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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

22
Fev17

Há um ano tive medo. Há um ano comecei a ser mais feliz.

Carolina

Faz hoje um ano que me iniciei no maravilhoso mundo do trabalho (na altura ainda em regime de estágio) - e digo "maravilhoso" num misto de ironia com realidade. Cresci (e acho que crescemos todos) a ouvir cobras e lagartos sobre o mundo do trabalho; todos nos dizem para aproveitarmos os tempos de escola e de faculdade, que o que vem a seguir é muito pior, e acho que temos tendência a acreditar. Depois de vários anos de escola dolorosos e uma licenciatura também não muito prazerosa, vi a minha vida a andar para trás: se o que vinha a seguir era pior, eu estava tramada literalmente para o resto da vida. No entanto, e apesar dos "saberes das gentes", sempre acreditei que era a trabalhar que sou o melhor de mim. E acho que não me enganei.

Acho que o melhor elogio que posso fazer a este ano de trabalho (quer dizer, 9 meses de trabalho, porque ainda tive direito a férias de verão) é que foram poucos - mesmo muito poucos, provavelmente menos que os dedos de uma mão - os dias em que saí triste de qualquer um dos escritórios onde estive. Tive dias difíceis - os primeiros, por exemplo, doem sempre - mas os seguintes eram sempre melhores. Foram igualmente raros os dias em que acordei e não quis trabalhar, os dias em que fiz o caminho contrariada, os dias em que achei que não tinha nada para dar às entidades com quem trabalho. Errei algumas vezes - chorei quando cheguei a casa após o primeiro raspanete, com razão, que levei - mas acho que nós nos definimos pela forma como lhes damos a volta e pela honestidade e humildade com que os admitimos.

Sinto-me uma privilegiada - por tudo, tudo, tudo o que me rodeia. Logo à partida por ter trabalho e logo a seguir por gostar do trabalho que faço; por trabalhar com pessoas de quem gosto, por gostar do projeto em que estou inserida, por acreditar nele; por conseguir escrever, viajar, falar de moda e têxtil todos os dias, por poder vir almoçar a casa sempre que quero, por poder trabalhar na minha secretária ou na secretária dos outros, por não ter nada "meu" e ser tudo "nosso"; por, em apenas um ano, ter feito amigos (por esta não esperavam, hã?) e, mais do que isso, não ter feito inimigos (é isso que é difícil no mercado de trabalho, não é o que dizem?); por estar rodeada de muito mais pessoas de que gosto do que de pessoas de quem não gosto; por ter liberdade para fazer diferente e por ter dias diferentes todos os dias.

Sou uma sortuda. Nasci com sorte, mas tenho vindo a aprender que isso não é só genético: a sorte cria-se, luta-se, conquista-se; como tudo na vida, é também fruto do trabalho que fazemos ao longo do passar dos dias. E eu tenho feito muito por ela. Na última feira em que estive, já depois de Munique, várias pessoas passaram por mim e cumprimentaram-me pelo nome. A situação era tão embaraçosa quanto gratificante: porque a verdade é que eu não sabia a maioria dos nomes de quem me cumprimentava, mas eles (já) sabiam o meu. E, só isso, já é a vitória que procurava: é precisamente aquilo que vim para aqui fazer, o início do plano de vida que tracei para mim. 

Sei que nem todos os anos vão ser assim, que nós andamos constantemente numa montanha russa puxada por alguém com um humor instável e, por vezes, dotado de um sadismo cruel. Ainda assim, é impossível não querer acordar todos os dias para saber o que o futuro me reserva. Se isto é o início de uma vida, então eu quero mais. Muito mais. Que ela venha.

 

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25
Mai16

O último dia da minha versão estagiária

Carolina

Lembram-se de ter escrito que este era agora o blog de uma estagiária, aí há uma semana atrás? Pois, têm razão - não foi há uma semana, mas parece: foi há pouco mais de três meses e hoje, o capítulo que abri nesse dia, foi fechado. Hoje foi o meu último dia de estágio e eu já estou um bocadinho atrapalhada por saber que já não tenho para onde ir para a semana que vem.

Sofri muito por antecipação com este estágio; sofri também por, numa fase mais avançada, não saber o que escolher. Mas hoje sinto a melhor sensação de todas que é, para além de missão cumprida, saber que fiz a escolha correta. Não fiquei a servir cafés, não fui maltratada, não fui posta de parte, não estive fechada numa cave, não estive horas sem fazer nada. O meu estágio foi tudo o que eu podia pedir: foi não só uma experiência de trabalho mas também - e acima de tudo - uma experiência para crescer enquanto pessoa. 

Mais uma vez, aprendi a ver para além dos preconceitos. Quando, por exemplo, me apercebi que ia integrar uma equipa só de mulheres, até me arrepiei só de pensar. Hoje sei que uma equipa só de mulheres pode funcionar tão bem como todas as outras - ou até melhor. A alegria e a maluquice daquele escritório era contagiante e não houve um dia, nestes três meses de estágio, em que as minhas colegas não me tenham feito rir. Ri até chorar e dei por mim a partilhar experiências e pensamentos com elas que só partilhei com um par de pessoas em três anos de faculdade.

Eu sei que um dos meus problemas ao interagir com os outros é não aceitar que eles possam gostar de mim. Sinto que sou sempre substituível (aliás, agradavelmente substituível, porque acho sempre que me querem ver pelas costas), algo a dispensar, que ninguém gosta de ter por perto. Sinto isso em relação a todas as pessoas que me rodeiam, com excepção dos meus pais e dos meus irmãos. E ali, apesar de às vezes o contrário, também sempre achei que queriam a "intrusa" fora dali. Mas hoje, para minha surpresa, foram ao supermercado e compraram-me uma série de coisas para um lanche de despedida. E à saída a minha colega de mesa - que, indiscutivelmente foi a pessoa com quem me liguei mais - perguntou-me: "vais mesmo embora? Não voltas mais?". E eu disse que não, que não voltava. E depois pensei melhor e, com umas coisas ainda para tratar em cima da mesa, adiei a despedida que mais me ia magoar o coração e disse: "oh, afinal venho segunda tratar disto". E eu vi na cara dela um "ainda bem" que, na minha leitura, foi o mesmo que me dizer que, afinal de contas, eu não era um estorvo por estar a roubar o cantinho da secretária dela. E esse foi o único do momento do meu dia em que me apeteceu largar a chorar, porque percebi que podia não ser a estagiária dispensável, a chata, o estorvo. Acho que, por isso, até neste campo aprendi qualquer coisa. 

Foram três meses cheios e dos quais vou ter saudades. Do ambiente daquele escritório, da vista para o mar, dos quinze minutos de carro que demorava a viagem e, claro, das minhas colegas, com as suas conversas sobre comidas, figuras públicas e empregadas de limpeza. Foram três meses em que não custava acordar para ir trabalhar, em que sabia que todos os dias iam ser diferentes e com qualquer coisa nova para rir e aprender. Porque posso não ter ganho um cêntimo como retorno do meu trabalho, mas saio extremamente mais rica.  

20
Mai16

Os ovinhos de Santa Clara

Carolina

Restam-m três dias de estágio e as saudades já apertam. Tem sido uma experiência enriquecedora a todos os níveis - tenho aprendido muito. Sobre mim, sobre a vida, sobre os outros, sobre a comunicação nas empresas, sobre a têxtil, sobre figuras públicas, sobre família, filhos, pais, religião, moda. Tive a sorte de cair no meio de uma equipa de mulheres que são loucas à sua maneira peculiar mas incrivelmente saudável; que trabalham mas que convivem, que riem até chorar e que choram quando assim tem de ser; que tanto falam pelos cotovelos como estão no segundo seguinte concentradíssimas a olhar para o papel que têm à frente. Mas sobre tudo isto falo daqui a mais uns dias, quando já não tiver de viajar todos os dias para a frente do mar; quando já não entrar por aquela porta e já não me rir, no máximo, nos 5 minutos seguintes por qualquer patetice que por lá se passa.

Como disse, um dos tópicos que também aprendi nestes três meses foi religião e fé. Sempre foi algo em que me senti "pobre" em conhecimento, porque apesar de ouvir falar e discutir alguns assuntos, tenho de facto pouca experiência. Cresci no seio de uma família de cultura cristã, mas aqui em casa ninguém é praticante - e dividimo-nos entre os crentes, os agnósticos e os ateus. Eu fico entre as últimas duas categorias, dependendo da fase da minha vida. Fui batizada mas nunca pus um pé na catequese - e o único ponto negativo que tiro disso é mesmo a minha falta de cultura no que diz respeito a assuntos religiosos, porque nunca senti nenhuma ligação a este tipo de coisas de forma a me apetecer ingressar nestas aulas. Os meus pais deram-me o poder de decisão e eu sempre disse que não queria ir - e não me arrependo minimamente. 

Mas nestes últimos tempos no escritório temos discutido as questões da religião e fé quanto baste - duas filhas das minhas colegas vão fazer a comunhão e eu, leiga como sou, aproveito para sorver toda a informação possível e aprender o mais possível. Também me tenho rido quanto baste - uma delas está a aprender as músicas para cantar no coro e eu vou pesquisando as músicas no youtube, para ela ir treinando, e é toda uma risota. Discutimos também os rituais, como se faz isto e aquilo, das confissões aos padres até às festas que se fazem em casa. Enfim!

Nas últimas duas semanas andamos toda atentas à previsão do tempo, sempre na expectativa de estar um sol radiante este fim-de-semana, para que tudo corra na perfeição. No entanto, depois de tanta expectativa, treino e conversas, o dia aproximava-se cada vez mais e a previsão de tempo não era a melhor. E no escritório decidiram passar para o plano de emergência. E qual é o plano de emergência, perguntam vocês? Pôr ovinhos em Santa Clara.

Não se sintam totós, porque eu também nunca tinha ouvido falar disto na vida - mas, pela pesquisa que fiz, é uma tradição até conhecida nos sites de casamentos para quem prefere ter um casamento abençoado sem ser molhado. Segundo diz a "lenda", quando se precisa de bom tempo e as previsões não são as melhores, deve-se levar uma dúzia de ovinhos à igreja de Santa Clara. Devem ser caseiros (não há cá forretices!) e, pelos vistos, devem ser levados por uma mulher amiga e próxima da família da noiva ou anfitriã da festa (dependo do evento). É deixar lá os ovinhos, ter uma conversinha com a "senhora" e esperar o melhor. 

A emergência agora era mesmo encontrar os ovos caseiros - e eu aí fiz a minha boa ação do dia e levei uma parte dos ovos, patrocinados diretamente pelas minhas galinhas. Não sou de acreditar nestas coisas, mas tinha piada se resultasse - e não custa tentar, em prol de umas festas mais quentinhas. É esperar que resulte. 

24
Abr16

Here comes the sun

Carolina

Na altura da mudança da hora, um post ficou aqui por escrever (tal como, literalmente, dezenas deles...). Seria qualquer coisa assim, numa versão mais completa:

 

Ainda sobre o mudar da hora:

A toalha já está na mala do carro e o livro no lugar do passageiro, em forma de esperança de uns fins-de-tarde na praia, logo após o trabalho.

 

Não escrevi o post, mas a toalha foi mesmo para a mala do carro e o livro também anda comigo. E na sexta-feira - um dia já demasiado longínquo daquele em que mudou a hora - pude finalmente fazer uso deles. Saí um bocadinho mais cedo do estágio e atirei com as minhas tralhas todas para a mala do carro- só veio comigo o telemóvel e as chaves do carro, a par da toalha e o livro. E lá fui eu, para o meu primeiro dia de praia do ano. Tirei as sapatilhas, subi as calças até ao joelho, escolhi o meu spot e estendi a toalha. Por ali fiquei uma hora e meia, entre algumas fotografias para registar o momento, leitura quanto baste e, claro, uma constante apreciação da melhor coisa que há nesta Terra: o mar. (E, já agora, das centenas de surfistas que por lá andavam). Foi só a melhor hora e meia do meu dia. Quiçá da minha semana.

Agora já sei: vou juntar um fato de banho ao meu pack de praia. Para a próxima já não vou de calças de ganga.

 

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03
Abr16

A síndrome da página em branco

Carolina

Há uns dias, a falar com um amigo, futuro engenheiro, ele perguntava-me aquilo que mais tenho ouvido nos últimos tempos: "como está a correr o estágio? O que estás a fazer lá?". Eu expliquei o que fazia e ele respondeu-me, a torcer o nariz: "isso parece uma seca, passar os dias a olhar para páginas em branco com o cursor sempre a piscar". E eu achei imensa graça, porque nunca tinha pensado nas coisas dessa forma - de facto, 90% das atividades que faço passam pela escrita, mas têm todas um cariz, tons e objetivo tão diferentes que nunca me parecem a mesma coisa.

Se formos a pensar bem, eu começo normalmente as minhas manhãs com um press release. Depois vou pensando em formas de alimentar as redes sociais, escolho e edito imagens, escrevo as descrições e preparo planos de uma semana. A seguir sou capaz de escrever uma notícia ou acabar um relatório sobre o último evento; ou então um plano de comunicação para os eventos que vêm aí. Sou capaz de fazer uma pausa pelo meio para ler, fotocopiar e scanar notícias que saíram nos últimos dias sobre o setor, mas provavelmente já tenho outro press para escrever no email. Pelo meio vou lendo o muito que se escreve no facebook, partilho algumas coisas e vou tendo ideias para textos meus aqui no blog - se forem coisas pequenas, até já vou adiantando trabalho. Quando chego a casa, sento-me mais uma vez em frente ao computador e escrevo o que consigo, o que me apetece, o que me vem da alma. E assim passo o meu dia, a escrever.

Há uma blogger bastante conhecida aqui no pedaço que diz que "a vida resolve-se sozinha". A verdade é que não sei como vim aqui parar; sei é que no 12º ano eu não tinha nenhum curso para onde quisesse ir e a única coisa que dizia era: "quero escrever". E hoje escrevo, em muitas coisas, em muitos registos, em muitos suportes, de muitas formas e com vários objetivos. Enfrento todos os dias o "drama" da página em branco. E adoro. A minha vida, por estes meses, resolveu-se mesmo sozinha.

21
Mar16

1 mês de trabalho!

Carolina

Se ontem fazer vinte e um anos não me fez sentir minimamente velha, pensar que estou há um mês a trabalhar já faz. Como assim, já passou um mês?! Ainda há um par de dias eu não conhecia o nome das minhas colegas, estava praticamente fechada numa sala de reuniões a limpar a minha caixa de correio... e agora já passou um mês inteirinho? Quase que podia jurar que era mentira.

De qualquer das formas, o facto de ter passado rápido é bom sinal: é um indicativo de que o tempo está a passar bem, que não estou a fazer das tripas coração para lá estar. Pelo contrário, na verdade. Apesar do início mais difícil (que acho que acontece em todos os lados), estou a gostar mesmo muito de trabalhar - e a integração acabou por ser muito mais fácil que na faculdade e a vontade com que vou para o escritório também é muito maior do que quando ia para as aulas. Sempre achei que me ia sentir mais completa a trabalhar do que a estudar e, até agora, as minhas previsões confirmam-se; tenho, de facto, um horário flexível e não tenho a pressão nem a responsabilidade de um trabalhador normal - ainda assim, acho que este é um óptimo sinal. Não sei até que ponto é comum gostar-se de trabalhar - mas eu gosto. 

Já tenho o meu cantinho da secretária reservado (não havia secretária para mim, "roubei" um canto a uma colega), o meu trabalho e documentos já lá vão parar, já todas sabem o meu nome e eu já sei o delas; o trabalho cai todos os dias e, felizmente, é diversificado e bastante o suficiente para ter sempre mais para o dia seguinte; estou a dar o meu melhor contributo para melhorar algumas facetas da empresa, nomeadamente a nível tecnológico, e adoro poder fazer coisas que percebo que vão, de facto, melhorar o desempenho de algo. Acho que me estão a "explorar" (no lado positivo da palavra) no sentido certo. E eu também já estou mais habituada a estar fora de casa, já não chego tão arrasada a casa (com algumas excepções, como hoje, em que a gestão de redes sociais me endoideceu de tal forma que, mal me deitei no sofá, dormi três horas seguidas), já organizo melhor o meu tempo e começo a encontrar o equilíbrio certo das coisas.

A cereja do topo do bolo é mesmo estar no ramo da moda, o que me faz sentir um peixinho dentro da água - peixinho esse que, nos momentos em que precisa de inspiração, espreita pela janela para ver o mar. E aí sim, parece que está tudo perfeito. Sei que vou ter saudades disto.

14
Mar16

Dar tempo ao tempo (para ter tempo)

Carolina

Estou numa fase estranha, entre altos e baixos consoante o dia. Aliás, consoante a hora do dia. Tanto estou feliz, cheia de ideias e a imaginar um futuro brilhante pela frente, como estou em baixo, cansadíssima e com umas covas debaixo dos olhos que me aparecem instantaneamente mal o meu espírito cai.

Estou a descobrir uma nova vida. Uma vida definitivamente mais ocupada, mais atarefada, sem grande tempo para pausas - pausas essas que, descubro agora, me fazem muita falta. Penso mais do que achava que pensava (esta frase faz sentido?). Por um lado, sempre soube que overthinking era uma das minha especialidades, mas esse é o lado negativo da questão; o lado positivo, onde se inclui a medição, o ato de auto-debater comigo mesma, de construir raciocínios e argumentações lógicas, foi algo que nunca valorizei mas que agora vejo que tem uma importância enorme para mim. Daí escrever tanto, daí ter ainda mais textos "escritos" na minha cabeça. 

Sempre gostei de fazer as coisas com tempo. Sempre acordei mais cedo para poder levantar-me dez minutos depois, para poder tomar o pequeno-almoço com calma e aproveitar aqueles minutos matinais com a minha mãe; sempre saí mais cedo de casa para não chegar atrasada à faculdade, para não ter de carregar demasiado no acelerador, para não stressar ao tique-taque do relógio; sempre fiquei quinze minutos a apanhar ar antes de entrar nas aulas, com tempo para apanhar um bocadinho de sol (ou chuva, dependia dos dias) na cara e renovar as energias; sempre gostei de me deitar com alguma genica, para poder ler algumas páginas do livro que tenho na mesinha de cabeceira, sabendo, ainda assim, que as horas de sono e a minha energia do dia seguinte não iam ser comprometidas.

E agora não tenho conseguido fazer isso. Vou a correr para todo o lado, não leio, não escrevo, não apanho sol antes de entrar ao trabalho, não descanso antes de ir para o ginásio, não passo grande tempo de qualidade com os meus pais. E não me interpretem mal: o trabalho está a correr muito bem, sinto-me uma sortuda por ter conseguido encontrar algo que me satisfaça minimamente (porque eu sou difícil de satisfazer). No entanto, o facto de ainda não ter reajustado a minha vida a este novo ritmo, deixa-me desnorteada; ter aberto mão, sem dar conta disso, das coisas que me fazem feliz, tira-me o chão de cada vez que penso nisso. A adaptação está a fazer-se, mas bem mais lenta do que eu pensava.

Não deixa de ser curioso o facto da cura para a minha falta de tempo ser, de facto, dar tempo ao tempo. 

 

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03
Mar16

Diário de uma estagiária 3#

Carolina

Praticamente duas semanas depois de ter começado a trabalhar, ainda estou em modo de "ajuste de horários e rotinas". Embora tenha um horário flexível (e em regime quase "não-obrigatório") e o importante seja deixar o trabalho feito, optei por fazer um horário a tempo a inteiro (ou semelhante, mais ou menos meia hora), também para sentir o que é isto de "trabalhar" e não fazer a coisa por metade. E perceber que até estou a gostar é, para mim, uma satisfação e um alívio enormes.

Nos primeiros dias custou-me muito estar fora do meu "porto de abrigo" (mais conhecido como "casa"), mas tenho-me vindo gradualmente a habituar e a gostar de trabalhar; embora adore o meu "habitat natural" e a companhia constante da minha mãe, também queria obrigar-me a sair de casa, onde a maior parte do tempo passava a dormir ou a gastar - literalmente - tempo na internet, em coisas que não interessam a ninguém. O facto de agora ter menos tempo também faz com que o valorize mais; aprecio mais a companhia dos meus pais, faço um uso muito mais racional do computador (e da internet!), organizo muito melhor a minha vida e, de certa forma, torno-a mais equilibrada. Estar mais tempo no escritório também ajuda à minha integração e socialização com as minhas colegas, que na última semana melhorou a olhos vistos e me deixou muito mais confortável.

A minha única dificuldade neste momento é ultrapassar o cansaço com que chego ao final das tardes. Percebo, hoje, que apesar de sempre ter sido fanática (e quase viciada) em computadores, passava muito tempo fora deles - em grande parte graças às aulas, onde nunca aderi à moda de levar os portáteis e sempre me fiz acompanhar dos clássicos caderno e caneta. O facto de, agora, passar seis ou sete horas seguidas em frente ao computador, cansa-me de uma forma que não esperava. E não tenho conseguido aproveitar o meu tempo livre tão bem como esperava porque, mal me vejo em casa, aterro no sofá - bem que tento ver uma ou outra série, mas o sono ganha sempre.

Ainda estou para me inscrever no ginásio, a descortinar os meus novos momentos de escrita, a encontrar forças para ler antes de me deitar. Ainda há pequenos (grandes) pormenores a serem ajustados nesta minha nova vida, mas sei que é algo que com o tempo, hábito e - acima de tudo! - vontade vai ao lugar. Está tudo no caminho certo.

18
Fev16

A hierarquia dos medos (ou digam olá à nova estagiária!)

Carolina

É engraçado perceber como as nossas prioridades ou "hierarquias interiores" funcionam. Há uns meses atrás o estágio era a apoteose dos stresses, nervosismos e medos da minha vida - houve choro envolvido e muito pensamento correu por este cérebro. O que queria fazer, em que empresa queria estagiar, se colocava a hipótese de sair do Porto, se fazia uma coisa super diferente do que sempre pensei ou se já me encaminhava para aquele que acho que vai ser o meu caminho. Um mar de perguntas sem respostas que me afogava num desespero silencioso.

E depois, abruptamente, as minhas prioridades mudaram. O estágio deixou de ser um problema. E porquê? Porque, na minha "hierarquia" dos medos, anseios, nervosismos e stresses houve algo que ganhou imediatamente o primeiro lugar: a minha operação. Aí os stresses elevavam-se a questões mais básicas (e piores) como: será que vou sobreviver?, será que vou acordar durante a operação?, será que vou ter muitas dores?, será que vou conseguir ficar na cama durante o caminho para o bloco?, será que sobrevivo sem ter um ataque cardíaco à custa de um ataque de pânico?, será que não vou endoidecer por não me poder sentar?, e tantas outros "será's" que sei que vocês dispensam ouvir. À custa disto, todos os medos em relação ao estágio sumiram e pensar nisso deixou de ser prioridade para mim. 

Podia dizer que, quando recuperada, os medos voltaram - mas não. Continuei a relativizar. Sei que aquele pânico profundo que tive naquele dia só em situações raras voltará a acontecer e duvido muito, muito, muito que isso aconteça no estágio. E talvez por isso tenha levado esta semana bastante mais na desportiva do que achava possível - sempre com alguma angustia, é claro, mas muito menos do que previa. Estes foram os derradeiros dias em que escolhemos o nosso local de estágio, em que entregamos aquela terrível folha que ditaria os nossos próximos três meses de vida e a temível entrada no mercado de trabalho. Correu alguma tinta, houve algum stress e, de certeza, um par de noites mal dormidas para muita gente.

Eu resolvi a minha vida logo no primeiro dia. Não escolhi um estágio proposto pela faculdade mas auto-propus-me a um, pelo que não tive de esperar pelas colocações ou estar dependente de alunos com melhores médias. É entrar e pronto! Fui hoje a uma primeira reunião, conheci o local onde vou passar o próximo trimestre e, sem mais delongas ou esperas, segunda-feira apresento-me ao trabalho. A ideia era começar só em Março mas, se posso começar já, é enfrentar o boi pelos cornos e pôr as mãos na massa - e, já agora, não prolongar esta angústia (agora sim!) que se instalou em mim. O medo do desconhecido é uma cena do caraças. Eu sinto-me tão verde, mas com tanta vontade de dar de mim e ao mesmo tempo tanto medo de fazer asneira - e de não me integrar, de as pessoas não gostarem de mim, e, e, e...!

Enfim. Sejam bem-vindos a uma nova fase da minha vida. Este é, oficialmente, o blog de uma estagiária.

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