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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

29
Jul15

Eu já tive uma casa no Algarve

Carolina

Eu já tive uma casa no Algarve. Era linda, pequenina; era a melhor casa do mundo. Apesar de não a visitar, como a deixei, há praticamente dez anos, podia desenha-la na perfeição, decoração incluída. Lembro-me da cozinha minúscula, onde não cabiam mais de três pessoas; lembro-me do jardim interior, um quadrado com um metro e meio de lado que não servia para nada mas que acrescentava uma mística à casa; lembro-me da ventoinha da sala, que de cada vez que se ligava dava a sensação de que ia voar; lembro-me do meu quarto, do quadro com as bolas de bilhar e dos dois guarda-fatos, um de cada lado, com uma espécie de toucador no meio; lembro-me da piscina, pequenina mas perfeita, para usar sempre que o calor não deixava respirar; lembro-me do quarto exterior, essa coisa que nunca vi em casa alguma e que fazia daquela a coisa mais gira deste universo - lembro-me dos dois beliches, da casa de banho horrenda e do cheiro a praia que lá morava; lembro-me do alpendre onde estendíamos a roupa, tapado por umas plantas de folhas fúxia que agora não me lembro do nome; lembro-me dos sofás, típicos de casa de praia, com um estampado de florzinhas cor-de-rosa; lembro-me da televisão da sala, que só dava os quatro canais e também do tabuleiro de xadrez que estava imediatamente por debaixo dela, onde, numa manhã, o meu pai me ensinou a jogar damas. 

Podia passar o dia nisto, a descrever-vos cada pormenor daquela casa. Já lá fui depois de a termos vendido, mas estava diferente - perdeu a simplicidade de uma casa de férias, deixou de ser a minha casa. Pintaram-na com mil e uma cores, em vez da simplicidade do branco; deram nomes aos quartos (o do fogo, o da água, o da terra) e anexaram o quarto exterior, dos beliches, à casa, fazendo com que se perdessem para a eternidade todas as noites de loucura que aquele quarto proporcionou. Ainda assim, e porque de cada vez que cheiro o Algarve as saudades apertam, gosto sempre de lá passar, ver que ainda é viva e que, ao menos, alguém é feliz nela. 

Ainda lhe guardo a chave principal, não deixei que a deitassem fora quando fechamos, pela última e derradeira vez, aquela porta de madeira branca. Mesmo quando falamos entre nós, quando temos a típica conversa do "se eu ganhasse o euro milhões", eu digo que não - não queria ter outra casa no Algarve. A casa que eu queria, já a tive, já existe e era aquela.

Eu já tive uma casa no Algarve e tenho muitas, muitas saudades. E hoje, se pudesse fugir, era para lá que ia. Hoje, mais do que as saudades, queria mesmo ter um sítio para onde escapar, um lugar seguro. Mais perto do sol, mais perto do mar quente, mais perto da praia que me faz feliz, mais perto do sossego de alma que só o Algarve me traz.

 

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