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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

05
Jan17

Relativizar

Carolina

Fez na terça-feira um ano que fui operada. Acho que, mal abri a pestana, foi a primeira coisa de que me lembrei. Não há dúvidas que o tempo cura tudo, mas as dores físicas vão-se muito mais rápido da nossa memória do que as dores da alma. Estas últimas custam mesmo a passar - e um ano está longe de ser o suficiente para curar tudo o que há para curar em relação a esses quinze dias da minha vida, que pareceram meses enquanto os vivia. Comparado com outras coisas é simplesmente irrelevante, mas para mim aquela terça-feira foi das mais críticas da minha vida - acho que ainda choro de cada vez que falo do facto de ter entrado num bloco operatório.

Na terça-feira, tal como os restantes dias desta semana - e talvez da anterior e a antes dessa - eu estava em baixo, num daqueles ciclos viciosos em que entro e de que depois é difícil sair. Começa com uma dorzinha de alma, que se espelha logo na minha cara - tem graça como as minhas olheiras advém muito mais do meu estado de espírito do que do meu cansaço (e sim, às vezes é imediato - se recebo uma notícia negativa, poucos minutos depois estou com um semblante muito mais escuro) - e depois vai avançando para outros problemas, menores ou maiores, recolhendo dores aqui e ali. Acabo estes dias com a minha auto-estima em níveis negativos: sinto-me feia e gorda e todas essas coisas terríveis que as mulheres pensam e de que eu não sou excepção. Pelo contrário, passo a minha vida emersa neste pensamentos auto-críticos e destrutivos de que nunca consegui fugir.

Quando acordei, já cabisbaixa, lembrei-me de que há um ano estava eu a ir para o hospital, supostamente de livre e espontânea vontade, num pânico total e completo; de como não falava, de como num movimento involuntário e completamente inesperado fui todo o caminho para o bloco com as mãos juntas em posição de reza, de como deram conta que eu estava toda às manchas devido a uma urticária nervosa e de como, horas mais tarde, acordei no recobro a chorar - num misto de medo, alívio, vergonha e de tudo um pouco. E ali estava eu, um ano depois, - ainda que supostamente feia e gorda - a andar perfeitamente, a conseguir-me sentar, sem qualquer problema de saúde; com os meus pais e a minha família bem, eu com trabalho e um dia calmo e previsivelmente feliz pela frente. E ainda assim triste, com uma dar de alma no peito e o estômago pequenino, de como quem tem um problema grave pela frente.

Acho que de nada serve quando nos pedem para relativizar e pensar em todos os problemas do mundo e compara-lo com os nossos. As nossas dores serão sempre as nossas dores. Ponto. E, quer queiram quer não, vão sempre doer mais do que as dos outros - lá está, porque são nossas. Ponto. Mas, se calhar, se compararmos as nossas próprias dores, numa estratégia racional, talvez tudo seja mais realista. É claro que a memória e o tempo nos pregam partidas, tornam as coisas mais leves do que realmente foram, mas ainda assim é na nossa ferida que tocamos - e essas doem sempre mais.

É assim que eu combato as minhas crises: racionalmente. Não funciona sempre: ainda estou triste, o nó na garganta está cá, as olheiras também. Mas neste momento, para além de um âmago dorido, eu sinto-me chateada por estar assim - primeiro porque sei que há dores muito piores, porque eu própria já as experienciei, segundo porque são dias que desperdiço a não ser feliz e terceiro porque estou farta de não viver a vida como eu a sei viver. As tristezas não se podem simplesmente atirar para o lixo, não se esquecem. Mas superam-se - e, no meu caso, relativizar ajuda. Se há um ano eu mal me mexia com dores, hoje estou mais que bem. E amanhã a única coisa que quero é estar um bocadinho ainda melhor que isso.

 

06
Jan16

Palavras do dia: "dor", "orgulho" e "superação"

Carolina

Estou viva, meus amigos, estou viva! Já o tinha anunciado no facebook (quem é que ainda não tem like na página, hun???), mas não podia deixar de salientar o facto absolutamente espetacular de ter sobrevivido aqui no blogue.

Já estou em casa, muito dorida e cada vez com mais dores (ai, a falta que aquelas drogas que vão logo para a veia fazem!) e sem grande posição para estar. Preciso de ajuda para tudo, o que me faz não fazer praticamente nada - detesto estar dependente de outros. Mas, enfim, durante quinze dias vou ter de levar com isto, para o bem e para o mal. Quanto à operação, correu tudo bem: já não tenho nem o quisto nem um sinal na perna que era suspeito e que estava para tirar há anos. Ambas as feridas estão com óptimo aspeto e agora todo o cuidado é pouco para não rasgar os pontos.

Eu não acredito muito em "mentalização", mas acredito em manter promessas. O processo de mentalização, para mim, reflete-se em pensar em tudo de mal que podia acontecer: ficar com amnésia depois da anestesia, a minha "mente" acordar durante a cirurgia embora o meu corpo não reagisse (aconteceu com a minha mãe), ter de ficar com o golpe aberto e ter assim três meses de recuperação pela frente ou mesmo a derradeira consequência, morrer. Posso-vos dizer que me lembrava de um novo drama todas as noites, por isso a "mentalização" tem zero resultados em mim. No entanto, se há coisa que prezo são as promessas que faço, e eu tinha prometido à minha mãe que ia dar o meu melhor para não fazer cenas tristes. Quando soube que ia ser lancetada chorei que me matei, gritei, expulsei toda a gente do quarto; sei que magoo pessoas pelo caminho quando faço isso e tentei que isso não se repetisse. Ocupei a manhã de ontem a arrumar o meu quarto, a preparar séries para ver, registar postais e outras coisas que me ocupassem a cabeça. Fui para o hospital sem cenas, só não queria que me falassem - e foi isso que pedi até adormecer na anestesia. Sabia que se alguém da minha família me dissesse algo - em particular a minha mãe, que me acompanhou durante todo o processo, e que era a pessoa que menos queria desiludir - eu não conseguiria controlar o ataque de pânico que estava para vir.

Sabia que o caminho para o bloco era o mais crítico. Vesti a bata quando me mandaram e senti o pânico a crescer dentro de mim - o meu instinto foi fechar os olhos, juntar as mãos (quase como em posição de reza, embora não o saiba fazer) e morder os lábios e esperar que aquilo que me parecia o caminho para o inferno passasse. Foi duro, foi muito duro. As pessoas acham que uma fobia é ver uma aranha e gritar, que é passar para o outro lado da rua quando está um palhaço a fazer palhaçadas no outro lado do passeio. Mas não é, é muito mais que isso. Durante todo aquele caminho (que eu nunca saberia reproduzir, porque quase nunca abri os olhos) eu estive a controlar o ataque de pânico gigante que crescia dentro de mim. Consegui não fugir, consegui não gritar, consegui não ser agressiva com ninguém, mas uma fobia vai para além disso: tinha tremores por todo o corpo, as lágrimas escorriam-me pelos olhos mesmo eu não estando a chorar e tendo-os fechado e desenvolvi uma espécie de urticária nervosa, ficando com o corpo cheio de manchas vermelhas. Tentei descontrair e ser simpática com aquela equipa de médicos incansável que estava a tratar de mim, mas o pânico era demais para conseguir ser eu, para interagir ou sequer para agradecer a música que me puseram a tocar ao ouvido ou toda a simpatia que me foi dirigida. Puseram-me o catéter (dos poucos momentos em que vi o bloco por ter aberto o olho) e, finalmente, puseram-me a dormir daquele pesadelo. Não me disseram para pensar em coisas boas, mas mal me puseram a máscara eu sabia que era esse o momento - e foi o mais feliz que vivi nessa hora. Não me perguntem porquê, mas pensei em Hogwarts. Talvez porque aquilo que fiz e me controlei ali, para mim, foi magia.

Foi das coisas mais difíceis que fiz na vida.

Quando acordei (também com as lágrimas a escorrem-me), a primeira coisa que perguntei foi: "portei-me bem?". Era tudo o que queria, não ter falhado na minha promessa. E o resto do dia decorreu com uma satisfação estranha que sei - e sei mesmo - que não foi provocada por nenhuma anestesia, mas por uma satisfação imensa por ter cumprido, em tudo o que pude, aquilo com que me tinha comprometido.Sei que chorei, sei que o meu pânico era visível, mas também sei que não podia, nunca, ter-me comportado melhor do que comportei e que ontem tinha acabado de derrubar uma das maiores barreiras que a vida me tinha posto à frente.

O sofrimento não se mede, mas posso dizer que ontem sofri, de forma interior, desmesuradamente. Mas sobrevivi e não deixei que o medo fosse maior que eu. E essa é a maior lição que posso tirar disto.

 

(Lamento se o texto tem gralhas mas, para além de ter sido escrito no telemóvel, não o consigo reler. Vi-me obrigada a parar duas vezes enquanto o escrevia, por estar a reviver tudo o que vivi e todos os sentimentos de pânico virem de novo ao de cima. Já chorei mais nestes minutos do que chorei ontem o dia todo - e digo-o, sem qualquer tipo de vergonha, porque não vejo o choro como uma fraqueza. Não sei se foi demasiado cedo para (d)escrever isto, mas sinto que precisava, para fechar um dos dias mais duros da minha vida nas gavetas onde ele pertence: à da "dor", mas também a da "vitória" e do "orgulho em mim própria". Agora é descansar, lidar com a dor o melhor possível e recuperar totalmente, porque tenho toda uma vida à minha espera).

 

(Obrigada também pelo vosso apoio, mensagens e comentários, com votos de força e melhoras - ajudaram a dar fôlego ❤️)

25
Out12

Para quem sofre com o laser, como eu

Carolina

Da última vez que fiz laser, estranhei o facto de me estar a doer tão pouco. Só em sítios mais críticos é que me doeu - e mesmo isso, foi ténue. Até perguntei à esteticista se aquilo estava fraco, visto que das outras vezes (com outra esteticista) aquilo doía-me bem mais. Ela disse que não se acreditava que a colega pusesse o disparo mais forte do que estava, e eu deixei-me ficar.

Só uns dias depois é que eu percebi, muito provavelmente, o que havia acontecido. Levei, na altura, um resto de um creme analgésico para lá, que já tinha usado numa outra sessão, mas que não me tinha feito grande coisa. Levei-o só numa de não deixar o ficar e aproveitar, por muito pouco que fosse o efeito. Apliquei-o mal cheguei lá e a esteticista, para o creme não ficar no pano ou não absorver tão bem, cobriu-me o sítio com creme com película aderente. 15 minutos depois, tirou, e mais tarde começou a fazer o laser (deu tempo suficiente porque eu faço primeiro as pernas a cera).

A verdade é que a diferença foi significativa e só pode ter sido isso. O creme chama-se Emla e é vendido às caixas com x bisnagas - há certos sítios que vendem avulso, mas terão de explorar. Quando comprei, fui à farmácia do NorteShopping onde sabia que vendiam em bisnagas individuais - não queria comprar a caixa, porque não sabia se iria fazer efeito ou não em mim (e, pelo que sei, depende muito das pessoas).

De qualquer das formas, para quem sofrer muito com este mal necessário, vale a pena tentar!

 

15
Abr12

Ai os meus braços...!

Carolina

Os meu professor de educação física tem-se esforçado para nos matar. Manda-nos formar uma roda e deitar de barriga para baixo e aí começa a matança-wanna-be. São flexões com as mãos afastadas, flexões com as mãos afastadas, abdominais, prancha, bicicletas, abdominais rodados... e ele, como eu a meio já não consigo fazer nada e estou mais morta que viva, diz-me assim "Carolina! Estou de olho em ti, Carolina". E eu aí morro de vez.

Só sei que quando acabei de fazer a ronda de exercícios, não tinha ponta de força nos braços e senti-me uma drogada porque mal me punha de pé.

 

Hoje estou aqui que nem posso. Os braços doem-me como se tivesse apanhado uma sova daquelas. Um suplício. Não sei se ontem tive uma descargazita de adrenalina para ajudar à festa, graças ao valente susto que apanhei, mas hoje levantar-me foi uma tarefa difícil.

12
Jan12

Dos dias maus

Carolina

Este foi, sinceramente, um dos piores dias dos últimos tempos. Doem-me os olhos, a cabeça e merda do dente.

Tive que enfrentar o cheiro a desinfectado tão típico dos dentistas e a mentalização de uma próxima consulta (qu, para mim, é o equivalente a me dizerem que diz x acaba o mundo, e que não vai ser de forma pacífica).

As olheiras mostram o mal que tenho dormido nos últimos 3 dias. As justificações de faltas idem - ando eu a matar-me a estudar sempre que posso, e agora ando a faltar às aulas de tão pedrada que estou de manhã devido aos comprimidos (que preciso para conseguir dormir, devido às dores que sinto - que apesar de não serem muitas, não me deixam adormecer).

Here's the ugly truth.

 

A mim não me apetece nada senão chorar, e falo muito a sério. As minhas forças cada vez dão para menos.

 

Prometo que é o único post semi-doloroso-depressivo que aqui coloco. Os próximos vêm tal como os outros, como se nada fosse. Esqueçam que é um zombi que está deste lado.

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