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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

30
Jun17

Chávena de letras "O Falcão de Malta"

Carolina

O-Falcao-de-Malta.jpg

Sinopse aqui

 

Este é um policial clássico, com tudo o que tem direito: um detetive privado que acha que sabe tudo e que tira ilacões incríveis, mulherengo e galã, imprevisível, um filho da mãe mas também respeitador de uma moral que rege as suas ações e forma de atuar; uma cliente mentirosa e enganadora mas ao mesmo tempo coquete e irresistível; os polícias lerdos que nunca conseguem levar a deles avante; os rufias, um como sempre bonacheirão, e toda a envolvência deste tipo de obras dos inícios do século XX, onde não faltavam os cigarros em todos os sítios, o whiskey, a penumbra e etc.

Para quem gosta de policiais, esta é sem dúvida uma boa forma de passar um par de dias entretido e sem ter vontade de pousar o livro.
Nota para esta edição de bolso da Livros do Brasil, versão da Porto Editora, que é pequena, leve mas com uma letra boa para se ler, fazendo destas edições os livros perfeitos para se andar de um lado para o outro sempre com companhia sem estar a carregar um autêntico pedregulho na carteira.

29
Jun17

Desmistificar a ideia de um cruzeiro

Carolina

Estava a passear pelo facebook e dei de caras com um post de um humorista que disse que fez férias à velho: foi viajar num cruzeiro. Nos comentários diziam-se coisas horríveis tipo "cruzeiros nunca, jamais!" e onde, lendo o post na diagonal (já tenho pouco tempo recreativo, não me apetecia gasta-lo a ler bacoradas), só se viam coisas do género "é só velhos e gordos a comer durante o dia todo". E até podem desvalorizar este meu post por eu ter uma alma velha, alegando que penso tal e qual as pessoas que frequentam este tipo de viagens, mas acreditem que eu adoro viajar e o faço de todas as formas e feitios, sem problemas de criticar o bom e o mau de cada sítio e de cada meio para lá chegar.

Uma coisa é absolutamente indiscutível: fazer um cruzeiro é a forma mais cómoda de viajar. Queixam-se dos velhos, queixam-se dos gordos, queixam-se das crianças - mas passar dez horas enfiados num avião em classe económica, com uma pessoa obesa a ocupar metade do vosso lugar, um velho com ar bafiento a adormecer em cima do vosso ombro e uma criança a testar o limite dos vossos tímpanos no lugar da frente é muito bom, não é? Vou contar-vos um segredo: no barco, podem quase correr uma meia-maratona lá dentro. Se não quiserem estar parados, não estão. E se quiserem dormir, têm um quarto e uma cama só vossos, sem barulhos, pessoas ou crianças aos guinchos. É uma opção vossa se querem socializar ou querem estar sozinhos, assim como se querem sair ou ficar dentro do barco.

Esquecem-se que a idade traz sabedoria; os mais velhos escolhem este meio porque já experimentaram todos os outros e sabem qual é o melhor. E vocês dizem: "não é nada, é porque andar de barco não cansa!". Ai não? Haviam de se ter levantado às cinco da manhã para estar no autocarro às sete, tal como eu fiz na Rússia, para ver se não chegavam à noite com soninho. Em média, na semana que fiz no Báltico, andei dez quilómetros por dia. E se isso não cansa, não sei o que fazem nas vossas viagens. É claro que podem ficar no barco, não fazer nenhum e comer cachorros e cheeseburgers o dia inteiro - mas, mais uma vez, a opção é vossa.

Outra coisa espetacular: não pagam para comer, não pagam para ir a espetáculos, não pagam para ir ao cinema, não pagam jogar nos trivia, não pagam para ir ao ginásio, não pagam para ir à piscina. E sabem aqueles momentos em que temos de nos meter num avião, para viajar de um sítio para o outro, e lá estamos à espera do check-in, depois à espera que o avião levante, e as horas de viagem sufocantes em que só nos podemos mexer cerca de trinta e sete centímetros e saímos com formigueiros nas pernas e costas suadas e coisas que tais? No barco não existe. Fazem o que querem, vivem a vida, fazem as atividades que mais gostam, dormem confortavelmente - e, sem dar por isso, já estão no sítio seguinte. E se gostarem de ver as vistas, aviso já que em pleno mar se vêem coisas incríveis e pores do sol de cortar a respiração.

Se passam pouco tempo nos sítios? Passam. Se isso é mau? Nem sempre, há sítios de treta. Para mim, a magia de um cruzeiro é esta: fico a conhecer várias cidades em pouco tempo, passo a ter uma ideia geral do que aquilo é, se faz ou não o meu estilo. E depois, mais tarde - ensardinhada num avião, lá terá de ser - volto para divagar com todo o tempo do mundo na cidade. Dou um exemplo: quero muito voltar à Suécia, voltar a percorrer Estocolmo e não só; já ir à Finlândia, penso que só irei se se proporcionar ir em trabalho ou me oferecerem a viagem, porque simplesmente não ficou o bichinho. Foi fixe, risquei um país da lista, mas não tenciono voltar.

Agora tudo depende do cruzeiro que fazem, da companhia onde vão e do tipo de quarto que escolherem. Há cruzeiros fracos, companhias más e quartos horríveis sem sequer uma janelinha para ver o céu. Entre ir num cruzeiro fraco e bafiento e ir para um só destino, mesmo que seja num low-cost e ficar num hotel com melhores condições... se calhar prefiro a segunda opção. O cruzeiro que fiz no Báltico foi com a Royal Caribbean e agora o próximo é com a Celebrity - vamos ver o que vai sair dali - e fiquei em quartos com varanda. São companhias boas e os quartos também são de nível superior - mas sei que há quartos com janela, sem varanda, que também são perfeitamente aceitáveis (e os quartos sem janela, ainda que um bocado claustrofóbicos, quando inseridos num cruzeiro bom devem valer a pena). É, como em tudo, uma questão de dinheiro. Mas vale a pena fazer as contas: se virem todos os sítios onde param, se incluírem comida e bebida, mais dormidas e se se atreverem a juntar todos os extras ao nível de comodidades (ginásio, piscina, sauna, solário...) e de entretenimento (espetáculos, cinema, jogos, etc.) acho que a questão nem se coloca.

No entanto, é como vos digo: fazer um cruzeiro é como ir ao sushi - se começarem num mau, nunca mais põem lá os pés; se começarem num bom, no início estranham e depois não querem outra coisa. A minha experiência foi tão boa que eu vou repetir - e sou uma miúda de 22 anos! Conheci pessoas muito simpáticas, sítios diferentes, falei línguas, convivi e diverti-me imenso enquanto viajava. Fiz um post grande depois do meu primeiro cruzeiro que podem ler aqui, assim como diários de bordo dos sítios onde parei que podem ver aqui.

E, a sério, tendo possibilidades... deixem-se de preconceitos e experimentem.

 

Cruzeiro_Tlm-41.jpg

 

28
Jun17

Chávena de letras - "O Livreiro de Paris"

Carolina

o livreiro de pari.jpg

Sinopse e primeiras páginas aqui

 

A maior crítica que posso fazer a este livro é o facto de ser enganador. Quando me falam em Paris e livros já é meio caminho andado para ler o que quer que seja - mas eu espero que o livro seja, de facto, passado em Paris e fale de livros. O que, neste livro, só acontece parcialmente. É aquilo que dá o mote à história, mas não passa disso.
A ideia da farmácia literária é muito boa, mas muito mal explorada - e a autora, apercebendo-se disso, dá um "docinho" ao leitor no final da obra para ver se ele se esquece que, durante o livro, pouco se desenvolve esta ideia, que é sem dúvida a melhor que a obra tem. Há partes que são absolutamente dispensáveis, incluindo o diário de Manon - confesso até que passei alguns trechos à frente. A escrita não é má, mas nada de excepcional - há partes do diálogo em que nem sempre se percebe quem é que fala e há falhas ao nível do descodificar das emoções (e consequentes reações); por vezes, parecia que as coisas aconteciam do nada, um ataque de choro ou de raiva caído do céu, meio descontextualizado.
Para mim, este é um livro sobre perda e sobre reencontro connosco próprios - de um ponto de vista, claro, muito romanceado. Estas três estrelas não são sinónimo do livro ser mau - simplesmente não era o livro que eu queria ler e que eu acreditava ser.

27
Jun17

O meu primeiro ano sem férias grandes

Carolina

Ir de férias é óptimo. Aquilo que ninguém nos diz é o trabalhão que dá ir laurear a pevide - e não, não falo de escolher destinos, marcar viagens e hotéis; falo de tudo o que se tem de deixar pronto antes de ir passar uns dias longe do trabalho. Ah, e também o que custa voltar: mesmo que a vontade de voltar exista, sentimo-nos a arrastarmo-nos pelos corredores, cheios de sono, com saudades dos nossos livros e dos pés na areia - e trememos só de pensar no trilião de emails que temos por ler. Mas pronto, já passou, já é terça-feira e a rotina está a invadir-me outra vez - até daqui a quinze dias, em que me estrearei em Itália.

Mas continuando: eu estava cheia de medo de não me conseguir desligar do mundo do trabalho enquanto estivesse de férias. Trabalhei durante dez meses seguidos e o trabalho é, em grande parte, a minha vida; são preocupações e stresses que já estão entranhados em mim e que me movem, uma vez que não tenho muitas mais forças motoras na minha vida. Estar sem internet e com pouquíssima rede ajudou a que me desligasse do mundo laboral, mas sempre que ia ao email e não me caía nada quase que ficava desiludida - passo a vida com "pim"'s, com emails sempre a chegar e só agora percebi que também faço disso uma companhia. E sim, confesso uma coisa: é estranho ver as coisas funcionarem sem nós estarmos lá dentro; percebermos que coisas que nós criamos ou ajudamos a criar rolam sem nós, aparentemente sem grandes sobressaltos. No fundo, entendermos que somos substituíveis. Ninguém é igual a ninguém, é um facto, mas as coisas fazem-se: e eu tenho um medo incrível de um dia ir ao mar e perder o lugar. Sou muito pouco confiante em tudo o que faço e acho que devido também a feridas antigas estou sempre à espera que me passem a perna, que me digam "olha, já não podes entrar no nosso grupo, já está cheio..." (oh, como eu ouvi isto tantas vezes). Mas enfim, sosseguei-me - na verdade, não tenho outro remédio.

A verdade é esta (e eu sei que é estranha): cheguei ao fim das férias já com vontade de trabalhar. Adoro sopas e descanso e, como já toda a gente está farta de saber, amo o Algarve. Mas acaba por ser a trabalhar que convivo com as pessoas, que guio os meus dias, que lhes dou algum significado - e numa semana sem nada para fazer já estava a fazer com que perdesse o rumo. Quando falo com amigos que ainda estão na faculdade e entraram agora em época de férias - 3 meses, hoje em dia, parece-me ainda mais tempo! - o primeiro pensamento que tenho é "que sorte!". E depois abano-me, olho para mim mesma e percebo que a única coisa boa no dessas férias grandes é a possibilidade: o ter tempo para tudo, não ter de fazer contas às semanas, ter mais de 90 dias para fazer tudo o que se quiser.

Mas isso só importa quando, de facto, aproveitamos os dias: e eu nunca o fiz; a possibilidade ficava sozinha, assim como eu. Ainda no outro dia me cruzei com um post antigo, nos arquivos aqui do blog, onde no fim de Junho me queixava dos meses entediantes e solitários que tinha pela frente; por isso, sempre que penso "que sorte" relativamente aqueles que ainda têm férias grandes... repenso e vejo que gosto muito mais das coisas como elas estão agora. Porque a verdade é que agora conto os dias: mas também os faço valer a pena. Planeio-os com cuidado, anseio por eles, penso e repenso a melhor forma de os aproveitar ao máximo... e não me deambulo por aí, meio deprimida, sem saber o que fazer da vida.

A única coisa que me falta é mesmo o mar de possibilidades. Não ter de chatear os meus amigos porque tenho de marcar férias... ter apenas de ir. Mas de possibilidades, tal como as boas intenções, está o inferno cheio. E eu quero coisas concretas, quero planos, quero dias cheios - porque caso contrário, é a cabeça que se enche de coisas más, como aconteceu em todos os verões antes deste. Por isso, mesmo que Agosto vá ser passado a trabalhar, mesmo que não tenha três meses pela frente, sei que este ano vai ser melhor.

26
Jun17

Harry Potter: 20 anos a espalhar magia

Carolina

Mentia se dissesse que foi o Harry Potter que me iniciou na leitura - esse galardão vai para o Triângulo Jota, que me ensinou a gostar de ler. Também não estaria a ser correta se afirmasse que essa série foi o maior amor literário da minha vida: nunca, nada nem ninguém, vai alguma vez destronar aquilo que o Twilight representou para mim. Mas a verdade é que essa saga teve muito que ver com a fase da vida em que eu estava, porque a apanhei no início e vivi quase de uma ponta à outra com os sentimentos à flor da pele.

Mas quando, algures em 2010 - já os livros estavam cá fora, assim como metade dos filmes -, li o Harry Potter, soube que era para a vida, um amor diferente. Não é uma história de amor para corações eternamente românticos, não é um policial que se devore e se esqueça no dia seguinte. É uma lição de vida sobre a diferença, sobre a coragem, sobre a amizade, sobre a força, sobre a união mas também sobre a solidão. E, acima de tudo, sobre a magia - e o poder da imaginação. O Harry Potter mora em nós a partir do momento em que o conhecemos, os corredores de Hogwarts passam a ser os nossos corredores, a Hermione e o Ron os nossos confidentes. 

Para mim, todos os livros que tenham a capacidade de tele-transportar os seus leitores para outros mundos merecem ser lidos - sejam maus ou bons aos olhos da crítica. Já o escrevi aqui e repito quantas vezes forem necessárias: qualquer obra que inicie alguém na literatura já fez o seu papel; aquele livro passou a valer a pena, mesmo que seja uma desgraça. E, mesmo que o Harry Potter não tivesse tantas - tantas! - outras qualidades, teve a capacidade de mostrar a milhões de crianças, jovens e adultos que temos todos a possibilidade de viver num mundo paralelo, com ou sem magia, durante muito ou pouco tempo: basta abrir um livro. 

Acho que não há maior prova disso do que aquilo que se viu hoje nas redes sociais. Ao invés de uma desgraça, de um vídeo parvo e viral ou de discussões políticas, o meu feed encheu-se de magia, de saudade, de agradecimentos profundos; de óculos arredondados, de raios na testa e de trechos inesquecíveis. A minha geração - a "inculta", a "geração à rasca", "aqueles que estão a deixar o papel morrer" - parou, pensou, partilhou e escreveu massivamente sobre uma saga que toldou os seus tempos, que lançou um dos seus maiores ídolos e inspirações. Sei que a maioria das pessoas que leu estes livros se sente agradecido à J. K. Rowling por aquelas horas passadas a ler, num mundo tão mágico e tão especial como é Hogwarts, como é a Londres dos Muggles ou Privet Drive. 

Faz hoje 20 anos que foi publicado o Harry Potter e a Pedra Filosofal. Só há uns sete é que eu entrei, tal e qual na plataforma 9 3/4, neste mundo - mas a entrada foi tão rápida e tão drástica que sei que, por muito que faça, nunca mais vou de lá sair. Harry Potter, para mim, são momentos muito especiais (como o da foto em baixo, o ano passado, na livraria Lello); é Natal, é conforto, é um porto seguro. É o sinónimo de que a magia acontece, dentro e fora de páginas. E representou um dos grandes alentos que me fez ler mais e, acima de tudo, tentar escrever ainda melhor. Saber que alguém que aqui viveu teve a capacidade e a inspiração para construiu todo este mundo, torna tudo muito mais real, quase como se a possibilidade de isto acontecer a algum de nós - ou a mim - possa estar ao virar da esquina. E por isso, para além de tudo o resto, a J. K. deu-me - e dá-me - também esperança. Porque a magia acontece. E tal como nos provou o Harry Potter... ela sozinha não basta, mas com força de vontade... até o impossível se consegue.

 

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24
Jun17

Adeus bolas de berlim, arranjei um novo amor

Carolina

Tenho um fígado preguiçoso e uma vesícula ainda pior. Tenho crises recorrentes de enjoos, tonturas e de um cansaço extremo sem por vezes perceber o porquê - noutras, já relaciono com coisas que como, porque percebo que fico mal depois de as comer. Pimentos, alho e ovos - principalmente estes últimos - são os meus piores inimigos. É quando estou em plenas crises que agradeço profundamente o facto de não beber álcool. Se fico assim sem o meu corpo ver uma gota que seja, imagine-se se andasse por aí na "vida loka"!

Mas vamos falar de ovos: acho que são poucas as pessoas que não gostam de comer uma bolinha de Berlim que seja. Então para abrir a época balnear, tirar a foto de praxe e saborear pela primeira vez no ano aquele açúcar todo... bom, é difícil de descrever por palavras (ainda bem que temos paladar, não é?). Eu, lontra, não sou obviamente excepção. Não como esta iguaria no resto do ano porque sei que não sabe igual; há comidas que só sabem bem - e só compensam comer, porque uma bola de Berlim é a maior bomba calórica de sempre - em certos sítios, em certas alturas. Para mim, comprar uma bola de Berlim no Lidl em pleno mês de Janeiro é ultrajante - por isso aguardo sempre pela altura e local certo para ingerir tal dose de gordices.

O problema é: só gosto de bolas de berlim com creme. E de que é feito o creme? Ovos. E o que fazem os ovos? Quase me matam. Já no último ano as bolas de berlim me tinham caído mal e eu fiquei desconsolada para o resto do verão; este ano, embora soubesse que nada no meu corpo tinha melhorado, voltei a tentar. Não correu muito bem. Voltei a não comer mais bolinhas - a minha consciência agradece - e, achava eu, que o meu verão ia tornar a ser desconsolado.

Até ao dia em que a minha mãe parou a vendedora para comprar o seu doce e eu decidi pedir uma bolacha americana, mal sabendo que abria uma caixa de pandora. "Quer normal, de alfarroba, canela, côco ou batata doce?". E eu, que no que toca a doçaria não me faço de rogada, atirei-me para a de côco. E foi o fim.

Aquilo é inacreditavelmente bom, sabe aqueles coquinhos que eu comia em miúda e que agora tenho preguiça de fazer. Sabe a Bounty em modo crocante. Foi uma paixão que despertou em mim, depois de um desgosto de amor vindo de uma relação que já durava há tantos anos, entre mim e as bolas de berlim, que claramente não tinha pernas para andar. Bem dizem os entendidos que a melhor solução para curar um coração partido - ou, neste caso, um palato despedaçado - é arranjar outro amor. Vou já dar outra trinca na minha bolacha.

23
Jun17

Chávena de letras - "A educação de Eleanor"

Carolina

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 Sinopse e primeiras páginas aqui.

 

É injusto julgar um livro por um final que nos desiludiu quando, até aí, achamos o livro fenomenal. E, na verdade, eu nem sequer fiquei desiludida com o fim: sabia que era algo que ia ter de acontecer, percebi que a bolha em que vivia Eleanor ia ter de rebentar… mas o início do livro é tão genial que tive pena que acabasse.

Eleanor é uma verdadeira anti-social em todos os sentidos da palavra. Não se trata só de não se dar com os outros, mas sim de um total desconhecimento das convenções sociais que todos nós já interiorizamos e já nem questionamos. O livro é por ela narrado e por isso temos acesso aos seus pensamentos que são extremamente racionais, o que os torna hilariantes (mesmo não sendo “intenção” de Eleonor – e sendo, obviamente, o objectivo da autora, que o faz de forma exímia). Como ela não percebe as coisas, questiona-as, como uma criança; vê-as de forma simples, sem floreados, e expõem-nas de forma crua, mostrando o ridículo de muitas da convenções que nós próprios criamos.

“Estava num restaurante de fast food pela primeira vez na minha vida adulta (…). Inexplicável e incompreensivelmente, o restaurante estava a rebentar pelas costuras. Custava-me a perceber porque motivo os humanos estariam dispostos a fazer fila em frente de um balcão para comprar comida processada, que depois levavam para a uma mesa que nem sequer estava posta e comiam directamente do papel de embrulho. E a seguir, apesar de terem pagado, os próprios clientes são responsáveis por levantar os restos. Muito estranho.”

Outras situações semelhantes: estranhar o facto de um empregado de bar lhe colocar a garrafa da bebida que pediu e um copo com gelo em cima da mesa, em vez de lhe servir directamente (“esse não é o seu trabalho?”) ou questionar o porquê das pessoas chegarem atrasadas a um festa ou levarem presentes quando o anfitrião anunciou uma hora ou disse expressamente para não levarem nada. É uma visão inocente e hilariante da vida.

Para além disso, há, inicialmente, uma relação explícita de causa-efeito nas acções de Eleanor, ainda mais berrantes pela escolha cuidada das palavras usadas pela autora. Dão à personagem um ar geek e extremamente racional, com imensa graça, mas revelador de muito o que é Eleanor.

“Fiz as minhas abluções e instalei-me com um livro sobre ananases. Era surpreendentemente interessante. Gosto de ler sobre uma ampla variedade de temas por muitas razões, uma das quais é ampliar o meu vocabulário para ajudar a resolver palavras-cruzadas.”

Chamar a este livro um romance é um erro crasso. Ele fala, sim, da auto-descoberta de alguém – nas suas fases mais vivas e mais negras – com o apoio de algo que a personagem principal, até aí, desconhecia: um amigo. É uma viagem pela vida complicada de Eleanor, pelos seus fantasmas, mas que tem pouco de negro pela forma incrível como é contada.

É lógico que, não tendo um décimo da antissociabilidade de Eleanor, me relacionei com esta obra; com a personagem, com o vocabulário dela, com a sua visão “quadrada” de muitas coisas. E é muito giro ver a evolução da personagem, vê-la “arredondar-se”. Confesso que achei o livro um pouco enfadonho nas primeira páginas, mas depressa descobri que tinha uma pequena pérola em mãos. A forma como a história é contada e a escrita de Gail Honeyman merecem estas cinco estrelas, independentemente do fim. Gostei mesmo muito.

22
Jun17

Um S. João na praia

Carolina

Desde que me conheço e que me mudei para a casa onde estou atualmente que festejo o São João. Para além do Natal, sempre foi a minha altura favorita do ano e quando os meus irmãos viviam cá em casa eram festas de 50, 60 ou 70 pessoas - para além dos familiares, vinham os amigos e os amigos dos amigos; fazia-se aqui uma festa a sério. Decorávamos a casa a rigor com grinaldas, manjericos, enfeites de papel e luzinhas de várias cores, montávamos vários grelhadores para as carnes e para as sardinhas e púnhamos uma quantidade infindável de cerveja dentro de um barril que, uma semana antes, já estava dentro da piscina para a madeira inchar.

Era uma festa muito animada, com muita música, em que o álcool e os amigos do meu irmão enchiam a casa inteira. Mesmo as crianças - da qual eu fazia parte - eram tantas que enchiam os quartos, os viravam do avesso e a circulação se fazia de forma difícil ainda que a casa seja grande. Quando tocava a meia-noite, enquanto no Porto todos olhavam para o céu, nós olhávamos para baixo - mais propriamente para a piscina para onde nós íamos atirar. E depois por lá ficávamos, ríamo-nos por os nossos pais não se estarem a aperceber daquilo que estávamos a fazer e tentávamos não estar em silêncio - coisa que não é fácil quando se anda aos saltos para dentro de água. Para nós, ver os corpos sair dentro da água  - que à noite parece negra  - e ter a sensação de que, cá fora, estavam a "fumegar" já era tradição - assim como era tradição eu ligar para todos a meio da tarde e lembrar para trazerem os fatos de banho para festejarmos a noite mais curta do ano.

Mas as tradições acabam, assim como as crianças crescem e os irmãos saem de casa. E nos últimos anos, fazer o S. João era - para mim - uma tristeza, porque ainda me lembro dos tempos de casa cheia. Os miúdos passaram a graúdos, já não andam necessariamente com os pais e já não ficam assim tão felizes por ser a noite mais curta do ano (menos noite, menos diversão, não é verdade?); o meu irmão emigrou e raramente está cá, os outros nem sempre comparecem por terem outros compromissos; os amigos vão para casa de outros amigos - e eu, que não tenho praticamente nenhuns e quase nunca os trouxe a minha casa, também não alimento essa prática. Por isso, nos últimos anos, a festa foi ficando vazia, só com os habituais e os fortes, que não arredam pé.

Mas pior que ter um São João vazio, achava eu, era não fazer São João. E isso aconteceu há dois anos, à custa da meteorologia que nos deu chuva em vez do sol e do bom tempo típico dessa altura do ano. Abortamos os planos e ficamos em casa, como num dia normal - só mais triste que o resto dos dias (mais tarde, quando o temporal abrandou, eu ainda fui sair mas a festa já não era a mesma). E eu diria que nesse ano, ainda que não tenha sido de propósito, se abriu um precedente perigoso: o de não se festejar o S. João.

Perigoso porque este ano decidimos repetir - e não foi pelo tempo. Vivemos sempre condicionados com o dia 23 de Junho, queríamos sempre estar cá e fazer um arraial - e fazíamos, melhor ou pior, adoentados ou em perfeita saúde, comigo tendo ou não exame nos dias seguintes. Mas este ano viemos de férias. Ao longo dos últimos anos têm caído tantas tradições como o número de pessoas que cá vem e a boa disposição que cá se vive, por isso deixamos cair a derradeira: este ano, aqui em casa, não há festa. E é estranho como isso me deixa triste mas, ao mesmo tempo, muitíssimo aliviada. Hoje não penso em doces, grinaldas, carregar mesas ou limpar cadeiras. Hoje vou para a praia e isso também é bom.

20
Jun17

Nem os insetos se safam do preconceito

Carolina

Há umas semanas fui ao Senhor de Matosinhos. Enquanto passeávamos para trás e para a frente, a minha mãe avistou uma senhora que estava a vender grilos - estavam num aquário aberto, cheio de folhagens, ramos e raminhos. Mas eles eram tantos, tantos, tantos que mesmo no meio de tanta vegetação se viam sem qualquer esforço. A minha mãe, que já estava filada num destes bicharocos há meses - a vizinha tem um que canta sem parar, por isso ela decidiu que também gostava de ter um cantor lá em casa - decidiu comprar um grilo para ter lá em casa.

E eu pus-me a pensar: "o quê que um grilo tem diferente de uma barata?". Calma, eu sei que são animais diferentes e com as suas especificidades, mas no fundo são insetos mais ao menos do mesmo tamanho, pretos, feios e inofensivos - e no entanto as baratas são odiaras por meio mundo e os grilos, coitadinhos, fofinhos, cantam e encantam outro meio. Não é estranho?

Vejam-se as joaninhas. Uma cai no nosso braço e nós chamamos todas as crianças da área para lhes mostrarmos o bichinho e começamos a cantar o "Joaninha voa, voa, que o teu pai foi pra' Lisboa"; se for uma aranha que, num movimento altamente arriscado de voo na sua teia a pairar o nosso braço... cai o carmo e a trindade. E os pirilampos, tão queridos com a sua luzinha? São feios que dói, parecem umas mini minhocas com o rabo aceso, mas nós deliramos de cada vez que vemos um. E isto, do ponto de vista racional, é estranho. No fundo, funcionamos tal e qual as crianças: só gostamos de brinquedos coloridos, barulhentos e cheios de luzinhas.

18
Jun17

Quando as tragédias batem na porta ao lado

Carolina

Não sei o que distingue os momentos que nos ficam a memória e aqueles que se esvaem como que água por entre os dedos, mas gostava muito de saber. Às vezes penso "quero lembrar-me disto até ao resto dos meus dias" e, no dia seguinte, já nem sei do que se trata; em tantas outra coisas normais, do dia a dia, a memória não pára de trabalhar e lembro-me dos pormenores mais insignificantes que possam existir. E depois há certos momentos que passam e que eu sei imediatamente que, bons ou maus, me vão ficar registados para sempre.

Lembro-me de um dia estar a ir para qualquer lado com o meu pai e passar em frente ao Hospital de São João, onde há um corrupio de ambulâncias constantes, onde o estacionamento é caótico e se vêem pessoas por todo o lado. Na altura, o meu pai disse-me que não gostava de passar ali. Lá íamos nós, na nossa vida, provavelmente a caminho de um restaurante ou simplesmente a passear; e ali, a meia dúzia de metros, estavam pessoas no mais puro dos sofrimentos - quer físico quer emocional, ora por serem elas próprias a estar na cama ou os que desesperam na sala de espera. Quando ele me disse isto eu soube que era uma das coisas que eu, mesmo que quisesse, não ia esquecer. Por ser tão real, tão duro, tão inevitável; por não podermos fazer nada para o alterar. Um dia somos nós, outro dia são os outros. E não podemos deixar de aproveitar os nossos momentos bons por outros, que não conhecemos, estarem a viver momentos maus - porque assim viveríamos numa infelicidade cíclica e viciosa que não tornaria o mundo melhor.

Agora, enquanto estou estendida numa espreguiçadeira a apanhar sol e a escrever isto, sei que está um país de luto e uma cidade devastada pelas chamas e por uma das maiores tragédias que todos já testemunhamos em Portugal. Ainda ontem, enquanto vinha para o Algarve, parei em Leiria para comer algo, mal sabendo que o pior estava por acontecer por aqueles lados. Mais uma vez passamos ao lado do mal, do inferno, do desespero e da infelicidade enquanto caminhávamos para algo de bom - tal e qual no hospital. E hoje, aqui deitada enquanto muitos lutam contra as chamas, outros perderam casas e familiares e 62 (até ao momento) perderam a vida, só me resta esperar o melhor. Vejo posts de lamento e consternação no facebook e penso "mais um", porque para nada servem as palavras quando o sofrimento mora ao lado e nada podemos fazer para o diminuir. Mas tal como todas essas pessoas, também eu sinto necessidade de dedicar uma palavra de pesar; ainda que ninguém leia, ainda que seja só mais um no meio de tantos outros que nem sonham o sofrimento que se deve estar a viver naquela terra. Ainda que sejam só palavras que não devolvem terra, casas ou vida e que, ao contrário do que quem lá está, venham de quem está hoje de bem com a vida.

Porque ela é mesmo assim. Umas vezes toca aos outros, outras vezes toca-nos a nós. E tudo o que podemos fazer - não estando no local, não conhecendo ninguém e estando só a ver de longe, ainda com a preocupação de quem se sente - é esperar o melhor e rezar que a vida seja branda até nas horas mais difíceis.

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