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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

14
Jan17

E tu, que queres ser quando fores grande?

Carolina

Quando somos pequeninos perguntam-nos o que queremos ser quando formos grandes. Eu tenho para mim que a maioria das vezes respondemos aquilo que gostamos de fazer, os nossos hobbies. Não é por acaso que 90% dos rapazes respondem que querem ser jogadores de futebol e que muitas das meninas dizem querer ser princesas e outras tantas veterinárias - ora porque gostam das barbies e dos desenhos animados da Disney ora por adorarem animais. 

A ideia não está errada e acho que nós seguimos a nossa vida profissional também à base daquilo que gostamos de fazer (mal fora, não é?). Quem gosta muito de computadores vai para engenharia informática, quem adora animais vai para veterinária, quem gosta de tratar dos outros vai para médico e por aí fora. É claro que isto é uma ideia generalizada, uma vez que há outros fatores que mexem com as nossas decisões relativamente às nossas profissões (coisa que não acontece quando somos pequenos): muitas vezes seguimos as pisadas dos nossos pais, outras fazemos escolhas porque não temos escolha ou então seguimos outros argumentos como a empregabilidade ou o dinheiro. Ainda assim, acho que tentamos sempre conciliar tudo isto com os nossos gostos pessoais, porque ninguém quer ser pró em algo de que não gosta.

Eu claramente escolhi um hobbie como profissão. Ando a refletir nisto porque, primeiro, escolhi algo que tem muitas fases; a realidade é que eu nem sempre escrevo bem, nem sempre me sinto inspirada. Há dias em que eu fico a olhar para a página branca e nada sai - mas, bolas, tem de sair, porque é o meu trabalho! Só me dei conta disso um par de meses depois de ter começado, numa vaga de pura desinspiração - escolhi algo que não é "pão pão, queijo queijo", que não tem certo nem errado, que não é matemático, que depende imenso do meu estado de espírito. E isso é um risco, principalmente quando a boa execução do nosso trabalho depende disso.

E depois há outra questão: eu transformei o hobbie da minha vida no meu trabalho - e quando isso acontece, isso deixa de ser hobbie. Isto parece uma verdade parva de La Palice, mas tem que se lhe diga. Ainda há dias, enquanto ouvia a entrevista da Raquel Tavares para o Alta Definição, ela dizia algo como "o meu amor é o fado, mas a paixão da minha vida é a dança; eu amo cantar, mas as pessoas pagam-me para eu o fazer - já não sou livre de errar, de o fazer livremente, porque tenho expectativas para corresponder. Na dança não - posso dançar como quiser, porque sou livre e não tenho de dar justificações a ninguém" (não citado à letra). E eu só pensei - "é tão isto!". 

Nos últimos 5 meses escrevi mais do que nunca e apesar de em nenhum momento me ter arrependido da escolha que fiz, a verdade é que isso mudou o meu olhar sobre a escrita. Continua a ser aquilo que eu adoro fazer, aquilo que me preenche, mas agora há todo um lado que antes não tinha: o da responsabilidade, o de "liberdade aprisionada". Antes, escrever era a minha cena. Agora, escrever não só é a minha cena como é o meu trabalho. A sorte é que tenho a escrita "off-duty" e a escrita "on-dutty" que, em conjunto, me enchem as medidas e acabam por se compensar mutuamente, fazendo com que dificilmente o lado "hobbie" se extinga por completo.

E daqui se concluem duas coisas: que não tenho dúvidas de que escrever é mesmo um amor para a vida, a minha vida, a escolha certa; e, caraças!, que sou mesmo uma sortuda.

28
Dez16

Mãe, estou na revista!

Carolina

Estou de volta, depois do furacão natalício e sua consequente ressaca, que me fez dormir durante uma tarde inteira como já não dormia desde o meu primeiro ano de faculdade, quando parecia ter sido ferrada pela mosca tse-tse. Espero que esse Natal tenha sido bom, que o Pai Natal tenha sido generoso e que as férias (se for o vosso caso) vos estejam a saber pela vida, porque por aqui trabalha-se e eu já tenho uma série de posts programados para sair. Preparem-se para uma avalanche de balanços, reflexões e coisas que tais sobre 2016, porque o meu cérebro já não aguenta conter isto por muito mais tempo.

Mas adiante. Para já, quero contar-vos uma novidade boa! Há uns meses recebi um convite da revista "I Like This" para escrever um artigo de opinião sobre a Finlândia, o país que ia ser alvo da 15ª edição desta revista trimestral. Admito que não a conhecia, mas fui pesquisar e aceitei prontamente o convite - porque se gosto de escrever só por si, escrever sobre viagens é um autêntico bónus. Avisei à partida que não tinha estado muito tempo na Finlândia e que queria ser o mais sincera possível em tudo o que dissesse, porque sempre admiti que este não foi um país que me tenha deixado de queixo caído. Correu tudo bem e tudo o que lá está é a perceção real e verdadeira que tive naquelas poucas horas em solo finlandês.

Escrevi e enviei o artigo e as fotos - e agora voilà, já estão espalhados pelas bancas de todo o país. Não escondo que estou super feliz - o artigo é pequenino, mas é aquilo que há vários anos desejo fazer: escrever para contar e partilhar experiências com os outros. Ver algo meu numa revista tão bonita (que é mesmo, tem capas fantásticas e um design muito apelativo e fácil de ler) aquece-me o coração e faz-me ver que é por aqui o caminho.

Eu já comprei a revista - vou guarda-la com todo o carinho e amor na minha caixa de recordações - e vocês podem fazer o mesmo se tiverem curiosidade sobre a Finlândia. Caso contrário (ou caso simplesmente queiram ler o que lá escrevi) podem clicar aqui.

 

Obrigada à I Like This pelo convite!

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11
Dez16

Acabei um caderno, whowww!

Carolina

Há coisas nesta vida que são difíceis de acabar. As borrachas, por exemplo: quantas borrachas é que eu tive ao longo dos meus anos de escola e quantas é que eu substitui por, de facto, já estarem tão pequeninas que já não serviam para nada? Umas zero, mais coisa menos coisa. Entretanto perdia-as ou alguém brilhante decidia cortar-mas aos bocadinhos ou outra razão parva assim parecida. Eu lembro-me de já ser mais velha e olhar para uma borracha pequenina e encher-me de orgulho por todo o esforço (e trabalho implícito) que aquilo implicou, mas acho que mesmo essa teve uma morte precipitada.

Outra exemplo são os elásticos do cabelo. Nós não deixamos de os usar porque eles rebentam ou porque estão em fim de vida: é porque os perdemos. Os lápis a mesma coisa - sim, há aqueles casos raros em que os lápis parecem miniaturas, mas a maior parte das vezes ficam perdidos no fundo das mochilas ou em estojos antigos, ou simplesmente mudaram de dono à custa de um "empréstimo" inocente.

E depois há os cadernos. No meu caso em particular não se trata de os perder, é mais o facto de gostar tanto de ter sítios por onde escrevinhar que não resisto em saltitar de uns para os outros e nunca os acabo. No fundo, sou uma salta-pocinhas no que diz respeito aos blocos de notas. Não são só aqueles que compro (desculpem, não resisto...) ou os que vêm de oferta (que não são tão giros, claro), mas ainda por cima há imensa gente mos oferece, porque sabe que são coisas que me deixam SEMPRE feliz da vida. Isto resulta numa pilha de cadernos, caderninhos, cadernões, com folha lisa, quadriculada ou pautada, com e sem elástico, com papel reciclado ou normal. Há toda uma panóplia por onde escolher e a maioria deles têm meia-dúzia de páginas escritas e as outras estão deixadas ao abandono. Porque a verdade é que eu adoro cadernos e escrevo de facto muito... mas no computador. Pelo menos até agora. 

Felizmente o meu trabalho veio mudar esse panorama e eu agora escrevo, finalmente!, em blocos de notas. Dá-me jeito ter sempre sítio onde escrever, apontar respostas, números de telemóvel, coisas que me faltam fazer quando a agenda já não tem espaço. Enfim, em resumo: ESCREVO! E portanto estou a começar a dar vazão à minha pilha de blocos e hoje posso gritar ao mundo que, finalmente - e após tantos anos como acumuladora-compulsiva-de-cadernos - ... acabei oficialmente o meu primeiro caderno não-escolar!

Este, por acaso, é particularmente especial, porque imita uma claquete (daquelas dos filmes); comprei-o na altura do Fora da Caixa, porque achei que se adequava perfeitamente aquela fase e àquele propósito. Usei-o para esses meses do programa de televisão, depois ainda serviu como sebenta para os apontamentos do curso de fotografia e agora finalmente para estes meus primeiros quatro meses de trabalho. Todas as páginazinhas ocupadinhas, escritas, rabiscadas e com gatafunhos para dar e vender. Um regalo para a vista, é o que é.

E é isto. Consegui, oficialmente, acabar um caderno. Epá, não há como não estar orgulhosa.

22
Nov16

Momentos de mesa de cabeceira

Carolina

O momento em que em deito é, normalmente, um momento de reflexão do meu dia. Passo fases em que estou extremamente cansada e caio direta para um sono profundo, mas agora estou outra vez numa época em que, quando me deito, demoro um bocadinho a adormecer e penso em tudo um pouco. Como correu o meu dia, o que devia ter feito e não fiz, o que devia ter respondido naquela determinada discussão, o que vou comer no dia seguinte (sim, eu adoro comer)... de tudo um pouco. É aqui neste limbo entre o sono e o acordada que também escrevo mentalmente muitos dos meus textos e que tenho algumas ideias para temas para o blog.

Confesso que, antigamente, isto de estar na cama a pensar na vida me acontecia mais vezes, agora nem tanto. Ainda assim, quando acontece, tenho em muitas ocasiões a capacidade de me lembrar das coisas no dia seguinte. No entanto, quando acho que o meu texto imaginário está a fluir particularmente bem, lá tenho eu que sair daquele estado meio hipnótico, ligar a luz, abrir a cabeceira, pegar em papel e caneta e começar a escrever, para não ter o risco de ficar sem aquela tirada brilhante.

A minha irmã, sabendo disso, ofereceu-me há uns tempos um bloco de notas intitulado "Momentos de mesa de cabeceira", com muitas páginas com desenhos super giros e fofos, com espaço para escrevermos e desenharmos o que nos vai na alma antes de adormecermos ou logo depois de acordarmos. Só há um par de dias é que lhe dei uso, depois de sentir mesmo a necessidade de escrever um pedaço de texto que tinha na cabeça, mas não deixo de achar a ideia absolutamente genial. Acredito que não seja só eu que tenho boas ideias naquela fase pré-sono, por isso este livrinho preenche de facto uma necessidade, ainda que da forma mais querida que já vi (podia ser só um bloco branco e feio, mas é muito mais especial que isso).

Quando no outro dia o abri para escrever, lembrei-me que podia ser giro partilhar convosco, uma vez que muitas das pessoas que me lêem também escrevem. E já que o Natal está aí à porta, talvez seja um ideia gira. A minha irmã comprou-mo numa loja na Rua de Cedofeita mas, segundo as minhas pesquisas, penso que também existe na Fnac.

 

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18
Nov16

A escrita é como um divã do psiquiatra

Carolina

Desde que me conheço que sou introvertida, fechada e que tenho muita dificuldade em falar com os outros. Tenho vindo a melhorar, principalmente em conversas de circunstância, mas é-me muito complicado deixar que entrem na minha esfera privada, partilhando pensamentos mais profundos ou - o pior de tudo - sentimentos de todos os géneros.

Durante muito tempo guardei tudo para dentro de mim, qual panela de pressão. Acho que não explodia, mas como havia uma ebulição constante, não era feliz. Considero que não tive uma adolescência difícil (e muito menos uma infância infeliz!), mas carrego muitos problemas dessas fases da minha vida - houve momentos e situações que me marcaram profundamente, que me mudaram enquanto pessoa e que potenciaram aquelas características de que falei acima. Principalmente a nível social; acho que todos os problemas que tenho de interação com outros vieram desses primeiros anos de vida.

Apesar de ter melhorado a muitos níveis e de já conseguir partilhar algumas coisas com pessoas próximas, há muito que fica por dizer. Não me conhecem e, como escrevo aqui todos os dias, até posso parecer uma tagarela - mas acho que, a não ser em dias especialmente iluminados ou quando há muito para dizer em pouco tempo, me posso considerar uma pessoa caladinha. Mas é mesmo aqui, neste blog, que afogo as minhas mágoas e deito tudo cá para fora. Quer dizer, quase tudo. Há coisas que o meu filtro interno não deixa nem nunca deixará passar, mas tenho a noção de que passei a ser muito mais "leve" a partir do momento em que comecei a escrever.

Evito falar sobre assuntos muito sérios e pesados - e, acreditem, há "issues" que tenho que se espelham em coisas bem negras. No entanto, dou por mim a desdramatiza-los em posts normais, em tiradas que às vezes até podem passar ao lado dos comuns dos mortais. São frases que vêm diretamente do meu âmago, lá bem do fundinho do meu ser e que representam assuntos muitas vezes guardados a sete chaves, para não haver hipóteses de me assombrarem por mais tempo. Ontem, por exemplo, escrevi:

"Sei que tudo isto remonta a muitos problemas que tenho e tive: eu sempre fui um desastre a educação física, sempre fui gozada, sempre fui a última ser a escolhida para as equipas, sempre fui a menina que fica no banco de substituição, sempre fui aquela que fica com o professor porque não tem par ou que fica num trio, a "incomodar" os outros dois. Estas "brincadeiras" deixam marcas - e não são superficiais."

Foi no contexto de um texto banal, ainda que o assunto me magoasse. Esse parágrafo surgiu como surgem todos os outros, naturalmente, mas dei por mim a chorar enquanto teclava e relembrava todos os anos em que passei por isto e em que "engarrafei" toda a mágoa que aqueles atos simples do dia a dia me causavam. Mas assim, tão simplesmente, tornei o assunto em algo mais ou menos normal, dando-lhe menos valor.

Abri essa gaveta, arejei-a, fechei-a. E ao abri-la assim tão naturalmente, fiz com que se esvaziasse, perdesse peso - e de todas as vezes em que isso acontece, sinto-me inevitavelmente mais leve. A melhor parte é que o faço respeitando os meus tempos - os tempos certos -, de forma natural e sem ser a ferros, puxados por conversas que me magoariam invariavelmente. Este blog é o meu psiquiatra interno e esta cadeira onde agora me sento é o meu divã. Não pode haver melhor.

29
Out16

Os meus hieróglifos

Carolina

Eu não nasci para ser jornalista. É uma questão com que me debato todos os dias, é algo que me faz sofrer (quase) todos os dias mas que simplesmente me limito a aceitar. Não sou de desistir de desafios e, a partir do momento em que aceitei o meu atual trabalho de braços abertos (embora às cegas), é para ir para a frente. Todos os dias debatendo comigo mesma e todos os dias saltando do meu círculo da área de conforto, mas lutando - que é o que importa.

No meio disto tudo, e como as coisas não fluem naturalmente, falo abertamente com os meus colegas e chefe para tentar fazer as coisas o melhor possível, usando os seus hábitos e táticas com que já trabalham há tantos anos. E uma das coisas que me disseram foi para não gravar as conversas - não no sentido autoritário ou de obrigação, claro, mas simplesmente expuseram-me os seus pontos de vista e eu, de facto, concordei. Para além do facto de os gravadores ou telemóveis não serem 100% fiáveis (já fiquei uma vez, ainda na faculdade, sem uma entrevista enorme à conta disto), é um facto que os gravadores condicionam um pouco a conversa e as pessoas se mostram assustadas por tudo o que estão a dizer estar a ser gravado. Por outro lado também falo muito com as pessoas ao telemóvel, pelo que a questão do gravador já nem sequer se coloca. Por isso, desde cedo que deixei as gravações de parte e confio na minha rapidez na escrita.

E... bem... eu rápida sou. O pior são os hieróglifos que saem das minhas mãos e que, aquando de uma leitura posterior, me lixam totalmente a vida. Primeiro nunca se escreve tudo, como é óbvio - há coisas que não tenho tempo para escrever na íntegra e penso "só com esta palavrinha vou lá chegar": errado! Fico a olhar para aquilo como um burro olha para um palácio, fazendo exercícios mentais complexos para rever a conversa que tive e tentar chegar ao tópico em análise. Depois, mesmo aquilo que se escreve, por vezes... não é fácil de entender. 

Num destes últimos dias, dado o meu desespero enquanto olhava para as minhas notas hieróglifadas, percebi que o que eu preciso mesmo... é de um curso de estenografia, daqueles que as secretárias antigamente faziam para acompanharem os ditados dos seus patrões sem perderem pitada. Tenho a certeza que se abrirem o meu caderno de notas, não perceberão se aquilo é português ou um qualquer código de encriptação altamente avançado. Por isso, mal por mal... que sejam códigos a sério. 

19
Out16

Hoje escrevo

Carolina

Em 2011 deu-me na real gana que queria escrever. Foi uma coisa um bocadinho inesperada, porque toda a minha vida tinha dito que queria ir para áreas ligadas às ciências e aos números; até ali, sempre tinha gozado com os "letrinhas" e menosprezado um pouco o trabalho deles, nunca pensando que aquilo que dizia me iria um dia pesar na consciência. 

E depois, ao que pareceu ser (aos olhos dos outros) uma coisa que mudou do dia para a noite, decidi que não queria nada do que tinha apregoado até ali e que o que queria da vida era mesmo escrever. Claro que, para mim, essa mudança foi mais gradual, ainda que de facto repentina - relaciono-a com um período pior da minha vida, em que me fui abaixo e não estava a conseguir lidar com vários fracassos sucessivos, nomeadamente ao nível das matemáticas. Na altura ninguém me apoiou nesta mudança - em grande parte porque essa relação fracasso/desistência estava muito explícita e, aos olhos dos outros, eu estava a desistir à mínima dificuldade. E eu não posso negar que  essas dificuldades também impulsionaram a mudança - mas hoje percebo que eu estava com uma sede enorme de mudar, o que só ficou provado no ano seguinte, naquele que foi o melhor ano que tive na escola secundária.

Nessa altura coloquei o jornalismo em cima da mesa porque era uma alternativa que me permitia escrever sobre os mais variados assuntos, inclusive as ciências, fazendo com que eu não perdesse essa ligação aos números que eu sempre apreciei. Mas cedo me apercebi que o jornalismo não era para mim e que "escrever" e "jornalismo", ainda que sejam coisas indissociáveis, estão longe de ser a mesma coisa e de satisfazer alguém que gosta mesmo de escrevinhar.

Por ter percebido isso e por, ainda mais para a frente, ter visto que o contacto humano era extremamente necessário, pensei muitas vezes em desistir. No primeiro ano, era algo diário - todos os dias eram bons para dizer "chega". Por alguma força de vontade divina, decidi ficar no mesmo curso e traçar o meu caminho. Defini objetivos, fiz-me perceber que um curso era só mais uma valência e que não perdia nada em saber mais numa determinada área, mesmo que alguns dos trabalhos e atividades me fizessem doer o âmago de cada vez que as fazia. 

E, não sei como, a vida acabou por se arranjar e dar as voltas do costume. Primeiro queria números e fui para letras. Depois a ideia passou levemente pelo jornalismo e fui para a assessoria, fugindo a sete pés dos jornais. A seguir estagiei em assessoria e ofereceram-me um trabalho em jornalismo. Como se isto já não bastasse, tudo acabou por se compor na grande área da minha vida, onde cresci e pela qual nutro uma paixão profunda - de forma a estar a desenhar o meu futuro nesta área -, que é a têxtil e a moda. Algo que no início não fazia sentido e que me causou, muitas vezes, imenso sofrimento, acabou por ser um complô incrível, uma surpresa e uma autêntica prenda da vida.

Porque a vida é um conjunto de escolhas. Das mais pequenas ("o que vou comer ao jantar?" ou "que sapatos calço?) até às gigantes ("caso-me?", "despeço-me?"), todos os dias a fazemos - e eu acho que, muitas vezes, mesmo as pequeninas decisões que tomamos têm repercussões no nosso futuro, quase como o efeito borboleta. Uma coisa é certa: a vida acontece-nos. A partir do momento em que estamos vivos, estamos à mercê do que nos aparecerá à frente. Coisas más e coisas boas, no fim o que interessa é o que fazemos com elas - ou, por outras palavras, as decisões que tomamos e a forma como nos mantemos firmes perante elas. A resiliência, a luta, a paciência e aquela pitada de sorte fazem a diferença.

Em 2011 decidi que queria escrever. E hoje escrevo - e que bom pensar que isto é só o início. [Caraças, os sonhos realizam-se mesmo!]

 

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 (hoje saiu o meu primeiro texto assinado em algo sério, oficial e com uma tiragem minimamente significativa. estou feliz.)

 

08
Out16

Kem lê não escreve axim

Carolina

Esta semana andei pelo OLX e por alguns daqueles grupos de venda de livros no facebook. A minha mãe tinha aqui um par de livros novos, que comprou, leu as primeiras páginas e não gostou, pelo que tentou despachá-los, até porque estavam em perfeito estado.

Eu também já tinha andado nestas andanças de compra e venda de livros via facebook, já conhecia o "ambiente", mas não consigo deixar de me pasmar como é que pessoas que supostamente lêem conseguem escrever "axim". "Ker dixer, xe as pexoas estão no grupo é pk lêm livros, né?" Isto desculpa-se se estivermos a falar de miúdos de 12 e 13 anos, cujos amigos escrevem assim e eles se vêem obrigados a partilhar a forma de escrita para se integrarem no grupo. Agora pessoas com idade para terem filhos dessa mesma idade escreverem com "x" e "y", incapazes de colocar uma vírgula ou acento? Tenham dó!

Para descanso da minha pobre alma, penso que essas pessoas simplesmente herdaram os livros do pai, da mãe, do tio ou do primo e querem simplesmente pô-los a render. Recuso-me a aceitar que pessoas que lêem livros de forma regular escrevam axim. É ximplesmente demaxiado mau para xer verdade, não konkordam?

10
Abr16

Sobre os meus futuros livros

Carolina

Muita gente me pergunta para quando vem um livro. Acho que a culpa é minha, porque sempre que me perguntam o quê que eu quero fazer da vida (e depois de eu responder, primeiramente, "é complicado") eu acabo eventualmente por explicar que, embora saiba que não é disso que vou viver, o que eu quero é escrever. Não digo "escrever livros", mas é isso que todos assumem - e não é errado.

A partir daí, sempre que me encontram, lá me fazem a perguntam da praxe: "então e já escreveste um livro?". Dependendo do quão bem me conhecem a da quantidade de vezes que estão comigo, há pessoas para tudo: há quem me fale em editoras, que editam livros assim ou assado; dizem-me que viram um texto meu que era digno de livro, que tenho mesmo jeito, que tenho de começar a pensar nisso; prometem estar na fila de autógrafos quando for o grande dia; ou, no caso extremista do meu pai, espera pacientemente para me ver ganhar o Nobel (ah ah ah). No fim de tudo isto, a conclusão que eu chego é que toda a gente à minha volta está mais confiante no facto de eu um dia escrever um livro* do que eu própria.

Não é que eu não acredite, mas não é para já. Eu acho que ter jeito e gosto pela escrita não é o suficiente para se escrever bem livros - talvez num blog seja o bastante, num par de crónicas também. Mas os livros exigem uma estrutura diferente; exigem planeamento, técnica. Exigem paciência, muito pensamento à mistura e, acima de tudo, experiência de vida - e é por isso que, na minha opinião, os grandes escritores são quase todos mais velhos. Não me estou a lembrar de ninguém a quem confira real valor e importância na literatura que não tenha mais de 30 anos (e já estou a ser generosa). Porque no dia em que eu escrever algo quero que seja a sério, de valor - não necessariamente aos olhos dos outros ou da crítica, mas pelo menos aos meus. 

Mesmo que tivesse uma história, uma linha condutora por onde me guiar - que não tenho, tenho alguma dificuldade em pensar história do início ao fim-, ia faltar-me tudo o resto. Pelo lado da narrativa, falta-me conhecer o ser humano, as suas reações; falta-me conhecer trinta mil coisas desta vida para as poder perceber e descrever. Falta-me ter a visão do escritor e não do leitor, preciso de aprender a olhar uma história de cima e não do ponto de vista de uma personagem; preciso de saber algumas manhas e truques, de esquematizar personagens, de conseguir pôr uma história inteira numa linha reta. E pelo lado mais técnico, falta-me saber escrever eximiamente; falta-me saber usar a pontuação de uma forma muito correta (que ainda não sei), falta-me ainda mais vocabulário. No fundo, falta-me um mundo de coisas.

O meu único medo é não perceber quando for o momento certo. Acho que a minha veia de perfecionista me vai sempre dizer que faltam sempre coisas para aprender, para aperfeiçoar. Sou menina para chegar aos 60 e achar que ainda tenho de ler mais livros porque ainda não estou no ponto certo para escrever algo "a sério" - mas isso só o tempo o dirá.

 Até lá, faço questão de ir aprendendo. Todos os porm(aiores)enores que falei acima aprendem-se não só treinando, escrevendo e lendo romances mas também através de obras que nos ensinam a escrever melhor, a construir histórias e personagens. Acredito que existam escritores que nunca tenham precisado de auxílios destes, mas eu sinto que esta parte não me sai naturalmente e quero muito aprender a fazer as coisas como deve ser, para um dia ter em mãos precisamente algo como deve ser. Os livros que comprei na wook foram para isso mesmo e este verão vai ser dedicado à escrita criativa e à construção de narrativas.

Um livro meu não deve ser lançado para breve, mas a construção dele começa aqui.

 

*quando falo em livro, falo num romance ou uma história ficcional; um livro de crónicas, por exemplo, seria algo que poderia lançar a curto prazo - mas que, sinceramente, não me atrai por aí além

03
Abr16

A síndrome da página em branco

Carolina

Há uns dias, a falar com um amigo, futuro engenheiro, ele perguntava-me aquilo que mais tenho ouvido nos últimos tempos: "como está a correr o estágio? O que estás a fazer lá?". Eu expliquei o que fazia e ele respondeu-me, a torcer o nariz: "isso parece uma seca, passar os dias a olhar para páginas em branco com o cursor sempre a piscar". E eu achei imensa graça, porque nunca tinha pensado nas coisas dessa forma - de facto, 90% das atividades que faço passam pela escrita, mas têm todas um cariz, tons e objetivo tão diferentes que nunca me parecem a mesma coisa.

Se formos a pensar bem, eu começo normalmente as minhas manhãs com um press release. Depois vou pensando em formas de alimentar as redes sociais, escolho e edito imagens, escrevo as descrições e preparo planos de uma semana. A seguir sou capaz de escrever uma notícia ou acabar um relatório sobre o último evento; ou então um plano de comunicação para os eventos que vêm aí. Sou capaz de fazer uma pausa pelo meio para ler, fotocopiar e scanar notícias que saíram nos últimos dias sobre o setor, mas provavelmente já tenho outro press para escrever no email. Pelo meio vou lendo o muito que se escreve no facebook, partilho algumas coisas e vou tendo ideias para textos meus aqui no blog - se forem coisas pequenas, até já vou adiantando trabalho. Quando chego a casa, sento-me mais uma vez em frente ao computador e escrevo o que consigo, o que me apetece, o que me vem da alma. E assim passo o meu dia, a escrever.

Há uma blogger bastante conhecida aqui no pedaço que diz que "a vida resolve-se sozinha". A verdade é que não sei como vim aqui parar; sei é que no 12º ano eu não tinha nenhum curso para onde quisesse ir e a única coisa que dizia era: "quero escrever". E hoje escrevo, em muitas coisas, em muitos registos, em muitos suportes, de muitas formas e com vários objetivos. Enfrento todos os dias o "drama" da página em branco. E adoro. A minha vida, por estes meses, resolveu-se mesmo sozinha.

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