras e passaram a ser pessoas, a ter qualidades e defeitos, para além de estigmas e rótulos que atribuímos inevitavelmente às pessoas antes de as conhecermos devidamente. Fiz amigos e criei conexões, que foi algo que nunca tinha feito - e que a vida, no fundo, me obrigou a aprender. E tive experiências que não esperava - não esperava nunca sair em reportagem, falar com as pessoas, interagir com elas. Não esperava ter de idealizar um cenário, ter o stresse de não ter quase um convidado em estúdio. Na verdade, nem sequer esperava ter sido tão feliz como fui, uma vez que os relatos dos anos anteriores eram de zangas, brigas e chatices, mais do que outra coisa qualquer. Mas, pelo contrário, o Fora da Caixa deu-me tudo o que era previsto e muito, muito, muito mais.

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Digo-o, sem pudores, que foram dos 3 meses mais felizes da minha vida - também por terem sido vividos depois de um meio ano particularmente difícil para mim e para a minha família. Eu tenho muitos defeitos na minha lista para apontar - e sei que o meu constante estado pessimista, de não aproveitar tudo o que a vida me dá e a sorte que tenho é um deles. Mas, por outro lado, tenho a capacidade de perceber os momentos em que estou feliz e de os aproveitar ao máximo; de lhes tirar todo o sumo, até à última gota, até só ficar mesmo a casquinha. E foi isso que fiz. Dei tudo de mim, até à última gota de suor, a última lágrima, o último grito de irritação ou de vitória e o máximo dos minutos do meu dia, até cair todos os dias redonda de cansaço na cama.

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Não sei se foi isso que fez deste um dos melhores programas que CC já viu (e não, não vou ser modesta em algo que tenho a certeza), mas tenho a consciência tranquila relativamente ao meu trabalho. Ainda hoje há quem me fale do programa, que me dê os parabéns. Fiquei espantada quando há uns tempos, numa reunião pré-estágio, um professor veio ter comigo e me perguntou o que estava ali a fazer. Eu olhei para ele de soslaio, como quem diz "queria que estivesse onde?!" e ele, percebendo o meu olhar confuso, disse: "achei que estivesse em multimédia". Eu achei aquilo estranho, porque tinha a certeza que nunca tinha partilhado com nenhum professor a minha antiga ideia de ir para engenharia informática - só daí é poderia vir a ideia que enveredaria por um ramo que não assessoria. Perguntei porquê e ele respondeu, para meu espanto, que achava que a minha posição de realizadora no Fora da Caixa me tivesse feito perceber que tinha um dom. E sim, ele disse a palavra "dom". E eu fiquei abanada, sem sequer conseguir ouvir bem a conversa que se seguiu, sobre o facto de se precisarem de pessoas no cinema em Portugal e etc. Fiquei orgulhosa, não posso esconder.

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Agora restam-me as saudades - e, acreditem, tenho muitas. Agora que a faculdade está definitivamente a ficar para trás das costas, esta é a única altura de que sinto saudades e que sei que voltava atrás mal me dessem essa oportunidade. Só tenho pena que uma faculdade destas não promova mais atividades deste género e que não incentive (ou permita) os alunos a continuarem este tipo de coisas, como era a nossa vontade. Por mim ainda hoje ali estava, a fazer um programinha uma vez por mês e a alimentar o bichinho que nasceu em mim no que diz respeito à realização. Acreditem que nunca mais vi programas de televisão da mesma forma.

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Hoje, quando assisto aos novos programas de CC dos novos alunos de segundo ano, quase que consigo sentir a adrenalina deles. E, claro, o que mais sinto é saudade. Vivia tudo de novo. As alegrias, as tristezas, os fracassos, as zangas, as amizades, as conquistas, os dramas, a descoberta, o stress, a pressão, o trabalho. Tudo. 

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Mas o tempo não volta atrás e restam-me as memórias. As fotografias que partilho em cima (e muitas outras que tenho guardadas algures nos arquivos do computador) e os vídeos, do programa e do making of. Termino apenas com uma confissão: mesmo passado um ano, nunca vi o programa na íntegra. De cada vez que ligo o vídeo, a minha mente avança para as milhares de memórias que tenho em relação a isto. Lembro-me do que se estava a passar na régie, do que dizia, do stresse - e quando olho outra vez para o ecrã, os minutos tornaram a passar sem eu dar conta e sem eu ouvir - de novo! - o que estava a ser dito.

É demasiado para um coração que, mesmo passado um ano, ainda não aguenta tanta emoção. Há experiências maiores que nós próprios e esta é uma delas. 

 

 

29
Abr16

Um desabafo: a semana académica

Carolina

Esta é a minha última semana académica enquanto estudante (pelo menos deste curso). Já fui buscar a minha camisola, com um doloroso bordado de "finalista" na parte detrás - e os sentimentos em relação a isto são mistos e paradoxais; é a saudade e o alívio, a tristeza e a alegria. 

Já há dois anos que digo "não" a todos os meus amigos e colegas que tentam arrastar-me para todos os rituais académicos praticados durante esta semana. Mas este ano - precisamente por ter "finalista" bordado na camisola - os incentivos foram maiores que nunca e vieram de todas as frentes. Para ir à queima, para ir à missa, para ir à serenata, para ir ao cortejo. Durante dois anos resisti a tudo, com todos os argumentos que tinha na manga e que, para mim, eram mais do que suficientes para não marcar presença. Mas este ano toda a gente parece querer dar-me o pack de finalista completo, com tudo o que tenho direito - mesmo que isso vá contra tudo o que sempre tenha dito até aqui.

E eu confesso: sinto-me frágil o suficiente para ceder à cadeia dos "não's" que tenho vindo a utilizar até aqui. As razões que vivem em mim para negar tudo o que tenho vindo a negar continuam mais do que válidas, mas também sinto que os outros acabam por desistir de mim por causa disso - e eu não os posso condenar. É chato estar sempre a convidar alguém para algo e essa pessoa estar continuamente a rejeitar. E também sei que quando me dizem que querem que eu tenha "uma experiência universitária completa" (a coisa que mais tenho ouvido na última semana), o dizem de coração e com a maior das boas vontades - só se esquecendo que é precisamente contra a minha vontade, contra aquilo que sou, contra aquilo em que acredito.

Ainda assim e por toda a avalanche de mensagens que recebi sobre isto, este ano abri a brecha para deixar entrar novas experiências e para poder dizer a todos: "pronto, eu fui!". Vou o cortejo por minha vontade, algo que já tinha prometido o ano passado, mas nunca me passou pela cabeça ponderar sequer ir à Queima das Fitas. E a verdade é que, por estes dias, tenho pensado nisso - por ser o meu ano de finalista e nunca ter posto lá os pés (e não tencionar voltar), por ter tanta gente a dizer-me para ir e viver a experiência, por (surpreendentemente) quererem a minha companhia e porque, de facto, já me sinto mal por despejar tantos "não's" por tantas aldeias. Ainda não me decidi, com todos estes prós e contras a puxarem por mim em sentidos opostos, e porque sei que - no fundo - farei isso pelos outros e não por mim; porque sei que, na noite em que for, vou chegar a casa doente e revoltada com o que vi, triste por não ter conseguido viver o momento como os outros que me rodeiam e por me sentir permanentemente um estorvo chato para os que me acompanham, que não sabe desfrutar este tipo de momentos na sua plenitude. Este ano é a queima, mas noutros anos - em que as minhas convicções e crenças não eram tão fortes e eu cedia com mais facilidade - foi outra coisa qualquer: e o resultado era sempre, sempre o mesmo. Até ao dia em que decidi que não valia a pena tentar mais. 

Mas tendo em conta que abri a possibilidade, cada um me vai dando os seus pareceres e opiniões. Quem me conhece diz-me para ir com amigos, com quem confio e que partilhem um pouco da minha mentalidade - mas o que as pessoas em geral não parecem perceber é que eu não gosto de todo o ambiente criado à volta deste tipo de eventos, em que a "diversão" não é sequer a palavra de ordem: é o álcool, são as drogas, é a degradação em estado puro. Tudo meios para atingir um fim que eu não entendo mas que me vejo obrigada a respeitar - e sou muito mais feliz desde que, a partir de há uns meses para cá, "deitei a toalha ao chão" e desisti de "evangelizar" as pessoas neste sentido. Hoje em dia não me pronuncio sobre o culto do álcool e das drogas, até porque a maioria das pessoas com quem me dou sabem a minha posição - e, neste momento, só peço que me respeitem a mim como eu tento fazer com os outros.

Hoje, quando levei a minha novíssima camisola de curso para o escritório e as minhas colegas se aperceberam que era para esta semana académica, começaram logo a divagar sobre os "bons tempos" em que se perdiam entre shots naquelas barraquinhas. Vi-me obrigada a dizer que nunca tinha ido à queima e que, ainda para mais, não bebia álcool. Senti, nos olhares de algumas delas, algum julgamento (para além da óbvia surpresa) - como quem diz "olha mais uma mosquinha morta". Para mim, foi como pôr álcool em cima de uma ferida que já há algum tempo estava esquecida.

Faço-me rodear de tão pouca gente que todos eles acabam por saber a minha posição em relação a tudo isto; sabem que não vale a pena explicar, que não vale a pena tentar demover-me e, acima de tudo, que tudo isto é movido por razões pessoais suficientemente poderosas e dolorosas para as minhas convicções nunca se deixarem abater. E hoje, explicar tudo de novo - por superficial que essa explicação tenha sido - para pessoas que ainda me conhecem mal, mexeu realmente comigo. É fácil conquistar as pessoas quando se é "fixe", quando se tem comportamentos que estão na moda e são comuns e aceites; seria muito melhor eu dizer que me ia embebedar na queima e que tinha comprado o passe semanal e fazer com que todas elas me mostrassem e contassem os seus momentos loucos dos seus "bons velhos anos". Mas não. Eu sou a conservadora, a chata, a "idosa" daquele escritório, que em vez de beber mais álcool numa semana do que elas bebem num mês, bebeu menos álcool na vida inteira do que elas bebem numa semana. Nesta faceta, sou uma "mosquinha morta". E nestes dias, em que olham para mim só por este meu lado conservador, dói-me particularmente a alma. Porque eu sou muito mais que tudo isto.

26
Abr16

E não é que vou mesmo ao cortejo?

Carolina

Daqui a uma semana vou ao cortejo. Apesar de sempre ter ignorado todos os rituais universitários, decidi o ano passado (como partilhei aqui) que, no meu ano de finalista, iria cartolar e desfilar pelos Aliados. 

Este ano a prenda de aniversário do meu irmão foi especial também por isso: sabendo das minhas intenções, ofereceu-me o pack todo para poder ir. A cartola, a bengala, a roseta (será?) e a pasta com as fitas - tudo comprado no sítio onde a minha cunhada (que, para que conste, é como uma irmã para mim) comprou as coisas dela, quando acabou o curso. Quando vi a panóplia de coisas fiquei mesmo feliz e comecei logo a distribuir fitas - um inferno para toda a gente, já sei, mas que é um pormenor importante para mim. De todos os rituais e tradições que possam existir, aquela que envolve escrita tinha de ser a minha favorita - e é bom, de vez em quando, ter pessoas a escrever para mim; a situação normal é a inversa, comigo sempre a escrever sobre (e para) as pessoas, pelo que é agradável ler algo escrito propositadamente par mim. Sei que não vou ter muitas, porque é sabido que não tenho muitas pessoas a quem as entregar, mas sei que a família e os meus amigos mais próximos vão estar lá pelo meio. E confesso que já tenho vertido umas lágrimas com as coisas que tenho lido.

Decidi fechar este ciclo com uma festa e uma celebração diferente para mim, precisamente para festejar a minha "sobrevivência" a estes três anos de faculdade. Combinei esta ida com o grupo que mais me acompanhou nesta jornada, os poucos a quem posso chamar amigos, mas espero juntar-me a todos os outros que - de forma mais ou menos presente - fizeram parte dela. Não vou ser hipócrita - a faculdade não foi, para mim, pêra doce nem foi algo que me proporcionasse, diariamente, particular prazer; mas estou agradecida por tudo o que me deu, pelas pessoas que conheci, pela experiência de vida que me concedeu e por todas as coisas que vivi - sendo o Fora da Caixa a melhor coisa que me calhou na rifa, como toda a gente sabe.

Quero chorar o fim - tanto de tristeza como de alegria. Quero uma folga do estágio para estar com aqueles que, nestes dois anos e meio, fizeram parte de todos os meus dias. Vai ser bom.

19
Abr16

Uma decisão pouco estratégica de que não me arrependo

Carolina

Se há pessoa que ouve os pais sou eu. Tenho mesmo muito em conta as opiniões deles - embora possa argumentar e refilar, tudo o que eles me dizem fica em "fermentação" cá dentro e muitas vezes acaba por evoluir para uma opinião que coincide com a deles ou, pelo menos, se aproxima àquilo que eles acham.

Que eu me lembre, de todas as grandes decisões que tive de fazer na vida, só fui contra as indicações deles uma vez: no 11º ano, quando abandonei as ciências e tecnologias e passei para línguas e humanidades. Nesse caso, tomei a decisão contra a vontade deles e de 90% das pessoas que me rodeavam - foi provavelmente a maior luta que tive até hoje, também por levar as suas opiniões tão a sério. Ao contrário do que sempre tentei fazer, mudar de curso não foi uma decisão estratégica, não foi uma decisão a médio/longo prazo, com olhos postos no futuro; foi um dos raros momentos em que disse "logo se vê", "seja o que deus quiser", "é aquilo que sinto que devo fazer". 

E fiz. E ainda hoje não me arrependo - mas sinto que é uma decisão que, ainda assim, me persegue. E isso é das coisas que, de certa forma, me magoa. Porque passo os dias a ouvir pessoas a dizerem-me para aproveitar a vida, para viver o dia porque não se sabe o que vem amanhã, para levar a vida com descontração sem pensar demasiado no futuro. Tudo coisas que eu, pela minha personalidade, sou praticamente incapaz de fazer - mas nos poucos momentos em que sinto que o fiz, quando fiz aquilo que o meu coração dizia e deixei um bocadinho a racionalidade de lado, sou criticada.

Apesar de sempre ter crescido com a ideia de querer continuar os negócios da família, na altura em que mudei de curso, a situação era bem diferente da de agora - e não me apetecia ter quatro anos de sofrimento pela frente só para jogar pelo seguro. E isso fez com que o 12º ano fosse um dos melhores anos da minha vida - e sem dúvida o melhor que passei na escola - e que escolhesse um curso multidisciplinar, que apesar de não aprofundar muita coisa e de não ser a área de especialidade que devo exercer pela minha vida fora, me deu ferramentas essenciais e momentos que não esquecerei. 

E por isso, independentemente de todos os olhares e perguntas julgatórias como "se sabias que tinhas de gerir uma empresa porquê que seguiste jornalismo!?", eu vou levar a minha avante. Tomei a decisão certa, na altura em que precisava de a tomar; foi tomada mais com coração do que com a cabeça, num desespero latente, mas correu-me bem - independentemente do que venha a seguir na minha vida para emendar esse "erro". E sim, erro entre aspas, porque para mim não se trata disso: foi apenas uma fase da minha vida que precisei de viver, de experimentar, de tentar e de conhecer. E de que, repito, não me arrependo nem um segundo.

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