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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

04
Jun17

Auto-retratista

Carolina

Sou uma chata em muitas coisas, perfecionista em tantas outras. Um dos casos em que sou ambas é na fotografia. Desde que tirei o curso que muita gente aqui por casa me acha verdadeiramente insuportável no que diz respeito a tirar-me fotografias - porque todas as outras (a pessoas e a lugares) são tiradas por mim, repetidas trinta e duas vezes até saírem como eu quero. Mas eu tenho de fazer pressão para ficar, pelo menos, numa única fotografia no meio de um álbum de centenas delas - porque, enfim, também faço parte da família!

A verdade é que as pessoas não têm de saber tirar fotografias e muito menos ter jeito para a coisa. Quando não tinha o curso, aquilo que eu me limitava a fazer era clicar no botão do disparador e esperar que a luz estivesse bem e que as pessoas não se tivessem mexido - e é aquilo que a maioria faz, porque não sabe, e isso é normal. Mas eu subi os meus standarts e tal como ando à procura da fotografia perfeita dos outros, também quero a minha fotografia o mais perfeita possível. E, dependendo da situação, há todo um enquadramento perfeito da minha pessoa, as coisas que quero ou não quero apanhar na foto assim como a posição em que me encontro. Ponho a máquina nas mãos de alguém, ouço alguns disparos e, quando vou ver, está tudo ao contrário do que idealizei. E a culpa não é das pessoas - é minha, porque imagino tudo aquilo que quero! E mais do que as pessoas não saberem como o fazer, não me conseguem ler a mente. E, convenhamos, não as posso culpar por isso. (E ainda bem, seria chato ter alguém a ler-me os pensamentos).

Isto já causou algumas zaragatas aqui por casa, porque eu fico hiper frustrada. A minha mãe, a minha fotografa oficial nas viagens, recusou-se a tirar-me mais fotografias aquando do cruzeiro - tanto barafustei com ela porque um poste horrível aparecia, ou porque tinha muito céu em cima da cabeça e bla bla bla que ela se passou e me atirou com a máquina para a mão, quase como quem diz "queres fotos, tira selfies"! O meu irmão, no meu último aniversário, também estava a embirrar com a minha objetiva preferida - a 50 mm fixa - e a dizer que não conseguia tirar fotos sem flash; e eu, em pleno "parabéns a você", saí da frente do bolo, pus as definições direitinhas, coloquei-o na posição que queria e disse "agora tira". E sim, soprei várias vezes as velas só para ter uma foto. (É, eu sei, sou verdadeiramente insuportável.)

Por outro lado, como sou uma control freak e tenho muito pouco à vontade com outras pessoas (mesmo com a minha mãe não gosto de lhe estar a pedir para tirar vinte e sete vezes a mesma foto só porque tenho três fios de cabelo que não estão no sítio certo), tenho vindo a especializar-me na arte do auto-retrato. Monto o tripé, ponho a máquina no sítio certo, preparo o comando para tirar as fotos com controlo remoto e pronto, está feito. Não chateio ninguém, tiro as fotos que quiser, a quantidade de vezes que me apetecer e faço as figurinhas tristes que me derem na realgana. Assim, até passo por menos insuportável. E, convenhamos: já faço tanta coisa sozinha que juntar os auto-retratos à lista só dá um toque artistico à coisa.

 

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29
Mai17

O medo de me tornar numa pessoa desinteressante

Carolina

O "Up in the Air" (não é o da Disney, mas sim o do George Clooney e da Anna Kendrick) estreou quando eu tinha 14 anos e marcou-me muito. Lembro-me de o ter ido ver ao cinema, de vir para casa e chorar - e depois de escrever um post estilo este, naqueles que foram os meus primeiros tempos de escrita. Tinha só 14 anos, mas revi-me totalmente no que ali via - e na altura disse-o, sem vergonhas: "acho que isto vou ser eu no futuro". Não me referia ao trabalho horrível que a personagem principal tinha - que era, no fundo, despedir pessoas (era contratado por empresas para fazer despedimentos coletivos em todo o mundo e por isso passava a vida a viajar, nunca estava em casa, não tinha amigos, mulher ou filhos - apenas uma família que ignorava); falava - já nessa altura! - de de viver para o trabalho, ser "casado" com ele (embora, ao contrário do filme, a minha família vá estar sempre em primeiro lugar).

Ou seja, o facto de eu achar que nunca me vou casar ou ter filhos não é de todo uma ideia nova para mim - simplesmente sinto que esteve sempre comigo. Não quer dizer que não mude, não quer dizer que seja uma opinião para a vida ou muito menos uma decisão: é apenas um feeling, algo que tenho há muitos anos e que acho que não me reduz enquanto pessoa ou mulher - simplesmente sou como sou e posso ter outros milhões de gostos e afazeres para além da vida de casada e de mãe. Mas, em contraposiçãom tenho o trabalho, algo recente para mim mas que sempre soube que ia ser a minha praia, o meu porto seguro (independentemente de até poder não ser seguro, de eu ter dúvidas ou de existirem dias maus - é simplesmente terreno onde eu sempre soube que me ia conseguir levar avante, porque é o que sei fazer bem) - e que, para o bem e para o mal, ocupa uma grande fatia da minha vida.

Mas ultimamente, nos poucos encontros que tenho com pessoas amigas ou família, dou por mim a falar de trabalho. Das minhas viagens de trabalho, dos meus colegas de trabalho, das minhas tarefas no trabalho, nas minhas complicações no trabalho, nas peripécias do trabalho. E tenho medo de me estar a tornar só nisto, quando - apesar de todos os defeitos que sei que tenho -sempre me achei uma pessoa interessante, que tem uma resposta minimamente correta e coerente para tudo, que não sabe muito de nada mas que com aquilo que vai ouvindo, lendo e falando consegue ter uma opinião sobre algo e manter uma conversa interessante. E agora: trabalho. A muleta de sempre: o meu porto seguro quando todos os outros portos parecem despovoados e inseguros, mas que é provavelmente uma seca para quem está à minha volta. E quando rebobino mentalmente as conversas que tive, e se a minha percepção for a correta, quase tenho vergonha de mim própria por aquilo que hoje em dia faço.

Tenho medo de só me tornar nisto, quando acho que sou muito mais que isto. Tenho medo de ser aquela pessoa chata num grupo de amigos que (já) mal conhece que só fala do escritório, do patrão e dos dramas da vida laborar. Tenho medo de estar a crescer e de, ao mesmo tempo, estar a ficar mais pequenina.

25
Mai17

As lágrimas têm um peso incalculável

Carolina

Quando somos pequeninos os nossos pais e avós fazem-nos uma pergunta com rasteira, só para nos mostrarem que nem tudo o que parece óbvio assim o é. "O que pesa mais: um quilo de ferro ou um quilo de algodão?", questionam, com ar despercebido. E nós, a achar que somos muito entendidos na matéria e como, com sorte, já apanhamos com um pedaço de ferro num pé e sabemos o que dói (principalmente comparado com a suavidade do algodão) respondemos, sabidolas: "o ferro, é claro!".

E aí vem toda a risota e a explicação, dizendo que um quilo de ferro e um quilo de algodão pesam exatamente a mesma coisa... porque têm precisamente um quilo. Mas eu acho que há coisas que são muito mais pesadas do que aparentemente parecem e independentemente do seu peso real. Comecei a escrever este post quando me sentei aqui no computador, pensei "preciso de escrever" e, ao descomprimir e ao ver-me sozinha, chorei durante trinta segundos - o que equivale, talvez, a um trio de lágrimas. Apesar de não encher nem um bocadinho de um frasco, de provavelmente terem um peso impercetível para as balanças mais comuns, foi um peso que me saiu de cima. Podiam ser só três, mas "pesavam pra' burro".

Acontece-me muito recolher mágoas durante o dia... coisas que me pesam. São momentos, a maior parte das vezes impercetíveis aos outros, em que se dá um clique na minha cabeça e eu passo a perceber alguma coisa sobre mim, sobre os outros, sobre a minha vida ou forma de ser que, até àquele momento, ainda não tinha descodificado; em que me lembro de algo que me dói ou magoa; em que, instintivamente e sem eu dar ordem, se abrem gavetas que não queria abrir. E eu fico a remoer aquilo o dia inteiro, a pôr mais pedrinhas no saco (e na gaveta - como se algumas já não estivessem cheias de entulho) e a carregar aquilo às costas o dia inteiro. 

E, no entanto, quando há pouco me sentei, metade desse peso foi-se embora. Foram aí umas três lágrimas, capazes de me livrar - em parte - daquele sentimento de solidão que andou agarrado a mim o dia todo depois de uma conversa ligeira mas uma série de pensamentos pesados. Foram três - e bastaram. Porque as dores, para o bem e para o mal, não se põem na balança - assim como as lágrimas que as movem, rosto abaixo, enquanto esvaziam a alma.

15
Mai17

Se calhar, ter as perguntas certas não é tudo

Carolina

Eu tenho um medo terrível de falhar nas coisas que faço bem - e eu acho que faço pouca coisa bem. O campo "trabalho" sempre foi o meu porto seguro - mesmo quando estudava já era assim: tinha boas notas, os professores gostavam de mim, sentia que correspondia bem às minhas expectativas e às responsabilidades e portanto, mesmo sabendo que era uma treta em tantos outros campos, aquele cantinho da minha vida reconfortava-me. Quando comecei trabalhar tive a mesma sensação - acho que sempre fiz bem o meu trabalho, cumprindo com tudo o que me propus e me propuseram e isso concretizava-me muito, ao mesmo tempo que me descansava: ufa, eu era boa em alguma coisa!

Inicialmente, o meu trabalho no jornal tinha uma componente informática muito grande - e eu estava a delirar por estar a trabalhar em informática, a escrever aqui e ali e a lidar com têxtil. Era a receita perfeita para todas as áreas que eu amo. Mas ao longo dos meses acabei por ir escrevendo mais, e mais, e mais. Por um lado é uma coisa boa: é a consagração daquilo que eu acho fazer de melhor, que é escrever; por outro, implica um jornalismo "puro", que eu acho que não faço bem e por isso sinto-me indubitavelmente mais frágil. A quantidade de coisas que tenho aprendido nos últimos meses é imensurável mas uma das coisas que me dá mais gozo é ver como se desenrola uma entrevista ou uma conversa; sempre que ouço ou acompanho os meus colegas numa entrevista, fico quase hipnotizada pela capacidade que eles têm de "arrancar" informações às pessoas, de faze-las dizer certas coisas com perguntas que por vezes não têm nada que ver, de fazer rolar uma conversa normal, descontraída, mas recheada de conteúdo informativo - e ainda assim ser uma troca de diálogos que se ouve com gosto. E também é nesses momentos, em que os vejo fazer essa arte, que percebo (ou acho) que de facto não fui feita para fazer perguntas. Se calhar fui feita para escrever respostas, pensamentos, críticas - mas perguntar não parece ser a minha praia (e isso, confesso, entristece-me).

De qualquer das formas, continuo a tentar - até porque tenho trabalho para fazer e, apesar das perguntas não estarem na ponta da língua, eu esforço-me sempre por fazer o melhor possível. Já percebi que me custa mais falar ao telefone do que pessoalmente, por exemplo; o primeiro contacto com outras pessoas é sempre um drama para mim, mas depois (em muitos casos) acaba por ser gratificante - e tenho passeado por aí, conhecendo fábricas e pessoas que, sinceramente, me acrescentam e me aquecem a alma. Olho para trás e percebo imediatamente que aquilo que vi e ouvi me acrescentou algo, que aprendi alguma coisa e isso é a melhor sensação que se pode ter.

Hoje, por exemplo, fui falar com uma estilista. Como sempre ia um bocadinho apreensiva, mas positiva de que ia correr bem (por aquilo que já conhecia dela). Normalmente, para o artigo que ia lá escrever, despacho uma conversa em quinze minutos, vinte no máximo - e hoje a conversa fluiu tão bem que demorou mais de uma hora. Antes do alinhamento de perguntas que tinha planeado acabei por falar um bocadinho sobre o jornal, os nossos planos para o futuro e até sobre mim. No meio daquilo tudo, e enquanto lhe dizia o que queríamos fazer, os nossos novos projetos e até algumas reportagens que eu tinha curiosidade em fazer, ela diz-me - não em forma de pergunta, mas sim numa afirmação: "nota-se mesmo que gosta do que faz". E eu, nesse momento, respirei de alívio e fiquei tão feliz. Foi a primeira vez que alguém me disse isso - e eu, naquele momento, estava mesmo a adorar o que estava a fazer.

Se calhar, ter língua de perguntador não é tudo. Se calhar, uma pinga de antissociabilidade, a falta de à vontade para falar com pessoas e um não-amor pelo jornalismo conseguem ser ultrapassados por algo maior. Se calhar a paixão que tenho por este mundo basta. 

23
Abr17

O problema de sempre

Carolina

Chateia-me escrever este post, porque sinto que me estou a repetir. Ainda que por outras palavras, já o escrevi: e de cada vez que o escrevo, é quase o admitir de mais uma derrota. Mas há coisas na vida que são tão constantes como a nossa sombra - nunca desaparecem e nunca saem da nossa beira e esta é uma delas: a péssima relação que tenho com o meu corpo.

No que a isto diz respeito, vivo constantemente numa relação precária e instável: e tem pouco que ver com os números da balança ou até daquilo que se reflete no espelho. O problema é mesmo aquilo que o meu cérebro processa quando vê a imagem do meu corpo refletida, que depende não do meu peso, mas do meu estado de humor, da quantidade de exercício que fiz nos últimos tempos e daquilo que eu comi. Consigo perceber, racionalmente, que não tenho o corpo que queria; mas também sei que há muitos momentos em que me acho gorda e sei que não o estou. Simplesmente não estou como quero ou como me desejo.

Outra coisa que aprendi nos últimos anos é que não vou chegar, nunca, a ter esse corpo: mesmo que me apaixonasse subitamente pelo exercício físico, por saladas, super alimentos e coisas que tais. Porque o corpo que desejamos nunca é o corpo que temos. De qualquer das formas, a questão nem se põem: eu não consigo gostar de ir ao ginásio, de fazer exercício. E eu juro que já tentei! Passei uma fase mais estável aqui há uns anos, mas desde que o meu ginásio fechou, nunca mais consegui estabilizar; o outro onde andei era longe de casa, em dias de trânsito demorava meia hora a lá chegar e a situação tornou-se incomportável. Com este, fiz uma escolha errada: preferi escolher um mais perto do trabalho, com um horário de aulas que inicialmente me parecia apetecível, mas que acaba por não funcionar com o tipo de trabalho que tenho e a pouca força de vontade que me move. Para além de que comecei com o pé esquerdo, com umas aulas de PT que continuo a preferir nem sequer me lembrar. Infelizmente trata-se de um ginásio com fidelização e o meu dinheiro continua a voar sem eu lá pôr os pés há meses e sem encontrar grande solução à vista ou vontade de voltar.

O que é estúpido, porque quando estamos descontentes com uma coisa o mais lógico é lutarmos para contornar essa situação. O problema - no meio de tantos outros - é eu detestar o ginásio quase tanto como detesto os defeitos do corpo que me carrega a alma. É eu ter vergonha de ser aquela que se atrapalha sempre a fazer tudo, é eu ter vergonha de não conseguir pegar num peso mais alto enquanto toda a turma pega naquilo com o mindinho, é eu ter medo de cair do step (como já caí), é eu não gostar que olhem para mim nem mesmo quando é para me corrigirem posições corporais, é eu ter vergonha de ser a primeira a desistir de um exercício porque já não aguento mais. O problema são muitos pequenos problemas, que são autênticas bolas de neve.

E não adianta dizerem que nos ginásios cada um olha por si, e que não faz mal em ser trapalhona e fraquinha e tudo mais: porque eu posso ser neurótica, mas sinto-me sempre observada. E, enquanto observada, mais fraca. Fragilizada. Sinto-me no meu pior, ali. Mas também não vale a pena afirmarem que eu estou óptima, porque eu sei que não estou - e, acima de tudo, sinto que não estou.

Aos meses que ando nisto, a tentar desfazer os nós deste novelo que me consome a alma e que anda com a minha auto-estima de arrasto pelo chão: ao ponto de querer que chegue o bom tempo, mas não ter a mínima vontade de pôr dentro de um vestido ou de um fato de banho. Sinto que já disse demasiadas vezes "é agora", sem nunca conseguir avançar significativamente: e por isso é que este post é o admitir de mais um falhanço. Tenho vergonha. Mas pior do que ter vergonha, é olhar para o baralho de cartas que disponho à minha frente e não ver grandes jogadas para onde me mover e ganhar o jogo. É pensar: "ou tens uma injeção de força de vontade para saíres daqui ou deixas-te ficar" - e não quereres nem uma, nem outra. É a escolha entre o conforto do comodismo e da infelicidade ou da motivação, das dores, dos possíveis dias maus, dos metros longe da zona de conforto e dos potenciais resultados. É escolher sempre por um caminho que nunca vai saber bem: ou pelo fim ou pelo meio para atingir o fim. 

17
Abr17

Dog Lady

Carolina

Ando outra vez em fase de limpezas no computador e no telemóvel. Já há meses que andava a receber notificações, tanto no telemóvel como no computador, de que tinha a iCloud a arrebentar pelas costuras e decidi começar a gravar tudo, a selecionar, a apagar e a arquivar. Ainda não acabei, mas isso não interessa para o caso. Mas sabem o quê que me ocupa o espaço todo que tenho no telemóvel e que revela bem aquilo que sou? Fotos dos meus cães.

Comigo, sozinhos, em passeio, em casa, deitados, sentados, a fazer palhaçadas ou truques, a dormir ou a correr. Cães, cães everywhere. Principalmente a Molly, que eu apelido (justamente) de minha sombra. Ela de cadela de caça passou para cadela de casa e já não sabe viver sem calor humano - e, desculpem, acho que gosta do meu em particular. <3 

Acho que já aqui disse que as análises às nossas redes sociais (e galerias de imagens) dizem muito sobre nós e as minhas são um raio-x perfeito da minha vida, porque não têm pessoas - a não ser, em casos raros, os meus pais. Tenho fotos minhas, dos meus livros, de paisagens, dos já falados canídeos e até de outros animais que vejo na rua: mas fotografias com outras pessoas não chegam a representar 5% da minha galeria.

Isto não é uma coisa nova para mim - não sou pessoa de pessoas, apesar de sentir que isto se tem agravado nos últimos meses. Depois de sair do trabalho prefiro fechar-me na minha bolha - também apelidada de casa - e só há dias é que percebi que há meses não punha (por exemplo) os pés num shopping, quando olhei à minha volta e já havia imensas lojas novas, diferentes e renovadas. E aí fiquei preocupada, porque apesar de nunca ter companhia para quase nada, nunca me privei de fazer o que quer que fosse: e agora prefiro ficar em casa. E eu sei que isto é mau, sei que isto faz parte de um buraco que estou a cavar e que depois vou ter dificuldade em sair... mas a questão da solidão continua a ser uma coisa central na minha vida e por muito que eu escreva, pense e repense, não consigo modificar. 

Mas enfim, no meio disto tudo, ainda há os cães, que têm vindo a colmatar a falta de pessoas na minha vida. E isto, lido por alguém hiper social, deve soar ridículo (e a mim, que sempre tive cães, também me é estranho porque só agora está a acontecer): mas eles têm sido uma companhia constante e essencial nos últimos meses. Nos dias maus, antes de qualquer outra coisa, são eles quem me arrancam o meu primeiro sorriso. Aquele amor incondicional e aquela presença constante têm-me enchido o coração de amor nesta fase que, sinceramente, tem doído a passar. É o facto da Molly vir dormir para o chão, ao meu lado, enquanto eu estou deitada no sofá; é pôr a pata por cima da minha mão quando me deito ao seu lado; é colocar o focinho no meio das minhas pernas enquanto tomo o pequeno almoço; é dar-me uma (e só uma) lambidela quando a vou cobrir antes de me ir deitar. É reconfortante e tão importante nos últimos tempos...

Não sei explicar, mas estou em crer que isto só consolida a minha posição enquanto anti-social em crescimento. Há pessoas que, olhando para mim, já me dizem "não me digas que vais ser uma cat lady!". Não, acho que não vou. De qualquer das formas, também já não preciso: ser, com 22 anos, uma dog lady, já me parece mau o suficiente.

 

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07
Abr17

Eu, fazedora de coisas terríveis de última hora, me confesso

Carolina

Sempre fui uma miúda certinha mas nunca gostei de fazer os trabalhos de casa. É verdade e está na altura de confessar aqui os meus pecados. Às vezes, ainda na primária, dizia que me tinha esquecido do caderno nos TPC's quando, na verdade, tinha-me esquecido era da vontade de os fazer. Já mais tarde, adiavaaaaa a todo o custo faze-los até que dava por mim, arrependidíssima a altas horas da noite, a fazer os trabalhos de casa na cama. Chegou até a uma fase em que, consciente do mal que não fazer os trabalhos de casa me fazia, fiz um pacto com a minha colega de carteira: se eu não fizesse os trabalhos de casa de Português (na altura, uma das minhas piores disciplina - e sim, a vida dá muitas voltas) tinha de lhe comprar e dar um chocolate. Ora isto era mau porque 1) sempre fui forreta e não queria comprar chocolates para os outros e 2) porque eu queria mesmo muito comer os chocolates que comprava (achavam que isto da #lontra era de agora? Nã!). E admito: mesmo assim, cheguei a comprar chocolates para lhe dar em forma de consequência.

Isto para dizer que eu tenho a tendência terrível de deixar as coisas que mais me custam fazer para o fim. Como eu detestatava os TPS's adiava-os ad eternum, até não os fazer ou faze-los em cima do joelho. Hoje em dia, ao contrário do que acontecia por vezes nesses tempos, faço sempre as coisas - às vezes tenho crises terríveis antes de as fazer, choro e berro e arrependo-me de me ter comprometido - mas faço sempre. Faltar com a minha palavra é algo que não tolero. Mas lembro-me vivamente do meu irmão e da minha cunhada me tentarem evangelizar para o lado do bem ("faz primeiro os trabalhos de casa e depois vai brincar") e de eu, embora soubesse que era o correto, nunca levar esse lema de vida avante. 

Hoje percebo que faz parte do meu ADN - e não gosto, este stress ainda me mata um dia destes. Já na faculdade era a mesma coisa (embora o problema fosse ainda pior, porque era generalizado: eu não gostava de nada!). Tudo para o fim, um sufuco, privação de sono, ai-meu-deus que isto não vai dar, que vou fazer da minha vida, lá vou eu reprovar, faltam três minutos para o prazo de entrega e uff... entreguei. E depois tenho boa nota, porque trabalhar sobre pressão é claramente a minha cena. 

E agora no trabalho o filme repete-se. Todos os meses lançamos um jornal em papel, a cada mês eu tenho mais coisas para tratar, mais entrevistas para fazer, mais pessoas para ligar e... o caldo está entornado. Trato de tudo o que posso por email, tento sempre fazer a primeira abordagem por escrito... mas as pessoas não respondem e eu aí tenho mesmo de passar para essa arte antiga e terrível que é falar com os outros. Escrevo o que posso, mas fazer contactos é coisa para me custar tanto como ir à depilação - então se for com gente conhecida, que eu estou sempre à espera que me peça um chachet (que eu não tenho) em troca de umas meras palavras ou meia-dúzia de linhas, aí é que eu fico desesperada. E, claro está, deixo sempre para a última. 

A maioria das mulheres têm, durante o mês, aquela semana do demónio que é quando lhes vem o período (eu, por acaso, não sou exemplo); já eu também tenho uma semana de demónio que é quando estamos a fechar o jornal. Por outras palavras, é aquela semana em que eu me apercebo que quer queira, quer não, vou ter mesmooo de ligar a dezenas de pessoas para conseguir entregar o meu trabalho. Enfim. Agora percebo que devia ter dado ouvidos ao meu irmão e à minha cunhada. 

03
Abr17

Posso continuar a viver ou preciso de dormir mais um bocadinho?

Carolina

Não me lembro de escrever tão pouco como tenho escrito na última temporada e isso entristece-me . Há uns anos provavelmente estaria a agoniar, a dizer que isto seria o fim deste projeto que me é tão querido, mas ao menos nisso estou relaxada: sei que é uma fase. Mais do que isso, sei que é em parte o embate da vida adulta. Acabaram-se as abébias, os recursos, as férias de natal, da Páscoa, os dias do Carnaval e as férias grandes, os intervalos, as responsabilidades para cima dos professores, as três faltas por semestre a cada disciplina. E isso, para mim que não gostei da faculdade, é bom: mas, como em todas as mudanças, custa. 

E eu dei muito de mim nos primeiros meses desta aventura. Atirei-me a tudo, defini planos e objetivos; trabalhei aos fins-de-semana, fiz-me escrever aqui todo os dias, planeei limpezas e arrumações no quarto todo, inscrevi-me num PT (a pior ideia do ano), quis ir para o ginásio antes das oito da manhã. Não descansava, nem queria. Tudo era trabalho e tudo eram objetivos porque eu sou feliz a fazer "checks" na minha agenda. Mas esqueci-me que depois não tinha férias, que a vida era diferente, que os ciclos de stress são agora muito mais pequenos, maiores e repetitivos. E as coisas foram caíndo, uma a uma. Primeiro o ginásio, depois a escrita à noite (passei a escrever tudo aos fins-de-semana), a seguir as arrumações. Nesta fase final, cheguei a achar que não conseguia fazer o meu trabalho direito, atormentada pelas coisas que sempre me atormentam (falar com pessoas, ligar para pessoas e essas coisas "maléficas") e, por fim, a escrita. 

Pelo meio aconteceram coisas, claro. As viagens - uma turbulência imensa ao nível emocional e um cansaço enorme ao nível físico - e alguns stresses na família, ao nível da minha saúde e da dos meus. Quando são os outros, a vida pesa-nos nos ombros, mas fazemo-nos de fortes porque há outros que têm de recuperar; quando somos nós a história é outra e, no meu caso, a pintura é ainda pior devido à minha fobia de médicos. Mais do que qualquer complicação de saúde (mínima) que possa ter, o sofrimento emocional supera normalmente qualquer dor física e o stress e o pânico que vivo diariamente tiram-me o fôlego de viver.

Mas no fundo, é acima de tudo cansaço. Tenho dormido muito nos últimos meses. Coisas tão simples como deitar-me no sofá para dormir uma sesta e acabar por lá ficar quatro horas sem dar por isso; ou trocar uma tarde de sol por uma tarde de sofá, ronha e sonos prolongados. Não consigo ver séries ou filmes porque adormeço a meio, o livro continua praticamente intacto na mesinha de cabeceira porque a vontade de ler antes de dormir é inferior ao sono que já tenho quando chego à cama. Mas, para mim, isto não é vida. Acho que escrevi aqui há uns meses algo parecido com "agora que sei o que é isto da felicidade, não quero outra coisa" - e eu quero muito passar ao próximo nível. Dizer "pronto, já está, já caíste, já choraste, já descansaste, agora oupa!". O Verão está aí ao virar da esquina, eu quero ir perder uns quilos ao ginásio, quero estar pronta para desfrutar do momento em que meter as minhas merecidas férias, quero ir acampar, quero ler, quero escrever. E, até lá, quero trabalhar - que é a única coisa que tenho feito, porque é onde canalizo todas as minhas energias e atenções quando as coisas à minha volta não estão tão bem como queria.

Tenho aqui um post que nunca chegou a ir para o ar que se intitula "only work can save us". Para mim - e pelo menos neste emprego, que apesar de não estar dentro da minha zona de conforto me faz feliz, e onde trabalho com pessoas que adoro - é mesmo verdade. Há uns meses alguém comentou aqui dizendo que eu, tão nova!, já tinha uma relação pouco saudável com o trabalho - e eu acho que isto depende muito dos pontos de vista, porque todos somos diferentes e nos movimentamos com diferentes combustíveis, mas eu diria que trabalhar é das coisas que me faz sentir mais viva e realizada nesta vida. Acima de tudo, porque é a área em que sinto que sou boa e onde me consigo superar. Porque em tudo o resto... bom, relativamente a tudo o resto... o melhor é nem olhar com muita atenção. É caso para me dizer que tudo o resto me afunda, enquanto o trabalho me mantém (bem) à tona da água.

Pouco a pouco espero ir reavendo a minha vida, repescando os objetivos que foram caindo ao longo dos meses e deixar este cansaço do demónio nestes primeiros três meses do ano. Com os dias a crescer a cada entardecer, com o relógio a bater cada vez mais perto dos dias quentes de verão... quero a vida boa de volta e quero saborear cada momento como fiz no ano que passou. Estou cansada de estar cansada. Quero continuar.

30
Mar17

Um balde a transbordar de água

Carolina

Estava a tentar escrever um post sobre a minha vida (como está, porque está e essas coisas do costume) e apercebi-me de que aquilo que saiu é precisamente um espelho do meu estado: escrevi um texto que mais parecia uma mixórdia, com mais de oito mil carateres (traduzindo: três páginas de word), onde falava sobre a mesma coisa sensivelmente trinta vezes e que nunca, mas nunca mais conseguia terminar. Ideias isoladas, pescadinhas-sem-rabo-na-boca, raciocínios pouco lógicos que tentava tornar lógicos quando eram à partida ilógicos. Em resumo: uma tragédia. 

Sabem quando enchem um balde de água tão até cima que ele começa a transbordar? E que ele nunca vai parar de transbordar enquanto a torneira não se desligar? Portanto, das duas uma: ou esvaziam o balde ou desligam a torneira. O ato de esvaziar o balde, para mim, é a escrita; o de desligar a torneira é morrer (e isso, só quando for velhinha). Como não tenho escrito, estou a transbordar por tudo quanto é lado - e desconfio que a pressão é tanta que já estou a fazer furos no balde.

É muito raro eu ter dificuldade em escrever, organizar as ideias para um texto, saber aquilo que devo utilizar e aquilo que devo deitar fora. Mas ali, naquele texto, pus tudo - e ainda faltava tanta coisa! Ando simplesmente cansada, com preguiça de pôr as coisas "no papel" - precisamente por ter tanto para dizer. Há tanta coisa dentro daquele balde que até eu, perita em auto-analisar-me, estou com dificuldades em desembaraçar tudo, analisar e arrumar nos devidos sítios.

Sabem uma coisa? Há dias em que apetece trocar de balde. Dava jeito ter um Continente para este tipo de coisas. [Quero tanto voltar ao normal. Estou tão cansada desta fase de merda que só quero um choque bom para acordar para a vida.]

 

25
Mar17

Uma vida no meio dos trapos

Carolina

Quando era miúda havia duas coisas que queria muito fazer: a primeira era ir a um casino, a segunda era ver um desfile de moda. Quanto ao casino, tinha de ter idade para lá entrar; acabei por nunca entrar num tradicional, mas o mini casino no cruzeiro que fiz já me matou a curiosidade que tinha. Já relativamente ao desfile de moda, fartava-me de chatear o meu pai para me levar, e ele nada.

Na minha cabeça, o têxtil - onde a minha família sempre trabalhou e onde eu cresci - era uma coisa intimamente ligada à moda. Dos panos passava-se para a roupa e pronto, estava feito; vim mais tarde a perceber que embora as coisas sejam mais ao menos assim na realidade, muitas vezes estamos tão habituados a ver as coisas de um ponto de vista fechado de que nem nos lembramos do produto final. Um rolo de pano é um rolo de pano - e, acreditem, já dá muitos problemas por si só. Não interessa se vai para camisolas ou casacos; para a Zara ou para a Gucci; para o estudante de moda ou para um estilista de renome. É pano, já dá problemas que chegue, há outros que vêm a seguir e a vida segue neste nicho. Eu compreendo que isto seja assim, mas sempre vi mais além.

Quando roubava as amostras de tecidos das fábricas, imaginava o que dali iria sair. Houve uma fase em cosia as minhas próprias carteiras com aquilo, vestia algumas bonecas e empilhava pano para futuras ocasiões (que nunca viram a luz do dia). E por isso a têxtil, que apesar de tudo é a minha "casa mãe", sempre foi um meio para atingir um fim de que também sempre gostei muito: a moda. Daí a minha curiosidade eterna em ver um desfile, em perceber aquela dinâmica.

Hoje também entendo o ponto de vista do meu pai, que nunca me levou a estas coisas: um desfile de moda não é só um desfile de moda, da mesma forma que um rolo de pano não é só um rolo de pano. A moda é um circo de vaidades. É a fome de aparecer, um mundo de egos exacerbados, de uma competitividade fora de série, de invejas e mesquinhices terríveis. E eu sempre fui educada no sentido exatamente oposto: acima de tudo, no recato. Sempre fui perita em não mostrar, nunca me quis enaltecer por bens materiais mas sim por aquilo que era.

Mas, para o bem e para o mal, só mostramos aquilo que somos quando nos damos a conhecer (e todos sabemos que essa não é a minha especialidade). É muito mais fácil mostrar a roupa nova, o corpo de revista, a casa grande. E, no fundo, nos desfiles, está meio mundo desejoso de ter um fotografo qualquer a perguntar se pode fotografar o seu look, a perguntar que marcas tem vestidas; tudo tira fotos aos seus passes gold, muito bem conseguidos por cunhas travessas, tudo quer ter uma foto na passarela com os seus melhores trapinhos. E embora isso não seja eu, não faça parte de mim, não consigo deixar de me sentir um bocadinho em casa: porque aquelas roupas que desfilam, serão sempre os trapos que eu vi naqueles rolos quando era criança; são, ainda que melhor executadas, as ideias que tinha quando me punha a mexer na minha mini máquina de costura.

Há um ano realizei um sonho: vi um desfile. Na altura fiz aqui um post, que nunca chegou a ir para o ar, que demonstrava o quão feliz estava por ter feito um "check" em mais um sonho da lista mas, ao mesmo tempo, o quão deslocada me sentia num mundo que era o meu, que sempre foi meu, mas que não tinha nada que ver comigo. No fundo, como em quase tudo nesta minha vida. A parte boa é que me vou habituando. E, pelo caminho, vou desfrutando da sorte que tenho.

A verdade é que não tenho posto muitos posts positivos por aqui, mas cá vai: os sonhos realizam-se, mesmo estes, que parecem pequeninos mas que não deixam de nos alimentar a alma. Hoje fui a mais um Portugal Fashion, sozinha mas sempre bem acompanhada, ao desfile que mais queria, com um badge no peito que dizia "press", algo pelo qual lutei mas nunca esperei. Porque para além dos sonhos, a vida também tem disto: surpresas. E algumas, como esta, são muito boas. Fica a foto para a posteridade. 

 

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