Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

[Entre Parêntesis]

Tudo o que não digo em voz alta e mais umas tantas coisas.

19
Set17

Há mesmo tempo para tudo?

Carolina

Lembro-me de há uns bons anos ler um post num blog de alguém que se queixava de falta de tempo. Eu ainda estudava - provavelmente ainda no secundário - e sei que pensei "pfff, ou isto é falta de organização ou falta de vontade; se fosse eu a querer mesmo fazer algo até roubava umas horas de sono se fosse preciso!". E a verdade é que, na grande maioria dos casos, isso continua a ser verdade: na minha opinião, muitos dos que se queixam de falta de tempo ou são mal organizados ou preguiçosos. Curiosamente, aqueles que aparentemente têm menos falta de tempo são os que mais fazem!

Acho que muitas vezes estas questões são até uma bola de neve: alguém que faz muito pouco, tende a fazer muito pouco. Alguém que faz muito, tem tendência a querer fazer ainda mais. E eu sei-o porque sou o perfeito exemplo disso: nas minhas terríveis fases letárgicas, o problema agrava-se com o tempo porque me vou sentindo gradualmente inútil, cansada e desmotivada; quando estou espevitada para a vida, preencho a agenda, deito-me feliz e contente, faço trinta por uma linha e ainda quero fazer mais no dia seguinte.

Mas há dias em que realmente falta tempo? Há. Principalmente para pessoas como eu, que têm uma terrível tendência para deixar alguns trabalhos para a última e, quando chega à deadline, têm todos os segundinhos preenchidos e estão prestes a ter um esgotamento nervoso. Mas essa falta de tempo é algo constante? De todo. Porque a questão "falta de tempo" baseia-se em dois conceitos básicos: organização e prioridades.

Dei por mim a pensar naquilo que há uns anos tinha dito a mim mesma sobre essa pessoa que se queixava que as 24 horas do dia não eram suficientes para si e concluí que talvez tenha sido um bocadinho dura (como sou muitas vezes, bem sei). Porque, de facto, eu acho que há tempo para tudo: mas antes disso é preciso fazer uma análise a toda a nossa vida, aos nossos gostos, às nossas prioridades, aos nossos hábitos e saúde - e há fases em que não conseguimos fazer essa leitura de nós próprios, porque já estamos demasiado enterrados em nós mesmos. Hoje sei que há coisas que, embora gostemos de fazer, acabam por cair por terra - porque há outras coisas de que gostamos mais (aka prioridades). Agora dificilmente diria que "se fosse eu, até roubava umas horas de sono se fosse preciso!", porque eu preciso mesmo muito de dormir. Gosto de dormir, de me deitar cedo e acordar com as galinhas, de forma a aproveitar o dia e não andar a rastejar pelos cantos durante o dia. A minha vida mudou - na altura em que pensei isto deitava-me facilmente às duas da manhã, acordava às 7:30h e dormia um par de horas durante a tarde -, assim como tudo o resto.

Estou numa fase de reajustamento. Durante um ano dediquei-me inteiramente ao trabalho e, apesar dos primeiros meses terem sido realmente preenchidos e sem tempo para dramas - para além de estarem recheados de novidades -, os restantes não foram assim tão bons. E eu senti que agora tinha de me dedicar a mim. Inscrevi-me nas aulas de piano, troquei de ginásio, montei a minha própria agenda, fiz um plano de posts aqui para o blog. E agora ando aos apalpões, a ver o que resulta ou não para mim, o tempo que sobra - e, acima de tudo, o que fazer com ele. Ou seja: organizando-me. E apercebo-me que, para além de ter deixado de fazer algumas coisas de que gostava - por gostar mais de outras -, há também atividades que são substituíveis.

Neste momento, por exemplo, estou empenhada em terminar a série Game of Thrones. Durante o dia não tenho muito tempo, por isso, regra geral, vejo um episódio antes de ir dormir. Isto rouba-me, para além de cerca de meia hora de sono, o meu período de leitura. E sim, há demasiado tempo que eu não leio um livro: e isso entristece-me, é uma coisa que eu quero retomar, mas percebo que só quando terminar a minha maratona de GoT é que vou voltar a ter este hábito. São duas atividades que ocupam o mesmo espaço na minha vida - o lazer e a hora pré-sono. E eu, para usufruir de uma, tenho de abdicar de outra. É claro que podia ver a série e depois ler um par de páginas - mas a concentração já não é a mesma e o tempo que roubo ao sono continua a contar. Lá está: as famosas prioridades.

Acho que ser adulto é isto, este paradoxo estranho: perceber que temos tempo para tudo mas que esse "tudo" é relativo. Porque, na realidade, não é tudo. Não é "o tudo" que cabia na nossa vida quando andávamos no básico e tínhamos meia hora de recreio, três meses de férias e três dias de gazeta no Carnaval. Quando crescemos, o "tudo" é aquilo que é essencial e um bocadinho mais para além disso. O "tudo" são as escolhas que fazemos mas que, na maioria dos casos, completa um leque suficientemente grande para ser capaz de nos satisfazer, de nos cansar e fazer felizes. Porque continuo a achar que todas aquelas pessoas que se queixam cronicamente de falta de tempo, se tivessem três meses de férias, continuariam a queixar-se do mesmo. Porque é crónico. Tal como o tempo, que é igual para todos - só resta saber vive-lo (e preenche-lo) da melhor forma.

17
Set17

Um regresso maravilhoso

Carolina

O ano ainda não acabou, mas eu quase me arrisco a dizer que a decisão de voltar ao piano foi das melhores que tomei em 2017. Parece ser daquelas raras situações em que uma pessoa tinha saudades mas só nota quando se reencontra com algo. Estas duas semanas foram de um reencontro bonito. O redescobrir de algo que gosto muito e que, acima de tudo, me relaxa e ajuda a focar só na música, deixando os problemas fora do piano (esta era uma vertente que, quando eu tinha dez anos, não conseguia apreciar, mas que agora valorizo imenso).

Dou por mim a sentar-me ao piano mal tenho quinze minutos livres - mesmo com sono, mesmo com dores de cabeça, mesmo com lágrimas a rolarem-me pela cara abaixo. Tem sido o sítio perfeito para canalizar as más energias e transforma-las em algo bonito: o que, nestas semanas, tem sido particularmente útil.

Como já tinha a formação base não comecei mesmo do principio e a professora deu-me uma peça mais avançada do que à partida eu achava conseguir ter pronta até ao fim do mês. Mas à medida que os problemas e as dúvidas foram aparecendo, eu fui perguntando, relembrando coisas que já tinha esquecido há dez anos atrás, e a evolução acabou por ser muito rápida. Em duas semanas consegui ter a peça pronta - e fiquei tão, tão feliz e orgulhosa! É de facto uma sensação especial começar do zero, com uma música e uma pauta que nos são estranhas, e elas depois acabarem por fazer parte de nós, entranharem-se de tal forma que os nossos dedos já as tocam praticamente sozinhos.

Talvez por estar a rever muitas coisas que não me lembrava, sinto que estou a andar muito rápido. É provável que isto abrande nos próximos tempos, até porque nem sempre terei tempo para treinar duas vezes por dia, tal como tenho feito - mas tem-me dado um gozo imenso sentir que melhoro a olhos vistos de cada vez que toco, ver-me a ultrapassar as dificuldades, os "nós" e os erros sistemáticos que às vezes criamos quando estamos a aprender a tocar algo. É motivador perceber que as diferenças são significativas quando o treino é regular e intenso - o que me faz sempre querer tocar mais. Às vezes penso "ok, esta é a última vez e depois vou embora"; mas essa tentativa não correu bem, errei ali e acolá, por isso repito, dizendo para mim mesma "mas é mesmo a última vez!". E depois torno a errar. E a repetir. E a errar. Até aquilo sair bem ou, no mínimo, até me sentir satisfeita com a evolução.

Acho que conspirou a meu favor: o timing que escolhi para voltar - estou numa fase em que preciso urgentemente de algo que me motive e me faça descarregar as más energias -, a escola que encontrei para me reencontrar com o piano, a professora que rege essa escola e os seus métodos de estudo, o facto da minha sobrinha não utilizar o piano dela e poder eu usufruir desse privilégio. Neste aspeto, estas duas semanas foram maravilhosas e mal posso esperar para me sentir mais à vontade para tocar as músicas que gosto, que ouço e que canto a altos berros no carro - e poder presentear os outros com elas.

Para já, e porque é mesmo um orgulho imenso para mim ter conseguido trabalhar uma peça que, ainda que não seja difícil, é desafiante, mostro aquilo que treinei nestes quinze dias. Ainda não está perfeito, há detalhes a polir. Mas já estou feliz com este resultado.

 

 

15
Set17

A questão: agenda ou bullet journal?

Carolina

Todos os santos anos passo por isto e acho que todos os santos anos também escrevo sobre o assunto: agendas. É surpreendente como é que ainda tenho matéria sobre isto, mas aparentemente as questões relativamente a isto não só se repetem como se complicam ao longo dos anos. Nunca sei que agenda escolher, nunca encontro aquela que quero, é sempre um drama.

Este ano fiz uma coisa rara: comprei uma por impulso. Ou seja, não fiz uma das coisas que faço melhor nesta vida – pensar. E como não pensei, fiz asneira. Comprei uma agenda diária (erro!), com argolas (erro!) na Rosa Com Canela, muito gira, cheia de ananases na capa, como quem diz “vais sentir como se fosse verão todo o ano!” (a única coisa boa no meio disto tudo, ainda que seja mentira). Nunca tinha tido uma agenda diária mas, depois de no ano passado ter comprado uma com vista semanal e me deparar com uma sufocante falta de espaço para escrever, este ano tive a brilhante ideia de comprar uma que tivesse uma página para cada dia da semana. Mas passada apenas uma semana de (muito pouca) utilização, percebi que não aguento este método de organização: não consigo ver a minha semana como um todo, tenho de andar com as páginas para trás e para a frente para ver o que tenho para fazer, não é nada prático. Por outro lado, as argolas – coisa que eu já sabia detestar mas, por qualquer razão, decidi ignorar – são gigantes, as folhas nem circulam com facilidade e a agenda é relativamente pesada. Resumindo e concluindo: um autêntico flop!

Para piorar as coisas, no dia em que comprei essa agenda, trouxe também para casa – com o intuito de utilizar no trabalho – um planeador mensal (ou pelo menos assim achei e a menina me disse, porque na realidade não cabe um mês inteiro naquelas divisórias, é mais concebido para um planeamento semanal). E a verdade é que fiquei rendida e as coisas estão muito confusas: uso aquilo para o trabalho (um jornal sem uma agenda não é um jornal) mas depois utilizo outras folhas para organizar a minha vida, porque fiquei muito fã de ter toda a minha semana ali escarrapachada.

Desvantagem: não posso andar com aquilo de um lado para o outro – são folhas A4, não dá jeito – e, mesmo que andasse, passado um dia dentro da minha carteira do demónio já só sobrariam vestígios da antiga folha.

Ou seja: nenhuma das soluções é brilhante. Podia comprar a agenda semanal, desistir da diária, transforma-la num bloco de notas (mais um…) e no final do ano comprar uma agenda de 2018, como as pessoas crescidas, uma vez que já não tenho necessidade de organizar a minha vida por anos lectivos (adeus anos terríficos da faculdade!).

Mas – e porque há sempre um “mas” – lembrei-me de, no ano passado, uma menina me ter falado aqui no blog sobre o Bullet Journal e estou a considerar seriamente essa hipótese. Fui pesquisar e, apesar de ser realista o suficiente para perceber que nunca vou ter um caderno tão bonitinho como aqueles que se vêm no tumblr, acho que até pode ser uma boa opção, feita à nossa medida ou sem limite de espaço.

Porque a verdade é que, no último ano, não dei muito uso à agenda – mas senti muito a sua falta. Quando, no ano passado, escrevi sobre este assunto, alguém me perguntou como é que eu mantinha a agenda “viva” – e eu, que sou uma imbecil, não respondi (e peço desde já desculpa a todos os comentários que não respondi desde então, sei que é uma falha minha). Acho que como muitas das coisas de hoje em dia, é aprender a criar essa necessidade, criar o hábito e a rotina. No meu caso é muito importante não só porque me surgem coisas muito dispersas para fazer ao longo da semana, assim como gosto de apontar ideias para textos aqui no blog mas, acima de tudo, para me definir metas e objectivos para o dia-a-dia. Se eu não fizer coisas, penso de mais. E se eu pensar demais, deprimo. Por isso preciso de fazer, fazer e fazer. Nos últimos tempos desleixei-me muito nesses aspeto e estou a colher os frutos: entrei num ciclo vicioso de preguiça e letargia do qual não estou a conseguir sair. E a agenda, nesse aspeto, ajuda muito: porque eu detesto falhar e não corresponder aos meus compromissos (mesmo que sejam comigo mesma), por isso, quando vejo que não fiz algo a que me propus, fico chateada e acabo por me obrigar a fazer.

E é isto. Há por aqui alguém que faça o bullet journal e que possa dar bitaites sobre o assunto? Ou é mesmo melhor jogar pelo seguro e ir para a típica agenda semanal ou outra solução clássica – excluindo o telemóvel? Eu sei que é mais tecnológico e amigo do ambiente, mas faz-me falta riscar as tarefas, pôr um “check” ou sentir o poder e o peso – acima de tudo simbólico - da agenda passados os tais 365 dias do ano.

 

(circulem na galeria para ver alguns exemplo de bullet journals)

 

06
Set17

Há dias

Carolina

Há dias em que gostava de ser igual a todos os outros, em que queria despir esta pele de diferença que sinto que vesti desde que me conheço. Há dias em que queria seguir a carneirada e não ter opinião própria, não ter personalidade, não ter de me impor perante os outros.

Há dias em que gostava de gostar de crianças, em que me apetecia já ter meia-dúzia de namorados na lista, que queria ter planos para casar e ter filhos – em vez de todos os dias perceber, cada vez mais, que não consigo estar com crianças durante muito tempo e que não há nenhum casamento ou relação que veja que me encha as medidas e eu diga “é isto que quero para mim”.

Há dias em que eu queria saber fingir que adoro shots de tequila, em que gostava de ter um grupo de amigos sólido, passar a gostar de dançar em frente a uma pequena multidão e de drum&base a altos berros – em vez de optar e não gostar de beber álcool, de ficar sozinha em noites que me apetece ir sair ou de não conseguir esquecer o trauma que tenho desde as aulas de dança que tive no básico.

Há dias em que preferia adorar falar ao telemóvel, ter paleio para os mais e menos simpáticos, de dizer que sou jornalista com toda a pujança e força de vontade – mas continuo a rever as minhas conversas internamente antes de clicar no botão verde e a torcer para que a pessoa do lado de lá da linha esteja a ter um bom dia e não decida descarregar as suas frustrações para cima de mim.

Há dias em que queria deixar de ter medo de fazer tudo e arriscar, de deixar de ser uma control freak, de escrever tudo na agenda, de relembrar tudo para escrever neste blog, de deixar de ser chata, mandona, nariz empinado, de deixar o espírito de liderança na gaveta, de me deixar ir e fazer o que os outros mandam sem sequer pestanejar.

Há dias em que eu gostava de deixar de ser anti-droga, anti-erva, anti-marijuana ou lá o que lhe queiram chamar, deixar de ser anti-praxe, deixar de ser defensora dos gays, dos bis e dos desiguais.

Há dias em que me sinto na Lua, numa realidade e com uma forma de vida completamente fora do normal, que ninguém entende. E há dias em que eu gostava muito de vir à terra, nem que fosse por uns momentos, porque na Lua está-se bem, a vida é boa, a vista é bonita e o silêncio apaziguador – mas há dias que, de tão sozinha, até o próprio silêncio se torna ensurdecedor.

05
Set17

Movida, ou travada, a medos

Carolina

Quando era pequena caía muito e, a partir de uma certa idade, passei a precaver-me e a olhar sempre para o chão. Tenho muito cuidado por onde ando e com os caminhos que faço, para tentar ao máximo evitar cair, porque tenho medo de me magoar (como tantas vezes fiz em miúda). E isto aplica-se na vida real mas também metafóricamente. Eu tenho medo, muito medo de tudo e coíbo-me de fazer (precisamente) quase tudo por causa disso. Sou a miúda menos arriscada história: e quando o faço, é de coração nas mãos, sempre com todas (e mais algumas) consequências em mente. E não, nunca são positivas.

Tenho medo de fazer, tenho medo de arriscar, tenho medo de me arrepender, tenho medo de me candidatar, tenho medo de ligar, tenho medo de falar, tenho medo de mandar mensagem, tenho medo de gastar dinheiro indevidamente, tenho medo de me queimar, tenho medo não me integrar, tenho medo de fazer figura de parva, tenho medo de não saber sair das situações, tenho medo de não gostar, tenho medo que não gostem de mim, tenho medo de falhar, tenho medo de desiludir, tenho medo de não ser bem sucedida, tenho medo de não ser lembrada, tenho medo de médicos, tenho medo de ratos, tenho medo que os meus morram, tenho medo de morrer. E só eu sei como cada vez tenho mais medo de não estar a viver.

Só há muito pouco tempo é que me apercebi disto, deste medo generalizado. Sim, há muitos anos que olho para o chão quando ando na rua e sim, desde sempre que me lembro de ser muito ponderada e precavida em todas as decisões que tomo na minha vida. Mas só quando olhei de cima e para o discurso que tinha no meu dia a dia, quando falava de assuntos corriqueiros e as minhas frases começavam sempre por "sim, mas eu tenho medo de..." é que percebi a dimensão do medo na minha vida. 

Eu tenho uma vontade gigante de fazer pelo menos uma coisa boa - e grande - na minha vida. Gostava que as minhas futuras empresas fossem um sucesso ou gostava de escrever um livro bom e que vendesse aqui em Portugal. Sempre achei que a minha vida profissional seria melhor que todas as outras dimensões da minha vida, e pensei que era isso que me movia. Mas apercebo-me que talvez não. Em vez de me mover, talvez eu esteja constantemente a ser travada por algo ainda mais central na minha vida: estes medos encastelados que parecem não ter fim. 

02
Set17

De volta aos teclados (e não é do computador)

Carolina

Devia ter uns oito anos quando comecei a aprender piano. A minha mãe tinha-se inscrito na escola de música, levou-me por arrasto e eu, por acaso, até tinha jeito para a coisa. Mas, passado relativamente pouco tempo, quis desistir. Não tenho a meu favor a perseverança: não me lembro de nenhuma atividade onde quisesse ficar durante mais do que meia dúzia de meses (também não andei em muitas, só me lembro da ginástica - onde não durei nada, uma vez que era, e sou, uma absoluta desgraça - e da natação, atividade que repeti ao longo dos anos e de que ainda hoje gosto muito). Mas, por outro lado, tenho uma série de desculpas muito convincentes: a melhor de todas é que o meu professor adormecia nas minhas aulas.

Isto tem graça quando eu conto e até pode ser visto como um elogio ("ui, tocavas tão bem que até o adormecias!") mas era uma situação muito embaraçosa para mim, que acabava a partitura e não sabia o que fazer a seguir. Ir para aquelas aulas significava estar numa posição desconfortável, porque já sabia o que ia acontecer e ficava a pensar "continuo a tocar? páro? acordo-o? saio da sala?". Enfim, era chato. E eu fiquei muito desmotivada com tudo aquilo e quis desistir. Nunca deixei de gostar de tocar, mas não me apetecia continuar com aquilo - e quando temos oito anos não temos maturidade suficiente para perceber que é aquele professor que nos desmotiva, que gostamos mesmo daquela atividade e que queremos dar a volta. Se em adultos já é difícil contornar situações em que estamos assim, em crianças é quase impossível. Por isso, mesmo contra a vontade dos meus pais (o meu pai sempre me disse que quando eu fosse crescida e estivesse na faculdade todos os meus colegas iam adorar ouvir-me ah ah ah), deixei de tocar piano. Tinha algum jeito e aptidão para aquilo, para além do meu amor já existente pela música, que não só se manteve como aumentou com o passar dos anos. Já tocava peças com algum grau de dificuldade e safa-me realmente bem. Mas a partir do momento em que se estagna, que não há ninguém a puxar por nós (mesmo que a dormir...) ou a exigir algo mais, é difícil evoluir. E eu parei de tocar por completo.

Ao longo destes anos voltei a sentar-me algumas vezes em frente do piano, mas nunca durava muito. Deixei de saber ler fluentemente as partituras e o meu piano, mesmo antigo, está todo desafinado e com muitas falhas ao longo do teclado. E sempre teve uma grande desvantagem, que sempre me coibiu de tocar muito: está na sala, no centro da casa, e toda a gente o ouve. Isto é bom quando queremos "dar espetáculo", mas péssimo quando queremos treinar. Como tenho sempre a casa cheia de gente, nunca conseguia tocar sozinha - e é muito chato estarmos a praticar, enganarmo-nos, chatearmo-nos (só quem nunca tocou piano é que não sabe como são aqueles ataquinhos de raiva em que batemos contra todas as teclas de uma só vez) e estar o mundo todo a ouvir. Já o era quando tocava e continuava a ser naquelas poucas vezes em que decidia tentar tocar de novo, tentando interpretar algumas das minhas músicas favoritas do momento. Tinha sempre gente a espreitar, a dizer "uau, afinal ainda dás uns toques!" ou a bater palminhas no final de uma interpretação intragável. E, por isso, desistia sempre.

Mas nos últimos tempos a música tem atingido uma dimensão tal na minha vida e anda-me tanto a apetecer fazer algo diferente (para além de trabalhar) que decidi ir procurar uma escola de música para voltar a aprender. Neste momento já conheço melhor o meu emprego, os meus horários, as pessoas com quem trabalho e a fase da adaptação e de agitação já passou - e eu sinto mesmo que precisava de fazer algo diferente, de conhecer outras pessoas, de ter a cabeça noutro lado, de me motivar de alguma forma. E lembrei-me do piano. 

Fui hoje fazer uma aula experimental, gostei imenso do espaço, da professora e dos métodos e estou muito ansiosa para voltar a tocar. Já há algum tempo que não me apetecia tanto fazer alguma coisa! São incríveis as mudanças que acontecem em dez anos: ainda vi coisas em papel, mas agora aprende-se com tablets, que ajudam a ler as partituras e que dão a música de fundo, podendo ajustar-se o ritmo, treinar só uma mão e tudo mais. Para além disso, como ouro sobre azul, a minha sobrinha tem um piano eletrónico - que não usa -, daqueles que dá para pôr phones e só nós ouvirmos as asneiras que damos ou aquilo que estamos a tocar. Ou seja,o meu problema de ter a casa toda a ouvir os meus treinos tem finalmente um fim à vista! E no futuro, se vir que estou mesmo empenhada, pondero comprar um.

Até lá, é ir experimentando. Sinto que a partir do momento em que a escrita passou de hobbie a trabalho, "perdi" o maior entretenimento da minha vida - e desde que o trabalho começou a entrar nos eixos e que eu tenho tempo livre que me sinto muito perdida e cada vez mais desmotivada com tudo à minha volta. Estava mesmo a precisar de algo que me desse vontade de sair de casa e fazer algo diferente. Estou muito esperançosa e muito feliz por ter decidido arriscar! Espero que valha o esforço!

 

09080006.JPG

 

 

30
Ago17

Siracusa e os vestígios do Império Grego [Sicília]

Carolina

Tive uma pena enorme de só ter ficado um dia na Sicília. Acho que trocava facilmente os dois dias que tive em Malta ou em Dubrovnik por esta ilha italiana onde quero, definitivamente, voltar. Há uma coisa muito importante nos cruzeiros e que é preciso ter em conta: é preciso tomar decisões, prescindir de ver algumas coisas para poder visitar outras. Não há tempo para tudo. Em sítios pequenos e com pontos de interesse próximos, é mais fácil de resolver: mas eu sinto que podia correr a Sicília de uma ponta à outra sem me cansar e, por isso, tivemos mesmo de decidir onde queríamos ir, o sítio que achávamos que valia mais a pena. (O mesmo aconteceu em Nápoles - conto noutro texto).

Aqui tínhamos uma ajuda: os meus pais conhecem bem a Sicília e sabiam bem aquilo que me queriam mostrar primeiro. Nós aportamos em Catânia, mas decidimos ir numa tour até Siracusa. Ao todo, tínhamos umas oito horas na ilha e elas tinham de ser bem usadas - e se era para ir para longe, mais valia ir numa tour, porque assim tínhamos garantias de que o barco não partia sem nós. Não havia hipóteses de ir, por exemplo, até Palermo, a capital - só para terem uma noção, apesar de ser uma ilha e fazer parte de Itália, a Sicília é cerca de 80 vezes maior que Malta! Se era para sair de Catânia (que, relativamente a outras cidades, é mais pobre em monumentos) havia duas hipóteses: ou ir para norte, para Taormina, ou ir para sul, para Siracusa. Nós escolhemos a segunda opção, a terra de Arquimedes - um sítio que os meus pais tinham adorado, maioritariamente pelas ruínas gregas, que ficava a cerca de uma hora de carro do sítio onde estava o barco.

O meu pai sempre me disse que se eu queria ver resquícios da civilização grega não era à Grécia que tinha de ir, mas à Sicília. E, embora não saiba o estado de conservação das coisas na Grécia, há de facto muito resquícios deste império para ver nesta ilha - os mais populares estão em Siracusa e em Taorimina. Como já tem vindo a ser recorrente nestes meus textos (e na história), muitas das ruínas foram devastadas por terramotos - em particular no século XVII, segundo o nosso guia. Ainda assim, estão em óptimo estado de conservação por isso, para quem gosta de história, aconselho vivamente a visita!

A chegada a Catânia correu logo bem. Quando fui tomar o pequeno almoço olhei pela janela e algo que me pareceu familiar. Olhei melhor e percebi que o que via, uma escultura na parede, só podia ter uma assinatura: Vhils. Uma das paredes do porto, gigante, tinha o olhar de um velho, num tipo de arte que não tem outro autor senão o nosso português. Fiquei logo super contente por ter algo nosso num sítio que eu já sentia que ia gostar muito.

 

IMG_7160.JPG

A obra é feita em oito silos de cereais e é a maior que Vhils já fez.

 

Tudo nesta viagem correu bem. O nosso grupo era pequeno, o que facilitou imenso a dinâmica e os passeios - devíamos ser uns 16 - e o guia era absolutamente espetacular. Culto, cheio de graça e tipicamente italiano - tudo o que um guia pode ter de bom! Durante a viagem viemos sempre à conversa com um rapaz porto-riquenho, com cerca de trinta anos, que viveu uns meses em Portugal e que era apaixonado pelo nosso país, história e cultura - e sabia mais sobre o nosso passado do que a grande maioria das pessoas da sua idade. Fiquei impressionada!

A nossa primeira paragem em Siracusa foi no Parque Arqueológico de Neapólis, onde se pode ver o teatro grego e o anfiteatro romano, assim como a Orelha de Dionísio e outras grutas muito interessantes. As fotos abaixo dizem respeito ao teatro grego - aqui só se encenavam peças e não havia microfones para ninguém: tudo estava estudado para a acústica ser perfeita. Não se percebe muito bem, mas estavam a decorrer trabalhos no centro do teatro, porque todos os anos se faz lá uma peça, aproveitando as estruturas originais. A forma, as portas, as bancadas e os subterrâneos do teatro são perfeitamente percetíveis - aguentaram não só a passagem do tempo mas também as explorações e a retirada de materiais (enormes pedras) no século XVI, que serviram para fortificar a cidade.

 

CruzeiroAdriatiMedit (656).jpg

No teatro grego, do século V a.C.

CruzeiroAdriatiMedit (657).jpg

No teatro grego

 

Nas fotos abaixo pode ver-se o anfiteatro romano onde, aqui sim, ocorriam lutas entre homens e animais. Este está em muito pior estado de conservação - as ervas tomaram conta do sítio - mas mesmo assim, de um dos lados, as bancadas são percetíveis e os subterrâneos (de onde os animais saíam e onde eram mantidos durante dias sem comida, para terem fome quando fossem lutar) também.

 

CruzeiroAdriatiMedit (681).jpg

No anfiteatro romano, que data de II d.C  e é o maior na Sicília

CruzeiroAdriatiMedit (680).jpg

Anfiteatro romano

 

Outra das coisas incríveis neste parque é a Orelha de Dionísio - uma gruta artificial, com 23 metros de altura, feita provavelmente à custa de muito trabalho escravo e que serviria originalmente para armazenar água. Foi-lhe dado este nome pela sua forma e porque tem uma acústica incrível - falando normalmente dentro da gruta, parece que estamos a cantar uma ópera, devido ao eco que se reproduz de forma altíssima. Diz-se que Dionísio punha lá os seus prisioneiros, saía da gruta e ficava cá fora a ouvir aquilo que eles diziam/gritavam - algo que, por razões físicas que não sei explicar, já não acontece hoje, mas o efeito sonoro dentro da gruta e o seu enorme impacto visual já valem a visita.

 

CruzeiroAdriatiMedit (669).JPG

Orelha de Dionísio

IMG_7165.JPG

No interior da Orelha de Dionísio

CruzeiroAdriatiMedit (675).jpg

Nos caminhos do parque arqueológico

 

Depois partimos para Ortigia, no centro de Siracusa - mais precisamente à Praça Duomo, onde tivemos algum tempo livre, que voou sem darmos conta. Deu para comermos um gelado (o calor era, uma vez mais, abrasador), entramos numa igreja mais pequena, a Chiesa di Santa Lucia alla badia, que tem uma das pinturas mais famosas de Caravaggio, o Il seppellimento di Santa Lucia, e demos uma voltinha pelas vielas, cheia de lojas giras, com detalhes e souvenirs que arrebataram o meu coração. Por falta de tempo não entramos na Catedral, muito bonita por fora, também dedicada a Santa Luzia. 

 

CruzeiroAdriatiMedit (704).jpg

Praça Duomo

CruzeiroAdriatiMedit (702).jpg

Chiesa di Santa Lucia alla badia

CruzeiroAdriatiMedit (698).jpg

Fachada da Catedral

CruzeiroAdriatiMedit (710).jpg

Detalhes

CruzeiroAdriatiMedit (712).jpg

Nas ruelas de Ortigia

CruzeiroAdriatiMedit (715).jpg

O nosso guia

CruzeiroAdriatiMedit (709).jpg

Catedral

CruzeiroAdriatiMedit (716).jpg

Também havia coches por lá

CruzeiroAdriatiMedit (693).jpg

Mais vielas

 

Esta foi a única visita que fizemos que incluía almoço - aprendemos o ano passado que, se pudéssemos evitar fazer refeições nas excursões, o faríamos. Ainda hoje não sei, por exemplo, aquilo que comi na Finlândia - mas sei que não voltava a repetir, uma vez que nem a comida nem o sítio eram grande coisa. Fui um bocadinho receosa para este almoço mas, como tudo nesta visita, foi tudo bom: ficamos numa mesa só os três, com vista para o mar, num restaurante muito simpático chamado La Terrazza Sul Mare, que fica no topo do Grand Hotel Ortigia, bem no centro de Siracusa. Comemos uma massa com tomate e camarão e um filete de robalo, ambos bem feitos e apaladados, o que deu para desenjoar das comidas do barco. 

 

CruzeiroAdriatiMedit (719).jpg

As águas cristalinas da Sicília

CruzeiroAdriatiMedit (724).jpg

O Vulcão Etna, sempre a fumegar

 

A Sicília é, sem dúvida nenhuma, um dos sítios onde quero muito voltar, alugar um carro e correr de uma ponta à outra. Pareceu-me ter tudo aquilo que gosto: águas lindas, história e um aspeto pitoresco, com aquelas típicas ruelas italianas que tanto vemos nos filmes. Correspondeu a todas as minhas expectativas, a tudo aquilo que tinha ouvido: até o facto dos sicilianos serem uns loucos a conduzir (o nosso guia atirava-se para o meio da estrada para os obrigar a parar e nós podermos atravessar em segurança, era de rir!). Descobri ainda que a Sicília tem um dialeto próprio que contém muitas palavras iguais ao português - mais uma razão para lá irmos. Acho que ninguém se vai arrepender!

29
Ago17

Meu querido mês de Agosto

Carolina

Este Agosto foi estranho e muito atípico para mim que, pela primeira vez na vida, tive de fazer alguma coisa durante um mês onde sempre tive férias. Foi estranho, confuso, mas bom, até porque percebi as maravilhas de trabalhar enquanto tudo está de férias.

Trabalhar em Agosto é não apanhar trânsito na comum hora de ponta, mesmo nas piores estradas; é ter lugar à porta do prédio onde trabalhas e ainda escolher qual a melhor sombra; é não receber vinte emails por hora, mas receber de volta muitas mensagens com o assunto “Férias / Vacations / Vacances”; é teres silêncio no escritório porque está tudo de férias; é ter metade das coisas para fazer e deixar a vida correr.

Mas trabalhar em Agosto, principalmente quando tens 22 anos e os teus amigos ainda estudam, é ver o pessoal todo de papo para o ar enquanto tu tens de ir para o escritório; é ter muito sono quando vamos tomar café a um dia da semana e começar a olhar para o relógio quando batem as 23h; é ver as agendas deles vazias, prontas para umas férias improvisadas, e tu teres de fazer contas à vida; é acordar para ir trabalhar, ver os instastories, e perceber que a maioria das pessoas que segues está, àquela mesma hora, a sair do Lick ou do Bliss, algures em Vilamoura. Mas tudo isto só seria mau se eu fizesse muitas destas coisas nos meus tempos de estudante – e não fazia.

Tudo o que queria fazer este mês, fiz – com mais ou menos stress, adiantando mais ou menos trabalho, a correr ou devagarinho, com mais ou menos tempo do que queria… fiz tudo. Provei o sabor a férias enquanto trabalhava, num mês de Agosto sossegado – e descobri que a cidade é maravilhosa de se viver nestes meses onde todos se retiram para outros pontos do país e do mundo.

Ontem, quando cheguei ao trabalho, já não tinha os lugares de estacionamento todos só para mim e soube que, apesar de Agosto ainda não ter chegado ao fim no calendário, já se finou. Acabou a calma, começa a vida, a agitação, a correria do costume. E a mim está a custar-me a acordar desta calmia, desta desorganização organizada, deste arrastar bom, deste misto de trabalho com cheiro a férias – ainda que mais dos outros do que minhas.

Meu querido mês de Agosto… não sabia o quanto eras bom. Até para o ano.

 

IMG_7561.JPG

(Gerês, Agosto 2017)

23
Ago17

Este trabalho não é para mim

Carolina

Durante este ano de trabalho nunca acordei e pensei "este é o trabalho perfeito para mim". Apesar disso, considero que foi um ano do caraças, onde aprendi até à ponta dos cabelos - e, confiem, eles estão enormes! - e em que foram muitos raros os dias em que não me apetecia ir trabalhar, conviver com os meus colegas e fazer as tarefas que, com o tempo e o hábito, me foram sendo destinadas. No meio dos dias atarefados, de todas as novidades - o salário, o IRS, os recibos, o médico do trabalho, as viagens, o chefe, os colegas, o patrão, as quezílias, as histórias, as férias, as folgas e as faltas -, sempre tive dias de recaídas, em que me perguntava "porquê que aceitei isto?" ou ia mais a fundo e questionava o raio do curso que tirei. Comunicação. Eu, de facto, precisava de um curso intensivo de comunicação com os outros: mas não era para o exercer exaustivamente para o resto da vida!

Este trabalho não é para mim. Eu não nasci para ser jornalista, porque isso implica ir muitas vezes contra aquilo que eu sou. E isso faz-me sofrer. Sofro porque não quero falar com as pessoas, ligar às pessoas, chatear as pessoas. Mas depois também sofro porque tenho prazos de entrega, porque tenho de mostrar trabalho, porque as coisas têm de sair feitas - e bem feitas - independentemente dos dramas pessoais de cada um. E eu não sou de falar, mas também não sou de falhar. E dentro de mim vive-se constantemente este confronto de titãs, entre o não-quero-fazer e o tens-de-fazer

E sim, na vida vamos ter eventualmente de ultrapassar estas questões - quer em termos profissionais como pessoais. Mas eu estou a faze-lo todos os dias, e isso desgasta-me. Todos os dias estas metades de mim lutam, de espadachim em punho, até o tens-de-fazer ganhar, já com a ponta afiada apontada à garganta do não-quero-fazer. Ele, já sem ar, com as lágrimas nos olhos, o nó na garganta e o desespero no âmago lá faz o que tem a fazer, a muito custo. E quem vê de fora diz que os resultados são bons, que as conversas fluem, que eu sou simpática e natural - nem desconfiando que parte de mim está com uma lâmina encostada à jugular.

Quando alguém me diz "tem de falar com", o meu coração pára por um milissegundo. Lá vamos nós: mais uma moedinha, mais uma voltinha. Principalmente nas férias o "ter de falar com" é ainda pior: eu sei que estou a ligar para pessoas que estão de férias sobre matérias relacionadas com o seu trabalho - e isso chateia-me, porque eu não quero falar de trabalho quando tenho os meus dias de descanso. Eu tenho esta mente "antiquada": não gosto de ligar para ninguém depois das 22h a menos que seja uma emergência, evito ligar à hora das refeições porque para mim são horas sagradas, assim como tento não ligar fora das horas de expediente. Sei que hoje em dia isso significa muito pouco, mas eu tenho esses valores enraizados em mim e de cada vez que clico no botão verde para ligar a alguém, sabendo que essa pessoa está no seu tempo de folga, para mim é matar-me um bocadinho. É ir contra aquilo que acredito. É fazer aos outros aquilo que não gosto que me façam a mim - e eu sempre levei este ditado muito a sério.

Este trabalho não é para mim. Eu não tenho língua de perguntador, eu tenho pânico de falar com os outros ao telemóvel, eu detesto a sensação de estar a chatear alguém, eu evito contactos físicos a todo o custo. Lutei durante muitos meses com o termo "jornalista"; no meu cartão não tem qualquer identificação do meu trabalho, quando me apresentava era simplesmente como colaboradora do jornal. Mas o bloco na mão, os meus textos e as perguntas tiram a dúvida à maioria. Começaram a apresentar-me como jornalista, a identificar-me como jornalista e eu, há um par de meses, tive de me render. "Olá, o meu nome é Carolina Guimarães e sou jornalista", digo, enquanto me dói a alma. Faço-o porque facilita a vida aos outros, não porque sinta que seja verdade. Eu, na realidade, sou tudo menos jornalista. Sou apenas uma miúda que gosta de escrever e que tem pânico de não cumprir com a sua palavra e com aquilo que é para ela mais sagrado: o trabalho. Ainda que este não seja para ela. Porque o tempo é um pau de dois bicos: habitua-nos a fazer coisas que inicialmente tínhamos mais dificuldades (e eu já melhorei muito!), mas também nos dá mais certezas sobre aquilo para o qual fomos ou não feitos para fazer ou ser. E eu sei que este trabalho não é para mim - embora o continue a fazer, eu própria de espada na mão, lutando contra as minhas duas metades. 

16
Ago17

Malta, o país das varandas bonitas [La Valleta e Mdina]

Carolina

CruzeiroAdriatiMedit (562).jpg

 

A paragem em Malta ficou marcada por uma série de peripécias. Foi um país de que gostei bastante - honestamente não esperava - mas, infelizmente, para além da beleza do local, há toda uma série de coisas que me vêem à cabeça quando penso neste destino, onde passamos dois dias.

Começou com o facto de perdermos a excursão onde íamos, que passaria por Valleta e Mdina, a atual e antiga capital do país, respetivamente. Fizemos a visita toda por Valleta, com um guia óptimo e com piada, que tornava aqueles caminhos ao sol e os locais abafados em algo muito tolerável. Quando já íamos para o autocarro para nos dirigirmos para Mdina vejo a minha mãe a vasculhar a carteira - de segundo para segundo com um ar de pânico crescente - e a perceber que não tinha o porta-moedas com ela. Moral da história: o resto da visita guiada foi para as urtigas. O mais importante? Sim, a minha mãe encontrou a dita, mas depois daquilo ficamos os três completamente desgovernados. Não tínhamos um mapa, não sabíamos o que fazer ou para onde ir, e estávamos todos nervosos e irritados - ora por a minha mãe quase ter perdido a carteira, ora por termos perdido a visita por causa de uma distração.  Precisamos de mais de uma hora para alinhar os chakras e definir um plano de ataque próprio - que passou por conhecer melhor ambas as capitais. É lógico que em La Valleta, onde tínhamos estado com o guia, já tínhamos todo um enquadramento sobre a história da cidade que valorizou muito mais o passeio: e em Mdina fomos sem rede, simplesmente admirando a beleza e a pureza da antiga capital. 

A verdade é que para perceber o que vemos em Malta precisamos de saber um bocadinho de história (prometo não vos maçar). Aquilo que vemos mal aportamos é, para além de uma cidade toda em tons de areia, um grande muro. Uma muralha alta e gigante que, aparentemente, circunda a ilha (na verdade é só uma pequena parte). E ela existe porque durante 250 anos a ilha foi habitada por cavaleiros, que contra todas as expectativas conseguiram travar a entrada de inimigos - incluindo os otomanos, que na altura da invasão a malta tinham quatro vezes mais homens que os malteses. Um tanto ao quanto obcecados com a questão da segurança, os cavaleiros construíram não uma, não duas... mas dezoito muralhas, o que tornava o acesso à cidade totalmente impossível. E é parte dessas construções (que não foram destruídas na Segunda Guerra Mundial - Malta foi o país mais bombardeado a partir do momento em que Itália anunciou guerra à Inglaterra - que deteve malta até 1964) que ainda hoje vemos e que fazem de Valetta parecer algo grandioso quando, na realidade, não o é. 

 CruzeiroAdriatiMedit (507).jpg

Vista do barco, à chegada

CruzeiroAdriatiMedit (511).jpg

Do outro lado de La Valleta

 

Há uma coisa que é impossível não notar em todo o país, que é coerente em cada recanto: a cor das paredes de todos os edifícios é em tons de areia, feitos de uma mármore não polida que, com a erosão do tempo, dá a ideia de todo o país ser mais antigo do que aquilo que parece. A mim, faz-me lembrar aqueles filmes romanos ou estilo Príncipe da Pérsia - não por estarmos no meio do deserto, mas precisamente por a cor principal ser este castanho muito pálido. Só uma coisa contrasta: as varandas. Aí os malteses capricham e escolhem as cores que querem: e há desde o verde tropa, passando pelo amarelo e pelo vermelho. Nunca vi um país com tantas varandas estilo marquise - assim uns paralelepípedos a sair para fora do edifício. Mas, por favor, quando eu digo "marquise" não pensem naquelas coisas horrorosas e metálicas que temos em Portugal: estas são bonitas e primam sempre pelos detalhes. Em Malta vale a pena olhar para cima e apreciar as paredes.

 

CruzeiroAdriatiMedit (570).jpg

Varandas, varandas e mais varandas em La Valleta

CruzeiroAdriatiMedit (591).jpg

Varandas, varandas e mais varandas em Mdina

 

Mas falando de sítios em concreto: em Valleta visitamos o Palácio, que é ainda hoje a residência oficial do Presidente da República e a St. John's Co-Cathedral, que é uma das catedrais mais bonitas que vi na vida. Mais do que a grandiosidade, aquilo que impressiona acima de tudo é quantidade de detalhes e de altares lá presentes (ao estilo barroco). Esta era a igreja de todos os Cavaleiros da Ordem de Malta e há muitas referências às várias nacionalidades que compunham esse grupo. Para além disso estão também presentes várias pinturas de Caravaggio - um pintor mas também cavaleiro que morreu cedo, por ser um assassino, mas que pintava com um realismo quase assustador. A visita a esta igreja é, para mim, obrigatória. 

 

CruzeiroAdriatiMedit (541).jpg

No Palácio

CruzeiroAdriatiMedit (532).jpg

O altar principal em St. John's Co-Cathedral

CruzeiroAdriatiMedit (528).jpg

St. John's Co-Cathedral (a falta de luz não ajudou à foto...)

CruzeiroAdriatiMedit (537).jpg

Teto em St. John's Co-Cathedral

 

Olhando de longe, La Valleta parece muito maior do que Dubrovnik, mas a nível prático o tempo que se despende numa, passa-se noutra. Aqui as ruas são incomparavelmente mais largas e com muito comércio e marcas clássicas, tipo Pandora ou Pull&Bear - ao estilo Rua de Santa Catarina ou Rua Augusta. Mas fugindo do centro, aquilo que há é casas: e quando nos fartamos de ver cor de areia e varandas bonitas... é sempre mais do mesmo. O que até bom, porque significa que moram de facto pessoas lá dentro, ao contrário daquilo que vi na Croácia. Porque apesar de se verem muitos turistas - principalmente quando chega um navio - as pessoas acabam por se diluir melhor nas ruas mais largas da capital ou estar enfiadas em autocarros de tours.

 

CruzeiroAdriatiMedit (565).jpg

Nas arcadas em frente ao Palácio

CruzeiroAdriatiMedit (568).jpg

No centro de La Valleta

CruzeiroAdriatiMedit (582).jpg

La Valleta

CruzeiroAdriatiMedit (518).jpg

Teatro em La Valleta, que foi completamente destruído na guerra. Optaram por o manter assim, para memória futura, e transformaram-no num teatro ao ar livre

CruzeiroAdriatiMedit (577).jpg

La Valleta

CruzeiroAdriatiMedit (579).jpg

A entrada em La Valleta, com o parlamento à direita

CruzeiroAdriatiMedit (581).jpg

La Valleta

 CruzeiroAdriatiMedit (578).jpg

La Valleta

CruzeiroAdriatiMedit (586).jpg

La Valleta fica muito elevada em relação ao porto e o resto do país, por isso construíram um elevador que em alguns segundos sobe e desce, evitando muitos quilómetros a pé ou escadas. O preço para subir é de dois euros, para descer não existe controlo. Compensa e as pernas agradecem, principalmente quando não há muito tempo

 

O mesmo se sente na Mdina, para onde fomos de autocarro (público) - foi a solução mais imediata que encontramos para dar a volta à excursão perdida e até foi giro para ver uma Malta que não se vê tanto nas tours: as pessoas, os trabalhadores, as ruas com comércio local e pouco turístico, casas, descampados. Esta é uma vila medieval, com menos de uma dezena de restaurantes e lojas de souvenirs. Não sei se fui eu que tive sorte ou se é mesmo assim, mas a pouca confusão que apanhei deveu-se a uma visita de estudo que por lá havia - de resto, as poucas ruas da vila estavam praticamente desertas e podia-se desfrutar do silêncio, tirar fotos e apreciar o local sem dramas. De Valleta até lá, de autocarro, é cerca de meia hora - também é possível ir através dos Hop On, Hop Off, que demoram um pouco menos que isso.

 

CruzeiroAdriatiMedit (590).jpg

À entrada de Mdina, com os típicos coches

CruzeiroAdriatiMedit (593).jpg

No centro de Mdina

CruzeiroAdriatiMedit (595).jpg

Mdina

CruzeiroAdriatiMedit (599).jpg

Noivos em Mdina

CruzeiroAdriatiMedit (606).jpg

Mdina

CruzeiroAdriatiMedit (621).jpg

Detalhe nas paredes de Mdina. Este é um símbolo religioso que se vê à porta de muitas casas - gostamos tanto que compramos um como souvenir

CruzeiroAdriatiMedit (625).jpg

Nas ruas estreitas da Mdina

CruzeiroAdriatiMedit (615).jpg

Nas ruas estreitas da Mdina

 

E eu sei-o porque no dia seguinte foi num destes autocarros que andamos. A minha ideia inicial era ir numa excursão à Blue Grotto, a gruta azul, mas infelizmente quis comprar muito em cima da hora e já não arranjei bilhetes. Portanto o meu plano era ir até lá pelos meus próprios meios, pelo que compramos bilhetes para esses autocarros. A ilha tem apenas 300 metros quadrados (mais pequena que a Madeira), por isso este tipo de tours cobrem praticamente o território todo. Há apenas três linhas e, como estava em Malta e as coisas estavam para correr mal... entrei na linha errada, o que acabou por ditar a não-ida à gruta. 

O erro acabou por correr bem pois passamos por um museu de aviões - o meu pai adora tudo o que envolve guerras e aviação, por isso decidimos que desta vez esta paragem seria para seu bel-prazer e fomos ver o museu que, apesar de pequeno, está bem conservado. Para quem é interessado nesta matéria, Malta tem muita escolha: como foi altamente bombardeada e se aguentou histoicamente - os ingleses davam a ilha como perdida mas o povo lutou e aguentou, ao ponto de serem o único que, de forma coletiva, foram agraciados com uma medalha de honra pelo Reino Unido - há muitas memórias, objetos, fotos e destroços partilháveis, que fazem parte da história do país e deste povo. A entrada neste museu em particular custou 7 euros por pessoa. 

 

CruzeiroAdriatiMedit (646).jpg

No museu de aviação

 

Voltamos a apanhar o autocarro, com a intenção de voltar ao porto e apanhar a linha certa, mas a viagem foi tão caótica e cansativa que decidimos voltar ao barco e descansar (até porque as visitas à gruta acabavam às 16:30, assim como as voltas no autocarro, pelo que ficava apertado). O trânsito em Malta é um tanto ao quanto caótico, o estacionamento é uma balda e a ligação entre cidades não me pareceu ser irrigada com vias de grande qualidade - ah, e anda-se pela esquerda! Há muitos coches, o que para além de fazer as ruas cheirarem mal, conseguem atrapalhar bastante o trânsito nos sítios mais concorridos - até porque são precisamente estes que têm mais turistas. Só para vos dar uma imagem mental, o motorista do hop on, hop off falava ao telemóvel com o ombro a segurar o telemóvel, uma sprite na mão direita e um dedo esquerdo segurava ao volante - isto com mais de quarenta pessoas a seu cargo, várias (como era o meu caso) sem lugar sentado. E a porta do autocarro ia aberta, caso nos quiséssemos atirar de desespero (foi quase...).
Não achei os malteses particularmente simpáticos. São uma mistura de italianos com turcos, têm na sua maioria uma tês escura e tudo o que era motorista, taxista, coxeiro e etc. tinha um ar muito rude. A língua deles é perfeitamente impercetível - 80% árabe com 20% italiano - o que também não ajuda à convivência (embora a maioria fale inglês).

De todos os países por onde passei, Malta é sem dúvida o mais barato a todos os níveis - as tours, os souvenirs, os bilhetes para museus e a comida eram muito baratos. Um dos ex-libris do país é o vidro - têm peças lindíssimas,  algumas ao estilo Bordalo Pinheiro, que fazem boas recordações. Foi daqui que, sem dúvida, trouxe mais "tralhas" para casa!

Já o disse, mas uma das coisas boas deste cruzeiro foi ter visitado países que se calhar nunca visitaria num passeio isolado. Vale a pena visitar Malta, principalmente se gostam de castelos, muralhas e histórias reais que envolvem tudo isso - assim como quem gosta do assunto "Segunda Guerra Mundial". Apesar da rede de autocarros não me ter parecido má, acho que pode ser uma boa ideia alugar um carro e fazer a ilha de lés a lés, sem a rigidez de horários que os autocarros e outros transportes implicam. Acho que dois dias bem preenchidos chegam para ver muito do que interessante este país tem para ver. E aconselho um guia! A história de Malta merece ser ouvida e, quando bem contada, parece uma série de episódios sem fim.

E eu, apesar de ter gostado muito, fiquei feliz por zarpar. Malta foi sem dúvida a paragem mais atribulada desta viagem e eu só queria ir para o próximo destino - a Sicília.

 

CruzeiroAdriatiMedit (551).jpg

Num "miradouro" em La Valleta

CruzeiroAdriatiMedit (559).jpg

CruzeiroAdriatiMedit (628).jpg

O verdadeiro gato maltês - e era gigante!!

CruzeiroAdriatiMedit (631).jpg

O nosso barco atracado - à esquerda podem ver La Valleta, bem alta relativamente à linha do mar

 

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Também estou aqui!

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Leituras

A ler:



goodreads.com


2017 Reading Challenge

Carolina has read 0 books toward her goal of 15 books.
hide

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D

o