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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

15
Abr17

"Só faz falta quem cá está"

Carolina

Mentimos todos os dias. Não quer dizer que sejam mentiras grandes ou que seja por mal. Às vezes é simplesmente mais prático. O clássico é a resposta "está tudo bem". A verdade é que quem nos conhece não precisa de perguntar esse tipo de coisas: simplesmente sabe. Quem nos pergunta, no meio da rua, "'tá tudo?" são pessoas que nós já não vemos há uma série de anos, colegas de trabalho com quem só almoçamos na mesma mesa enquanto se esvazia a marmita ou, no geral... o resto das pessoas. E ninguém diz "não, não estou bem": porque não há tempo, porque não há abertura ou proximidade para isso. Eu acho que o "está tudo bem" já quase se tornou numa expressão idiomática, de tanto ser dita e tão pouco verdadeira.

Mas não é a única. Eu adoro expressões, ditados e esse tipo de coisas e todos os valores subliminares que têm por detrás. Ainda há pouco lia um comentário que dizia "deixa lá, só importa quem cá está!" e só consegui pensar que aquilo soava a uma gigante mentira, por um lado com um tom motivacional e por outro com um toque profundamente magoado e chateado. Refleti seriamente nas vezes em que ouvi isto - e aquelas em que eu própria o disse - e percebi que é uma daquelas expressões que só sai quando há uma ferida por sarar. 

Se "só importa quem cá está" não haveria desgostos de amor profundos, não haveria lutos que duram uma vida, não haveria as dores de alma que existem devido a zangas, desencontros e mal entendidos. Nós somos feitos de todos os contactos que fazemos ao longo da vida - porque, como diz um dos meus filmes favoritos de sempre, "our fingertips don't fade from the life we touch". E há pouco, quando li o tal "só importa quem cá está", quase que ouvi uma vozinha irritada a dizer "somos melhores sem eles, não precisamos deles para nada, não fazem cá falta, eles que vão, que continuem as vidinhas miseráveis deles enquanto nós aqui continuamos a sambar na cara das inimigas - magoadas, doídas, doridas, mas sempre em cima, que mostrar que eles fazem falta só por cima do nosso cadáver!".

Mas a verdade é esta: as pessoas fazem-nos falta. E se dizemos que "só importa quem cá está", é porque ainda mais falta fazem. É porque ainda dói, é porque a ferida ainda não sarou. E normalmente só é uma expressão que usamos quando as pessoas saem pelo próprio pé, quando há um "abandono", quando existe um fim causado por alguém - o que, na verdade, ainda pode custar mais do que uma perda involuntária (como a morte).

Acho que já toda a gente esteve nesta situação - em que perdeu alguém de quem gostava mas, para não dar mais importância ao assunto, disse para si mesmo que "só importa quem cá está". Eu já o fiz, tantas e tantas vezes. Aliás, diria que vivo quase sobre essa máxima: há várias pessoas que considerava valiosas e que saíram da minha vida tão rápido como entraram, às vezes sem um acenar de adeus. E dói. Eu, nesse aspeto, sou uma pessoa muito dorida (e pouco disponível para aceitar mais pessoas só pensando na eventualidade delas depois irem embora). Mas o "mais engraçado" no meio disto tudo é que, no caso em específico em que surgiu este comentário, eu faço parte dos que já lá não estão. Estou do outro lado da barricada. Ou seja, pondo-me no meu devido lugar, a interpretação correta e literal é "já não fazes falta". Mas a mim, quem lá está, faz-me falta. Eu tenho saudades. "Saí" por questões práticas da vida, porque o meu dia-a-dia assim o ditou, mas não quer dizer que tenha deixado de gostar das pessoas lá envolvidas.

E ao ler aquilo pensei em todas as vezes que me senti abandonada por pessoas. E em como elas também podem ter razões práticas da vida para terem feito o que fizeram, para terem saído da minha vida conforme saíram. Mas a verdade é, que no fim de contas, as nossas dores são sempre as que doem mais: mesmo relativizando, mesmo quando nos colocamos nos calcanhares alheios. E um adeus é sempre um adeus. E toda a gente sabe como as despedidas são uma valente merda.

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