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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

17
Jul17

Calças, calças everywhere (ou #contraextinçãodasmumjeans)

Carolina

Passo a minha vida a passear-me entre rádios em busca de alguma música que goste, por isso já nem sei bem dizer em qual delas é que ouvi uma das animadoras a dizer que uma fashion advisor fez uma lista com uma série de coisas que todos tínhamos imediatamente de parar de usar. Liguei tanto àquilo que só me lembro de duas delas: a primeira eram leggings, a segunda eram mum jeans.

Não me vou meter na discussão das leggings – muito poderia ser dito aqui sobre esse tópico, mas nem sequer sou grande pessoa para opinar porque só as uso para ir ao ginásio (e como não vou ao ginásio, não as uso…). Mas falar nas mum jeans é tocar-me na ferida! Isto das opiniões relativamente à moda tem muito que se lhe diga e estas listas dos “must-have da estação” ou do “livre já o seu armário destas peças” fazem-me um bocado de espécie.

Primeiro porque só quem tem um poder económico alto e uma paciência de santo é que renova o roupeiro segundo cada estação e segundo porque há milhões de formas de conjugar as coisas e até de fazer com que as peças mais horrendas resultem em coisas visualmente aceitáveis. É tudo uma questão de gostos e estas medidas “restritas”, a mim, tiram-me do sério e não deviam ser levadas a peito só porque é uma fashion advisor que as diz. Se fosse eu, diria para se abulir o roxo de todas as roupa; ou tirar as culotes do mercado. Mas são gostos e tenho de admitir que há quem goste e que até existem pessoas a quem aquilo fique bem.

Mas voltando às mum jeans: foram as minhas salva-vidas. Já escrevi aqui que detesto comprar calças, é um verdadeiro suplício. Eu sou a receita perfeita para grande parte das calças me ficarem pessimamente: pernas e coxas gordinhas, anca larga e, para ajudar à festa, um tornozelo inchado (o que é importante, principalmente hoje em dia, em que falta um palmo em quase todas as calças existentes no mercado). Por isso, sempre que eu começava a ver que precisava de comprar esta peça de roupa, até tinha suores frios.

Até virem à baila às mum jeans. Para quem não está dentro da nomenclatura, estas são calças de cinta bastante subida e com a perna mais larga, afunilando um bocadinho em baixo (mas não exageradamente, como as skinny jeans). E para mim, esta moda foi a descida do céu à terra. Só eu sei como sofri durante todos aqueles anos em que apenas se vendiam skinny jeans e calças de cintura baixa. Eu posso usa-las (e usei-as, que remédio), mas tenho a perfeita noção de que não me ficavam bem. E uma das coisas que mais me irrita na moda é isto: criar as coisas, massifica-las e esquecerem-se de que a grande maioria das mulheres não têm aquele típico corpo de modelo em que tudo parece assentar na perfeição. Portanto a diversidade que existe hoje nas lojas – e falo ao nível dos jeans – é o que devia existir sempre.

Mas eu sei que na realidade não é assim, que a moda é imprevisível e que daqui a um par de anos ora só se usam calças à boca de sino ou se volta outra vez para as ultra skinny jeans. Por isso, para me precaver, tenho-me abastecido de jeans para os próximos anos. Se encontrar umas que gosto, que vestem bem e com uma lavagem que não tenho, nem sequer penso muito: trago para casa e está o negócio fechado.

O objectivo é funcionar quase como a Arca de Noé: quando, no mundo, já só existirem calças que só me servem nas orelhas ou e ficam para lá de mal, ainda posso contar com o meu baú pessoal de jeans, salvas no tempo em que as havia em bom e em abundância. #contraextinçãodasmumjeans

13
Jul17

Uma visita ao Terminal de Cruzeiros de Leixões

Carolina

Já conheço alguns terminais de cruzeiros pela Europa – principalmente no norte e, brevemente, ali no Mediterrâneo e na zona do Adriático – mas ainda não conhecia bem o nosso novo terminal em Leixões. É uma coisa comum, não é? Conhecermos e explorarmos coisas fora das nossas cidades, quais turistas de categoria, mas ver aquilo que é nosso… nicles.

Já lá tinha ido no Portugal Fashion, ver os desfiles do Luís Buchinho e da Katty Xiomara, e gostei muito do edifício e da vista. Mas quem já foi a estas coisas sabe que aquilo é tudo caótico, gente para todos os lados, uma pessoa não sabe onde se sentar e quanto mais para onde ir, por isso não dá para ver bem o que quer que seja. Para além disso, na altura, só se podia ver a entrada e o terceiro piso, onde decorreram os desfiles, por isso não deu para grandes explorações.

Mas num destes fins-de-semana aconteceu aqui no Porto um evento chamado Open House, que consiste em várias visitas guiadas a muitos sítios ilustres no Porto e em Gaia (aliás, muitos deles até sem visitas – basicamente os espaços estão abertos para quem os quiser ver, de forma gratuita). Dos muitos locais que havia para escolher, optamos por ir conhecer melhor o terminal e a visita valeu muito a pena!

Fomos cedo, por volta da hora do almoço, e por isso não apanhamos com o mar de gente que invadiu o espaço a meio da tarde. O guia era muito simpático e a visita em si foi muito interessante, até porque o espaço está muito bem concebido e pensado, com imensos símbolos e estruturas relacionadas com o mar, a água e os animais que lá vivem. Pudemos ver todas as partes do terminal, incluindo aquelas por onde passam os passageiros quando atracam os navios, portanto foi uma visita muito completa e que pode ser ainda mais gira para quem não faz ideia de como funciona um terminal de cruzeiros.

Eu, que já passei por vários, não tenho qualquer tipo de dificuldade em afirmar que este é, sem dúvida, o terminal mais bonito onde já pisei os pés – e os vários concursos e prémios que o edifício já ganhou são prova disso. Só aqueles azulejos lindos – são mais de um milhão, todos postos à mão! – fazem valer a visita, pelo sentimento de estrutura e relevo que dão a todo o espaço.

Se forem do Porto, não deixem de aproveitar um domingo (dia em que o terminal está aberto para visitas, da parte da manhã) de sol para visitar o espaço e tirar algumas fotografias. Vale a pena!

 

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12
Jul17

A felicidade são momentos simples

Carolina

Consigo avaliar se estou a viver períodos mais felizes ou tristes, mas em qualquer das fases há sempre um mix de emoções que nunca são lineares. Podemos estar felizes e ter um momento triste - basta um pensamento -, e podemos estar tristes e ter um momento feliz - basta uma memória. Porque uma coisa é certa: só por breves momentos é que os nossos sentimentos e emoções não se misturam e podemos sentir algo com a sua intensidade máxima. É algo breve - mas tão bom quando é bom; e tão mau quando é mau.

Hoje, enquanto saía do hotel junto a um dos canais aqui em Veneza e o sol se punha no horizonte, foi um desses momentos de felicidade pura. Não havia dramas familiares, zangas, preocupações com o trabalho, stress da viagem, dores nas pernas ou cansaço que valesse para estragar aquilo. É algo tão passageiro mas tão profundo; sinto-me pequena ao tentar descrever algo por palavras quando é quase indiscritível em imagem. O dourado do sol a bater nas paredes amarelas e laranjas de Veneza, com pouco ruído das enchentes que visitam a cidade - vantagens de estarmos longe do centro - e só com o barulhinho dos barcos a deslizar pela água, fez daquele momento tão simples - em que procurava um restaurante para jantar - em algo mesmo especial. Veneza tem uma capacidade incrível de ser calorosa e de nos encher a alma com um conforto que, de tão bom, nos parece estranho.

Depois de ter passado - lá está, foi tão rápido que nem se notou - lembrei-me que esta era mais uma das muitas coisas que eu, se pudesse, roubava do mundo Harry Potter'iano: a capacidade de guardar memórias num frasquinho e, quando quiséssemos, poder revisita-las. Não ter medo de esquecer - e, acima de tudo, poder lembrar as coisas quando nos parece impossível termos vivido algo tão bom (ou tão mau, dependendo do objetivo). No fundo, não estarmos à mercê de algo que parece ser tão volátil, que não controlamos ou percebemos completamente. Termos a garantia de que aquele momento ficará connosco, para sempre.

Enfim, quando voltar conto e mostro tudo - para já, resta-me dizer que comecei com chave de ouro. Já vos disse que adoro cidades em tons quentes, em que a história se sente nas paredes desgastadas? Pronto, era só para ficarem a saber.


Veneza, 12 de Julho. Escrito numa esplanada, onze da noite, 27ºC.

 

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11
Jul17

Vou mesmo de férias ou isto é um sonho?

Carolina

É difícil acreditar que vou mesmo de férias. Sim, já tinha ido para o Algarve há três semanas, mas levei o computador comigo e estava sempre com aquele medo de receber uma chamada urgente e de ter de pôr as mãos na massa; passava a vida a fazer refresh no email, algo que quase se tornou um vício no último ano, porque é aí que vejo tudo o que tenho por fazer, consoante o que me vai caindo durante o dia.

Mas agora vou sem computador e sem grandes margens para pensar noutra coisa senão viver, conhecer, viajar, escrever e tirar fotos. Vou ser obrigada, durante duas semanas, a cortar o cordão umbilical com o trabalho e a viver sem aquele stress dos emails, dos textos por entregar e dos alertas do Google a trazerem-me coisas para escrever. Vai ser estranho, mas tão bom ao mesmo tempo.

O blog vai continuar ativo, até porque agora que o roaming deixou de existir é mais fácil dar notícias sem nos sentirmos roubados. Comprei, inclusivamente, um cartão com dados para poder utilizar enquanto o barco estiver aportado, de forma a utilizar o menos possível a internet do navio (que é um absoluto balúrdio).

Fiz um esforço para, nos últimos dias, escrever sobre muitos dos temas que queria ter escrito ao longo dos últimos meses e que, por falta de tempo, não tinha conseguido escrever. Vou intercalando esses textos com aqueles que vou escrevendo em viagem, por isso podem continuar a passar, que eu vou dando notícias. Relativamente aos diários de bordo, só os escreverei quando estiver em terra, para poder ter tudo mais esquematizado, as ideias todas no sítio e as fotos já seleccionadas e direitinhas, para fazer dos relatos deste ano tão bons como os do ano passado no Báltico (e não são poucas as vezes em que os releio, para matar saudades).

Para além do blog, podem acompanhar-me no meu instagram (@carolinagongui), onde postarei fotos mais imediatamente, de forma a provocar inveja alheia a todos os meus seguidores. Vemo-nos por lá e por aqui!

09
Jul17

Precisamos de falar sobre as novas bóias que invadiram o país

Carolina

Quero aproveitar este dia em que o verão está meio descaracterizado, o sol escondido e uma humidade de pôr, literalmente, os cabelos em pé (as raparigas sabem do que eu estou a falar) para falar de um assunto que me tem deixado apoquentada durante os últimos meses.

Não sei se se lembram de eu ter feito, há um ano atrás, um post em que falava da falta de diversidade das bóias neste país. Na altura até deixei algumas sugestões de possíveis novos designs que pudessem aumentar a “fauna boial” do mar português, tais como “um polvo, um robalo, uma sardinha tão tipicamente portuguesa? Ou uma gaivota, um linguado ou uma amêijoa, se queremos pensar fora da caixa.”

Passou-se um ano e puff, do nada apareceram bóias de tudo e mais alguma coisa. Eles são ananases, melâncias, flamingos, unicórnios, dónuts meios trincados, cisnes brancos, cisnes negros… toda uma panóplia de novos insufláveis, que custam os olhos da cara mas que, ainda assim, invadiram os instastories de todo o verdadeiro português.

A minha questão é: e eu? Eu, que alertei para este problema gravíssimo que estava a deflagrar na nossa costa. Eu, que dei sugestões para mais e melhores bóias, inclusivamente com símbolos tipicamente portugueses. Eu, que divulguei a causa, cheia de compaixão por esses mares sem diversificação. Nem um royalty, nem um obrigado, nem um raio de uma bóia de graça. É triste esta vida, não é?

Embora na altura em que escrevi o post – e que causei todo este movimento “pró-bóia” – estivesse na praia, de papo para o ar, sem fazer nenhum e a ter ideias graças ao demasiado tempo livre que tinha, por estes dias, ainda que muito atarefados, tenho tido tantas outras ideias passíveis de serem usurpadas por marcas sem coração, que nem uma agradecimento fazem a esta pobre alma. Posto isto, vou só ali ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial registar as minhas ideias – claramente valiosas - e depois falamos, ok? (É que nem uma bóia!)

 

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06
Jul17

Salvador Sobral: quando a música não vem só da alma, mas do corpo todo

Carolina

Passei aí uma fase em que estava maluquinha com o Salvador Sobral. Para dizer a verdade, essa fase ainda não passou - e não sei se passará tão cedo. Tenho para mim que ele é o meu Jamie Cullum português - aliás, há uns tempos comprei o Expresso só para ler uma entrevista que ele deu e ele lá dizia que também passou uma fase em que adorava o Jamie. E eu pensei "ah, eu sabia, somos almas gémeas!". Só que não. Acho que não conseguia aturar o Salvador durante muito tempo - eu, uma control freak assumida, dava em louca com tanta coisa aleatória que vai naquela cabeça. Mas isso não faz com que goste menos dele, que não adore a sua música ou que não me desse uma alegria enorme conhecê-lo.

Ontem fui ao primeiro concerto dele na Casa da Música e saí de lá rendida, de coração muito cheio, super inspirada - a sentir que podia conquistar o mundo, escrever livros e aquilo que mais sonho - e feliz por ter testemunhado este momento. Passei aquelas duas horas de música acompanhada por uma dor de cabeça sem fim, que se ia expandindo à medida que os minutos passavam, graças a um dia demasiado longo e cansativo - mas era impossível aquilo não compensar. Aguentei estoicamente - e aguentaria mais duas horas iguais, se ele assim as cantasse. 

Não é um concerto para todos. E o tempo, quase como a teoria da evolução das espécies, vai-se encarregar de deixar aqueles que gostam mesmo do estilo do Salvador - incluindo as caralhadas que ele vai dizendo - nos seus concertos e os outros vão acabar por ir à vida deles. E porquê que não é para todos? Porque é um concerto de jazz, com a liberdade que lhe é característica. Diria mesmo que essa é a grande diferença entre ele e o (meu) Jamie: há uma grande componente criativa em todos os concertos, as músicas nunca saem iguais, a comunicação entre público e artista é incrível, nunca se sabe o que vem a seguir... mas o Jamie tem uma componente muito mais pop nas suas músicas, enquanto que o Salvador gosta mesmo daquela onda jazz - de ouvir os seus músicos, de lhes dar a luz da ribalta, de lhes proporcionar momentos a solo que eles tão bem merecem, de ele próprio gritar quando quer ou sussurrar longe do microfone quando assim acha apropriado. Aquilo vem-lhe das estranhas, da alma. Na verdade, vem do corpo todo - e é por isso que ele parece um boneco estranho a cantar. E a verdade é que muitas vezes corre bem; outras, nem tanto - ontem, numa das músicas em que ele decidiu improvisar, passou o tempo da entrada e ele disse, ainda que rapidinho: "ups, já fiz merda". E isso, meus amigos, tem o seu encanto - como tudo o que é puro e verdadeiro.

No meio das músicas mais conhecidas dele, cantou outras que eu nunca tinha ouvido: uma a que ele chama "Loucura" e outra intitulada "Benjamim", composta por ele e por André Rosinha (que toca contrabaixo). Para além disso tocou pela primeira vez uma música dos Alexander Search, que ele deu a entender que não estava no alinhamento e que surgiu de forma espontânea que se chama "Justice" - e da qual gostei mesmo muito. Antes do encore houve um momento um tanto ao quanto tétrico, com um poema que ele próprio escreveu (talvez com o título "180 dias"), que retratava um homem que estava em coma, entre o limbo e a dúvida entre acordar ou morrer - aqui, houve uma pequena participação de Júlio Machado Vaz, que entrou em palco para ler um poema de Sophia de Mello Breyner, que também estava na onda da letra do Salvador. Por fim, ele sentou-se ao piano e fez o meu coração derreter. Eu sou, provavelmente, a pessoa mais difícil de se apaixonar na história da humanidade: mas acreditem que um homem ao piano é meio caminho andado para me deixar rendida. Tocou uma cover da música "Ninguém escreve Alice", escrita por Rui Veloso e Carlos Tê, e também uma música do segundo álbum da irmã. Terminou com a "Case of You", de Joni Mitchell - talvez, para mim, a melhor interpretação dele (ainda estou a decidir se gosto mais desta ou do "Presságio", que ele tocou no início do concerto) e que, claro, me levou às lágrimas - e, mesmo para acabar, uns pequenos acordes da "Amar pelos Dois", que já havíamos todos cantado em conjunto e que foi quase um agradecimento mais silencioso e profundo daquilo que ele está a viver.

Acima de tudo, no que diz respeito ao Salvador, acho que podem acontecer três coisas distintas: não gostar nem dele nem do seu estilo de música e portanto risca-lo por completo; gostar da música mas não da pessoa; ou então, diria que a mais improvável, gostar dele e dispensar a música que ele faz e canta. Em qualquer uma delas, penso que é essencial admitir uma coisa: ele é um grande músico, com um poder vocal incrível. É quase como o Ronaldo: eu não gosto dele, não gosto da equipa que ele representa - mas não tenho outra hipótese senão admitir que ele é um jogador do caraças. Como em tudo na vida temos de olhar para as coisas e desfocar aquelas que gostamos menos; eu também não gostei daquilo que aconteceu no concerto solidário, mas optei por não escrever sobre isso. E, honestamente, nem foi para não ofuscar a causa: foi para não ofuscar o talento dele com uma saída despropositada e desmedida, de alguém que claramente quer muito fazer música mas não está a saber lidar com tudo o que ter sucesso implica. Eu, como muitos, não achei piada: mas em todo o panorama que é, para mim, o Salvador... optei por desfocar esse momento, em detrimento de tantos outros incríveis que ele já nos proporcionou (e que, no meu caso, sei que continuará a proporcionar - porque não me ficarei por este concerto).

A "Amar pelos Dois" não é a minha música preferida dele - mas será sempre especial, por aquilo que representa para todos nós. E ontem, enquanto o via e ouvia ali à minha frente a cantar essa música - um rapaz magrinho, com uma camisa super larga que engana os menos observadores, com umas perninhas super fininhas, quase que representando a sua fragilidade - apercebi-me do privilégio que estava a viver. Arrepiei-me e lacrimejei porque, de facto, os dias da Eurovisão foram mesmo felizes e nem ele próprio se apercebeu de tudo o que deu a Portugal. Está, neste momento, a recolher os louros e as consequências disso - até porque, como ele disse ontem, ele não consegue arcar com a felicidade toda de um país. Mas eu estou em crer que o tempo, os meses e os anos lhe vão dar a clarividência do que ele fez em Kiev, das asneiras que fez a seguir, e perceber um pouco da nuvem em que está neste momento a viver. E de, eventualmente, ter orgulho naquilo que conquistou.

A minha sorte é que tenho paciência - e (espero eu) tempo. Tempo para ver o Salvador crescer, tempo para ouvir mais concertos, tempo para esperar por mais álbuns e tempo para viver a minha vida ao som da música dele. Ah, e memória: porque por mais anos que viva, penso que nunca mais me vou esquecer do momento em que ele nos ganhou a Eurovisão. Ainda ontem ele prometeu dar uns segundos onde toda a gente podia tirar fotos, "o momento em que somos todos do nosso século"; é claro que muita gente sacou dos telemóveis momentos antes, para filmar algumas músicas e captar fotografias, como se fosse aquilo que ficasse marcado no cérebro... Naqueles 20 segundos toda a gente sacou dos smartphones e os virou para os músicos. E eu fiquei ali, a olhar para o palco, com as mãos no bolso e um olhar embevecido. Não quero uma foto deles para nada, não preciso de mais entulho nos meus arquivos. Quero, sim, que aquela imagem fique guardada na melhor memória RAM de todas, um "disco D" sem igual: mais do que no meu cérebro, quero estes momentos no meu coração.

03
Jul17

O novo museu na casa Andersen e o Jardim Botânico do Porto

Carolina

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É com alguma vergonha que confesso que, aos 22 anos, tripeira de gema, nunca tinha posto os pés no Jardim Botânico. Eu sei, eu sei, é um crime e é vergonhoso mas o quê que querem? Jardins e espaços verdes não são sítios que frequente muito - já o Palácio de Cristal e Serralves são locais que raramente visito - e nunca tinha surgido uma boa oportunidade para ir dar um passeio ao Jardim Botânico e à Casa Andersen. Até ontem.

Isto porque foi no sábado inaugurado o Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, que tem esta semana entrada gratuita (estão a apontar?) e que prometia o esqueleto de uma baleia no centro da casa, o que só por si me pareceu uma boa razão para lá ir. E assim matava dois coelhos de uma só cajadada: o novo pólo do museu e o jardim. E gostei muito... de ambos.

O museu é pequeno - e pareceu ainda mais com tantas pessoas lá dentro (acima de tudo porque estava um calor infernal e, como a casa não tem ar condicionado, estava toda a gente a abafar). Só tive 50 minutos para o visitar, já fomos perto da hora de fecho, mas penso que dado o tamanho e a quantidade de coisas que há para ver, já é o bastante; passamos algumas partes mais a correr, mas deu para ver e ler todas as descrições (ainda que algumas por alto). Agora que olho para trás, não vejo um grande fio condutor entre toda a exposição, mas de um ponto de vista individual (de cada sala) é bastante interessante para quem gosta de ciências e para quem, em biologia, ficou encantado com Darwin e a teoria da evolução das espécies. Tem algumas coisas sobre a seleção natural, a evolução dos animais e de alguns vegetais; mostra a diversidade e homogeneidade entre uns e outros, de formas interativas e outras estáticas mas visualmente muito atrativas, que dá vontade de ficar ali a olhar e admirar.

É tudo claramente pensado ao pormenor e feito com muito brio: porque mais do que transmitir conhecimento, é bonito de se ver. Desde o mais pequeno detalhe às grandes estátuas de animais e do próprio Darwin, que está sentado com uns coelhinhos ao colo mas que, de tão realista, eu não me admirava se se pusesse de pé e andasse dali para fora. 

Acho que até para crianças pode ser uma exposição interessante e que pode ajudar a que elas entendam alguns princípios básicos da ciência e da vida, assim como coisas mais práticas do dia-a-dia. Pode não ser o museu mais espetacular aqui do pedaço, mas é visualmente muito bem conseguido e está inserido numa casa lindíssima, com uma escadaria e algumas salas de fazer cair o queixo. Ah, e não esquecendo o esqueleto da baleia, que é logo um "baque" mal se entra e nos faz pensar "o que somos nós, pequeninos, comparados com isto?". É de facto imponente e faz-nos relativizar. E se não gostarem da exposição... bem, podem sempre ir passear nos jardins, que estão cheios de recantos giros para ler ou tirar uma sesta à hora do almoço, enquanto se ouvem os passarinhos e se sente a calmia e o cheiro da natureza.

 

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02
Jul17

A arte de não saber criticar

Carolina

Nos últimos dias tenho andado embrenhada em críticas a parques de campismo. Ando atrás de mais um sítio para ir acampar com a minha família, com todas as exigências que isso implica - que fique, no máximo dos máximos, a duas horas do Porto, que caibamos lá todos e de preferência em forma de clã, que tenha água - mar ou rio - e boas condições de higiene (os mínimos, vá) - e por isso dou grande importância às avaliações e críticas de quem já lá esteve.

É claro que nem tudo é para levar a sério - já aprendi isso pelo tripadvisor no que aos restaurantes diz respeito. A verdade é que cada um tem os seus gostos mas, acima de tudo, referenciais diferentes. Um restaurante pode ser mediano, mas para alguém que normalmente come em restaurantes fracos, tascos, com diárias e coisas que tais... este é acima da sua média e, por isso, muito bom; já para alguém que frequenta sítios de luxo, um restaurante mediano é abaixo da sua média e por isso é normal que as críticas sejam menos positivas. Podia dizer-se que "há coisas factuais" mas, de facto, tudo depende daquilo que temos como referência. "As casas de banho são muito limpas" - se as pessoas, nas suas próprias casas, só lavam as casas de banho de quinze em quinze dias, é natural que casas de banho que, para mim, são horríveis, sejam para essas pessoas limpas. A questão aqui é que quanto mais limpas são, melhor - e agradam desde os menos exigentes até aos nazis da limpeza. Na comida também se vive o mesmo drama, embora aí entrem também os gostos, o que ainda vem piorar as coisas: "a sopa estava salgada". Se calhar para mim não, porque uso bastante sal em casa... mas para outros talvez sim. Por isso há muita coisa que, de facto, é difícil avaliar... e um restaurante ou um hotel bom é que aquele que de facto - e quase milagrosamente - consegue agradar a gregos e a troianos.

Mas uma pessoa tem de saber ultrapassar estas discrepâncias e encontrar um meio termo no meio de todas as críticas que lê. Mesmo que não se concorde com algumas coisas, o essencial é aceitar. Mas isto aplica-se quando as pessoas criticam, de facto, alguma coisa - quer seja de forma positiva ou negativa. Porque a verdade é que na minha exploração por parques de campismo, cruzo-me com inúmeras "críticas" perfeitamente inúteis tipo "dou cinco estrelas porque é aqui que passo sempre as férias com a minha família e amigos". Ah, muito obrigada, caro comentador! Ajudou-me imenso a perceber as condições do parque com o seu comentário hiper enriquecedor. Ou outros que pretendem deixar o suspense: "nunca ponham os pés nesta espelunca!". E explicar porquê, não dá? Esgotou o máximo de caracteres que o twitter permite? E já nem falo dos "monopalávricos" (acabei de inventar uma nova palavra, sim) - "bom", "gostei", "mau", "adoro" e coisas que tais - porque comparados com os comentários super argumentativos e explicativos que eu mostrei em cima, ao menos têm uma opinião geral, ainda que não fundamentada e igualmente passível de ser ignorada.

Eu posso ser suspeita porque escrevo com facilidade e gosto muito de escrever críticas - a rubrica "review da semana" é, para mim, uma das mais fáceis de fazer e dentro daquilo que é (ou não) o meu jeito de escrever, penso que até tenho bastante aptidão para criticar tudo e mais alguma coisa. Mas quer se escreva mal ou bem acho que a partir do momento em que uma pessoa se predispõem para criticar algo... devia saber o que criticar. Dizer o bom e o mau, o que gostou ou deixou de gostar, argumentar a escolha, falar das expectativas que foram ou não superadas. No caso das críticas do Google (leio muitas), são feitas sem qualquer pressão sobre as pessoas (ao contrário do booking, por exemplo, que nos manda emails a pedir para deixar reviews) e portanto acho sempre estranho que existam tantos comentários despropositados quando foram feitos, literalmente, de livre e espontânea vontade.

Ninguém diz "olha, fui para aquele parque de campismo por recomendação daquele senhor desconhecido que disse que vai lá todos os anos com a família e com os amigos e que por isso é muito feliz". Ou então sim e eu é que sou muito estranha e não percebo nada de críticas e poder de argumentação. 

30
Jun17

Chávena de letras "O Falcão de Malta"

Carolina

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Sinopse aqui

 

Este é um policial clássico, com tudo o que tem direito: um detetive privado que acha que sabe tudo e que tira ilacões incríveis, mulherengo e galã, imprevisível, um filho da mãe mas também respeitador de uma moral que rege as suas ações e forma de atuar; uma cliente mentirosa e enganadora mas ao mesmo tempo coquete e irresistível; os polícias lerdos que nunca conseguem levar a deles avante; os rufias, um como sempre bonacheirão, e toda a envolvência deste tipo de obras dos inícios do século XX, onde não faltavam os cigarros em todos os sítios, o whiskey, a penumbra e etc.

Para quem gosta de policiais, esta é sem dúvida uma boa forma de passar um par de dias entretido e sem ter vontade de pousar o livro.
Nota para esta edição de bolso da Livros do Brasil, versão da Porto Editora, que é pequena, leve mas com uma letra boa para se ler, fazendo destas edições os livros perfeitos para se andar de um lado para o outro sempre com companhia sem estar a carregar um autêntico pedregulho na carteira.

29
Jun17

Desmistificar a ideia de um cruzeiro

Carolina

Estava a passear pelo facebook e dei de caras com um post de um humorista que disse que fez férias à velho: foi viajar num cruzeiro. Nos comentários diziam-se coisas horríveis tipo "cruzeiros nunca, jamais!" e onde, lendo o post na diagonal (já tenho pouco tempo recreativo, não me apetecia gasta-lo a ler bacoradas), só se viam coisas do género "é só velhos e gordos a comer durante o dia todo". E até podem desvalorizar este meu post por eu ter uma alma velha, alegando que penso tal e qual as pessoas que frequentam este tipo de viagens, mas acreditem que eu adoro viajar e o faço de todas as formas e feitios, sem problemas de criticar o bom e o mau de cada sítio e de cada meio para lá chegar.

Uma coisa é absolutamente indiscutível: fazer um cruzeiro é a forma mais cómoda de viajar. Queixam-se dos velhos, queixam-se dos gordos, queixam-se das crianças - mas passar dez horas enfiados num avião em classe económica, com uma pessoa obesa a ocupar metade do vosso lugar, um velho com ar bafiento a adormecer em cima do vosso ombro e uma criança a testar o limite dos vossos tímpanos no lugar da frente é muito bom, não é? Vou contar-vos um segredo: no barco, podem quase correr uma meia-maratona lá dentro. Se não quiserem estar parados, não estão. E se quiserem dormir, têm um quarto e uma cama só vossos, sem barulhos, pessoas ou crianças aos guinchos. É uma opção vossa se querem socializar ou querem estar sozinhos, assim como se querem sair ou ficar dentro do barco.

Esquecem-se que a idade traz sabedoria; os mais velhos escolhem este meio porque já experimentaram todos os outros e sabem qual é o melhor. E vocês dizem: "não é nada, é porque andar de barco não cansa!". Ai não? Haviam de se ter levantado às cinco da manhã para estar no autocarro às sete, tal como eu fiz na Rússia, para ver se não chegavam à noite com soninho. Em média, na semana que fiz no Báltico, andei dez quilómetros por dia. E se isso não cansa, não sei o que fazem nas vossas viagens. É claro que podem ficar no barco, não fazer nenhum e comer cachorros e cheeseburgers o dia inteiro - mas, mais uma vez, a opção é vossa.

Outra coisa espetacular: não pagam para comer, não pagam para ir a espetáculos, não pagam para ir ao cinema, não pagam jogar nos trivia, não pagam para ir ao ginásio, não pagam para ir à piscina. E sabem aqueles momentos em que temos de nos meter num avião, para viajar de um sítio para o outro, e lá estamos à espera do check-in, depois à espera que o avião levante, e as horas de viagem sufocantes em que só nos podemos mexer cerca de trinta e sete centímetros e saímos com formigueiros nas pernas e costas suadas e coisas que tais? No barco não existe. Fazem o que querem, vivem a vida, fazem as atividades que mais gostam, dormem confortavelmente - e, sem dar por isso, já estão no sítio seguinte. E se gostarem de ver as vistas, aviso já que em pleno mar se vêem coisas incríveis e pores do sol de cortar a respiração.

Se passam pouco tempo nos sítios? Passam. Se isso é mau? Nem sempre, há sítios de treta. Para mim, a magia de um cruzeiro é esta: fico a conhecer várias cidades em pouco tempo, passo a ter uma ideia geral do que aquilo é, se faz ou não o meu estilo. E depois, mais tarde - ensardinhada num avião, lá terá de ser - volto para divagar com todo o tempo do mundo na cidade. Dou um exemplo: quero muito voltar à Suécia, voltar a percorrer Estocolmo e não só; já ir à Finlândia, penso que só irei se se proporcionar ir em trabalho ou me oferecerem a viagem, porque simplesmente não ficou o bichinho. Foi fixe, risquei um país da lista, mas não tenciono voltar.

Agora tudo depende do cruzeiro que fazem, da companhia onde vão e do tipo de quarto que escolherem. Há cruzeiros fracos, companhias más e quartos horríveis sem sequer uma janelinha para ver o céu. Entre ir num cruzeiro fraco e bafiento e ir para um só destino, mesmo que seja num low-cost e ficar num hotel com melhores condições... se calhar prefiro a segunda opção. O cruzeiro que fiz no Báltico foi com a Royal Caribbean e agora o próximo é com a Celebrity - vamos ver o que vai sair dali - e fiquei em quartos com varanda. São companhias boas e os quartos também são de nível superior - mas sei que há quartos com janela, sem varanda, que também são perfeitamente aceitáveis (e os quartos sem janela, ainda que um bocado claustrofóbicos, quando inseridos num cruzeiro bom devem valer a pena). É, como em tudo, uma questão de dinheiro. Mas vale a pena fazer as contas: se virem todos os sítios onde param, se incluírem comida e bebida, mais dormidas e se se atreverem a juntar todos os extras ao nível de comodidades (ginásio, piscina, sauna, solário...) e de entretenimento (espetáculos, cinema, jogos, etc.) acho que a questão nem se coloca.

No entanto, é como vos digo: fazer um cruzeiro é como ir ao sushi - se começarem num mau, nunca mais põem lá os pés; se começarem num bom, no início estranham e depois não querem outra coisa. A minha experiência foi tão boa que eu vou repetir - e sou uma miúda de 22 anos! Conheci pessoas muito simpáticas, sítios diferentes, falei línguas, convivi e diverti-me imenso enquanto viajava. Fiz um post grande depois do meu primeiro cruzeiro que podem ler aqui, assim como diários de bordo dos sítios onde parei que podem ver aqui.

E, a sério, tendo possibilidades... deixem-se de preconceitos e experimentem.

 

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