Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

20
Jan18

Quatro coisas que me fazem fugir de blogs alheios

Carolina

Eu não tenho grande tempo para ler blogs – mas a verdade é que também já não tenho interesse em ler muitos. Mas às vezes sinto falta. Naqueles minutinhos preciosos que por vezes temos no sofá ou antes de nos levantarmos da cama, gostava de ver outras coisas para além do meu feed de instagram ou facebook e os blogs sempre foram uma boa alternativa nestes casos. Aliás, até há um ano para cá, o feedly (uma ferramenta que reúne todos os blogs que eu gosto) fazia parte do meu top 3 de aplicações diárias, ao lado das duas redes sociais que falei acima. Mas o meu desinteresse nos blogs intensificou-se de tal forma que agora, se passar lá uma vez por semana, já temos sorte.

E isto não se trata só de tempo: eu podia sacrificar perfeitamente os (demasiados) minutos que passo no facebook a ler coisas com muito mais valor acrescentado. Mas a mim chateia-me a forma como agora tudo é feito e escrito para vender, como nada me soa a genuíno, como as pessoas só criam os blogs para serem ricas, terem a caixa de correio cheia ou só para imitar os outros.

Mas a verdade é que estou de alma aberta para acolher novos blogs, apetece-me ler coisas novas. E ontem, nos momentos que pude, deitei o olho aos espaços destacados no follow friday dos Blogs do Sapo, só para ver se algo me chamava à atenção. E comecei a pensar naquilo que queria encontrar ou naquilo que me faz dar meia volta, clicar no retroceder e sair de um blog tão rápido quanto entrei. Então aqui vai disto - as quatro coisas que me fazem fugir de blogs alheios:

 

Música automática. Eu não tenho nada contra aquelas pessoas que põem na barra lateral a sua playlist pessoal do spotify para quem quiser ouvir. Sou sincera: nunca ouço (e acho que ninguém ouve, mas se calhar estou enganada). Nesses casos, cada um é livre de clicar no play, em explorar as músicas e etc., podendo ler, se assim quiser, a ouvir os grilos a cantar lá fora. Mas aqueles sistemas automáticos, em que passados três segundos de uma pessoa entrar no site já estão a bombar música como se não houvesse amanhã, são coisinha para me tirar do sério e fazer clicar na cruzinha do lado direito do ecrã de forma instintiva. Gostar de um blog, gostar da escrita de uma pessoa ou gostar de alguém que escreve por detrás de um destes espaços não é sinónimo de que gostemos do mesmo tipo de música. Por isso, por favor, não nos obriguem a levar com as vossas músicas preferidas (recordam-se que, provavelmente, não são as nossas).

 

Design ruidoso. Fundos cor-de-rosa choque ou azul eletrizante, padrões minuciosamente florais ou cheios, letras cuja cor não faz contraste com o fundo... tudo o que faça com que o conteúdo do blog seja menosprezado relativamente ao design, para mim, é um não garantido. Até porque me custa “conviver” naquele ambiente, não consigo lidar com tudo o que está a acontecer, é impossível concentrar-me na leitura quando tudo à minha volta pisca, brilha ou chama mais à atenção que os textos em si. Ah! E não me esqueci daquelas borboletas/ flocos de neve/ fantasminhas que às vezes andam atrás do cursor, qual perseguição. Isso é só a pior invenção de todos os tempos, não se metam nisso.

 

Erros de ortografia e de concordância sistemáticos. Eu dou erros, toda a gente dá erros. Quanto mais não seja por culpa dos corretores automáticos, que teimam em não nos deixar escrever as palavras que realmente queremos. Quando releio muitos dos meus textos deteto gralhas aqui e ali (que na altura, por muito que tente, acabo por não encontrar), por isso sou longe de ser perfeita nesse sentido. Mas normalmente são coisas ligeiras: repetições de palavras, trocas de umas letras por outras graças a escrever demasiado rápido ou erros de concordância em frases com 12 orações diferentes que eu sou incapaz de decompor. Outra coisa completamente diferente é trocarem os “há” com os “à”, o coser à mão com o cozer de cozinhar ou de entrarem em estilos de português livre com palavras como “entuição” ou “caxecol”. Há erros e erros. Alguns uma pessoa percebe, outros deixa passar, e depois há aqueles que uma pessoa não consegue tolerar e sai porta fora. E porque tudo o que é demais é erro, todos eles, quando são em demasia, também dão direito a cartão vermelho.

 

Comic-sans. Eu não sei quando é que apanhei este ódio de estimação ao Comic-sans, mas foi uma coisa que aconteceu naturalmente. Quando eu era miúda era a minha fonte favorita – tal como era a fonte de todas as raparigas de 12 anos. Lembro-me perfeitamente de ter este tipo de letra no messenger, em laranja, e adorar. Mas entretanto o comic-sans passou de bestial a besta para o mundo inteiro, e eu não fui excepção. Lembro-me de ter professores de informática e de design que diziam, aquando da entrega dos trabalhos: “o tipo de letra é indiferente. Com excepção de comic-sans! Nem pensem em usar isso!”. E o bichinho ficou. Hoje em dia detesto aquele arrendondado-fofinho do comic-sans e tendo a arrepiar caminho quando vejo um blog com este estilo de fonte nos seus textos. É um preconceito, eu sei – nem toda a gente tem de ter a mesma opinião que eu, nem toda a gente tem o mesmo percurso que eu tive com este tipo de letra e nem toda a gente liga sequer à fonte que usa nos seus textos. Mas a mim lembra-me aquela miúda de 12 anos, que escrevia mal e com erros, e por isso a minha tendência natural é fugir.

18
Jan18

Porque é que os homens discutem pormenorizadamente os lances de futebol?

Carolina

Acho que hoje em dia passo mais tempo rodeada de homens do que por mulheres, muito por culpa do trabalho. E, como não podia deixar de ser, um os tópicos recorrentes é o futebol. Mas uma das coisas que eu não percebo - nem nunca percebi, para dizer a verdade - é a necessidade que eles têm de descrever pormenorizadamente as jogadas de futebol.

"Bom, aquilo foi um golaço que nem te passa. O Danilo passou a bola ao Marega do meio campo e ele, no lado esquerdo, finta o defesa lateral do Ave, depois centra para o Aboubakar, que chuta para a baliza mas a bola bate na trave. O Herrera está na recarga, ganha a bola de cabeça com um salto incrível, passa para o Brahimi e ele com um chuto de uma potencia incrível remata para o canto superior direito da baliza. O redes ainda tentou atirar-se, a luva quase chegava lá, mas aquilo era indefensável, pá." (Sim, o "pá" é um detalhe importante nas conversas masculinas).

Eu tenho a teoria de que os homens que escutam isto só apanham a parte de quem fez o centro e quem marcou o golo. Mas, se estiver enganada, quero desde já dar os parabéns aos homens deste mundo por terem a capacidade de imaginar todo este cenário nas suas cabeças. E congratular também todos os outros que decoram estes lances e detalhes, prontos para ir para o café discutir tudo ao pormenor, como quem estudou aplicadamente para um exame.

E a verdade é que eu acharia isto natural se estivéssemos em 1979, quando não havia jogos na televisão, repetições e internet - não havia outra forma de dar a entender ou mostrar as coisas. Mas porquê que esta prática se mantém agora quando, passado dez minutos, está tudo no Sapo Desporto e daí a umas horas os lances passam cinco vezes nos noticiários, 12 vezes naqueles debates com gente-que-finge-que-discute-futebol e 31 vezes nos canais especializados? Porquê que no café não sacam do telemóvel e vêem no youtube, em vez de fingirem que estão num daqueles relatos de rádio?

Porque o mais curioso disto tudo é que até podia ser uma coisa geracional - mas não é! Lembro-me desde sempre de ouvir os meus colegas rapazes a discutirem lances como se fosse a coisa mais interessante do mundo - ou, pior, a descrever aquele "golaço" que marcaram no campo da escola que, como é lógico, ninguém tem interesse em saber. 

Enfim, homens e futebol. Vai ser sempre uma cena estranha.

17
Jan18

Review da semana #24

Carolina

Trello

 

Não sei quanto a vós, mas eu sou doidinha por listas. Infelizmente ando a desleixar-me no meu bullet journal, que devia ser a casa-mãe de todas as minhas listas e listinhas, mas mesmo na altura em que andava sempre com ele de atrelado apercebi-me que já não o usava 100% das vezes que queria apontar algo. Tudo o que eram coisas rápidas, que estavam no meu top-of-mind e que eu sabia (ou achava?) que não me ia esquecer, optava por não escrever só com a preguiça de ter de ir buscar o caderno, abri-lo, pegar no estojo, tirar a caneta, escrever e guardar tudo de novo.

Acho que já se imagina o final desta história: eu às vezes não apontava e acaba por me esquecer de algumas coisas. Como dizem os outros, de boas intenções está o inferno cheio - e eu tinha muitas, mas também já tinha uma lista mental demasiado grande para conseguir dar conta do recado. Entretanto chegou Janeiro, eu ainda nem sequer inaugurei o mês no meu bullet journal e o trabalho não abranda... muito pelo contrário. E eu sinto-me perdida, com um medo terrível de falhar, de que a memória não chegue para tudo... e por isso recorro às minhas melhores-amigas listas. Acima de tudo - mais até do que a componente organizacional - é uma forma de me acalmar, de saber que tudo o que paira na minha cabeça está assente em qualquer lado, de que não ficará esquecido e que está sempre lá mal chegue o tempo de executar a tarefa x ou y.

Lembro-me de ter esta sensação nos meus primeiros tempos no mundo laboral: vinham coisas para fazer de todos os lados, sobre assuntos diferentes, que implicavam recados para ali, tarefas para acolá, marcações na agenda, emails para uns, notas para outros... e eu sentia que o meu cérebro estava a jogar à cabra-cega, de tão perdido que estava. Na altura passou mas, nesta nova fase no trabalho, em que faço o dobro do que fazia antes, o pânico de me faltar algo voltou para me assombrar. E por isso eu voltei a utilizar uma ferramenta que tinha utilizado há cerca de um ano e meio, na altura para uma função muito específica, mas que é maravilhosa para "listólicos" como eu. Chama-se Trello e consiste numa aplicação à base de... (rufos de tambores) listas!

Podem criar vários "cartões", que é como quem diz tópicos-chave, e a partir daí recheá-los com tudo e mais alguma coisa. Mesmo dentro dos próprios tópicos podem colocar comentários, pondo notas se assim precisarem, e até anexar fotografias e ficheiros, colocar datas limite, fazer check-lists e até adicionar outras pessoas às vossas listas e tabelas, sendo por isso uma ferramenta útil também para o trabalho. Depois de feitos, arquivam os tópicos-chave ou simplesmente as tarefas neles contidas (ou movem-nas, conforme preferirem).

Tem a grande vantagem de funcionar em browser e em aplicação no telemóvel, o que faz com que tenham sempre um aparelho à mão para atualizar as listas quando necessário. Acima de tudo, é uma forma rápida, organizada e muito flexível (pelas muitas possibilidades que tem, tanto a nível das listas, como de personalização e até de partilha) de trabalhar com listas, principalmente para alguém como eu que se apoia nelas para ter sempre tudo sobre controlo e que passa a vida a escrever e a apagar coisas à medida que o dia vai passando. 

 

usecases-board05.jpg

 

15
Jan18

Livro não há. E então o blog?

Carolina

Há uns dias falava-se aqui em casa de como os meus sobrinhos (e extrapolando até para a malta mais nova, da geração YouTube) vivem com base na constante aprovação dos outros. Quase todos eles já têm redes sociais e festejam cada novo seguidor como se tivessem ganho a lotaria – ou o Euromilhões... ou talvez o Placard, porque já nem devem saber o que é a lotaria. Tudo o que fazem é com vista a ter mais likes: enviam mensagens a dizer que se pusermos gosto nas coisas deles, eles devolvem o botão mágico em todas as nossas publicações e até põem screenshots censurados nos instastories a dizer “foto nova, vão ver!!!”. No fundo, fazem tal e qual como os influencers que eles tanto admiram.

E isso admira-me porque eu não sou nada assim. Quando um dos meus irmãos disse a um dos filhos que só podia ter como amigos pessoas conhecidas, a criança respondeu: “mas o objetivo disto é ter mais likes, se começar a rejeitar qual é o objetivo?”. E isso é um sinónimo de toda a nossa sociedade atual: tão cheia de likes, tão vazia em tudo o resto. Mas continuemos: estava a dizer que não me revejo por esta luta cega de likes e de aprovação exterior. No meio da conversa, dei comigo a pensar: “caraças, se eu fosse assim já não tinha o blog há muito tempo”.

Porque as poucas dúvidas que eu tenho em relação a este espaço prendem-se precisamente com a divulgação que eu faço – ou não faço, neste caso – dele. A minha posição em relação a este estaminé resume-se à frase "não promovo mas não escondo". Isto quer dizer que nunca me ouviram dizer a alguém desconhecido "sabes que eu tenho um blog onde escrevo todos os dias cenas que não interessam ao menino Jesus?"; mas também é muito pouco provável que alguma vez tenha negado a sua existência, sempre que me confrontam com o assunto. E esta sempre foi a minha abordagem por várias razões: 1) nunca quis ser famosa, nunca quis ser blogger, nunca quis fazer deste espaço uma fonte de rendimento; 2) fazer divulgação de algo tem como objetivo trazer mais pessoas - e mais pessoas quer dizer mais haters, mais gente sem nada que fazer da vida, com o objetivo de estragar o dia dos outros... e eu não tenho grande paciência para isso; 3) sinto que apesar de já ter estabelecido uma linha bastante sólida relativamente aos conteúdos aqui no blog, nomeadamente sobre a partilha de temas e conteúdos mais pessoais, este continua a ser um espaço muito meu, onde continuo a dizer coisas que em voz alta não me são fáceis de pronunciar, e por isso custa-me partilha-lo com todo o mundo, não sabendo em que mãos é que esse conhecimento alheio sobre a minha pessoa vai cair. Aquilo que senti das poucas vezes que fui reconhecida na rua foi uma desigualdade imensa: as pessoas sentiam que me conheciam, que eu lhes era algo, enquanto que para mim elas eram totalmente estranhas. E isso, digam o que disserem, é desconfortável.

Tudo isto para dizer que eu não preciso de um público para escrever, apesar de adorar ter um feedback e utiliza-lo para tentar perceber aquilo que resulta e não resulta ao nível de tópicos e na escrita, quase como um estudo muito adiantado para os livros que um dia quero escrever. A verdade é que há quase sete anos que aqui estou e a minha audiência, embora vá crescendo à velocidade que uma tartaruga sobe uma rampa, é sempre a mesma. Nunca há grandes oscilações para além daqueles dias especiais em que sou destacada pelos blogs do sapo e isso não me incomoda. É óbvio que é reconfortante receber elogios e comentários (que na sua maioria são, na verdade, interações – que é o que eu gosto mais) e é por isso que escrevo aqui em vez de escrever no word ou num diário - e sinto e percebo quando uma publicação não tem tanto feedback e tento perceber os porquês. O que não implica que não volte a escrever algo do género se isso for algo que eu goste ou que faça sentido.

Novembro e Dezembro foram o exemplo perfeito disso: notei uma quebra significativa de interações e fico sempre a pensar se quem está desse lado simplesmente desistiu de ler as minhas parvoíces. Mas por outro lado senti-me orgulhosa de mim mesma por, nestes dois meses tão difíceis para mim ao nível da gestão de tempo, ter conseguido colocar aqui conteúdo, tentando nunca menosprezar a qualidade. E sinto que 2018 vai ser feito disso: de um esforço contínuo para continuar a escrever e num registo low-profile, porque é só assim que sei ser. Se há dias em que por um lado gostava de ver isto mais mexido, há outros em que relembro dias mais agitados e de como isso quase nunca me fez mais feliz. 

2017 foi provavelmente o ano com menos posts aqui no blog, mas foi de certeza o ano em que me esforcei mais para os fazer. Estou a ajustar-me a uma nova vida, e nem sempre é fácil manter o ritmo e o meu objetivo que, como nunca escondi, é escrever todos os dias. Mas, acima de tudo, foi provavelmente o único ano na vida deste blog em que eu não pensei em desistir, em "fechar portas", em dizer adeus a este diário aberto. E isso deveu-se ao facto de ter mais para me preocupar e devido esta calmia que aqui se vive, sem polémicas, pedradas ou berros virtuais. 

Há dias em que quero dar um passo em frente; há outros em que sei que se não aconteceu durante estes quase sete anos, nunca mais vai acontecer; e há outros em que simplesmente não quero que aconteça. 2018 vai ser, para este blog - mais do que aquilo que eu fizer dele - aquilo que eu conseguir fazer com ele. E só no fim é que saberemos o quê que isso é.

12
Jan18

Saí do Sá da Bandeira a cantar “sou uma merda” e não me importei (ou como adorei a "Abenida" Q)

Carolina

Não é com orgulho que confesso que nunca tinha ao Teatro Sá da Bandeira. Mais: é mesmo com vergonha que vos digo que nunca tinha ao teatro sem ser numa visita de estudo. Isto quer dizer que para aí desde 1976 que não via um palco (pronto, está bem, estou a ser exagerada)... ou, pelo menos, há uns seis anos que não via uma peça. Sendo que nunca tinha visto algo “a sério”, feita para um público graúdo e não para miúdos que gostam mais da viagem de autocarro da visita de estudo do que propriamente da parte cultural da coisa. A parte boa no meio disto tudo é que comecei com o pé direito.

Eu estava com a Avenida Q debaixo de olho há meses, desde que a peça estreou em Lisboa. Acho que foi a primeira vez na minha vida que quis mesmo muito que um espetáculo destes viesse para o Porto e, mal soube que já havia bilhetes à venda, comprei logo para a data de estreia - se eu já tinha esperado meses a fio, vendo tantas vezes os ensaios e os aquecimentos nos instastories do Rui Maria Pego, a ler críticas do outro mundo e a ouvir promos da peça em Lisboa, não ia esperar nem mais um dia do que o necessário para a ver aqui.

Em resumo (muito resumido) basta dizer que adorei. Eu sempre gostei de musicais (o Mamma Mia tem um lugar especial no meu coração), mas este aqui tem ainda a particularidade de estar ajustado à cultura e realidade do nosso país, tocando em pontos que com um espetáculo generalista nunca seria possível. Mais: até por ser no Porto o espetáculo passou a chamar-se, pertinentemente, "Abenida Q" - o que combina na perfeição com o sotaque da Paula Porca, uma das melhores personagens da peça.

Achei tudo, tudo, tudo bem feito e bem pensado. Desde as personagens até quem lhes dá voz, passando pelos bonecos até às músicas. O meu aplauso sentido a quem fez a adaptação da peça original para a versão portuguesa, porque o fez de forma genial - às vezes pensamos que é mais complicado e trabalhoso criar coisas de raiz, mas adaptar algo que outros fizeram e torna-lo igualmente genial é por vezes uma tarefa mais difícil que a primeira. Adorei o facto de existirem as marionetas (se é que aquilo se chamam marionetas) mas os atores nunca estarem escondidos, fundindo-se na perfeição com os bonecos que interpretam, não causando qualquer tipo de ruído. Adorei os vozeirões que saíam de cada uma daquelas bocas, por vezes de forma surpreendente. Adorei as músicas e as letras - mesmo aquelas mais porquitas, porque as achei pertinentes e muito bem apanhadas. E adorei ver atores que tanto gosto e que remontam à minha infância: o Rodrigo Saraiva, eterno Rafa dos Morangos com Açúcar; o Manuel Moreira, o meu Pedro preferido na Uma Aventura; o Diogo Valsassina, que será sempre o "Tojó" dos Morangos. E mais recentemente o Rui Maria Pêgo, que para mim é uma das personagens jovens mais interessantes do panorama nacional, que me fez trocar a Comercial pela MegaHits e me fez pensar "eu gostava de ter este gajo como amigo".

Fiquei admirada por ver tanta gente "mais velha" na plateia, quando o espétaculo se apresenta com uma imagem tão jovem e um elenco com pessoas que (tal como a mim) dizem algo ao pessoal da minha geração. Até porque, para mim, a peça tem duas grandes vertentes: a inclusão da diferença e a perseguição do sonho - que é algo com que as pessoas mais novas se deviam rever (ou acho eu...). E isto, se fosse uma tese, era de certeza uma seca pegada. Mas aqui não é, porque é tudo apresentado de uma forma tão divertida e descomplexada que não há forma de se tornar entediante. Aliás, quem diz que esses são os dois temas-chave da peça sou eu, já depois de pensar sobre o assunto: porque, no fundo, aquelas duas horas no Sá da Bandeira foram de relaxamento e diversão, não houve tempo para meditações. 

Penso que no fundo aquilo é uma sátira da nova geração: achamos que somos todos muito abertos, que temos liberdade para tudo, mas no fundo continuamos a não respeitar a diferença. Por outro lado, impingem-nos a ideia de que as nossas vidas têm de ser guiadas por um sonho, quando na verdade podemos apenas ir vivendo - ora porque não temos sonhos (nem precisamos), ora porque temos mas não os conseguimos concretizar e ficamos frustrados, ora porque já o tivemos, eles já passaram e não sabemos o que fazer à vida. Pelo meio há de tudo um pouco: piadas geniais, partes com linguagem puxada mas nunca chocante (pelos menos para mim, que achei sempre um piadão aos termos bem empregues e à forma como tudo era cantado) e picos altos e baixos de emoção - porque apesar de esta ser uma comédia no seu fundo, tem partes que satirizam acontecimentos mas que não têm necessariamente piada - sempre com músicas que bem-dispõem e que nos fazem querer voltar.

Eu, pelo menos, era menina para ir ver outra vez. Se estiverem no Porto, não deixem de aproveitar. A peça estará em cena até 25 de Fevereiro, de quinta a domingo. Talvez nos encontremos por lá.

 

 

09
Jan18

Então e o livro, quando vem?

Carolina

De vez em quando recebo emails e comentários - ou o tema surge mesmo em conversa com pessoas – a perguntar quando é que vem um livro. Quem me conhece sabe que este é um dos meus maiores sonhos, é uma coisa que eu quero muito fazer, mas quero faze-lo bem. A minha resposta é: “é muito cedo”. E sim, é verdade que hoje em dia há muitos jovens autores, como também é verdade que grandes nomes da literatura só lançaram as suas primeiras obras quando a sua idade já era um posto.

A minha mãe sempre me disse que só há uma forma de fazer as coisas: bem. E eu não acho que tenha maturidade suficiente para escrever um livro. Mas, mais grave que isso, não tenho sequer uma história. Podia dizer-vos que quero dar tempo ao tempo, que neste momento não tenho disponibilidade, que não estou suficientemente segura da minha escrita… tudo isso, que até pode ser verdade. Mas, acima de tudo, uma das razões que me leva adiar este sonho por mais uns anos é o facto de até hoje nunca me ter surgido uma história que eu quisesse contar.

O meu cérebro e a minha vertente literária funcionam, pelo menos para já, na perspetiva de crónicas: pegar em temas do dia a dia e esmiúça-los, passa-los para palavras, explica-los, faze-los ter piada ou ganhar expressão. É raríssimo eu olhar para alguém ou ter uma ideia qualquer e fazer disso um fio condutor para uma história de ficção. Não sei se isso é algo que ainda não cresceu em mim ou se, de facto, não faz parte daquilo que sou. Confesso que esta ultima perspetiva preocupa-me: e se eu não nasci para escrever ficção? Se eu não conseguir manter vivas personagens dentro de mim, dar-lhes uma história de vida e faze-la acontecer no papel? Acho que só o tempo o dirá.

Mas, dizem os outros, até podia lançar um livro de crónicas. Poder, podia, mas não era bem a mesma coisa. Podia lançar um best of com o que escrevi aqui – como muitos bloggers fazem hoje em dia – mas, sinceramente, não é uma ideia que me agrade. É verdade que a comida aquecida no micro-ondas continua a ser boa se a comida inicial também for boa, mas perde-se o elemento surpresa. Não sei quanto a vocês, mas eu não gosto muito de ler a mesma coisa duas vezes. É como comida requentada – eu como-a porque tenho fome, preguiça, não quero dar trabalho e causar desperdício. Porque, se pudesse, faria algo diferente e não perderia tempo com coisas antigas. E os textos requentados, para mim, perdem a piada.

Podia era escrever crónicas novas. Podia. Mas a verdade é que não é bem esse o livro que eu um dia gostava de publicar. E sinto que, nesta fase, lançar um livro seria só mesmo pelo ato simbólico em si e seria só mais um, como agora há milhões. Toda a gente acha que pode escrever um livro – e eu acho bem que exista essa liberdade, mas tenho pena que as pessoas não tenham sentido crítico suficiente para perceber que o papel ali gasto não vai acrescentar nada ao mundo. E eu não quero ser mais uma. Posso não ter a obra mais apreciada pelo público ou pela crítica; ter apenas quatro livros vendidos (um pelos meus pais, e três pelos meus irmãos): mas seria apreciado por mim e eu lançá-lo-ia de consciência tranquila, pensando que segui aquilo que sempre quis e fiz o meu melhor para a época.

Se a vida correr o seu caminho eu terei muitos anos para escrever livros e cumprir o meu sonho. Não quero pôr a carroça à frente dos bois; não quero pagar uma fortuna só para ter o ego cheio; não quero contribuir para esta época de esvaziamento da literatura; não quero fazer só por fazer. E isso pode ser daqui a dois anos ou daqui a trinta. Só o tempo o dirá.

08
Jan18

Os vestidos dos Golden Globes (ou um exercício de má língua)

Carolina

Confesso: este ano eu não ia fazer este post. Já não sei se as pessoas gostam, se ainda acham piada, se já passou de moda... e eu, por outro lado, estou cansada e, pensava eu, desinspirada demais para isto. Amanhã trabalho, nem sequer vou ver a gala em direto e achei que já estava velha para estas andanças. Mas estava a escrever textos aqui para o blog quando me começaram a aparecer imagens no feed com os primeiros looks e acabei por ir escrevendo aquilo que me passava pela cabeça. Cheguei a um ponto em que pensei: "vou deixar estes comentários morrer aqui?". E pronto, cá estão eles.

Disclaimer: Para quem é novo por aqui, deixem-me fazer um alerta: se quiserem ver isso desta perspetiva, isto é um alter-ego da minha pessoa. Duas vezes por ano dou-me ao luxo de ser desagradável, gozona, sarcástica e irónica. Não sou assim todos os dias, não sou assim na vida real. É só uma graça que tenho por costume fazer, que as pessoas gostam de ler e que se tornou num exercício anual de má língua. Não levem nada demasiado a peito.

 

P.S. Para quem não sabe, todas (ou quase todas) as estrelas foram de preto, num protesto contra a discriminação e o assédio sexual nos meios de trabalho (e tudo o resto, diria eu). Daí a falta de cor nesta passadeira.

 

caitriona-balfe-golden-globes-red-carpet-2018-05.jpg

“Cansei de ser gira. Cansei de ser magra. Cansei de ser alta. Cansei destes braços tonificados. Vou usar um vestido que me disfarce isto tudo”, disse a estrela do Outlander, Caitriona Balfe. E conseguiu.

 

rs_634x1024-180107155324-634-red-carpet-fashion-2018-golden-globe-awards-heidi-klum.ct.010718.jpg

Não, Heidi. O Cisne Negro já estreou há sete anos, foste buscar o vestido errado.

 

kendall-jenner-golden-globes-2018-red-carpet-01.jpg

Episódio de terror para qualquer estrela de Hollywood: está no carro à espera para chegar à passadeira, anda a passear pelo instagram e vê que outra pessoa tem um vestido igual ao dela (a Heidi, malvada!). Ativa o plano de emergência: busca os restos do pano usado no vestido e, com uns colchetes, prega-o à cauda, qual vestido de noiva. E voilà. (Fora de brincadeiras… é um Giambattista Valli, tenhamos respeito! Entre este e o da Heidi, a Heidi bem que pode voltar para os campos verdejantes da Alemanha)

 

kelly-clarkson-golden-globes-2018-03.jpg

Kelly, querida, a gala deste ano é em protesto contra o assédio sexual em Hollywood, não era uma homenagem a todas as pessoas que usam próteses de ouro nos membros superiores.

 

catherine-zeta-jones-golden-globes-2018-04.jpg

Não fui ver ao Wikipedia mas, pela cara, a Catherine Zeta-Jones deve estar já com uns 423 anos. Não vou avaliar o vestido: com esta idade, já não se tem discernimento para avaliar o feio e o bonito. De qualquer das formas, o corpinho é nota 20. (Se com 1/5 da idade dela eu estivesse assim… upa upa!)

 

rs_634x1024-180107162114-634-sarah-jessica-parker-red-carpet-fashion-2018-golden-globe-awards-.jpg

Sarah Jessica Parker a reciclar um qualquer vestido piroso de Sex and the City, colocando alguns adereços medonhos de um filme do Tim Burton. O princípio é bom, mas não resultou.

 

alicia-vikander-golden-globes-2018-05.jpgalicia-vikander-golden-globes-2018-04.jpg

Estou solidária com a Alicia: tal como eu, a rapariga está com problemas de fígado e foi um bocadinho enjoadita para os Globos. Ou então está grávida, o que também explica o ar conservador e o cabelo à freira. Depois da festa veste uma jaqueta para esconder as costas mais arrojadas e vai à igreja ali ao lado confessar os pecados que anda a cometer com o Fassbender. (PS1: apesar de tudo, eu gosto do vestido). (PS2: eu também pecava pelo Fassbender).

 

dave-franco-alison-brie-2018-golden-globes-carpet-01.jpg

A ideia é gira… mas naquele passado longínquo em que as estrelas usavam roupas com cor na passadeira, já a Emma Watson vestiu uma coisa parecida. Ainda assim, it’s a win for me. (Alison Brie)

 

rs_634x1024-180107160151-634-red-carpet-fashion-2018-golden-globe-awards-christina-hendricks.ct.010718.jpg

Tal como aconteceu com a Kendal Jenner, também Christina Hendrick se viu num percalço de última hora relativamente ao vestido da Alison Brie e oupa, vai pôr a parte de cima com parte do poncho de veludo da avó, muito na moda nos anos 50.

 

angelina-jolie-golden-globes-2018-red-carpet-01.jpg

É fixe saber que a Angelina consegue vestir o papel de rainha da festa sem ter de mostrar o decote ou o pernão. Dá-me esperança para o futuro, percebem? (#lontra) Tudo isto se esquecermos o facto de que aquelas mangas vão ficar todas sujas com a sopa da entrada e as migalhas do pãozinho, mas nada que um aspirador não resolva.

 

sarah-paulson-and-amanda-peet-stay-close-on-the-golden-globes-2018-red-carpet-02.jpg

Sarah Paulson e Amanda Peet levaram aquele mantra do “we stand together” demasiado a peito e vieram coladas para os globos.

 

alexis-bledel-wears-pants-to-golden-globes-2018-01.jpg

Achei graça a este macacão da Alexis Bledel, por ter um branquinho que se destaca do negrume desta passadeira. Tirava-lhe aquele pedaço de pano brilhante que ficou ali agarrado à cinta mas, fora isso, tem aqui a aprovação da je.

 

claire-foy-golden-globes-2018-matt-smith-01.jpg

Quem me segue sabe que eu adoro The Crown e eu esperava ansiosamente pela chegada da Clare Foy. Parece que, de tanto ser rainha, se cansou dos vestidos. Compreendo, até gosto, mas nunca é novidade.

 

rs_634x1024-180107163518-634-Gwendoline-Christie-red-carpet-fashion-2018-golden-globe-awards-.jpg

Da edição os-dragões-da-Daenerys-rasgaram-me-o vestido-mas-o-penteado-sobreviveu. (Gwendoline Christie, de Game of Thrones)

 

rs_634x1024-180107164309-634-red-carpet-fashion-2018-golden-globe-awards-lena-headey.jpg

E da edição os-dragões-da-Daenerys-tentaram-rasgar-me-o-vestido, mal-conseguiram, mas-o-cabelo-não-aguentou. (Lena Headey, de Game of Thrones)

 

rs_634x1024-180107165529-634-2-halle-berry-red-carpet-fashion-2018-golden-globe-awards-.jpg

Não, Halle... vieste para o evento errado. Este não é um casamento de praia em modo gótico da tua melhor amiga.

 

rs_634x1024-180107165841-634-red-carpet-fashion-2018-golden-globe-awards-lily-james.jpg

Se bem se lembram, a Lily James fez de Cinderella. Agora passou claramente para o dark-side e foi engolida pelas trevas.

 

rs_634x1024-180107165855-634-red-carpet-fashion-2018-golden-globe-awards-reese-witherspoon.jpg

Sempre igual, mas sempre classy, esta Reese Witherspoon.

 


jessica-biel-justin-timberlake-golden-globes-2018-03.jpgimage2.jpg

Sou só eu que vejo meia clave de fá no vestido da Jessica-inssosa-Biel ou é o piano a afetar-me demais os sentidos?

 

jessica-chastain-octavia-spencer-golden-globes-2018-05.jpg

O vestido não é nada do outro mundo, mas achei que o facto da Octavia Spencer ir bem vestida era digno de nota.

 

mandy-moore-2018-golden-globes-carpet-01.jpg

 Gosto da Mandy Moore, gosto da ideia de vestido e do bocadinho de cor... mas acho que está aqui visto que há um mercado sedento de ferros de engomar na América. Rowenta e Philips desta vida, atentem ao que vos digo.

 

05
Jan18

Chávena de letras - "Turtles all the way down"

Carolina

 Comprei este livro mal ele saiu, ansiosa por um livro que me fizesse ultrapassar o cansaço antes de dormir ou a preguiça de pegar num livro quando tinha uns minutos livres. Queria muito acaba-lo antes do fim do ano, mas não fui capaz. Muito porque este foi o livro de John Green que menos gostei... porque não parecia de John Green. Não me consegui relacionar com as personagens como antes e o enredo central é também dos mais fracos que me lembro.

A temática dos comportamentos obsessivo-compulsivos e dos distúrbios de ansiedade, embora importantes (essenciais?) de abordar, transformam muitas vezes o livro em algo menos prazeroso. Real, mas pouco convidativo à leitura: porque apesar de representar quase na perfeição aqueles ataques de pânico (been there, done that), é morosamente exaustivo (vulgo: chato). Os pensamentos circulam a mil à hora, sem pausas ou abrandamentos, e andam sempre à volta do mesmo, sem que consigamos sair daquele ciclo vicioso. E muitos dos caracteres escritos neste livro baseiam-se nisso. Chega até a ter uma página inteira entre a discussão mental entre o “anjo” e o “diabo”, em que quase os conseguimos imaginar em cada ombro da personagem principal, puxando a brasa à sua sardinha. (Tanto que eu decidi saltar a página).
E não sei se é por eu já ter passado por episódios que de alguma forma de relacionam com os da Aza, mas a leitura não me trouxe prazer. Incomodou-me, até - e se calhar é mesmo esse o objetivo, estar na pele de alguém com estes problemas. Só que não é o meu objetivo quando leio um livro.
Para além de tudo mais, achei o final previsível. A questão do título é explicada, tem graça, mas não me parece ter dimensão suficiente no livro para lhe dar o nome. Mas enfim: são escolhas.
Acredito que esta seja uma obra um tanto ao quanto emocional para o autor, mas dá-me ideia que foi escrita à pressa, em cima do joelho. Para mim, deixou muito a desejar.

(Lido em inglês)

04
Jan18

Vivemos num país de pré-fabricados

Carolina

Todos os dias fico espantada com a facilidade com que todos já compramos coisas feitas. Vivemos num mundo tão atarefado, tão sem tempo, que queremos as coisas no imediato, sem nos esforçarmos minimamente – e, de preferência, ao melhor preço possível. E isto seria óptimo se as coisas que compramos fora de casa não fossem de pior qualidade... e, acima de tudo, se não se perdesse o que está no meio.

Este tópico veio-me à cabeça pela junção de dois acontecimentos: o primeiro foi o facto de ter levado umas bolachas para o piano (que, como é lógico, fui eu que fiz) e de ver as reações surpreendidas de todos à minha volta; o segundo foi em Cacilhas, aquando do Web Summit, onde fui jantar a uma marisqueira e tinha ao meu lado a decorrer a festa de aniversário de uma menina com não mais de dez anos. Quando chegou a altura de cantar os parabéns, vêm dois bolos da cozinha, claramente comprados previamente pela família. E porquê dois? Porque eram pequenos, comprados no Continente, e a família, com medo que algo faltasse, não esteve com meias medidas e levou logo dois.

Os dois eventos não têm, aparentemente, nada que ver um com o outro. Mas na realidade têm. O elo comum é o espanto e a capacidade de dedicarmos o nosso tempo em prol dos outros. Quando cheguei ao estúdio de piano com as bolachas, toda a gente ficou chocada: “Foste tu que fizeste? Uau, que prendada! O queê, mas fizeste isto de manhã, antes de vir para aqui? Como tiveste tempo? Deves ter acordado de madrugada…”. Pelo contrário, quando vi aquela família num restaurante (onde não me pareceu irem muitas vezes, indo propositadamente para aquela ocasião especial) fiquei eu espantada pela falta de empenho e de esforço por parte de todos aqueles adultos que ali estavam – e ainda eram alguns.

É claro que posso estar a julgar em vão – não sei as circunstância daquela família, do seu tempo e do seu trabalho – mas creio que isto é algo cada vez mais generalizado, e não diz sõ respeito a bolos. Estou em crer que há famílias que já só cozinham o básico, porque todas as refeições provêm de take aways. Tudo é feito fora, comprado fora. Antigamente as frutas vinham do campo, as hortaliças da horta, as roupas eram feitas à mão, os animais mortos em casa. Até os edifícios são agora pré-fabricados, construídos em blocos tipo lego. É assustador.

Para além do processo de aquisição ser mais rápido, também diminui o tempo que desfrutamos as coisas. Já não saboreamos a comida: engolimo-la; já não guardamos as roupas para os nossos filhos: elas estragam-se tão rápido que as deitamos fora. E eu sei que sou a excepção, sei que sou – como sempre – a anormal aqui da parada. Mas eu dou valor ao tempo que passo a fazer as coisas e acho que é esse tempo que as faz boas, mais bonitas, com mais significado. O tempo que eu passo na cozinha – ou o tempo que eu vejo que a minha mãe passa na cozinha quando me faz cabrito assado, por exemplo – faz com que o prato seja mais saboroso; faz com que eu tenha a preocupação de o provar, de o saborear com cuidado. E, acima de tudo, faz com que goste mais dela: porque em vez de ser como aos outros e encomendar o cabrito num sítio qualquer, passou horas a fio na cozinha para fazer o meu prato favorito.

Para mim, cozinhar é uma forma de amar, de dizer que me preocupo o suficiente com os outros para lhes dar um bocadinho do meu tempo. E é impensável para mim ir a uma festa sem levar um bolo – e ainda mais indispensável que, no aniversário de alguém que me é importante, não haja algo com a minha assinatura em cima da mesa. Pode ter sido feito há dois dias atrás, de madrugada ou acabado de sair do forno… mas está. E sei que isso não é regra, mas não deixa de ser estranho para mim que as pessoas pensem de forma diferente.

02
Jan18

5 objetivos para 2018

Carolina

Não há volta a dar: novo ano é sinónimo de resoluções. Eu adoro uma vida organizada e planeada – algo que, ironicamente, agora não tenho – e portanto tenho uma panca por listas. Para mim, são uma coisa tão natural como o lanchinho da tarde ou o sono depois de almoço: é algo que nasceu comigo, nada a fazer.

E, como tal, venho contar-vos as minhas cinco grandes resoluções de ano novo. Digo “grandes” porque quero ir além dos típicos tópicos emagrecer/ beber mais água/ ler mais/ ir ao cinema com mais frequência e coisas desse género. É óbvio que quero tudo isso – menos a parte da água, uma vez que em 2017 esse foi um dos meus achievements -, mas são coisas que acabo por delinear todos os anos e que depois acabo por não cumprir ou, pelo menos, levar a sério, por isso este ano queria ir um bocadinho mais longe. Ou ir mais profundo, se assim quisermos chamar. Ora vejamos:

1 – Ter a força de vontade de voltar a estudar outra vez. Não tenho nada definido e ainda são tudo planos que não saíram do papel – ou da minha cabeça, neste caso – mas sinto que está a chegar a altura de começar a preparar o meu futuro. Eu ia escrever “que está na altura de avançar”, mas na verdade não se trata de dar um passo em frente – é quase dar um passo atrás para depois poder dar dois para diante. Vai ser assumidamente uma coisa que me vai custar: deixar a faculdade foi algo que fiz sem qualquer dor ou saudade (ainda hoje não tenho) e voltar aos livros, aos trabalhos e às aulas vai ser duro. Estou a pôr as minhas fichas na possibilidade de o ambiente ser diferente e eu estar com expectativas tão baixas que até me possa vir a surpreender. Mas, again, ainda é só um plano (que tenho de estudar, consolidar e pensar na provável articulação com o trabalho) e não quero adiantar muito mais sobre o assunto, por agora.

 

2 – Perceber que a não-rotina é a minha nova rotina. E isto implica que as listas de tarefas que eu tinha definidas para amanhã só possam eventualmente ser feitas dois dias mais tarde ou que numa mahã mais livre em que eu possa fazer uma série de coisas que não estava a contar. A gestão de tempo é a coisa mais preciosa que há neste tipo de vida meia-anárquica que levo, aliada à força de vontade para de facto fazer coisas quando, na minha cabeça, não é o tempo delas. Vou ter de me habituar a pôr uma mochila no carro e ir ao ginásio sempre que puder, tendo a mente aberta para ir a uma aula que não conheça – o que, para mim, é um sacrifício gigante, mas vai ser a única forma de eu conseguir frequentar aquele espaço do demónio. Assim como vou ter de ter posts aqui no blog para os dias em que chegar KO a casa. Já para não falar do caos que vai ser se levar a resolução 1 avante, o que ainda me vai dificultar mais a vida. A palavra do ano vai ter mesmo de ser gestão de tempo.

 

3 - Investir no piano. Pois, ainda faltava isto. Eu só tenho duas aulas de piano semanais – gostava de ter mais, mas a nível de horários é quase impraticável – mas a música é algo em que me estou a apaixonar cada vez mais. Já dou por mim a fazer os meus próprios arranjos e às vezes até tenho medo de dar um passo maior do que a própria perna e ficar desmotivada. Olho para o horizonte do que tenho para aprender e vejo um infinito – e não me importo, porque estou disponível para aprender tudo isso. Enquanto ouço os outros alunos, melhores que eu, só penso “um dia quero ser assim”. E quero mesmo. E eu não posso dar três horas do meu dia ao piano, como alguns dão (e nota-se!), mas se calhar consigo dar uma- e, à minha escala, também se há de notar.

 

4 – Ser mais equilibrada. Apesar daquilo que disse há uns posts atrás, de eu ter uma vida regrada, que se pauta por não ter grandes picos de emoções ou estados de espírito, eu sinto que sou muito desequilibrada em certas coisas simples, que depois se arrastam para algo mais complexo. Dois exemplos: numa aula de ginásio eu dou tudo, tudo o que tenho (embora possa não parecer). Eu estou em má forma física, mas tenho imensa dificuldade em desistir ou parar – quando o faço, é porque estou mesmo toda rota. E no dia seguinte eu não estou dorida: simplesmente não me mexo, estou cansada, a cair para o lado de sono. E por isso, nesse dia, não volto ao ginásio. E se calhar no outro também não… e lá volto eu a ter de fazer um esforço psicológico tremendo para ir sofrer numa aula seguinte quando, se não me esforçasse tanto e se fosse mais equilibrada, talvez os resultados a longo prazo fossem melhores. O mesmo se passa com um trabalho ou um projeto pessoal que eu tenha. Dou tudo de mim, trabalho ao fim de tarde, à noite, de madrugada, ao fim-de-semana. Até ao dia em que algo me corre pior e eu caio daquele pico de trabalho e adrenalina e demoro imenso tempo a voltar a reerguer-me, não só do cansaço, mas também da desmotivação e da frustração que se seguem depois de ter desistido ou abrandado num projeto promissor. Por isso: mais equilíbrio, pensar nestas coisas a longo prazo e ter calma com a minha vida, porque eu não sou o Speedy Gonzales, apesar de ter Gonçalves no nome.

 

5 – Não me deixar irritar tão facilmente e acatar melhor as críticas dos outros. Eu não sei porquê, mas toda a gente tem um gostinho especial em me irritar, em ser chato comigo, em peguinhar com picuinhices. Aliás, não sei mas calculo: tenho reações que fazem com que as pessoas continuem, dando-lhes prazer em me chatear o juízo. Respondo, chateio-me, faço cara feia. E quero ver se consigo atenuar tudo isso, para que os chatos desta vida deixem de ter razões para me atazanarem o juízo. Como bónus, quero também lidar melhor com as críticas ou chamadas de atenção dos outros. Acho que mesmo quando as compreendo e aceito, levo-as muito a peito, fico magoada, e gostava de mudar isso – até para evitar as minhas clássicas e eventuais respostas cortantes e frias, tons de voz ou até expressões faciais menos favoráveis, que por vezes elevam as discussões para um outro nível pouco desejável.

 

E é isto. Ambiciosa, eu sei. E exaustiva, também sei. Se calhar preferiam que um dos meus desejos de 2018 fosse ser mais sucinta e cortar nos caracteres mas… não vai acontecer. Escrever muito – e bem, esperemos – vai continuar a estar no prato do dia 😊

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Também estou aqui!

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Leituras

A ler:



goodreads.com


2017 Reading Challenge

Carolina has read 0 books toward her goal of 15 books.
hide

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D

Ranking