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[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

24
Fev17

A canção da semana, para o resto das semanas da vida

Carolina

Acho que o pessoal da minha geração não vê a Eurovisão. Não temos aquelas histórias que se ouvem da boca dos nossos pais e avôs, de que meia vila se juntava à volta de uma televisão só para ouvir a Simone, o António Calvário ou, mais tarde, as Doce a cantar e representar Portugal por essa Europa fora. Acho que há muitas razões para isso acontecer: primeiro, não vibramos com uma Europa que para nós já é "velha" e é um dado adquirido; segundo, porque as musicas normalmente são uma treta e quase nos escondemos de vergonha só de pensar que algo como a "Quero ser tua", da Suzy, nos representou no estrangeiro; e, terceiro, porque já sabemos que nunca vamos ganhar aquela treta e há demasiadas séries boas para ver enquanto passam vinte músicas maioritariamente terríveis, algumas em línguas em que não se percebe sequer um "ai". 

Por tudo isto, acho que nunca vi um Eurovisão. Nem o espétaculo principal nem aquelas eliminatórias anteriores. Conheço mais ao menos todas as músicas que levamos, mas vi sempre posteriormente a terem sido escolhidas ou apresentadas no festival. E no domingo não foi excepção - por acaso estava na sala a ver um filme enquanto o programa decorria e, por sorte, acabei por fazer zapping, apanhando a fase final das eliminatórias do Festival da Canção. Vi a última música (quer dizer, talvez seja melhor dizer "sobrevivi à última música") e esperei pelo apanhado de todas elas, naquelas promos que fazem para as pessoas verem os números de telefone, gastarem dinheiro e votarem.

E foi aí, nesses cinco segundos, que eu ouvi o Salvador Sobral.. Eu nunca vi o Ídolos, nunca o tinha visto mais gordo, mas fiquei instantaneamente apaixonada por aquela voz e por aquela letra, que não é nada mais, nada menos, que genial. Topa-se a léguas que ele é irmão da Luísa Sobral, a voz é muito semelhante, e a letra também tem a genialidade que lhe é típica - sou uma fã acérrima da Luísa, já fui a um concerto dela na Casa da Música, e foi das coisas mais simples e bonitas que ouvi (e vi) até hoje. 

Pelos vistos o dom corre na família. A presença dele no palco foi um bocadinho estranha mas, pelo que sei, ele estava doente e podia estar um pouco alterado nesse sentido; ele meio que dançava e "tocava" instrumentos imaginários, enquanto fazia expressões sui generis, mas acho que também era por estar totalmente absorvido pelo momento. 

Mas bom, a verdade é esta: desde domingo que não ouço outra coisa senão uma música apresentada no Festival da Canção. E o "pior" é que a música é linda, a letra incrível e a voz do rapaz de fazer arrepiar a espinha. Por isso, ao que parece, até há coisas fixes no Festival da Canção. Ainda não está decidido quem é que vai à Eurovisão, até acredito que ele não vá (os melhores ficam sempre pelo caminho...) e, mesmo que fosse, não ganhava na certa (já há muito que se percebeu que aquilo não é uma questão de músicas). De qualquer das formas acho que foi uma lufada de ar fresco: há coisas boas a acontecer e a serem feitas neste país, inclusivamente a serem apresentadas num concurso que está mal visto pela grande maioria do público e onde antes já foram apresentadas obras-primas como "Quero ser tua". 

Esta foi a música que reinou a minha semana, que me enche o coração e me preenche as medidas. É muito mais do que uma "música de Festival da Canção" e muito mais do que o hit da semana. É uma obra prima.

 

23
Fev17

O rídicúlo dos diretos (ou coisas que não percebo nas redes sociais 1#)

Carolina

Gosto muito do instagram mas não achei grande graça quando quis imitar aquelas funções do snapchat (que, por sua vez, não acho piada) criando o instastories. Mas enfim, como tudo na vida, primeiro estranha-se e depois entranha-se e eu agora até vou fazendo uns vídeos - nomeadamente quando estou entretida a cozinhar - para essa nova função do instagram. O que nunca fiz foi um direto, tanto no instagram como no facebook; não é algo que me parece que vá fazer tão cedo, porque não me apetece falar para o boneco, mas ainda assim é disto que quero falar.

De vez em quando, enquanto estou a passear pelas redes sociais a ver as horas passar e me aparece uma notificação de que alguém que eu sigo está a começar um direto, vou lá espreitar. Normalmente são sempre figuras públicas, não há muita gente anónima a fazer os chamados lives, e acho que quem utiliza mais estas ferramentas é malta mais jovem (e muitas vezes com um target ainda mais jovem), o que também afeta aquilo de que vou falar. Nestes casos, refiro-me por exemplo aos diretos da Maria Vaidora e da SofiaBBeauty - que, para quem não sabem, são duas vloggers de moda, beleza e lifestyle, de quem eu por acaso gosto muito e acompanho nas várias redes sociais.

Mas voltando à vaca fria: eu presumia que, quando se fazia um direto, é porque se tinha algo interessante para dizer ou mostrar; algo que está a acontecer no momento ou que tenha valor por ser transmitido, ali e agora. Mas não. Em primeiro lugar, muitos lives são marcados com antecedência - tudo bem, têm um pressuposto diferente, não é para transmitir nada de especial mas para marcar um "encontro vrtual" com os seus seguidores. Até aqui até é aceitável. O pior são os eventos em si, em que 95% são os protagonistas a mandar beijinhos, dizer "parabéns" a alguém que faz anos daqui a dois dias ou a tentar ver os comentários que pedem para mandar beijinhos mas já estão escondidos pela própria plataforma. Os restantes 5% são divididos entre os momentos iniciais (2%), em que os bloggers/vloggers/famosos tentam perceber se aquilo está de facto a funcionar, e a dizer qualquer coisa de novo, útil ou minimamente interessante (3%).

Ou seja, a questão que se coloca é: para quê que eu vou ver um vídeo onde só ouço coisas como "beijinhos Xana, também gosto muito de ti!", ou "parabéns Rita, um dia muito feliz!" e ainda "a Sónia diz "mil beijinhos!"; também para ti, Sónia!". E eu não culpo propriamente quem faz os diretos por isto: está "escrito" que, neste tipo de coisas, é essencial ter interação com o público, para criar o tão falado "engagement" e fazer com que as pessoas se sintam mais próximas de quem admiram. Por outro lado, eu percebo que seja difícil ter alguma interação minimamente interessante quando só te pedem para mandar beijinhos para as amigas e não te fazem qualquer tipo de questão pertinente - não condeno, por isso, os papéis de pessoas que até acho interessantes e inteligentes (como os dois exemplos que dei acima), só acho que é preciso dar a volta ao texto. 

Há que perceber que esta nova moda é completa e totalmente desprovida de conteúdo e que o feitiço se vira contra o feiticeiro: porque se no início uma pessoa até quer ver, no fim já só quer desligar, por se sentir "beijada" até às pontas do cabelo. No fundo, só lá fica quem está na fila de espera para os beijinhos para a tia, para o namorado e para a melhor amiga. Todos os outros, os não beijoqueiros, já se foram embora há muito.

22
Fev17

Há um ano tive medo. Há um ano comecei a ser mais feliz.

Carolina

Faz hoje um ano que me iniciei no maravilhoso mundo do trabalho (na altura ainda em regime de estágio) - e digo "maravilhoso" num misto de ironia com realidade. Cresci (e acho que crescemos todos) a ouvir cobras e lagartos sobre o mundo do trabalho; todos nos dizem para aproveitarmos os tempos de escola e de faculdade, que o que vem a seguir é muito pior, e acho que temos tendência a acreditar. Depois de vários anos de escola dolorosos e uma licenciatura também não muito prazerosa, vi a minha vida a andar para trás: se o que vinha a seguir era pior, eu estava tramada literalmente para o resto da vida. No entanto, e apesar dos "saberes das gentes", sempre acreditei que era a trabalhar que sou o melhor de mim. E acho que não me enganei.

Acho que o melhor elogio que posso fazer a este ano de trabalho (quer dizer, 9 meses de trabalho, porque ainda tive direito a férias de verão) é que foram poucos - mesmo muito poucos, provavelmente menos que os dedos de uma mão - os dias em que saí triste de qualquer um dos escritórios onde estive. Tive dias difíceis - os primeiros, por exemplo, doem sempre - mas os seguintes eram sempre melhores. Foram igualmente raros os dias em que acordei e não quis trabalhar, os dias em que fiz o caminho contrariada, os dias em que achei que não tinha nada para dar às entidades com quem trabalho. Errei algumas vezes - chorei quando cheguei a casa após o primeiro raspanete, com razão, que levei - mas acho que nós nos definimos pela forma como lhes damos a volta e pela honestidade e humildade com que os admitimos.

Sinto-me uma privilegiada - por tudo, tudo, tudo o que me rodeia. Logo à partida por ter trabalho e logo a seguir por gostar do trabalho que faço; por trabalhar com pessoas de quem gosto, por gostar do projeto em que estou inserida, por acreditar nele; por conseguir escrever, viajar, falar de moda e têxtil todos os dias, por poder vir almoçar a casa sempre que quero, por poder trabalhar na minha secretária ou na secretária dos outros, por não ter nada "meu" e ser tudo "nosso"; por, em apenas um ano, ter feito amigos (por esta não esperavam, hã?) e, mais do que isso, não ter feito inimigos (é isso que é difícil no mercado de trabalho, não é o que dizem?); por estar rodeada de muito mais pessoas de que gosto do que de pessoas de quem não gosto; por ter liberdade para fazer diferente e por ter dias diferentes todos os dias.

Sou uma sortuda. Nasci com sorte, mas tenho vindo a aprender que isso não é só genético: a sorte cria-se, luta-se, conquista-se; como tudo na vida, é também fruto do trabalho que fazemos ao longo do passar dos dias. E eu tenho feito muito por ela. Na última feira em que estive, já depois de Munique, várias pessoas passaram por mim e cumprimentaram-me pelo nome. A situação era tão embaraçosa quanto gratificante: porque a verdade é que eu não sabia a maioria dos nomes de quem me cumprimentava, mas eles (já) sabiam o meu. E, só isso, já é a vitória que procurava: é precisamente aquilo que vim para aqui fazer, o início do plano de vida que tracei para mim. 

Sei que nem todos os anos vão ser assim, que nós andamos constantemente numa montanha russa puxada por alguém com um humor instável e, por vezes, dotado de um sadismo cruel. Ainda assim, é impossível não querer acordar todos os dias para saber o que o futuro me reserva. Se isto é o início de uma vida, então eu quero mais. Muito mais. Que ela venha.

 

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21
Fev17

Quem foi o génio que decidiu pôr uma série dobrada em Portugal?

Carolina

Este fim-de-semana, enquanto tomava o pequeno-almoço, liguei o AXN só para fazer barulho de fundo enquanto comia - era melhor que os desenhos animados que passavam na RTP2 ou a missa que dava no primeiro canal. Ao menos via um pedaço de uma série qualquer e ficava entretida. Mas quando liguei, e sem qualquer tipo de espanto, passavam anúncios. Estranhei quando ouvi várias vozes portuguesas, naquilo que me pareceram ser cenas de ação ou de diálogo, e olhei para a TV.

Fiquei em choque quando me apercebi que o anúncio estava dobrado para português. Sim, essa coisa horrível, típica de brasileiros e espanhóis, que fazem com que séries e filmes sérios pareçam autênticos desenhos animados, enquanto alguém fala por cima da imagem de outra pessoa que se nota perfeitamente que não está a dizer nada daquilo que ouvimos. É absolutamente medonho. Apressei-me a escrever no facebook e a comentar aqui em casa, mas o assunto morreu.

À noite, quando falava com a minha cunhada, ela comentou comigo que aqui há dias tinha visto uma série no AXN dobrada, que tinha ficado espantada com o que viu - e aí é que me caiu a ficha. Eu achei, na minha ingenuidade, que o AXN tivesse tido um ataque de loucura (ou pelo menos de experimentação) e passado apenas (!) um anúncio dobrado, tal como faz o TLC; o que nunca me passou pela cabeça é que a série fosse, efetivamente, dobrada! No TLC os anúncios passam todos em português mas as séries mantêm o formato original, apenas com legendas. Mas, no caso do Einstein, pelos vistos não acontece o mesmo.

É claro que fui logo a correr ao facebook do canal, já a prever o chorrilho de críticas que por lá havia. Não me enganei. Aliás, o primeiro comentário já era mesmo um esclarecimento do próprio AXN, em que dizem "As séries dobradas não perdem o seu valor original, ganham um novo valor, como se pode comprovar em vários países. No caso de Einstein, os diálogos são tantos e tão rápidos que não era possível legendá-los todos porque se sobrepunham continuamente, e acabávamos por perder muito conteúdo importante e imprescindível para poder entender a história. Como tal, e para benefício do espetador, o AXN decidiu assumir a dobragem da série.". Ri muito. 

Não havia um único comentário positivo relativamente à dobragem. Um! O que não me surpreende, porque em Portugal só se faz dobragens nos filmes de animação - e, mesmo assim, conheço muito boa gente que vê as versões originais (eu me confesso). Não temos essa cultura - e ainda bem! Por só ouvirem as suas línguas é que os brasileiros e os espanhóis não conseguem falar mais nada direito; já nós apuramos os ouvidos desde pequenos e desde sempre que nos habituamos a ler legendas. Para além de que temos uma aversão natural a tudo o que é dobrado, tal como os hispânicos parecem ter ao inglês e línguas estrangeiras. 

Por acaso nunca calhou de ver a série, mas tenho a certeza de que não aguentaria dois minutos a ver algo de ação com as nossas vozes de pasmaceira (mesmo que estejam aos gritos, o português nunca parece fidedigno neste tipo de cenas, desculpem lá). De qualquer das formas, já vi um comentário algures dizendo que o AXN vai também transmitir a versão original, em alemão. Parece-me uma melhor ideia. Porque uma coisa é certa: quem teve a esperteza de dobrar uma série em Portugal, não é de certeza absoluta nenhum Einstein.

20
Fev17

A simplicidade de um dia bom

Carolina

Hoje acordei com dores de garganta e a manhã começou logo com um problema chato para resolver, que me pôs logo a cabeça às voltas, em busca de soluções e planos. Não foi um bom início. Mas estava sol lá fora e mal me pus fora do escritório e senti aquele quentinho, típico de um dia de primavera, soube que tinha tudo para melhorar.

Almocei e fui ao correio, fazer uma prova de teste à meteorologia - pelo caminho tive de tirar o casaco e percebi que ao sol se estava maravilhosamente bem. Não estive com meias medidas: peguei nos óculos de sol e no computador e fui para a varanda trabalhar. Passado uns minutos estava a suar as estopinhas - levantei-me e vim trocar a camisola por a parte de cima do biquíni. Mais dez minutos e percebi que este já não era sol de inverno e já quase ultrapassava o de primavera: parecia verão! Levantei-me outra vez e espalhei protetor solar pelo corpo e ali fiquei, a tarde inteira, enquanto muitos textos fluíam pelos meus dedos ao mesmo tempo que a vitamina D entrava por mim adentro, ao mesmo tempo que - espero eu! - a minha pele ganhava uma corzinha.

Lá pelas cinco da tarde, quando o sol se estava a deitar, olhei à minha volta e vi que o chão por baixo das laranjeiras estava crivado de fruta. Voltei a calçar-me, fui buscar um saco e deitei as mãos à obra. Pelo meio ainda subi a um tronco de uma árvore, tirei fotos aos meus cães e com os meus cães, sujei-me toda, fiquei a arfar de andar de gatas a apanhar as laranjas e as tangerinas do chão, o cabelo parecia saído de um filme de terror e as minhas mãos escuras de terra. Depois regressei à varanda, com um livro no regaço, e li até o sol se esconder debaixo das árvores que cobriam a minha linha do horizonte. Voltei a entrar, tomei um banho quente, fiz um chá para amansar a garganta que voltou a dar de si e relaxei, enquanto sentia o cheiro do creme que tinha acabado de pôr no corpo - coisa que só faço quando apanho sol, o que me traz inevitavelmente memórias dos dias de verão. 

É engraçado como eu agora sinto uma necessidade crescente de sol e de terra. Antigamente ficava fechada imensas horas no meu quarto - que antes era ainda mais escuro do que o que estou atualmente - e não sentia isso, mas agora não consigo estar muito tempo no quarto enquanto é dia, principalmente se estiver sol. Há qualquer coisa que me atrai para a luz. Mesmo enquanto trabalho, tento sempre procurar sítios cujas janelas estejam viradas para a posição do sol naquele momento, porque me dá mais energia e vontade de continuar. Por outro lado, também a terra me chama e me relaxa imenso nos últimos tempos - sempre tive um jardim enorme onde brincar e uma horta, para onde a minha mãe me chamava vezes sem conta (sem sucesso); sempre fugi de ambos, ora por causa do cocó dos cães, ora pelas galinhas ou os ratos. Continuo a não desfrutar de ambas as coisas na sua plenitude - quando temos as coisas como garantidas, nunca o fazemos - mas agora sabe-me bem ir à horta de vez em quando, buscar fruta, colher vegetais para distribuir no trabalho, tirar fotos no jardim e sentir a relva a baixar-se por eu passar por cima. Relaxa-me de uma forma incrível, faz-me sentir viva.

E hoje foi um dia tão simples como este: escritório - almoço - trabalho ao sol - laranjas - banho - chá. Agora vem a parte chata, a pescadinha de rabo na boca: resolver o problema que apareceu de manhã. Mas depois de um dia destes, tudo parece mais fácil. É incrível como este ano já viajei, já fiz coisas diferentes e incríveis, já conheci pessoas novas e inspiradoras, tive em sítios diferentes e de que gostei - e, ainda assim, acho que este foi o melhor dia que tive em muito tempo. Hoje sei que me deito com uma paz de espírito com que já não me lembro de estar. Porque basta um dia de sol para fazer um dia feliz (quero tanto lembrar-me disto quando, mesmo em dias de sol, o meu humor estiver de chuva...)

 

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19
Fev17

O meu jeito de fotografar

Carolina

Há cerca de um ano escrevi aqui um texto - que nunca cheguei a publicar - sobre a forma como gostava de fotografar e os meus problemas enquanto tirava fotos. Tinha acabado o curso de fotografia e aproveitei para, nesse mesmo post, fazer também um balanço de como é que aquilo tinha sido e portanto, como eu não o publiquei, acabou por ficar datado e esquecido nos meus rascunhos.

Lembrei-me dele antes das minhas viagens, quando disse aqui que uma das coisas que mais me chateava em viajar sozinha era não ter quem me fotografasse. Depois fiquei a pensar no assunto e achei que podia ter soado um bocado fútil, como quem diz "olha-me esta, só precisa de alguém para fazer de fotografo ambulante para escarrapachar as fotos no instagram!" - e isso não é de todo verdade. A fotografia é, para mim, uma parte essencial de qualquer viagem - e ao contrário de muita gente, eu depois vejo, revejo, escolho, trato e arquivo as imagens de forma hiper cuidada, para depois passar a vida a ir lá cuscar. Quem me conhece sabe que sou menina para passar a vida a ir ao baú, em busca de recordações, memórias e detalhes. Não diria que vou todos os dias à minha pasta de fotos - mas umas três vezes por semana é mais que possível. Porque para além de gostar de tirar fotos, gosto de as ver e reviver os momentos bons da minha vida. 

É muito mais que um simples capricho de facebook ou de "toma lá que a minha viagem foi melhor que a tua". Gosto de ter fotos nos sítios que gostei e onde fui feliz - e, por isso, essa continua a ser uma das coisas que me chateia em viajar sozinha. Porque, tal como calculei, acabei por tirar muito poucas fotos - as que tirei a mim mesma foram selfies, com o telemóvel, e as outras são paisagens, acabando por morrer um pouco e por não terem uma âncora que nos fixe àquela fotografia (é claro que isto é um ponto de vista pessoal, eu adoro foto de paisagem, mas têm de ser extremamente bem tiradas, o que não é a minha especialidade).

E isto leva-me ao tema do post que tinha escrito há um ano atrás, em que eu falava das dificuldades que tinha ao fotografar. Um dos exemplos que dava - e que se mantém - é que embora goste de fotografar um bocadinho de tudo, tenho um especial gostinho em fotografar pessoas, principalmente se estas me dizem algo. No entanto, gostava também de fotografar algumas pessoas que vejo na rua - e isto já me dava a alma que procuro nas fotos, de que falava acima, e que de certa forma "me" poderia substituir quando eu estivesse sozinha - mas não tenho nem lata para lhes apontar a objetiva à revelia nem coragem para ir ter com elas e pedir para tirar uma foto; é algo que não faz parte de mim, porque sempre tive muita dificuldade em falar com os outros, principalmente quando sinto que os vou "chatear". Por outro lado, mesmo que tivesse a lata de ir falar com as pessoas, tenho a sensação de que, por cá (os portuenses), são sempre um bocadinho impulsivos, com uma certa tendência para a agressividade espontânea, pelo que tenho - para além de vergonha - medo das potenciais reações que possam ter após lhes pedir para tirar uma fotografia. 

Adoro fotos de rua, muitas vezes a preto e branco, de casais num café, um velhinho a ler um livro num banco ou uma criança num escorrega - mas sou incapaz de ser eu a faze-la e disparar nas alturas devidas. De certa forma, sinto-me a invadir a privacidade das pessoas, e eu não consigo ver-me livre desse sentido "moral" que não me deixa tirar fotos livremente. Na altura, quando acabei o curso, isso mexia muito comigo - o facto de me sentir impedida de tirar um tipo de foto que gosto; hoje em dia, que também já não tenho tanto tempo para fotografar, essa questão já me passa um pouco ao lado e acho que se calhar nem tenho assim tanto jeito para a coisa. Limito-me praticamente a fotografar quem gosto, em ocasiões mais ou menos especiais. Acho que também me safaria em tudo o que é foto de ocasião - casamentos, aniversários e essas coisas assim, com pessoas efetivamente predispostas a serem fotografadas. Porque se, por um lado se perde um pouco de magia e autenticidade, por outro há o gosto de conseguir tirar fotos efetivamente boas. Não sei, talvez um dia.

Por agora, guardo a lente para os meus, para as minhas viagens e para mim - quando estou acompanhada. Para o bem e para o mal, é aquilo que tenho.

 

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(David no escorrega, 19.02.17)

18
Fev17

A fórmula da felicidade pode ter dor pelo meio

Carolina

Não acho que tenha sido uma adolescente difícil, com aqueles dramas todos do costume. Simplesmente não fui uma adolescente feliz. Não que não tivesse condições para isso, mas simplesmente não me conseguia ver livre dos meus fantasmas, que tomavam conta de mim de forma permanente. De qualquer das formas, acho que esta é das épocas da vida em que é difícil ser-se feliz, a menos que se seja muito parvo e ninguém tenha uma rédea sobre nós. Eu estava a passar por aquilo, sabia os "sintomas", mas não me identificava com eles: via os meus colegas a passarem por todas as fases a que tinham direito, a fazerem asneiras sem olho em qualquer consequência, e eu abanava a cabeça, num "não" constante.

Foi só mais uma fase em que não me integrei com nada nem ninguém e que embora não andasse enrolada com 3 gajos na mesma semana, a fumar um cigarro na parte de trás da escola e já de olho no dealer de erva ou a mentir aos meus pais, vivia com os meus próprios dramas e cocktail de sentimentos que não sabia gerir. E acho que isso só resultou num isolamento total e numa tristeza que morou em mim até, provavelmente, ao 11º ano - ano em que me senti mais no fundo do poço e já com anti-depressivos na carteira mas onde também decidi tomar as rédeas da minha vida e deixar-me de merdas.

Por outro lado também culpo a genética. Acho que tenho propensão para estar triste, ver o copo meio vazio, estar de olho no lado negro da vida, optar pelo ponto de vista negativo em detrimento do positivo. Esta é a minha forma natural de estar, mas também é aquela em que não quero viver - por isso todos os dias faço o exercício de gostar das coisas, sorrir para as pessoas, fazer listas de coisas boas se assim for necessário, ser simpática e esperar que o universo retribua com positivismo. E quem está a ler isto e não me conhece deve estar a pensar que eu sou o Gustavo Santos em modo feminino, a tentar inspirar o mundo para uma auto-ajuda generalizada, mas não é verdade: primeiro porque não acho que seja exemplo para ninguém e, segundo, acima de tudo, porque o que eu estou a dizer é a mais pura das verdades, no meu caso em particular. A mudança foi radical e sei que no exterior também se notou: sou hoje uma pessoa mais feliz e muito mais fácil de conviver e privar. Porque a verdade é que viver ou estar com alguém que está sempre triste, deprimida e chateada com a vida é um castigo: castigo esse que eu não queria dar nem aos que amo - porque são quem me atura diariamente - nem a mim própria. Eu já não me aguentava, estava farta de mim. E isso era uma bola de neve que ia piorando gradualmente porque não conseguia sair deste ciclo. 

Esta mudança aconteceu porque cresci mas, acima de tudo, porque quis. Ai de quem me tire os louros nisto e os ponha em cima dos anos que passaram por mim. Porque embora eu duvide seriamente que conseguisse voltar ao que era - a não ser que um acontecimento avassalador tomasse conta da minha vida e eu perdesse totalmente o controlo -, não tenho dúvidas que aquela Carolina ainda continua ali. E ela aparece todos os dias e eu não consigo deixar de ser eu. Costumo dizer "deram-me os 5 minutos, mas já passou"; ou então, já antevendo a coisa: "estou prestes a ter os 5 minutos, mas já passa". Esses cinco minutos são de choro compulsivo e música deprimente; são fonte de inspiração para escrita, são dores de alma. Mas são só cinco minutos - e depois pára. Porque eu não sufoco aquilo que sou, mas preciso de ser outra coisa. Estabeleço-me limites para gozar e viver as tristezas, as deprimências, as ânsias e os sofrimentos - podem não ser cinco minutos, podem ser dez, um dia, uma semana. Depende do que for, depende dos quê's da questão, de uma previsão para eu ver a coisa resolvida. Mas tem de terminar ali.

E isto pode parecer estranho e irreal porque, de facto, as dores e os desgostos não têm prazo de validade; só o tempo é que os cura. A questão é que, a menos que sejam autênticos elefantes na sala que não consigamos controlar - que acontecem -, podemos prioriza-las. O truque é deixar de lhes dar prioridade. Primeiro há uma vida para viver, passeios para dar, viagens, trabalho, pessoas - e depois podemos resolver tudo isso. Mas a verdade é que, bem vivida, a vida é demasiado cheia de coisas (boas e más) para termos muito tempo para estarmos ocupados a resolver coisas antigas e a carpir como se não houvesse amanhã.

Às vezes dizem-me, ferverosamente, para parar de racionalizar. Deixar de pensar em hipóteses, de parar de descodificar aquilo que sinto, que os outros sentem. O que essas pessoas não sabem é que o ato de racionalizar, tanto me mata, como me salva diariamente. É como as enzimas dentro do nosso corpo, que partem partículas maiores noutras mais pequenas, de forma a serem digeridas: pode doer à primeira, mas é a única forma de elas serem absorvidas e serem uma parte integrante de nós. E eu preciso de desconstruir tudo, ordenar as ideias, dar-me tempos para arrumar tudo direito e seguir em frente. É assim que consigo ser feliz. (Literalmente) Estranhamente feliz.

13
Fev17

Oh não, ando a ver séries portuguesas!

Carolina

Ando há séculos para vos falar das novas séries da RTP. Quer dizer... "novas" é uma expressão. Ando a adiar este post há tanto tempo que elas já podiam estar quase na segunda temporada e eu ainda aqui estava. Mas enfim, vocês percebem. Acho que pelo caminho até já estrearam outras (shame on me, again), mas vinha falar-vos do "Ministério do Tempo" e do "Sim, Chef".

Com o Ministério do Tempo a RTP fez um alarido de todo o tamanho, uma promoção incrível. E a verdade é que eu acho que deixa muito a desejar. A ideia original é engraçada mas, tal como todos os filmes e séries que envolvem viagens do tempo, acho que há discrepâncias enormes, erros que nem sei bem explicar. Enquanto vejo aquilo surgem-me mil e um problemas e outras mil e uma questões e eu acabo por não desfrutar do que vejo.

Não percebo muito bem aquelas passagens temporais e, no caso específico desta série, não entendo como é que eles depois recrutam o Luís Vaz de Camões ou o Pessoa para o ministério. Depois há outras coisas: lembro-me de uma cena em que a Amélia só dizia que queria ir dormir para casa - mas então ela vai dormir ao século XIX? E depois vai embora, e depois volta? E o tempo que passa noutros tempos é igual ao do tempo dela? Ou seja, enquanto os minutos passam em 1943 também passam em 1851? Acho tudo muito confuso. Por outro lado, acho a caracterização de algumas personagens mesmo muito fraquinha: ainda há dias o Hitler e o Salazar eram os ícones centrais do episódio e os atores eram de bradar aos céus. E ainda há a questão das paisagens: quando se trata de tempos muito antigos, os fundos são autênticas pinturas, há uma total aceitação de que não vão recriar aqueles cenários - e embora eu perceba que mais vale fazer isto do que asneira da grossa, dá um ar pouco autêntico e um bocadinho amador à coisa. Por isso, e embora ache alguma graça ao enredo inicial, acho que há demasiada coisa a estragar, por isso desisti de ver.

O mesmo não se pode dizer do Sim, Chef. Acho a série super, hiper, mega bem conseguida, de rir do início ao fim. Nos primeiros episódios também apareciam assim umas nuvens, ao estilo desenho animado, mas até isso eu achei piada, embora tornasse a série um bocadinho mais acriançada. Acho o casting incrível - os dois atores principais, o chefe e o aprendiz, nasceram para fazer aquilo. O enredo de cada episódio é hilariante, há sempre plot twists pelo meio e cada personagem tem o seu papel - que, ainda pequeno, não deixa de ser essencial, tal e qual como acontece numa cozinha. Pelo que sei, a série é inspirada numa outra estrangeira, mas não acho que lhe tire valor - aquilo faz as minhas quartas-feiras à noite muitooo mais divertidas. Normalmente todas as séries que eu gosto não passam dos primeiros episódios experimentais, mas estou a fazer figas para que esta tenha continuidade e que os roteiristas continuem inspirados.

Por isso, em resumo: para o Ministério do Tempo, embora aprecie a tentativa... avaliação negativa. Para o Sim, Chef... que mais venha! Ah, e já agora, uma nota de apreciação para a RTP, pela tentativa de disrupção das novelas, onde há sempre o anjo, o diabo e o casal sensação, e que já enjoam neste país tão pequenino onde tudo soa ao mesmo. Não tenho visto muito mais séries para além destas, mas apanho alguns anúncios e críticas pela internet fora - e mesmo que algumas não tenham sido tão bem conseguidas, acho que vale pelo esforço!

 

12
Fev17

Um guia turístico diferente

Carolina

Antes de fazer as viagens, emprestaram-me um molho enorme de guias para eu fazer uma seleção dos sítios onde queria ir. É óbvio que não tinha grande tempo para fazer muita coisa, mas foi uma boa hipótese para fazer ver aquilo que achava ou não que valia a pena visitar.

No meio de tudo isso veio um livro enorme e pesado, chamado "36 hours - Europe", em que o conceito é basicamente "o que fazer num fim-de-semana num destino europeu?". Começa a meio da tarde de sexta feira, passa por sábado e pela manhã de domingo - no fundo, um tipo de viagens muito instituída pelas companhias low-cost, em que se tem de ver tudo em modo Speedy Gonzalez e pensar "é melhor que nada".

Mas bom, a ideia era eu ver o que o livro trazia sobre Madrid e Munique, mas a verdade é que gostei tanto do conceito que dei por mim a folhear o livro por inteiro - principalmente nas cidades que já conhecia, para perceber se os sítios que eles sugeriam iam de encontro aos que eu tinha ido e gostado. E a verdade é que há muitos sítios de que gostei muito, mais ao menos comerciais, e que o livro sugere. No fundo, tem um bocadinho de tudo: primeiro uma breve contextualização da cidade, depois um sítio para passear, outro para jantar, outro para tomar um copo, um museu, uma loja ou outra coisa que os autores acharem relevante. Acho que isto é uma compilação de textos publicados no The New York Times e, para além da edição sobre a Europa, há sobre os USA&Canadá, Nova Iorque, Londres e América Latina.

Para além do formato giro e pouco usual de apresentar as coisas, o livro é lindo, muito bem desenhado, com fotos e ilustrações incríveis, que fazem com que não apeteça parar de se folhear. Encontrei-o no The Book Depository a 23 euros (agora está a 24) e achei uma autêntica pechincha. Os guias turísticos são caríssimos, um só livro sobre uma cidade pode chegar a custar mais do que isto, e pagar pouco mais de vinte euros por um livro com quase 700 páginas, que pode servir até de decoração de centro de mesa (por exemplo) e que tem informação sobre todas as cidades principais da Europa, é quase de borla. Fiquei rendida ao formato e à beleza da obra, por isso não podia deixar de a partilhar convosco. E, se gostam de viajar, este é capaz de ser um bom investimento.

 

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Para terem uma ideia, no Porto aconselham o Restaurante DOP, o Mercado do Bolhão, o Hard Club, o Centro Comercial Bombarda, as Galerias de Paris, a Fundação Serralves, as caves Sandeman, entre outros.

 

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 Em Lisboa aconselham a visita ao LX Factory, à Casa da Comida (não conheço), ao MUDE, ao Museu Nacional de Arte Antiga e ao Le Chat (que também não conheço), entre outros.

 

11
Fev17

Uma semana de viagem: o resumo

Carolina

É engraçado pensar que apenas viajei durante uma semana. Enquanto a vivi, a azáfama foi tão grande que o tempo pareceu passar a correr (pelo menos a maior parte, fora aquelas em que eu me ia abaixo, escondida nos arrumos, e contava quase os micro-segundos a passar). Agora que quero fazer um resumo das minhas peripécias, começando por Madrid, parece que passou tanto tempo que já nem as lembro de uma forma muito viva. Por um lado é mau, porque a veracidade das coisas já não vai ser espetacular; mas por outro, quer dizer que sorvi cada segundo daquela experiência, o que não podia ter sido melhor. Vamos lá por partes.

 

   1) Passei apenas uma noite em Madrid, mas viajei com três malas de porão, com 24 quilos cada uma. E não, não foi culpa minha - era material que tinha de ir para a feira e que não chegou a tempo para seguir por uma transportadora, por isso não houve volta senão ir comigo no avião. O que me valeu é que conhecia pessoas que - não tendo viajado lado a lado comigo - me ajudaram depois a transportar a carga.

   2) Mal cheguei fui logo trabalhar, não houve tempo para passagens pelo hotel. Quando lá cheguei, à noite mesmo antes do jantar, percebi que era um quarto habilitado para pessoas portadoras de deficiência. Nada contra, mas a casa de banho era terrível: para poder albergar uma cadeira de rodas, o chuveiro não tinha limites ou paredes, pelo que de cada vez que tomei banho alaguei a casa de banho in-tei-ra. Não foi bonito.

   3) Jantei com pessoas que não conhecia de lado nenhum. É engraçado como em situações que nos são estranhas acabamos por nos adaptar - já de tarde tinha falado espanhol (ou portunhol) como nunca tinha feito na vida (sempre tive imensa vergonha) - e depois ali estava eu, com três pessoas estranhas, a partilhar mesa e um jantar. Foram, por acaso, muito simpáticas e acabei também por estar com elas no pequeno-almoço. A verdade é que foi muito mais estranho o momento antes do jantar e o pós (como agora, em que estou a pensar nisso) do que o momento em si. Na altura limitei-me a ligar os meus instintos não-anti-sociais e tentar parecer alguém normal.

   4) O vôo Madrid-Porto foi o pior da minha vida. Foi sexta-feira à noite e, pelo que sei, houve um vendaval por todo o país (e também em Espanha, onde foram adiados jogos de futebol e etc.). Só tivemos uns 20 minutos de sossego - os outros 40, entre descolagem e aterragem, foram do pior. Vi a minha vida a andar para trás, à medida em que ia sentido o avião a balançar da esquerda para a direita de forma incessante, as malas acima da minha cabeça a baterem umas contra as outras e os compartimentos do avião onde os hospedeiros guardam as comidas e todas aquelas tralhas a remexerem-se todas. Chegou uma altura em que tive de me agarrar ao banco da frente para me estabilizar e procurei o saquinho de papel, caso precisasse. Vim depois a saber que houve pessoas que tiveram mesmo de o utilizar. Eu só queria chegar a terra - e rezava para que dali a umas horas o temporal já tivesse passado.

   5) Tinha vôo para Munique apenas seis horas depois de chegar de Madrid, pelo que estava no aeroporto apenas 4 horas depois de lá ter saído. O plano era tratar da mala mal chegasse à noite, mas dado o meu estado de oura, preferi dormir duas horas primeiro e depois trocar as tralhas essenciais de uma mala para a outra (que já tinha deixado pronta). Estava a tratar disso quando percebo que havia umas bolsas que estavam abertas e não deviam. Fui roubada no aeroporto de Madrid. Felizmente não tinha objetos de valor, mas roubaram-me dois colares (ambos Parfois, mas estavam bem tratados, devem ter achado que roubaram grande coisa) e os meus cartões de memória da máquina fotográfica, que estavam naquele saquinho que vos tinha mostrado aqui - também estavam vazios. Deixaram o colar mais valioso, tanto na nível monetário como emocional, pois era da minha avó. Ao menos isso. Ainda assim, chateou-me o facto de terem andado a remexer nas minhas coisas.

   6) A primeira noite em Munique foi de festa, num bar português, onde vimos o Porto ganhar ao Sporting. Vim a saber que aquele era o poiso dos jogadores do Bayern de Munique e o meu sobrinho mais velho quase me trucidou quando lhe disse que estava lá um tal de Rafinha (quem?) e eu não lhe tinha pedido um autógrafo.

   7) Aprendi que o schinitzel - o panado - é a minha salvação numa terra onde só se comem salsichas, algumas com um aspeto definitivamente horrível. Não como salsichas de uma forma geral, é algo que me faz aflição, e estar numa feira onde só se serviam snacks com salsichas pelo meio foi algo medonho.

   8) A feira onde fui tinha 19 pavilhões. Andei uma média de 10 quilómetros por dia, só dentro da feira. Saía do hotel pelas 7.30 locais (6.30 daqui) e houve dias em que cheguei depois da meia-noite. Fiquei morta. A certa altura tinha pessoas a gozar comigo, sem eu me aperceber porquê - só quando me olhei no espelho do elevador é que entendi que, embora tentasse estar bem-disposta, a minha cara me denunciava. Olhos raiados de sangue e olheiras até ao chão não perdoam. Passei essa semana a levantar-me às 5 da manhã de Portugal e aprendi que sei dormir em qualquer lado.

   9) Apercebi-me disso no dia em que fiquei sozinha, porque relaxei do frenesim da feira. No caminho de volta de Dachau adormeci sentada no metro, algo que nunca na vida me tinha acontecido. Depois à ida para o aeroporto aconteceu-me o mesmo, agarrada à mala (tenho a certeza que o gajo que estava à minha frente me tirou fotos). E tornei a adormecer enquanto esperei para fazermos o embarque.

   10) É engraçado ver a reação das pessoas quando se apercebem que uma miúda nova está sozinha. Ao jantar, certificaram-se que tinha dito que a mesa era só para um. Depois, quando veio o meu pernil, o empregado desfê-lo por mim (tinha ido ao mesmo restaurante no dia anterior, com pessoas, e isso não aconteceu) e sempre que passava sorria-me e perguntava-me se estava tudo bem. No dia seguinte, no aeroporto, uma senhora alemã ajudou-me a pôr as alças da mochila direitas quando se apercebeu que as tinha deixado tortas quando a coloquei nas costas. Achei o gesto enternecedor.

   11) Relativamente a estar sozinha, o meu maior receio era andar de noite - ali em redor do hotel havia muitos bares de strip e algumas prostitutas, sendo que havia também alguns magotes de homens que eventualmente podiam tentar algo. Meti os pensamentos maus atrás das costas e fiz-me à rua, e ainda andei uns dois quilómetros, desde o restaurante ao hotel. Certifiquei-me apenas que jantava cedo e voltava cedo para o ninho, para evitar andar sozinha a altas horas da noite. Achei a cidade muito morta, passei por sítios onde não passava vivalma e onde não havia animação, nem mesmo em montras. 

   12) No dia seguinte, o dia S (de "sozinha"), a vida não estava a colaborar. Fiz o check-out logo depois do pequeno-almoço, deixei as malas no hotel e fiz-me ao caminho para Dachau. Lá no campo comecei a enregelar seriamente mas, entre tirar telemóvel para tirar fotos e etc., perdi os phones e uma luva. Fiquei fula. Os phones eram a minha companhia e a luva, naquele momento, parecia essencial para a minha sobrevivência. Mal punha a mão de fora parecia perder a atividade, de tanto frio que fazia.

   13) Dirigi-me depois a Marienplatz, a praça mais antiga e principal da cidade, onde sabia que havia umas lojas pelas redondezas. Fui a uma H&M e comprei umas luvas. Quando ia a pagar, olhei para a carteira e apercebi-me que me faltava dinheiro - tinha-o deixado no cofre do hotel! Não tinha os documentos do hotel comigo, não tinha internet no telemóvel para saber sequer o número para ligar para lá. Meti-me no metro e fui a correr de volta, com o coração nas mãos. Quando cheguei, fiquei a saber que não só tinha deixado o dinheiro como o passaporte, que deixei lá por segurança, caso me roubassem o cartão de cidadão. Foi uma sorte e ficarei eternamente agradecida às senhoras da limpeza por terem guardado e entregue tudo. Nesse momento, para além de estar esgotada e a bater o dente de frio, senti-me derrotada. Já não queria passear, já não queria saber: só queria dormir, ir para o aeroporto e vir para casa. Mas fiz um esforço, voltei a abandonar o hotel e fiz-me à estrada.

   14) Comprei uns phones, já tinha outra vez companhia. Comprei também uns ímans para o frigorífico, para a minha mãe, e uns croiassaints e uma água para quando a fome apertasse. Dei mais umas voltas no centro histórico, sem grande plano definido, porque percebi que a vida não estava para essas coisas. Nas minhas pesquisas pré-viagem tinha visto que se podia subir a uma torre, mas quando lá passei não vi ninguém e parecia estar tudo fechado. Voltei a tentar, empurrei portas e lá acabei por encontrar a entrada. Estava cheia de frio e achei que aquela era uma boa forma de aquecer. Subi. Subi. Subi. Subi. Olhava para cima e as escadas não terminavam. Estava a deitar os bofes pela boca e só pensava "ainda bem que comprei uma água, quando chegar lá acima vai-me saber pela vida". Cheguei, mais viva que morta, e abri a água. Vi bolhinhas. Tinha comprado água com gás, algo que sou perfeitamente incapaz de beber. Roguei-me pragas.

   15) Tirei fotos, respirei, e voltei a descer, dando graças por aquilo não ter começado a arder quando eu estava lá em cima. As escadas eram todas de madeira e se algum dia algum louco passa por ali, está tudo condenado a uma morte certa. Quando cheguei cá abaixo, lembrei-me de ler o letreiro: 91 metros de altura, 306 degraus. Entre subida e descida, 612. As minhas pernas pareciam piores que gelatina, quase como se tivesse saído de um treino de PT. Roguei-me pragas mais uma vez, por não ter lido o letreiro antes de subir.

   16) Dei mais umas voltas, bebi um chocolate quente e voltei para o hotel. Peguei nas malas e fui para o metro, em direção ao aeroporto. Aparato policial, a porta para a linha da estação de metro que precisava estava fechada. Perguntei ao polícia uma alternativa, não percebi o que me disse, dei duas voltas à estação gigante para perceber se havia outra porta e nada. Como já dominava o metro, entrei noutra linha e depois troquei para a que queria - uma volta maior, mas não tinha outra alternativa. Tinha uma mochila carregada de coisas, entre computador, carregadores,máquina fotográfica, objetiva, porta-moedas, carteira de medicamentos, bloco de notas. Enfim, pesava chumbo - mais a mala grande. Ainda tive de subir escadas pelo caminho, decifrar as linhas de metros e estava esgotada.

   17) Quando cheguei ao aeroporto, depois de despachar a mala, ainda esperei uma meia hora para entrar na segurança, que é caótica em Munique graças a umas máquinas de raio-x que demoram o dobro do tempo. As minhas costas gritavam por descanso e tenho noção de que o meu caminho até à porta de embarque foi penoso - ia a passo de caracol, já com um olho meio aberto e outro fechado. Quando cheguei, atirei-me para uma cadeira e, com os phones nos ouvidos, fui dormindo. Depois entrei no avião e, bem... missão cumprida. Consegui, caraças.

 

A verdade é que no meio disto tudo, destas peripécias que agora aqui escritas parecem pequenas coisas, ninharias de nada, eu senti-me exausta. E quis desistir, ir direta ao aeroporto num táxi e arrumar aquilo. Dizer à vida: "porra, ganhaste". Mas optei pela escolha difícil. Saí do hotel depois de achar que tinha perdido o dinheiro e o passaporte; fui de metro mesmo tendo de andar o dobro para ir para o aeroporto. Algo tão pequeno como a falta de música nos meus ouvidos ou a falta da água no topo da torre fizeram-me repensar em tudo, em dizer que se calhar esta ideia de viajar sozinha não é assim tão boa e que a vida estava só a tornar isso tão claro como a água.

E eu digo-vos uma coisa: eu levo estes feelings e estas mensagens muito a sério, costumo ouvi-las. Mas há momentos em que temos de lhes fazer frente, porque temos algo a provar - e que queremos muito que se concretize. Portanto, segundos depois de quase lhe dizer "porra, ganhaste", dizia-lhe "bate mais, bate! Eu hoje chego ao aeroporto, nem que seja a arrastar-me". E cheguei. Viajei sozinha e sobrevivi. Vi todas as barreiras à minha frente e não só as ultrapassei como nunca escolhi o caminho mais fácil. E isto sozinha, como estou sempre. Como sempre estive e como acho que vou sempre estar.

É isto, vida. Estamos quites. Se fazia outra vez? Com todo o gosto. Não só para me bateres mais um bocadinho, mas também para te dizer que sou capaz. 

 

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