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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

18
Fev18

Sobre os recomeços (ainda que este não seja um)

Carolina

Mais de uma semana sem publicar. Auch. Que rico pontapé no meu ego esperançoso e no meu lema “quanto mais treinares, melhor escreverás”. Estou a passar uma daquelas fases em que parece que tudo está a acontecer ao mesmo tempo. Aniversários aos fins-de-semana, recitais de piano, tentativa de uma maratona pré-filmes-dos-óscares, entusiasmo máximo (dentro do possível) em relação ao ginásio, almoço num lado, workshop à tarde noutro sítio, aulas de piano, fazer bolos para as festas de aniversário, miúdos de férias aqui em casa. Wow. Isto tudo junto com "aquela semana do mês". E não, não é o que estão a pensar: falo no fecho de mais uma edição do jornal. 

O início de cada mês passou a ser uma altura em que quase me retiro do mundo dos comuns mortais e só me consigo dedicar ao trabalho. Vou poupar-vos os detalhes daquilo que é o processo exaustivo de fechar um jornal, mas deixem-me só dizer que é um processo moroso, trabalhoso e muito contraindicado para os nossos olhos - e eu trato de um mensal, pudera se fosse semanal. Ou diário (credo!). Dezembro foi o primeiro mês em que fiz isto - que coincidiu com o meu projeto natalício e tudo aquilo que envolve esta época - e agora senti que tudo voltou a coincidir no mesmo período temporal. Senti o mundo em cima de mim. A pressão do trabalho em cima de mim. A pressão dos outros em cima de mim. E a pior: a pressão que eu faço sobre mim mesma.

Enfim: o jornal já está impresso. Sobrevivi. Mas daqui a três semanas tenho de ter outro nas mãos, o que resume os poucos dias de "descanso" que terei até lá e todos os alertas que continuam "on" nesta cabeça, a piscar intermitentemente. Quero tantas coisas para mim, quero fazer tanto, tenho tantos objetivos (e quando não os tenho, crio-os) que a tendência, após tempos de mais stress, é cair num pico negativo e emotivo que depois demora algum tempo a sarar (porque não consigo fazer as coisas, porque estou cansada, porque os resultados finais não estão como eu quero ou não aparecem...). Se não escrevi durante uma semana por não ter tido tempo, também não escrevi nos dias seguintes porque não queria vir para aqui destilar as minhas frustrações, que estes dois dias de sol ajudaram a sanar.

Entretanto já recheei a minha lista de tópicos para escrever e, haja tempo e vontade, o blog não terá falta de temas num futuro próximo. Mas isto, por si só, leva-me a um outro assunto: os recomeços. Neste caso, aqui no blog, não se trata de um: esta foi uma paragem rara num blog que, desde há quase sete anos, tem uma média de posts dia-sim-dia-não. Mas se há coisa que me tira do sério são pessoas que estão em eternos recomeços, que não aceitam um fracasso (ou, se não quisermos chamar-lhe assim, talvez um projeto mal conseguido ou uma ideia que não conseguem levar avante, independentemente das razões para tal). Blogs (e vlogs) que têm posts de quatro em quatro meses - mas que dizem querer publicar de quatro em quatro dias -, que passam a vida no "agora é que é!", que mudam de look quase como uma forma de auto-incentivo, que fazem dois posts seguidos e que depois deixam os leitores à espera durante meses. É irritante, principalmente quando temos a noção de que já não escrevemos só para nós - que estamos a "produzir conteúdo" (esta expressão agora está em voga, não está?) também para os outros. Faz-me lembrar o meu eterno dilema com os diários - eu achava sempre que ia escrever lá todos os dias, mas na terceira página já adiava a escrita à ad eternum. Até que aceitei que não fui feita para escrever em diários e me deixei disso.

Essa é só mais uma das razões pela qual gosto de escrever diariamente ou, pelo menos, com uma certa rotina. Não tenho um público suficientemente grande nem exigente ao ponto de vir para aqui saber se eu estou viva, exigir posts ou dizer que está com saudades - mas tal como eu gosto de ir a um restaurante, que sei que está aberto de segunda a sábado, e encontrar as portas abertas, também gosto de ir a um blog e saber que tenho lá algo de novo para ler. É quase um compromisso silencioso, que ninguém assinou ou fechou com um aperto de mãos, e que todos sentimos que está lá. Ninguém gosta de dar com o nariz na porta.

09
Jan18

Então e o livro, quando vem?

Carolina

De vez em quando recebo emails e comentários - ou o tema surge mesmo em conversa com pessoas – a perguntar quando é que vem um livro. Quem me conhece sabe que este é um dos meus maiores sonhos, é uma coisa que eu quero muito fazer, mas quero faze-lo bem. A minha resposta é: “é muito cedo”. E sim, é verdade que hoje em dia há muitos jovens autores, como também é verdade que grandes nomes da literatura só lançaram as suas primeiras obras quando a sua idade já era um posto.

A minha mãe sempre me disse que só há uma forma de fazer as coisas: bem. E eu não acho que tenha maturidade suficiente para escrever um livro. Mas, mais grave que isso, não tenho sequer uma história. Podia dizer-vos que quero dar tempo ao tempo, que neste momento não tenho disponibilidade, que não estou suficientemente segura da minha escrita… tudo isso, que até pode ser verdade. Mas, acima de tudo, uma das razões que me leva adiar este sonho por mais uns anos é o facto de até hoje nunca me ter surgido uma história que eu quisesse contar.

O meu cérebro e a minha vertente literária funcionam, pelo menos para já, na perspetiva de crónicas: pegar em temas do dia a dia e esmiúça-los, passa-los para palavras, explica-los, faze-los ter piada ou ganhar expressão. É raríssimo eu olhar para alguém ou ter uma ideia qualquer e fazer disso um fio condutor para uma história de ficção. Não sei se isso é algo que ainda não cresceu em mim ou se, de facto, não faz parte daquilo que sou. Confesso que esta ultima perspetiva preocupa-me: e se eu não nasci para escrever ficção? Se eu não conseguir manter vivas personagens dentro de mim, dar-lhes uma história de vida e faze-la acontecer no papel? Acho que só o tempo o dirá.

Mas, dizem os outros, até podia lançar um livro de crónicas. Poder, podia, mas não era bem a mesma coisa. Podia lançar um best of com o que escrevi aqui – como muitos bloggers fazem hoje em dia – mas, sinceramente, não é uma ideia que me agrade. É verdade que a comida aquecida no micro-ondas continua a ser boa se a comida inicial também for boa, mas perde-se o elemento surpresa. Não sei quanto a vocês, mas eu não gosto muito de ler a mesma coisa duas vezes. É como comida requentada – eu como-a porque tenho fome, preguiça, não quero dar trabalho e causar desperdício. Porque, se pudesse, faria algo diferente e não perderia tempo com coisas antigas. E os textos requentados, para mim, perdem a piada.

Podia era escrever crónicas novas. Podia. Mas a verdade é que não é bem esse o livro que eu um dia gostava de publicar. E sinto que, nesta fase, lançar um livro seria só mesmo pelo ato simbólico em si e seria só mais um, como agora há milhões. Toda a gente acha que pode escrever um livro – e eu acho bem que exista essa liberdade, mas tenho pena que as pessoas não tenham sentido crítico suficiente para perceber que o papel ali gasto não vai acrescentar nada ao mundo. E eu não quero ser mais uma. Posso não ter a obra mais apreciada pelo público ou pela crítica; ter apenas quatro livros vendidos (um pelos meus pais, e três pelos meus irmãos): mas seria apreciado por mim e eu lançá-lo-ia de consciência tranquila, pensando que segui aquilo que sempre quis e fiz o meu melhor para a época.

Se a vida correr o seu caminho eu terei muitos anos para escrever livros e cumprir o meu sonho. Não quero pôr a carroça à frente dos bois; não quero pagar uma fortuna só para ter o ego cheio; não quero contribuir para esta época de esvaziamento da literatura; não quero fazer só por fazer. E isso pode ser daqui a dois anos ou daqui a trinta. Só o tempo o dirá.

31
Dez17

Em 2017 eu...

Carolina

- voltei a aprender a tocar piano;

- conheci o Jamie Cullum!

- juntei um novo cão à minha matilha;

- fui a Itália (Veneza, Nápoles, Pompeia, Roma), à Croácia (Dubrovnik), ao Montenegro (Kotor), a Malta, a Sicília (Siracusa), à Alemanha (Munique), a Espanha (Madrid) e a Inglaterra (Bristol);

- vibrei pela primeira vez com a Eurovisão e obriguei o meu irmão emigrante a votar no Salvador;

- voltei a ir ao Primavera Sound;

- falei com a Teresa Guilherme ao telemóvel;

- fui pela primeira vez a um arraial minhoto;

- fiz a minha primeira viagem de trabalho;

- fiz dois escape games (e saí de ambos!);

- vi duas vezes o Jamie Cullum ao vivo e fui ver o Salvador à Casa da Música, o que me encheu a alma e o coração;

- passei aquela que foi a única semana sossegada do meu ano no Algarve, na minha praia;

- gastei quatro cadernos em notas;

- acampei no Gerês e em Oleiros;

- passeei por Vila Nova de Cerveira, Marvão, Estremoz, Vila Viçosa e Lisboa;

- fui ao Web Summit;

- comecei a usar um hidratante diário para a cara, porque a idade não perdoa;

- não fui ver o Robert Pattinson - e arrependi-me um bocadinho;

- acabei de ver Game of Thrones, comecei a ver This is Us e The Good Doctor e voltei para a Anatomia de Grey;

- voltei para o ginásio;

- deixei as agendas e criei o meu próprio bullet journal;

- fui à feira do livro mas não comprei nada;

- usei pela primeira vez chapéu;

- criei um instagram para os meus cães;

- não cortei o cabelo;

- pendurei as minhas andorinhas e as minhas sardinhas na parede, finalmente!!!;

- li mesmo muito pouco;

- fui duas vezes ao estádio do Dragão - numa perdemos, noutra ganhámos;

- retomei o meu hábito de ir à feira todas as semana;

- acho que só fui uma vez ao cinema... (shame, shame);

- fui ao Portugal Fashion.

 

Já disse que voltei a tocar piano, que estive com o Jamie Cullum e que descobri o Salvador, a minha nova panca musical? Sendo assim, acho que temos um resumo perfeito do meu ano :)

 

Espero que a vossa check-list deste ano também tenha sido preenchida de coisas boas e que 2018 vos pisque o olho e que rompa com todas as vossas expectativas. Vemo-nos para o ano, sim? Boas entradas!

 

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27
Dez17

O pós projeto de Natal: e agora o que faço da minha vida?

Carolina

Sabem aquela sensação de quando acabam de ler um livro que adoraram ou quando terminam a última temporada de uma série que gostaram muito? Um feeling quase de abandono, de não saber o que havemos de fazer à vida depois daquilo, de quase nos sentirmos "orfãos" de alguma coisa? É isso que eu sinto neste momento depois de ter acabado o meu projeto de Natal. Perdida, quase com horas a mais. Eu estava exausta, mas movida por um objetivo. Agora estou só exausta.

É incrível como as ondas de cansaço que nos invadem depois de relaxarmos de algo que nos stressou e moveu durante meses. No dia 25, depois de a 24 ter passado o dia todo na cozinha e me ter deitado às 4 da manhã, após ter posto a mesa, almoçado e brincado um pouco com o meu sobrinho, decidi "ir ver televisão para a sala". Adormeci por quatro horas. Nessa noite dormi bem, na seguinte também. E continuo a acordar cansada, enquanto sinto os meus trapézios a ficarem mais macios a cada dia que passa - embora nunca fiquem normais, porque as minhas contraturas já têm ali morada fixa. 

Os prazo que eu tinha eram demasiado curtos para um projeto tão ambicioso. Este é um dos exemplo que cabe bem numa coisa que eu digo muito, o "trabalho ingrato". Eu sei que as pessoas têm alguma noção do trabalho que me deu ver todos os vídeos, organiza-los e seleciona-los. Mas eu cresci com a máxima de que só há uma forma de fazer as coisas - bem - e não sei trabalhar de outra forma. Por isso eu fui buscar transições e sons para acompanhar (que tinham de bater certinho com a imagem), as músicas ideais para colocar como fundo (que, em certas batidas, tinham de coincidir com certas imagens), fiz uma introdução completamente desnecessária mas hilariante, que me demorou mais que todos os vídeos juntos, e outros pormenores assim do género que ninguém nota quando o resultado final é harmonioso - e que, aliás, pelo contrário, só se nota quando não estão lá. Isto levou-me muito tempo, obrigou-me a fazer noitadas - coisa que já não fazia há muitos anos -, a gerir o stress e conciliar com o trabalho, o que não foi mesmo nada fácil. Mas, caraças, o resultado valeu mais do que a pena! Não só os vídeos em si, mas também o feedback e as reações despoletadas nos outros - onde se incluíram lágrimas e tantas, tantas gargalhadas, que valem pelo mundo.

Uma das poucas coisas que me leva racionalmente a equacionar ter filhos - porque, como muitos sabem, não é algo que eu alguma vez tenha tido nos meus planos, embora nunca tenha excluído uma possível mudança de opinião ou de estado de espírito, ainda que ache improvável - é a perspectiva de dar continuidade à família, de dar aos outros aquilo que eles me deram a mim: pessoas com sangue do meu sangue, que partilham comigo não só laços de amizade, como laços de vida. Ter uma família grande é das maiores alegrias da minha vida e eu gostava de ser coerente e proporcionar esse crescimento, de dar frutos, de fazer com que os meus filhos sentissem o que sinto quando estou envolta dos meus. 

Sou sempre pessimista e um bocado céptica em relação a tudo, por isso, ao longo deste processo, nunca pensei que os vídeos fizessem tanto sucesso. Como hoje em dia todos temos uma concentração de peixes e o Natal é uma época de convívio e não para estar a olhar para um ecrã, sempre esperei que o pessoal visse, gostasse, mas que fosse deitando o olho enquanto punha o dente numa rabanada ou dava duas de conversa com a pessoa do lado. Mas não. Parou tudo para ver, toda a gente se riu imenso e no fim agradeceu e deu os parabéns - e eu fiquei consoladíssima. Primeiro porque tinha as expectativas baixas e segundo porque consegui proporcionar a toda a gente um momento diferente, de nostalgia, de saudade e ao mesmo tempo de alegria, bem representativo da união de família que se vive e sempre se viveu ao longo destes anos.

Foi um momento feliz - nem sei se foi mais para mim ou para os outros - e pronto, agora eu estou de ressaca, a recuperar do cansaço, da barriga e do coração cheio. Preciso de voltar aos dias normais - passei demasiadas horas sentada, ganhei quilos que não devia - mas isto deu para perceber que eu preciso disto para (sobre)viver. Preciso de coisas que me movam, bem além do trabalho. São este tipo de coisas o combustível da minha vida, que me dão forças para além do cansaço para avançar. É raro serem tão recompensadoras como esta foi, mas é nestes dias que percebo que eu sou pessoa de fazer e não de ver passar os outros. E até ao fim do ano, para além do trabalho, só quero descanso. Depois disso, vou pegar na pá e passar para outra obra. 

21
Dez17

Uma loja de porta aberta (ou "o tipo de artigos que gosto mesmo de escrever", ou ainda "o início de uma nova rubrica")

Carolina

Uma das coisas que mais gosto de ler são revistas ou artigos recheados de sugestões e produtos. Adoro conhecer novos gadgets, marcas novas, roupas giras, ideias inovadoras – não meramente os seus preços, como aparece nas revistas de moda, mas o que está por detrás de tudo aquilo. Há quase sempre boas histórias e boas justificações escondidas atrás das boas ideias, de bons produtos, de bons projetos e de bons espaços e conhece-las é um dos meus maiores hobbies.

Acho que a única forma de ser feliz no jornalismo era a fazer isto: dar a conhecer projetos, start-ups, empresas e ideias inspiradoras, fazendo inspirar os outros. É um modelo que me atrai e, se também gostam, aconselho vivamente a que comprem o Observador Lifestyle – que para além de estar graficamente incrível e de ser feita por aquele que é, para mim, o melhor jornal online deste país, foi quem me deu a ideia para este texto, que não é bem um texto, mas o início de uma rubrica.

Já foram várias as pessoas que me pediram para mostrar algumas coisas que eu escrevo no âmbito do meu trabalho. Eu nunca mostrei (com uma exceção, se a memória não me falha) não por ter vergonha ou por não querer que vejam, mas por achar que muito daquilo que escrevo e faço não tem interesse para um público “comum”; para além disso, a maioria dos caracteres que saem das minhas mãos são notícias breves e internacionais que já leram em tantos outros sites, que em nada denotam a minha capacidade ou estilo de escrita.

Mas ao folhear essa revista do Observador lembrei-me que há uma rubrica do jornal onde trabalho, que está sempre a meu cargo, que talvez alguns de vós possam gostar de ler. Por ser um bocadinho ao estilo daquilo que falava acima – dar a conhecer projetos bonitos – é talvez o meu espaço preferido no jornal, onde posso ser mais “eu” enquanto escrevo, trazendo sempre conteúdos exclusivos, porque vou sempre conhecer os sítios e falar com os seus proprietários. Trata-se de um espaço onde eu dou a conhecer lojas diferentes – maioritariamente localizadas no Porto -, contando a sua história e um bocadinho do que se pode encontrar lá. Assim matam um bocadinho e a curiosidade e eu tenho a hipótese de ter algum feedback, coisa que normalmente não obtenho com facilidade. Parece-vos bem? Em breve mostro o primeiro texto.

(Até lá, vão comprar a revista do Observador antes que esgote.)

 

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28
Nov17

Dezembro, podemos pôr um bocadinho o pé no travão?

Carolina

Ainda só passei uma vez pela época natalícia enquanto trabalhadora - esta vai ser a segunda - mas já percebi que o ano passado não foi uma excepção, mas sim a regra: Novembro e Dezembro são caóticos, os piores meses do ano no que diz respeito ao volume de trabalho, volume de stress, volume de problemas e volume de correrias. Não sei se é assim em todos os tipos de trabalho, mas fazer um jornal mensal nesta altura - e devido à época festiva, que faz com que os últimos quinze dias de Dezembro sejam praticamente inutilizáveis - significa fechar dois jornais num só mês, o que não é propriamente fácil.

Para além disso, algumas coisas estão a mudar no jornal e eu estou a acumular (e a aprender) funções, o que me vai passar a roubar mais tempo; por o Natal estar a chegar também começam os jantares e os almoços, os amigos-secretos e a decisão e a compra das prendas de Natal; como se isso não bastasse, ainda me meti num "projeto de Natal" pessoal, em que estou a recolher gravações da família inteira dos últimos 20 anos - e a passa-las das cassetes para o computador - para depois fazer um best of em plena véspera natalícia. Não quero revelar demasiado, porque tenho muitos cuscos na minha família a ler este blog que estão ávidos de informação, mas depois do grade dia conto um bocadinho desta aventura que me tem ocupado muitas horas nas últimas semanas (nomeadamente para pôr a trabalhar equipamentos que não viam a luz do dia há uns 15 anos).

É claro que isto tudo ainda se conjuga com a vida familiar, o blog, o piano e o ginásio - e mais algumas coisas que vão surgindo pelo meio -, pelo que a gestão não tem sido fácil. Eu bem que tento escrever ao fim-de-semana, mas nem isso tem sido simples - e, confesso, a vontade de passar ainda mais horas em frente ao computador durante as minhas "horas livres" também não é muita. 

Com isto quero dizer duas coisas: a primeira é desculpem pela ausência - eu prezo muito a constância de publicações em qualquer blog e gosto e tento escrever todos os dias aqui, mas há alturas em que, por uma razão ou por outra, não consigo; a segunda é que isto não é, de todo, uma questão de preguiça - porque, quando for, eu admito e passarei aqui para vos dizer "não estou com pachorra para escrever" em vez de perder tempo em explicações como esta. Chateia-me cada vez mais que as pessoas achem que eu não faço nada só porque tenho um trabalho que me permite uma grande flexibilidade de horários; não deixo as coisas por fazer e, até hoje, não tive qualquer razão de queixa por parte das pessoas com quem trabalho ou que me chefiam. Tenho prioridades e o trabalho vem sempre primeiro: mas organizo-me da melhor forma, todos os dias, e de maneiras diferentes com o objetivo final de ter ter tudo pronto e bem feito no menor tempo possível - e, para isso, não me arrasto, não faço fretes, tento ser objetiva e riscar tarefas do caderno. E isto faz com que consiga ter aulas de piano, consiga ir ao ginásio, consiga escrever aqui e que consiga meter-me em projetos natalícios que se calhar só eu é que vou achar piada. E isso, que eu saiba, são coisas suficientes para deixar alguém ocupado até aos dentes. 

(Farei o meu melhor para escrever todos os dias - caso não consiga, já sabem: ando metida entre jornais e cassetes :))

26
Nov17

Eu ontem não vi o Robert Pattinson

Carolina

Este título só faz sentido para quem me lê há muito tempo (pelo menos há cinco anos) porque, como canta o José Cid, "há muito, muito tempo, ainda era eu uma criança", eu escrevi um post com um título muito semelhante - mas na positiva. O que também só faz sentido se me lerem - ou conhecerem - há mais tempo, para perceberem toda a história que tenho com a série Twilight e se souberem que o Robert está cá, em Portugal, para participar em duas sessões do Lisbon&Sintra Film Festival.

Há cinco anos eu fui a Lisboa de propósito para o ver no Centro Cultural de Belém. Na altura a questão não se colocou: eu ia e ponto final. Passei muitos anos da minha vida a publicar fotos dele, a "segui-lo" para todo o lado, a ver os filmes dele, a suspirar por ele - e se ele vinha cá, eu ia atrás, pelo menos para ter a certeza de que o homem era de carne e osso. E ainda hoje acho que aquilo que eu fiz - quer concordem quer não, quer achem que foi uma palermice de adolescente ou também não - foi coerente com a minha posição ao longo dos tempos e com o meu trabalho no blog, que eu levei a sério e com muito profissionalismo ao longo dos anos.

Recordo-me bem de muitos momentos - alguns dos mais felizes, relacionados com esse evento, nem sequer foram lá, mas sim quando soube que ele vinha cá em plena aula de físico-química - mas, olhando para trás (e lendo que escrevi na altura), aquilo não foi um momento espetacular para mim. A histeria e as centenas de miúdas que estavam lá fizeram com que eu começasse a ter um ataque de pânico - proporcionado também pelo cansaço das horas passadas à espera, e de pé, e também pelo stress da envolvência de tanta gente que falava comigo e que estava à minha volta - e deitasse um pouco a experiência a perder, até porque cheguei a um ponto em que me encostei a um canto, fechei os olhos e esperei simplesmente que ele passasse na passadeira para os berros cessarem. 

Tenho vindo a pensar e cheguei à conclusão que um dos meus problemas, em tudo, sempre foi fazer parte dos grupos e não fazer parte deles. Ou seja, eu fazia parte de algo porque me identificava, integrava ou era alguma coisa - mas os meus comportamentos divergiam sempre do clássicos das pessoas que o completavam, por isso, na prática, eu não estava dentro do grupo. Eu era adolescente, porque tinha 15 anos, mas não era adolescente no sentido da maluqueira, das irresponsabilidades, das paixões assolapadas e das asneiras; eu andava na universidade - e por isso era universitária - mas não fiz a praxe, não trajei, não fui a nenhum jantar de curso, nunca apanhei uma bebedeira, nunca fui à queima, nunca vi a latada ou a serenata; e eu era "twilighter", porque adorava os livros, os filmes, os atores e tinha um blog sobre o assunto, mas não tinha posters no quarto, não andava a dizer que era "team Edward", não era estridente, esganiçada nem histérica. Em último caso, também não queria ser identificada com esses grupos: não queria que olhassem para mim e pensassem "olha, é mais uma", tal como eu própria pensava. Foi por isso que nunca trajei, por saber que (infelizmente) o traje tem uma grande ligação com a praxe; e foi por isso que tentei evitar ao máximo meetings e encontros, porque eu não queria ser mais uma das estridentes que grita por um ator que nunca irá olha para ela. 

Passaram-se alguns anos desde o dia em que ele veio cá. Tirei um curso, comecei a trabalhar, deixei de publicar no blog sobre o Twilight, passei a ter responsabilidades - mas nunca deixei de seguir o seu trabalho e, confesso, o seu estado civil. E quando soube que ele vinha cá contive-me como não me contive naquela aula de fisíco-química de 11º ano, mas o coração tremeu um bocadinho e pensei logo "é claro que vou!". E podem achar isto parvo porque, de facto, já tenho idade para ter juízo - mas, na verdade, acho que sempre o tive; dentro das maluqueiras que fiz por causa do Twilight, sempre fui contida, reservada, responsável, calada, respeitadora. E eu lembro-me de pensar que se um dia tivesse a oportunidade de estar com alguns daqueles atores que preencheram a minha vida durante tantos anos, eu não iria perder a chance; porque era justo para mim, que tanto os admirei, um dia ter a oportunidade de os ver à minha frente. Fazia-me sentido, quer tivesse 15 anos ou 63. E eu tinha a intenção de manter essa promessa.

Mas depois a minha mente voou para aquele momento em que eu estava aninhada contra uma parede no Centro Cultural de Belém; comecei a ver comentários e comentários como há anos não via no facebook do blog do Twilight, já com alguns uivos virtuais, e comecei a pôr o pé no travão. Eu não me ia meter nisto outra vez. Eu podia fazer-me de erudita, fingir que ia às sessões para ver de novo o Cosmopolis ou o Good Time - que ainda não vi, nem tenciono, porque me parece um tanto ao quanto tenebroso -, mas estaria a mentir. Eu ia lá - como tantas foram - ver o miúdo do Twilight, que é coisa que ele já não é e que sei que quer deixar para trás.

E por isso não fui. Ajudou o facto de ser em Sintra, de ter de passar mais uma noite fora de casa, mais o cansaço das viagens de comboio, num mês já suficiente difícil e com uma agenda demasiado ocupada. Não fui porque não queria reviver o CCB outra vez; não fui porque não queria tornar a sentir na pele o sentimento já muito comum, mas que nunca deixará de ser desconfortável, de estar no meio de um grupo a que na realidade pertenço mas onde não me integro; não fui porque sei que a razão que me levaria não era exatamente a razão pela qual eu devia lá estar. Tomei a decisão de não ir, e custou-me muito; pensei muito, arrependi-me um bocadinho... mas voltei sempre à mesma decisão. Parece simples, mas não foi tomada de ânimo leve. Nunca é fácil quebrar promessas antigas, ainda mais aquelas que fazemos a nós mesmos; nunca é fácil deixar o passado lá atrás e fecharmos a gaveta de vez. E eu sei que nunca o farei.

Ontem estava cá, já a tentar escrever este texto, mas também estava lá, com um bocadinho de inveja de todas as pessoas mais simples que eu, que não pensaram em nada destas coisas e simplesmente foram. Eu nunca fui assim, nunca serei. Lá no fundo, sempre tive um quê de crescida. Mas hoje vejo que momentos houve em que, apesar de ser assim, ainda consegui pôr as minhas paixões e maluqueiras em primeiro lugar; agora, o pensamento prevaleceu. Fui mesmo crescida. E ser crescida, como dizem as más línguas, é mesmo uma merda.

20
Nov17

Viver num mundo de beijinhos, passou-bens e acenos

Carolina

Nos últimos meses, por questões de trabalho, tenho vindo a conhecer mais pessoas do que o normal. Aliás, muitas vezes nem é conhecer, as pessoas são-me simplesmente apresentadas: "muito prazer" para trás e para a frente, "foi um gosto, até à próxima" e adeus. Mas quer sejam situações em que falamos mais com as pessoas e passamos a conhece-las e até conviver com elas ou simplesmente apresentações mais formais, há sempre uma questão que se coloca: como é que cumprimentamos alguém no primeiro contacto? Beijinho, passou-bem ou um simples aceno de cabeça?

Eu acho que neste tipo de coisas cada um cria as suas próprias regras - o pior é que as regras nem sempre coincidem e algumas situações tornam-se um tanto ao quanto desconfortáveis: um dá a mão e o outro já tem a cara estendida para um beijo; ambos já têm o cumprimento de mão dado mas, naquele impasse, ainda dão um beijo por cima enquanto as mãos estão juntas; há uma hesitação estranha tipo vai-não-vai e fazem apenas um ligeiro aceno de cabeça e um trejeito com a boca como quem diz "foi quase, não percebi o que aconteceu, mas foi estranho"

Eu sou pouco dada a toques e a intimidades por isso a minha primeira reação é sempre estender a mão - pelo menos no que diz respeito a homens. Penso que em mulheres está muito universalizado o beijinho - resta saber se é um ou dois, o que ainda vem tornar toda esta questão mais complexa - e só não o faço quando percebo que há um distanciamento maior do que normal ou quando são de outras culturas ou religiões que entendo que não têm o hábito de dar a cara logo à partida. Mas nos homens é que está o busílis da questão.

Acho que é lógico para todos nós que um beijo é mais íntimo que um aperto de mão - e, por isso, eu opto quase sempre pelo passou-bem. Mas há outra questão deveras pertinente: a higiene. Apesar de nos parecer mais "próximo" cumprimentar alguém de beijo, e embora possamos pensar na quantidade de germes que por ali andam e em "quantas bocas e sítios é que esta boca já passou?", a verdade é que apertar a mão é provavelmente menos higiénico, uma vez que é a nossa ferramenta para tudo nesta vida: para nos apoiarmos nos corrimões, para tirarmos o dinheiro do bolso, para fazermos festinhas aos cães ou - aquilo em que todos pensamos - irmos à casa de banho (e depois não lavarmos as mãos).

Apesar disto, a questão "intimidade" costuma-me pesar mais e eu não dou grandes hipóteses: mal vejo a pessoa já estou de mão em riste. Mas por vezes noto que não era aquilo o esperado ou que estranham o facto de uma mulher dar um passou-bem de forma tão convicta. Mas o mais engraçado é que, se for o caso de ter uma conversa, um jantar ou algo mais próximo, já me é natural deixar que se despeçam com um beijo. E quando saio deste tipo de situações dou sempre por mim a pensar "o quê que mudou nesta hora para já passar de um comportamento para o outro?". A verdade é que eu acho que mudou muito pouco: apenas nos habituamos à presença uns dos outros, o que não quer dizer que não continuemos a ser estranhos. Mas tudo isto não se colocaria se, simplesmente, tivéssemos dado dois beijinhos à partida.

Da mesma forma que há um livro de estilo nos jornais, um livro de marca para as empresas ou um livro de instruções para os eletrodomésticos, devia acontecer o mesmo connosco - ...pelo menos em algumas situações. Isto de viver numa sociedade com beijinhos, passou-bens e acenos é muito complexo.

22
Out17

Relembrar o gosto da leitura

Carolina

Há dias estava a pensar na evolução que fiz enquanto apreciadora de letras – de escrita, de livros, de leitura – e de como isso me mudou enquanto pessoa e, acima de tudo, em como alterou o rumo da minha vida. E cheguei à conclusão de que sou uma “leitora auto-construída”.

Eu nunca na minha vida pensei seguir um caminho que envolvesse letras. Nunca. Passei os meus primeiros anos de escola a odiar português – não tanto como educação física, mas quase. Não gostava de descodificar textos, não gostava de escrever, não gostava de ler, odiava fazer ditados (devido à quantidade absurda de erros ortográficos que dava), não percebia nada de gramática e tinha um ódio de estimação por trabalhos de casa longos, que obrigassem a grandes dissertações. Tinha notas miseráveis, nunca passava de um 3 medíocre na pauta e era uma das disciplinas que estava sempre condenada à desgraça.

Até ao dia em que comecei a ler, por impulso da minha irmã – devia ter os meus 13 anos. Não era a primeira vez que tentava, já tinha pegado no Harry Potter e nos livros de Uma Aventura, mas nunca tinha resultado – desistia sempre. E lembro-me de gostar do primeiro livro que li de uma ponta à outra, mas de nunca ter sido uma coisa natural: a mão não ia buscar o livro à mesinha de cabeceira de forma instintiva, não era algo que eu desejasse por antecipação. Era quase como ir ao mar quando a água está fria: custa muito lá entrar, mas só quando lá estamos é que percebemos o quão bom aquilo é. E quando saímos o ciclo volta a ser o mesmo: está frio, dá vontade de não entrar, esquecemo-nos do bom que é estar lá dentro e por isso estamos em constante negociação connosco próprios.

Hoje sei que a leitura é, acima de tudo, um hábito. São rotinas que se criam, a que depois de sucedem ciclos viciosos. E depois há incentivos que cada um vai criando para si próprio: para mim, há poucas coisas que me sabem tão bem como gastar dinheiro em livros, por exemplo; o prazer de deambular por uma livraria e trazer os escolhidos para casa é enorme; escrever críticas sobre o que acabei de ler é outra coisa que me dá gozo, assim como trocar impressões sobre escritores com outras pessoas que também gostam de ler. Tudo isso me dá prazer. Mas tudo isso se esquece com facilidade.

É engraçado como mudei o rumo da minha vida à custa das letras, por algo que inicialmente odiava. Hoje, escrever é uma parte essencial do meu trabalho, e é curioso ver como isso aconteceu por uma série de escolhas. Neste caso, não posso dizer que as letras me escolheram a mim: porque fui eu que as escolhi a elas. Foi por elas que bati o pé a ciências e a quase todos os que me rodeavam. E começou em nada, num pequenino ódio de estimação, inicialmente contrariado pelo meus familiares, e depois por mim, de forma sucessiva.

A minha relação com as letras – e nomeadamente com a leitura – é parecida com aquilo que devem ser as relações dos casais. Segundo ouço, o segredo é irem-se apaixonando uma e outra vez – mas, pelo meio, há sempre períodos de desamor, em que é preciso ter paciência e lentamente saber reaprender a amar, talvez até por razões diferentes.

Apesar de ter continuado a escrever (ainda que menos..), já há algum tempo que os meus hábitos de leitura deixaram de ser o que eram. Nunca li trinta livros num ano, nunca fui um bicho-papão, mas já há uns anos para cá que gostava de manter uma média razoável de leituras que, nos últimos dois anos, caíram a pique. E eu fiquei desgostosa. Perdi o hábito da leitura, em todas aquelas situações que me auto-ensinei a ler. E quando lia era por obrigação, numa tentativa de retomar o hábito e não por gostar daquilo que se estava a passar enquanto folheava as páginas – e depois de várias tentativas falhadas, desistia, escondia o livro como quem se esconde de vergonha, e tentava esquecer.

Mentia se dissesse que essa fase já passou. Estou a fazer por voltar a ler – a comprar livros que me intriguem, a voltar a pôr um livro na mesinha de cabeceira, a deixar de pensar que tenho demasiado sono e negociar comigo mesma uma leitura de um capítulo - mas não é fácil voltar a hábitos que não nos são inatos. E eu detesto dizer isto! Detesto dizer que a leitura - algo tão importante para mim e tão relacionado com a escrita - não é uma coisa que vive em mim permanentemente. Mas, de facto, não é. E, de tempos a tempos, temos de nos voltar a reconquistar. E cá estamos nós para ir à luta.

13
Out17

Quando ter o cabelo longo é um ato de rebeldia

Carolina

Eu sinto que sempre tive o cabelo curto. Não é verdade. Quando criei este blog ainda o tinha todo despenteado e rebelde quase até meio das costas - mas, quando algures no final de 2011, o decidi cortar, senti que de alguma forma tinha controlo sobre a minha vida. Tal como milhões de mulheres, também eu detestava a ideia de ir cortar o cabelo - sempre "só para aparar as pontas" - com o eterno medo da perspetiva de sair de lá com menos três dedos de crina. Mas no momento em que eu pedi à cabeleireira para cortar não dois dedos mas sim dois palmos de cabelo, foi uma sensação de liberdade, independência e rebeldia incríveis. Essa mudança mudou-me - e eu gostei tanto, tanto que repeti-a vezes sem conta.

Hoje olho para trás e percebo que de todas as vezes que cortei o cabelo tinha a esperança secreta de me sentir como me senti naquele dia de 2011, altura em que passava uma das piores fase da minha vida até agora. Mas nunca foi igual: acabou-se o efeito surpresa, acabou-se o choque das pessoas por todo o lado onde passava, acabou-se a novidade - que deu lugar ao hábito. De tal forma que as pessoas, quando me vêem com o cabelo comprido conforme estou atualmente, ficam a olhar para mim, espantadas: "estás com o cabelo enorme!", dizem. 

Para mim, eu só passei a ser mesmo "eu" quando tive cabelo curto - porque falei tanto sobre o assunto, gostei tanto da mudança, que acabou por fazer parte de mim. É um estado de espírito, quase uma forma de estar na vida (que, curiosamente, acaba por não ter muito que ver com a vida que levo, mas enfim), uma imagem de marca. 

Mas a verdade é que nos últimos anos cortei tantas vezes o cabelo - de todas as vezes curto, mas quase sempre de formas diferentes - que me cansei um bocadinho: e, confesso, chegava a um ponto em que não gostava de me ver. E isto é estúpido, mas eu sentia uma espécie de batalha interior: eu queria gostar daquele cabelo, achava que era o que combinava comigo, mas quando olhava para o espelho achava que não estava bem, que tornava a minha cara mais redonda e gorda e, nesses momentos, pensava para comigo "tão cedo não volto a corta-lo". Depois acabava por ceder, até porque deixei de ter paciência para cuidar e secar cabelos cumpridos. Mas o bichinho estava lá.

E se há coisa que eu tenho é boa memória. Eu não me esqueço. E durante este ano, de todas as vezes em que o cabelo me fazia comichão nas costas ou me ia para a frente dos olhos e eu, por instinto, pensava "tenho de ir ao cabeleireiro", o meu outro lado tentava apaziguar essas ganas de ir à tesoura e lembrar-me de tudo aquilo que tinha sentido pouco depois de cortar o cabelo das últimas vezes. E os meses foram passando. E passou um ano desde a última vez que cortei o cabelo. Abaixo, na foto, podem ver as diferenças: do lado esquerdo, o estado da minha "crina" no dia 13 de Outubro de 2016; à direita, o seu estado nos dias de hoje (e sim, a repetição do cenário e da roupa foi propositado).

 

cabelo2.jpg

É natural que, um ano depois, as pontas já estejam todas espigadas e o cabelo menos saudável. Tenho feito o meu melhor, mas a vantagem dos cabelos curtos também é essa: parecem sempre mais saudáveis, mais cuidados (ou, pelo menos, na maioria dos casos). E está a acontecer algo que já há muitos anos não me acontecia: estou com o cabelo enorme e a precisar verdadeiramente de ser cortado. A questão é: quanto é que corto? 

Tenho-o deixado crescer por objetivos vários: primeiro porque queria fazer tranças no verão (não fiz), segundo porque queria te-lo longo para poder fazer uns penteados em algumas festas que sabia que ia ter agora no final do ano (também não fiz) e, finalmente, porque tenho gostado da sensação de o ter longo. É estranho já não ser a única rapariga de cabelo curto na sala, é estranho não ter um corte definido, é estranho já não estar a pensar o próximo, é estranho este "desleixe" que tenho vindo a criticar nos últimos anos mas que me tem sabido bem. Acho que o vou deixar assim até me voltar a apetecer "ser eu" outra vez. No fundo, ter o cabelo cumprido é uma ação tão radical como aquela que eu fiz em 2011. E, às vezes, radical é bom.

 

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