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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

20
Mar17

Grata

Carolina

Não sei porque não gosto de fazer anos, mas é uma coisa quase visceral. É acordar de manhã e pensar "oh não..." e querer e ficar mais um bocadinho na calmia dos lençóis. Tento sempre decifrar este tipo de sentimentos, perceber porquê que ao contrário das pessoas normais eu não consigo estar feliz neste dia que me celebra. Ainda não consegui, pelo menos de forma completa - mas acho que estou a chegar lá. E é o mesmo problema de sempre: as pessoas.

Este dia é um reminder de todas as pessoas que ganhei, que conquistei, que gostam de mim e que me amam; mas também é uma lembrança de todos os que perdi. Todo ele é uma gestão de expectativas. É estúpido, até porque as coisas nem sempre são lineares e eu já me esqueci de dar os parabéns a pessoas importantes para mim - mas é o que é.

É perceber quem se limita a escrever "parabéns" no teu mural do facebook; quem, ainda que não se lembrando, vê no facebook e pega no telemóvel para te mandar uma mensagem; é ver quem te liga e ainda manda uma mensagem como bónus; é ver quem te liga do nada, de forma inesperada e sem qualquer compromisso; é ver quem te escreve coisas bonitas, quem te diz que tem saudades mesmo não falando durante os outros 364 dias do ano  - e tu fingires que acreditas - e é ver quem não faz nada disso. E é perceberes que antes aquela pessoa te ligava e agora só te manda uma mensagem quase monossílabica; e é entenderes e veres na profundezas do teu ser que querias que aquela outra te dissesse mais que "parabéns".

A verdade é que as palavras valem pouco e os gestos falam por si e mais alto que qualquer outra coisa. O aniversário e só um dia - graças a deus! - mas serve de amostra daquilo que temos. Acho que mentimos quando dizemos que não nos importamos quando alguém de quem gostamos se esquece de uma data que, quer queiramos quer não, é especial; tão e simplesmente porque isso quer dizer que não pairamos na cabeça daquela pessoa, que não estamos no seu "espectro". E isso é triste, porque todas as relações - quer sejam de amizade, companheirismo ou amor - que não são correspondidas são simplesmente tristes.

Acredito muito em mim em determinadas coisas e relativamente a certas competências - mas nunca me apercebo do apreço que potencialmente os outros podem ter por mim. Acho sempre que sou o elemento descartável, o que não faz falta, o de substituição. E pode ser paranóia, e em alguns casos sei que sim, mas é algo que não consigo evitar; acho que há feridas que vão ser para sempre mal curadas, há coisas que doem demasiado, há perdas demasiado pesadas para serem esquecidas. E eu tenho, desde cedo, um saco cheio.

Por outro lado, hoje tive surpresas boas - principalmente vindas do mundo do trabalho. Sempre disse que não queria inimigos e sinto que estou a colher os frutos de uma entrada pacífica no mundo do trabalho. Recebi chamadas e mimos que nunca, nem nos meus sonhos, pensei receber. E fiquei mesmo, mesmo sensibilizada - ao ponto de me apetecer chorar um bocadinho de cada vez que clicava no "vermelho" do desligar. Os meus sobrinhos também me fizeram duas surpresas maravilhosas, com um recital de um poema e uma canção para mim, e eu não tenho como ficar derretida perante tantos gestos de carinho.

Obrigada a todos, do fundo do coração, pelos desejos de um bom aniversário. Foi mais um, já acabou e eu estou feliz por ter chegado ao fim. Agora tenho 364 dias de sossego =)

20
Mar17

22 velas

Carolina

Hoje faço anos. Sempre que me perguntam qual é a minha data de aniversário digo "20 de Março" e, normalmente, acrescento: "ou acabo com o Inverno ou começo com a Primavera". É algo que acho giro. Não gosto de fazer anos, mas gosto do dia que escolhi (ou escolheram) para eu nascer: tanto pelo número como por esta particularidade que, por acaso, acho que tem muito que ver comigo.

Infelizmente, acho que sou um bocadinho desiquilibrada no que diz respeito ao estados de humor: ou estou muito bem ou estou muito mal. Não sou de muitos meios termos. Ou sou Inverno ou sou Primavera. Porque muito embora a estação "rival" do Inverno seja o Verão, a verdade é que a mudança mais drástica se dá na altura da Primavera: passamos de dias frios para um calorzinho bom; de árvores despitas para os troncos em flor; de céu cinzento para céu azul; de camisolas de gola alta para t-shirts de manga curta; de galochas para sandálias. E isso representa-me. Eu tenho verdadeiramente dias - e fases - de Primavera e outras de Inverno. E a verdade é que eu fujo da estação fria - tanto no sentido literal como figurado - como um gato foge de água, mas a verdade é que a vida se faz com todas as estações do ano.

Hoje, para além de fazer anos, começa a Primavera. Em 1995, há precisamente 22, era o último dia de Inverno. Contam-me os meus pais que estava um calor dos ananáses, vindo sabe-se lá de onde. Que passaram dos agasalhos para as mangas curtas, literalmente, do dia para a noite. Só previa aquilo que aí vinha - eu e as minhas mudanças drásticas de "temperatura".

Não escondi que nos últimos tempos o Inverno morou para estes lados. Tenho tentado gerir da melhor forma e passar para o outro lado da barricada - o florido, de céu limpo e todas essas coisa boas - e acho que, pouco a pouco, a coisa está a ir ao sítio. De uma forma geral tive uns 21 muito bons; revolucionaram-me a minha vida, foi um ano de mudança e de coisas muito, muito boas. De férias e momentos espetaculares, que guardo como referência daquilo que quero para os meus dias: leveza, saúde e simplicidade. Acho que o resto vem.

Hoje começa a Primavera. E eu, se pudesse pedir um desejo relativamente a estes 22 acabadinhos de chegar, era isso mesmo: que fosse Primavera durante grande parte dos meus dias.

 

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(desculpem, tinha de ser. são 22... mas com a panca do costume)

 

17
Mar17

Eu, ignorante de leguminosas, me confesso

Carolina

Gosto de todas as semanas ir à feira - já o tinha dito aqui que, para além de ser velhinha de alma por todas as outras razões, até nisto pareço ter 80 anos. Vou à feira, levo carrinho de mão para não transportar os quilos de fruta nos braços e, se tal não bastasse, ainda lá vou ao início da manhã, antes de ir para o trabalho.

A verdade é que no verão não é estritamente necessário ir com as galinhas, porque só costumo ir à fruta e essa há sempre para dar e vender, mas nesta altura do ano gosto sempre de comprar agriões - que não tenho aqui na horta e são os meus legumes favoritos para pôr na sopa - o que só se arranja de manhã (pelo menos vivos e com bom aspeto, porque depois do meio dia, os que sobraram, já estão todos com um ar morto e enterrado). O problema é que eu sou uma ignorante no que a leguminosas diz respeito. 

Normalmente faço-me de hiper distraída, olho para a banca cheia de tralhas com um ar meio esgazeado, como se não encontrasse nada, e pergunto à senhora a quem compro sempre os legumes: "Bom dia! Então e agriões, não tem?". E ela lá me diz, com um sotaque carregado, que "estão aí em baixo, do seu lado esquerdo" ou "estão mesmo à sua frente, freguesa!". Mas hoje era ela que estava (verdadeiramente) esgazeada, com clientes para trás e para a frente e sem tempo para olhar para o lado, e eu senti que tinha de arriscar se não queria ficar ali a manhã inteira. Já me tinha acontecido e quando cheguei a casa levei um sermão porque em vez de agriões... trouxe espinafres.

E hoje, enquanto me baixava para apanhar os meus espero-que-sejam-agriões, rezava para não me enganar. Pus um molho numa saca, outro noutra. Nisto, uma senhora pergunta "menina, não tem espinafres???". "Tenho querida, estão ali". O "ali" era ao meu lado. Sim, no sítio onde tinha ido os buscar os meus espero-que-sejam-agriões. Mas a verdade é que as coisas estavam todas empilhadas, coladinhas umas às outras, um manto de verde sem fim. Olhei para aquilo em que a senhora tinha pegado e que tinha a certeza serem espinafres e olhei para o que tinha no meu saco. Olhei de novo. E de novo. E depois de nem sequer conseguir ver muitas diferenças, aceitei o facto de que mesmo que fossem espinafres aquilo que eu tinha ensacado, já não ia ter lata para os pôr de novo no sítio e pegar nos agriões-verdadeiros. Pedi para pagar e o meu coração relaxou um bocadinho quando ela me pediu 70 cêntimos por molho - é aquilo que pago sempre, mas uma pessoa nunca sabe se os espinafres valem o mesmo. Por isso fiz a prova de fogo: vim para casa.

Mal cheguei, avisei logo: "acho que trouxe espinafres". Mas não! Afinal eram mesmo agriões. Acho que tenho uma inaptidão natural para comprar legumes. Ou então sou mesmo cegueta.

 

(E olá! Estou de volta!)

11
Mar17

Sobre uns dias negros de uma vida (ainda que passageiros)

Carolina

Quando estamos no pico do verão, com um calor dos ananases em que mal se consegue respirar, eu às vezes olho para as roupas de inverno - as malhas, as lãs, as caxemiras, as golas altas - e penso "como é que eu consigo usar aquilo?". A sensação térmica que estou a sentir naquele momento varre-me completamente da memória aquilo que é o frio e que nem sempre estão 35º; que às vezes estão 2º,5º,7º e que de facto eu tenho muito frio e preciso daquilo tudo para me sentir bem. São dois pólos tão distantes que parecem irreais.

E é isso que tenho sentido nos últimos tempos. Neste momento estou no inverno, com chuva e tempestade, e penso nos tempos quentes, bons e felizes e até me questiono até que ponto é que aquilo aconteceu mesmo. Da mesma forma que eu, no pico do verão, olho para as camisolas de lã e penso "como raio é que eu uso isto", agora tenho olhado para os meus últimos meses e penso "eu consegui mesmo estar assim tão bem?". Parece mentira, quando agora sinto o oposto.

E acho que a dor agora ainda é pior, por saber que já estive bem, que consigo estar numa posição melhor que esta, por saber que sou melhor que isto. Sou aquele tipo de pessoa que nunca precisou de grandes raspanetes: porque antes de alguém mos dar, já eu estava a auto-chicotear-me mentalmente pela merda que tinha feito; as pessoas mais próximas de mim sabiam que repreender-me era uma segunda punição, porque a primeira era automaticamente dada por mim. E é isso que acontece aqui, todos os dias. Para além de tudo mais, para além de todas as razões no mundo que encontro para me deitar abaixo, ainda tenho uma voz crítica por cima do ombro que quase me insulta por isto estar a acontecer. Outra vez. Mais uma vez. 

A verdade é que quando estamos na mó de cima nos esquecemos do que é estar na mó de baixo. E os obstáculos são muito mais fáceis de saltar quando nos sentimos bem, inspirados, felizes e achamos que conseguimos conquistar o mundo. O problema é quando não estamos assim tão bem. Eu não sei quando nem como isto começou, mas acho que foi simplesmente despoletado por cansaço e por um alvoroço de emoções num curto espaço de tempo. Sinto que regredi tanto, tanto, tanto nestas duas semanas - e dói tanto, tanto, tanto sentir isso quando tinhas tanto orgulho em tudo aquilo que conquistaste.

O meu trabalho obriga-me a saltar, todos os dias, a minha zona de conforto - e isso, nos dias bons, é difícil, mas faz-se. E quando se faz, sabe maravilhosamente bem. Mas nos dias maus, parece uma missão tão impossível como subir o Himalaias. E olhar para o meu trabalho, que é sinceramente das coisas que mais me preenche na vida porque é das poucas que eu sinto que faço bem, e perceber que não o estou a conseguir fazer, que tenho prazos para cumprir mas que não estou a ultrapassar determinadas barreiras para os conseguir obdeceder... é de cortar a respiração. Ter de falar com pessoas, nas últimas semanas, virou outra vez um bicho de sete cabeças. 

Depois segue-se tudo o resto. É a velha história: uma pessoa, depois de tanto chorar, já nem sabe de que chora. Abrem-se gavetas que nós nem nos lembramos, as feridas pequenas já parecem autênticas cirurgias e todos os bichinhos que tínhamos guardados no sótão voltam a pairar à nossa volta. Oh, e se voltou tudo. 

Vou acabar uma série de trabalhos que tenho pendentes e que me estão a pesar nos ombros há demasiado tempo, depois vou respirar e voltar ao normal. Ao meu novo normal - aquele, de há uns meses atrás. Porque isto, esta Carolina, eu conheço de ginjeira. E detesto-a, o que piora tudo: porque vivermos diariamente com alguém que detestamos mata-nos por dentro. Assim como me mata dizerem-me que já não me reconhecem assim, porque só eu como me custa desiludir os outros; "onde está a Carolina decidida, racional, com objetivos?". Meu deus, como eu queria saber.

 

[obrigada por todos os comentários e palavras de carinho. não vou responder e não volto a escrever sobre isto enquanto esta crise não me passar. não me apetece dissertar sobre tristezas, dores e depressões, quando já percebi que há todo um mundo melhor para além disto. são estados de espírito que não quero promover e que não quero, no meu caso, prolongar. vai passar :) ]

07
Mar17

Letargia

Carolina

No início era a letargia. Aliás, se me perguntarem uma das coisas que mais detesto em mim, é esta veia letárgica. Se calhar, quando me questionam sobre os meus defeitos, eu lembro-me de tanta coisa e com nomes tão mais simples que são os primeiros que disparo; mas que não haja dúvidas que a letargia tem um viveiro algures cá dentro e é das coisas que mais mexe comigo. Ainda me recordo mais ao menos da altura em que descobri esta palavra e pensei "isto é tão eu; este é o meu mal". E é verdade.

Mas é isto: aí há umas duas semanas, a letargia instalou-se. Não sei se sabem, mas ela é assim tipo fungo: a partir do momento em que se aloja em alguém, é o fim do mundo para a tirar. Pode adormecer, mas volta sempre. E voltou em força e eu, que já não a via há muito tempo, deixei-me engolir. E a partir daí trava-se todo um processo diabólico, que me faz sinceramente sofrer. É aquela história do diabo e do anjo que se instalam nos nossos ombros e berram um com o outro. O diabo encarrega-se de me levar pela ribanceira abaixo, rindo-se maléficamente por eu me deixar ir; mas enquanto isso o anjo mói-me o juízo, grita-me aos ouvidos "porque raio é que te estás a ir abaixo quando não tens razão absolutamente nenhuma para te queixares, sua parva?". E aí, para além da letargia, eu fico irritada e chateada comigo mesma, porque o raio do anjo tem razão, porque eu estou bem, porque não tenho razão para estar assim quando há tanta gente mal no mundo, mas estou cansada, porra, e sinto-me mal na minha pele, e não tenho força de vontade para me meter num ginásio, e há coisas que não estão a correr como eu queria, e não ando com vontade de trabalhar, e acho que tenho vinte doenças e mais algumas, e preciso de sol e de algo que me dê vida e... e... sentiram-se cansados ao ler isto, não sentiram? É que eu sinto.

Ando triste, cansada, desinspirada, sem força, adoentada. Tenho-me sentido incompetente, sinto que estou a falhar, para comigo e para com os outros. Não tenho tido a capacidade de me superar e isso entristece-me imenso. E, por outro lado, sinto que já não sou esta pessoa que vive neste lado negro: sei que tenho um lado melhor de mim cá dentro, porque já o vivi, já o senti, já o transmiti aos outros. Mas má onda traz má onda, a ansiedade também se alojou em mim e trouxe-me mais uma série de problemas, começo a questionar as minhas decisões e escolhas, e tudo isto é como uma bola de neve que me engole sem eu conseguir pôr a cabeça de fora para respirar.

Se alguém se questionou pela falta de posts, esta é a razão. Não aconteceu nada. Sou só eu, a ser eu, no meu pior. Estou a tentar vir ao de cima.

28
Fev17

Ora então... bom Carnaval!

Carolina

Que me perdoem os foliões, mas eu não gosto nada do Carnaval. Acho que mesmo quando era pequena não era algo com que vibrasse muito. Tive um Carnaval que me marcou muitíssimo, passado com a minha família, mas não passa disso. Acho que a última vez que me fantasiei foi há uns oito anos, para uma festa onde uma amiga minha me levou de arrasto: fui de gato, esquecendo-me (na minha inocência) de que este animal fofinho tem uma conotação meio sexual, e passei a noite a ouvir "miaus" e coisas do género. Já não me bastava ter de estar numa festa e ainda levei com aquilo. Jurei que, enquanto me lembrasse, não me metia noutra (e, como se vê, ainda me lembro muito bem, portanto o retorno não está para breve).

Mas a verdade é que mesmo não participando no Carnaval há já muitos anos, em Maio do ano passado tive os meus 10 minutos carnavalescos, patrocinados obrigados pela minha mãe. Quando em Londres, numa visita a Camden, andávamos lá às voltas até que a minha mãe encontrou uma espécie de estúdio de fotografia, onde as pessoas se mascaravam para fazer sessões fotográficas temáticas; sei que havia três temas possíveis, mas só me lembro das damas antigas e da máfia. No fundo, é um souvenir personalizado (e caro) de uma visita a Londres.

A minha mãe delirou com aquilo, adorou a ideia, mas eu disse logo que nem pensar, não me ia vestir coisíssima nenhuma. Mas o dia não nos estava a correr bem, estávamos com o estado de espírito pelas ruas da amargura e, numa segunda passagem, a minha mãe voltou a folhear as fotos que havia à entrada e quis fazer uma coisa daquelas. E, pronto, uma pessoa pelas mães faz tudo. Lá escolhemos o tema, as roupas e os acessórios (eram postos por cima das nossas roupas), as raparigas puseram-nos um bocado de maquilhagem e lá fizemos a sessão fotográfica. Foi uma coisa de partir o coco a rir, eu achava que estava alucinar e nem me acreditava que me tinha metido naquilo. O fotógrafo dizia-nos como segurar no livro, para levantar o queixo, para olhar para o canto, para fazer isto e aquilo... e eu estava sempre à beira de um ataque de riso.

Ataque de riso esse que aconteceu mal nos sentamos no sofá e começamos a ver as fotos. Nem sequer consigo explicar bem, mas sei que estavam já outras pessoas a ser fotografadas (aquilo era um open-space, só com umas cortinas, o cenário era todo o mesmo para os diferentes temas mas tinha "cantos" específicos para cada um) e eu e a minha mãe começamos a rir-nos estéricamente daquilo que estava a passar no ecrã. Eu chorava, chorava, chorava de rir... acho que mal respirava. De cada vez que a rapariga mostrava uma nova, eu ia morrendo. Foi uma risota pegada e um drama para conseguirmos escolher três para imprimirmos e trazermos para casa (no início, só pensávamos trazer duas... mas as pérolas eram tantas que não deu para evitar).

Lá escolhemos, pagamos e mais tarde passamos para as levantar. Quando as vimos, voltamos a rir-nos à gargalhada. De facto, a experiência teve muita graça, mas aquilo é algo tão fora de mim que só mostrei as fotos a um par de pessoas (já a minha mãe, mesmo contra todos os meus pedidos, esparramou aquilo no facebook...). Ainda hoje, quando passo pela foto que a minha mãe emoldurou (!!!), me encolho de vergonha. Sim, teve graça, mas ainda não me acredito que posei como Dama Antiga, com um fotógrafo a dizer-me o que fazer e o diabo a quatro. 

Há uns dias, enquanto pensava no Carnaval e nos posts aqui no blog, lembrei-me disto. É uma pérola que tenho escondida há quase um ano - aliás, quando tive as fotos na mão, achei que as ia guardar para a vida. Mas a verdade é que há coisas demasiado boas para estarem escondidas - e embora esta seja uma faceta que, no meu caso, é pouco comum e que, sinceramente, eu tenho muita dificuldade em mostrar, ela há-de existir algures em mim. Por isso, meus amigos, bom Carnaval.

 

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27
Fev17

A minha loucura por camas elásticas (ou o meu plano na próxima ida a Lisboa)

Carolina

Há cerca de dois anos escrevi aqui um texto, na rúbrica "Miúda de 95", que não vos dizia nada em particular mas que para mim guardava uma memória especial. Foi este, em que falava das "camas pinchonas" do Algarve, que não passavam de um conjunto de camas elásticas que existiam na rua da Oura, em Albufeira, e que eu frequentava todos os anos, quando era mais nova. Na altura não havia nada parecido, a não ser nos complexos de ginástica, e ter um espaço onde eu pudesse saltar livremente durante dez minutos era assim a melhor coisa do mundo para mim. 

Entretanto esse complexo de diversões acabou mas a coisa das "camas pinchonas" ficou para sempre no meu imaginário. Já não salto numa cama elástica há uns 14 anos, mas sempre que olho para elas teletransporto-me para esses momentos de pura felicidade e liberdade de quando era pequena. E quero sempre voltar a saltar, mas muitas vezes a altura não é certa e a entrada é só para crianças. A verdade é que, para além do ginásio onde andei em pequena, nunca mais voltei a ver camas como aquelas do Algarve - existem aqueles círculos elásticos, com rede à volta, mas não é a mesma coisa.

Até que há uns dias vi um artigo qualquer que falava de um espaço chamado Bounce, em Lisboa que é... um complexo de camas elásticas. Fui à loucura. A minha mãe estava ao lado e olhava-me como se eu fosse uma autêntica criança que descobriu uma taça cheia de guloseimas. No fundo, é tal e qual aquilo que havia no Algarve mas em ponto ainda maior; na Oura havia tipo dez camas, lá parece-me haver dezenas - e com obstáculos para saltar, cestos para "afundar" bolas, camas de diferentes tamanhos para fazer diferentes brincadeiras, um sítio especial para jogar ao "mata" e umas camas para saltar para o "vazio". Enfim, o paraíso.

Estive a fazer uma pesquisa e o preço de entrada, por uma hora, são 12€ (mais uma meias que é obrigatório comprar, que custam dois euros, mas que são reutilizáveis) - o que, comparado com o que pagava no Algarve, é uma autêntica pechincha (acho que pagava o mesmo por vinte minutos). Mas a verdade é esta: até podia ser mais, porque eu ia na mesma. Até tremo só de pensar na possibilidade de ir. Isto é tão parvo... mas é algo que queria há tanto, tanto tempo que achava que nunca mais ia sair do meu imaginário e da minha memória. É quase como aquela história dos bolos das avós: é quase impossível voltarmos a sentir aquele sabor, aquela sensação especial - mas há sempre aquela réstia de esperança.

Na minha próxima ida a Lisboa, o Bounce vai ter de fazer parte do itinerário. Acho que à partida vou ter medo, mas também não duvido que depois de acordada a criança que há em mim... ninguém me para. (Podemos ir já amanhã?!)

 

 

22
Fev17

Há um ano tive medo. Há um ano comecei a ser mais feliz.

Carolina

Faz hoje um ano que me iniciei no maravilhoso mundo do trabalho (na altura ainda em regime de estágio) - e digo "maravilhoso" num misto de ironia com realidade. Cresci (e acho que crescemos todos) a ouvir cobras e lagartos sobre o mundo do trabalho; todos nos dizem para aproveitarmos os tempos de escola e de faculdade, que o que vem a seguir é muito pior, e acho que temos tendência a acreditar. Depois de vários anos de escola dolorosos e uma licenciatura também não muito prazerosa, vi a minha vida a andar para trás: se o que vinha a seguir era pior, eu estava tramada literalmente para o resto da vida. No entanto, e apesar dos "saberes das gentes", sempre acreditei que era a trabalhar que sou o melhor de mim. E acho que não me enganei.

Acho que o melhor elogio que posso fazer a este ano de trabalho (quer dizer, 9 meses de trabalho, porque ainda tive direito a férias de verão) é que foram poucos - mesmo muito poucos, provavelmente menos que os dedos de uma mão - os dias em que saí triste de qualquer um dos escritórios onde estive. Tive dias difíceis - os primeiros, por exemplo, doem sempre - mas os seguintes eram sempre melhores. Foram igualmente raros os dias em que acordei e não quis trabalhar, os dias em que fiz o caminho contrariada, os dias em que achei que não tinha nada para dar às entidades com quem trabalho. Errei algumas vezes - chorei quando cheguei a casa após o primeiro raspanete, com razão, que levei - mas acho que nós nos definimos pela forma como lhes damos a volta e pela honestidade e humildade com que os admitimos.

Sinto-me uma privilegiada - por tudo, tudo, tudo o que me rodeia. Logo à partida por ter trabalho e logo a seguir por gostar do trabalho que faço; por trabalhar com pessoas de quem gosto, por gostar do projeto em que estou inserida, por acreditar nele; por conseguir escrever, viajar, falar de moda e têxtil todos os dias, por poder vir almoçar a casa sempre que quero, por poder trabalhar na minha secretária ou na secretária dos outros, por não ter nada "meu" e ser tudo "nosso"; por, em apenas um ano, ter feito amigos (por esta não esperavam, hã?) e, mais do que isso, não ter feito inimigos (é isso que é difícil no mercado de trabalho, não é o que dizem?); por estar rodeada de muito mais pessoas de que gosto do que de pessoas de quem não gosto; por ter liberdade para fazer diferente e por ter dias diferentes todos os dias.

Sou uma sortuda. Nasci com sorte, mas tenho vindo a aprender que isso não é só genético: a sorte cria-se, luta-se, conquista-se; como tudo na vida, é também fruto do trabalho que fazemos ao longo do passar dos dias. E eu tenho feito muito por ela. Na última feira em que estive, já depois de Munique, várias pessoas passaram por mim e cumprimentaram-me pelo nome. A situação era tão embaraçosa quanto gratificante: porque a verdade é que eu não sabia a maioria dos nomes de quem me cumprimentava, mas eles (já) sabiam o meu. E, só isso, já é a vitória que procurava: é precisamente aquilo que vim para aqui fazer, o início do plano de vida que tracei para mim. 

Sei que nem todos os anos vão ser assim, que nós andamos constantemente numa montanha russa puxada por alguém com um humor instável e, por vezes, dotado de um sadismo cruel. Ainda assim, é impossível não querer acordar todos os dias para saber o que o futuro me reserva. Se isto é o início de uma vida, então eu quero mais. Muito mais. Que ela venha.

 

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20
Fev17

A simplicidade de um dia bom

Carolina

Hoje acordei com dores de garganta e a manhã começou logo com um problema chato para resolver, que me pôs logo a cabeça às voltas, em busca de soluções e planos. Não foi um bom início. Mas estava sol lá fora e mal me pus fora do escritório e senti aquele quentinho, típico de um dia de primavera, soube que tinha tudo para melhorar.

Almocei e fui ao correio, fazer uma prova de teste à meteorologia - pelo caminho tive de tirar o casaco e percebi que ao sol se estava maravilhosamente bem. Não estive com meias medidas: peguei nos óculos de sol e no computador e fui para a varanda trabalhar. Passado uns minutos estava a suar as estopinhas - levantei-me e vim trocar a camisola por a parte de cima do biquíni. Mais dez minutos e percebi que este já não era sol de inverno e já quase ultrapassava o de primavera: parecia verão! Levantei-me outra vez e espalhei protetor solar pelo corpo e ali fiquei, a tarde inteira, enquanto muitos textos fluíam pelos meus dedos ao mesmo tempo que a vitamina D entrava por mim adentro, ao mesmo tempo que - espero eu! - a minha pele ganhava uma corzinha.

Lá pelas cinco da tarde, quando o sol se estava a deitar, olhei à minha volta e vi que o chão por baixo das laranjeiras estava crivado de fruta. Voltei a calçar-me, fui buscar um saco e deitei as mãos à obra. Pelo meio ainda subi a um tronco de uma árvore, tirei fotos aos meus cães e com os meus cães, sujei-me toda, fiquei a arfar de andar de gatas a apanhar as laranjas e as tangerinas do chão, o cabelo parecia saído de um filme de terror e as minhas mãos escuras de terra. Depois regressei à varanda, com um livro no regaço, e li até o sol se esconder debaixo das árvores que cobriam a minha linha do horizonte. Voltei a entrar, tomei um banho quente, fiz um chá para amansar a garganta que voltou a dar de si e relaxei, enquanto sentia o cheiro do creme que tinha acabado de pôr no corpo - coisa que só faço quando apanho sol, o que me traz inevitavelmente memórias dos dias de verão. 

É engraçado como eu agora sinto uma necessidade crescente de sol e de terra. Antigamente ficava fechada imensas horas no meu quarto - que antes era ainda mais escuro do que o que estou atualmente - e não sentia isso, mas agora não consigo estar muito tempo no quarto enquanto é dia, principalmente se estiver sol. Há qualquer coisa que me atrai para a luz. Mesmo enquanto trabalho, tento sempre procurar sítios cujas janelas estejam viradas para a posição do sol naquele momento, porque me dá mais energia e vontade de continuar. Por outro lado, também a terra me chama e me relaxa imenso nos últimos tempos - sempre tive um jardim enorme onde brincar e uma horta, para onde a minha mãe me chamava vezes sem conta (sem sucesso); sempre fugi de ambos, ora por causa do cocó dos cães, ora pelas galinhas ou os ratos. Continuo a não desfrutar de ambas as coisas na sua plenitude - quando temos as coisas como garantidas, nunca o fazemos - mas agora sabe-me bem ir à horta de vez em quando, buscar fruta, colher vegetais para distribuir no trabalho, tirar fotos no jardim e sentir a relva a baixar-se por eu passar por cima. Relaxa-me de uma forma incrível, faz-me sentir viva.

E hoje foi um dia tão simples como este: escritório - almoço - trabalho ao sol - laranjas - banho - chá. Agora vem a parte chata, a pescadinha de rabo na boca: resolver o problema que apareceu de manhã. Mas depois de um dia destes, tudo parece mais fácil. É incrível como este ano já viajei, já fiz coisas diferentes e incríveis, já conheci pessoas novas e inspiradoras, tive em sítios diferentes e de que gostei - e, ainda assim, acho que este foi o melhor dia que tive em muito tempo. Hoje sei que me deito com uma paz de espírito com que já não me lembro de estar. Porque basta um dia de sol para fazer um dia feliz (quero tanto lembrar-me disto quando, mesmo em dias de sol, o meu humor estiver de chuva...)

 

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18
Fev17

A fórmula da felicidade pode ter dor pelo meio

Carolina

Não acho que tenha sido uma adolescente difícil, com aqueles dramas todos do costume. Simplesmente não fui uma adolescente feliz. Não que não tivesse condições para isso, mas simplesmente não me conseguia ver livre dos meus fantasmas, que tomavam conta de mim de forma permanente. De qualquer das formas, acho que esta é das épocas da vida em que é difícil ser-se feliz, a menos que se seja muito parvo e ninguém tenha uma rédea sobre nós. Eu estava a passar por aquilo, sabia os "sintomas", mas não me identificava com eles: via os meus colegas a passarem por todas as fases a que tinham direito, a fazerem asneiras sem olho em qualquer consequência, e eu abanava a cabeça, num "não" constante.

Foi só mais uma fase em que não me integrei com nada nem ninguém e que embora não andasse enrolada com 3 gajos na mesma semana, a fumar um cigarro na parte de trás da escola e já de olho no dealer de erva ou a mentir aos meus pais, vivia com os meus próprios dramas e cocktail de sentimentos que não sabia gerir. E acho que isso só resultou num isolamento total e numa tristeza que morou em mim até, provavelmente, ao 11º ano - ano em que me senti mais no fundo do poço e já com anti-depressivos na carteira mas onde também decidi tomar as rédeas da minha vida e deixar-me de merdas.

Por outro lado também culpo a genética. Acho que tenho propensão para estar triste, ver o copo meio vazio, estar de olho no lado negro da vida, optar pelo ponto de vista negativo em detrimento do positivo. Esta é a minha forma natural de estar, mas também é aquela em que não quero viver - por isso todos os dias faço o exercício de gostar das coisas, sorrir para as pessoas, fazer listas de coisas boas se assim for necessário, ser simpática e esperar que o universo retribua com positivismo. E quem está a ler isto e não me conhece deve estar a pensar que eu sou o Gustavo Santos em modo feminino, a tentar inspirar o mundo para uma auto-ajuda generalizada, mas não é verdade: primeiro porque não acho que seja exemplo para ninguém e, segundo, acima de tudo, porque o que eu estou a dizer é a mais pura das verdades, no meu caso em particular. A mudança foi radical e sei que no exterior também se notou: sou hoje uma pessoa mais feliz e muito mais fácil de conviver e privar. Porque a verdade é que viver ou estar com alguém que está sempre triste, deprimida e chateada com a vida é um castigo: castigo esse que eu não queria dar nem aos que amo - porque são quem me atura diariamente - nem a mim própria. Eu já não me aguentava, estava farta de mim. E isso era uma bola de neve que ia piorando gradualmente porque não conseguia sair deste ciclo. 

Esta mudança aconteceu porque cresci mas, acima de tudo, porque quis. Ai de quem me tire os louros nisto e os ponha em cima dos anos que passaram por mim. Porque embora eu duvide seriamente que conseguisse voltar ao que era - a não ser que um acontecimento avassalador tomasse conta da minha vida e eu perdesse totalmente o controlo -, não tenho dúvidas que aquela Carolina ainda continua ali. E ela aparece todos os dias e eu não consigo deixar de ser eu. Costumo dizer "deram-me os 5 minutos, mas já passou"; ou então, já antevendo a coisa: "estou prestes a ter os 5 minutos, mas já passa". Esses cinco minutos são de choro compulsivo e música deprimente; são fonte de inspiração para escrita, são dores de alma. Mas são só cinco minutos - e depois pára. Porque eu não sufoco aquilo que sou, mas preciso de ser outra coisa. Estabeleço-me limites para gozar e viver as tristezas, as deprimências, as ânsias e os sofrimentos - podem não ser cinco minutos, podem ser dez, um dia, uma semana. Depende do que for, depende dos quê's da questão, de uma previsão para eu ver a coisa resolvida. Mas tem de terminar ali.

E isto pode parecer estranho e irreal porque, de facto, as dores e os desgostos não têm prazo de validade; só o tempo é que os cura. A questão é que, a menos que sejam autênticos elefantes na sala que não consigamos controlar - que acontecem -, podemos prioriza-las. O truque é deixar de lhes dar prioridade. Primeiro há uma vida para viver, passeios para dar, viagens, trabalho, pessoas - e depois podemos resolver tudo isso. Mas a verdade é que, bem vivida, a vida é demasiado cheia de coisas (boas e más) para termos muito tempo para estarmos ocupados a resolver coisas antigas e a carpir como se não houvesse amanhã.

Às vezes dizem-me, ferverosamente, para parar de racionalizar. Deixar de pensar em hipóteses, de parar de descodificar aquilo que sinto, que os outros sentem. O que essas pessoas não sabem é que o ato de racionalizar, tanto me mata, como me salva diariamente. É como as enzimas dentro do nosso corpo, que partem partículas maiores noutras mais pequenas, de forma a serem digeridas: pode doer à primeira, mas é a única forma de elas serem absorvidas e serem uma parte integrante de nós. E eu preciso de desconstruir tudo, ordenar as ideias, dar-me tempos para arrumar tudo direito e seguir em frente. É assim que consigo ser feliz. (Literalmente) Estranhamente feliz.

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