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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

11
Mar17

Sobre uns dias negros de uma vida (ainda que passageiros)

Carolina

Quando estamos no pico do verão, com um calor dos ananases em que mal se consegue respirar, eu às vezes olho para as roupas de inverno - as malhas, as lãs, as caxemiras, as golas altas - e penso "como é que eu consigo usar aquilo?". A sensação térmica que estou a sentir naquele momento varre-me completamente da memória aquilo que é o frio e que nem sempre estão 35º; que às vezes estão 2º,5º,7º e que de facto eu tenho muito frio e preciso daquilo tudo para me sentir bem. São dois pólos tão distantes que parecem irreais.

E é isso que tenho sentido nos últimos tempos. Neste momento estou no inverno, com chuva e tempestade, e penso nos tempos quentes, bons e felizes e até me questiono até que ponto é que aquilo aconteceu mesmo. Da mesma forma que eu, no pico do verão, olho para as camisolas de lã e penso "como raio é que eu uso isto", agora tenho olhado para os meus últimos meses e penso "eu consegui mesmo estar assim tão bem?". Parece mentira, quando agora sinto o oposto.

E acho que a dor agora ainda é pior, por saber que já estive bem, que consigo estar numa posição melhor que esta, por saber que sou melhor que isto. Sou aquele tipo de pessoa que nunca precisou de grandes raspanetes: porque antes de alguém mos dar, já eu estava a auto-chicotear-me mentalmente pela merda que tinha feito; as pessoas mais próximas de mim sabiam que repreender-me era uma segunda punição, porque a primeira era automaticamente dada por mim. E é isso que acontece aqui, todos os dias. Para além de tudo mais, para além de todas as razões no mundo que encontro para me deitar abaixo, ainda tenho uma voz crítica por cima do ombro que quase me insulta por isto estar a acontecer. Outra vez. Mais uma vez. 

A verdade é que quando estamos na mó de cima nos esquecemos do que é estar na mó de baixo. E os obstáculos são muito mais fáceis de saltar quando nos sentimos bem, inspirados, felizes e achamos que conseguimos conquistar o mundo. O problema é quando não estamos assim tão bem. Eu não sei quando nem como isto começou, mas acho que foi simplesmente despoletado por cansaço e por um alvoroço de emoções num curto espaço de tempo. Sinto que regredi tanto, tanto, tanto nestas duas semanas - e dói tanto, tanto, tanto sentir isso quando tinhas tanto orgulho em tudo aquilo que conquistaste.

O meu trabalho obriga-me a saltar, todos os dias, a minha zona de conforto - e isso, nos dias bons, é difícil, mas faz-se. E quando se faz, sabe maravilhosamente bem. Mas nos dias maus, parece uma missão tão impossível como subir o Himalaias. E olhar para o meu trabalho, que é sinceramente das coisas que mais me preenche na vida porque é das poucas que eu sinto que faço bem, e perceber que não o estou a conseguir fazer, que tenho prazos para cumprir mas que não estou a ultrapassar determinadas barreiras para os conseguir obdeceder... é de cortar a respiração. Ter de falar com pessoas, nas últimas semanas, virou outra vez um bicho de sete cabeças. 

Depois segue-se tudo o resto. É a velha história: uma pessoa, depois de tanto chorar, já nem sabe de que chora. Abrem-se gavetas que nós nem nos lembramos, as feridas pequenas já parecem autênticas cirurgias e todos os bichinhos que tínhamos guardados no sótão voltam a pairar à nossa volta. Oh, e se voltou tudo. 

Vou acabar uma série de trabalhos que tenho pendentes e que me estão a pesar nos ombros há demasiado tempo, depois vou respirar e voltar ao normal. Ao meu novo normal - aquele, de há uns meses atrás. Porque isto, esta Carolina, eu conheço de ginjeira. E detesto-a, o que piora tudo: porque vivermos diariamente com alguém que detestamos mata-nos por dentro. Assim como me mata dizerem-me que já não me reconhecem assim, porque só eu como me custa desiludir os outros; "onde está a Carolina decidida, racional, com objetivos?". Meu deus, como eu queria saber.

 

[obrigada por todos os comentários e palavras de carinho. não vou responder e não volto a escrever sobre isto enquanto esta crise não me passar. não me apetece dissertar sobre tristezas, dores e depressões, quando já percebi que há todo um mundo melhor para além disto. são estados de espírito que não quero promover e que não quero, no meu caso, prolongar. vai passar :) ]

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