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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

31
Jan17

Pôr miúdos a ler Valter Hugo Mãe é a anedota da semana

Carolina

Comecem a preparar as pedrinhas, defensores acérrimos da literatura portuguesa, porque vão precisar. Eu, pelo sim pelo não, já fui buscar o escudo, que daqui a dois dias vou de viagem e não me apetece ir de olho negro. Vamos lá a isto.

Ontem explodiu uma polémica a propósito de um livro do Valter Hugo Mãe, que contém conteúdos explícitos a nível sexual, por este estar proposto no plano de leitura dos alunos do terceiro ciclo. Foi uma queixa apresentada por pais, o que eu acho muito bem, mas fico parva com tudo o resto: primeiro porque o conteúdo, para além de explícito, é bruto; segundo porque os típicos comentadores de facebook vêm dizer que as criancinhas não são nenhumas santas e que sabem muito bem o que é sexo e blablabla. Pois uma criança de 12 anos saber o que é sexo, principalmente nos dias de hoje, é de facto normal; já saber interpretar e contextualizar uma frase que diz "e a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponha a pila no cu" (citado) é outra coisa completamente diferente. Nem me vou alongar neste tópico, sou tudo menos experiente no campo da educação sexual, mas sei que dar uma visão destas a um puto é para ele 1) rir histericamente à gargalhada por ver escritos uma série de termos que os pais censuram, 2) não perceber absolutamente nada, 3) ficar com uma visão deturpada sobre aquilo que é o sexo e 4) ainda ter o bónus de saber o que é uma "puta", no pior sentido possível. Só por isto, este livro nunca deveria ser sugerido para alunos com 15 anos no máximo. 

Por outro lado há toda uma outra questão, onde me pretendo focar mais - e aqui até posso incluir os alunos de secundário, a quem supostamente este livro é verdadeiramente destinado (embora eu também não concorde): se o Plano Nacional de Leitura tem também como objetivo fomentar hábitos de leitura, porquê dar um dos autores mais difíceis da literatura portuguesa contemporânea? Principalmente se pensarmos em alunos, por exemplo, do sétimo ano, dá-me uma vontade de rir imensa de tão ridículo que é. 

E podem achar que não falo com conhecimento de causa, mas falo. Primeiro porque saí da escola há quatro anos, ainda me lembro bem dessa realidade; segundo porque aprendi a gostar de ler relativamente tarde e lembro-me bem de como foi esse processo; e terceiro porque lido com miúdos com idades próximas do terceiro ciclo, praticamente todos os dias, e sei aquilo que eles sabem e a maturidade que têm (ou não têm, que é mais este o caso). Muitos deles mal lêem direito, têm graves falhas de vocabulário, não sabem escrever direito, não sabem pontuar sequer razoavelmente, não cumprem regras básicas de ortografia - e é ridículo dar-lhes um livro que não cumpre as regras clássicas de pontuação, que não escreve com maiúsculas e que, como bónus, ainda tem uma linguagem bruta por detrás e uma história pesada que têm de saber digerir. Não cabe na cabeça de ninguém.

E digo que isto também serve, em grande parte, para alunos de secundário porque a verdade é que muitos deles também não gostam de ler - e não é com livros destes que vão chegar lá. Eu fui para um curso de letras e vi textos e trabalhos que davam direito a um ataque de coração, de tão mal escritos (e com erros) que estavam.

Faz falta ler. E irrita-me que as pessoas sejam fundamentalistas e queiram pôr putos a ler com obras que nem sequer muitas pessoas adultas conseguem, que não gostam, com estilos de escrita demasiado carregados e histórias pesadas, só porque são autores com nome na praça. Para mim, pode ser o Harry Potter, o Twilight, o Eragon, o Triângulo Jota, os Uma Aventura - o que quiserem. Todos os livros que façam alguém gostar de ler deviam ter um estatuto de deuses gregos. Porque são esses os responsáveis por todos os livros que vêm a seguir: os clássicos, os light, os young adult, o que for. Mas tudo começa ali. E eu duvido seriamente que alguém comece a gostar de ler com Valter Hugo Mãe. Muito menos aos 14 anos de idade.

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